segunda-feira, 31 de agosto de 2020

NÓS VAMOS DESMENTIR SUA PRAIA

Já reparou? A extrema-direita adora acusar seus adversários de coisas que ela mesma faz. Pastores teocráticos cansaram de postar fotos antigas de manifestações dizendo que era passeata conra is direitos LGBT ou coisa que o valha. Hoje, o Guilherme Fiuza - cujo claim to fame foi ter namorado a Narcisa Tamborindeguy - levantou a dúvida de que a foto da praia lotada publicada pelo Estadão não havia sido tirada ontem, ou que era manipulada. Fiuza meio que assumiu o erro depois que exames mais atentos mostraram que havia gente de máscara na imagem, mas a essa altura seus seguidores não queriam mais aber da verdade. Já Donald Trump nem se dá ao trabalho de fingir arrependimento. O Bebê Laranja jogou no Biden a culpa pela morte de um de seus apoiadores, quando todo mundo sabe que é ele o principal incitador da violência nos Estados Unidos. Ainda teve o desplante de defender o moleque de 17 anos que saiu armado com uma metralhadora e matou dois manifestantes em Kenosha na semana passada. Chegamos ao ponto em que não há agência de checagem, prova cabal nem cano fumegante que convença os fanáticos. Cada vez mais, eles só acreditam em seus próprios delírios.

O NOVO LEGAL

A entrega do VMA, na noite deste domingo, foi a primeira grande premiação do showbiz americano a acontecer durante a pandemia. Eu estava com medo de que a cerimônia fosse chata feito uma reunião corporativa pelo Zoom, com uma sucessão de artistas cantando no quintal de suas casas e discursando dentro de um mosaico de quadradinhos. Mas o que rolou foi um programa dinâmico, com ótimas performances ao vivo espalhadas por diversas locações simultâneas e um uso exemplar da tecnologia. O público fez falta? Mais ou menos. Eu não faço a menor questão de ver aqueles astros entediados bocejando na plateia, enquanto uma claque paga se esgoela dentro do fosso junto ao palco. O troféu de Vídeo do Ano foi para The Weeknd, mas a rainha da noite foi mesmo Lady Gaga.  Parecia que ela entrava em cena de cinco em cinco em minutos para receber algum prêmio, e seu número - na verdade, um medley de "Enigma", "911", "Rain On Me" e "Stupid Love" - lavou a alma das guei que ainda estavam chateadas por causa do "Joanne" (eueueueueu). Como sempre, não faltaram mensagens políticas, da solidariedade às vítimas do racismo ao simples uso de máscaras. Mensagem-bônus: mesmo em tempos de novo normal, ainda é possível fazer algo legal.

domingo, 30 de agosto de 2020

TODA MENINA DIANA

Há exatos 23 anos, meu marido e eu estávamos em casa vendo CNN en Español, sabe-se lá por quê, quando surgiu a notícia de um acidente de carro em Paris. "Diana está grave" disse a repórter. Era um sábado à noite e eu queria ir ao cinema. Meu cônje, já dando sinais de ancianidade precoce, preferiu ficar em casa. Fui assistir sozinho "Para Roseanna", um filme do qual eu já teria esquecido há muito tempo, não fosse por aquela noite. Quando voltei para casa, o inimaginável havia acontecido: a princesa Diana, a mulher mais famosa da minha geração, havia morrido por causa do acidente. Não só ela, como também seu namorado Dodi al-Fayed e o segurança do casal. O motorista, milagrosamente, havia escapado. Diana era menos de um ano mais jovem do que eu, e sua morte foi O acontecimento de 1997 - ofuscou até mesmo o assassinato de Gianni Versace, ocorrido dois meses antes (e ela foi ao funeral do estilista). Menos de duas semanas depois, lá estava eu em Paris, mandado pela agência de propaganda onde eu trabalhava para criar uma campanha internacional de xampu. Meu primeiro dia era livre e toquei para o túnel de Alma, onde o carro de Diana havia se espatifado contra uma parede, fugindo de paparazzi em motocicletas. A entrada estava proibida para veículos e pedestres, mas eu me fiz de turista imbecil e entrei como se nada. Tirei muitas fotos do que parecia uma enorme sepultura vazia, com marcas na parede e flores pelo chão. Na saída, um gendarme tentou me chamar a atenção, mas novamente eu me fiz de idiota.

Lady Diana Spencer foi o maior terremoto jamais sofrido pela Casa de Windsor. Seus pais se divorciaram cedo e sua mãe casou de novo e foi morar na Argentina. Quando Di (um apelido inventado pela imprensa) começou a namorar o príncipe Charles, 13 anos mais velho, não teve ninguém que chegasse nela e explicasse: "você vai ser contratada por uma empresa. Ou melhor, vai entrar para uma espécie de máfia. Tudo isso é um grande teatro: Charles namora há anos uma mulher casada, e vai continuar namorando. Você só foi escolhida porque é bonitinha, nobre e, principalmente, virgem - uma raridade entre as meninas da sua idade. Então aguente firme. Tenha os filhos dele e garanta o herdeiro do trono. Ignore a Camilla e arranje você também um amante. Mas seja discreta: este é o preço que você tem que pagar para nunca mais ver um boleto na vida". 

Diana acreditou mesmo que estava vivendo um conto de fadas. Quando descobriu que não era nada disso, botou pra quebrar. Não arranjou um amante, mas vários - e não fez o menor segredo disso. Ninguém jamais irá me convencer de que o príncipe Harry não é filho de James Hewitt, com quem ele se parece até na orelha. Tudo isso fez com circulasse a teoria de que a princesa teria sido assassinada, até porque estava prestes a se casar com um muçulmano. Nisto eu já não acredito. O fato é que Diana continua sendo uma figura icônica, e sua próxima encarnação nas telas será através da divina Elizabeth Debicki, na quinta e sexta temporadas de "The Crown". Mas o filme que eu estou mesmo na pilha der ver é outro. Certa noite, louca para dar uma saidinha sem ser incomodada pelos fotógrafos, Diana foi convencida por Freddie Mercury, seu amigo e vizinho do bairro de Kensington,  a se disfarçar com uma peruca e ir com ele a uma boate gay. Isto, sim, é uma bohemian rhapsody.

sábado, 29 de agosto de 2020

ARTE É O QUE EU DIGO O QUE É

A secura cinematográfica que vivemos no momento faz com que qualquer filme marromeno que chegue ao sob demanda seja recebido com festa. É o caso de "Tudo pela Arte", que ainda vem com uma irresistível pátina de glamour: trama ambientada no mundo das artes, locações no lago de Como e um elenco que inclui apenas minha atriz jovem favorita, Elizabeth Debicki. Sem falar em Sir Mick Jagger, no papel de um colecionador com jeião de bicha velha. Mas o roteiro tem um rombo no desfecho que compromete o resultado. Obviamente, não posso contar o que é. Só digo que o crítico vivido pelo dinamarquês Claes Bang - que ficou conhecido por causa de outro filme sobre arte, "The Square" - recebe a missão de entrevistar um pintor recluso (Donald Sutherland) e arrancar dele uma última obra-prima para seu mecenas, o papel do rolling stone. É uma pena, porque "A Heresia Laranja Queimado" (o título original) levanta uma questão eterna, impossível de responder de uma vez por todas: afinal, o que é arte? E o que não é? Uma falsificação belíssima não deveria valer mais do que um original feioso? Por que nos deixamos tapear com relativa facilidade? A conclusão é que arte é aquilo que nós queiramos que seja. Este filme quase é.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

LGBTV NO AR

Sou o mais novo colaborador do Põe na Roda. A partir de hoje e uma vez por mês, estarei no "Deu na Semana", que o Pedro HMC lança toda sexta. É o quadro "LGBTV", onde eu vou dar dicas de filmes e séries de temática gay e afins. Nem sempre serão novidades: no programa de estreia (a partir de 8'15"), eu preferi destacar coias que estão por aí faz tempo e o povo ainda não deu a devida atenção. De resto, já sei: estou ficando a cara do Paulie da "Família Soprano".

