domingo, 31 de maio de 2020

CHEIA DE ENCANTOS MIL

Todas as noites eu fujo do Brasil do Bozo e da pandemia, e volto 100 anos atrás. Volto para o Rio de Janeiro da década de 1920, que salta das páginas de "Metróple à Beira-Mar". O livro de Ruy Castro é um mosaico das personalidades que transformaram a antiga capital do país na Cidade Maravilhosa, em todos os sentidos. Quase todos esses nomes são de figuras ligadas à cultura: o autor perde pouco tempo com os políticos, que só aparecem para serem criticados. Em compensação, o povo das artes plásticas, da literatura, da música, da imprensa e arredores, todos eles merecem minibiografias que se entrelaçam e resplandecem. Foi a época em que o Rio tomou a forma com que o conhecemos hoje: se espalhou pelas praias até então desertas de Copacabana e Ipanema, subiu os morros e criou o samba, depurou a carioquice que já se formava no final do Império. Ruy Castro não esconde seu crush por Eugenia Alvaro Moreyra, jornalista, escritora, atriz e glamour girl, e dá um jeito de sua protegida dar as caras em diversos capítulos. Mas o resto do elenco não fica atrás: Villa-Lobos, Noel Rosa, Carmen Miranda, as revistas Fon-fon e O Malho, o maxixe, o carnaval. Viveremos novamente uma época de tamanha efervescência? Quem sabe? "Metrópole à Beira-Mar" começa em 1919, com a cidade exausta pela gripe espanhola e doida para enlouquecer e beijar na boca. A história parece se repetir.

sábado, 30 de maio de 2020

ENTENDEDORES ENTENDERÃO

Que mané Desafio do Leite. Edaír não bebeu um copo de leite durante sua live na quinta-feira para apoiar os produtores e estimular o consumo. O que ele fez foi o que os americanos chamam de "dog whistle": um apito para cachorro, numa frequência tão alta que só os ouvidos bem treinados conseguem captar. Provavelmente, uma sugestão do Carluxo. Duvida? No dia seguinte, o asqueroso Allan dos Santos repetiu o gesto do Pandemito, esclarecendo que "entendedores entenderão". Entender o quê? Que todos eles se alinham com a extrema-direita racista. O copo de leite foi adotado como símbolo pela alt-right americana, porque só os caucasianos costumam ter no organismo as enzimas necessárias para digerir a lactose. Beber leite, neste contexto, é defender a supremacia branca. Dá para ficar mais nojento? Com Biroliro, sempre dá. Todo mundo já entendeu.

A FALTA QUE O FOGO FAZ

As polícias brasileiras matam muito mais negros inocentes do que as americanas. Todo mês tem pelo menos uma Ágata, um João Pedro, um Evaldo fuzilado por 80 tiros. Segue-se uma comoção na mídia e nas redes sociais, algumas punições brandas e no mês seguinte, ratatatata, outro caso. O que falta para os brasileiros (e não só os negros) nos rebelarmos contra esse morticínio? Nos EUA, revoltas violentíssimas acontecem em todas as grandes cidades, depois que um policial branco pisou no pescoço do negro George Floyd durante cinco minutos, provocando a morte deste. A Casa Branca chegou a ser cercada por manifestantes. Por que nada parecido acontece por aqui? Uma explicação bastante plausível é dada neste artigo de Dodô Azevedo. Os negros brasileiros não se enxergam como "um povo". Caíram - caímos todos - na esparrela de que somos brasileiros, sem distinção de raça, credo ou classe social. O discurso do ministro da Educassão, que odeia o termo "povos indígenas". Mas mesmo esse mito não serve para nos aglutinar. Somos individualistas, sem o menor senso de comunidade. O que atinge alguém é problema só dessa pessoa. Essa crença nos faz querer romper a quarentena, se não conhecemos nenhum doente. E nos faz aceitar como um fato da vida um garoto ser atingido pelas costas dentro de sua própria casa. Nos falta por dentro o fogo que precisamos tacar no Brasil.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

CANTA MÚSICA PROS GUEIS


Lady Gaga deu a proverbial volta de 360 graus. Voltou ao mesmo ponto onde estava antes de lançar o malfadado álbum "Artpop", de 2013: deeva beesha das peeshtas, rainha dos lirôu monsters. Aquele disco não teve nenhum grande hit e lançou a Germanotta numa crise existencial. Nos anos seguintes, ela tentou se reinventar de várias maneiras. Gravou duetos com Tony Bennett, cantou músicas da "Noviça Rebelde" na entrega do Oscar, abandonou a dance music e abraçou o country-rock no marromeno "Joanne", estrelou "Nasce Uma Estrela", foi indicada ao Oscar de melhor atriz e levou o Oscar de melhor canção. Depois de se consagrar novamente, sentiu-se segura para voltar com tudo aos braços de seu público mais fiel: as gueis, que estão subindo pelas paredes nessa quarentena. "Chromatica" foi até adiado, na vã esperança de que o confinamento acabasse logo, mas hoje finalmente veio à luz em toda sua glória. E que glória: é o melhor trabalho de Gaga desde "The Fame Monster". Treze faixas saltitantes, intercaladas por três breves interlúdios instrumentais. Para serem ouvidas de um fôlego só, pois quase não há pausas entre uma e outra. Nenhum balada, mas algumas letras tristes: as dores no corpo e na alma de Stefani não se deixam ofuscar pelos arranjos esfuziantes. Gaga canta em tantos tons diferentes que às vezes é difícil saber se ela mesma ou suas convidadas Ariana Grande e BLAKCPINK; só Elton John realmente se destaca, com sua voz grave pouco assídua nas boates. Apesar de ainda guardar semelhanças com a nave-mãe Madonna, Lady Gaga faz um retorno triunfal à essência de sua marca. Enquanto Madge ressalta que todo mundo pode ser lindo e fabuloso, Gaga diz que você pode ser fabuloso mesmo sendo feio. É uma bela mensagem, e "Chromatica" é um belo disco. Já entrou para os Top 10 de 2020.

JAZZ VAI TARDE


Não consigo gostar de jazz. Fui criado a leite de Madonna, apesar  dos standards americanos também terem feito parte da minha dieta. Mas o jazz pós-1950, de Charlie Parker e Miles Davis, é algo que eu não aguento por muito tempo. Até acho cool e admiro o talento dos músicos, mas tem aquela hora em que cada um parece ir para um lado, e aí não dá. Mesmo assim, eu estava bem curioso para ver "The Eddy", a série da Netflix ambientada em um clube de jazz em Paris. O pedigree é vistoso: Damien Chazelle, o cineasta de "La La Land", dirigiu os dois primeiros episódios e é o produtor-executivo. Mas a verdadeira força criativa por trás de "The Eddy" é o roteirista inglês Jack Thorne, e é justamente o roteiro o ponto fraco do programa. O protagonista Elliott (André Holland), o dono americano do clube, é incompetente em tudo o que faz, a ponto de não conseguir comprar café numa máquina sem derramar tudo. Os demais personagens também não são dos mais atraentes, e a única realmente viva é a adolescente Julie (Amandla Stenberg) - e olha que ela é uma pentelha como todas as garotas de sua idade. O mais interessante de todos é assassinado logo no primeiro capítulo, e o segundo simplesmente ignora esse crime, que só é retomado do terceiro em diante. No final, o que mais se salva é o jazz: as canções são quase todas originais, e a voz da polonesa Joann Kulig ("Guerra Fria") é mesmo uma delícia. Já baixei o álbum, mas chegar ao fim da série foi penoso como ouvir uma jam freestyle infinita.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

THE WINTER OF OUR DISCONTENT

Não vou nem entrar no mérito jurídico da operação de ontem da PF. Não sou advogado, não manjo de leis, não me sinto autorizado. Só achei curioso ver a direita toda (não só seu extremo) apontando abusos, quando essa mesma direita aplaudia quando Moro e a Lava-Jato passavam por cima das leis. E me diverti muito, claro, vendo luminares como Allan dos Santos tendo que passar da terça livre para a quarta presa, como brincou o Twitter. Mas ninguém foi mais engraçada do que Sara Winter. Já sabia que a ex-Femen não é exatamente um exemplo de coerência, mas o vídeo em que ela ameaça descobrir os nomes das empregadas domésticas de Alexandre Moraes é digno do Porta dos Fundos. Além do mais, a moça é mesmo de baixo calão, mixuruca de dar dó. Mas merece ser presa? Merece, mas aí vai posar de mártir e talvez turbinar sua candidatura a vereadora ou deputada. De qualquer forma, Sara Winter não vai se dar bem a médio prazo. As armas que a doida carrega estão apontadas para ela mesma.

