domingo, 5 de julho de 2020

GOURMETIZEI A QUARENTENA

Meus rendimentos diminuíram com a pandemia, mas minhas despesas também. Há meses que eu não gasto um tostão com cinema, teatro, restaurante, Uber, metrô. Comprei dois livros e um par de Havaianas pela internet, e mais nada. Mas há um setor onde eu venho, digamos, investindo: a gastronomia. Sem ter muita diversão além da TV e do streaming, passei a comprar produtos de alta qualidade, comidas exóticas que eu nunca tinha provado e até a me arriscar na cozinha. Graças à Santa Rita Lobo, padroeira dos inexperientes, aprendi a fazer brigadeiro e cole slaw. E venho me especializando em pudins: a partir de uma receita de manjar branco, fui trocando o coco por laranja, pêssego, morango, framboesa e até caju (que não ficou bom...). Anteontem me deu a louca e resolvi ir ao Santa Luzia, o supermercado mais chique de São Paulo, só para dar uma flanada e comprar uns supérfluos. Não passei da porta. Em plena tarde de sexta-feira, duas longas filas se estendiam na entrada. Ainda bem que todo mundo estava de máscara e praticando o distanciamento, mas eu não encarei. Meu raio gourmetizador não chega a tanto. Ainda faltam uns meses para eu poder entrar na fila preferencial, mas até lá, quem sabe a quarentena já terminou?

sábado, 4 de julho de 2020

SMART CHOICE

Quando estive na Cidade do México em março passado, eu me espantei com a quantidade de academias Smart Fit que havia por lá. Só depois é que eu me inteirei de que a rede de Edgar Corona é a terceira maior do mundo e a maior fora dos Estados Unidos. Vai, Brasil! Nem tanto: eu tampouco sabia que Corona é um dos maiores apoiadores de Biroliro no meio empresarial. Pior: também foi um dos responsáveis pelo disparo ilegal de mensagens eleitorais por WhatsApp, algo que ele nega de pés juntos. A falcatrua pode sair cara. Parece que muitas gueis acordaram e estão cancelando suas matrículas na Smart Fit e na Bio Ritmo, que também pertence a Corona. Sábia escolha. Chega de dar dinheiro para quem nos oprime, bicharada! Li no Põe na Roda que, na fila que se formou ontem em frente a uma das unidades no Rio de Janeiro, muita gente queira cancelar em pessoa a matrícula, já que está difícil fazer isto online. Acho bem feito. E muito melhor do que simplesmente vandalizar o logo na fachada, como aconteceu em algumas filiais aqui em São Paulo. A do meu prédio chegou a retirar o logo - sim, tem uma Smart Fit no térreo do prédio onde eu moro. Ou tinha. Não foi só o logo que se foi: todos os equipamentos também. Parece que fechou. Ah, que peninha, mas eu já não ia mesmo.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

MULHERES RICAS

Eu entrevistei Val Marchiori em 2012, quando ela começou a fazer sucesso na televisão. Tive a nítida sensação de que a moça encarna um personagem e que, na vida real, é só uns 50% daquela perua fútil com toques de crueldade. Mesmo assim, não merece ser levada a sério: é só diversão. Mas ninguém avisou isto para Bia Doria, primeira-dama de São Paulo, que recebeu Val no Palácio dos Bandeirantes. As duas gravaram um vídeo juntas e entraram em combustão espontânea. Uma reação química que viralizou na internet, sem o filtro de uma assessoria de imprensa competente ou mesmo do bom senso. Não é a primeira vez que Bia passa vexame: houve uma desastrosa entrevista à Folha assim que seu marido foi eleito prefeito, em 2016, e episódios menores que só confirmaram que ela precisa de supervisão. De um adulto na sala, em todos os momentos.

A VACINA CHEGOU E NÃO SABÍAMOS

A culpa não é só do Biroliro. Nem do Crivella, nem do Véio da Havan, nem dos negacionistas em geral. Nem é só do Alto Leblon. Há algo de muito errado no caráter do brasileiro, obcecado pelo próprio umbigo e incapaz de pensar no coletivo. Aglomerações como a que aconteceu na noite de ontem na rua Dias Ferreira, no Rio de Janeiro, vêm se repetindo por todo o país. O pior é que todo mundo sabe o que vai acontecer daqui a alguns dias: um novo pico de infecções, seguido por um novo pico de mortes duas semanas depois. Não adianta nada o Jornal Nacional detalhar os dramas pessoais. O sofrimento das vítimas, o desespero das famílias, o apelo dos médicos. O brasileiro não está nem aí. A quarentena já deu: queremos mais é tomar chope sem máscara na calçada, morra quem morrer. E fodam-se os funcionários obrigados a trabalhar, fodam-se os idosos que ficaram em casa, fodam-se os profissionais  de saúde. O Leblon já tem vacina? Não, mas tem DNA brasileiro.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

MUDANÇA DE MARÉ

Tem algo curioso acontecendo. Cada vez mais pessoas - e até mesmo empresas - não estão mais olhando só para o próprio bolso. A preocupação social parece estar ficando raízes. A tendência é mundial, e se reflete no boicote que países europeus prometem fazer aos produtos agrícolas brasileiros que não cumprirem as regras de preservação do meio ambiente. Também ficou patente nos mais de 50 mil comentários negativos que iFood, Uber Eats e similares receberam ontem, por causa da greve dos entregadores. O consumidor prefere dar gorjetas mais altas, ou encontrar um meio para que boa parte de seu dinheiro não caia nas mãos desses atravessadores, que exploram os mais vulneráveis como nos tempos do capitalismo selvagem. Mas o gesto que pode ter os desdobramentos mais dramáticos é a saída de grandes anunciantes do Facebook. Mark Zuckerberg virou sinônimo de empresário inescrupuloso e não se emenda nem quando seus maiores clientes estão sofrendo as consequências da divisão que sua rede ajudou a aprofundar. Ele não é o único a remar contra a maré: está na ilustre companhia do Biroliro, que acha que é um bom negócio destruir a Amazônia para criar bois de carne invendável. Vão todos se afogar.

AMADOR A GUIAR

Mais do que o radicalismo, mais do que qualquer pauta reacionária, até mais do que o Gabinete do Ódio: o que realmente marca o desgoverno Biroliro é a incompetência, em todos os níveis. Edaír não sabe governar nem montar equipe. E ainda tem a arrogância típica dos imbecis, que acham que são mais espertos que todo mundo. O exemplo mais recente do amadorismo generalizado é o comercial lançado ontem pela Secom e rapidamente tirado do ar, depois que descobriram que as fotos que ilustram os "cidadãos comuns" com quem o Bozo conversa foram compradas em bancos de imagens. A desculpa oficial é que era só um teste, que não deveria ter sido divulgado - e só isto já comprovaria que os caras não são do ramo. Mas sabemos que não foi um deslize. Foi incompetência mesmo. Melhor assim, porque já pensou se o Pandemito fosse um gênio do mal?

quarta-feira, 1 de julho de 2020

ÚLTIMA TEMPORADA, FOCO

"O roteirista do Brasil é ruim" virou uma piada recorrente, tamanha a quantidade de absurdos que invadiu o nosso cotidiano. Mas ninguém traduziu esse clichê de forma tão brilhante quanto o Antonio Prata na crônica "Brasil, Sala de Roteiro", publicada pela Folha no domingo passado. O texto acabou inspirando uma websérie dirigida por ninguém menos que Fernando Meirelles, cujo primeiro episódio saiu hoje no YouTube. Tudo gravado remotamente, claro, mas pelo menos o assunto não é a pandemia - confesso que estou ficando enjoado de programas sobre gente confinada falando sobre as agruras do confinamento.