GUERRA DE FACÇÕES ASSOLA O RJ

É impressionante o track record dos fluminenses. Se um cocô gigante se candidatar a governador do estado do Rio de Janeiro, o cocô gigante será eleito governador do estado do Rio de Janeiro. Porque meus conterrâneos sempre escolhem o pior nome possível: Garotinho, Rosinha, Sérgio Cabral, Pezão, Wilson Witzel. Depois de sua vitória surpreendente em 2018, o Whitney achou que tinha cacife para ser o próximo presidente da República, e atiçou a ira da familícia Biroliro. O resultado está aí: é o terceiro governador consecutivo a ser afastado do cargo. WiWi não tem a menor pinta de ser inocente, mas chama a atenção o fato dele não ter sido ouvido antes. O que está acontecendo nas altas esferas do poder estadual reflete o que se passa no asfalto: é uma briga entre facções criminosas, em que todos são bandidos e a vítima é a população. Que insiste, no entanto, em votar sempre no pior candidato possível. No Rio, é o esquema quem decide quem irá operá-lo. Por isto, não duvido o que Crivella se eleja governador em 2022.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

BACURAU NO MAPA

Hoje saíram as indicações para o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro... de 2019. Sim, estamos no fim de agosto, e a cerimônia de entrega acontece em outubro. O ano vai estar terminando quando formos celebrar os nossos melhores filmes do ano passado. Eu sinceramente não sei o que se passa com a Academia Brasileira de Cinema. Que tanto eles têm que fazer, que não conseguem soltar a porra dessas indicações em janeiro ou fevereiro, quando alguns dos filmes ainda estão em cartaz e todo mundo pode faturar um troco? Porque prêmio da indústria cinematográfica serve para isso: para alavancar as vendas de ingressos, DVD, TV paga, streaming. Menos no Brasil, onde é pecado ganhar dinheiro. Bonito mesmo é ganhar prêmio - como nos anos anteriores, o Grande Prêmio vem com trocentas categorias. Além de melhor filme, também tem melhor filme de comédia, melhor filme infantil, melhor filme de diretor iniciante e por aí vai. Parece o show de talentos no orfanato de crianças especiais, onde todo mundo ganha alguma coisa. Mas este ano acho que já temos um grande vencedor: "Bacurau", que vem com 15 indicações, contra 14 de "A Vida Invisível". O filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles estreou no começo de 2020 nos EUA, e ofi saudado por muitos críticos como um dos melhores do ano. Será que, por causa da pandemia, a gente não poderia dar um jeito de inscrevê-lo no próximo Oscar?

HOJE É DIA DE LIVE, BEBÊ

E tome live: hoje à noite, a partir das 19 horas, estarei conversando ao vivo com a publicitária Kallinca, no perfil dela no Instagram. Kallinca criou o projeto "Uma Live por Dia", e todo santo dia ela convida alguém, das áreas mais diversas, para discorrer sobre sua vida e carreira. Nesta quinta-feira, chegou a minha vez.  Não sei se sobrou alguma novidade para quem já me acompanha aqui no blog, mas espero você lá.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

POSTO EM CHAMAS

Está fortíssimo o cheiro da fritura de Paulo Guedes. O ex-posto Ipiranga do desgoverno Biroliro arde em óleo quente, e pode ir pelos ares a qualquer momento. Vai ser bem-feito. Em pouco mais de um ano e meio, o ministro da Economia se revelou uma caricatura do capitalista insensível. Aquele que tira a cadeira de rodas da viúva que atrasou a prestação. Seu plano para criar o Renda Brasil era tão desalmado que até o Bozo percebeu que sairia prejudicado. O mais legal é que Guedes tem 71 anos e um ego do tamanho da desigualdade brasileira. Se sair da Esplanada, não terá tempo nem habilidade para refazer a própria reputação. Só lamento que não queimem junto todos os farialimers que o apoiaram, dando aval à eleição do pior presidente ever.

VIVER COMO RAIZ DE UMA FLORDELIS

Alguém tinha dúvida de que a Flordelis era a mandante da morte do marido? Alguém chegou a cogitar, desde que o caso eclodiu em junho do ano passado, que Anderson do Carmo teria sido mesmo vítima de um latrocínio? A cereja do bolo dessa história escabrosa é o fato da missionária e deputada não poder ir em cana, por causa da porra da imunidade parlamentar. Que, num Brasil ideal, deveria proteger apenas a liberdade de expressão, não a liberdade de matar o próprio cônjuge. Mas o Brasil real é esse aí: cheio de religiosos salafrários, e não só entre os evangélicos. Flordelis está compartilhando as manchetes com o padre Robson de Goiás, que foi chantageado pelo próprio namorado... Esses casos recorrentes são uma das razões pelas quais eu tenho o pé atrás com religião organizada, qualquer que seja ela. Prefiro rezar sozinho para o Flying Spaghetti Monster.

(Falo mais sobre Flordelis na minha coluna desta quarta no F5)

terça-feira, 25 de agosto de 2020

O URSO SEM GÊNERO

O Festival de Berlim anunciou ontem que irá adotar o que algumas mostras menos badaladas já vêm fazendo há algum tempo: dar apenas um prêmio de ator principal e um de coadjuvante, sem divisão por gêneros. De fato, não faz muito sentido dividir a atuação entre homens e mulheres: todas as outras categorias das premiações cinematográficas, do roteiro à montagem, são unissex. Mas quem disse que o cinema precisa fazer sentido? Cinema é luz, é raio, estrela e luar. É magia, glamour e enganação. A entrega do Oscar vai perder metade da graça se não tivermos certeza que deusas da tela subirão ao palco em vestidos deslumbrantes para aceitar suas estatuetas. OK, eu acabei de soar como essas bichas velhas que adoram concursos de miss. Mas imagina a gritaria quando a Berlinale premiar só atores homens pelo quinto ano seguido?

ALARANJADO DESBOTANDO

Os Estados Unidos, a mais antiga democracia do planeta, mantêm um arcaísmo em sua constituição que, volta e meia, dá em merda: o famigerado colégio eleitoral. O partido Democrata venceu o voto popular em seis das sete últimas eleições presidenciais - de 1992 a 2016 - mas só levou a Casa Branca em quatro delas. Por duas vezes, os republicanos ganharam no Colégio Eleitoral, levando aos desastrosos governos de George W. Bush e Donald Trump. Quem sabe agora, quando os democratas são os favoritos para conquistar a maioria nas duas casas do Congresso, essa velharia não é varrida para o lixo? Duvido, porque os americanos gostam de acreditar que sua constituição é perfeita. Apesar das muitas emendas, ela ainda é a única que o país jamais teve. Se o sistema político de lá tem esse grave defeito, por outro lado tem uma tradição invejável. A lei determina que cada presidente só possa ser reeleito uma vez consecutiva, para impedir a eternização de caudilhos no poder. Esta norma foi copiada por muitos países, inclusive o Brasil. Mas os EUA ainda têm uma regra não-escrita que também merecia ser imitada: depois de deixar a Casa Branca, um ex-presidente nunca mais se candidata a nada. Nem a senador, governador, deputado ou síndico do prédio: na-da. Sim, ele mantém bastante prestígio e influência, e seu aval costuma ser importante para os novos candidatos - como Clinton e Obama estão fazendo agora com Biden. Mas a atuação dessas figuras costuma ser discretíssima, e ninguém jamais cogita que eles concorram de novo a qualquer posto eletivo. Isto abre caminho para novas lideranças e evita o personalismo excessivo. Já pensou, que paz reinaria no Brasil se Lula, Sarney e Collor já tivessem largado o osso? Só FHC seguiu este belo exemplo. Esta tradição me fez sorrir ontem à noite, enquanto eu assistia aos tenebrosos discursos da convenção republicana. A provável derrota de Trump em novembro fará com que ele praticamente desapareça da política! O Bebê Laranja talvez lance um dos filhos patetas para algum cargo, e/ou talvez volte a apresentar programas trash na TV. Mas nunca mais terá poder político para valer. Não é um pensamento delicioso?