A PROFETISA NEGRA


"Harriet" deveria ter entrado em cartaz no Brasil em fevereiro, aproveitando que sua protagonista Cynthia Erivo estava indicada ao Oscar. Aí alguém achou que ele se perderia no meio de outros títulos mais badalados, e a estreia foi transferida para abril. Então pintou a quarentena, e o filme chegou por aqui direto no sob demanda. A tela da TV talvez não faça justiça a uma história tão épica, mas o fato é que a direção de Kasi Lemmons não tem brilho. Ela desperdiça cenas impactantes, e não consegue dar nuance alguma a uma personagem que deve ter sido complexa. Harriet Tubman foi uma das maiores heroínas do movimento abolicionista americano. Ajudou sozinha dezenas de escravos a fugir do sul para o norte, onde podiam ser livres. Também comandou tropas na Guerra Civil. Claro que era durona e determinada, mas sua cinebio não mostra nada além disso. Apenas que ela falava diretamente com Deus, que lhe sussurrava os caminhos certos a seguir, e que conseguia prever o futuro. Cynthia Erivo, uma atriz de muitos recursos, se sai bem com esse papel tão sem nuances, e o filme não tem enrolação. Mas fiquei com a sensação de que essa história real não teve o tratamento que merecia.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

RACISMO D.O.C.

Sergio Camargo sobreviveu a uma medida judicial para tirá-lo da Fundação Palmares, passou por cima de Regina Duarte e continua achincalhando a luta dos negros brasileiros. Sua última canalhice é o tal do selo "não racista", para gente acusada injustamente (na opinião dele) de preconceito racial. Quem será o primeiro felizardo? Silvio Santos? Ernesto Araújo? O que Camargo não percebe é que, fora da bolha da extrema-direita, este selo funciona como um atestado de racismo em três vias, registrado em cartório. Quem o receber pode se gabar de ser um racista D.O.C., d'origine contrôlée, como os queijos mais finos. E são tão fedorentos quanto.

WILLIAM BOM

Estão surgindo novas vozes críticas ao desgoverno Biroliro, desvinculadas da esquerda tradicional: Atila Iamarino, Maria Bopp, Gabriela Prioli, o Sleeping Giants BR, até mesmo Anitta. Outras já estavam por aí e ganharam mais veemência, como Felipe Neto e Gregorio Duvivier. E ainda há uma voz que conhecemos já faz um tempão, mas vem se firmando como um marco de firmeza e serenidade nesses tempos tão incertos. Eu arrisco até que William Bonner está vivendo a melhor fase de sua carreira e garantindo seu lugar na história, pela maneira com que vem conduzindo o "Jornal Nacional". E ele está pagando um preço altíssimo por isto, como contou no "Conversa com Bial" exibido nesta madrugada. É inconcebível que ele não consiga pegar uma reles Ponte Aérea desde 2016, quando era alvo de petistas magoados. Agora estes o aplaudem, mas Bonner arrumou para si um inimigo muito pior: os bolsofascistas, que não têm escrúpulos de envolver sua família e fazer ameaças gravíssimas. O que me consola é que essa onda extremista está se exacerbando justamente porque já começou a se enfraquecer. A médio prazo, estaremos livres dessa loucura toda, e talvez Bonner volte a ser a quase unanimidade que já foi um dia.

(A entrevista de William Bonner a Pedro Bial está disponível na íntegra no Globoplay e, aos pedaços, no YouTube. Não vou embedar esses vídeos aqui, porque daqui a pouco a Globo irá removê-los todos. Vocês que lutem.)

terça-feira, 26 de maio de 2020

A AMIGA JENIAL

Um governo que tem Carla Zambelli como uma de suas figuras de proa não tem a menor chance de dar certo. A deputa-"jênia" não consegue ficar quieta: na ânsia de mostrar que é assim com os hômi, volta e meia ela revela segredos comprometedores. Sua última burrada foi contar para uma rádio gaúcha que já sabia da operação da Polícia Federal contra o governador Wilson Witzel - algo que, teoricamente, ninguém de fora da PF deveria saber. Zambelli ainda disse que a operação poderia se chamar "Estrume", o apelido carinhoso que Edaír deu para Whitney, mostrando que os federais estão mesmo sendo usados como instrumento de perseguição política. Quem tem amigos como a cretina da Carla Zambelli não precisa de inimigos. Mais uma vez, fica patente que a maior oposição ao birolismo vem de suas próprias hostes.

PARABÉNS ATRASADO

Mais uma vez esqueci do aniversário do meu blog, e mais uma vez precisei do Daniel Cassús para me lembrar a data correta. Eu achava que era dia 27 de maio; Dani Hansa Bee, um dos meus leitores mais antigos, me avisou que é dia 24. Ou seja, foi domingo passado, o dia ideal para soprar velinhas e cantar pique-pique. Mas como na quarentena só existem três dias da semana - ontem, hoje e amanhã - vamos fingir que o aniversário é nesta terça e abrir um bolo mental. Obrigado a todos que ainda me acompanham, inclusive os haters e a Monotemática. E cuidado, porque agora este blog é oficialmente um teenager.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

TREM-BALA


"Run" começa meio devagar, apesar da premissa excitante. Uma mulher casada e com dois filhos (Merrit Wever, aperfeiçoando a verve que já exibira em "Nurse Jackie"), entediada pelos afazeres domésticos, recebe uma mensagem de seu ex-namorado (o extra-ruivo Dohmnall Gleeson) no celular: apenas a palavra "corra" (ou "fuja"). Anos antes, eles haviam combinado que, se um mandasse esse recado e o outro respondesse, os dois se encontrariam na Grande Central Station de Nova York e embarcariam em um trem para Los Angeles. É o que os dois fazem, mas os dois primeiros episódios são prejudicados por um detalhe absurdo. Ele não sabe do estado civil dela, ela ignora que ele agora é um famosíssimo palestrante motivacional. Pelo jeito, ninguém tem perfil em rede social. Mas as coisas esquentam do terceiro episódio em diante, e os quatro seguintes são de tirar o fôlego. Aí chega o sétimo e último, com um final abrupto de dar inveja a "Os Sopranos". Fiquei tão atônito que não sabia dizer se gostei. Hoje, pensando melhor, acho que adorei, e que a história deveria terminar por ali. Seria uma minissérie elegante, e meu interesse por esses personagens já está saciado. Por quê tudo  tem que ter duzentas temporadas? Uma boa já está de bom tamanho.

domingo, 24 de maio de 2020

BEM-VINDO AO INFERNO


Num mundo cheio de vilões, talvez Ramzan Kadyrov seja o pior de todos. O homem forte da Chechênia foi colocado lá em 2007 por Vladimir Putin, para sufocar os ímpetos separatistas dessa região russa do Cáucaso. E como foi que ele conseguiu isso? Implantando uma ditadura que, entre outras coisas, tortura e mata homossexuais. Esse horror rendeu o documentário "Bem-vindo à Chechênia", que estreia em junho na HBO. Mas agora chega uma notícia alvissareira desse rincão do planeta: Kadyrov está internado em estado grave, com Covid-19. Como eu não sou mais cristão, não me sinto envergonhado de querer que ele morra.

sábado, 23 de maio de 2020

URSO MAIOR

Quem aí gosta de urso? Eu estou aprendendo a gostar, talvez porque já me encaixe na categoria. Mas ainda estou longe dos hirsutos Man On Man, que acabam de lançar seu primeiro single, "Daddy". A dupla é formada por Roddy Bottum (o grisalho), tecladista do Faith No More, e seu marido Joey Holman, e tanto a música quanto o vídeo foram feitos durante a quarentena. Não acho nenhum dos dois grande coisa, mas gosto de tudo que abale o padrãozinho.

