segunda-feira, 3 de agosto de 2020

PORQUE TE VAS

Juan Carlos nasceu no exílio e passou toda a infância e a juventude fora da Espanha. Agora vai passar o que lhe resta da velhice também. Hoje o rei emérito anunciou que está se picando do país onde reinou por quase 40 anos. Já havia caído em desgraça quando precisou renunciar em 2014, por causa dos muitos escândalos que protagonizou - de uma caçada a elefantes à amante alemã, passando por milhões de dólares que recebeu da Arábia Saudita num caso de suborno relativo à construção de uma ferrovia. É de cair o queixo que um monarca, que já vive em palácios e tem todos os boletos pagos para todo o sempre, ainda ache que é pouco e dê um jeito de se corromper. Acho bem-feito que Juan Carlos termine seus dias na infâmia, com a pecha de fujão e longe dos filhos e netos. Ele se vai para salvar a Coroa, mas já passa da hora da Espanha voltar a ser república.

FALE COM ELA

Ontem eu revi "Orlando", o primeiro grande papel de Tilda Swinton no cinema. É uma atuação minimalista: ela fala pouco, mexe os olhinhos e serve de cabide para um desfile de moda que vai de 1600 até os dias atuais. Mesmo assim, fiquei tão impressionado que dei a Tilda o meu prêmio de melhor atriz de 1993, mal sabendo que ela iria me espantar cada vez mais pelas décadas seguintes. O próximo assombro está quase pronto: é o curta-metragem "A Voz Humana", dirigido por ninguém menos do que Pedro Almodóvar. O monólogo de Jean Cocteau é uma obsessão de longa data do cineasta espanhol, e já foi citado em seu filme "A Lei do Desejo". Agora finalmente veremos a versão completa, no primeiro trabalho de Almodóvar em inglês. Previsto para rodar em abril, o curta teve que ser adiado para julho por causa da pandemia, e pela foto aí do lado dá para ver as medidas de segurança seguidas no set. A estreia está prevista para setembro, no Festival de Veneza - que, por enquanto, promete ser presencial. Também quero ver "A Voz Humana" no cinema. Quem sabe na Mostra de SP, que ainda não foi cancelada?

domingo, 2 de agosto de 2020

ALMAS EM CHAMAS

Ao contrário da Netflix, que eu consigo ver na TV, a Amazon Prime Video só pega no meu computador. Isso me faz perder alguns programas de lá, ou assistir com algum atraso. Foi só esta semana, dois meses depois da estreia, que eu me entreguei a "Little Fires Everywhere", uma das melhores minisséries do ano. No livro de Celeste Ng, a raça de Mia Warren, feita por Kerry Washington, não é citada. Mas o fato dela ser negra na TV acrescenta camadas ao embate entre Mia e Elena Richardson, a personagem da também produtora Reese Witherspoon. A primeira é uma artista nômade, que arrasta a filha única de cidade em cidade, sem nunca passar muito tempo no mesmo lugar. A outra é uma versão extrema da Madeline de "Big Little Lies", também encarnada por Reese: a dona-de-casa perfeita, tensa a mais não poder, que transforma a vida da família num inferno. Dois estilos de vida contrastantes, que entram em rota de colisão quando o racismo estrutural entra na equação. Elena se acha muito liberal, mas é do tipo que faz questão de mencionar sua suposta bacanice a qualquer negro que lhe passe pela frente. Já Mia obrigou a filha a uma vida de desconforto e amigos cambiantes, e só aos poucos vamos entendendo por quê. Muitas cenas são aflitivas. Eu fiquei constrangido comigo mesmo ao me flagrar torcendo pelos brancos, meio que no piloto automático. O roteiro é tão bem escrito que faz com que o espectador entenda as motivações de todo mundo, até dos coadjuvantes. Tem um lado folhetinesco, e um outro bem sério que não foge da discussão sobre a desigualdade. Quando terminou, senti minha própria alma reduzida a cinzas.

sábado, 1 de agosto de 2020

OS MUPPETS DO MAL

Edaír Biroliro é uma piada internacional. Tanto que já é habitué da série "Puppet Regime", do canal GZERO Media no YouTube, que transforma políticos em fantoches. No episódio "Corona Kings", divulgado ontem, ele participa de uma chamada em vídeo com seus cupinchas Donald Trump e Vladimir Putin. O assunto, claro, é saber quem tem o país com mais casos de covid-19. Os diálogos são absurdos, mas só um detalhe é inverossímil: o inglês escorreito do Bozo.