ATUALZAÇÃO; Uma amiga minha questionou se a Atenas do século 5 a.C. não seria a mais antiga democracia do planeta. Sim: em termos históricos, sim, e o próprio termo "democracia" nasceu na Grécia. Talvez tenha faltado eu acrescentar que os EUA são a mais aniga democracia EM FUNCIONAMENTO.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

A LIVE DE SÃO CAETANO

O André Briesi, meu ex-colega de "Vídeo Show", me convidou para dar com ele um curso de introdução ao roteiro. Vai ser lá na cidade dele, São Caetano do Sul, aqui colada em SP, e deve começar no dia 19 de setembro. Durante quatro tardes de sábado, daremos as noções básicas para quem teve uma ideia incrível e não sabe como por no papel. Hoje à noite faremos uma live no Instagram com maiores detalhes. Esperamos pelos interessados às 20 horas, no perfil @abriesi.

PRESIDENTE, POR QUE SUA ESPOSA ETC.

Durou pouco mais de dois meses. A fase paz-e-amor de Edaír Biroliro terminou com estrondo neste domingo, quando o Despreparado perdeu as estribeiras e falou que queria encher de porrada a boca de um jornalista. As redes sociais reagiram à altura: deixaram a imprensa se indignar com a ameaça de violência física, e focaram na pergunta que não quer calar. Os robôs do Carluxo não conseguiram ofuscar o assunto. Milhões de internautas tuitaram e retuitaram infinitas variações do questionamento que irritou o Bozo. Eu mesmo criei alguns:

Recebeu de Fabrício Queiroz 89 mil reais esposa sua Michelle por que?
 
Por que sua esposa Michelle recebeu 29.667 vezes 3 reais de Fabrício Queiroz?
 
Président Bachi-Bouzouk, pourquoi tonerre de Brest votre femme Michelle a reçu 89 millards de mille sabords de Fabrício Queiroz?
 
Kirekhdirgi orak yeri chiorikem Michelle hasblast R$ 89,000 ha Fabrício Queiroz?
  

ทำไมมิเชลภรรยาของคุณถึงได้รับเงิน 89,000 รูปีจากFabrício Queiroz
 
 
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Por quê?
 
E o que mais hitou:

Plesidente, polque sua esposa Michelle lecebeu 89 mil leais do Fablício Queiloz?

domingo, 23 de agosto de 2020

AGRAVADO PELO VÍNCULO

"Crimes de Família" deveria ter estreado nos cinemas argentinos no final de maio, e só chegado à Netflix depois de alguns meses. A pandemia fez o filme queimar etapas, e desde quinta passada ele já está disponível no mundo inteiro. Também se tornou um sucesso planetário, entrando no ranking dos 10 mais vistos da plataforma em países tão diferentes quanto a Romênia e a Arábia Saudita. Aqui no Brasil, onde está em quarto lugar, chegou em ótima hora: justo na semana em que o país voltou a discutir o aborto e a violência contra a mulher. Porque os crimes a que o titulo do longa se refere têm mulheres entre suas vítimas, e são todos cometidos no âmbito familiar. Mas o excelente roteiro, depurado ao longo de vários anos, não tem nada de panfletário. O horror se revela aos poucos, tanto para o espectador quanto para a protagonista Cecilia Roth, em um dos melhores papéis de sua carreira. Ela faz Alicia, uma mulher da classe alta portenha que leva uma vida para lá de confortável em um amplo apartamento na Recoleta. Mas não é uma caricatura da grã-fina insensível: Alicia trata quase como seu o filhinho da empregada Gladys, que dorme no emprego, chegando a pagar o colégio do moleque. Também é a mãe protetora de Daniel, um sujeito que nunca se acertou na vida e agora deu para espancar a ex-mulher, que não quer que ele veja o filho a que não sustenta. Quando Daniel vai preso. Alicia se desespera ao ponto de convencer o marido aposentado a vender o apê, para conseguirem pagar o melhor advogado. Ao mesmo tempo, Gladys também aparece na cadeia, não sabemos se em flashback ou flashforward. O crime que ela cometeu tampouco fica claro: a princípio, só ficamos sabendo que é algo "agravado pelo vínculo", expressão judicial para um delito contra algum familiar. Começam dois julgamentos paralelos, e é claro que eles estão ligados. Mais não posso contar: o impacto é em fogo baixo, mas é forte, e algumas cenas no tribunal deveriam ser obrigatórias para quem defende o "direito à vida". A imprensa argentina já comenta que "Crimes de Família" pode ser o representante do país no próximo Oscar. Pois eu aposto que estará entre os cinco indicados.

sábado, 22 de agosto de 2020

COMO JOVEM SOFRE

Oh! Que saudades que eu tenho da aurora da minha vida. Mentira, tenho não. Tá certo que eu era lindo feito um anjo caído do céu, mas também era bobo de dar dó. Sofria por amores impossíveis e perdia um tempo imenso com bobagens. O fato é que meu começo de vida adulta não foi dos mais felizes; talvez o de ninguém seja. O dos personagens de "Música para Morrer de Amor" certamente não é. O segundo longa de Rafael Gomes é baseado em sua peça "Música para Cortar os Pulsos", que ficou anos em cartaz e eu tive a manha de perder. Assim como o primeiro filme do diretor, "45 Dias Sem Você", este também fala de cabeçadas amorosas, como se ninguém tivesse outro problema no mundo - e nessa idade, nessa classe social, ninguém tem mesmo. Passei um pouco da idade para me entregar às situações apresentadas, mas minha sobrinha de 24 anos amou de paixão. Até porque ela é amiga de infância do Caio Horowicz, o ator revelação do momento, que de repente está em todas e também é o melhor do trio de protagonistas. Não sou o público-alvo de "Música para Morrer de Amor", mas queria ter sido. Fez falta nos meus vinte e poucos anos um filme com gente tão resolvida com sua sexualidade.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

UMA AVENTURA CONGELANTE

Desde 2013 que não nevava tanto no Brasil. "Nevava" é força de expressão: os bravos turistas que mandaram a quarentena às favas e lotaram os hotéis da serra catarinense foram brindados com pouco mais do que aquele gelo raspadinho que se forma nos freezers. Isto não eviou que criaturas brancas invadissem as redes. Até a página Bonecos de Neve Brasileiros ressuscitou depois um longo e tenebroso verão. Só que a maioria dessas imagens é velha. Não nevou o bastante nem para fazer o primo aleijado do Olaf. O jeito é se virar.

SEGUNDA GUERRA DE SEGUNDA

"Greyhound" foi salvo pela pandemia. Tivesse estreado nos cinemas, o novo filme de Tom Hanks seria visto como realmente é: um épico de segunda categoria, rico em ambição porém pobre em recursos. Mas a quarentena fez com que o longa fosse direto para a plataforma Apple TV +, onde ela chegou com ares de superprodução digna do Oscar. Só que não. Apesar do tema bem ao gosto da Academia - um comboio de navios aliados é atacado por submarinos alemães no Atlântico Norte, durante a Segunda Guerra Mundial - "Greyhound" tem um roteiro linear (escrito pelo próprio Hanks), batalhas navais visivelmente construídas em computador e uma atuação quase genérica de seu ator principal. Mas, na secura que vivemos atualmente, a chegada de um filme desses é quase maná caído do céu. Não aguento mais ver comédias francesas sobre mulheres de férias, nem documentários que buscam me revoltar quando eu preciso de consolo. "Greyhound" é um belo strogonoff, mas de carne de segunda.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

CABO ELEITORAL

Eu disse algumas vezes aqui no blog que uma das razões para o Jean Wyllys sofrer tamanha rejeição, inclusive entre os gays, é o fato dele não ser nenhum Adônis. Agora está rolando um episódio que parece provar minha teoria, só que pela contramão. O advogado Pedro Melo, pré-candidato a vereador de São Paulo pelo partido Cidadania, teve alguns nudes antigos, enviados em 2016, viralizando esta semana em diversos grupos no WhasApp - inclusive um fervidíssimo, de bibas cariocas, do qual eu participo. E olha, vou te contar: que saúde, viu? Que imenso cabo eleitoral. Tanto que as guei já estão todas assanhadas para votar nele, sem conhecer plataforma nem propostas. O cabo já basta. O sósia do Rodrigo Santoro vem dando entrevistas graças à súbita notoriedade, mostrando-se docemente constrangido. O que suscita uma dúvida legítima: será que não foi ele mesmo quem pôs de novo essas fotos para circular?

