terça-feira, 29 de setembro de 2020

IRMÃ DE CRIAÇÃO

Não fosse a pandemia, duvido que eu teria visto "Enola Holmes". Não é o tipo de filme que me arrasta para o cinema, apesar do elenco e da produção de primeira linha. Simplesmente não é para a minha idade. Mas, na secura em que a gente anda, acabei vendo. E me divertindo. Um pouco. Millie Bobby Brown, a Eleven de "Stranger Things", encontrou mais um papel que pode acompanhá-la por anos: a irm'a mais nova de Sherlock Holmes, que não existe nos livros de Conan Doyle. Tampouco existia no século 19 o conceito de que mulheres deveriam aprender artes amrciais, mas tá valendo. Um filme sempre reflete sua própria época, não importa quando ele se passe. A trama em si é menos misteriosa do que gostaria, e não consegue superar o maior enigma de todos: por que o Henry Cavill, tão perfeito, também é meio sem sal?

VAI SER UM VUVUVU

Daqui a alguns dias, vou soltar um post mostrando alguns candidatos gays a vereador de São Paulo, à direita e à esquerda. Todos sérios e bem-intencionados; cabe a cada um de nós escolher o que parece ter as melhores propostas. E SIM, acho que tem que votar em gay SIM - depois eu me aprofundo nessa tese. Mas hoje eu só quero dar risada. E ninguém está dando mais motivo para riso do que Luiz Claudio Lima, que teve 15 segundos de fama no começo do ano ao divulgar um vídeo implorando por um cartão Green da The Week, ao mesmo tempo em que ameaçava o André Almada com um processo se seu capricho não fosse prontamente atendido. O rapaz voltou à carga e lançou há uns dias mais um vídeo, onde surge visivelmente colocado numa festa assumidamente clandestina. Anuncia sua candidatura a vereador de Guarulhos e promete que "vai ser um vuvuvu", como se já não fosse. Acho até compreensível que alguém grave um vídeo desses quando está bem louco. Compreendo menos a pessoa postar esse vídeo, quando o efeito já passou e o superego voltou ao normal. Vai ver que Luiz Claudio não tem mesmo superego, porque ele ainda criou um canal no YouTube chamado "Cadê o Meu Green?", onde posta vídeos com mais de duas horas e meia de duração falando de si mesmo. O moço também se propõe a discutir os mais variados assuntos, como homossexualismo (sic), vida após a morte e física quântica. Talvez se eleja, mas uma coisa é certa: jamais terá um cartão Green. Até porque é duvidoso que ainda exista The Week depois da pandemia.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

O CALOTEIRO ALARANJADO

Não é lei, mas é tradição. Todo candidato à presidência dos Estados Unidos torna públicas, antes da eleição, suas declarações ao imposto de renda. Para deixar claro que ele não tem interesses financeiros na Casa Branca, não tem negócios escusos nem vai usar o cargo para enriquecer. O primeiro a quebrar essa regra não-escrita foi Donald Trump, por que - ta-daa - ele tem interesses financeiros na Casa Branca, tem negócios escusos e usa o cargo para enriquecer. Todo mundo sempre soube disso, mas agora finalmente há provas documentais. O New York Times publicou neste domingo uma longuíssima reportagem sobre o histórico fiscal do Bebê Laranja, e adivinha? É mais complicado e estarrecedor do que se imaginava. A matéria reforça a tese de que Trump só se lançou candidato em 2015 porque queria voltar à evidência e assinar um novo contrato na TV, porque suas finanças já iam mal naquela época. Nem ele pensava que seria eleito. Uma vez empossado, seu resort Mar-a-Lago atraiu centenas de novos sócios, interessados na proximidade com o homem mais poderoso do mundo. Também começaram a florescer Trump Towers ao redor do mundo, especialmente em países autocráticos com as Filipinas, a Turquia e o Azerbaijão. O cash flow aumentou, mas as dívidas também - o jornal garante que Trump deve mais de 420 milhões de dólares, que começarão a ser cobrados a partir do ano que vem. Ou seja: se ele perde a reeleição, também perde quase tudo. É difícil imaginar esse vigarista na pindaíba. Afinal, ele já quebrou muitas vezes, mas sempre conseguiu pagar advogados que o enfiaram em rolos inextricáveis e o tiraram de inúmeras obrigações fiscais. Mas sua fortuna é um castelo de cartas erguido por um esquema de pirâmide, que nunca esteve tão periclitante. Vamos ver como Joe Biden partirá para cima dele no debate de amanhã. O mais lamentável é ver que o gado que apoia Trump acha legal ele ter pago só 750 dólares de IR em 2016 e 2017. Igualzinho aos minions que endossam cada mentira e do Biroliro. Não percebem que também são vítimas.

domingo, 27 de setembro de 2020

MEU NOME É CAOS

"Gente, tá ao vivo? Mas cês tão loucos?" Era o final de sua live de aniversário, e Gal Costa parecia ainda não ter entendido o conceito de "live". A pergunta da cantora resumiu o caos que foi a direção de Laís Bodanzky. Câmeras trêmulas, fumaça demais, intervenções excessivas da diretora e um roteiro mal-ajambrado que obrigou a pobre Gal a caminhar por todos os recintos da Casa de Francisca, em São Paulo, tropeçando nos fios e quase levando choques. Se fosse um ensaio geral, teria sido ruim. Mas foi ao vivo e a cores (esmaecidas) para todo o Brasil e o mundo. Um dos momentos mais bizarros foi o tributo de Maria Bethânia, em que Gal interagiu com o áudio da amiga como se estivesse caindo num trote do Chupim da rádio Metropolitana. Da próxima vez, era bom escolher um lugar cm ar condicionado e uma figurinista que não vista a aniversariante de sócia de clube de boliche. Salvou-se a própria Gal. com seu repertório à prova de bala e sua voz quase intacta aos 75 anos de idade. Danem-se os problemas: eu amo igual.

sábado, 26 de setembro de 2020

HEY MICHELLE CONTA AQUI PRA NÓS

Achei que a Micheque tinha ido à delegacia por causa de alguma ofensa pesada nas redes sociais, ou algum nude vazado. Na verdade, madame Biroliro foi PROMOVER o novo single dos Detonautas, que, graças a ela, está a ponto de destronar "Oh Juliana" do posto de música mais tocada do Brasil. A letra comete um erro frequente, que é confundir o Zero-Dois com o Zero-Três. Mas não é grave: são todos da mesma familícia, empenhada há três décadas em mamar nossos impostos sem fazer nada de bom em troca. Duvido que eles consigam censurar a faixa, que não faz nenhum acusação infundada - só a pergunta que não quer calar. Fiu, que alívio: até que enfim, o pop brasileiro começa a reagir.

RIFIFI NA TRUMPLÂNDIA

Nesta semana que passou, a Folha publicou uma matéria sobre a Virgínia Ocidental, o mais pobre e atrasado dos 50 estados americanos. Predominantemente branco, rural e bem pouco educado. Não por acaso, também um reduto trumpista. Fiquei assustado: deve ser mesmo horrível viver num lugar em que as pessoas se jactam da própria ignorância e preferem resolver qualer rusguinha a bala. Quis o universo que, apenas alguns dias depois, eu visse na Netflix "O Diabo de Cada Dia", que se passa entre a Virgínia Ocidental e o vizinho Ohio. O filme é dirgido por Antonio Campos - filho do Lucas Mendes, do "Manhattan Connection". É uma adaptação de um livro denso, com elenco de primeira linha. Também é de uma violencia absurda. Convém não se apegar muito a nenhum personagem, pois o índice de mortalidade é mais alto do que o de um episódio de "Game of Thrones". Não vou entrar em maiores detalhes, porque eu tive o prazer de ir descobrindo a trama aos poucos, sem saber muito sobre ela, e quero que o leitor também tenha. A trama  pesa um pouco a mão, ao concentrar tanta gente louca em poucos quilômetros quadrados. Mas a experiência é intensa, e a conclusão é cruel. Quando perversões sexuais e fanatismo religioso se entrelaçam, o sangue é inevitável. Ainda bem que estamos muito, muito longe da Virgínia Ocidental.

