segunda-feira, 30 de março de 2020

ISOLAMENTO VERTICAL


Nessa época de cinemas fechados, era batata que o filme do momento surgiria no internet. O confinamento até que foi propício para o sucesso de "O Poço": a prisão vertical em que os presos dos andares de baixo comem as sobras de quem está nos andares de cima é uma metáfora involuntária para o tal do isolamento vertical, uma das propostas do Capitão Corona para enfrentar a pandemia (a outra é liberou geral e foda-se). A premissa deste trhiller espanhol é mesmo interessante, e eu fui ver esperando um tratado sobre a desigualdade, na esteira de "Parasita", "Coringa" ou "Bacurau". Só que o roteiro não está à altura de seu ponto de partida. Não chega a lugar nenhum, não oferece uma conclusão, não satisfaz o espectador.  Perde-se em sandices como "a mensagem é a panacota". É uma pena, pois faltou coragem de se aprofundar (aham). O buraco é mais embaixo, bem mais embaixo. De qualquer forma, que bom que temos TV e internet nesses tempos tão estranhos. Um poço sem fundo ainda é melhor do que nada.

domingo, 29 de março de 2020

ACHOOOU

Conheci "Me Chame Pelo Meu Nome" através do cinema. Amei tanto o filme que vi quatro vezes, meu recorde depois de adulto. Só então comprei o livro, que eu li até a página 100 e depois larguei. Àquela altura, eu já estava meio enfastiado da história. Também achava perfeito o final que o roteirista James Ivory deu ao amor entre Elio e Oliver. Aquela longa cena do Timothée Chalamet chorando em frente à câmera enquanto sobrem os créditos é de cortar o coração. Mas a mensagem que me ficou foi positiva: o rapaz viveu um romance de verão, uma paixonite adolescente. Outras virão, maiores e melhores. A vida só está começando. Talvez até por isto eu não tenha chegado ao fim do livro, pois sabia que Elio visitava Oliver nos Estados Unidos, depois Oliver visitava Elio na Itália, e ninguém reatava com ninguém. Me pareceu redundante. Aí, no final do ano passado, o autor André Aciman lançou uma continuação da história, e dessa vez eu li tudinho, do começo ao fim. Acabou de sair no Brasil com o título "Me Encontre", mas eu li no inglês original. Sim, Elio e Oliver se reencontram mais uma vez, mas não é tão simples assim. Quase metade das páginas é dedicada ao encontro do pai do Elio, agora divorciado, com uma mulher muito mais jovem em um trem rumo a Roma. Na segunda parte, um Elio trintão morando em Paris se envolve com um homem muito mais velho. Na terceira, já bem fininha, Oliver dá uma festa a que comparecem seus dois crushes atuais - um homem e uma mulher - ao mesmo tempo em que pensa em Elio sem parar. Os pombinhos só aparecem juntos nas últimas 12 páginas, e para entender tudo o que se passou é preciso conhecer o final de "Me Chame Pelo Seu Nome" (o livro, não o filme). Um dia "Me Encontre" também será filmado, oxalá com Chalamet e Armie Hammer nos papéis que os consagraram. Mas não será tarefa fácil: há pouquíssima ação, muito diálogo e uma boa dose de elucubração. É um livro bonito e bem escrito, mas acho que eu gostava mais do meu desfecho.

O PRIMO DO PORTEIRO DO PRÉDIO

Os bolsominions estão passando por uma mutação e se tornando uma cepa ainda mais letal: os coronaplanistas. Desde que Biroliro disse no programa do Datena que desconfia que as mortes por covid-19 estão sendo exageradas pelos governos estaduais e pela mídia sórdida, o gado correu às redes para repetir que a pandemia é uma ficção. A ungida Andressa Urach, por exemplo, é uma que está pecando muito mais do que quando era puta, espalhando mentiras no Instagram. Mas o episódio mais patético até agora (veja bem: até agora) envolve o tuíte aí ao lado, replicado por robôs e perfis falsos com as mesmíssimas palavras. Até o atestado de óbito do tal primo do porteiro do prédio já está circulando por aí. Acho fabuloso alguém acreditar nessas informações vagas, sem endereço nem nomes nem circunstâncias, e depois vir dizer que a imprensa não é confiável. Cuidado, porque o que está em jogo agora não é nenhuma lacração, nem mesmo um projeto de poder. São vidas humanas.

sábado, 28 de março de 2020

A CAMPANHA QUE NUNCA EXISTIU


Durou pouco mais de 24 horas. Começou na quinta à noite, com o Zero-Um divulgando a hashtag em suas redes sociais. Era a senha para o gado fazer o mesmo. Ontem a Secretaria da Comunicação divulgou o vídeo acima, feito com cenas de bancos de imagem. Reparou que quase todos os trabalhadores que aparecem no filme são negros? O troço não paasou na televisão e só circulou nos perfis dos minions, mas a repercussão foi terrível. Logo surgiu uma versão com a mesma locução, mas mostrando o Justus tomando champagne e o Véio da Havan andando de helicóptero. Hoje a Secom apagou todas as postagens com #OBrasil NãoPodeParar e está jurando de pé junto que essa campanha nunca existiu. Existiu sim: taí a prova neste post, e por toda a internet. Mais um vai-que-cola desse governo que não sabe o que fazer.

CONTIGO EN LA DISTANCIA

Já é consenso global de que Biroliro é o pior de todos os chefes de estado no combate ao coronavírus. Mas López Obrador, o presidente do México, está pelo menos entre os Top 5. O esquerdista AMLO, como é mais conhecido, continua beijando bebês e se esfregando na multidão, numa prova cabal de que a estupidez não é privilégio da extrema-direita (mas talvez seja dos populistas). Pelo menos os mexicanos já contam com uma super-heroína no combate à covid-19: Susana Distancia, cujo nome quer dizer "sua distância saudável" (su sana distancia). A personagem caiu no gosto do povo e é claro que já rendeu centenas de memes e paródias. Enquanto isto, aqui no Brasil, o governo faz campanha para os pobres (e só eles) voltarem a trabalhar. Só que nem os mais necessitados estão dispostos a morrer por alguns trocados. Todos os líderes de favelas e comunidades carentes estão incentivando os moradores a ficar em casa. No Rio, áreas controladas por milícias têm toque de recolher. Sim, você leu direito: até os milicianos estão preocupados com a pandemia. Menos um, é claro.

sexta-feira, 27 de março de 2020

MILANO È FOTTUTA

Milão se fodeu. A cidade italiana ocupa um lugar especial no meu coração, depois que eu fui para lá dois anos seguidos a convite de uma marca de bebidas. Mas hoje eu sinto pena dela: os milaneses embarcaram na ridícula campanha do governo, "Milão não fecha", e o resultado está aí. O número de mortes por covid-19 voltou a subir na Itália, chegando a 919 nesta quinta. E o prefeito de Milão diz agora que se arrepende amargamente do filme acima, que traz sandices do tipo "não estamos com medo". Os italianos ainda tinham a ligeira desculpa de não saber direito o tamanho da encrenca, mas nós não temos. No entanto, as ruas de São Paulo voltaram a se encher depois que Coronaro foi à TV dizer que gripezinha não é problema. Balneário Camboriú teve até carreata comemorando do fim da quarentena. Sinto muito, mas parece que o Brasil também vai se foder.

quinta-feira, 26 de março de 2020

I DIDN'T MEAN TO MAKE THEM DIE

Meu WhatsApp, como o de todo mundo, está coalhado de memes sobre o cornavírus. Áudios engraçadinhos, figurinhas do Biroliro e, de uns dias para cá, paródias musicais. Achei que nada superaria "I Wanna Wash My Hands", mas eis que surgem the champions. Afinal, o Queen sempre foi melhor que os Beatles.