(E não, não vou compartilhar foto nenhuma, nem por DM. É crime. Quem viu, viu)

BANNON DE PICARETAS

Mais um sinal de que a maré está virando: prenderam o Steve Bannon. Ó, céus, quem poderia imaginar que o grande estrategista da extrema-direita,  inventor de táticas de difamação e polarização, não fosse uma pessoa proba? Bannon foi pego desviando fundos de uma campanha de arrecadação para a construção do muro na fronteira dos EUA com o México, uma das muitas promessas não cumpridas de Donald Trump. Ele já não é conselheiro do Bebê Laranja faz algum tempo, mas se aproximou de Olavo de Carvalho e da familícia Biroliro. Vai ser divertido ver seus novos comparsas dizerem que mal o conhecem, como se eles também fossem probos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

FAMÍLIA UBERIZADA

Virei uberizado. Há três anos que eu não tenho mais carteira assinada. Trabalho emitindo notas fiscais, e é claro que a minha renda varia de um mês para o outro. Mas sou dono do meu nariz! Faço meu próprio horário! Sou empreendedor de mim mesmo! Essa cascata também é usada para convencer o protagonista de "Você Não Estava Aqui" a trabalhar como motorista de uma empresa de entregas sem ter o menor vínculo empregatício. O diretor britânico Ken Loach pega na veia dessa moderna praga do Egito, a gig economy, e entrega um filme melhor do que o baixo-astral "Eu, Daniel Blake", vencedor do festival de Cannes de 2017. Não que a trama seja alegre. A precarização do trabalho faz com que um casal de classe média baixa tenha um único dia de folga por semana, roubando o tempo que eles deveriam passar com os filhos adolescentes. Resultado: o mais velho decide abandonar a escola e virar grafiteiro, e acaba se metendo em confusão. Perdi o longa quando esteve em cartaz logo antes da pandemia, mas agora ele chegou ao Telecine. Recomendo a quem quiser ver grandes atores e um roteiro seco, nada piegas, mas que emociona e faz pensar. Só não espere se desligar dos seus problemas.

MEU PRIMEIRO TERRAPLANISTA

Minhas postagens sobre a interrupção da gravidez da menina de 10 anos foram um sucesso de público. Tanto aqui no blog como nas minhas redes sociais, elas receberam centenas de likes, compartilhamentos e comentários positivos. Mas não houve unanimidade: um único sujeito insistia em publicar vídeos contrários ao aborto, mesmo depois de eu apagá-los. Trata-se de um cara que eu conheço há anos, e que trabalhou muito tempo como comissário de bordo de uma das maiores companhias aéreas do mundo. Nessa função, ele teve a oportunidade de viajar por inúmeros fusos horários, e deve até ter visto a curvatura da Terra com seus próprios olhos. Nada disso impediu que hoje esse babaca seja um ardente terraplanista - além de antifeminista, antiabortista e anti qualquer coisa que cheire a ciência e modernidade. A princípio eu apenas desfiz a amizade, sem bloqueá-lo. Mas hoje ele foi ao Messenger reclamar que eu "preferia apagar a verdade" nos meus posts. Respondi que o que eu prefiro apagar é gente burra, e seguiu-se uma discussão ríspida  breve. Não sou eu que vou convencê-lo a voltar para a luz. Não tenho preparo para isso, nem paciência. Bloqueei o idiota sem dó. E antes que alguém venha dizer que os terraplanistas são fofinhos e não fazem mal a ninguém, uma constatação: o terraplanismo nunca vem sozinho. Seus aderentes também são contra as vacinas, os direitos das minorias e por aí vai. Não vou dar espaço para essa corja cuspir estupidez. Que eles cuspam um nos outros.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

UM DIA A CASA CAI

João de Deus está na moda, pelo menos aqui em casa. Depois de devorar a minissérie "Em Nome de Deus", eu caí de boca no livro "A Casa", do Chico Felitti. Talvez não tenha sido boa ideia: faz mais de um mês que eu me sinto preso em Abadiânia, cercado por violência e sofrimento. Não exatamente o escapismo que eu estava precisando. Mas série e livro se complementam: enquanto que na TV o foco caiu nos crimes sexuais do falso médium, Felitti revira não só a vida dele como a de seus auxiliares mais próximos e da própria cidade. Minha reação às páginas é menos visceral, porque não se vê gente chorando, mas não menos indignada. O Brasil é o único país do mundo onde o espiritismo ainda é uma crença importante, e nem preciso lembrar do nosso atraso social. Essas condições propiciaram o surgimento de um monstro como João, que passou décadas sendo paparicado até alguém ter a coragem de denunciá-lo. Um dia a casa brasileira também cai.

QUANDO O CARTEIRO CHEGOU

Trump vai tentar melar as eleições de novembro de todas as maneiras possíveis. Ele até já ventilou adiar o pleito, algo que jamais aconteceu na história americana - nem a Guerra Civil, nem duas guerras mundiais, nada jamais fez com que os EUA não escolhessem seu presidente na data prevista. Como esse plano A não vingou, o B e o C já estão em andamento. A tentativa de desqualificar Kamala Harris não deve ir longe. Um artigo publicado na revista "Newsweek", hoje dirigida por trumpistas ligados a uma seita coreana com problemas na Justiça, arguiu que a senadora não pode se candidatar à vice-presidência, porque seus pais - um jamaicano e uma indiana - ainda não eram naturalizados americanos quando ela nasceu. Bullshit da grossa. A Constituição americana é claríssima: quem nasce em solo americano, americano é, não importa de onde tenham vindo seus pais. Não é por outra razão que muitas grávidas brasileiras e chinesas correm para os EUA quando se aproxima o momento de dar à luz. A imprensa de lá já está fazendo um carnaval em cima dessa teoria estapafúrdia, e só quem já iria votar no Bebê Laranja de qualquer jeito é que deve acreditar nela. Bem mais perigosa é a estratégia de minar o voto pelo correio, uma prática com mais de 150 anos. Há meses que o Trump vem dizendo que esse voto é facilmente fraudado (não é), assim como o Bozo sempre atacou as nossas urnas eletrônicas. Agora ele está tentando destruir os Correios por dentro. Botou seus asseclas para cuidar da estatal, e eles estão fechando agências, reduzindo o número de horas de trabalho e colocando toda sorte de empecilho para complicar o voto postal. Nancy Pelosi já percebeu a jogada, e convocou o Congresso a entrar em ação. Muitos estados também estão reagindo. E eu aposto que vem coisa pior por aí: Trump é capaz de invadir um país qualquer em outubro, só para ver se sua popularidade sobe, e/ou armar uma batalha legal depois que saírem os resultados. Não tenha dúvida: em janeiro de 2021, o Bebê Laranja vai ser arrancado esperneando da Casa Branca.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

A EXTREMA-DIREITA APOIA A PEDOFILIA

O machismo estrutural é o epicentro da opressão e da desigualdade social. É mais forte do que o racismo, porque atinge mulheres de todas as etnias - e as mulheres são mais da metade da população mundial. É a nave-mãe da homofobia, que na verdade é um efeito colateral da supremacia que o sexo masculino busca impor ao feminino. O machismo estrutural permeia todas as nossas relações, a nossa cultura, a nossa vida. Ele permite que a gente ache normal que um comercial de carro ou um programa de auditório use bailarinas seminuas para chamar a atenção do espectador. Também é ele que facilita, de maneira muito mais perversa, que a pedofilia se entranhe em milhões de lares, destruindo crianças e conseguindo que poucos se atrevam a quebrar a muralha do silêncio. Esses pedófilos não se encaixam no clichê: não são figuras atormentadas que consomem pornografia infantil online. São, em sua imensa maioria, membros das próprias famílias das vítimas. São pais, tios, primos, padrastos, avôs. Todos supostos homens de bem.