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

TEMPO DE EMAGRECER

Além de dar dicas do que ver na TV na coluna É Hoje em Casa da Folha, no programa Metrópolis da Cultura e no canal Põe na Roda do YouTube, agora também dou dicas no recém-inaugurado canal Manual do Tempo, voltado ao público sênior. No programinha inaugural eu falo de "Ratched", reciclando algumas das mesmas palavras do post que escrevi sobre a série aqui no blog. Nos prõximos, sentarei mais ereto - neste aí acima eu pareço o Jabba The Hutt.

I'LL WHIP OUT MY DRUMSTICK

Dez anos atrás, ainda não havia muitos popstars cantando abertamente as delícias de ser viado. Claro, tinha o George Michael, arrancado do armário depois de ter sido flagrado num banheirão. Mas o máximo de transgressão que o falecido fazia era trocar Lana Turner por Ricky Martin na letra de "My Baby Just Cares for Me". Por tudo isto, o rapper americano Cazwell causou um certo frisson com "Ice Cream Truck". A música é péssima e não fez o menor sucesso, mas o clipe cheio de rapazes desinibidos virou cult entre as bichas mais finas. Agora o Cazwell está lançando a versão 2020 de sua sorveteria, com um novo arranjo (continua péssimo) e alguns dos boys do clipe original mostrando que ainda dão uma calda. Compare as duas e concorde comigo: a antiga é bem melhor. Tinha mais atitude.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

O SINISTRO DA EDUCAÇÃO

Tava demorando. Desde que o ministério da Educação foi entregue a um pastor ligado ao Mackenzie, eu vinha esperando ele proferir uma barbaridade imperdoável. Este dia chegou. Em entrevista publicada hoje pelo Estadão, Milton Ribeiro vomitou pérolas como "quando o menino tiver 17, 18 anos, ele vai ter condição de optar. E não é normal. A biologia diz que não é normal a questão de gênero. A opção que você tem como adulto de ser um homossexual, eu respeito, não concordo". Quase tenho saudades do Weintraub. Optar? Não é normal? Não concordo?? Nenhuma mentira que o Decotelli tenha posto em seu currículo é pior do que essa concepção equivocada da homossexualidade. Mas o pior veio em seguida: "Acho que o adolescente que muitas vezes opta por andar no caminho do homossexualismo tem um contexto familiar muito próximo, basta fazer uma pesquisa. São famílias desajustadas, algumas. Falta atenção do pai, falta atenção da mãe". Bom, se ele tivesse mesmo feito uma pesquisa, veria que esse lance de "famìlias desajustadas" é outro mito. Gays, lésbicas e trans brotam em todo tipo de família, e o universo está repleto de exemplos. Aliás, minto: há um tipo de família, sim, que sufoca qualquer desvio da suposta norma. Famílias patriarcais, onde impera a violência emocional e até a física. Em que a mulher é coadjuvante e o homem domina. É esta família que o desgoverno Edaír tenta impor como a única possível. Não vai conseguir, até porque a sociedade não é mais como eles pensam. Haja vista a quantidade de processos que essa criatura sinistra vai tomar pela fuça. Homofobia não é opinião. É crime. Milton Ribeiro é um criminoso. 

CAIU NA REDE, É PEIXE

Muita gente anda reclamando de que não há grandes novidades em "O Dilema das Redes", o filme-do-momento da Netflix. Mas, para mim, há: eu não sabia, por exemplo, que os índices de automutilação e suicídio entre garotas adolescentes e pré-adolescentes subiram exponencialmente a partir de 2011, quando o acesso via celulares às redes sociais se popularizou. Isto é mais grave do que qualquer venda de dados pessoais, ou mesmo a polarização política que essas redes provocaram em boa parte do mundo. Ninguém deveria ter acesso ao Facebook antes de completar 16 anos, mas sei que um controle desses é impossível (se bem que a garotada de hoje está toda no Tik Tok... que espiona para a China). Também tenho ouvido queixas de que o documentário não propõe soluções para o problema - e nem acho que deveria, pois se auto-intitula "dilema". Mas há, sim, muitas sugestões de como agir, e a mais óbvia delas é sair das redes. Conheço muita gente que saiu de pelo menos uma, e não sente a menor falta. A ironia é que a própria Netflix, que não é propriamente uma rede social, também usa muitos truques para manter o usuário grudado nela. Fazer o quê, então? Como tudo na vida, a moderação é o caminho. Pelo menos, "O Dilema das Redes" tem gerado debates. Só lamento que as dramatizações mostradas no filme sejam tão primárias. Teriam ficado melhores em desenho animado.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

THE BITCH IS BACK


Mais uma semana, mais uma sitcom criada e estrelada por uma mulher. A bola da vez é "A Duquesa", que, como toda série britânica, tem uma temporada curtinha - são só seis episódios de meia hora. Mas a protagonista Katherine Ryan é canadense, assim como a personagem homônima. Não sei o que mais é autobiográfico, pois a Katherine da TV é uma bitch. Trata todo mundo mal, menos a filha de nove anos. Seus alvos prediletos são o pai da garota, um ex-membro de boy band que hoje não serve para nada, e o oposto deste, seu namorado certinho e bonitinho que está louco para casar. Adivinha de quem ela resolve engravidar? Do primeiro, porque juntos eles já produziram uma menina adorável. Não é uma decisão coerente, e o roteiro dá muitas outras vaciladas. Mas faz falta na TV esse tipo de mulher que está sempre certa, que se lixa para a opinião dos outros e que não tem muito prurido na hora de falar barbaridades. Os figurinos horrorosos também ajudam.

EN DANSANT LA JAVANAISE

Morreu Juliette Gréco, a musa existencialista. Se você nunca ouviu falar dela, talvez conheça alguns de seus maiores sucessos, como "Sous le Ciel de Paris" ou "Les Feuilles Mortes", que se tornaram clássicos da chanson française. Mas minha favorita de seu repertório é mesmo "La Javanaise", que ela gravou quando seu jovem autor ainda era quase desconhecido: um tal de Serge Gainsbourg (o filme "Gainsbourg, Vie Heroïque", de 2010, imagina como teria sido o primeiro encontro entre esses dois gigantes). Alguns anos atrás, a pedido do meu marido cantor, fiz uma versão em português dessa letra dificílima, cheia de palavras que começam com V. La Gréco talvez não estourasse hoje, com seu estilo austero e sua voz contida. Mas seria amada pelo tempo de uma canção?


terça-feira, 22 de setembro de 2020

CRISTOFOBIA

A imprensa vem chamando o discurso do Edaír na abertura da Assembleia Geral da ONU de "menos agressivo e ideológico" que o do ano passado. É um pouco como dizer que um tiro na testa é melhor do que dois. Eu achei um horror do começo ao fim. Covarde como sempre, o Bozo jogou suas culpas nos outros e chamou para si glórias que ele não tem. Disse que índios e caboclos são os responsáveis pelos incêndios na Amazônia, não os grileiros e garimpeiros que votam nele. E ainda soltou um inacreditável "cristofobia", para bajular sua base teocrática. Cristãos são perseguidos no Paquistão e no Afeganistão, mas nunca no Brasil. Aqui, quem tem seus templos queimados são os praticantes das religiões afro-brasileiras, e adivinha por quem? O neologismo "cristofobia" surgiu para qualificar qualquer discordância ao totalitarismo dos evanjas, e foi logo adotado por luminares como Eduardo Cunha e Marco Infeliciano. O discurso terminou com Biroliro definindo o Brasil como "um país cristão e conservador", ignorando os milhões de brasileiros que não são uma coisa nem outra (tipo eu). Ou seja: para variar, ele só falou para o seu gado, e para mais ninguém. Não conquistou um único novo fã. Depois, quando inevitavelmente cair nas pesquisas, vai dizer que foi vítima dos cristofóbicos.