ATUALIZAÇÃO: O YouTube REMOVEU o clipe do Man On Man. Agora, no canal da dupla, só tem a versão em áudio de "Daddy", que eu coloquei lá no alto do post. A desculpa é que o vídeo "violava os termos de uso". Só que não tem nudez, nem palavrões, nem incitação ao ódio: só dois ursos de cueca se agarrando. Talvez, se tivesse uma defesa da terra plana, ainda estaria no ar.

ATUALIZAÇÃO 2: O clipe de "Daddy" pode ser visto aqui, no IGTV da dupla.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

VÍDEO SHOW

O famoso vídeo da reunião de 22 de abril não trouxe nenhuma grande novidade. Todos os seus pontos mais calientes já haviam sido divulgados por fontes anônimas que o assistiram na semana passada. Claro que é divertido - e, ao mesmo tempo, estarrecedor - ver em ação um presidente que catou sua bca no esgoto. Biroliro é grosseiro, covarde, paranoico, vaidoso e incompetente. Em nenhum momento ele manifesta preocupação com os efeitos da pandemia no Brasil, mas em sua própria carreira política. Damares, Salles, Weintraub, até o Guedes, todos eles protagonizam vexames diversos. Mas, no meu humilde entender, não há a bala de prata que atinja o desgoverno no coração. Não resta a menor dúvida de que Edaír estava se referindo à PF do Rio quando fala em "segurança", mas os termos são vagos o bastante para Augusto Aras cruzar os braços. A minionzada minguante vai até aplaudir, porque o Bozo que se vê ali é exatamente o mesmo em que eles votaram. Acontece que, se não é de prata, a bala é de um calibre considerável. Ela escancara o despreparo da maioria do ministério, e se junta às provas que vêm brotando contra a familícia. E ainda vem por aí uma bomba H: as mortes pelo coronavírus.

HELE NÃO

O grotesco general Heleno, o pior dos milicos que infestam o Planalto, acha que põe medo na gente. Hoje ele soltou uma "Nota à Nação Brasileira" onde alerta sobre "consequências imprevisíveis" se Biroliro tiver seu celular apreendido. Ele sabe que Celso de Mello apenas cumpriu a lei, e que a decisão ainda cabe o STF ou à PGR. Mas quer criar marola nesta dia tenso. Já deu a oportunidade para o Edaír dizer que não entrega nem a pau, e ainda criou um clima de suposta ameaça para cima do decano do Supremo. Não vai adiantar: Heleninho só fala para as hostes miniônicas, e o vídeo da reunião está para sair a qualquer momento. Nada que esfrie a pipoca.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

BOMBA DE EFEITO RETARDADO

A série "Smash" foi meu programa favorito de 2012. A trama girava em torno da disputa de duas atrizes pelo papel principal em um musical fictício sobre Marilyn Monroe, "Bombshell". Fictício até certo ponto: as músicas foram todas compostas, e os números eram ensaiados ao longo dos episódios. "Smash" não fez muito sucesso e durou apenas duas temporadas, mas, em 2015, "Bombshell" foi apresentada  em formato de concerto, num evento beneficente, com o elenco original da série. Mas, até ontem, só quem foi ao teatro conseguiu ver. O material inédito finalmente foi divulgado durante uma live com todos os atores, dessa vez para angariar fundos para o pessoal da Broadway. Quem não tiver saco para encarar as duas horas pode pular direto até o minuto 37, onde aparecem rapazes enrolados em toalhas. Logo em seguida vem uma canção que eu irei incluir em meu álbum-solo: a épica "They Just Keep Movin' the Line", quase autobiográfica.

O GIGANTE ACORDOU

Não está fácil ser de extrema-direita no Brasil de hoje. A popularidade do Biroliro segue em queda livre: segundo a pesquisa da XP divulgada ontem, já somos 50% de brasileiros que o consideram ruim ou péssimo. O número de mortos pelo coronavírus continua subindo, ainda mais agora que o Edaír liberou geral a cloroquina. O cerco se fecha em volta do Zero-Um. E há toda uma nova geração de oposicionistas, independente do PT - que, aliás, não só perdeu faz tempo o controle de qualquer narrativa, como se afunda ainda mais a cada patacoada do Lula. Uma das novidades mais recentes é o perfil Sleeping Giants Brasil no Twitter, inspirado pelo similar americano e por esta matéria publicada na edição brasileira do El País. O funcionamento do treco é simplérrimo: um internauta que, por razões óbvias, prefere se manter anônimo, esquadrinha os sites de fake news e anota os anúncios de grandes empresas que o AdSense do Google colocou neles. Aí, o cara simplesmente avisa as empresas, por tuítes abertos ao público. A Dell, o Boticário, o Telecine e até o Banco do Brasil já se comprometeram a não anunciar mais nesses sites. O BB, inclusive, provocou uma reação apoplética do Carluxo, a ponto dele publicar um print one aparece logado na conta do papi - algo que ele jurou que não fazia nunca. A gênia da Carla Zambelli também já se manifestou, e a robôzada está trabalhando full time para tentar desacreditar o Sleeping Giants. Veremos se conseguem: nos EUA, o perfil conseguiu evitar que nada menos que 50 milhões de dólares fossem parar nas mãos do Steve Bannon.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

ENTRANDO NUMA FRIAS

Em breve o Brasil poderá ter o mais belo secretário da Cultura de sua história. Mário Frias está doidinho para colocar o cargo no currículo. Também poderá enfiar em breve o título de ex-secretário: alguém tem dúvida de que ele irá durar pouco? Porque Frias não é Roberto Alvim, o único dos quatro titulares da pasta de quem o Edaír realmente gostou. Não fosse o discurso nazista de janeiro passado, o nazista Alvim ainda estaria implantando medidas nazistas, sob o aplauso de seu chefe. Engana-se quem acha que a cultura é menosprezada pelo governo. Ela é o núcleo duro do bolsolavismo, que quer transformá-la em campo de batalha perpétuo. Também é a razão número 1 para os minions terem votado no Bozo: eles estão muito mais interessados em "proteger a família" (i.e., restaurar o patriarcado) do que em combater a corrupção ou salvar a economia. Não sei se o belo Frias está ciente disso. Só sei que a inexperiência e o puxa-saquismo necessários, ele tem.

CELEBRATE GOOD TIMES, COME ON

It's a celebration!, como cantavam Kool and the Gang. Motivos não faltam: mais de 100 mil curados da Covid-19, viva! O que a campanha da Secom esquece de dizer é que muitos desses 100 mil salvos nem precisavam ter adoecido, caso o governo federal levasse a sério a pandemia. Agora, vários deles carregarão sequelas pelo resto de suas vidas. Outros tantos sobrecarregaram o sistema hospitalar, tirando respiradores de gente que morreu. E incontáveis devem ter transmitido o vírus para seus entes queridos, que podem não ter tido a mesma sorte. Mas o desgoverno Edaír quer que não se focalize a morte, pois ele "trabalha pela vida e celebra a vida". Só que a deles. Só a deles.

terça-feira, 19 de maio de 2020

BRASIL DESMASCARADO

A previsão está se cumprindo. O Brasil está se tornando rapidamente um dos epicentros da pandemia. Já são 18 mil mortos quando escrevo este post (números oficiais, que não contam a subnotificação0. É patético que o governo paulista tenha que decretar um feriadão para obrigar as pessoas a ficarem em casa. Aí não é só culpa do Edaír, é a estupidez e a indisciplina dos brasileiros, que só temem uma doença quando ela atinge suas próprias famílias. Uma das razões pelas quais Doria não proclama o lockdown é o risco de se desmoralizar. A malta ignara pode simplesmente desobedecer, reduzindo sua autoridade a pó de traque. Enquanto isso, Coronaro diz que "quem é de direita, toma cloroquina, e quem é de esquerda, toma Tubaína", como se remédio tivesse preferência partidária. Uma amiga disse que uma das poucas vantagens da quarentena é que ela desmascara o verdadeiro caráter das pessoas. Os escrotos saem das tocas. Os empresários gananciosos demitem sem dó, e depois se espantam quando seus estabelecimentos reabertos continuam vazios. Esta fase tenebrosa poderia estar passando por aqui, como já está acontecendo em alguns lugares da Europa e da Ásia. Mas não há a menor luz no fim do túnel. Aliás, é um túnel ou um buraco?