terça-feira, 30 de junho de 2020

TRANSFORMADOR


Um documentário inteiro sobre transexuais no cinema e na TV? Confesso que achei a premissa um pouco exagerada quando ouvi falar de "Revelação" pela primeira vez. Vai ter assunto para quase duas horas? Pois veja só como eu sou burro. O assunto daria para encher alguns anos, pois desde os primórdios da sétima arte que pessoas trans aparecem na tela. O conceito sequer existia um século atrás, mas lá estão eles - eunucos, travestis, crossdressers - já no cinema mudo, sendo alvo de piadas e/ou violência. Fiquei pasmo ao perceber que produções recentes, com menos de uma década, ainda mostravam homens e mulheres transexuais como seres asquerosos, que suscitam ânsias de vômito nas pessoas "normais". Pior: o cinema nos ensinou a reagir assim. O condicionamento me pegou de tal jeito que, uns anos atrás, eu precisei escrever uma storyline para um personagem trans em uma série em desenvolvimento, e tudo o que eu pensei foi o homem que se interessa por ela ficar chocado quando descobre a verdade. "Revelação", disponível na Netflix, esfrega essa verdade na nossa cara. E de fato nos revela um mundo imenso, variado, estranho e familiar. Conduzido com segurança por Laverne Cox, o filme segue a ordem cronológica dos acontecimentos ao mesmo tempo em que colhe depoimentos de atores, roteiristas e diretores, todos trans (cada um deles merecia seu próprio documentário). E transforma o espectador, que termina com, pelo menos, a consciência de ser um babaca ignorante.

ATÉ TU, AUGUSTO?

A mentira é o modus operandi desse desgoverno. Ministros e ministeriáveis mentem o tempo todo sobre seus currículos, como se não fosse fácil checar os dados. O curioso é que nenhum perdeu o cargo por causa disso: só o Decotelli periga não assumir. Hmm, talvez porque ele seja negro? Nem mesmo a Micheque, que é supostamente evangélica, está livre de mentir. A primeira-dama anunciou que havia adotado um cão "resgatado das ruas", como se cães de raça andassem por aí à toa, com coleira no pescoço e tudo. Batizado de Augusto e badalado nas redes sociais, o totó logo ganhou milhares de seguidores. Acontece que ele é um pastor-maremano dos Abruzzi, não um vira-lata qualquer, e hoje apareceram os verdadeiros donos. Já pensou, que pesadelo? Seu cachorro é sequestrado e rebatizado pelos Biroliro? Só faltou divulgarem que ele fez mestrado em Harvard e doutorado na Sorbonne.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

TODOS NO MESMO TREM


"Expresso do Amanhã" começou a ser produzida muito antes da pandemia. Portanto, não tinha como prever que se tornaria uma metáfora - mais uma - da situação surrealista por que estamos passando. A série da Netflix é baseada no filme do mesmo nome de Bong Joon-ho, o diretor de "Parasita", por sua vez adaptado de uma HQ francesa. Joon-ho é o produtor executivo do programa, que deixa ainda mais clara sua preocupação com a desigualdade social. A premissa é meio absurda: depois de uma catástrofe climática, a Terra inteira congelou, e uns poucos privilegiados conseguem refúgio num trem que roda o planeta sem parar. Os passageiros da primeira classe pagaram caríssimo por seus bilhetes, mas também há clandestinos amontoados nos últimos vagões. Muitas perguntas não têm resposta. De onde vem o combustível? E a comida, a bebida, as drogas que são traficadas lá dentro? Nada disso importa, e sim o conflito entre as várias classes. Jennifer Connelly faz uma super comissária de bordo durona e eficiente, e está tão magra que chega a dar aflição. Mocinha e vilã ao mesmo tempo, a personagem tenta manter a ordem nos mais de mil vagões usando métodos questionáveis. Pelo menos, está fazendo alguma coisa. Nós também estamos presos num trem dividido em castas, mas o nosso não tem piloto nem tripulação.

ORGULHO E PRECONCEITO

Foi maravilhoso ver o Congresso iluminado com as cores do arco-íris neste Dia do Orgulho LGBT+, como se fôssemos um país civilizado. Mas não somos: é incontornável a ironia de que nossos parlamentares jamais aprovaram uma lei que garantisse o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ou a adoção de crianças. Quase todos os direitos que nós temos foram assegurados pelos tribunais. Por outro lado, foi acintoso que essas luzes brilhassem justo quando temos o governo mais reacionário desde a ditadura militar. Essas contradições são a cara do Brasil, que tem um pé no século 21 e outro na Idade Média. Gays, lésbicas, trans e companhia estão mais visíveis e presentes do que nunca, e nem os evanjas mais fanáticos assumem que são homofóbicos. Mesmo assim, a violência ainda corre solta, e as redes sociais dão palanque a escrotos de todos os matizes. Por isto, apesar dos avanços no país e no mundo, a luta continua.

domingo, 28 de junho de 2020

DEVIL IN AMERICA


Estamos comemorando desde ontem aqui em casa o Dia do Orgulho LGBT+. Pela televisão, é claro... Um ponto alto foi uma maratona da segunda temporada de "Pose", lançada há um ano nos EUA e que ainda não tínhamos visto. Outro foi o documentário "Bully. Covarde. Vítima. A História de Roy Cohn", da HBO. Quem viu "Angels in America", a peça ou a minissérie, deve se lembrar do cara: um advogado inescrupuloso, ligado à máfia e aos poderosos, que foi forçado a sair do armário quando contraiu AIDS. Roy Cohn entrou para a história como sinônimo do mal absoluto, do egoísmo carreirista, da falta de caráter em estado puro. Mesmo ganhando fortunas de seus clientes, ele saía de restaurantes sem pagar, ou comprava obras de arte e enrolava os vendedores. Também dava festas regadas a cocaína no Studio 54 (era advogado dos donos) e, mais para o fim da vida, desfilava com com cinco michês em cada braço por Provincetown. um balneário que foi tomado pelas gueis nos anos 80. Cohn adquiriu notoriedade antes dos 30 anos, ao fazer parte do time de promotores que mandou Julius e Ethel Rosenberg para a cadeira elétrica, acusados de terem passado os segredos da bomba atômica para a União Soviética. O filme é dirigido pela neta do casal, Ivy Meeropol, e nem por isto é um ataque de ódio a essa figura nefasta (não que ele não merecesse). Sim, Roy Cohn também foi uma vítima de seu tempo. Mas, enquanto outros se rebelaram, ele ajudou a preservar a homofobia estrutural que nos aflige até hoje. Tampouco foi o único. Tá cheio de Roy Cohn por aí até hoje.

sábado, 27 de junho de 2020

NÃO COSTUMA FAIÁ

Ontem eu estava tão obcecado pelo filme do Eurovision que deixei escapar as comemorações pelo 78o. aniversário do Gilberto Gil, com live e tudo. Só hoje fui ver o vídeo de "Andar com Fé", e estou maravilhado. É a fina flor da música brasileira, mais duas senhoras da família do diretor Andrucha Waddington de contrabando. Aham, repararam que não tem nenhum sertanejo pró-Biroliro?

sexta-feira, 26 de junho de 2020

EUROFLIX

Quis a Deusa que, justo no primeiro ano em que não há Eurovision desde que o festival começou em 1956, um filme da Netflix viesse saciar a minha crise de abstinência. "Festival Eurovision da Canção: a Saga de Sigrit e Lars" é um delírio visual, um insulto auditivo e, talvez, a melhor comédia do ano. Finge que é uma sátira, mas, na verdade, é uma carta de amor ao evento mais cafona do universo. Só quem adora disco music sérvia, heavy metal bielorrusso, pop genérico cantado em húngaro e baladas românticas cipriotas vai fruir de cada piada infame, cada lantejoula azul, cada coreografia absurda com que o filme nos brinda. Os produtores sabem que seu público-alvo é formado por fãs hardcore do festival, e enfiaram um grandioso número musical do qual participam vários vencedores do Eurovision, como Loreen, Netta e Conchita Wurst. Até Salvador Sobral dá as caras, e sua divina "Amar pelos Dois" faz parte da trilha. Também há um monte de músicas inéditas, de nível bem mais alto do que as que concorrem na vida real. Uma delas, "Lion of Love", está aí embaixo, na voz do candidato russo interpretado por Dan Stevens. Não é que ele ficou a cara do Tarkan, o maior popstar da Turquia? Rachel McAdams também está ótima como a sonhadora Sigrit. metade da dupla Fire Saga que, por caminhos tortos, representa a Islândia no ESC. A outra metade, Lars, é feito por Will Ferrell, um ator desagradável que se especializou em personagens desagradáveis. Mas eu lhe serei eternamente grato: Ferrell não só coescreveu o roteiro, como lutou por 20 anos para realizar sua ideia de um filme sobre o Eurovision. Que a Deusa lhe conceda 12 pontos.

