domingo, 23 de agosto de 2020

AGRAVADO PELO VÍNCULO

"Crimes de Família" deveria ter estreado nos cinemas argentinos no final de maio, e só chegado à Netflix depois de alguns meses. A pandemia fez o filme queimar etapas, e desde quinta passada ele já está disponível no mundo inteiro. Também se tornou um sucesso planetário, entrando no ranking dos 10 mais vistos da plataforma em países tão diferentes quanto a Romênia e a Arábia Saudita. Aqui no Brasil, onde está em quarto lugar, chegou em ótima hora: justo na semana em que o país voltou a discutir o aborto e a violência contra a mulher. Porque os crimes a que o titulo do longa se refere têm mulheres entre suas vítimas, e são todos cometidos no âmbito familiar. Mas o excelente roteiro, depurado ao longo de vários anos, não tem nada de panfletário. O horror se revela aos poucos, tanto para o espectador quanto para a protagonista Cecilia Roth, em um dos melhores papéis de sua carreira. Ela faz Alicia, uma mulher da classe alta portenha que leva uma vida para lá de confortável em um amplo apartamento na Recoleta. Mas não é uma caricatura da grã-fina insensível: Alicia trata quase como seu o filhinho da empregada Gladys, que dorme no emprego, chegando a pagar o colégio do moleque. Também é a mãe protetora de Daniel, um sujeito que nunca se acertou na vida e agora deu para espancar a ex-mulher, que não quer que ele veja o filho a que não sustenta. Quando Daniel vai preso. Alicia se desespera ao ponto de convencer o marido aposentado a vender o apê, para conseguirem pagar o melhor advogado. Ao mesmo tempo, Gladys também aparece na cadeia, não sabemos se em flashback ou flashforward. O crime que ela cometeu tampouco fica claro: a princípio, só ficamos sabendo que é algo "agravado pelo vínculo", expressão judicial para um delito contra algum familiar. Começam dois julgamentos paralelos, e é claro que eles estão ligados. Mais não posso contar: o impacto é em fogo baixo, mas é forte, e algumas cenas no tribunal deveriam ser obrigatórias para quem defende o "direito à vida". A imprensa argentina já comenta que "Crimes de Família" pode ser o representante do país no próximo Oscar. Pois eu aposto que estará entre os cinco indicados.

7 comentários:

  1. Uau, parar Suburra para assistir, então!!!

    Pq o cinema e as séries argentinas são tão superiores ao brasileiro?!?

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  2. Alicia se desespera para vender o apartamento, não Gladys...

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  3. Já quero ver; adoro o cinema argentino, a Argentina, e os argentinos, obviamente...

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  4. Caríssimo Tony Goes. Acompanho sempre com atenção sua ótima coluna na Folha e não conhecia seu blog ainda. Olha só. Fui funcionário da OIT durante dez anos. A OIT não é uma ONG, é um órgão que trata das questões do mundo do trabalho, vinculado às Nações Unidas. Prometo ver o filme, depois de sua ótima dica. Abraços.
    Severino Goes (é meu nome verdadeiro, sem sacanagem)
    Brasília, DF
    Fone 61 99981 2187

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  5. Não tenho problema com filmes que saem do nada e vão para lugar algum, desde que haja algum dinamismo durante o "enquanto".
    E o filme me soou apenas um remendo confuso.
    Pelo menos conseguiu me levar até o final, porque com a idade que tenho, não tenho medo algum de dropar filmes aos 10 minutos.
    E por mais argentino que o filme seja, a realidade retratada é bem brasileira viu.

    E pra não dizer que só meto pau, o único filme argentino dessa leva mais "recente" que realmente é fora da curva (minha opinião) é Relatos Selvagens. Que eu conheci através de você, antes de virar modinha como Parasita ou os filmes do Oriol Paulo - que é espanhol, não argentino.

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