A pedofilia virou um alvo para a nova extrema-direita. Um alvo fácil, aliás: quem é que vai se declarar a favor de que menores de idade sejam abusados sexualmente? Além do mais, a luta contra os pedófilos é uma bandeira muito mais palatável do que as verdadeiras causas desses reacionários: a eternização dos privilégios do patriarcado branco como um direito divino (não é à toa que eles soltam um "Deus vult" a torto e a direito) e o desempoderamento de qualquer minoria (no sentido político, não no numérico). É por isto que, dos malucos que acreditam na teoria Q-Anon ao Zero-Três e seus robôs, todos não só se proclamam paladinos anti-pedofilia, como acusam deste crime hediondo qualquer um que percebam como inimigo: Hillary Clinton, Jean Wyllys, Felipe Neto...

Só que quem apoia a pedofilia são eles. Porque eles defendem o machismo estrutural. A dominação da mulher pelo homem, em todas as esferas da sociedade. É o machismo estrutural que cria as condições para que a mulher seja reduzida a uma mera propriedade do homem. Para que ele possa fazer com ela o que quiser, sob quaisquer condições. Para que um sujeito de 33 anos estupre a sobrinha pequena durante quatro anos, sem que ninguém faça nada. 

Neste domingo ficou claríssimo o apoio velado que a extrema-direita dá à pedofilia. A máscara começou a cair quando o Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes, de Vitória, se recusou a realizar o aborto legal na menina grávida de 10 anos, devidamente autorizado pela Justiça. Aposto que foi alguém do Hucam que avisou Sara Winter que a garota estava sendo transferida para Recife. A ex-Femen, em campanha permanente para deputada, correu às redes sociais para revelar o nome da menor, o que é crime. Também contou o nome do hospital, suscitando uma manifestação de celerados na porta do estabelecimento. Uma corja que se diz cristã, mas que é capaz de xingar de assassina uma garota órfã que foi violentada dos seis aos 10 anos de idade, só porque ela não quer levar a cabo uma gravidez para a qual nem seu corpo, nem sua mente estão preparados. A cena mais repugnante de um ano pródigo delas. Até o momento.

O lado bom desse episódio horrendo foi a reação que ele provocou. Primeiro nas redes sociais: a revolta contra esses desalmados explodiu nas timelines, superando com folga os radicais contra o aborto. Um sem número de jornalistas, intelectuais, artistas, influenciadores e pessoas comuns abriram o berreiro. Depois, na própria porta do hospital, para onde feministas pró-escolha correram para mostrar que a menina não está sozinha. Hoje, Felipe Neto e Whindersson Nunes já declararam que irão apoiá-la financeira e psicologicamente. 

O aborto foi feito. O tio da menina continua foragido. Torço para que ele seja preso em breve, mas isto nem é o mais importante. Porque este caso está longe de ser isolado. Em todo o Brasil, centenas de milhares de crianças são abusadas diariamente por homens de seu entorno familiar. Homens que, infelizmente, contam o apoio tácito de muitas mulheres, ou mesmo declarado. Algumas têm medo de denunciar. Outras se veem como favorecidas pelo machismo estrutural, sem perceber que também são vítimas dele - e algozes de outras mulheres.

Que esta convulsão toda não se dissipe por aqui. Ficou claríssimo que a extrema-direita, ao dar sustento ao machismo estrutural, também viabiliza a pedofilia. Trocando em miúdos: a extrema-direita apoia a pedofilia. Não podemos esquecer disto quando eles começarem mais uma campanha de difamação. Temos que responder à altura, de maneira limpa, mas com contundência, clareza e coragem. Chega de condenar crianças ao inferno da escravidão sexual. Chega de perdermos tempo brigando entre nós. Temos um inimigo comum, e neste domingo ele mostrou seu ponto fraco. Agora cabe a nós atingi-lo em cheio.

domingo, 16 de agosto de 2020

ABENÇOADA MADONNA


Como toda biba que se preze, minha trilha sonora deste fim de semana foi "Levitating (The Blessed Madonna Remix)" da Dua Lipa feat. Madonna & Missy Elliott. E, como todo mundo, eu também achei que o nome do remix era uma homenagem à aniversariante do dia, mas não. The Blessed Madonna é uma DJ que já se chamou The Black Madonna e até tocou no Rock in Rio. Se tem Madonna demais no título, tem pouca na música - mal dá para reconhecer sua voz na segunda estrofe - e nenhuma no vídeo. Como assim?? Tem sapatão, tem belezas fora do padrãozinho, tem bala, tem Missy, mas não tem Madge. Será que ela já estava na Jamaica comemorando seus 62 anos? Ou é mais um caso de etarismo? Cadê os gêmeos Williams, para ouvirem "Vogue" pela primeira vez?

sábado, 15 de agosto de 2020

I'VE BEEN WAITING FOR THIS MOMENT

...for all of my life. O momento em que as novas gerações se curvariam diante da minha, que desfrutou da melhor música pop de todos os tempos. Nós ouvíamos Queen, Donna Summer, Culture Club, Kate Bush, Duran Duran, Grace Jones - todos eles deixam no chinelo a maioria dos Biebers e Mileys dos dias de hoje. O tão aguardado momento histórico aconteceu no dia 27 de julho, quando os gêmeos Tim e Fred Williams divulgaram o vídeo em que aparecem ouvindo "In The Air Tonight", do Phil Collins, supostamente pela primeira vez (o que eu duvido um pouco, mas vá lá). O vídeo viralizou e a música voltou às paradas, conquistando milhões de novos fãs. Estou me regozijando, ainda que na época eu achasse um pouco cafona - e ainda acho. Presto então minha homenagem ao ex-baterista do Genesis com o comercial acima, que venceu o Grand Prix do festival de Cannes de publicidade de 2007 mesmo sem ter um miligrama de conceito.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

VASO RUIM QUEBRA

Como qualquer pessoa que tenha um mínimo de educação estética, eu também passei a odiar Romero Britto assim que percebi que ele não é um artista plástico, mas uma linha de montagem de padrões coloridos que servem para enfeitar latas de Nescau e puxar o saco de poderosos. Por isto, hoje aderi alegremente à catarse coletiva que tomou conta das redes sociais, com o vídeo da restauratrice espatifando um autêntico Britto na frente do próprio. Chupa, bolsomijon! A sua rejeição continua alta! Se bem que eu duvido que ele tenha alguma preferência política: é só mercenário mesmo. O perigo é acontecer o mesmo que se passou com a obra do Banksy que foi cortada em tirinhas em um leilão, e esse vaso quebrado agora valer milhões.

ONDE MORA O PERIGO

Para muitos brasileiros, os 600 reais por mês do auxílio emergencial são mais dinheiro do que eles costumavam ganhar antes da pandemia. Por isto, não admira que a popularidade do Biroliro tenha subido na mesma semana em que chegamos a 100 mil mortos pelo coronavírus: se o fulano não morreu e ainda tem algum dim-dim, então o presidente é mesmo bom. Bostonazi, que a princípio queria dar só 200 paus mensais, já estendeu o benefício algumas vezes, e vai fazer de um tudo para continuar pagando até 2022. Foda-se o Paulo Guedes, foda-se o Brasil todo, o que importa é se segurar no poder e manter os filhos longe da cadeia. Desconfio que muita gente tampouco entende o que é rachadinha. Devem acreditar que quem pagava os salários dos funcionários-fantasma era o Bozo de seu próprio bolso, e depois esses funcionários colaboravam com uma espécie de fundão. Do tipo que existe em algumas firmas, para financiar o bolo e os salgadinhos dos aniversariantes do mês. Não duvido nada, além do mais, que muitos fariam o mesmo se dispusessem de verba parlamentar: contratariam um monte de aspones e ficariam com metade da grana. Alguns comentaristas também apontam que a rejeição caiu por causa da mudança de tom do Despreparado, que enfiou o rabo entre as pernas desde a prisão do Queiroz em junho. Essa versão paz-e-amor teria mais chance de se reeleger, e é aí que mora o perigo. Todos os autocratas modernos - Chávez, Orbán, Erdogan, Lukashenko, Modi - começaram pianinho e só engrossaram o caldo para valer depois de reeleitos. Já imaginaram o que pode vir por aí num segundo mandato? Ainda mais com a Damares ou o Infeliciano de vice?