A GLÓRIA DE DORIA

Precisamos falar sobre João Doria. Sim, sim, o governador paulista é um conhecido oportunista. Assim como o Alexandre Frota, ele é sempre um dos primeiros a correr para o lado onde o vento sopra. Por isto mesmo, é bastante significativa sua postura durante a pandemia da Covid-19. Doria deixou de lado o histrionismo e as fantasias de gari com que nos brindava no começo de seu mandato como prefeito de São Paulo. De repente, virou um estadista - ainda mais quando contrastado com o Despreparado que infectou o Planalto. Tem tratado esta crise com muita seriedade e responsabilidade. Também está se esforçando, é claro, para se mostrar muito mais confiável do que Coronaro. Fez questão de publicar na internet seu exame do coronavírus, coisa que Mijair jamais fará, porque todo mundo sabe que ele e Micheque deram positivo. Ontem ele peitou o ex-presidente em exercício durante a famosa reunião com os governadores do Sudeste, e depois divulgou o vídeo para todos os canais de TV. "Ãin, mas ele só pensa em se eleger presidente em 2022", dirá o gado. Não: Doria já deu provas cabais de que se preocupa valer com a economia e com a saúde da população. Mas claro que ele tem ambições presidenciais, e não há nada de errado com isto. Só o Bozo acha ruim, porque sabe que Doria será seu pior adversário. Para começar, não dá para colar nele a pecha de petista ou esquerdista. Para completar, há a possibilidade concreta da pandemia causar menos estrago em São Paulo do que no resto do Brasil, tanto no PIB como no número de mortes. Aí, baubau, Bostonazi já era. Quero ressaltar que João Doria nunca foi o candidato dos meus sonhos e que eu sigo com dois pés atrás em relação a ele. Mas, se a escolha for entre ele e o Biroliro, não será nada difícil.

quarta-feira, 25 de março de 2020

DISQUE PA' MATAR LA TUSA

Estou fazendo um esforço de reportagem para não falar nem do coronavírus nem do Coronaro, seu maior difusor. Não aguento mais esses dois assuntos, e acho que você também. Portanto, vamos dar um respiro. Lá vai o vídeo da musiquinha de maior sucesso na América Latina neste momento, que me infernizou nessa viagem ao México. Faz só três semanas, mas parece que foi no século passado...

SEMPRE GABRIELA

A CNN Brasil entrou no ar com muitas gafes e inúmeras passadas de pano no Biroliro. Mas, talvez sem querer, lançou uma musa para os críticos desse governo: a advogada Gabriela Prioli, que participa do quadro "O Grande Debate" no telejornal "Novo Dia". Logo na estreia, a moça jantou Caio Coppolla, até então desacostumado a enfrentar um oponente munido de dados, calma e bom senso. O baque foi tão grande que Caio imediatamente produziu um atestado e não voltou mais ao programa. Foi substituído por Tomé Abduch, porta-voz do movimento Nas Ruas: um cara que comete um erro de concordância atrás do outro e, apesar de sempre pedir para ninguém se deixar levar por preferências pessoais, nunca consegue esconder sua babação por Coronaro. Consegue ser ainda mais frágil que seu antecessor. Tem sido divertido ver Gabriela enrabá-lo todas as manhãs (aliás, já se diz nas redes sociais que "O Grande Debate" deveria ser transmitido pelo Pornhub). Hoje Tomé se deu ao trabalho de reler só as partes menos polêmicas do desastroso discurso de ontem do Mijair, na vã tentativa de provar que o ex-presidente em exercício diz alguma coisa com coisa. Com o sorriso doce que lhe é peculiar, Gabriela Prioli desmontou cada um dos argumentos e ainda expôs o puxa-saquismo de seu adversário. Protegida dos ataques machistas dos minions por causa de sua beleza, ela destila firmeza, educação e simpatia. Além de um ar de superioridade plenamente justificado.

terça-feira, 24 de março de 2020

TOKYO 2021

Antes que algum engraçadinho me avise: claro que eu sei que a Olimpíada de Tóquio não mudou de nome. Mesmo transferida para o ano que vem, ela continuará se chamando 2020. Era o último grande evento que ainda faltava ser adiado ou cancelado, e eu entendo a hesitação. Os Jogos são o maior evento do planeta: movimentam bilhões de dólares e milhares de pessoas, e levam anos para ficarem prontos. Agora os japoneses têm um ano a mais para nos embasbacar com a cerimônia de abertura, e os atletas também treinarão mais. Miraitowa e Someity agradecem.

POR TUTATIS, BELENOS E BELISAMA

Quem acompanha este blog talvez saiba que o grande personagem da minha infância é o Tintin, por quem eu sou obcecado até hoje. Mas Asterix ocupa um mais que honroso segundo lugar. Hoje morreu seu desenhista, Albert Uderzo, aos 92 anos de idade. O fato é que as aventuras de Asterix e Obelix perderam qualidade depois que o roteirista René Goscinny se foi, em 1977, e Uderzo tomou para si a tarefa de também escrever as histórias. Mas isto não diminui o brilho de seus álbuns, que conseguem ensinar história antiga e fazer rir ao mesmo tempo. Como muita gente, comecei a entender o que era o Império Romano nas páginas de Asterix. Agora preciso comprar "Asterix e a TransItálica", de autoria dos sucessores de Uderzo e Goscinny: o roteirista Jean-Yves Ferri e o ilustrador Didier Conrad. Lançado em 2017, é o tal que tem um personagem chamado Coronavírus.

segunda-feira, 23 de março de 2020

OS RUINS SÃO AINDA PIORES

A pandemia do coronavírus tem revelado que alguns líderes mundiais são de fato grandiosos, com a alemã Angela Merkel. Também mostrou que Doria e Witzel, com todo o oportunismo que lhes é peculiar, também são capazes de agir com seriedade quando o momento exige. Quem se afunda mais a cada dia que passa é a corja da extrema-direita, que não tem o menor estofo - intelectual, emocional, espiritual - para enfrentar um problema de verdade, e não uma quimera nascida de suas entranhas. Olavo de Carvalho passou atestado de que é, de fato, um dos piores seres humanos vivos, ao divulgar um vídeo jurando que ninguém morreu de covid-19 e que é tudo manipulação da mídia. O YouTube removeu o original do ar, mas eu reproduzo aí acima a versão do canal Poder 360, dirigido a um público adulto e não-influenciável. Enquanto isso, Biroliro gravou um vídeo caseiro dando a entender que é ele qume vai trazer a cura da doença, a miraculosa cloroquina, desenvolvida pelo hospital "Alberto" Einstein. Seu filho Zero-Um e Ricardo Salles, o ministro da Destruição, tentaram difamar o dr. Drauzio Varella e, ao mesmo tempo, convencer os incautos de que a quarentena é um exagero, em tuítes que o próprio Twitter cuidou de apagar. Aí surgiu a tal da MP que substitui o salário, durante quatro meses, por um curso online... Essa barbaridade já foi cancelada, mas só ter sido promulgada já prova que poucos prestam neste governo. Paulo Guedes não tem um pingo de sensibilidade social e o Despreparado só pensa na própria reeleição, mas parece incapaz de entender que ninguém se reelege matando pobre. Pois é, nós já sabíamos que eram ruins, mas são piores ainda.

