domingo, 9 de agosto de 2020

TODO MENINO É UM REI

Pronto. Consegui ver "Black Is King". Um leitor caridoso me mandou um link (está lá nos comentários do post "Oshun Energy"), que funcionou perfeitamente. E eu fiquei boquiaberto. O álbum visual de Beyoncé é de uma beleza sem par. Não é preciso saber o que é afrofuturismo nem catar as muitas referências a divindades africanas para se deslumbrar com as roupas fabulosas e as coreografias elaboradíssimas. Mas é claro que ajuda: "Black Is King" tem uma mensagem política poderosa e, quanto mais referências o espectador tiver, em mais camadas poderá penetrar. É, possivelmente, o artefato pop mais importante de 2020.
Bom, agora que eu vi, posso dar meu pitaco. Acho que, na polêmica toda em torno de "Black Is King - que não se resume apenas à reação ao artigo de Lilia Schwarcz na Folha, nem apenas ao Brasil - tem algo fundamental passando batido. Beyoncé tem três filhos: a mais velha, Blue Ivy, e um casal de gêmeos, Rumi e Sir Carter. Seu filme é dedicado especificamente a este último, o único menino. O roteiro de "Black Is King" é uma variante de "O Rei Leão", por sua vez um derivado de "Hamlet". Nas mãos da Beionça, a história se tornou a jornada de um garoto negro em busca de sua identidade. Veja bem: um garoto. Quando alguém diz que Beyoncé falhou em produzir uma obra antirracista, é preciso lembrar que ela não está tentando convencer nenhum branco a não ser racista. Sua público-alvo preferencial são mães negras como ela, que estão criando meninos. A mulher negra, na sociedade ocidental, é o degrau mais baixo da cadeia alimentar. Apanha de todo mundo, inclusive dos homens negros. Beyoncé está propondo, simplesmente, que esta última relação de força seja eliminada. Que as mães negras criem seus filhos livres do machismo e cientes de sua ancestralidade. Que sejam reis, no sentido de reinarem sobre si mesmos (em nenhum momento ela faz uma defesa da monarquia como forma de governo, como já se disse por aí). Parece ingênuo para os brancos, mas quando um negro é expulso de um shopping só porque é negro, dá para imaginar a barra em que eles vivem 24 horas por dia, sete dias por semana. Ainda bem que negros como os dois Matheus que peitaram o racismo nos últimos dias já são reis. Outros virão.

7 comentários:

  1. "...é preciso lembrar que ela não está tentando convencer nenhum branco a não ser racista."
    Sim, Tony, sim!!!

    E no Brasil isso causa estranheza, com o novo hábito do movimento negro brasileiro de querer catequizar branco. Discordo dessa postura, é necessário antes que nos fortaleçamos como um povo, para evitarmos até mesmo o desejo inconsciente (e muitas vezes consciente) de nos apagarmos fisicamente, para que só então possamos "reinar" como/com os brancos.

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  2. Pois tudo que vejo é uma dona podre de rica, querendo se promover, igual ao que a hoje coroa (Madonna) fazia a alguns anos atrás. Apenas para se promover na mídia. Tudo "business". E tem mais, se fosse a Joelma que andasse com este abajur na cabeça, todo mundo achava brega, mas como é a Beyoncé...

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    1. 23:44 Sinhazinha vá tomar seu barbiturico. Volte à terapia e quem sabe assim aceite os novos tempos.

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  3. Só me resta bater palmas pra diva rainha espetacular talentosíssima Beyoncé, né? Até porque qualquer outra opinião seria ruidosamente intolerada e acusada de racismo.

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  4. Não mesmo. Com tal argumento só restam duas certezas: nunca saberão se você de fato é racista, e com certeza você é frouxo.

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    1. Ou eu não tenho paciência pra ilustres anônimos tão cheios de certezas.

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