ISSO CABE AO FELIPE NETO

Mais de 12 horas depois, a entrevista do Felipe Neto ao "Roda Viva" segue gerando discussões acaloradas nas redes sociais. Muita gente que ainda tinha uma imagem defasada do rapaz se surpreendeu com sua postura atual, e com razão. Felipe soa maduro, equilibrado, até modesto. Mas é engraçado como ainda tem alguns, nem todos minions, que o descartam automaticamente. Não querem nem saber o que ele disse, e acham que sua fama é um sinal do apocalipse iminente - como se a eleição do Biroliro não fosse. Se você é desses, dê uma espiada no vídeo acima antes de vociferar sua opinião. Isso vale até para alguns jornalistas sérios que reclamaram da presença no programa do influenciador mais influente do país. Passaram atestado de velhice e ignorância, mas ninguém está livre de preconceitos. Repito: veja a entrevista até o fim. Como eu disse na minha coluna no F5, acho que ele, Anitta, Gabriela Prioli, Maria Bopp e tantos outros são sintomas de que a loucura coletiva do Brasil está começando a se dissipar.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

CRETINICE SEDUTORA

Eu nunca tinha ouvido falar do energúmeno to Ítalo Marsili, até ele ser cotado para o Ministério da Saúde. Descobri depois que é um arroz de festa na fascistofera, com aparições frequentes na Jovem Klan e adjacências. Mas acho que, desse castigo, já nos livramos. A live que Marsili promoveu há duas semanas com dois caras do Brasil Paralelo (um deles, aliás, beeem gatinho) viralizou neste fim de semana, por causa da já infame declaração do falso psiquiatra sobre o voto feminino. Segundo ele, a democracia se deteriorou depois que as mulheres começaram a votar, porque, para ser eleito, basta seduzi-las. Dá como exemplo Fernando Collor de Mello, mas se esquece completamente do don-juan que é o Lula, com aquela voz roufenha, aquela barba áspera, aquela língua presa. Marsili é uma prova concreta da teoria que eu defendo há algum tempo: o avanço da extrema-direita no mundo todo é só uma reação ao avanço dos direitos dos oprimidos, especialmente das mulheres.

A FAVORITA DO MARINHO

É óbvio que o Paulo Marinho tem interesse político ao divulgar novos podres da familícia Biroliro. O cara não está de olho na cadeira de senador hoje ocupada pelo Zero-Um, mas na prefeitura do Rio de Janeiro. Ele já é pré-candidato pelo PSDB, um partido quase inexistente em plagas cariocas, mas é um total desconhecido fora da alta roda (mesmo tendo sido casado com a Maitê Proença). Seu objetivo é atrair o voto da direita civilizada, aquele que se decepcionou com o governo Edaír porque, né, o histórico na Câmara do ex-presidente em exercício era sensacional, e ninguém, mas ninguém mesmo, avisou que #EleNão. Enfim: as ambições de Marinho são legítimas. E, mesmo que não fossem, isto não significa que suas acusações sejam falsas. Até porque elas corroboram as acusações de Sérgio Moro, e se encaixam perfeitamente na linha do tempo dos acontecimentos. Mas, vem cá: é a própria Polícia Federal que irá investigar se a Polícia Federal vazou informações para o então candidato Bostonazi? A desculpa usada já nasce esfarrapada: alegam que a operação Furna da Onça, que investigava desvios na ALERJ, não foi divulgada antes do segundo turno para não afetar as campanhas de reeleição dos deputados estaduais. Só que eleição de deputado estadual não tem segundo turno. É claro que há setores da PF que roubaram no jogo em favor de Pandemito. E não só lá, mas em todas as forças policiais do Brasil, que são três vezes maiores que as Forças Armadas. Corremos, então, o risco não de um golpe militar, mas de um inédito golpe policial? Para isto, Coronaro teria que contar com um apoio maciço da população. Depois da manifestação pífia deste domingo, sei não. Sei não.

domingo, 17 de maio de 2020

MAELSTROM


Eu comecei a conumir música pop aos 13 anos de idade. Um dos primeiros discos que eu comprei na vida foi "Kimono My House", do Sparks, depois de ter visto o clipe de "This Town Ain't Big Enough for Both of Us" no Fantástico, of all places. Quase 50 anos depois, aqui estamos nós, o Sparks e eu, firmes e fortes. Curioso que tem muita gente daquela época ainda na ativa - Paul McCartney, os Rolling Stones, Elton John - mas nenhum deles chega aos pés do Sparks no meu panteão privativo. Ron e Russell Mael são meus companheiros de jornada, apesar de eu sequer ter visto um show deles (os danados jamais vieram ao Brasil, e nunca nos cruzamos lá fora). Agora eles lançam o 24o álbum oficial da carreira, "A Steady Drip Drip Drip", e não decepcionam. As melodias intrincadas, as letras sobre tudo e qualquer coisa, os arranjos esquisitos, está tudo lá, como sempre esteve, mas em versão repaginada 2020. Pena que as gravações do novo disco aconteceram antes da pandemia: esse confinamento ainda vai render muito assunto para os irmãos Mael.

sábado, 16 de maio de 2020

SAGA NÓRDICA

Este ano não vai ter Eurovision, mas nem tudo está perdido. No final de junho estreia "Eurovision" na Netflix, que aqui no Brasil ganhou o singelo título de "Fetsival Eurovision da Canção" - parece que a Netflix desconhece que há homossexuais entre seus assinantes. Hoje saiu o clipe de "Volcano Man", a música que a fictícia dupla escandinava Sigrit e Lars defende no certame, melhor que 90% das de verdade. Nunca fui muito como os cornos do Will Ferrel, mas dessa vez terei que gostar porque envolve o Eurovision. Está no meu contrato.

VAI POR MIM

Houve um tempo em que as entrevistas estilo ping-pong eram modinha na imprensa. O finado Jornal do Brasil fazia uma chamada Retrato do Consumidor, onde se perguntava até a marca de sabonete favorita do entrevistado. A revista Vanity Fair até hoje reserva sua última página para o Questionário de Proust, criado pelo próprio e antepassado daqueles cadernos-interrogatório que as meninas de antigamente levavam para o colégio ('"o que você acha de homem que faz balé?"). Esta semana eu tive o prazer de me submeter à Resenha Rápida do site Resenhando, a convite do Helder Moraes Miranda. Encerro este post com um apelo: onde eu posso comprar Cherry Coke em SP?

sexta-feira, 15 de maio de 2020

IMPRENSA ≠ ASSESSORIA DE IMPRENSA

Os integrantes desse desgoverno querem destruir uma coisa que eles nem sabem direito o que é: a imprensa profissional. Na semana passada, Regina DuReich reclamou que não havia "combinado" com a CNN Brasil ser interpelada por suas omissões na Secretaria da Cultura e seu apoio irrestrito ao Genocida. Hoje foi a vez do imprecionante Abraham Weintraub, na mesma emissora, fazer a mesma reclamação. A quadrilha acha que o papel do jornalismo é divulgar apenas boas notícias, sem expor o despreparo ou a cupidez dos poderosos. Estão tendo surpresinhas com a CNN, que ainda passa pano para muito despautério, mas não consegue abafar a contundência de seus contratados. Imprensa e assessoria de imprensa não são a mesma coisa, seus cretinos. Para vocês protagonizarem boas notícias, primeiro precisam produzir boas notícias.