ATUALIZAÇÃO: Quem viu, viu. O YouTube removeu definitivamente o vídeo do Olavo de Carvalho duvidando do coronavírus, até do canal do Poder 360o.  Para o post não ficar sem ilustração, catei essa linda foto do ex-astrólogo dodói, padecendo de dores horríveis e sem dinheiro para pagar o hospital. Ô dó.

domingo, 22 de março de 2020

MORDIDO POR DENTRO

Estou chocado com a morte do Bruno Lima Penido. Trabalhamos juntos no "Video Show", entre 2013 e 2014. Ele já estava na Globo há muito mais tempo do que eu e lá continuou, participando das equipes que escreveram "Malhação - Viva a Diferença", "Verdades Secretas" e "A Cara do Pai". Também publicou um livro de poemas em 2018, "Mordidas por Dentro". É como eu me sinto agora: dilacerado, sem entender porque um cara tão talentoso se foi aos 41 anos. Nós nos falamos pela última vez em outubro passado (travamos uma guerra de figurinhas pelo WhatsApp, ele tinha umas ótimas) e agora me arrependo de não termos falado mais. É a velha história: converse com as pessoas, aproxime-se mais delas, mesmo nesses tempos de distanciamento social. Quem está aqui hoje, pode não estar mais amanhã.

sábado, 21 de março de 2020

GOLPE NO SÍTIO

A revista Crusoe e o site O Antagonista avisam que Biroliro anda pensando em declarar estado de sítio, usando a pandemia como desculpa. Acontece que o sítio só deve ser decretado quando um estado anterior, o de defesa, não surtiu resultados. Por que o Despreparado quer pular etapas? Para criar um impasse com o Congresso e torcer que suja clima para um golpe. Por que o estado de defesa não depende de aprovação parlamentat. Era só Mijair dar uma canetada. O de sítio, por outro lado, tem que passar pela Câmara e pelo Senado. E alguém acha que as duas casas irão aprovar um estado que suspende garantias constitucionais, como o direito à reunião e à livre expressão? Ainda mais com a proposta vinda de um golpista confesso? Aí, quando levar um "não" na fuça, o Bozo se sentiria empoderado para chamar os milicos e dar um autogolpe. Acontece que a chance disso acontecer se esvai um pouco mais a cada dia que passa, porque os minions estão diminuindo a olhos vistos. Depois da defecção de Janaína Paschoal, ontem foi a vez do Grupo Bandeirantes - que, como todas as emissoras abertas que não se chamam Globo, vinha apoiando Coronaro de maneira explícita. A Band, muito ligada ao agronegócio, não perdoou a patacoada do Dudu Bananinha e do Ernesto Capachildo, que pode prejudicar nossas exportações para a China. Mas o gabinete do ódio parece interessado em manter apenas o apoio dos 10% mais radicais, e danem-se os demais. Em breve, adivinha quem é que vai estar sitiado?

sexta-feira, 20 de março de 2020

MALA FÉ

Que Silas Malafaia é um ser desprezível, não é novidade para ninguém. Mas, em plena calamidade pública, o pastor faz questão de amplificar sua fama de mau. A decisão de manter os cultos em suas igrejas, sem nenhum controle da lotação ou respeito às normas sanitárias, rebaixa o biltre a um novo patamar de vilania. O ganancioso Malafaia jura por seu falso deus que não faz isto por ganância. Então, só nos resta uma explicação: ele ainda está buscando, em meio ao seu rebanho, a rola que o Boechat mandou procurar.

HONEY, I'M HOME

Estou me divertindo com o desespero de algumas pessoas, subitamente forçadas ao home office. Eu trabalho direto em casa há quase três anos, e tive outras experiências do gênero ao longo da minha carreira. É bom? É óóótemo. Para começar, não é preciso se embelezar, ou sequer se vestir, para trabalhar em casa. Eu não tenho um mumu havaiano como o que o Homer Simpson desfilou quando encarou um escritório caseiro, mas, neste exato momento, estou usando calças tailandesas esvoaçantes. Também é maravilhoso não ter que enfrentar o trânsito, e poder parar de repente para ver televisão. Há perrengues? Sim, claro. Quem tem criança em casa deve estar procurando um método para eliminá-las sem muita dor. Eu tenho minha mãe de 83 anos, que não entende muito bem o conceito de home office e vem de 15 em 15 minutos me pedir para mudar o canal da TV do quarto dela, pois não sabe usar o controle remoto. De vez em quando, também sinto falta dos colegas, dos almoços, das rodinhas de café para falar mal da chefia. Mas minha vida normal tem muito evento, muita cabine, muita visita a sets de filmagem, muita viagem. Na pandemia, claro, não tem mais nada disso, mas não posso dizer que a minha rotina mudou radicalmente. Na prática, meu dia de trabalho é até mais longo que o da maioria da população: não é raro eu pegar no batente antes das 9 da manhã e só largar depois das 8 da noite. Vocês, que trabalham fora, vão ver só como será duro voltar para o esquema habitual. Aproveitem enquanto é tempo.

quinta-feira, 19 de março de 2020

CANNES-CELADO

Agora a coisa ficou feia. A ponte-aérea entre o Rio e São Paulo vai ser interrompida, pela primeira vez em meus quase 60 anos de vida. O festival de Cannes, que aconteceria em maio, foi cancelado. Num laivo de otimismo, os organizadores falam em realizá-lo já no final de junho, comecinho de julho, mas quem acredita nisto? Ah, e o mais grave de tudo: NÃO VAI TER EUROVISION. As músicas já estão todas prontas e disponíveis nas plataformas, mas será que sobrevivem até o ano que vem? Sim, porque a ideia é realizar o festival na mesma cidade de Rotterdam, na Holanda, mas em maio de 2021. Quer dizer então que começou o apocalipse zumbi? Porque, num mundo sem Eurovision, não vale a pena viver.