IOGA IOGA IOGA

Biroliro diz que todo mundo tem que deixar de ser covarde e enfrentar o coronavírus de peito aberto, feito homem. A exortação à coragem só não vale para os membros da familícia, que têm autorização paternal para fugir, enfiar o rabo entre as pernas e passar vergonha na televisão. Ontem o Zero-Um exibiu seus talentos coreográficos no programa do Sikêra Jr. durante uma visita importantíssima e inadiável a Manaus, que o fez faltar à acareação com Paulo Marinho marcada no Rio de Janeiro. O Zero-Três aproveitou o embalo e foi junto, pois vai que a polícia ainda não-cooptada também cisme com ele? A musiquinha dançada pelos irmãos associa o consumo de maconha à homossexualidade, olha só que sacada. No repertório sikerístico, só perde para "Ele Morreu", que o elenco entoa quando um CPF é cancelado. Decore a letra. Um dia ela poderá ser útil.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

HOSPITAL DO BARULHO

Eu tinha 15 anos de idade quando vi "Um Estranho no Ninho" no cinema. Preciso ver de novo (tem na Amazon), porque a enfermeira Ratched, a cruel vilã do filme, não me deixou traumatizado. Mas ela apavora tanto os americanos que ganhou sua própria história de origem, como se fosse um super-herói. A série "Ratched", cuja primeira temporada acaba de chegar à Netflix, também serve de pretexto para mais um stravaganza de Ryan Murphy. Só na cabeça dele que um sanatório psiquiátrico tem o glamour do hotel Fontainebleau, com uniformes do mesmo tom de azul das caixas da Tiffany´s. Mas, dessa vez, a viadagem cede espaço para o lesbianismo. A protagonista é uma sapata enrustida, e várias pacientes do hospital estão lá para se livrarem de seus impulsos sáficos. O visual deslumbrante compensa o roteiro destrambelhado, e o elenco encabeçado pela gloriosa Sarah Paulson (sapata na vida real) é um smorgasbord de atrizes de uma certa idade. Meu destaque vai para Sharon Stone, como uma milionária que anda com uma macaquinha no ombro, ambas de roupinha combinando. Sharon, linda como sempre, está a cara da Madonna, de quem sempre foi meio rival nas telas. Bem que ela poderia interpretar a cantora em sua fase madura no futuro biopic.

domingo, 20 de setembro de 2020

EMMY A DOMICÍLIO

Esta vai ser a cerimônia de entrega do Emmy mais estranha de todos os tempos. Muito mais do que a de 2001, que foi adiada em alguns meses por causa do 11 de setembro. Na época, cogitou-se que a anfitriã Ellen De Generes poderia ir pessoalmente 'a casa de cada vencedor entregar o troféu, tamanho o medo de fazer uma festa grandiosa. Acabou rolando do modo tradicional, o que não vai acontecer hoje. O grande perigo é virar uma reunião por Zoom, cheia de problemas técnicos. Mas os VMAs me deixaram otimista. Se tem uma coisa que os americanos sabem fazer bem, é show de premiação. Então vamos ao que interessa: quem vai ganhar? A seguir, meus palpites para as principais categorias.

MELHOR SÉRIE - DRAMA: "Succession" ACERTEI

MELHOR ATOR - DRAMA: Brian Cox ("Succession") ERREI - deu Jeremy Strong ("Succession")

MELHOR ATRIZ - DRAMA: Jennifer Aniston ("The Morning Show") ERREI - deu Zendaya ("Euphoria")

MELHOR ATOR COADJUVANTE - DRAMA: Kieran Culkin ("Succession") ERREI - deu Billy Crudup ("The Morning Show")

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE - DRAMA: Helena Bonham-Carter ("The Crown") ERREI - deu Julia Garnder ("POzark"), pelo segundo ano consecutivo

MELHOR SÉRIE - COMÉDIA: "Schitt's Creek" ACERTEI

MELHOR ATOR - COMÉDIA: Ramy Youssef ("Ramy") ERREI - deu Eugene Levy ("Schitt's Creeek")

MELHOR ATRIZ - COMÉDIA: Catherine O'Hara ("Schitt's Creek") ACERTEI

MELHOR ATOR COADJUVANTE - COMÉDIA: Dan Levy ("Schitt's Creek")  ACERTEI

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE - COMÉDIA: Alex Borstein ("Marvelous Mrs. Maisel") ERREI - deu Annie Murphy ("Schitt's Creek")

MELHOR MINISSÉRIE: "Watchmen" ACERTEI

MELHOR ATOR - MINISSÉRIE: Mark Ruffalo ("I Know This Much Is True") ACERTEI

MELHOR ATRIZ - MINISSÉRIE: Regina King ("Watchmen") ACERTEI

MELHOR ATOR COADJUVANTE - MINISSÉRIE: Jim Parsons ("Hollywood") ERREI - deu Yahya Abdul-Mateen II ("Watchmen")

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE - MINISSÉRIE: Jean Smart ("Watchmen") ERREI - deu Uzo Aduba ("Mrs. America")

Lembrando sempre que esses não são, necessariamente, os meus favoritos.

sábado, 19 de setembro de 2020

PC DE B

I’m a Mac person. Steve Jobs continua me controlando do além-túmulo, não deixando que eu me liberte da Apple. Mesmo assim, meu fiel Air Book, que me acompanha para cima e para baixo há quase oito anos, me largou na mão pela quarta vez. Foi para o conserto, e eu entrei em desespero. Como vou completar as trocentas colunas que eu entrego todo dia? Como vou postar aqui no blog e saciar o apetite infinito de vocês, seus ingratos? Pedi ajuda ao universo, e consegui que me emprestassem um PC a lenha. Com teclas duras, do tipo que você aperta e não acontece nada. Mas o pior são as letras que mudam de lugar quando você não está olhando. Uma hora o cê cedilha está na tecla do ponto e vírgula, na outra ele passa para uma dimensão paralela e baubau. Precisaram me explicar que eu estava mudando do teclado português para o americano, sabe-se lá como. Não vejo a hora do meu bebê voltar do hospital.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

RIP RBG

Morreu uma das mulheres mais fodonas do mundo: Ruth Bader Ginsburg, juíza da Suprema Corte americana. Quem quiser conhecer mais sobre ela precisa ver o documentário "RBG" ou o filme "Suprema", que dramatiza o início de sua carreira de advogada feminista. Ela já era bem velhinha e estava doente há algum tempo, mas sua morte me deixa triste. Até porque ocorre num momento delicado: Trump vai tentar emplacar mais um juiz reaça no tribunal, o terceiro de seu mandato. Obama, em oito anos, só conseguiu indicar dois: os republicanos adiaram a votação sobre o terceiro nome escolhido por ele, e deixaram a vaga ser preenchida ao gosto do Bebê Laranja. Chegou a hora dos democratas no Senado darem o troco e deixarem essa nomeação de presente para o próximo presidente, Joe Biden.