O CALVÁRIO DO BRASIL

Nelson Teich não é uma figura cativante. mas fiquei com dó da humilhação que ele sofreu. Em menos de um mês, o agora ex-ministro da Saúde teve que engolir sapos em público, além de expor às câmeras sua falta de media training. Pelo menos, Teich teve a hombridade de pedir demissão. Gostaria que ele tivesse também a coragem de denunciar o ímpeto genocida do Edaír, com todas as letras. Quem vem agora? O abjeto Osmar Terraplana, que errou todas as previsões e nem por isto se redime? Algum milico, que não entende patavina do sistema de saúde? A única coisa que parece certa é o crescimento da curva. Chegaremos a 20 mil mortos antes de junho, mas nem isto parece convencer o povo, se não a ficar em casa - muitos não podem - pelo menos, a se cuidar. Exemplos não faltam no exterior. A Suécia não aplicou o confinamento, e viu a letalidade explodir. Na Argentina, aqui do lado, a popularidade de Fernández decolou, agora que a pandemia parece controlada por lá. Por que Biroliro insiste na cloroquina e no relaxamento? Ele quer mesmo provocar o caos social, que lhe daria a desculpa para um autogolpe? Ou só é burro mesmo, ao ponto de não saber fazer contas elementares? Perguntas retóricas. Já sabemos as respostas.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

O MOURÃO TORTO

Imaginemos que, daqui a alguns meses, Rodrigo Maia finalmente abra um processo de impeachment contra o Edaír. Com o apoio no Congresso corroído por causa dos mortos na pandemia, o Despreparado finalmente é afastado. Num cenário ainda mais otimista, os milicos se dão conta de que têm muito a perder com Bozo no Alvorada, e de que continuarão no poder se o vice assumir. Coronaro é forçado a renunciar, de maneira indolor para o país. Acontece que esses dois caminhos desembocam no mesmo lugar: Hamilton Mourão. O general parece uma pessoa ponderada e até simpática quando contrastado com seu chefe, mas os dois são farinha do mesmo saco. São inúmeras das declarações ultrajantes de Mourão antes de virar VP. Ele foi até exonerado pela Dilma do Comando Militar do Sul depois de homenagear ninguém menos que Brilhante Ustra. Hoje o cara eximiu qualquer dúvida sobre seu caráter com o artigo estarrecedor que publicou no Estadão. No começo parece até que ele vai atacar o Pandemito, mas logo sobra para a imprensa, os governadores, o Congresso, o Supremo, eu, você - todo mundo que, segundo essa corja, "não deixa" o governo governar. Pode ser só jogo de cena, para agradar à familícia e aos bolsominions. Também pode ser - acho mais provável - o que ele de fato pensa. Ou seja: estamos beeem ferrados.

AFOGADA EM DÚVIDAS


Natalie Wood morreu afogada em 1981, durante uma viagem de barco em que também estavam seu marido Robert Wagner (metade do "Casal 20") e seu amigo Christopher Walken, com quem ela estava rodando um filme. A imprensa fez um carnaval na época: Natalie estaria tendo um caso com Christopher, e teria sido morta por Robert. A dúvida persiste até hoje, mas o documentário "Natalie Wood: Aquilo que Persiste" tenta acabar com ela de uma vez por todas. O filme acaba de estrear na HBO e é conduzido pela filha mais velha de Natalie, a também atriz Natasha Gregson Wagner. Ela entrevista os que chama de seus dois pais: o produtor Richard Gregson, o biológico, e o adotivo, chamado por RJ na intimidade. Sua mãe foi casada com este duas vezes: primeiro nos anos 1950, quando ambos eram muito jovens, e depois nos anos 1960, depois de um divórcio e de um breve casamento com Gregson. A família estendida de Natasha inclui os filhos de outros casamentos de todos os envolvidos, como todo mundo meio que se tratando como irmão. Mas o foco, é claro, é sobre a carreira de Natalie Wood. Ela estreou no cinema aos quatro anos de idade, teve sua primeira indicação ao Osca aos 17 e foi uma estrela do primeiro time até sua morte, aos 43. Pessoalmente, nunca fui muito fã dela: acho meio canastrona, sempre ACTING em caixa alta. Mas foi uma mulher belíssima e caristmática, com cara de musa da bossa nova. "Aquilo que Persiste" vem sendo criticado por ser assumidamente chapa branca. mas eu e meu marido gostamos. Bichas de uma certa idade que somos, estamos na mosca do público-alvo para tudo que revisite a vida das antigas estrelas de Hollywood.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

A ABOLIÇÃO INACABADA

Quando eu estudei História do Brasil no primeiro grau, a princesa Isabel ainda era chamada de A Redentora. Aprendíamos que Sua Alteza, em sua infinita bondade, se apiedou do sofrimento dos negros escravizados e um belo dia, num rompante, foi contra toda a aristocracia nacional e assinou a Lei Áurea. Este gesto abnegado lhe custou o trono, um ano e meio depois. Foi só mais tarde que eu descobri que havia um forte movimento abolicionista no país, e que Isabel era uma peça em um grande mecanismo histórico. Mais tarde ainda, o ativismo negro denunciou o 13 de maio, e adotou 20 de novembro como o Dia da Consciência Negra. A data marca a morte de Zumbi dos Palmares: um personagem do qual ainda pouco se sabe, e que, provavelmente, tinha seus próprios escravos, algo pouco controverso no século 17. Tudo isso para dizer que a abolição não foi um feito individual deste ou daquele vulto, mas uma conquista desejada por boa parte da sociedade brasileira. Só que, como todos sabemos, foi uma conquista parcial, que jogou na rua, de uma hora para a outra, os supostos libertos. Por isto, não ligo a mínima se as lideranças negras preferem não celebrar nada no dia de hoje. E ligo bastante para o que o sicofanta Sérgio Camargo anda fazendo no site da Fundação Palmares, por pura provocação. Há um debate interessante aí, mas não é isto o que Camargo quer. É só puxar o saco de seus amos e garantir a sua boquinha.

AIRTON E RAFAEL

Agora o Brasil já sabe: Airton Guedes e Rafael Augusto Alves da Costa Ferraz testaram negativo para o novo coronavírus. Ainda falta saber o resultado do teste de Edaír Biroliro. Perdão pela insistência, mas é que essa história não monta. Por que o Pandemito demorou tanto a apresentar esses exames, se eles deram negativo? "Ah, mas é um direito dele, não quer que sua privacidade seja invadida..." Cêjura? Quando isto lhe renderia dividendos políticos, Coronaro não hesitou em esfregar na nossa cara sua bolsa de colostomia. Tudo, absolutamente tudo o que ele faz, é para montar uma narrativa (fajuta) e reforçar o apoio do gado. E ainda falta apresentar um TERCEIRO exame. Cadê? Quem viu? Pois é... Mas, o que leva alguém a se testar três vezes, se nas duas primeiras deu negativo? Hmmm, talvez porque ela apresente sintomas? O Bozo deveria mandar seus heterônimos governarem no lugar dele. Aposto que fariam um trabalho melhor. Pelo menos, esses aí deram negativo.

ATUALIZAÇÃO: Pandemito entregou o terceiro exame, que também deu negativo. Só que... neste não constam seu CPF e RG, portanto não há provas de que seja mesmo dele. Tampouco apresentou exame revelando (ou não) a presença de anticorpos em seu sangue, o que demonstraria (ou não) se ele se infectou em algum momento pelo novo coronavírus. Há quem diga que Mijair fez essa pantomima toda de propósito, para posar de vítima depois de entregar os exames. Sei não. Ele não é tão inteligente assim.

terça-feira, 12 de maio de 2020

BRAZIL, I'M DEVASTATED

De-vas-ta-dor. A palavra tem um quê de mulher-bicha, como se só pudesse ser dita por Carmen Verônica. Mas nesta terça ela foi repetida à larga, por fontes - adoro - que assistiram ao vídeo em que o governo imola a si mesmo. O que acontece agora? O Joel Pinheiro manda a gente segurar os fogos: Michel Temer também foi alvo de um áudio de-vas-ta-dor, e conseguiu concluir seu mandato. Vai depender muito do Augusto Aras. Terá o PGR o culhão necessário para denunciar seu chefe? Se ele o fizer e Edaír sobreviver, adeus vaguinha no Supremo. Se ele não o fizer, mesmo com todos os canos fumegantes apontando para o Edaír, Aras perde a credibilidade entre seus comandados e as condições de permanecer no cargo. Também vai depender, é óbvio, do povo. Já tem pesquisa assinalando o derretimento da popularidade do Edaír, e a curva da pandemia está longe de se achatar. Sinal de que vem aí uma tempestade perfeita? Pode ser de-vas-ta-do-ra.