VARA CURTA CHUCHANDO O DRAGÃO

O populismo não sobrevive se não tiver muitos inimigos, quase sempre imaginários. É preciso galvanizar a massa ignorante contra o comunismo, os estrangeiros, os gays, a mídia. Nos EUA, Donald Trump foi aconselhado por um âncora da Fox News a se referir ao coronavírus como "o vírus chinês" - uma maneira de jogar para um país distante toda a culpa por uma crise que ele não tem competência para enfrentar. Por aqui, Zero-Três não tardou a copiar a tática, e ainda chuchou a China num dia em que seu pai pagou de trapalhão em rede nacional, lutando contra uma máscara (e perdendo feio). Distraiu a atenção de parte do público? Sim! Energizou os seguidores que ainda lhe restam? Sim! Criou um problema desnecessário com nosso maior parceiro comercial! Sim, sim, sim! Analistas alegam que a embaixada da China não tinha nada que responder, para não validar a provocação do Vara Curta. Acontece que uma ditadura não tem como ignorar os ataques, sob o risco de parecer frouxa diante de seus vassalos. Como sempre, a família Biroliro mostrou que não está nem aí para os interesses do Brasil ou o bem-estar da população. Só pensam em seu projeto de poder. Mas eu me pergunto: essa estratégia de governar só para os 10% (ou menos) que os apoiam cegamente, enquanto irritam os outros 90%, vai durar até quando?

quarta-feira, 18 de março de 2020

QUE BONITO É...

...as panelas estourando, o povo se esgoelando e o Bozo a se cagar...

É HOJE QUE ELE PAGA TODO O MAL QUE ELE NOS FEZ

Foi totalmente inesperado. Lá pelas 10h30 da noite de ontem, começaram a pipocar nas minhas timelines notícias de panelaço em diferentes bairros de São Paulo. Inclusive no meu - mas, naquele momento, eu não escutava nada. Não demorou: feito uma onda sísmica, minha vizinhança acordou e foi gritar e bater caçarolas na janela. Meu marido quase estragou uma frigideira do Jamie Oliver que ganhamos com selinhos no Pão de Açúcar. Foi estrondoso, foi ensurdecedor? Não. Mas logo ficamos sabendo que panelaços-flashmob tinham acontecido em várias capitais brasileiras, a maioria em bairros de classe média alta. E tudo isso sem convocação, sem hashtag, só com as artes que circulam nas redes sociais conclamando para o panelaço de hoje (e até os minions hão de convir que elas estão muito melhores do que a tosqueira do "agora é guerra!").

Alguma coisa mudou no clima político do país. Claro que sabemos por quê: Biroliro exagerou na dose. Março mal começou e já tinha um comediante na porta do Alvorada provocando a imprensa, o que só aumentou o impacto do PIB pequenino. Depois o Despreparado chamou abertamente para as manifestações a seu favor e contra a Constituição. Já na Flórida, disse ter provas de que o primeiro turno da eleição presidencial de 2018 foi fraudado, mas não apresentou nenhuma até agora. Mas o que realmente incendiou a população foi sua participação no CoronaFest 2020, quando devia estar quietinho no palácio, em quarentena. Enquanto isso, o coronavírus se espalha pelo Brasil e as primeiras mortes já ocorrem. As perspectivas para a economia são sombrias. Aliados de primeira hora estão caindo fora. Por fim, um haitiano peitou Mijair com elegância. Isso fez com que o medo de reclamar se dissipasse. Janela tá OK. Apito tá OK. Panela tá OK. Um Brasilzão desses nunca mais ele vai ter.

terça-feira, 17 de março de 2020

PRESIDENTE MANDETTA

Vamos tirar logo da frente: Luiz Henrique Mandetta está sendo investigado por fraude em licitação, tráfico de influência e caixa dois, por causa de sua atuação como secretário da Saúde do Mato Grosso do Sul. Mas tudo isso vira péché mignon perto do cruzamento de asilo de loucos com escritório do crime que é o governo federal. A sobriedade que o ministro vem demonstrando já incomoda Biroliro, que morre de ciúmes até da sombra. Mandetta não faz parte do gabinete de crise que Mijair inventou, o que talvez seja bom. Assim ele fica livre para exercer a função de presidente de facto do Brasil, já que o cargo está vago.

EU TÔ FALANDO BRASILEIRO

Foi preciso que um imigrante haitiano se imiscuísse no cercadinho na porta do Alvorada para dizer umas verdades na cara do Biroliro, coisa que nenhum brasileiro nato ainda teve a coragem de fazer. Com calma e voz baixa, o rapaz afirma que o Despreparado "teve escolha" ao se refestelar na manifestação de domingo, e reitera várias vezes que ele não é mais presidente. Petrificado e desacostumado a ouvir críticas naquele lugar, Mijair não esboça reação e se manda, antes mesmo de ouvir a oração que um pobre ignorante ainda queria fazer. O que o haitiano disse diante das câmeras vem sendo sussurrado em corredores e redações: o Bozo deu um tiro de bazuca no próprio pé, e pode ter ferido de morte o próprio mandato. Não vai ser para já, mas o vento está virando. Neste momento, eu temo mais é pelo rapaz: vingativos e mesquinhos como são, os minions já devem estar revirando mundos e fundos para descobrir sua identidade e infernizar sua vida, com visitinhas da Polícia Federal ou coisa pior.

segunda-feira, 16 de março de 2020

CSI BELLE ÉPOQUE


Digam o que quiserem: Roman Polanski continua em plena forma. "O Oficial e o Espião" é um baita filme. Classicão, sem nenhum atrevimento narrativo, nenhuma invencionice. Só com todo o primeiro pelotão de atores franceses na faixa dos 40 e 50 anos, direção de artee figurinos impecáveis e, acima de tudo, uma história que precisa ser mais conhecida. A belle époque, quando ela se passa, não era tão bonita assim. O antissemitismo já era uma realidade inclusive na França, que ninguém se preocupava em esconder. Eu achava que o caso Dreyfuss havia sido muito mais simples do que de fato foi, e que o famoso "J'Accuse" de Émile Zola tinha dado cabo da prisão do oficial judeu injustamente condenado por espionagem. O roteiro é uma espécie de "CSI" melhorado: as provas da inocência do prisioneiro são reunidas aos poucos, com muitas reviravoltas e alguns bons momentos de ação. Tem crítico associando a perseguição a Dreyfus à que Polanski sofre hoje, e pode até ser que o diretor quisesse mesmo esta comparação. Mas "O Oficial e o Espião" sobrevive por si mesmo. Ainda bem que eu vi antes dos cinemas fecharem.