ATUALIZAÇÃO: No sábado de manhã, pintou no YouTube a melhor cena do Euroflix. É a sequência do Song-Along, que reúne os atores principais e vários concorrentes de edições passadas do festival. Quantos você consegue identificar, além da óbvia Conchita? Estou vendo e revendo esse clipe sem parar, e tive um insight. Olha só como o Eurovision é moderno e inclusivo: tem gente de todas as cores, filho de imigrante, não-binário, gorda, mulher barbada. E é uma meritocracia para valer, porque todo mundo canta pacas. Agora só falta os eurofãs imitarem a galera do k-pop e começarem a sabotar o sistema também.

INITIALES B.B.


Uma das coisas que têm me segurado nessa quarentena é o fato de muitos dos meus artistas prediletos estarem lançando trabalhos novos. Já tem disco novo do Sparks, da Lady Gaga e, a partir desta sexta, do meu noivo secreto Benjamin Biolay. Hélàs, ele continua ignorando que nós fomos feitos um para o outro. Em compensação, segue gravando álbuns magníficos, e "Grand Prix" não é exceção. Não há grandes novidades formais: as 13 faixas são B.B. em estado puro, talvez com um clima ainda mais sessentista do que de costume. Essa pegada aparece na capa, nos clipes (o de "Vendredi 12" traz a musa Monica Vitti) e nas influências de Serge Gainsbourg, de quem meu futuro marido costuma ser apontado como sucessor. Também tem vestígios de bossa nova, o que me faz perguntar: quando o Biolay virá de novo se apresentar no Brasil? Eu perdi da primeira vez. Será que ele tem medo de me encontrar?

quinta-feira, 25 de junho de 2020

CONTROLE SEU ENTUSIASMO

À primeira vista, a nomeação de Carlos Decotelli para o ministério da Educação é motivo de celebração. O cara é do ramo e tem até pós-doutorado. Dizem também que é uma pessoa afável e aberta ao diálogo. "Âin, mas ele é conservador". E daí? Quem não está preparado para ter conservadores no poder não gosta da democracia, porque ela pressupõe a alternância de partidos. Além do mais, finalmente um negro no primeiro escalão! Mas a verdade é que o burro vendado da anedota seria um ministro melhor que o Weintrauma. Por outro lado, mesmo Jesus Cristo teria dificuldades no MEC se fosse bombardeado pelos bostolavistas. Será Decotelli uma nova Regina Duarte, a que foi sem nunca ter sido? Ou é farinha do mesmo saco, mas sabe se expressar em português correto? Lembremos que ele aceitou um cargo no desgoverno Biroliro...

ATUALIZAÇÃO: A dúvida durou pouco. Já surgiram diversos prints de tuítes grosseiros do Decotelli. Ele ofence Miriam Leitão, Bruno Gagliasso e até mesmo Danilo Gentilli. Pelo menos, não comete erros de ortografia nem de concordância.

ATUALIZAÇÃO 2: São FALSOS os tuítes grosseiros atribuídos a Decotelli. Foram feitos a partir de um perfil fake. Menos mal, mas todo cuidado é pouco.

NÃO VAI SER ÁGUA

Em 1985, fui visitar um amigo brasileiro que morava em Boston, onde fazia pós-graduação. Ele havia acabado de se mudar para um novo apartamento e precisava instalar telefone. Ligou para duas companhias, fez orçamentos, escolheu a mais barata e pronto: no dia seguinte, o telefone já estava instalado. Eu fiquei boquiaberto. No Brasil daquela época, toda a telefonia era estatizada, e esperava-se anos por uma linha. Tão caras que eram consideradas bens duráveis, que precisavam ser declarados ao fisco. Isto começou a mudar na década de 1990, com a privatização e a concorrência. É por isto que, a princípio - A PRINCÍPIO - não sou contrário à privatização do fornecimento de água e esgoto. Só que o assunto é complexo demais para um simples contra ou a favor. Diversas cidades ao redor do mundo que haviam privatizado o serviço agora estão reestatizando-o. A iniciativa privada pode ser tão corrupta quanto os funcionários públicos, e não faltam exemplos trágicos de má gestão e roubalheira. Por um lado, acho ingênuo achar que o Estado brasileiro tem condições de levar saneamento básico para toda a população: não levou até hoje e, quando leva, vai junto a geosmina. Mas é mais ingênuo ainda confiar no capitalismo desregulado. O ultraliberalismo de Paulo Guedes já saiu de moda no resto do mundo, porque gera ainda mais desigualdade e desequilíbrio social. Portanto, não há solução simples à vista. O que há é a eterna vigilância: pressionar políticos e empresas, porque só assim eles andam na linha. Coragem, porque não vai ser água.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

DUAS RAINHAS

O Queen já enfeitou selos de países africanos como o Benin, o Congo e o Tchad. Agora a minha banda favorita de todos os tempos  é homenageada em sua terra natal: os Correios britânicos vão lançar uma série de 13 selos comemorando os 50 anos da formação do quarteto. Só os Beatles e o Pink Floyd receberam antes tamanha honraria. Claro que eu quero a coleção completa, mas ficaria feliz só com o meu favorito, que reproduz a icônica capa do "Queen II". O curioso é que  há um congestionamento de rainhas nesses selos. Alá a jovem Elizabeth II no canto superior direito.

terça-feira, 23 de junho de 2020

PRETO NA RODA

O "Roda Viva" ressuscitou desde que Daniela Lima assumiu a apresentação do programa há quase um ano, e vem mantendo o pique sob o comando da Vera Magalhães. Independente da sua opinião sobre ela, é inegável que os convidados andam quentíssimos, sempre relevantes aos assuntos do momento, como Felipe Neto ou Atila Iamarino. Ontem foi a vez de Silvio Almeida, e eu tenho até vergonha de admitir que não o conhecia. Agora vou comprar seu livro "Racismo Estrutural" e tentar prestar mais atenção no que está acontecendo à minha volta.

O 2o. ANO DO RESTO DA MINHA VIDA

A morte de Joel Schumacher me deu a deixa para falar de novo sobre um filme dele que me afetou profundamente. Eu já tinha feito um post sobre "O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas" há mais de 10 anos, quando anunciaram que ele viraria série de TV. A série nunca foi feita, e é claro que hoje seria muito diferente do longa. Não há mais clima para um programa com sete protagonistas brancos, de classe média alta e heterossexuais. Mas o argumento ainda vale: o começo da vida adulta, com todas as suas alegrias e desgraças. O primeiro ano do título brasileiro é o de recém-formado, quando a faculdade ficou para trás. Assisti ao filme em 1985, mais ou menos o segundo ano do resto da minha vida (terminei minha segunda faculdade em meados de 1983). Preciso rever logo: será que aqueles draminhas juvenis ainda ressoam para mim, no limiar da terceira idade?

segunda-feira, 22 de junho de 2020

HADASSAH!