EU QUERO UMA PARA VIVER

O núcleo duro dos apoiadores do Edaír já estava com ele antes do então candidato encampar as bandeiras da Lava-Jato. É um gado que não está muito aí para a corrupção: os verdadeiros inimigos do Brasil são os abortistas, os gayzistas e os comunistas. Foi para essa galera que Pandemito prometeu ontem enviar ao Congresso um projeto de lei proibindo a ideologia de gênero em todo o país. Ideologia, aliás, que não existe: são só os reacionários que usam esse termo, e não quem defende que o gênero é uma construção social. Uma lei dessas tem pouca chance de não ser tida como inconstitucional pelo Supremo, que acabou de barrar uma legislação semelhante em uma cidade de Goiás. Coronaro sabe disso, mas o que importa é parecer que ele se bate pela chamada pauta de costumes. E distrair a atenção do vídeo da famigerada reunião ministerial, onde ele vocifera com todas as letras (e palavrões) que quer trocar o comando da PF para proteger a familícia.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

THAT'S ME AND CORONA

Saudades de falar mal do Trump, né, minha filha? Acontece que ao Edaír faz tanta merda que acaba deixando seu chefe com pinta de estadista. Mas precisamos aproveitar enquanto é tempo: de acordo com todas as pesquisas, estes são os últimos meses do Bebê Laranja na Casa Branca, pois ele não será reeleito em novembro. Então vamos desfrutar de "Losing My Civilians", uma paródia feita pelo site britânico JOE, com Trump cantando sua resposta à pandemia. E se você é novinha a ponto de não conhecer o clipe original do R.E.M., lançado em 1991, clique aqui: é um dos 10 melhores de todos os tempos.

AS BOAS INFLUENCERS

Muito se fala da suposta invencibilidade do Gabinete de Ódio e seu exército de robôs. Sei não: a cada hashtag fajuta que Carluxo e seus autômatos sobem, fica mais evidente que esse poderio está se esvaziando. Com as defecções de Sergio Moro, Joice Hasselmann e tantos outros, o rei não só está nu, mas de quatro. E um movimento oposto vem surgindo: influenciadores e celebridades vêm se abrindo ao debate e se posicionando de forma cada vez mais clara. Um exemplo dessa onda foi a incrível live de Anitta com Gabriela Prioli. A dupla improvável se reuniu para o que estão chamando de "aula de política", mas que, na verdade, é mais básico: uma aula de OSPB, organização social e política brasileira. Há tempos que eu venho defendendo aqui no blog que essa matéria volte ao currículo do primeiro grau. Eu fui educado durante a ditadura militar, e tive aulas de Educação Moral e Cívica - uma babaquice cívica, do tipo "respeito à bandeira nacional", bem ao gosto dos milicos. Já naquela época pegava mal, e a EMC foi transformada em OSPB, que explicava o funcionamento dos poderes, a diferença entre deputado e senador, esse tipo de coisa. Hoje em dia, são raríssimas as pessoas que sabem disso. A ignorância de Anitta sobre o assunto é estarrecedora, mas nada surpreendente. O bacana é que ela não tem a menor vergonha de admitir que não sabe (e ninguém deveria ter, sobre qualquer coisa).
Também foi bacanérrimo o vídeo em que Felipe Neto traçou um risco no chão. Ou você é contra o fascismo, ou é fascista: não existe ponto neutro. A surpresa aqui foram os ataques que o influenciador mais influente do Brasil vem recebendo, não dos fascistas, mas da esquerda. Aquela esquerda ressentida e rancorosa, que acha que Lula é que é o mito, e se comporta de maneira tão bovina quanto os bolsominions. Felipe Neto cresceu diante das câmeras. Amadureceu, mudou de ideia, evoluiu. Vir atrás dele num momento como esse, reclamando que lá atrás, um dia, ele preferiu o Bozo ao Lula, é de uma canalhice imperdoável. Só não é pior do que os celerados que desencavaram um vídeo do Lima Duarte criticando o PT, como se isto o desautorizasse a criticar Biroliro. Esses petistas idiotas fazem exatamente o jogo que interessa ao Edaír: forçam a polarização absoluta, como se não existissem outras alternativas. Lula já era, galera, desapega. Agora é hora de nos unirmos e pensarmos em outras alternativas, sem ficarmos apontando dedo uns para os outros. Porque o inimigo não está no meio de nós.

domingo, 10 de maio de 2020

RAINHA DA SUÁSTICA

Dá até vergonha de olhar para a implosão de Regina DuReich. Neste sábado foi divulgado um manifesto conta suas posições, com mais de 500 assinaturas. Não é uma "minoria gritalhona", como ela finge que acredita: é a fina flor da cultura brasileira. A vaidade da (por enquanto) secretária da Cultura, sua insistência em fazer parte do pior governo de todos os tempos, já lhe custaram um contrato com a Globo, sua credibilidade como artista e como pessoa, e, agora, o apreço de seus pares. Regina não é louca, mas é burra. Como que uma atriz interpreta "Malu Mulher" durante anos e não muda a maneira de pensar? Como que ela pôde achar que o Edaír é "um homem doce"? "O setor me ama", repetiu a Rainha da Suástica à CNN Brasil. Vamos repassar então o tamanho desse amor:

Brasil, 08 de maio de 2020
Somos artistas brasileiros e fazemos parte da maioria de cidadãs e cidadãos que defende a democracia e apoia a independência das instituições para fazer valer a Constituição de 1988.
Fazemos parte da maioria que entende a gravidade do momento que estamos vivendo e pedimos respeito aos mortos e àqueles que lutam pela própria sobrevivência no país devastado pela pandemia e pela nefasta ineficiência do poder público.
Fazemos parte da maioria de brasileiros que não tolera os crimes cometidos por qualquer governo, que repudia a corrupção e a tortura e que não deseja a volta da ditadura militar.
Fazemos parte da maioria que não aceita os ataques reiterados à arte, à ciência e à imprensa, e que não admite a destruição do setor cultural ou qualquer ameaça à liberdade de expressão.
Como artistas, intelectuais e produtores culturais, formamos a maioria que repudia as palavras e as atitudes de Regina Duarte como Secretária de Cultura. Ela não nos representa. 

sábado, 9 de maio de 2020

AO VIVO E A CORES

Demorou, mas finalmente eu irei participar de uma live. Vai ser hoje à noite, às 21 horas, no perfil do Instagram do Cenas da Teledramaturgia, onde vem acontecendo debates com gente que faz TV. Eu vou mediar um bate-papo com o Leonardo Nogueira, diretor artístico de novelas da Globo como "O Tempo Não Para" e "Sol Nascente" (e também marido da Giovanna Antonelli). Quem quiser, já pode ir mandando perguntas - para ELE. Para mim, eu respondo por aqui mesmo.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

V-E DAY

Meu pai foi pracinha da FEB na campanha da Itália. Ele estava em Milão no final de abril de 1945 e viu com seus próprios olhos os corpos do ditador dascista Benito Mussolini e seus asseclas na Piazzale Loreto, pendurados feitos porcos num açougue. Fiz questão de postar esta imagem chocante porque hoje se comemoram os 75 anos da rendição incondicional dos nazistas e o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa (no Japão, ela ainda iria até setembro). Quem quiser ver fotos ainda piores deve clicar aqui. Depois de fuzilados, Mussolini e sua amante Clara Petacci tiveram seus cadáveres desfigurados a chutes. Uma lembrança macabra, porém tranquilizadora, de que a extrema-direita jamais, em lugar algum, chegou a bom termo. Vejam só o que está esperando por vocês, bolsominions, olavetes, evanjegues e demais fascistinhas de merda.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

O PUM DA PALHAÇA

Eis aí, na íntegra, a entrevista épica e histórica que Regina Duarte deu na tarde de hoje para a CNN Brasil. A (ainda) secretária da Cultura profere cretinices o tempo todo, mas quem estiver sem tempo pode ir direto para os cinco minutos finais. É ali que a ex-namoradinha do Brasil joga uma pá de cal sobre si mesma, enterrando-se em vida e se desmaterializando em memes. Não vou me estender mais sobre o assunto: já falei muito na minha coluna no F5. Só lamento que uma das nossas maiores estrelas tenha se revelado tão torpe quanto o governo de que participa. Uma sucateira, com o dom de transformar o que toca em ferro-velho.