A CURA DO POPULISMO

A pandemia do coronavírus tem um único efeito colateral positivo: a tremedeira, o suor frio e a febre alta de que foram subitamente acometidos os líderes populistas. Estão todos em pânico, porque esta crise real pode desmascarar a incompetência e despreparo que eles conseguiram esconder. Trump, Biroliro e similares foram eleitos insistindo que eram figuras "de fora" do sistema, e que isto bastaria. Claro que não são: nasceram e e cresceram no mesmo sistema que fingem combater, com o agravante de terem chegado ao cargo mais alto de seus países sem experiência em gestão pública. Todos eles achincalharam a ciência e a educação; todos preferiram queimar pontes do que forjar alianças. O Bebê Alaranjado desperdiçou três semanas em que os EUA poderiam ter contido para valer o vírus. Sofreu uma intervenção branca de seu próprio partido e, no exato momento em que escrevo este post, ele está na TV pedindo calma e contenção aos americanos. Nada como uma eleição em novembro para fazer o cara andar na linha. Aqui no Brasil, Mijair só dá sinais de desespero. O que ele fez ontem, ao contrário do que pensa o gado, foi um tremendo sinal de fraqueza. Está perdendo apoio por todos os lados: hoje foi a Janaína Paschoal, quem diria? Também foi patética a entrevista que o Bozo deu à CNN Brasil, tentando justificar o injustificável e jogando a culpa em Lula (!) e Obama (!!!). A seu favor, os populistas têm a estupidez de quem não acredita no perigo e continuar a lotar praias e manifestações. Vamos ver quanto desse apoio sobra quando começarem a faltar leitos e a morrer criancinhas.

domingo, 15 de março de 2020

A PANDEMIA DA BURRICE

Está ficando monótono. A cada semana, Biroliro desce mais alguns degraus na escala da decência. Hoje ele se superou, ao comparecer à manifestação para a qual ele mesmo desconvocou seus seguidores. E compareceu sem máscara, contrariando seu pronunciamento de sexta à noite e as recomendações do Ministério da Saúde. Mas o recorde negativo não deve durar muito tempo, claro. Até porque o Bozo encontra respaldo na estupidez dos brasileiros, que estão lotando praias e bares neste fim de semana de sol. Vamos ver se, daqui a duas semanas, não nos transformamos numa gigantesca Itália. A burrice é contagiosa.

ONT FORGÉ LA TRAME DU HASARD


Houve um tempo em que eu fui obcecado por Claude Lelouch. O diretor francês me conquistou com "Les Uns et Les Autres" (ou "Retratos da Vida"), que eu vi umas 300 vezes no cinema, depois em vídeo, depois em DVD. Passei a catar seus filmes antigos e me apaixonei pelo melhor de todos: "Um Homem e uma Mulher", de 1966, até hoje talvez o mais belo romance do cinema de todos os tempos. Mas a obra de Lelouch, no geral, não é das mais consistentes. Ele tem muitos trabalhos fracos, autoindulgentes, sem nada a dizer, e faz tempo que seus longas não chegam ao Brasil. Mas agora vem um por aí: "Os Melhores Anos de uma Vida", a segunda continuação de "Um Homem e uma Mulher", agora com os atores beirando os 90 anos (!). Já vi o trailer e já baixei a trilha, que não paro de ouvir. Porque ela ficou a cargo apenas do melhor nome da música francesa de hoje, Calogero (sim, melhor que o Biolay). Calogero compôs apenas duas novas canções, cujos arranjos se entremeiam à música original de Francis Lai, e ainda chamou a octogenária Nicole Croisille, que cantou o badabadaba lá atrás, para dividir os vocais com ele. A estreia de "Os Melhores Anos de uma Vida" no Brasil está marcada para o dia 9 de abril. Espero que essa quarentena do coronavírus já tenha acabado até lá.

sábado, 14 de março de 2020

MORRERAM O BEBIANNO

Eu sou a última pessoa a embarcar em teorias da conspiração, mas essa morte súbita do Gustavo Bebianno desafia o meu ceticismo. Existem muitos venenos que agem sem deixar traço. Ele cair duro aos 56 anos, fulminado por um ataque cardíaco, menos de um mês depois de participar do "Roda Viva" e dar a entender que sabia muito mais do que dizia, é um pouco demais. O Paulo Marinho diz que Bebianno morreu de tristeza. Talvez estivesse triste mesmo por dedicar tanto tempo a uma gangue criminosa, cujo único projeto de poder é mais poder. Eu acho que deveria ser realizada uma autópsia, mas a família deve estar apavorada. Também era bom investigar onde e com quem ele esteve nos últimos dias. E torcer para que sejam logo abertas as cartas que ele entregou a dois amigos em 2019, segundo a revista "Veja". Se nada disso acontecer, ninguém me convencerá de que o sujeito não foi a primeira vítima do inner circle presidencial.

sexta-feira, 13 de março de 2020

MAMÃE URSA

Vamos mudar de assunto. Você conhece "O Cantor Mascarado"? É uma formato-bobajada que faz muito sucesso lá fora e uma hora dessas deve chegar ao Brasil. O programa traz celebridades cantando por baixo de fantasias pesadas, e os jurados têm que adivinhar quem são. Toda semana também tem um convidado-surpresa, cuja identidade é revelada na hora. Esta semana foi uma ursinha...
,,,que era ningém menos do que Sarah Palin, ex-governadora do Alaska e ex-candidata à vice-presidência dos EUA, no já longínquo 2008. Sarah foi um aviso precoce do horror que estava a caminho: uma extrema-direita populista, ignorante e despreparada. Hoje ela parece apenas folclórica perto de ameaças reais como Trump ou Biroliro. Que, depois de terem sua incompetência desmascarada pelo coronavírus, em breve também estarão participando de programas desse tipo.

(OK, não mudei de assunto)

ESTÁ OU NÃO ESTÁ?

Está. Eu acho que o Biroliro está, sim, contaminado pelo coronavírus. Os sintomas estão no ar desde ontem. As redações dos jornais já tinham a informação de que o primeiro teste tinha dado positivo, mas não podiam publicar nada antes que saísse a contraprova. Um amigo médico me contou que, nos grupos de doutores, a infecção era dada como certa. Também ouvi que outras pessoas da comitiva que foi aos EUA estavam com febre e tosse, apesar de não terem sido testadas. Na manhã de hoje, já se especulava que o Bozo não admitiria que pegou a Covid-19. Há boas razões para tanto: um presidente enfermo pode jogar o dólar ainda mais para cima e a Bolsa ainda mais para baixo. Mas parece que Mijair preferiu mentir pela pior das razões. O jornal carioca O Dia e a rede americana Fox News chegaram a noticiar o diagnóstico positivo - a fonte da TV, inclusive, seria o próprio Zero-Três. Mas depois do meio-dia veio um comunicado oficial do Palácio desmentindo tudo, e o Despreparado não perdeu a chance de fustigar a mídia e se dizer vítima de fake news. De qualquer forma, acho bom manter distância dele. Ainda mais distância.

quinta-feira, 12 de março de 2020

QUARENTENA

Como foi o seu primeiro dia de pandemia? O meu teve quatro eventos cancelados, inclusive uma coletiva no Rio de Janeiro para a qual eu já tinha recebido a passagem. O coronavírus parece ter infectado a pisquê coletiva, mas pelo menos os supermercados brasileiros estão abastecidos e as pessoas ainda não se digladiam por papel higiênico. Meu irmão decidiu que vai fazer home office por pelo menos uma semana e só sair de casa em última hipótese. Eu já faço home office há anos e temo não poder pegar um cineminha neste fim de semana. Talvez eu reveja "Contágio", o filme de 2011 do Steve Sodebergh que meio previu isso tudo e voltou à lista dos mais alugados nas plataformas de sob demanda. Nunca vivemos nada parecido, e um dia riremos disso tudo. Motivo já tem: foi só Mijair dizer a pandemia era uma fantasia para o vírus explodir no coração do governo. E a educadora Priscila Cruz, a quem Abraham Weintraub desejou que ficasse doente como castigo divino, não tem Covid-19. Longe de mim sugerir que Deus já escolheu um lado, mas né?