"The Politician" é quase uma série nova em sua segunda temporada. A viadagem de Peyton (Ben Platt) evaporou: ele agora vive um trisal com duas moças de seu comitê eleitoral, e canta em só um dos sete episódios da nova safra. Toda a ação se transferiu da Califórnia para Nova York, onde ele agora disputa uma vaga no Senado estadual. E a saída de Jessica Lange do elenco é compensada pela chegada de Judith Light e, principalmente, Bette Midler. Sou fã da Divine Miss M desde 1973, e me refestelo em saber que, aos 75 anos de idade, ela continua com o timing de comédia afiadíssimo. Talvez afiado até demais: sua Hadassah Gold, consultora política sem escrúpulos nem papas na língua, engole quem estiver por perto, feito um buraco negro. O final da temporada (que pode também ser o da própria série) é exageradamente feliz. Ryan Murphy também fez isso em "Hollywood", e soou falso feito as desculpas do Wassef. Sei que precisamos de alento na pandemia, mas o excesso de açúcar faz mal à saúde.

YOU HAD ONE JOB

Advogado tem que ter lábia. Tem que criar uma narrativa envolvente e fazer com que seu interlocutor acredite que ele realmente acredita nela. É por isto que acho injusta a comparação de Fredercik Wassef com Saul Goodman. O advogado de Walter White é um mestre do vai-que-cola. Tem cara-de-pau, tem charme, tem a inteligência rápida dos que sabem o que a plateia quer ouvir. Dessas qualidades, Wassef só tem a primeira. Repetir que ele não sabia que Fabrício Queiroz estava em sua casa de Atibaia é chamar todo mundo de burro. Dizer que há uma campanha para manchar sua reputação é uma tentativa canhestra de desviar a atenção do verdadeiro alvo da investigação: a familícia Biroliro. Verdade que o caso de seus clientes é quase indefensável, mas Wassef falhou miseravelmente. Hoje, em entrevista à CNN Brasil, o porta-de-cadeia avisou que não é mais advogado dos Bozos. Diz que renunciou, mas eu duvido: deve ter levado um pé na bunda. Mais que merecido.

domingo, 21 de junho de 2020

IT'S MY PARTY AND I CRY IF I WANT TO

Trump se gabou no Twitter de que havia recebido mais de um milhão de pedidos de ingressos para seu comício de ontem em Tulsa. A organização de sua campanha eleitoral chegou a alugar uma área ao ar livre para acomodar o excesso de apoiadores, pois a arena BOK Center tem capacidade para apenas 19 mil pessoas. Sabe quantas foram no final? Seis mil e duzentas. O resto era imprensa, segurança e staff, o que ocupou menos de dois terços do lugar. O Bebê Laranja voltou cabisbaixo para Washington, com uma expressão de tristeza no rosto que nem os 121 mil americanos mortos pelo conronavírus foram capazes de provocar. Hoje o mundo está dando gargalhadas em saber que os fãs de k-pop, muito mais revolucionários do que punks ou headbangers, organizaram uma mega-pegadinha pelo Tik Tok e se registraram para comparecer ao comício. Só para depois não ir. Isso inflou as expectativas de Trump, mas não foi o que esvaziou o evento. Porque esse registro não é uma reserva: quem chegasse ontem ao BOK Center poderia entrar, pois havia lugar de sobra. O povo é que não foi mesmo. A pandemia assustou: com vários casos positivos entre os próprios assessores da campanha, a arena havia se tornado um foco de transmissão. Mas a razão principal é mesmo o derretimento da popularidade de Trump. Tudo indica que ele passará pelo vexame de não se reeleger, o que acontece com poucos dos que chegam à Casa Branca. Só faltam quatro meses para novembro. Tik tok, tik tok.

sábado, 20 de junho de 2020

FRIAZINHO NA BARRIGA

Estou rolando no chão de rir das hostes biroliristas escandalizadas com a capa da Ilustrada de hoje. Como se o advogado do presidente esconder o Queiroz em sua própria casa fosse algo normal... A chamada é afrontosa: "o novo homem do presidente". Homofobia? Só se for a a dos minions, gente. Eles estão eriçados justamente porque o jornal sugere que Edaír deu a Secretaria da Cultura para o Mário Frias porque o ator tem, aham, belos olhos. E não há nada que incendeie mais o pânico em quem tem a masculinidade frágil do que a insinuação de que sentem atração por outros homens. De resto, acho que a foto resume todas as qualificações que Frias têm para a nova pasta. É o seu currículo escancarado.

NINHO DE VESPAS


"Wasp Network" tinha tudo para ser um baita filme. A história real que o inspirou é incrível: na década de 90, espiões cubanos fingiam que desertavam para os Estados Unidos, só para se infiltrar nas numerosas organizações anti-castristas da Flórida. Além disso, o ângulo escolhido pelo diretor francês Olivier Assayas é pungente. Alguns não contavam tudo para as famílias que ficavam em Cuba, que achavam terem sido abandonadas. Outros faziam uma nova vida em Miami, enganando suas novas esposas. Assayas ainda reuniu a nata das estrelas latinas: o venezuelano Edgar Ramírez, a espanhola Penélope Cruz, o mexicano Gael García Bernal, a cubana Ana de Armas e o coisa nossa Wagner Moura. No entanto, mesmo com esse timaço e essa premissa, o roteiro é confuso e irregular. Muda de tom à medida em que o longa avança. De repente, entra um flashback e uma locução em off explicando tudo, como se o produtor brasileiro Rodrigo Teixeira estivesse querendo consertar a narrativa. O flashback ainda termina com um letreiro onde se lê "Present Day", só que a ação não veio para os dias atuais: continua nos idos de 1997, onde já estava antes. É uma pena, porque a brincadeira deve ter custado caro. Há locações em Havana, em Miami, uma minuciosa reconstituição de época e até uma batalha aérea, com aviões sendo atingidos e caindo no mar. Talvez com medo de um flop nas bilheterias, Assayas e Teixeira venderam os direitos de "Wasp Network" para a Netflix, onde de fato ele não faz feio. Mas essas vespas, como os espiões chamavam a si mesmos, mereciam picar mais.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

LIVEGBTTQIAOQUE?

Para quem não viu mas ainda quer ver: clique aqui e assista à íntegra da live que o Tiago Pavinatto e eu fizemos na noite de quinta. Ele desativou os comentários para não se desconcentrar e poder focar na minha beleza, então comenta aê.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

CADÊ O CHEFE DO QUEIROZ?

A pergunta é retórica. Todo mundo sabe qual é a resposta ao novo meme, empossado depois da morte súbita de "Cadê o Queiroz?" na manhã desta quinta. Uma formulação mais precisa talvez fosse "Cadê o Presidente do Brasil?". Ninguém sabe, ninguém viu. O posto está vago há 18 meses. Fingindo que governa está um miliciano despreparado, inepto e burro, mas muito burro mesmo. Porque tem que ser asinino para esconder o ex-ajudante de ordens, com quem ele jura que perdeu contato, na casa do próprio advogado. A prisão de seu operador da rachadinha chega em pleno inferno astral do Biroliro, com o STF fechando o cerco às fake news, Weintrauma sendo demitido e o povo perdendo o medo de ir à rua protestar. Duvido muito que as FFAA como um todo apoiem qualquer coisa que cheire a golpe, ainda mais agora.  E torço para uma solução à la Yeltsin, que me parece a menos traumática: em troca de alguma proteção para os filhos gângsters, Edaír renunciaria. Mas duvido. Ele se acha muito mais forte do que de fato é, e vai partir para o tudo ou nada. Porque, acima de tudo, também é burro. Mas muito, muito burro mesmo.

ATIBAIA

Eu tenho uma casinha lá em Atibaia 
Fica bem longe da praia, só vendo que gracinha 
Lá mora um ex-PM, motorista, segurança 
O cara sabe até como faz rachadinha

Quando chega o verão eu nem passo lá por perto
Porque sei que é melhor o cara ficar a sós
Eu rio muito e me sinto muito esperto
Se alguém vem perguntar “cadê o Queiroz?”

