quinta-feira, 11 de junho de 2020

FRANKLY, MY DEAR

Eu vi "...E O Vento Levou" inteirinho uma única vez. Foi em 1989, quando o filme foi restaurado e relançado nos cinemas, nas comemorações do seu 50o. aniversário. Ou seja, já faz algum tempo que eu assisti. Não tenho todas as cenas de cor na minha cabeça. Naquela época, também não achei que o longa fosse explicitamente racista. Os tempos eram outros. Pode ser que hoje, mais consciente do racismo estrutural, eu me chocasse com algumas coisas. Mas, francamente, eu duvido que aderisse à onda atual, que quer tirar "...E O Vento Levou" de circulação, ou colar nele um documentário explicando o contexto da época. Acho ótimo que se faça esse documentário, mas ele tem que ter vida própria, descolada da obra original - que é intocável. Além do mais, "...E O Vento Levou" é bastante avançado para o período em que foi feito, o final da década de 1930. Os negros são mostrados como seres humanos, e não como animais monstruosos a serem eliminados ("O Nascimento de uma Nação" (1915) é um milhão de vezes pior. Os heróis do filme de D. W. Griffith são membros da Ku Klux Klan, que tal?). Também é bom lembrar que a protagonista Scarlett O'Hara é uma heroína proto-feminista. Depois de perder sua vida de dondoca, ela luta com todas as forças e sem a ajuda de nenhum homem para manter os remanescentes de sua família, incluindo os escravos libertos. "...E O Vento Levou" não é exatamente sobre a Guerra Civil Americana, mas uma história de amor e superação tendo a guerra como contexto histórico. E é um puta filme - sua quatro horas passam voando. Para concluir, uma curiosidade: a última frase de Rhett Butler, a célebre "Frankly, my dear, I don't give a damn", causou celeuma em alguns círculos conservadores. "Damn" era considerado palavrão por essa turma, por remeter à danação no inferno. Mais uma prova da modernidade desa obra-prima do cinema, que nem o vento nem o tempo conseguiram levar embora.

7 comentários:

  1. O Mio Babbino Caro
    Assisti dias antes do episódio Floyd...leio sua razoabilidade e sensatez, porém no calor desses dias não há como negar o constrangimento que os personagens negros do filme causam. Escravos chorar a dor de seus senhores não é nada que o momento exige a ser alardeado da história. Enfim é o pior momento de tocar no assunto é é sim falar de corda na casa de enforcado ou seja no c* dos outros é refresco.

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    1. Sim é constrangedor mas o filme é da década de 30,exigia segregação racial e o filme retrata a época em que ainda existia a escravidão não é com censura,atitudes autoritárias que vamos melhorar as coisas, é com debate,sou contra retirar um clássico do cinema do streaming por causa disso

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    2. Babbino Caro a escravidão não acabou, eu fui levada há um hospício e drogada até quase morte por esses senhores. Porque quem organizou o golpe pra continuar saqueando o país me considera uma ameaça e não me queria trabalhando ao lado de Mariana Imbassahy. Um escravo 100 anos atrás era mais caro do que alguém receber um salário mínimo a vida toda, faça as contas!

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  2. Já viu aqueles disclaimers que aparecem no meio dos filmes indianos (não internacionalizados) nas cenas em que há cigarro ou álcool?

    Acho que vão acabar colocando esse tipo de coisa em filmes antigos famosos que já não se adaptam as regras da sociedade atual. Talvez até que não seja tão ruim...

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  3. Tentei assistir uma única vez, anos atrás, pegando emprestado o VHS dos meus avós, da saudosa Videoteca CARAS. Não consegui. Aliás, usando um pouco de media training, refraseio: Não foi possível. Não lembro exatamente os motivos. N.

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  4. "E o vento levou" não chega a ser nenhum "A canção do sul". Ambos têm a Mammy no elenco. Um lhe rendeu um Oscar. O outro já era controverso desde a produção.

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  5. O problema é que a narrativa do filme é atual, e continua sendo um sucesso de público e bilheteria porque é uma puta ficção que diverte o público hoje melhor que muito filme recente. Então imagina se os filmes do Batman dos anos 90 ou 2000 tivessem um Robin que fosse um feliz escravo negro. O filme seria banido e com muita razão. Birth of a Nation, pelo contrário, é uma ficção que não sobreviveu ao tempo, não gera há decadas qualquer interesse como produto de entretenimento, tem uma distribuição limitadíssima e geralmente é visto por pessoas por razões cinematográficas ou históricas. HBO tomou una decisão, acertada, de manter o produto de êxito no catálogo mas o coloca em contexto pra que haja um sentido crítico.

    Em todo caso, toda a questão é que a HBO retirou o filme, não que tenha sido censurado por uma lei ou decisão judicial. HBO é uma empresa privada e independente. Se não estiver de acordo, cancele sua assinatura.

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