BOM DIA, PANDEMIA

Nunca passei por nada parecido. Sobrevivi à expansão da AIDS nas décadas de 80 e 90, que levou embora tantos amigos e conhecidos. Passei incólume pelos surtos de gripe do século 21, como a suína e a aviária. Mas uma pandemia para valer, com certificado da OMS, é a primeira vez. É difícil saber como reagir. O pânico é um exagero que deve ser evitado, mas é preciso levar o risco a sério. Meu maior medo é servir de vetor do coronavírus para minha mãe, que tem 83 anos, é diabética e quase não sai de casa. Também estou pasmo com os cancelamentos em série: depois do SXSW, do MipTV e do campeonato da NBA, agora temo pelo Eurovision. Já temos uma celebridade infectada, Tom Hanks, e outras devem surgir em breve. Enquanto isso, a extrema-direita reage com fake news e a incompetência de sempre. Trump anunciou ontem o banimento de voos da Europa para os Estados Unidos, menos do Reino Unido e da Irlanda: galera, isso é racismo mal-disfarçado. O Bebê Laranja também disse que a pandemia reforça a necessidade do muro na fronteira com o México, um país muito menos afetado do que os EUA. Um dos primeiros sintomas do coronavírus é a xenofobia, como bem explica Contardo Calligaris em sua coluna de hoje. Enquanto isto, aqui no Brasil, Biroliro insiste que tudo não passa de fantasia, temendo que as manifestações a seu favor convocadas para domingo se esvaziem. Vai ser engraçado quando um monte de minions cair doente - será que vão culpar o governo que permitiu a passeata, como o partido Vox fez na Espanha? Eis o lado bom da pandemia. Ela desmascara o despreparo e a arrogância dos líderes populistas. Quando esta onda passar, quero só ver quantos terão sobrevivido.

quarta-feira, 11 de março de 2020

DRAUZIO MELHOR PESSOA

A essa altura todo mundo já viu, mas quero deixar registrado aqui no blog o vídeo que o doutor Drauzio Varella divulgou ontem sobre a polêmica em torno da trans Suzy Oliveira. Eu continuo 100% ao lado dele, e continuo achando que não houve propriamente um erro na matéria exibida pelo "Fantástico" no dia 1o. de março. Ninguém esperava a comoção que se seguiu e, como eu já disse, nem Drauzio nem ninguém pediu aos espectadores que escrevessem cartas para Suzy. Este episódio primeiro me fez sentir esperança pelo Brasil, com a onda espontânea de solidariedade que se formou, mas depois eu vi que nosso atraso é até pior do que eu imaginava. Nossas mentalidades ainda estão no século 16, no olho por olho. Pagamos o preço por isto todos os dias, e parece que gostamos de pagar. Um povo que prefere o Biroliro ao Drauzio Varella não merece viver na modernidade.

terça-feira, 10 de março de 2020

ABRAÇO HÉTERO


A amizade entre dois homens é um dos pilares da civilização ocidental. É notório que muitos preferem as companhias uns dos outros, deixando as mulheres somente para a putaria. Talvez sejam gays emocionais, incapazes de criar um vínculo mais forte com o sexo oposto. Os protagonistas do filme francês "O Melhor Está por Vir" são héteros, mas vivem um bromance assumido. O ponto de partida é interessante: o mais rico empresta a carteirinha do plano de saúde para o mais pobre, e depois recebe o exame que ele fez. Batata: câncer terminal. Começa então um jogo em que uma acha que o outro é que está doente, e ambos tentam esconder o que pensam que é a verdade. A confusão rende algumas piadas boas e outras meio forçadas, mas a beleza das paisagens e a de Patrick Bruel tornam o programa sempre agradável.

RULER OF THE UNIVERSE

Morreu Max von Sydow, um dos maiores atores de todos os tempos. O melhor de seus 120 filmes talvez seja "O Sétimo Selo", de Ingmar Bergman, em que ele aparece jogando xadrez com a morte. Mas seu papel favorito era mesmo o do imperador Ming, o Impiedoso, de "Flash Gordon" - um filme que nasceu ruim e hoje é um clássico cult, cheio de falas que já eram memes antes da internet. Como não amar um personagem como este? Os figurinos, o look de gêmeo malvado do Clovis Bornay, a trilha do Queen criando clima... Hail, Ming, hail.

segunda-feira, 9 de março de 2020

MARIELLE É DE TODOS NÓS

Eu entendo a revolta de muita gente com o projeto da minissérie sobre Marielle Franco que a Globoplay anunciou na sexta passada. Faltam oportunidades para diretores negros, para roteiristas negros, para artistas negros. Faltam oportunidades para negros, ponto. Agora, partir dessa indignação mais do que justa para desqualificar os envolvidos no projeto é um pouco demais. 

Antonia Pellegrino, a idealizadora da série, era amiga pessoal de Marielle Franco. É casada com Marcelo Freixo, de quem a vereadora morta foi assessora durante anos. Foi uma das primeiras a chegar à cena do crime e tem total apoio da família de Marielle. Está batalhando há tempos para colocar seu projeto em pé: bateu em muitas portas e encontrou na Globoplay a melhor acolhida. 

A Globoplay, por sua vez, é quem deve ter indicado George Moura, que é prata da casa e chefiará a equipe de roteiristas. Moura é autor de vários sucessos e um dos melhores profissionais do ramo no Brasil. Fora que ele ainda não anunciou os membros de seu time: quem disse que não haverá negros nele?

Para completar, é um absurdo o que estão fazendo com José Padilha. Já tem até charge sugerindo que ele fará uma série sobre o "suicídio" de Marielle. A esquerda brasileira simplesmente não o perdoa pela primeira temporada de "O Mecanismo", que ficcionalizava os primeiros anos da Lava-Jato (a segunda teve menos repercussão e foi bem menos criticada). 

Padilha teria cometido o crime de lesa-majestade por não acreditar na inocência de Lula, e de nada adiantou ele admitir, no ano passado, que agora tampouco acredita em Sergio Moro. Acontece que o cara é um dos maiores cineastas do país e um dos poucos que têm entrada em Hollywood. Também é o dono de uma obra consistente e engajada. Para um projeto que sonha em ser exportado para o mundo inteiro, é um nome "high profile", mais do que adequado.

Dizer que Padilha é de extrema-direita é fazer o jogo dessa mesmíssima extrema-direita. Que adora quando exageramos na política identitária. Que deita e rola quando nos perdemos nesse joguinho de acusações e cancelamentos mútuos, quando tínhamos que estar unidos para combater o inimigo comum. 