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

MACUMBA PARA TURISTA

No papel deve ter parecido incrível: Gloria Estefan viria ao Brasil e regravaria seus maiores sucessos em ritmo de samba! Mas o resultado, o álbum "Brazil 305" (o número é o DDD de Miami), soa como essas tentativas da Claudia Leitte de conquistar o mercado latino: nem lá, nem cá. A clássica "Conga" virou, aham, "Samba", e nem a bateria da Portela consegue tirar o clima de macumba para turista. A verdade é que o disco todo tem muita cuíca, pandeiro e tamborim, mas pouca brasilidade. A ex-vocalista do Miami Sound Machine gravou "O Homem Falou", do Gonzaguinha, em espanhol e inglês, e claro que o incontornável Carlinhos Brown participa de duas faixas - uma delas é um cover da tórrida "Magalenha", que os gringos a-do-ram mas nunca fez sucesso por aqui. A conexão entre Cuba e Bahia, que deveria ser óbvia, vira um acarajé com catchup nas mãos da sra. Emilio. Não é ruim, mas é bem esquisito.

QUEM DESCERRAR A CORTINA

Não é fácil ser criança prodígio. Em Hollywood, só 5% dos 20 mil atores-mirins que fazem testes anualmente conseguem algum papel. E nem mesmo os que se tornam estrelas antes da adolescência têm a vida fácil. É impressionante o número de child actors que não só não consegue manter a carreira quando adultos, como envereda pelas drogas e até pelo crime. "Showbiz Kids", o documentário da HBO dirigido por Alex Winter - ele mesmo um ex-ator infantil - traz depoimentos de gente como Milla Jovovich, Evan Rachel Wood e Henry Thomas (o garoto do "E.T."). Uns poucos não tiveram grandes problemas, mas os demais passaram por traumas e abusos. Fora os que morreram... Enfim, "Showbiz Kids" serve como um alerta - principalmente a alguns pais, que querem fama mais do que os filhos.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

VIVA A GORDA

Qual é a sua personagem favorita de "This Is Us", e por que é a Kate? A resposta é fácil: porque ela é enorme de gorda. Aliás, acho que nunca vi ninguém tão gorda quanto a atriz Chrissy Metz, que parece aumentar de tamanho a cada nova cena. Ontem eu e meu marido terminamos a quarta temporada da série, e um detalhe nos chamou a atenção. Pare por aqui se você não quer spoilers. Parte do último episódio se passa no futuro, com todo mundo uns 20 anos mais velho. Mas cadê a Kate? O filho dela aparece adulto, há novos netos e genros, mas a gorda favorita de todo mundo não dá as caras. Lembro de ter lido que o contrato de Chrissy tem uma cláusula que a obriga a emagrecer na vida real, porque Kate também emagrece na ficção. Mas nenhuma das duas perdeu uma grama até o momento, muito pelo contrário, e eu começo a suspeitar que os porodutores estão sem saco para o inferno que fatalmente se abrirá nas redes sociais se uma obesa mórbida ousar perder peso. Mas, se Kate não emagreceu, temo então que ela esteja morta. Fulminada por um infarto. Só que não é ainda mais politicamente incorreto matar uma obesa?

DEBANDADA

Existem, basicamente, três tipos de eleitores que votaram no Biroliro. O primeiro são os birolistas de raiz, tão escrotos quanto seu mito. Energúmenos que defendem as armas e são contra qualquer direito para as minorias, que eles chamam de privilégios. O segundo grupo é formado por antipetistas e lavajatistas. Uma galera que curte a desigualdade social e viu na corrupção do PT o pretexto ideal para barrar qualquer reforma. O terceiro é o chamado mercado, que deu gritinhos de prazer quando Paulo Guedes entrou para a caravana da boçalidade. Esses dois últimos grupos não têm mais porque apoiar o desgoverno do Despreparado. A saída de Sergio Moro escancarou que o Edaír não está nem aí para a roubalheira. E a debandada que aflige o ministério da Economia só confirma o que todo mundo sempre soube. Pandemito nunca quis privatizar nada, pelo contrário. Na verdade, o único interesse do chefe da familícia é se manter no poder e garantir as benesses para os seus. Mais nada - nem a pauta dos costumes, que é só da boca para fora. Por isto, de olho na reeleição, ele é capaz de furar o teto dos gastos, imprimir dinheiro para distribuir e arruinar as finanças do Brasil por mais uma década. Ainda é tempo de debandar.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

A PRIMEIRA PRESIDENTE AMERICANA

Kamala Harris! Eu confesso que estava torcendo para que Joe Biden escolhesse a senadora para ser sua vice. Só não comentei nada aqui no blog para não contaminá-la com meu proverbial pé-frio. Kamala era a favorita entre as quatro "finalistas", três delas negras. Mas alguns analisas apontavam que ela não teria tanta chance assim, por duas razões. A primeira é que, ao longo das primária, esta filha de indiana com jamaicano foi bastante crítica a Biden, tendo peitado o ex-vice-presidente em alguns debates. A outra é o fato dela ser da Califórnia, um estado que vota nos democratas mesmo se o candidato for o boneco do posto. Ou seja, não traria mais votos - no que eu discordo. Uma mulher negra é tudo o que faltava para destronar de vez o Bebê Laranja em novembro, e ele mesmo sabe disso. Tanto que já resmungou, desprezando mais da metade do eleitorado americano, que "alguns homens podem se sentir insultados" se Biden puser uma mulher em sua chapa. Pois eu tenho a impressão de que o partido Democrata está pensando a médio prazo. Se eleito, Joe Biden assumirá a presidência aos 78 anos de idade - mais velho do que Ronald Reagan, o mais velho presidente até hoje, quando este saiu. É bem possível que não dispute a reeleição. Aí, em seu lugar, quem concorreria? O candidato natural é sempre o vice, e Kamala Harris terá quatro anos de treinamento in loco para assumir o cargo mais poderoso do mundo. São boas as chances dela se tornar a primeira mulher a ocupar a Casa Branca. Sorte Kamala já tem, pois nasceu no dia mais benfazejo do ano - 20 de outubro, hehe.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

BIELA PORCARIA

A Bielorrússia está nas manchetes do dia, porque o ditador Aleksandr Luvchenko roubou mais uma eleição. E eu faço questão de continuar chamando essa republiqueta do leste europeu pelo mesmo nome que ela tinha quando fazia parte da União Soviética. Até porque a pronúncia de Belarus em bielorrusso é "bielarrus"; por que não aportuguesar de vez o termo, como sempre se fez? Essa coisa de um país exigir que os outros lhe chamem pelo seu nome original, em sua própria língua, é sintoma de crise de autoafirmação. Reparou que é só paiseco? Bielorrússia (Belarus), Moldávia (Moldova), Ceilão (Sri Lanka), Birmânia (Myanmar)... Não se vê a China querendo ser chamada de Shongguo, nem o Japão de Nihon. Eu não incluo nessa infame categoria os países que abandonaram seus nomes coloniais, como o Zimbabwe (que era Rodésia) ou o Burkina Faso (Alto Volta). Os demais, parecem garota adolescente avisando aos pais que agora se chama Lady Bird.