A GOVERNANTA DA LAVA-JATO

Regina Casé interpretando uma empregada doméstica, pela terceira ou quarta vez consecutiva? Mas ela não sabe fazer outra coisa? Confesso que não fiquei muito animado para ver "Três Verões", na certeza de que iria reencontrar a Lourdes de "Amor de Mãe" ou a Val de "Que Horas Ela Volta?". Só que a Madá do filme de Sandra Kogut é outra coisa. Claro que se trata de uma mulher extrovertida - timidez não orna com a Casé - mas também descolada, tech-savy e sem sotaque nordestino. Madá se define como caseira, mas na verdade é uma super governanta: administra com firmeza e simpatia a mansão de uns ricaços no chiquérrimo condomínio do Frade, em Angra dos Reis. Também não dá um passo sem tirar uma selfie e postar no Facebook. Um belo dia, o patrão vai preso, numa operação que lembra a Lava-Jato. E a coitada também se embanana, pois ele colocou no nome dela vários celulares usados em falcatruas. Madá sonha em abrir um quiosque de açaí, como a empregada de um outro corrupto que tem casa em Angra, mas o longa foi rodado antes dos detalhes da familícia virem à tona. São ótimas as cenas em que a protagonista tenta manter tudo funcionando - inclusive o pai do presidiário, que sobrou aos seus cuidados - mesmo sem receber salário há meses. Não há um arco dramático, mas também não há barriga. Um filme prontinho para o verão.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

MINHA NOTA DE CORTE

Eu estava decidido a votar no Bruno Covas. O prefeito de São Paulo não é alguém que me entusiasme, e eu havia jurado nunca mais votar no PSDB. Mas gostei dos nomes que ele trouxe para a cultura, como Hugo Possolo e Alê Youssef. Também me parecia não haver ninguém melhor entre os candidatos, e a política é a arte do possível. Estava até torcendo para que Marta Suplicy fosse a vice, formando assim uma chapa imbatível. Só que o Doria já está armando a cama para 2022, e o vice acabou indo para Ricardo Nunes, um vereador do MDB de quem eu nunca tinha ouvido falar. Agora que ouvi, mudei de ideia. Mudei para Boulos e Erundina. Não vou votar num sujeito que combate a imaginária ideologia de gênero, nem para vice decorativo (e a gente sabe que talvez não seja). Para fazer alianças é preciso engolir sapos, mas eu também tenho nota de corte. Ricardo Nunes não passou. 

TESOURO PERDIDO DE NÓS

Será que ainda vai ter pantanal até meados do ano que vem, quando a Globo começar a gravar seu remake de “Pantanal”? É incrível que um dos biomas mais úmidos do planeta esteja ardendo, e não adianta a direita histérica acusar o Leonardo Di Caprio (uma mina no Twitter disse que o astro de “Titanic” e vencedor de um Oscar está “querendo aparecer”). Pois o que aparece claramente são os verdadeiros culpados: grileiros e fazendeiros que não sabem que a Europa só compra carne com certificado de compliance ecológica. Ninguém está sendo processado, porque o Bozo não quer se indispor com este segmento que o apoia. Talvez a Globo tenha que reconstruir o pantanal em sua cidade cenográfica.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

COMBINOU COM O RUSSO

A eleição municipal em São Paulo terá quatro candidatos competitivos: Bruno Covas, Guilherme Boulos, Celso Russomanno e Márcio França. Imagino que este último irá desidratar em breve, porque não representa nada - o ex-vice governador até tentou se aproximar do Biroliro, que acabou sinalizando apoio ao Russomanno. Em breve, França deve se juntar ao pelotão dos um-dígito, que já inclui Gilmar Tatto, Joice Hasselman e Mamãe Falei (que pode ter sabotado a própria campanha ao investir barbaramente contra o padre Julio Lancelotti). O apoio do Despreparado será suficiente para tirar o "cavalo paraguaio" (porque é ruim de largada) do eterno terceiro lugar e levá-lo ao segundo turno? Veremos. Nem eu sei em quem vou votar: estava decidido pelo Covas, mas meu coração agora balança pelo Boulos. Ah, aquela barba...

terça-feira, 15 de setembro de 2020

LIVE TO TELL

Madonna finalmente confirmou nesta terça que, além de estar escrevendo com Diablo Cody o roteiro de sua cinebiografia, ela também irá dirigir o filme. Legal, mas não muito alvissareiro: Madge não é uma exatamente cineasta consagrada, e não vai ser indicada ao Oscar nem se produzir a maior obra-prima de todos os tempos. A Academia a esnobou por "Evita" e ignorou todas as canções que ela compôs para o cinema (mas premiou duas que ela cantava). Só que Madonna não quer prêmios: quer o controle absoluto de sua narrativa. A notícia vinha tomando forma há alguns dias, com dicas nas redes sociais e especulação sobre a atriz que fará este papel com potencial de estatuetas. Minha favorita continua sendo Julia Garner, da série "Ozark". Pelo menos, Madonna abriu mão de interpretar a si mesma.

ONOMATOPOP

Quase quatro anos atrás, eu me surpreendi ao descobrir que o Yello ainda existia. A dupla suíça foi uma das minhas bandas favoritas dos anos 80 e deixou na história da música pop pelo menos um grande hit, "Oh Yeah". Mas depois eles sumiram, chegando a ficar quase 10 anos sem gravar. Voltaram em grande estilo com o álbum "Toy", fizeram os primeiros shows ao vivo da carreira e agora lançam mais um trabalho. "Point" soa exatamente como o Yello dos velhos tempos, mas não tem nada de nostálgico. É mais moderno do que todo o pop meloso atual. Também é um exercício dadaísta, com letras cheias de onomatopeias que parecem inventadas por um computador aprendendo a falar. Mas não falta o habitual momento etéreo: a última faixa, "Siren Song", tem vocais da chinesa Fifi Rong e poderia estar na trilha sonora de "Mulan", se a Disney quisesse ser transada.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

SUBVERSIVO E DESVIRILIZANTE

Caetano Veloso é um tesouro nacional. Acho que ele é, simplesmente, o músico popular mais importante da nossa história. Muito mais variado do que Tom Jobim ou João Gilberto, seus ídolos. Com letras ainda melhores e mais instigantes do que seu amigo Chico Buarque. Mais profundo que Milton Nascimento, e por aí vai. Além de tudo, acho Caetano um farol de lucidez. Sua vaidade embaçou seu discurso algumas vezes, mas agora, no esplendor dos 78 anos, acho que ele está acima do bem e do mal. Depois da live do mês passado, que me fez lembrar porque ser brasileiro também é motivo de orgulho, ele agora volta à carga com "Narciso em Férias". O filme de Renato Terra e Ricardo Calil chegou ao Globoplay no mesmo dia em que foi exibido no Festival de Veneza, mas só ontem eu consegui sentar para ver. Não é exatamente um prodígio técnico: tudo o que se vê, durante quase uma hora e vinte minutos, é Caetano falando para a câmera, sentado na mesma cadeira. Mas ele é um storyteller nato, e o assunto vem a calhar: os 54 dias que ele passou preso entre 1968 e 1969, sob a acusação falsa de ter satirizado o hino nacional durante um show. Claro que teve gente que passou muito mais tempo em cana durante a ditadura militar,  e vários foram torturados e até mortos. Caetano escapou disso, mas partiu para o exílio depois de libertado. Ficou mais de dois anos fora do Brasil. O período na cadeia já havia sido o principal assunto do livro "Verdade Tropical", lançado em 1997, e o longa não traz muitas novidades para quem o leu. Nem por isto o documentário deixa de emocionar, porque o próprio Caetano vai às lágrimas várias vezes. É aterrorizante que, mais de 50 anos depois desse episódio, o Brasil possa estar novamente à beira de um período de exceção. Mas a arte subversiva e desvirilizante de Caetano, como foi descrita pelos milicos, está aí para nos lembrar do perigo e nos dar força para resistir.

