domingo, 11 de outubro de 2020

UM VELHO E UMA VELHA

Depois de quase sete meses intermináveis, voltei ao cinema. A justiça poética fez com que o retorno se desse na mesma sala onde assisti ao meu último filme em março, no Belas Artes. E o filme foi exatamente o que eu mais queria ver quando começou a quarentena: "Os Melhores Anos de uma Vida", a terceira parte de "Um Homem e uma Mulher". Quem não viu os anteriores - especialmente o primeiro, um clássico absoluto - não vai se interessar pela história de Jean-Louis Duroc e Anne Gauthier. Ele separado, ela viúva, os dois se apaixonam e vivem um caso tórrido, mesmo com os filhos em volta. Mas ela ainda não está pronta para se casar novamente. Pede seis meses para pensar, e eles acabam se desencontrando. O segundo filme é esquecível, mas este novo é muito bonito. A começar por Anouk Aimée, ainda deslumbrante. Aos 88 anos de idade, ela continua sendo a mulher mais glamurosa do mundo. Já Jean-Louis Trintignant está um caco aos 90, parecendo uma caveira falante. Mas a química entre os dois permanece lá, assim como a trilha sonora de Francis Lai - a mais bela de todos os tempos - devidamente retrabalhada por Calogero. Como eu estou a 10 dias da terceira idade e acabo de completar 30 anos de casado, o filme falou de perto para mim. É uma linda reflexão sobre a passagem do tempo. Também é o antípoda de "Amour", o filme de Michael Heineke que ganhou todos os prêmios e também tinha Trintignant como parte de um casal apaixonado. O amor ali era o da convivência, da cumplicidade inoxidável trazida pelos anos de vida em comum. Já o amor de Lelouch é a paixão avassaladora, o futuro encruado que não aconteceu, o romance ideal porque é impossível. "Os Melhores Anos de uma Vida" não tem muita trama, mas é pleno de sutilezas. Os filhos de Anne e Jean-Louis, agora na terceira idade, são feitos pelos mesmos atores que os encarnaram quando criancinhas no longa de 1966. Nenhum dos dois ficou muito bonito, e a presença deles só ressalta como o casal original era - e ainda é - composto por duas grandes estrelas de cinema. Um velho e uma velha, lindos.

3 comentários:

  1. Não sei se é exagero, mas que pessoa que sabe comentar cinema de forma apaixonante. Só perde para Isabela Boscov. Rsrs

    Assisti ao primeiro nos anos 2000, com a febre dos dvd's, nem me lembrava mais tanto da trama, só do encontro do homem e da mulher (Anouk linda), e as crianças ao redor... meio real e meio sonho ao mesmo tempo, como o bom cinema sempre entrega.

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  2. Aos poucos, tudo vai voltando .. Amém! Aqui no Rio até as boates já vão abrir... Amém!

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    1. Eu vc deixava o Amém para a hora da vacina... rsrsrs

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