ROUBÁ-LO-EI EM ÁRABE

Se o Brasil fosse um país governado por gente honesta e competente, teria sido bonito o atual presidente enviar seu antecessor em missão humanitária ao Líbano, que teve sua capital devastada por uma gigantesca explosão. Acontece que Edaír Biroliro é despreparado para o cargo e ligado às milícias, o que torna qualquer de seus gestos imediatamente suspeito. Já Michel Temer, o Velho, é um larápio contumaz que responde a seis processos na Justiça. Verdade que, no Líbano, ele é considerado um dos mais eminentes membros da diáspora, tanto que tem uma rua batizada com seu nome em Btaaboura, a cidade de onde vieram seus pais. Mas acho irônico mandar um sujeito que enriqueceu graças a maracutaias no porto de Santos cuidar de doações para Beirute, que teve seu porto destruído. Uma raposa pode se expressar em português castiço, em árabe escorreito ou até em latim, mas continua de olho no galinheiro.

domingo, 9 de agosto de 2020

TODO MENINO É UM REI

Pronto. Consegui ver "Black Is King". Um leitor caridoso me mandou um link (está lá nos comentários do post "Oshun Energy"), que funcionou perfeitamente. E eu fiquei boquiaberto. O álbum visual de Beyoncé é de uma beleza sem par. Não é preciso saber o que é afrofuturismo nem catar as muitas referências a divindades africanas para se deslumbrar com as roupas fabulosas e as coreografias elaboradíssimas. Mas é claro que ajuda: "Black Is King" tem uma mensagem política poderosa e, quanto mais referências o espectador tiver, em mais camadas poderá penetrar. É, possivelmente, o artefato pop mais importante de 2020.
Bom, agora que eu vi, posso dar meu pitaco. Acho que, na polêmica toda em torno de "Black Is King - que não se resume apenas à reação ao artigo de Lilia Schwarcz na Folha, nem apenas ao Brasil - tem algo fundamental passando batido. Beyoncé tem três filhos: a mais velha, Blue Ivy, e um casal de gêmeos, Rumi e Sir Carter. Seu filme é dedicado especificamente a este último, o único menino. O roteiro de "Black Is King" é uma variante de "O Rei Leão", por sua vez um derivado de "Hamlet". Nas mãos da Beionça, a história se tornou a jornada de um garoto negro em busca de sua identidade. Veja bem: um garoto. Quando alguém diz que Beyoncé falhou em produzir uma obra antirracista, é preciso lembrar que ela não está tentando convencer nenhum branco a não ser racista. Sua público-alvo preferencial são mães negras como ela, que estão criando meninos. A mulher negra, na sociedade ocidental, é o degrau mais baixo da cadeia alimentar. Apanha de todo mundo, inclusive dos homens negros. Beyoncé está propondo, simplesmente, que esta última relação de força seja eliminada. Que as mães negras criem seus filhos livres do machismo e cientes de sua ancestralidade. Que sejam reis, no sentido de reinarem sobre si mesmos (em nenhum momento ela faz uma defesa da monarquia como forma de governo, como já se disse por aí). Parece ingênuo para os brancos, mas quando um negro é expulso de um shopping só porque é negro, dá para imaginar a barra em que eles vivem 24 horas por dia, sete dias por semana. Ainda bem que negros como os dois Matheus que peitaram o racismo nos últimos dias já são reis. Outros virão.

sábado, 8 de agosto de 2020

QUEM É ATEU E VIU MILAGRES COMO EU

Ontem foi dia de toda a minha timeline fazer a mesma coisa ao mesmo tempo: ligar na Globoplay a partir das 21h30, para ver a lendária live de Caetano Veloso. Não se sabe até que ponto ele não queria mesmo fazer, ou se foi apenas uma esperta campanha de marketing da Paula Lavigne. O fato é que deu certo: com produção profissional, duração enxuta de uma hora e meia e algumas das melhores canções do repertório do aniversariante (impossível incluir todas), a apresentação fez jus ao buzz. Sereno, impávido como Muhammad Ali, o rei leão estava cercado por seus três leõezinhos - que, felizmente, têm nomes, não números. Com Tom, o mais novo deles, apresentou a belíssima "Talvez", uma parceria do filho com Cezar Mendes que já nasce com pinta de clássico da bossa nova. Também teve "Milagres do Povo", "Todo Homem", "Queixa", "Tigresa", "Trilhos Urbanos", "Podres Poderes" e tantas, tantas outras, que me fez chegar a uma conclusão polêmica: nem Chico, nem Milton, nem Tom Jobim combinam tamanha qualidade e variedade em suas obras como o Caetano Veloso. O dele é um Brasil moderno, ciente do passado mas nunca saudosista, baianofuturista, gentil e contundente ao mesmo tempo. Porque não faltaram flechadas no Bozo, o lado podre desse país. A live de Caetano nos fez lembrar que não somos só isto.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

MICHEQUE SEM FUNDO

O esquema é tão óbvio que dá até preguiça. Funciona assim: desde os tempos de vereador, Edaír Biroliro contrata assessores de porra nenhuma. Os caras não trabalham e devolvem a ele metade ou mais do salário, pago com dinheiro público. Deu tão certo que o Bozo pôs a família inteira na política: quanto mais gabinetes, mais aspones, e mais dinheiro público para rachar. Fabrício Queiroz era o operador, e também o principal vínculo da família com as milícias cariocas. Não adianta o Zero-Um alegar que foi só um boleto, ou seu pai jurar que emprestou 40 paus para um cara que se gaba de fazer dinheiro com "rolos". É só cavucar um pouco que aparecem mais provas. A de hoje são 89 mil reais depositados na conta da primeira-dama, inclusive pela mulher do Queiroz - quero só ver a história mirabolante que vão inventar. Sim, é pouco dinheiro e nem se compara ao mensalão ou ao petrolão. Mas isto é porque a familícia nunca teve acesso a negociatas milionárias. Só que agora ela tem.

AMERICAVISION

Pensei várias vezes em propor para alguma emissora um festival nos moldes do Eurovision. Uma competição musical entre os 26 estados brasileiros e o Distrito Federal; quem ganhasse seria a sede do evento no ano seguinte. Mas a logística complicadíssima e os custos astronômicos sempre me desanimaram. Agora a própria organização do Eurovision levou a ideia adiante, mas para um mercado muito maior do que o nosso: os Estados Unidos. Foi anunciada ontem a primeira edição do American Song Contest (eita nominho ruinzinho), a ser realizada no final de 2021. Ainda não se sabe o lugar ou o canal, mas o formato é similar. Cada um dos 50 estados americanos manda um candidato - cantor ou banda de até seis integrantes - para competir em cinco eliminatórias (no original são só duas), antes da grande final. Dá para imaginar os horrores que vêm por aí, como pop evangélico da Carolina do Sul ou rap esquimó do Alaska. Mal posso esperar.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

INTERVENHA SE FOR HOMEM

A matéria de Mônica Gugliano sobre o quase-golpe de 22 de maio, publicada na revista "Piauí" deste mês, consegue estarrecer sem causar surpresa. Porque todo mundo sempre soube que Edaír Biroliro nunca pensou e outra coisa que não fosse dar um golpe de estado. Desde seus tempos no Exército, o Despreparado só trabalha no confronto com as insituições, buscando o próprio benefício e o de mais ninguém. Por isso mesmo, é espantoso que os próprios milicos, que o conhece há décadas, não só tenha embarcado nessa aventura tresloucada como quase topado o autogolpe. Segundo o artigo, os generais Ramos e Braga Netto acharam uma boa ideia mandar uma tropa fechar o Supremo naquela sexta-feira. Precisou que o Heleninho - justo quem - dissuadisse os colegas, porque ainda não seria "o momento". Pois eu acho uma pena, porque não era mesmo. Para começar, é duvidoso que o general Pujol,  o atual comandante do Exército, se desse a tal papel. Também não duvido que os ministros do STF simplesmente se reusassem a deixar o prédio - e aí, seriam todos fuzilados? A quartelada seia um vexame completo, e sua única consequência seria a queda do Bostonazi. Que pena que ele não interveio.