UM CERTO APRESENTADOR

Fui convidado pela produção do programa online MídiaMundo, da Maria Cristina Poli e do Alexandre Sayad, a dar um depoimento sobre minha experiência com o cancelamento virtual. Que foi até bem light: durou alguns dias e passou. O que eu não conto no vídeo é que aconteceu duas vezes, com o mesmo apresentador de talk show, cujo nome não será mencionado. Também fui cancelado quando critiquei a bebedeira de um sertanejo durante uma live e meu nome foi parar nos TTs. Esta é a vida de quem "mexe" com internet: um dia a gente ganha abraços e beijinhos sem ter fim, no outro é apedrejado. Mas dinheiro, que é bom, nada.
 
(Sim, estou gordo e cabeludo por causa do confinamento. Quem não está?)

domingo, 13 de setembro de 2020

HISTERIA PRECOCE


Um dos trending topics do Twitter neste domingo é #pedoflix. Na semana já havia rolado #CancelNetflix. Não duvido que venham outros por aí: um blogueiro americano de extrema-direita já está acusando o filme "Lindinhas" de, além de promover a pedofilia, também fazer propaganda subliminar do comunismo, porque um cartaz com a foice e o martelo aparece ao fundo de uma cena externa. Aliás, o filme nem se chama mais "Lindinhas" no Brasil. Quem for procurá-lo na Netflix agora vai encontrá-lo com o título em francês, "Mignonnes". A plataforma está tentando minimizar o desastre de marketing que ela mesma criou, ao trocar o poster original por uma versão muito mais provocativa. Confira os dois abaixo:


Eu vi "Lindinhas" ontem à noite. É um drama sobre a passagem da infância para a adolescência, e também um ótimo filme. Quem estiver de muita má vontade vai se escandalizar com as poucas cenas em que as meninas dançam de shortinho e fazem poses provocantes (há milhões de vídeos caseiros no YouTube e no Tik Tok muitíssimo piores). Só que a diretora Maïmouna Doucouré não explora o corpo das garotas em momento algum. O que ela quer, claro, é denunciar uma sociedade em que uma criança aprende cedo que a sensualidade pode ser uma moeda de troca. A protagonista Amy não hesita em tirar a blusa quando seu primo mais velho a flagra com o celular dele (ela também é cleptomaníaca, um jeito clássico de gente carente chamar a atenção). Tudo o que ela quer é escapar do destino da mãe, estressada com três filhos pequenos e obrigada a engolir a segunda esposa do marido, importada do Senegal. Doucouré não tem só um lugar de fala, tem todo um mapa: é mulher, negra, filha de imigrantes, de família muçulmana. Ela conhece o universo onde se passa seu primeiro longa, e trata seus personagens com empatia. O elenco é fenomenal. Todas as lindinhas têm atitude de sobra, e não vou me espantar se uma delas se tornar uma grande estrela no futuro. Mas a extrema-direita histérica não quer saber de nada disso. Não viram e não gostaram. O que interessa é que agora eles têm um pretexto para berrar que a pedofilia está dominando o mundo. Gozado que, quando o Bozo faz piadas impróprias para uma youtuber de 11 anos, o gado abaixa a cabeça.

PÓS FERNANDA

Um ano sem Fernanda Young. Ficamos sem a peça em que ela atuaria como atriz, "Ainda Nada de Novo", que tinha estreia prevista para setembro de 2019. Ficamos sem suas crônicas comentando a tragédia em que o Brasil se tornou, mas, pelo menos, sabemos o que ela pensava do desgoverno Biroliro: um bando de cafonas. Só que Fernanda nunca foi embora para valer. Agora ela volta se manifestar no Teatro Porto Seguro, sob a pele de Maria Ribeiro. "Pós F", que entrou em cartaz na noite de ontem, é um monólogo baseado no livro de mesmo nome - a primeira incursão da autora pela não-ficção e o último que ela publicou em vida. É uma análise dos papéis cambiantes de homens e mulheres no mundo de hoje e também uma autobiografia. Maria/Fernanda fala de sua infância em Niterói, de seus medos e manias e do papel fundamental que o marido, o roteirista Alexandre Machado, teve em sua vida: "eu fui alfabetizada por ele". É lindo, é forte e é comovente. Também é interessante como espetáculo. Nada contra as milhares de peças caseiras com transmissão via Zoom que brotaram na pandemia, mas o resultado de "Pós-F" se aproxima mais do teatro presencial. Para começar, há um palco de verdade, e também uma plateia - povoada por apenas alguns técnicos, sem espectadores. As muitas câmeras também dão um dinamismo que os aplicativos de videoconferência não têm, e a diretora Mika Lins ainda teve a sabedoria de incluir uma montagem em vídeo no meio, assumindo a virtualidade da experiência. É bacanérrimo, mas também é um teaser. Fiquei seco para ver de novo, não no computador, mas sentadinho numa plateia de verdade.

sábado, 12 de setembro de 2020

CIDADÃ BRASILEIRA E DO CÉU

Em abril de 2018, eu publiquei uma coluna no F5 dizendo que a simpaticíssima Aline Barros era, apesar de toda candura, homofóbica, sim senhor. A cantora não gostou e seus advogados mandaram um e-mail para a Folha, com erros de português, exigindo que a matéria fosse tirada do ar. Como o jornal só faz isto por decisão judicial, foi oferecido direito de resposta - e ficou por isto mesmo. Aline, como eu disse, é um poço de simpatia perto da intragável Ana Paula Valadão, que se auto-intitula "cidadã brasileira e do céu" em seu perfil no Twitter. Perfil este, aliás, que agora está "protegido", depois que ela vomitou ódio em seu programa "Diante do Trono" (do banheiro?). Em pleno ano da graça de 2020, Ana Paula voltou a dizer que "qualquer outra opção sexual é uma escolha do livre arbítrio" e que "tá aí a AIDS para mostrar que a união sexual entre dois homens causa uma enfermidade que leva à morte". É o que eu sempre digo, imitando meu ídolo, o colunista americano Dan Savage: prova aí que é opção e vai transar com alguém do seu sexo, vai. Fora que o que causa AIDS é o HIV, não a união sexual entre dois homens - se ela for monogâmica e ambos forem soronegativos, não há a menor chance de algum deles contrair uma DST. A Aliança Nacional LGBT+ já anunciou que irá processar a pastora, mas o castigo maior ainda está por vir. Imagina a cara dessa homofóbica quando ela descobrir que não vai entrar no céu.