(d'aprés "Marambaia", de Henricão e Rubens Campos)

quarta-feira, 17 de junho de 2020

50 TONS DE A BELA E A FERA


Fui ver "365 Dias" pronto para odiar. Muita gente falando mal nas redes sociais, muita matéria denunciando o machismo e a violência da história. Mas o filme se tornou um fenômeno na Netflix, e não só no Brasil. Isso me atiçou a curiosidade. O fato de se passar quase todo em deslumbrantes paisagens italianas e ter um italiano mais deslumbrante ainda no papel principal me convenceu. E aí, adivinha? Eu me diverti muito. Claro que "365 Dias" é trash em estado puro. A premissa é risível, os diálogos são péssimos e os atores, canastrões. Por outro lado, não há enrolação, e as cenas de sexo são mesmo tórridas. Três delas são de sexo oral no bonitão do Michele Marrone, que se esmera em fazer caretas de êxtase. Já a polonesa Anna Maria Sieklucka não tem nada de muito especial, mas acho que é este o ponto. O filme precisa de uma protagonista meio neutra, para que seu público-alvo principal - a mulherada - possa se projetar nela. "365 Dias" é um descendente direto do conto de fadas da Bela e a Fera: uma linda mocinha cai prisioneira de um monstro, e precisa que ele se apaixone por ela para se libertar. O monstro, nessa versão mesclada com "50 Tons de Cinza", é um mafioso, e a obsessão dele por ela é totalmente irracional. Mas é isso que as mulheres querem: que um homem belo e rico mova mundos e fundos por elas, e que as forcem a fazer o que elas já têm vontade. É curioso como o galã dessas fantasias femininas é sempre milionário. Até na comédia argentina "Coração de Leão", em que um anão se envolve com uma mulher de altura normal, o sujeito tem rios de dinheiro. Assim fica fácil, né? Muito tem se dito sobre a suposta "síndrome de Estocolmo" da heroína de "365 Dias", mas ainda não vi ninguém reclamar dela não se incomodar com o detalhe de seu algoz ser um gângster. Se a foda é boa e tem um jatinho lá fora, vai se queixar do quê, não é mesmo?
"365 Dias" só tem uma coisa realmente imperdoável: a trilha sonora atroz. São músicas em inglês escritas por quem não tem o inglês como língua materna, meio no estilo Eurovision. Só que ainda pior, por que elas se esforçam para soarem sexies. Algumas são cantadas pelo próprio Michele Morrone, que já fazia carreira na música antes de se arriscar como ator. Eu gosto mais de vê-lo calado.

terça-feira, 16 de junho de 2020

AS LETRAS QUE LUTEM

Meu post "Por Queer Não?" rendeu muitos comentários, aqui e nas redes sociais. Também me rendeu um convite para participara de uma live com o Tiago Pavinatto, de quem sou amigo há muitos anos. É verdade que já tivemos desavenças políticas, mas a foto acima, tirada em 2018, prova que sempre nos demos bem. O Pavinatto é dum dos criadores do MBLGBT, e é justamente essa letraiada que não para de crescer que nós iremos debater. Venha participar: será nesta quinta, 18 de junho, às 21h30, no Instagram do Pavinatto. Vai ser épico.

JÁ WEINTARDE

De todos os terríveis ministros de Edaír Biroliro, Abraham Weintraub é o pior. Onde já se viu o responsável pela pasta da Educação cometer erros crassos de português? E este nem é o pior defeito do cara. Weintraub só tem um plano para a área, a mais importante do governo: exterminar 'esquerdistas", i.e., qualquer um que não chame o Bozo de mito. Dane-se o Enem, os estudantes, a ciência, a pesquisa, as universidades, o futuro do país. Agora ele talvez seja despachado como adido cultural (risos) para alguma embaixada distante, ou vire aspone de sei lá o quê. Merecia ser coberto de piche e penas, mas o dia virá. Tampouco há muito o que celebrar: se o bolsolavismo não conseguir por alguém ainda pior no comando do ministério, a honra caberá ao Centrão. Quem que a gente prefere: um lunático incompetente ou um ladrão?

(O título original deste post era "Weintrauma", um apelido que surgiu nas redes. Mas aí meu amigo Dudu Braga sugeriu a pérola que agora dá nome o texto.)

segunda-feira, 15 de junho de 2020

PANDEMIA DE HOLLYWOOD

Talvez seja praga da Glenn Close. O Oscar está demorando tanto para chegar às mãos dela, que agora também vai demorar a chegar para todo mundo. A cerimônia de 2021 foi adiada em dois meses, para o dia 25 de abril. Os novinhos não lembram, mas antigamente era quase assim: o prêmio marcava o início da primavera nos EUA, sendo entregue no final de março. Mas era ruim para as bilheterias levar tanto tempo para premiar os filmes do ano anterior, quando muitos já tinham saído de cartaz. Para compensar o atraso, a Academia estabeleceu que títulos lançados até fevereiro poderão concorrer. Era só o que faltava: 2020 vai durar 14 meses.

POR QUEER NÃO?

Durante três décadas, o movimento pelos direitos igualitários teve um nome simplezinho: era só gay mesmo. Os primeiros ativistas se apossaram da palavra, que até a década de 60 tinha uma conotação pejorativa nos Estados Unidos, e a ressignificaram. Gay acabou penetrando em quase todas as línguas e foi por muito tempo um grande guarda-chuva, debaixo do qual cabia todo mundo. Aí as lésbicas sentiram que precisavam de mais visibilidade, acharam que gay havia virado sinônimo de viado e passaram a se destacar do grupo - surgiu o "gays e lésbicas", como se essas últimas também não fossem gays. No final da década de 90 apareceu o termo GLS aqui no Brasil, que eu acho muito simpático justamente por incluir os simpatizantes. Então foram os bissexuais, travestis e transexuais que clamaram por suas próprias letras, e consolidou-se a sigla LGBT. De uns anos para cá, como todo mundo sabe, ela não parou de crescer. Ontem aconteceu a primeira Parada do Orgulho LGBTQIA+ virtual, sem desfile na Paulista, e eu vi uns trechos pela TV. O som dessa fileira de letras é estranho: termina com um "QI a mais", como se fôssemos mais inteligentes que os HTs. Aí a atriz Bruna Linzmeyer sugeriu que se acrescentasse a letra P, para representar os pansexuais. Acho justo, acho digno, acho democrático e também acho muito pouco prático. Há duas semanas a Jup do Bairro me interpelou pelo Twitter porque a chamada da coluna Multitela daquele dia falava em "mês do orgulho gay". Expliquei para ela que eu havia tomado o maior cuidado, escrito todas as letrinhas na versão original, mas que agora a coluna está espremida ao lado dos quadrinhos e o diagramador - provavelmente hétero - achou que tudo bem substituir a sigla gigantesca por uma palavrinha de três letras. Não adiantou, pelo contrário. Abriram-se as portas do inferno, com um monte de militante me agredindo mesmo depois de eu ter pedido para corrigirem na versão online. Estava na hora de todos nós, L, G, B, T, etc., chegarmos num acordo e simplificarmos a vida de todo mundo, inclusive a nossa. Concordo que a palavra gay não serve mais como ônibus. Mas acho que há uma outra que poderia servir: queer. Queer também já foi pejorativo em inglês, e significa estranho, diferente, inclassificável. Já conheço gente que se identifica como queer. Acho que o termo podia ser expandido e abranger todas as milhares de letras que não param de brotar. Somos todos queer. Movimento queer. Parada queer. Por queer não?