SAPORI ORIUNDI


Já que tão cedo ninguém vai viajar para valer, o jeito é viajar pelas séries. Nos últimos dias andei pela Itália, país onde se passam "My Brilliant Friend" e boa parte de "The New Pope". Esta última é uma espécie de segunda temporada de "The Young Pope", exibida três anos atrás. E, ouso dizer, melhor, porque mais cínica e divertida. Paolo Sorrentino, um dos meus diretores favoritos, abusa ainda mais da música pop e dos enquadramentos luxuosos. John Malkovich está uma pândega como um nobre inglês que usa guyliner e se faz de rogado para assumir o Trono de São Pedro, no lugar do jovem papa (Jude Law), que segue em coma depois de um infarto. A trama desanda um pouco do meio para o fim, mas a opulência visual, o corpão do Jude e as piadas para cima do Vaticano seguraram o meu interesse.


Também gostei mais da segunda temporada de "My Brilliant Friend" do que da primeira, apesar de me irritar muito com essa mania da HBO de dar nome em inglês até para suas séries italianas. Eu comecei a ler "A Amiga Genial" alguns anos atrás, mas larguei no meio: a relação entre Lila e Lenù não me pegou de jeito, talvez por eu não ser menina. Mas na TV ficou claríssimo o drama das duas, que tentam usar a inteligência e a paixão pelos livros para escapar de uma vida medíocre em um subúrbio de Nápoles. As atrizes Margherita Mazzucco e Gaia Girace estão ótimas, as paisagens de Ischia são lindíssimas e a trilha sonora, além de sucessos italianos da década de 1960, ainda conta com temas instrumentais de Max Richter, um compositor erudito contemporâneo que eu ainda não conhecia. Recomendo vivamente seu álbum "Recomposed", onde ele desfaz e reconstrói "As Quatro Estações" de Vivaldi. Disponível no YouTube e nas boas plataformas do ramo.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

VAI VALER A PENA TER AMANHECIDO?

Eu já vi a Regina Duarte brava. Levei um ligeiro esporro dela na época em que eu trabalhei na Globo. Regina era a convidada do dia do "Vídeo Show", então um talk show comandado pelo Zeca Camargo, e o pretexto de sua visita eram os 35 anos de "Malu Mulher". Como eu sempre fazia com os convidados, fui ao camarim repassar o roteiro do programa com ela. Regina ficou furiosa quando viu que havíamos selecionado uma cena famosa do primeiro episódio da série, quando o ex-marido de Malu (Dênis Carvalho) joga pela janela a tese de mestrado dela. "Esta cena é óbvia demais! Todo mundo já mostrou 200 vezes!" Corri para o switcher e conseguimos trocar a tempo por outra sequência. Por ter tido uma amostra do tempero de Regina, não me espantei quando soube que a renomeação do terraplanista Dante Mantovani para a Funarte havia sido revogada menos de 24 horas depois de publicada no Diário Oficial. Regina pode ter ligado pro Bozo, ou algum de seus asseclas, e ameaçado sair batendo a porta - não exatamente o que o Despreparado precisa neste momento. Hoje rolou um almoço de conciliação em Brasília, mas Edaír é feito o escorpião da anedota: não consegue deixar de ser escroto, é da sua natureza. Convidou Sérgio Camargo, o negro de extrema-direita, e não avisou sua secretária da Cultura, que adoraria demitir o abjeto presidente da Fundação Palmares. Mas ela se comportou feito uma lady, talvez na esperança de que ter aberto mão do salário na Globo e de sua credibilidade como artista irão valer a pena. Não irão, Regina. Uma hora, você vai ser expulsa daí. Vai ter que começar de novo e contar consigo.

NUMA BACIA DE SANGUE

A esta altura, todo mundo já viu e se emocionou com o vídeo que Lima Duarte gravou em homenagem a Flavio Migliaccio. Mas quero postá-lo aqui, para incorporá-lo à história desse blog. São palavras dolorosas, de uma geração que sofreu com uma ditadura militar, derrotou-a e agora vê, em sua reta final, o pior lado desse período histórico botar a cabecinha de fora. Eu te entendo, Lima.

terça-feira, 5 de maio de 2020

CALA BOCA JÁ MORREU

Edaír está em pâ-ni-co. Hoje ele perdeu as estribeiras no cercadinho do Alvorada, porque não consegue mais esconder que interferiu na Polícia Federal para proteger seus filhos e seus (ainda) aliados. A PF tem duas investigações em andamento que atingem a familícia e agregados. Uma delas é sobre quem está espalhando fake news contra os adversários do Bozo (uma dica: começa com Car e termina com luxo). A outra, é sobre quem está organizando as manifestações antidemocráticas e ilegais, como a Globo gosta de frisar (outra dica: são deputados como o asqueroso Daniel Silveira, do PSL do Rio de Janeiro). Todas elas implicam em crimes de responsabilidade, que implicam em impeachment. Além disso, Pandemito precisa distrair sua claque de sua gestão desastrosa da crise provocada pela pandemia. Quer que todo mundo, não só a imprensa, cale a boca e deixe-o construir a narrativa que quiser. Última dica: vem calar, vem.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

TÁ LÁ O CORPO ESTENDIDO NO CHÃO

O Brazil não conhece o Brasil. O Brasil não merece o Brazil. A pátria amada mãe gentil matou, nas últimas 24 horas, dois filhos seus que não fugiram à luta. Primeiro foi Aldir Blanc, que contraiu a Covid-19 dentro do hospital onde foi se tratar de uma infecção urinária. O cara nunca saía de casa e, quando saiu, morreu. Depois foi Flávio Migliaccio, que simplesmente não aguentou mais a barra que estamos vivendo. Enquanto isso, Regina Duarte, a suposta secretária da Cultura, manda mensagem privada para a família de Blanc, ao invés de soltar uma manifestação oficial de pêsames. Ela, que um dia teve medo de um governo do PT, hoje se borra de pavor das olavetes, que iriam atacá-la nas redes por lamentar a morte de um "comunista". 

Eu tive o privilégio de crescer ao som das letras de Aldir Blanc. Tive a sorte de, recém-ingressado na APCA, participar da votação que deu a Flávio Migliaccio o prêmio de melhor ator de TV de 2019. Ele não foi receber o prêmio: já adoentado e proibido de viajar por seu médico, mandou um vídeo de agradecimento. As circunstâncias de seu suicídio ainda não foram esclarecidas, mas a carta que ele deixou é de partir o coração. Meu colega Fefito publicou e depois apagou, pois alguns leitores acharam que poderia ser um gatilho. Mas eu posto aqui uma foto. Se você tem tendências, não leia, é claro, e procure ajuda profissional ao invés de dar pinta aqui no meu blog. Mas acho que hoje nós precisamos todos de ajuda profissional. Uma pandemia sem fim, um governo que já deveria ter acabado, um desalento que só aumenta a cada morte de um grande artista ou intelectual. E a ponta de um torturante band-aid no calcanhar.