MUCHO MUCHO AMOR

É complicado fazer uma comédia sobre bigamia nos dias de hoje. Vai longe a época em que o Cadinho de "Avenida Brasil" podia terminar a novela com suas três mulheres, todas agradecidas por compartilhar aquele homem sensacional. Mas o filme argentino "Muito Amor pra Dar" se arrisca por este caminho perigoso - e acaba não chegando a lugar nenhum. A película estreou na Netflix nesta semana e é estrelada, produzida e coescrita por um dos maiores nomes do showbiz de lá, Adrian Suár. Ele faz um médico que tem duas esposas: uma em Mar del Plata e a outra em Buenos Aires. No meio do caminho, ele para em um posto de beira de estrada, para trocar de carro, de roupa e de aliança. Uma não sabe da existência da outra e todos vivem felizes até ele sofrer um acidente de carro, quando ambas são chamadas. Daí em diante até pipocam umas piadas boas, mas a conclusão - talvez a única possível atualmente - é frustrante e moralista. O amor é muito, mas faltou graça.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

O RETIRO DOS ARTISTAS

Tarcísio Meira e Glória Menezes não renovarem com a Globo é um pouco como se os seus pais fossem despejados da casa onde eles sempre viveram. Parece que o universo saiu do eixo. A internet está em polvorosa com a dispensa do casal, mas não vejo como ter penas deles. Os dois receberam salários de primeira grandeza durante mais de 50 anos, e juntaram um patrimônio considerável. Também vinham trabalhando pouco: a última aparição de Glória em uma novela foi em 2015, e a de Tarcísio foi em 2018. Não faz muito sentido pagar uma fortuna para eles ficarem em casa, ainda mais quando o risco de se bandearem para a concorrência é zero. A Globo foi mesmo, durante muito tempo, uma anomalia no mercado de TV. Não sei de outra emissora estrangeira que mantenha um elenco fixo tão grande (talvez a Televisa?). Mas os tempos são outros: só faz sentido contratar por obra certa, tirando um ou outro medalhão considerado estratégico. Não sobraram muitos.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

ENTRAMOS NA LINHA

As coisas mudam. O curso de introdução ao roteiro que eu e o André Briesi daremos no final de setembro não vai mais ser presencial. Estávamos um pouco otimistas demais quando inventamos que seria lá em São Caetano, a partir de 19 de setembro. A pandemia parece estar arrefecendo, mas é loucura enfiar uma dúzia de pessoas numa sala, durante quatro horas. Também temos interessados, principalmente de outras cidades, em fazer o curso online. Então, seja feita a vossa vontade. Agora a oficina será via Zoom, ou algum outro aplicativo de videoconferência. A data de início prevista mudou para 22 de setembro, e a ideia é darmos duas aulas de suas horas por semana, às terças e quintas, às 19h. Serão oito ao todo. O preço também caiu. Saiba mais daqui a pouco, às 20h, quando André e eu faremos mais uma live no Insta dele (@abriesi). Até já.

MAIS UM MICO

A característica mais marcante do desgoverno Biroliro não é a índole golpista, nem o falso moralismo. É a incompetência, pura e simples: quase ninguém é do ramo em que atua. Assim, temos um secretário da Cultura que não sabe como funciona a escolha do filme brasileiro para o Oscar, um ministro da Saúde que receita remédios sem eficácia comprovada e um ministro do Meio Ambiente que está empenhado em destruir o meio ambiente. A ignorância de Ricardo Salles é tamanha que ele tuitou um vídeo sobre a Amazônia que abre com um mico-leão-dourado, um animal que não vive na Amazônia. Este é só um dos problemas da peça publicitária, uma resposta mal-ajambrada à campanha "Defund Bolsonaro". É incrível que nenhum dos envolvidos na produção não conheça uma criança que seja falante nativa de inglês, ou mesmo que fale direito a língua (é "sateláite", não "satélity", que se diz). Mas o pior de tudo é mesmo o texto: tirando o gado mais submisso, ninguém vai acreditar que as queimadas na Amazônia se devem, basicamene, aos povos indígenas abrindo roçados para plantar mandioca. Até porque o vídeo é assinado pela Acripará, a Associação de Criadores do Pará, o que é equivalente ao sindicato das raposas emitir nota jurando que não tem nada a ver com o massacre no galinheiro. Os caras ainda têm o desplante de perguntar de que lado o espectador está. Ora, senhor ministro, senhor vice-presidente, senhores energúmenos todos: do lado da ciência, da decência e da verdade.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

AS COTAS DO OSCAR

A Academia de Hollywood anunciou quatro novas regras, válidas a partir de 2024. Quem quiser concorrer a melhor filme vai ter que cumprir pelo menos duas delas. A ideia é garantir diversidade e representatividade tanto na tela como nas equipes - e não apenas entre os membros da própria Academia, como já vem sendo feito há alguns anos. Minha primeira reação de burguesinho-criado-a-leite-de-pera foi me revoltar com mais este ataque à meritocracia. Como asssim?? Um filme feito por e com homens brancos sem deficiências físicas não poderá competir, mesmo se for o melhor filme do mundo? Mas essas regras, na verdade, são até bem simples, e bastam duas delas para estar tudo OK. Além do mais, eu não sou contra cotas em lugar nenhum, por uma razão empírica: elas funcionam. Injustiças podem e vão ocorrer, mas o resultado é uma sociedade mais justa.

O PURO SUCO DO RIO

"Tem algo de muito carioca no Biroliro", me disse um colunista do Rio de Janeiro no começo de 2019. Eu, que também nasci lá, não concordei: como que esse caipira que arrasta o R pode representar a Cidade Maravilhosa? Só porque ele mora no Vivendas da Barra? Mas hoje, lendo a coluna do Gregorio Duvivier na Folha, eu entendi o que o cara quis dizer. O carioca é um tonto, diz o Greg, porque se acha mais esperto do que qualquer um. Está sempre querendo levar vantagem, e acaba elegendo safados com quem se identifica: Garotinho, Cabral, Wizel, Crivellla... É bom lembrar que o Bozo foi, durante três décadas, o parlamentar mais votado do estado do Rio, mesmo sem fazer porra nenhuma no Congresso. Levou mulheres e filhos para mamar nas tetas do Erário, e hoje acusa os outros de mamata. O carioca invariavelmente se estrepa com os prefeitos e governadores que elege. Mas a recíproca também é verdadeira: hoje estão quase todos em maus lençóis, e a vez da familícia um dia há de chegar. Enquanto isso, vamos tirar sarro do povo mais trouxa do Brasil. Entre o qual eu me incluo.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

EU QUERO SER CZAR NO LUGAR DO CZAR

Assinei minha sexta plataforma de streaming. Além de Netflix, Amazon Prime Video, Fox Premium, Globoplay e Apple TV +, agora também sou cliente da Starzplay. A razão para mais esta despesa é a série "The Great", uma versão satírica da vida da imperatriz russa Catarina, a Grande. A série foi criada e escrita por Tony McNamara, roteirista do filme "A Favorita", e o tom de deboche é semelhante. O casal imperial é feito por Ellen Fanning e Nicholas Hoult, cujo timing cômico equivale à formosura. Mas a história real não é respeitada. Pedro III só subiu ao trono 17 anos depois de casar com Catarina, mas na série ele já o czar desde o primeiro episódio. O casting também é "color-blind", com atores negros e asiáticos fazendo papéis de russos e suecos. Nada disso é problema: o que importa é que, além do visual opulento, "The Great" é uma comédia mordaz, algo violenta e com algumas boas piadas infames. Do tipo, "olha, o coro de garotas de Chernobyl - elas brilham!".