domingo, 14 de junho de 2020

WHAT'S GOING ON


Na versão original do roteiro de "Destacamento Blood", escrita por brancos, os protagonistas eram todos brancos. Foi só quando a história chegou nas mãos de Spike Lee que eles viraram negros, acrescentando uma camada extra de sofrimento e perspectiva histórica ao que era pouco mais do que uma aventura. Cinquenta anos depois de lutarem na guerra, quatro veteranos americanos voltam ao Vietnam. Um dos propósitos da viagem é nobre: recuperar os restos mortais de um quinto companheiro. O outro, nem tanto: encontrar um tesouro em barras de ouro, que eles mesmos enterraram no meio do mato. A fortuna estava num avião americano derrubado pelos vietcongs, e era um suborno dos EUA a uma tribo local em troca de apoio. Os personagens teriam que ter mais de 70 anos, mas não chegam a tanto; talvez a trama não se passe exatamente nos dias de hoje, só que isso não fica claro. A primeira parte do filme tem Ho Chi Minh City como cenário, a antiga Saigon, e o choque cultural é divertido. Hoje a cidade é feérica como quase todas as metrópoles do sul da Ásia, e os ex-pracinhas topam com algumas surpresas pela frente. A segunda é a expedição à selva, entrecortada por flashbacks dos combates nos anos 60. Spike Lee teve uma ideia ousada que funciona muito bem: os mesmo atores coroas interpretam suas versões mais jovens, o que torna  fácil identificar quem é quem. "Destacamento Blood" ganha transcendência porque, apesar de serem uns 11% da população americana, os negros formavam um terço das tropas no Vietnam, e estavam lutando pelos ideais de um país que os trata até hoje como cidadãos de segunda classe. Com seu estilo livre de qualquer sutileza, Spike Lee martela sua mensagem na cabeça do espectador, inserindo dezenas de referências históricas. Também usa bem as canções de Marvin Gaye, como a a épica "What's Going On" - escrita justamente como um comentário à guerra. E ainda arranca um desempenho excepcional de Delroy Lindo, um eterno coadjuvante que agora dispara na corrida pelo próximo Oscar de melhor ator. "Destacamento Blood" estava programado para ser exibido no festival de Cannes, que azar, mas acabou dando a sorte de estrear na Netflix justamente no momento em que protestos antirracistas explodem no mundo todo. Acaba falando diretamente com o que está acontecendo agora.

sábado, 13 de junho de 2020

VAMOS FUGIR PARA OUTRO LUGAR

Não aguento mais viver num país onde um energúmeno se acha no direito de chutar as cruzes que homenageiam os mortos pela Covid-19 na praia de Copacabana. Num país onde o suposto presidente da República incentiva seus apoiadores a invadirem hospitais, e eles invadem, e quebram computadores comprados com dinheiro público. Num país em que as pessoas lotam shoppings e praias como se não houvesse amanhã, e aí que não vai haver mesmo. Não aguento mais escrever sobre a tragédia que nos atinge, toda por culpa nossa. Então vou escrever sobre as músicas alegres para onde eu tenho fugido. Uma delas está aí acima, do coletivo francês Catastrophe. A outra é do trio argentino Poncho. Sei pouquíssimo sobre ambos, mas não importa. Eles me levam para longe desse país de merda. Nunca tive tanta raiva de ter nascido brasileiro.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

SÓ NÃO GARANTO O JANTAR

Em meio ao mar de notícias horríveis que enfrentamos o tempo todo, surgiu uma nesse Dia dos Namorados que aquece o coração. Na edição desta sexta do Bom Dia Rio, o repórter Erick Rianelli mandou um recado no ar para seu marido e colega de Globo, Pedro Figueiredo. Os dois são casados há dois anos, e não escondem isso de ninguém. Pois é: de vez em quando, o Brasil ainda anda para a frente.
Para quem não ligou os nomes às pessoas: Erick Rianelli e Pedro Figueiredo.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

PC QUEBRADO

As acusações contra PC Siqueira exalam um cheiro fortíssimo de fake news. O plano tem toda a cara de ter sido arquitetado no Gabinete do Ódio ou arredores, e não duvido que tenha sido um ensaio geral para uma ação contra um alvo ainda maior: Felipe Neto. Primeiro surge um perfil no Twitter chamado Exposed Emo, que em poucos dias consegue mais de 30 mil seguidores. A primeira grande denúncia de pedofilia feita por eles é confirmada: o caso do baterista Japinha, da banda CPM 22. Com a credibilidade assegurada, os caras logo divulgam uma conversa em que PC Siqueira aparece negociando fotos eróticas de uma criança de seis anos. Um segundo depois, a internet está em chamas, com muitos internautas gritando pela pena de morte ao influenciador. Quem não o repudiasse imediatamente era acusado de passar pano. Vi um cara dizer que preferia "ficar do lado da vítima e errar", sem se dar conta de que, se ele estiver errado, não existe vítima. Ou melhor, existe: o próprio PC, que há anos vem se destacando pelas posições progressistas. É ÓBVIO que um cara desses é o protótipo do alvo dos biroliristas: jovem, desvinculado de qualquer partido político, influente para valer. Mas por que não foram direto para cima do Felipe Neto? Porque Felipe é mais rico (pode pagar os melhores advogados) e mais escolado nos meandros da internet (vide a entrevista que ele deu para a Folha de domingo passado). Só que, pelo jeito, esse ensaio não vai dar certo. PC quase foi partido ao meio, porque uma acusação de pedofilia equivale ao cancelamento eterno. É uma morte em vida. Depois de quase um dia em silêncio, ele finalmente se manifestou pelo Instagram, e os indícios de fraude que ele aponta são bastante convincentes. Claro que não vou sair dizendo por aí que PC é inocente, mas tampouco dá para dizer que ele é culpado. A polícia precisa investigar. E o tribunal online precisa seguir as regras dos tribunais de verdade: ouvir a defesa, examinar as provas, dar o benefício da dúvida e só então proferir o veredito.

FRANKLY, MY DEAR

Eu vi "...E O Vento Levou" inteirinho uma única vez. Foi em 1989, quando o filme foi restaurado e relançado nos cinemas, nas comemorações do seu 50o. aniversário. Ou seja, já faz algum tempo que eu assisti. Não tenho todas as cenas de cor na minha cabeça. Naquela época, também não achei que o longa fosse explicitamente racista. Os tempos eram outros. Pode ser que hoje, mais consciente do racismo estrutural, eu me chocasse com algumas coisas. Mas, francamente, eu duvido que aderisse à onda atual, que quer tirar "...E O Vento Levou" de circulação, ou colar nele um documentário explicando o contexto da época. Acho ótimo que se faça esse documentário, mas ele tem que ter vida própria, descolada da obra original - que é intocável. Além do mais, "...E O Vento Levou" é bastante avançado para o período em que foi feito, o final da década de 1930. Os negros são mostrados como seres humanos, e não como animais monstruosos a serem eliminados ("O Nascimento de uma Nação" (1915) é um milhão de vezes pior. Os heróis do filme de D. W. Griffith são membros da Ku Klux Klan, que tal?). Também é bom lembrar que a protagonista Scarlett O'Hara é uma heroína proto-feminista. Depois de perder sua vida de dondoca, ela luta com todas as forças e sem a ajuda de nenhum homem para manter os remanescentes de sua família, incluindo os escravos libertos. "...E O Vento Levou" não é exatamente sobre a Guerra Civil Americana, mas uma história de amor e superação tendo a guerra como contexto histórico. E é um puta filme - sua quatro horas passam voando. Para concluir, uma curiosidade: a última frase de Rhett Butler, a célebre "Frankly, my dear, I don't give a damn", causou celeuma em alguns círculos conservadores. "Damn" era considerado palavrão por essa turma, por remeter à danação no inferno. Mais uma prova da modernidade desa obra-prima do cinema, que nem o vento nem o tempo conseguiram levar embora.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

ABOBRINHA

Como todo bully, Biroliro não tem estrutura emocional para ser confrontado. Vira as costas e destrata seu crítico, como aconteceu hoje no cercadinho do Alvorada. As hostes bozistas estão chocadas em saber que Cris Bernart é uma atriz e youtuber ligada ao MBL. Estão perguntando "quem pagou pela viagem dela?" nas redes - como se houvesse dinheiro público envolvido, ou algum patrocinador misterioso. O fato da ação ter sido orquestrada não diminui seu valor: Cris votou mesmo no Pandemito e, como boa parte da direita, está decepcionada com a incompetência do suposto presidente. O MBL promete outras surpresinhas para esta quarta-feira. Vou preparar mais pipoca, ou talvez uns chips de abobrinha.