ZERO-UM À ESQUERDA

O Zero-Três pode ser o Bananinha, mas o maior bananão da familícia Biroliro é mesmo o filho mais velho. Difícil imaginar os outros dois aparecerem choramingando em um vídeo. O do meio é um remix do Demônio da Tasmânia, e o mais novo compensa seus dotes mínimos com retórica agressiva e obsessão pelas armas. Já o Zero-Um é só frouxo mesmo. Cagou-se todo em frente às câmeras durante um debate na campanha pela prefeitura carioca em 2016. Nunca apresentou um único projeto consistente em quase vinte anos de vida parlamentar. E agora se enrolou feito um croquete ao depor sobre o caso da rachadinha. Seus advogados não conseguiram montar uma narrativa convincente, até porque é impossível. É óbvio que o esquema corria solto em todos os gabinetes do clã, a mando de papai Edaír. E qualquer um que já viu a série "Ozark" sabe que, para lavar dinheiro bem limpinho, é preciso um negócio onde corra muito cash. Vai um chocolatinho Kopenhagen aí?

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

AI QUE ÓDIO

Acho que estamos presenciando o surgimento de um novo grande cineasta. Em menos de um mês, o polonês Jan Komasa teve seus dois filmes mais recentes lançados no Brasil. "Corpus Christi" chegou ao sob demanda depois de uma indicação ao Oscar, e me deixou bastante impressionado. Quase tão bom quanto é "Rede de Ódio", disponível na Netflix. O assunto não podia ser mais da hora: o protagonista é um profissional das fake news, especializado em destruir reputações. O rapaz, feito pelo feioso Maciej Malekowski, tem a combinação exata de ressentimento e mau-caratismo para levá-lo às maiores maldades, sem um pingo de remorso. Contratado por uma agência de marketing que, na verdade, é uma troll farm, primeiro ele ataca uma blogueirinha fitness. Impressionada, sua chefe inescrupulosa lhe passa uma missão maior: colar num candidato liberal à prefeitura de Varsóvia a pecha de ser pró-imigração islâmica. Nosso herói chega a incitar um incel, e as consequências são desastrosas. Algumas passagens parecem exageradas, mas o filme reflete o que se passa na Polônia e em outros lugares. Tanto que teve seu lançamento adiado por causa de um atentado. Em janeiro do ano passado, durante um comício transmitido ao vivo pela internet, o prefeito de Gdansk foi morto a facadas por extremistas de direita.

ELAS ESTÃO DESCONTROLADAS

Estamos vivendo a era da atriz-roteirista-showrunner. Mulheres poderosas que criam sitcoms para si mesmas, onde interpretam protagonistas que têm muito de autobiográficas. A onda começou em 2006, quando Tina Fey deixou o elenco do "Saturday Night Live" para estrelar "30 Rock", que ganhou 16 Emmys ao longo de suas sete temporadas. Depois vieram Lena Dunham, com "Girls" (2012) e Phoebe Waller-Bridge, com "Fleabag" (2017). Este ano já temos duas novas integrantes dessa galeria. Uma delas é a britânica de origem ganesa Micaela Coel, que expande os limites do gênero com a incrível "I May Destroy You". Ela faz Arabella, uma escritora em crise criativa que adora sair com os amigos e enfiar um pé na jaca. Depois de uma dessas noitadas, ela meio que se lembra de que foi estuprada. A série discute sexo, assédio, drogas, ambição profissional, carência afetiva e o que é ser negro na Londres de hoje, e nem sempre faz rir. Mas é o programa mais ousado de 2020, e a confirmação de um major talent que chegou para ficar. Vem prêmio por aí.

Outra moça que vem se destacando é a espanhola Leticia Dolera. Em sua série "Vida Perfecta", ela interpreta a obcecada Maria, que já tem todo o futuro caretinha planejado nos mínimos detalhes. Mas as coisas saem de controle quando ela toma uma bala, vai para a festinha de aniversário da sobrinha e transa com um jardineiro. Mais não posso contar, porque cada episódio traz novas surpresas . Maria tem duas irmãs: uma artista lésbica que pega geral, e uma casada que, apesar de feliz com o marido, também está louca para pegar geral. "I May Destroy You" e "Vida Perfecta" estão sendo exibidas pela HBO às segundas, às 23h e às 23h30, o que faz desta noite uma das melhores da semana. A única em que eu gosto de mulher.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

FROM THE LEBANON! THE LEBANON!

Referência é tudo, né, gente? Pensei em marcar esse dia em que o porto de Beirute foi pelos ares com uma música da diva Fairouz, mas eu não tenho muita intimidade com ela. A verdade é que, quando eu ouço notícias vindas do Líbano, o que toca na minha cabeça é "The Lebanon", do Human League. Então vou ser fiel a mim mesmo e homenagear as vítimas dessa catástrofe do jeito que eu sei.

OSHUN ENERGY

Não vou entrar na polêmica da Beyoncé. Não vou entrar na polêmica da Beyoncé. Não vou entrar... Entrei. Eu não resisto, mesmo não sendo meu lugar de fala. Mesmo não tendo visto "Black Is King" - aliás, alguém sabe como ver? A porra da Disney + não existe no Brasil, e no YouTube só tem trailer e clipes. Bom, como só vi esses pedaços, não posso dizer que o novo álbum visual da diva seja isto ou aquilo. Também me faltam referências e estudo para entender tudo o que ela cita. Eu ainda estou aprendendo o que é afrofuturismo, mas acompanho a carreira da Bey desde os tempos do Destiny's Child. Tenho todos os discos dela e acho que, de uns anos para cá, a sra. Carter transcendeu o papel de uma simples cantora para se transformar numa ativista política, ainda mais ambiciosa que Madonna.


"Black Is King" é a versão em vídeo de "The Gift", o disco que Beyoncé lançou no ano passado com canções inspiradas pela nova versão de "O Rei Leão". Ela acaba de relançar o disco, sem os diálogos do filme e com algumas faixas-extra. Musicalmente, não acho seu melhor trabalho, mas é interessantíssimo que ela chame músicos africanos e afro-americanos para criar uma espécie de trilha sonora contemporânea para a negritude na diáspora. Só que agora me dá medo de criticar a Beyoncé. A historiadora branca Lilia Moritz Scharcz ousou apontar o que lhe pareceram incoerências de "Black Is King" em artigo publicado pela Folha, e teve que pedir desculpas públicas depois de ser massacrada nas redes sociais. Em sua defesa, diga-se que nem o título ou o subtítulo do artigo são de sua autoria. É comum que os editores escrevam essas chamadas, em função do espaço disponível. Mas alguns dos termos usados - "erra", "precisa entender", "artifício hollywoodiano" - sequer aparecem no texto de Lília. Mesmo assim, ela de fato sugere a Beyoncé "sair um pouco da sala de estar" no último parágrafo, o que pega mal para caralho no mundo de 2020. Enfim: muitas das reações contrárias à matéria são bastante compreensíveis. Os negros das Américas estão finalmente construindo uma nova mitologia própria. Algo que os brancos temos desde sempre, e tão enraizado que nem estamos conscientes de sua existência. Hoje em dia, há cada vez mais negros mulheres e gays em posições de poder - se não de fazer, pelo menos de dizer. E o establishment branco-macho-heterossexual anda estranhando essas novas vozes, mesmo que, muitas vezes, concorde com elas. Ou queira concordar. Ninguém quer passar por racista, mas o racismo estrutural existe e precisa ser combatido. A própria Lília reconhece isto em seu post no Instagram. Trata-se de uma intelectual séria, que há anos estuda a escravidão, e não merece ser cancelada por causa de algumas palavras mal escolhidas. Mas dizer que só um negro pode comentar o trabalho de outro negro é uma bobagem colossal. Nunca é demais lembrar: perder tempo atacando quem já está do lado certo é tudo o que os nossos inimigos querem que a gente faça.

(o título desse post é parte da letra de "Black Parade", o novo single da Bey. Ela vem se revelando devota de Oxum, orixá das águas doces e meio que equivalente a Vênus na cosmologia iorubá. Também é a minha orixá, veja só)