O COZINHEIRO ASIÁTICO

Uma das coisas mais irritantes para um senior citizen como eu é essa molecada que se acha dona da verdade e ignora tudo o que aconteceu antes de anteontem, quando eles nasceram. Na bolha LGBT+, não faltam imbecis que não entendem, por exemplo, a importância de Ney Matogrosso, ou que nem toda drag queen é transexual. Na esquerda jovem, agora a moda é defender o soviético Josef Stalin, que disputa com Adolf Hitler o título de pior ditador do século 20. Os crimes de Stalin foram denunciados há mais de 60 anos por seu sucessor Nikita Khruschev e, desde então, muitos comunistas tentam se distanciar de sua herança tóxica. Mas no Brasil ainda tem quem acredite que a URSS sob o "cozinheiro asiático", apelido dado por Lênin, era a terra do leite e mel. Quando toda a oposição deveria estar unida, vem babaca dar munição para a arminha que os minions tem nas mãos. Em pleno 2020, quem tenta reabilitar Stálin merece ir pro gulag.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

NÃO MITA PARA MIM

O que mais me chocou na posse do Biroliro não foi o Carluxo pagando de leão-de-chácara, desfilando armado no banco de trás do Rolls-Royce presidencial. Foi uma galera que gritava "Facebook! Instagram!", como se quisessem que essas redes tivessem ainda mais poder do que já têm. Óbvio que era uma claque paga, para parecer um ataque espontâneo à imprensa tradicional. Hoje a claque voltou a atacar no evento que rolou em Brasília para comemorar o Sete de Setembro. Nem o minion mais burro tem qualquer motivo para achar que Micheque seja uma "mita", como ela foi aclamada pelos gatos pingados que compareceram. A familícia é que sim, tem razões para afastar a aura de bandida que ronda a primeira-dama, pois ela recebeu 89 mil reais do Queiroz. Mas, ao invés de responder à pergunta que não quer calar, preferem exaltá-la como se tivesse feito algo pelo país. Se bem que a sra. Bozo é mesmo mítica: nada nela é verdade.

VAI TER BOULOS

O PT cometeu mais uma cagada histórica. A insistência do partido em ter candidato próprio a prefeito de São Paulo vai lhe custar uma derrota acachapante. Lula queria que fosse Haddad, que não topou, e as primárias acabaram escolhendo o inexpressivo Jilmar Tatto. Resultado: muitos eleitores e até luminares petistas estão se bandeando para Guilherme Boulos, do PSOL, que até no visual é o herdeiro mais óbvio de Lula. No momento, as pesquisas indicam um segundo turno entre Covas e Russomano, mas este último sempre perde fôlego na reta final. Não duvido nada que Boulos chegue lá, forçando o PT a uma aliança de última hora. Vai ser bem feito para Lula: apesar de idoso e enrolado na Justiça, ele não quer passar o bastão nem para um sósia.

domingo, 6 de setembro de 2020

VIAGEM AO CENTRO DA MENTE

Coitado de quem for assistir "Estou Pensando em Acabar com Tudo" esperando uma comédia malooka. Tipo eu. Até parece que eu não vi "Quero Ser John Malkovich", "Adaptação" ou "Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças", roteiros assinados por Charlie Kaufman, ou "Anomalia", a animação para adultos que ele escreveu e dirigiu. Minha expectativa de dar gostosas risadas se esvaiu logo no começo, quando um casal de namorados engata numa conversa que parece durar oito horas, enquanto viajam de carro para a fazenda da família dele. Uma vez lá, ela se reconhece em um retrato na parede. Os pais do rapaz aparecem a cada vez com idades diferentes, mais jovens ou mais velhos do que pareciam ser. Um cachorro não para de sacudir o pelo... Na verdade, tudo se passa dentro da mente de alguém, mas de quem? Este é um filme que o Zé Carvalho, o melhor professor de roteiro do Brasil, diria que se encaixa no terceiro campo: sonho e realidade se confundem, os personagens nunca são os mesmos, parece que não há história. Mas há. Talvez, mais do que uma: o autor do livro em que o longa é baseado, Iain Reid, deixou o final em aberto, e disse que todas as interpretações são válidas. Se você já viu, leia uma aqui e outra aqui (claro que tem spoilers).

sábado, 5 de setembro de 2020

QUE MÁRIO?

Líderes com pendor autoritário não toleram paródias. Sentem-se ofendidos, esperneiam, dão chilique e, se puderem, mandam prender e até matar o autor das supostas ofensas. O pior é que seus seguidores acham a mesma coisa: lembra quando o Marcelo Adnet imitou todos os então candidatos à Presidência, na campanha de 2018? Enquanto Ciro Gomes e Marina Silva compartilhavam os vídeos satíricos em suas próprias redes sociais, os bolsominions entraram em surto. Uma vez no poder, Edaír Biroliro tem ignorado as muitas piadas que se fazem sobre ele, e até tentou reagir colocando o lamentável Carioca para "interagir" com a imprensa na porta do Alvorada. Ontem foi a vez do Mário Frias, o ator de quinta categoria que assumiu a Secretaria da Cultura só porque puxa o saco do Bozo, mostrar que tem a cútis mais delicada do que o Danilo Gentili. O astro da campanha #UmPovoHeroico ficou magoadíssimo ao ser retratado no episódio desta sexta do "Sinta-se em Casa", o programete diário que o Adnet produz para o Globoplay. E foi chorar as pitangas no Instagram, chamando o (talvez)  mais importante humorista do Brasil de hoje de "garoto frouxo sem futuro", "crápula" e "bobão" - sim, só faltou "feio, chato e mau". Dessa forma, Frias periga ganhar um episódio todinho só para ele na próxima segunda-feira. Ô dó.

E não parou por aí. O bebê chorão ainda foi dedar o marvado Adnet para seus superiores, e assinou um tuíte choramingas no perfil da Secretaria de Comunicação. O tom lacrimoso fica ainda mais risível quando a gente lembra que esse desgoverno persegue minorias, derruba florestas, protege milicianos e ainda faz arminha com a mão. São o estereótipo do bully que rola no chão, fingindo dor depois de humilhar os amiguinhos durante o recreio no colégio. Eis o nível dessa galera. Como o Mário Frias reagiu mal a uma simples piada, a única resposta possível é mais piada. Não precisa ser nova, não precisa ser boa. Pode ser até a do "Que Mário?". E a resposta: "Aquele, que não aguentou o tranco." 
 
 (O assunto está rendendo. Ontem já tinha rendido minha coluna no F5, já leste?)

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

QUEENCEPTION

Finalmente assisti ao documentário "The Show Must Go On: The Queen + Adam Lambert Story", que há mais de um mês está dando sopa na Netflix. Essa demora talvez se deva ao fato do Queen ser A banda da minha vida e Freddie Mercury, meu maior ídolo de todos os tempos. Eu simplesmente odiei quando Brian May e Roger Taylor chamaram Paul Rodgers, ex-vocalista do Bad Company, para gravar e excursionar com eles, na primeira década deste século. Juntos, eles produziram um dos piores álbuns de todos os tempos, "The Cosmos Rocks", e insultaram a memória do meu divo. Minha pirraça diminuiu um pouco quando o flamejante Adam Lambert entrou no lugar de Rodgers, mas não o bastante para eu ir vê-los quando tocaram no Brasil. Este documentário me fez mudar de ideia. Freddie é inigualável, mas Adam é o melhor placeholder possível. Ele canta bem, é tão bicha quanto e não tenta imitar o original, o que faz com que a nova versão do Queen não pareça uma cover band que toca em navio. Agora eu queria que eles fizessem músicas novas juntos. Nada pode ser pior que "The Cosmos Rocks".

O filme ainda me revelou um detalhe que blew my mind. Lembra da cena de "Bohemian Rhapsody" em que Freddie Mercury paquera um caminhoneiro em um poso de gasolina? Pois é: o caminhoneiro foi feito pelo Adam Lambert. O Freddie Mercury do cinema fazendo um banheirón com o substituto do Freddie Mercury na vida real é algo que pode fazer o universo sair dos eixos. The cosmo rocks!