MEU INFOMERCIAL


Não resta a menor dúvida: "Minha História", disponível na Netflix, é um infomercial de uma hora e meia.  O documentário de Nadia Hallgren vende um produto bem específico: as qualidades da ex-primeira dama americana Michelle Obama, heroína do empoderamento negro e feminino e modelo a ser seguido por milhões de meninas no mundo inteiro. Só que também é um bom filme, porque o produto que ele vende é da mais alta qualidade. Michelle é uma estrela, tanto na forma como no conteúdo. Formada em Direito em Princeton e Harvard, era uma advogada de sucesso antes de embarcar 100% na aventura do marido. Abandonou a carreira e tornou-se a parceira de Barack em todos os sentidos, com um sentido agudo de seu papel na Casa Branca e na história. Para completar, parece ter nascido "media trained". Desenvolta em frente às câmeras, fala coisas que parecem escritas por roteiristas (talvez sejam mesmo), de tão engraçadas e contundentes. "Minha História" registra sua turnê por 37 cidades dos EUA, para promover o lançamento de sua autobiografia. Feito uma Beyoncé da política, Michelle lota arenas gigantescas, e depois ainda encontra tempo e paciência para conversar com seus fãs da fila de autógrafos. Produzido por ela mesma, o filme a cobre de uma aura para lá de positiva, apesar (e talvez por isto mesmo) de ela admitir numerosos defeitos. É inconcebível que esse mulher fabulosa tenha sido substituída por Melania Trump. Quando comparada a Michelle Obama, a atual primeira-dama parece uma garrafa vazia de água mineral importada.

terça-feira, 9 de junho de 2020

LUGAR DE CALA

É legal ver tanta gente de tantas cores nas manifestações antirracistas ao redor do mundo. Mais legal ainda é perceber que muitos brancos finalmente perceberam que os negros entendem mais de racismo do que eles, aham, nós. Famosos como Paulo Gustavo e Tatá Werneck cederam seus Instagrams para respectivamente, Djamila Ribeiro e Linn da Quebrada. O Porta dos Fundos também fez bonito com o vídeo acima, de longe o mais triste da história do grupo. Mas claro que ninguém é perfeito: conhecido por defender que a piada tem que ser em cima do opressor e não do oprimido, o grupo irritou Fabiana Karla com um vídeo gordofóbico. O esquete não só não tinha graça como era mesmo ofensivo (e ainda pode ser visto aqui, neste react). Acho que pela primeir vez, o Porta tirou do ar um vídeo do ar por livre e espontânea vontade. Ainda soltou um pedido de desculpas, e o Fábio Porchat fez uma live com uma ativista do movimento gordo (pode-se dizer assim?). Pois é, tem horas em que é melhor a gente calar a boca.

NORMALIZANDO O TERRORISTA

Afinal, a CNN Brasil é o braço televisivo do desgoverno Edaír, ou um legítimo canal de notícias? A emissora já foi alvo de inúmeras (e justas) críticas desde que entrou no ar há menos de três meses, mas também deu alguns belos furos e algumas demonstrações de idoneidade. Só que ontem, como diz o Henry Bugalho, ela extrapolou a borda da Terra plana. Depois de promover um inacreditável debate pela manhã cujo tema era "omitir dados de mortes por Covid-19 diminui o impacto da doença?", à tarde a CNN deu voz para ninguém menos do que Eduardo Fauzi, o terrorista responsável pelo ataque à sede do Porta dos Fundos, que vive foragido na Rússia. Esse bandido foi chamado para comentar numa reportagem sobre os antifas, como se fosse o contrapeso natural a esses grupos. E ainda foi identificado como "empresário", como se jogar coquetel molotov fosse empreendedorismo. Engraçado que a Interpol está atrás de Fauzi, mas a CNN sabe do paradeiro dele. A reportagem gerou celeuma na internet, com Felipe Neto chamando a atenção da matriz do canal em Atlanta. Não sei se vai adiantar: a franquia da CNN na Turquia, por exemplo, é totalmente a favor do Erdogan. A CNN Brasil não colocou a matéria em sua página no YouTube, mas ela pode ser vista aqui, em seu site, Vai haver retratação? Duvido. Até porque já ficou claríssimo para que lado eles torcem.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

BANDEIRAS E SAÍDAS

Todo mundo vibrou com a derrubada da estátua de Edward Colston, o mercador de escravos de Bristol. Foi especialmente catártico o momento em que um manifestante pisou com o joelho sobre o pescoço do negreiro. O gesto já inspirou uma campanha informal aqui em São Paulo, para que a estátua do bandeirante Borba Gato tenha um destino semelhante. Trata-se de uma das peças de mobiliário urbano mais horrendas do mundo, toda coberta por ladrilhos coloridos. Mas virou ponto de referência: quem vai ao bairro de Santo Amaro sempre pergunta se o endereço procurado é antes ou depois do Borba Gato. Além do mais, sua eventual eliminação abre o precedente para a demolição do Monumento às Bandeiras, um dos poucos cartões-postais paulistanos. É a obra-prima de Victor Brecheret e um prodígio de vigor e movimento, bastante emblemático da pujança de SP. Mas, sim, é uma homenagem aos bandeirantes. Durante séculos, eles foram o símbolo da cidade, batizando colégio, rodovia e canal de TV. Hoje rola uma revisão histórica que os pinta como criminosos, que dizimaram tribos inteiras em sua ânsia pelo ouro. O fato é que os bandeirantes nos deixaram um legado precioso: esse Brasilzão sem tamanho, o quinto maior país do mundo. Sem eles, talvez ainda estivéssemos confinados pelo Tratado de Tordesilhas. Também é complicado julgar as figuras do passado com os valores de hoje. No caso do monumento do Ibirapuera, ele mostra um esforço coletivo de andar para a frente, sem exaltar nenhum nome específico. Resumindo: acho ótimo discutirmos nossa história, mas essas estátuas já foram ressignificadas.

PALPATINE

Quando Biroliro foi eleito, a turma do deixa-disso alegou que o futuro presidente seria controlado por seu entorno militar. Tomados por um elevado sentido de responsabilidade e um extremado amor pela nação, eles conteriam os desmandos do Despreparado. Qual o quê. Um ano e meio depois, já está claríssimo que os milicos da cúpula do governo são iguaizinhos ao Edaír, só com menos sex-appeal para os minions. E o pior de todos é o general Augusto Heleno, que faz as vezes de eminência parda. É ele quem sussurra ideias como o fechamento do Congresso e do STF na orelha de seu suposto chefe. A grosso modo, é o imperador Palpatine, enquanto Coronaro é Darth Vader. Não deveríamos estar surpresos: a biografia do HeleNão é uma tragédia. Ele era assessor do general Sylvio Frota, defenestrado pelo presidente Geisel em 1977 por não querer a abertura do regime militar. Helenículo devia ter a fantasia de que, caso a ditadura durasse para sempre, um dia ele se sentaria na cadeira presencial. Mas aí pintou a democracia, e seus planos foram adiados. Nem bom de batalha ele provou ser: em 2005, chefiou a Minustah, a Missão das Nações Unidas no Haiti, e provocou um aumento da violência e da mortandade de civis naquele país caribenho. É este assassino incompetente quem lidera a conspiração por um golpe de Estado. Pelo jeito, vai ficar na vontade mais uma vez: as manifestações pacíficas só estão começando, e até o Olavo já ameaçou pular fora do Titanic bozoarista. Mas Augusto Heleno vai afundar junto, e rápido.

