quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

GOSTO MUITO DE ROUBAR LEÃOZINHO


Não entendo muito o frisson ao redor de "Os Miseráveis". O filme é bom, veja bem: o diretor Ladj Ly imprime um clima de tensão que só derrapa pouco antes do epílogo, mas é logo retomado. Mas não há nada nele que Fernando Meirelles não tenha feito melhor em "Cidade de Deus", quase 18 anos atrás. A novidade (para os franceses) talvez seja uma história que se passa na periferia, escrita e dirigida por um cara nascido nessa periferia. A ação se passa em um único dia em Montfermeuil, o subúrbio de Paris onde Victor Hugo escreveu "Os Miseráveis". O livro é até citado pelos personagens, mas não serve de base para o roteiro. Habitado por africanos, árabes e ciganos, o bairro é o proverbial barril de pólvora. E a faísca vem de uma escaramuça boba, logo vingada com o roubo de um filhote de leão de um circo. Seguem-se várias perseguições, com um trio de policiais - um deles, em seu primeiro dia na região - se comportando cada vez pior. Claro que tudo isso é petit four perto da barra pesada das cidades brasileiras. E claro que eu saí do cinema pensando em "Bacurau", com quem "Os Miseráveis" dividiu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes. O longa de Kléber Mendonça e Juliano Dornelles é melhor e mais inovador do que este aqui. Teria tomado seu lugar entre os indicados ao Oscar?

4 comentários:

  1. E eu que achei Bacurau ruim DE DOER?

    Mal feito, trash, atuações deploráveis, de novo esse maniqueísmo imaturo nós vs eles, bonzinhos vs mauzinhos. Parece filme de baixíssimo orçamento.

    Seria apenas uma histeria coletiva?

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    Respostas
    1. "Bacurau" é mesmo divisivo. Muita gente não gostou.

      Mas a proposta do filme é mesmo essa: ser meio trash, muito influenciado pela cultura pop, com atores canastrões de propósito. Ali foi tudo muito pensado, nada é por descuido ou por acaso.

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    2. Se fosse do Tarantino tava todo mundo babando ovo.

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  2. O Mio Babbino Caro
    Ouso dizer que o momento em que rompe a música do Vandré o filme é salvo. Pois estabelece uma ponte por toda tragédia nacional republicana que nunca encontrou seu eixo. Essa mensagem junto ao casal nu revelam muito mais do Brasil que qualquer cena de miséria ou trabalho...Porém com o velho espírito vazio conciliatório termina no vazio de sempre de vinganças individuais sem a merecida restia de luz para os miseráveis que continuam deserdados. Talvez não Fernando Meirelles mas Glauber de Cabeças Cortadas mereceria ser continuado...

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