Marielle deveria nos unir. A luta dela foi muito além da negritude. Ela não é só dos negros, só das lésbicas ou só dos periféricos: é de todos que temos ideais parecidos. Sim, eu também acho que a Marielle é um pouco minha. Pode chamar de apropriação cultural ou do que você quiser. Marielle é nossa e ninguém tasca.

O QUE JESUS FARIA COM SUZY?

No meu primeiro ano da faculdade, um professor levou a classe inteira para conhecer o Carandiru. O presídio ainda estava funcionando e a muitos anos do massacre que mancharia sua história. Foi uma visita instrutiva: fomos a celas, ao pátio, à sala em que os presos recebiam visitas. Comemos do bolo de aniversário de um deles. Na volta, o professor nos alertou: "Não fiquem achando que são todos inocentes. O cinema americano nos condicionou a isto, mas o fato é que são raros os condenados injustamente. Vocês comeram do bolo de um assassino".


Conto isso porque me surpreendi com a ingenuidade de muitos dos que viram a célebre matéria de Drauzio Varella sobre presidiárias transexuais, exibida pelo "Fantástico" na semana passada. Quando Suzy de Oliveira contou que não recebia visitas há oito anos, pensei na hora que ela tinha matado alguém. Ninguém fica preso em regime fechado no Brasil por tanto tempo sem ter cometido algo menos do que assassinato. Mas os detalhes sobre o crime dela, que finalmente emergiram neste fim de semana, são mesmo horripilantes. Suzy estuprou e matou um garoto de 9 anos, e depois ocultou o cadáver. Cumpre pena de 36 anos e 6 meses. Em alguns estados dos EUA, seria condenada à morte.

Drauzio Varella não pediu a ninguém que escrevesse cartas a Suzy. A campanha surgiu espontaneamente nas redes sociais. O governo de São Paulo aproveitou a onda e divulgou o endereço do presídio de Pinheiros onde Suzy está. Ao longo da semana, ela recebeu mais de 200 cartas, além de presentes e até dinheiro. Em paralelo à onda de solidariedade, muitos internautas lançaram a candidatura de Drauzio Varella à presidência da República, algo que ele jamais cogitou.

Isso incomodou os bolsominions. Se atacam até Wilson Witzel, que pensa muito parecido com o Bozo, porque poupariam a antítese do "mito"? Também foram atrás do crime de Suzy, e acharam. Agora acusam Drauzio de passar pano para pedófilo estuprador assassino. São incapazes de entender que o médico realiza um trabalho seríssimo nos presídios há muitas décadas. Ele jamais pergunta o crime cometido pelos presos que atende, justamente para não interferir nesse atendimento. Tem coisa mais cristã do que isto? O que Jesus faria nesse caso?

É simplesmente nojenta a movimentação da extrema-direita para desqualificar qualquer um que eles identifiquem como obstáculo ao seu projeto de poder. Essa turma não tem escrúpulos nem apego à verdade. Tampouco são cristãos, e devem ser denunciados toda vez que disserem que são. Jesus não elogiava torturador nem fazia arminha com a mão. Jesus amava e perdoava. Ponto final.

domingo, 8 de março de 2020

ACOSSADA

Jean Seberg foi uma das primeira vítimas fatais da reação contra o feminismo. A atriz americana que fez fama na França tentou viver como quis e pagou por isto o preço mais caro de todos. Foi destruída pelo FBI de Edgar J. Hoover, que a espionou em dó quando ela teve um caso com um dos líderes dos Panteras Negras. Essa história trágica é contada em "Seberg Contra Todos", mas o filme comete o pecado de dar tempo demais a um dos algozes da estrela. Um investigador que fica obcecado por ela e, a certa altura, se arrepende do que está fazendo. Uma passada de pano que dilui o drama da protagonista. Ouro problema é a interpretação de Kristen Stewart. Ela está linda e veste muito bem os figurinos sensacionais, mas não chega a transmitir toda a emoção que o papel exige. Quando penso no show que Elisabeth Moss dá em "O Homem Invisível" com uma personagem muito menos complexa, ficam claras as limitações de Stewart.

sábado, 7 de março de 2020

DESTRUIR A DESTRUIÇÃO

Cheguei hoje cedo em São Paulo, voltando da Cidade do México. Meu voo passou pela Amazônia, e ainda bem que não pousou em Roraima. Porque parece que há uma falha no continuum temporal por lá. Veja só o que aconteceu com o Despreparado: a caminho de mais uma puxada no saco do Trump, ele fez escala em Boa Vista e aterrissou em 2015. Só isso explica o discurso estapafúrdio que ele expeliu na Base Aérea, confirmando tudo o que ele jurava que não havia dito nos vídeos supostamente de 2015 que compartilhou pelo WhatsApp. Mijair rompeu a trégua com o Legislativo e o Judiciário, mostrando que continua o escorpião da anedota que sempre foi. Ele quer instituir uma ditadura hereditária no Brasil, à moda dos países árabes, muito pior e bem mais personalista do que o regime militar pós-64. Surpresa para quem? Só para quem votou nele achando que o grande mal era o PT. Esses arrependidos têm que ser acolhidos de braços abertos, e não com resmungos de "bem feito, agora chola". Porque, dando sentido a mais uma fala sem nexo da Dilma, vamos precisar de todos para destruir a destruição que está em curso.

sexta-feira, 6 de março de 2020

NO ME REPRESENTA

Adoro o México. Acho, inclusive, que o país está à frente do Brasil em algumas coisas. Há, por exemplo, uma consciência de que o turismo é um grande negócio, e os visitantes são muito melhor recebidos por aqui do que aí. A arquitetura deles também superou a nossa. A Cidade do México está cheia de arranha-céus futuristas, enquanto São Paulo parece ter parado no século 20. Mas há um aspecto em que a superioridade brasileira é indiscutível: a representatividade da população na mídia. E olha que ainda estamos bem ruinzinhos. Só agora que os negros estão conquistando mais espaço nas novelas e na propaganda. Mas, no México, praticamente só se vê brancos na televisão. Louros, de olhos azuis, bem distintos do povo com traços indígenas que está nas ruas. Tem até muito modelo brasileiro que se encaixa nesse padrãozinho europeu que se mudou para cá e fez carreira. Para você ver: não existe o país ideal. Mas alguns são mais legais que os outros.

quinta-feira, 5 de março de 2020

É UMA CASA MEXICANA COM CERTEZA

Não estou tendo tempo de fazer muito turismo, mas pelo menos já conheci uma coisa nova nessa viagem ao México: a fabulosa Casa Guillermo Tovar y Teresa. Trata-se de um imóvel típico do período do Porfiriato (assim chamado por causa do governo interminável do caudilho Porfirio Díaz), do final do século 19 . A casa foi comprada em 1995 pelo historiador e colecionador que hoje lhe empresta o nome, e totalmente reformada.  Tovar y Teresa encheu-a de obras de arte mexicana e lá viveu até morrer em 2013, com apenas 57 anos. Depois o lugar foi comprado pelo quaquilionário Carlos Slim, um dos homens mais ricos do mundo, e aberto à visitação no final de 2019. Agora a casa faz parte do Museo Soumaya, a instituição que Slim batizou em homenagem à sua falecida esposa - e, como as demais unidades, também tem entrada grátis. Dá para ver tudo em detalhes em menos de uma hora, e o passeio pela Colonia Roma (a mesma do filme) é assaz agradável. Programa recomendado a todas as bichas finas que vierem à CDMX.