THE OLD POPE

Muita gente reclamou que "Dois Papas" pega leve demais com o papa Francisco. O filme de Fernando Meirelles conta que o então padre Jorge Bergoglio foi omisso durante a ditadura militar argentina, mas mostra que ele se arrependeu e depois ainda se transformou no papa mais bacana desde João 23. Eu não acho isso grave: Francisco, pelo menos, evoluiu. O mesmo não se pode dizer de Josef Ratzinger. "Dois Papas" retrata Bento 16 como um velhinho ranzinza, meio desligado das coisas do mundo, mas o fato é que o ex-papa continua sendo o reacionário que sempre foi. Em mais uma quebra do silêncio que prometeu cumprir quando abdicou ao trono de São Pedro, Adolf I (lembra? era assim que eu o chamava aqui no blog) declara em sua biografia autorizada, recém-lançada na Alemanha, que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é uma obra do Anticristo, assim como o aborto e a vida criada em laboratório. Nunca é demais lembrar que Bento 16 acobertou milhares de padres acusados de assédio sexual, e que seus auxiliares afundaram as finanças do Vaticano em barafundas mil. Esse cadáver insepulto tinha mais é que tomar vergonha na cara e morrer de uma vez.

TERRA DOS SONHOS


Muitos amigos meus estão babando por "Hollywood" nas redes sociais. Nos primeiros episódios, eu também babei. A nova minissérie de Ryan Murphy tem vários dos ingredientes que fizeram a fama do showrunner: glamour, alfinetadas, viadagem. Mas carece do veneno letal de "Feud: Bette vs. Joan", ou do vazio existencial de "The Assassination of Gianni Versace". Está mais para um episódio de "Glee", em que todo mundo canta junto no final feliz. Porque, em "Hollywood", Murphy dá uma de Tarantino, reescrevendo a história ao seu gosto. A trama começa com os dois pés na lama, tendo como um dos cenários o posto de gasolina onde os atendentes eram todos michês, que existiu na vida real. A senha usada pelos clientes também poderia ser um outro título para o programa: "dreamland", terra dos sonhos, em mais de um sentido. "Hollywood" também mostra a luta de jovens atrizes por um lugar ao sol e a de atrizes veteranas para continuar nele. As festas de Goerge Cukor com rapazes pelados na piscina de fato aconteciam, e o maléfico agente Henry Wilson (com quem Jim Parsons se parece) de fato transava com seus clientes. Mas, da metade para o fim, o que parecia uma trama deliciosamente sórdida vira um conto de fadas. Mulheres, negros e gays se unem e triunfam na Hollywood de 1948, de um jeito que nem em 2020 triunfaram. Só que Murphy não tem o cinismo de Tarantino: sua história alternativa é mais do que implausível, é bobinha. Isto não quer dizer que "Hollywood" seja ruim. A série não tem barriga, é uma festa para os olhos e todos os atores estão bem. Mas tive a sensação de que comecei a beber um cocktail fortíssimo, de onde o álcool evaporou. No final era só um refrigerante. Ainda gostoso, mas sem a menor capacidade de embriagar.

domingo, 3 de maio de 2020

A DANÇA DE SHIVA

O hinduísmo também tem uma Santíssima Trindade, de atributos mais claros do que a cristã. Brahma é o criador; Vishnu, o preservador; e Shiva, o destruidor. Isto não quer dizer que Shiva seja um deus maligno. Sua destruição é sempre para melhor. Ele elimina o que não serve mais, abrindo caminho para a regeneração. Sua famosa dança, retratada em inúmeras estátuas, mostra que seus muitos braços conseguem atingir coisas diferentes. Pois eu acho que Sérgio Moro pode ser um avatar brasileiro de Lord Shiva. Longe de mim insinuar que o ex-juiz e ex-ministro seja um santo. Já sabemos de cor que ele não foi nada imparcial no processo que levou Lula à cadeia (o que tampouco quer dizer, veja bem, que Lula seja inocente). Mas Moro vem assumindo um papel inédito na história brasileira. Está em vias de se tornar o indivíduo que destruiu as carreiras políticas dos dois políticos mais importantes dos últimos 20 anos. Só os petistas deliram que Lula ainda tem chance de voltar à presidência: mesmo que o ex-presidente seja inocentado de tudo, o que é impossível, ele nunca mais terá o apoio indispensável da classe média. Agora o Doutrinador de Curitiba volta seus poderes contra o ex-patrão. Tremo em pensar no que ele disse durante as quase 11 horas de depoimento neste sábado. E vem mais por aí: Moro prometeu provas materiais. Não é por outra que o gado está desesperado, agredindo jornalistas e partindo para a ignorância. Mas é inútil lutar contra os desígnios de Lord Shiva.

sábado, 2 de maio de 2020

QUANDO O INIMIGO É A REALIDADE

Algumas das imagens mais chocantes desta pandemia foram captadas ontem na Praça dos Três Poderes, quando profissionais da saúde que protestavam por melhores condições de trabalho foram agredidos por bolsominions. É preciso ter uma tonelada de titica na cabeça para atacar quem está lutando para nos salvar, mas isto não é novidade em se tratando do gado. O que ficou claro para mim é que esses babacas estão tentando torcer a realidade à força. Não é uma exclusividade brasileira. O ditador do Turcomenistão, por exemplo, proibiu a palavra "coronavírus" na imprensa local, e o país não reporta seu número de casos. Mas aqui ainda somos uma democracia, e as liberdades que ela garante são confundidas pelos cretinos com licenças para mentir e sair no braço. Todo governante autoritário precisa que a população de seu país acredite viver no melhor dos mundos. Quando a realidade insiste em se imiscuir, o resultado é censura e perseguição política, como na China. O tempero tupiniquim a este prato indigesto são esses apoiadores acéfalos, que buzinam em frente a hospitais, mandam abrir os caixões e ignoram o perigo da Covid-19. Seria maravilhoso se morressem todos, mas o chato é que eles levam inocentes junto.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

DISCO INFERNO


Tenho medo de que o que aconteceu hoje se torne o novo normal: uma espécie de pré-estreia mundial online. Eu e sei lá quantas pessoas ao redor do mundo vimos o filme chileno "Ema" na plataforma Mubi (aliás, ainda deve ter gente vendo: o longa fica disponível lá por 24 horas, gratuitamente). Entretanto, essa première virtual deu a "Ema" uma aura que esse novo trabalho de Pablo Larraín talvez não tivesse num lançamento convencional. É quase um trabalho experimental, com um roteiro que parece cru de propósito e uma trilha eletrônica fenomenal de Nicolas Jaar. O fiapo de história é um pretexto para um estudo de personagem, mas saímos sem entender quase nada do que motiva essa diva pós-punk pansexual. A bailarina Ema e seu marido coreógrafo (o mexicano Gael García Bernal) estão arrependidos de terem devolvido o garoto que adotaram. O pestinha apenas tacou fogo na casa e feriu a tia gravemene, veja só. Agora a mãe relapsa quer o filho de volta, mas o filme não é só sobre isso. Ema também gosta de transar com quem aparecer pela frente e, nas horas vagas, pega um lança-chamas e sai queimando carros e semáforos por Valparaíso. Não é nada simpática, mas a atriz Mariana Di Girolamo deixa-a sempre interessante. A distribuidora Imovision quer lançar "Ema" nos cinemas, então quem perdeu hoje ainda tem chance. Mas pense se você quer mesmo conhecer uma incendiária.

YOU'LL KEEP ON FIGHTING TO THE END

O Queen é a banda da minha vida. Isto quer dizer que eu nunca aceitei totalmente o Adam Lambert no lugar do Freddie Mercury. Mesmo assim, eu CHOREI quando ouvi "You Are The Champions" pela primeira, e CHOREI AINDA MAIS quando vi o clipe. Que não passa de uma livezinha, cada um em sua casa, intermeada por cenas do lockdown e de pessoas curadas ao redor do mundo. Deus salve a Rainha, e nos salve a todos da imbecilidade que coroa o vírus.