domingo, 7 de junho de 2020

EN LA MITAD DE LA VIDA


A Argentina é aqui do lado, mas conhecemos pouquíssimo da televisão dos hermanos. A recíproca não é verdadeira: novelas como "Avenida Brasil" fizeram muito sucesso por lá. Agora podemos retribuir prestigiando "Quase Feliz", a melhor série cômica do ano até agora, disponível na Netflix. O protagonista Sebastián é o puro suco do portenho: judeu, neurótico, pelotudo nas horas erradas. Apresenta um programa de rádio chamado "En la Mitad de la Vida" onde desfia as agruras de ser quarentão, mas toda sua problemática pode ser resumida na vontade que tem de voltar para sua ex-mulher. Extraordinariamente bem escrita, dirigida e atuada, "Quase Feliz" às vezes parece uma versão latina de "Seinfeld" temperada com chimichurri. Quem tiver alguma familiaridade com as peculiaridades de Buenos Aires vai captar mais detalhes, mas eu recomendo esta série para todo mundo. Um pouquinho de quase felicidade é o que estamos precisando neste momento.

sábado, 6 de junho de 2020

O SENHOR TRAVESTI

Perdi o documentário "Rogéria: Senhor Astolfo Barroso Pinto" quando ele passou nos cinemas, no final de 2018. Ontem preenchi essa lacuna graças ao Canal Brasil, que incluiu o longa em sua programação especial do Mês do Orgulho LGBTQI+. A verdadeira Rogéria talvez risse dessa sigla sempre em crescimento. Ela se definia de uma maneira simples: era um travesti, da época em que a palavra ainda não era feminina. Rogéria, inclusive, vivia falando de seu nome de batismo, Astolfo, e o filme de Pedro Gui explora essa dualidade a fundo. Mas o que engrandece essa pioneira do transformismo no Brasil, além da coragem de se expor desde quando isso dava cadeia, era o imenso talento cênico. Uma atriz fabulosa e uma showwoman completa. Eu a vi no palco algumas vezes, e ainda tive a sorte de trabalharmos juntos em um episódio de "Ô, Coitado", em 2000. Pena que se foi tão cedo: "Senhor Astolfo Barroso Pinto" ainda estava sendo rodado quando ela morreu, em 2017, e alguns convidados gravaram seus depoimentos depois disso. O tom de adeus é incontornável, mas as homenagens são todas merecidas. E ainda descobri algo de que nunca desconfiei: vendo as declarações dos irmãos de Rogéria, percebi que essa estrela loura era... negra.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

OR HANDSOME, LIKE YOUR FATHER

Todo garoto grandalhão e desengonçado dos anos 60 e 70 foi chamado, em algum momento, de Herman Monstro. Eu fui. Hoje seria elogio: na esteira dos protestos antirracistas, viralizou nas redes sociais essa cena maravilhosa de "Os Monstros", de 1965. A série era uma imitação deslavada da Família Addams, mas tinha uma camada extra de comentário social. Os Monstros (Munsters, em inglês, que é um sobrenome de verdade) eram párias no bairro onde moravam, como os negros que começavam a se mudar para os bairros brancos. Ninguém os queria por perto, só por causa da aparência. Parece que o mundo não mudou muito.

SEM NÍVEL PARA SER GAY

Quem é o brasileiro mais odioso do momento? Sari Corte Real? Ana Paula Henkel? O páreo é duríssimo, mas meu pet peeve atual é o deputado estadual Douglas Garcia (PSL-SP). Sua história é conhecida: elegeu-se posando de pobre de direita, e só depois avisou seus eleitores de que gosta de homem. Mas é só isso mesmo: o rapaz é o protótipo do sujeito que não tem nível para ser gay, algo que, no meu entender, vai muito além da mera preferência sexual. Depois das absurdas propostas transfóbicas e armamentistas que já apresentou, o oportunista resolveu surfar na onda antifascista. Pediu que lhe enviassem dados de notórios antifas, e sua caixa-postal se encheu de nudes do Vampeta. Sua reação foi grotesca: declarou-se "palmiteiro", um negro que só gosta de transar com brancos. Agora diz que vai mandar a lista com mais de mil nomes para os EUA, para que esses "terroristas" tenham vistos negados, e ameaça persegui-los por aqui. Quem merece ser caçado, obviamente, é Douglas Garcia. Sempre fui contra a exposição de vídeos íntimos e similares, mas esse aí tá pedindo. Parece que existe um. Quem tem?

quinta-feira, 4 de junho de 2020

EU NÃO CONSIGO RESPIRAR

E olha que não sou negro, nem nunca fui alvo de racismo na puta da minha vida. Mas o ar está ficando intragável neste país. Como é que no ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2020, 132 anos depois do fim da escravidão, ainda fomos capazes de gerar alguém como a coach Luisa Nunes, que parou de falar de hidratação do cabelo para gravar um story no Instagram dizendo que "o racismo é natural"? Essa autêntica blogueirinha do fim do mundo já está postando que foi "mal interpretada" (veja o vídeo com seus próprios olhos), é óbvio. O pior é que, agora que repercutiu, a desgraçada vai ganhar milhares de seguidores, quer apostar? Luisa Nunes é uma faceta folclórica de uma tragédia muito mais profunda, que pode ser resumida no episódio do menino que caiu do nono andar no Recife. A história é tão cruel e inacreditável, mas concentra tão bem todo o horror do Brasil, que parece ter sido escrita na Oficina de Roteiros de Satanás. Não consigo pensar nela sem sentir um soco no estômago. Não consigo respirar.

FILHOS DO PUTIN

A Rússia é um dos poucos países do mundo onde a homofobia CRESCEU nos últimos 20 anos. Em 1998, 68% da população achava que a homossexualidade era "repreensível". Este número saltou para 76% em 2008 e chegou a 83% em 2018. Isto aconteceu porque Vladimir Putin e seus asseclas não têm o menor prurido em assustar o eleitorado com o fantasma da ditadura gay. Este comercial acima é de um grupo de mídia que apoia Putin, e põe em cena vários dos execráveis preconceitos que habitam a cabeça de quem não tem familiaridade com a viadagem. Para começar, a imensa maioria dos casais do mesmo sexo não replica o formato tradicional, com alguém assumindo o papel do marido e o outro, o da esposa. Além do mais, gays que adotam não querem transformar seus filhos em drag queens: eles que decidam por si mesmos, depois de adultos. O filme ainda parte do pressuposto absurdo que gays têm pais gays, quando quase todos nós somos frutos de relacionamentos heterossexuais. A matéria do Igor Gielow da Folha mostra como essa peça publicitária faz parte da guerra cultural permanente que Putin trava para se manter no poder. Lembra alguém daqui por perto, não?

quarta-feira, 3 de junho de 2020

O QUE FAZ MAL É O PAPELZINHO

Morreu Maria Alice Vergueiro, depois de muitos anos adoentada. Já em 2014, ela não pôde fazer o papel para o qual estava escalada em "Condomínio Jaqueline", série da qual eu fui um dos roteiristas. Foi uma atriz importantíssima para a história do teatro brasileiro, mas nunca se tornou famosa para valer porque fez pouca televisão. Acho que seu trabalho de maior penetração popular foi mesmo "Tapa na Pantera", um dos primeiros vídeos brasileiros a viralizar no YouTube. Em homenagem a essa giganta, vamos fumar aqui e tomar um chá.

FOGO NO PARQUINHO

As manifestações de 2013 se esvaziaram em julho, quando chegaram os black blocs. A violência contra o patrimônio público, os equipamentos da imprensa e até mesmo vidas humanas assustaram a população, que preferiu ficar em casa do que se arriscar na rua. Não duvido nada que tipinhos feito Sérgio Cabral tenham patrocinado os vândalos; de qualquer forma, não deu muito certo para ele, que está condenado a uns sete mil anos de prisão. Mas a exacerbação é um risco constante. Já existe toda uma geração que nunca foi a uma passeata, e está doidinha para sair quebrando tudo o que vê pela frente. Saques, incêndios e gente ferida dão munição aos reacionários, como já está acontecendo nos Estados Unidos e tem tudo para se repetir por aqui. Com o agravante de que, no Brasil, isso ainda pode servir de pretexto para um golpe. A garotada precisava evitar besteiras feito queimar bandeiras, que alienam muita gente que poderia estar a favor, e não cair na tentação de arrasar quarteirões. É o caminho mais certo para uma derrota acachapante. E é tudo o que o Biroliro quer.