O LIMITE DO HUMOR

Até onde um comediante pode ir? Há anos que vem se debatendo que tipo de piada é aceitável nos dias de hoje. Não dá mais para rir de deficientes físicos, negros, gays, pobres, mulheres e por aí vai. Eu detesto o humor machista, racista e misógino de antigamente, mas também acho que há um pouco de exagero por parte dos queixosos. Costumava dizer que o limite do humor era a falta de graça. Quando não faz rir, não é mais humor. Não acho mais. Márvio Lúcio, o Carioca, mostrou ontem onde é que o humor realmente acaba: aos pés dos poderosos. Foi o Sensacionalista quem reparou nisto, e eu assino embaixo. Humor jamais pode ser a favor - vide a extinta revista "Kokodril", da extinta União Soviética. Hoje ambas nos parecem patéticas. Carioca acabou de entrar para esse triste clube.

quarta-feira, 4 de março de 2020

JÁ COMEU CHAPOLIN?

Chapolin quer dizer gafanhoto. Ou grilo, ou qualquer inseto saltador: os antigos astecas chamavam todos pelo mesmo nome, e os comiam. Hoje eu também comi. No primeiro almoço desta minha 20a. vez na Cidade do México, fiz questão de pedir guacamole com chapulines. No mesmo restaurante do mesmo hotel onde, em 2001 - na minha segunda vez na CDMX e primeira quando adulto - eu comi gusanos (larvas). Achei os grilos mais gostosos: melhor temperados e mais crocantes. Se você puser vários na boca ao mesmo tempo, parece algum tipo de salgadinho. Fora que eles têm muita proteína, então são muito saudáveis. À noite, já que estou aqui mesmo, aproveitei e pedi uma sopinha de formiga. Recheadas de huitlacoche, aquele fungo negro que dá no milho, o caviar mexicano. Ou "la caca de los dioses". O México não é para os fracotes.

CUCURRUCUCÚ CORONA

A fábrica da Corona fica bem no meio da Cidade do México. Você passa pela rua de carro e o cheiro de cerveja invade tudo, mesmo se as janelas estiverem fechadas. A pobre marca vem sendo alvo de memes e piadinhas desde que irrompeu a epidemia do novo coronavírus. Agora, este outro corona também chegou às plagas mexicanas: já são dois os casos confirmados no país. E adivinha quem também está indo para lá? Euzinho, que chego na CDMX na manhã desta quarta, depois de 10 horas trancado num avião cheio de gente tossindo e espirrando. Ay ay ay ay ay, cantaba... ay ay ay ay ay, gemía...

terça-feira, 3 de março de 2020

É O FIM DO CAMINHO

Sempre achei que políticos notoriamente corruptos tinham vida muito mansa no Brasil. Por que Paulo Maluf, com tantas condenações nas costas, poderia circular por aí sem o menor apupos? Eu vibrei quando os alvos da Lava-Jato passaram a ser xingados na rua. Era, inclusive, uma quebra na narrativa do PT de que o partido era quase uma unanimidade nacional. Mas então, como sói acontecer, a coisa desandou. Jornalistas passaram a ser agredidos, tanto pela esquerda quanto pela direita. Cusparadas voaram, teve gente que saiu no tapa e só por milagre é que não houve algum tiro. Agora chega. Nunca fui fã de Gleisi Hoffmann e Lindbergh Farias, mas fiquei horrorizado com o ataque que o casal-símbolo do PTinder sofreu ao sair de um hotel no Rio de Janeiro. Não é nesse país que eu quero morar. Ah, e já vou avisando: vou barrar qualquer comentário do tipo "a culpa também é sua, você fomentou a violência, nhénhénhé". Estou propondo uma campanha para que os ânimos se acalmem por todos os lados, mas não mexe comigo que eu revido.

O TERCEIRO OLHO QUE TUDO VÊ

Sempre achei a maçonaria meio gay. Nomes como "Grande Oriente" e aquele visual cheio de correntes e cores esdrúxulas tem um pezinho no Vale, não tem? Mas as lojas maçônicas, que no século 19 foram tão influentes, hoje são só uma bizarrice, cada vez mais desatualizada (sorry, Mono). Algumas vêm discutindo se devem acolher membros gays, algo não previsto nos estatutos originais. Outras já decidiram que não: é o caso da unidade paulistana que expulsou um novo integrante, depois de receber uma denúncia de que o sujeito é casado com outro cara desde 2017. Eu acho a maior graça nesse debate todo, porque maçons, rosacruzes e quetais estão aí para nos divertir (vide o casamento da Carla Zambelli, que pândega). Deixa eles acharem que ainda mandam, enquanto o mundo segue em frente.

(Obrigado, Junior Inelson, pela sugestão de post)

segunda-feira, 2 de março de 2020

FOTOLEGENDA

A COROA E O VÍRUS

Nonna Rosetta é uma personagem querida da internet na Itália. Estrela de um canal de humor chamado Casa Surace, ela volta e meia aparece cantando os sucessos do verão ou dando palpite sobre qualquer coisa. Mas seu último vídeo é de utilidade pública:a vovó aparece dando conselhos sobre a prevenção conta o novo coronavírus. São precauções sérias, e não essas bobagens que a tia Cleide te mandou pelo Whats. A minha favorita, claro, é a de número quatro: l'occiolino.

domingo, 1 de março de 2020

A TOLICE VISÍVEL


Das duas, uma: ou o homem invisível existe mesmo, ou é tudo invenção da cabeça de sua viúva. Não há outra saída. Esta é a cilada em que caíram os produtores do novo "O Homem Invisível", depois de dar um interessante twist  da era #MeToo ao clássico personagem. Agora a protagonista é uma mulher que foge de uma relação abusiva com um cientista milionário. Aí ele se mata (oi?) e deixa uma fortuna para ela (oioioi?). Nada faz muito sentido, e então piora. Talvez por isto eu não tenha me divertido como esperava: fiquei buscando nexo numa trama que é só pretexto para alguns sustos. No final, o roteiro escolhe mesmo uma das duas opções disponíveis, mas ainda tenta uma reviravolta para não deixar tudo tão óbvio. A falta de noção só não é absoluta por que, acima da bobajada toda, paira o talento de Elisabeth Moss. A atriz de "O Conto da Aia" consegue transmitir duas ou três emoções ao mesmo tempo, num trabalho muito mais sofisticado do que esse tipo de filme costuma exigir. Ela tem um Oscar em seu futuro, mas será por algo mais elaborado do que este suspense mediano.