RALO ABAIXO

Sergio Moro deixou o Ministério da Justiça. Deltan Dallagnol deixou o comando da Lava Jato. Oito procuradores deixaram a força-tarefa em São Paulo, descontentes com a nova líder no estado. E assim, Biroliro vem conseguindo fazer o que nem Dilma nem Temer lograram fazer: acabar com a maior operação anticorrupção da história do Brasil, responsável direta por sua eleição à presidência. É inegável que Moro, Dallagnol e companhia bela não agiram sempre nos conformes. Roubaram no jogo e flexibilizaram as regras, para incriminar principalmente os políticos de esquerda. Mas não tiveram força para manter fogo cerrado depois que a direita voltou ao poder. Ainda mais enquanto o Bozo faz o leilão de uma vaga no STF, com figuras abjetas como Aras e  Mendonça metendo a mão na merda para garantir um futuro tranquilo para si mesmos, o resto do Brasil que se foda. Vai ser engraçado quando o escolhido não for nenhum deles, porque o Edaír é ruim de manter promessa. Mas está sendo triste ver a Lava Jato, que podia ser a grande passada a limpo do nosso sistema político, escorrer pelo ralo feito água suja.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

BANDA LARGA

Ano passado, quando eu fui a Nova York para assistir à entrega dos prêmios Tony, cruzei com todo o elenco de "The Boys in the Band" na plateia do Radio City Music Hall. Nada menos do que a nata da Hollywood gay contemporânea: Jim Parsons, Zachary Quinto, Matt Bomer, Andrew Rannells... Todos eles subiram ao palco quando a montagem de que participaram da peça de Mart Crowley ganhou o Tony de melhor revival. Para quem não sabe: lançado em 1968, "The Boys in the Band" foi o primeiro espetáculo mainstream a tratar abertamente da homossexualidade masculina, em primeira pessoa e sem julgamento moral. Também foi o primeiro a alcançar repercussão mundial. O sucesso na Broadway fez com que o texto ganhasse encenações pelo planeta afora, inclusive no Brasil da ditadura militar. Eu era pequeno e não vi, nem o filme de 1970 -  que condenou seu elenco ao ostracismo, de tão estigmatizados que ficaram por interpretarem bichas. Mas agora não perco o remake de jeito nenhum, que estreia na Netflix no dia 30 de setembro. O elenco é o mesmo do revival e a direção, do sumo-sacerdote da viadagem nas telas: Ryan Murphy, das séries "Glee", "Hollywood", "The Politician" e trezentas outras mais, que conseguem ser aviadadas mesmo quando todos os personagens são héteros. Portanto você, jovem, que acha que o mundo começou depois que você nasceu, venha aprender um pouco da história dos seus antepassados bibais e as barras que eles enfrentaram para que hoje você pudesse rebolar a raba nos aplicativos. "The Boys in the Band" com certeza está datada, mas é um monumento histórico da luta pelos direitos LGBT.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

QU'EST-CE TRISTE VENISE

Assisti à cerimônia de abertura do Festival de Veneza pelo YouTube, o primeiro grande evento presencial desde o começo da pandemia. Por um lado, que alívio. Não estamos mais condenados a uma eternidade de festivais online e peças de teatro pelo Zoom. Tinha gente no tapete vermelho, gente na plateia, gente no palco e duas estrelas absolutas: Cate Blanchett, a presidente do júri, e Tilda Swinton, que recebeu um Leão de Ouro pelo conjunto da obra. Ambas desembarcaram no Palazzo del Cinema devidamente mascaradas, conscientes que são. Mas, enquanto a máscara da Cate parecia dessas que se compram no sinal, a da Tilda era um objet d'art, que deve assustar o coronavírus ao invés de apenas barrá-lo. As duas divindades ganharam montagens dos melhores momentos das respectivas carreiras,  me deixando na dúvida de qual delas eu gosto mais (mentira, sempre foi da Tilda). Mas a cerimônia também teve algo de melancólico, com muitas poltronas vazias por causa do distanciamento social e todo mundo fazendo força para não se esbarrar e trocar perdigotos. Que bom que estamos vivos, mas que triste fazer festa assim.

JE SUIS TOUJOURS CHARLIE

Pela primeira vez desde 2006, o jornal francês Charlie Hebdo republicou na edição desta semana as charges de Maomé que atiçaram a ira dos radicais muçulmanos e levaram ao atentado de 2015. Você leu direito: os terroristas levaram NOVE ANOS para reagir, que deve ser o tempo em que uma informação é (mal) interpretada pelo cérebro podre deles. O repeteco dos cartuns acontece agora porque está começando o julgamento dos 14 coadjuvantes do ataque que matou nove pessoas. Os principais culpados, os irmãos Said e Chérof Kouachi, foram mortos pela polícia poucos dias depois. Na época, boa parte da França e do mundo bradou aos quatro ventos "Je Suis Charlie", mas essa declaração de princípios não evitou um massacre ainda pior, em novembro de 2015, quando 130 pessoas foram mortas em diversos pontos de Paris na mesma noite. O terrorismo jihadista só arrefeceu depois que o Estado Islâmico foi praticamente varrido da face da Terra, mas eu até tenho uma certa saudade desse tempo em que eles eram o maior problema da humanidade. Hoje diversos países, Brasil inclusive, são governados por fundamentalistas ignorantes. Mas a resistência continua. É por iso que eu bato no peito: je suis toujours Charlie, ainda sou Charlie, ontem, hoje e sempre.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

VACINADOS CONTRA A INTELIGÊNCIA

Era só o que faltava: Biroliro é antivax. Parece que ele resolveu ticar todos os quadradinhos da cartela, para aumentar suas chances no concurso O Maior Boçal de Todos os Tempos. Hoje de manhã, na porta do Alvorada, o Despreparado não resistiu à tentação de agradar a uma bezerra de seu gado, que reclamou da obrigação de tomar a vacina contra a Covid que ainda não existe. Na sequência, a Secom já soltou a imagem ao lado, eternizando a estupidez presidencial como se fossem palavras de Clarice Lispector. Acontece que sim, pode-se sim obrigar alguém a tomar vacina: está numa lei que o próprio Bozo assinou no começo do ano. Será que agora o movimento antivax finalmente decola no Brasil? Acho até desnecessário. Brasileiro já não toma vacina por desleixo, como provam os índices crescentes de sarampo. Por outro lado, não é fabuloso que os minions não queiram se vacinar? É a seleção natural em ação!

ASSA AÍ, GUARDIÃO

Metade do Brasil está pasmo com os "Guardiões do Crivella" (a outra metade não liga nem para os 89 mil reais depositados pelo Queiroz na zona da Micheque). Eu também estou, e o meu espanto é reforçado pela estupidez do esquema. Como que o prefeito-pastor do Rio de Janeiro achou que ninguém iria perceber seus brucutus plantados na frente de hospitais, tentando atrapalhar as gravações da Globo? Ou que a própria emissora não iria atrás, descobrindo que se trata de uma milícia paga com dinheiro público? O que me consola é que Crivella está bem atrás de Eduardo Paes nas pesquisas. Mas ainda periga ir para o segundo turno das eleições municipais - e nós bem abemos o que acontece quando os cariocas podem votar num bandido.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

NÓS VAMOS DESMENTIR SUA PRAIA

Já reparou? A extrema-direita adora acusar seus adversários de coisas que ela mesma faz. Pastores teocráticos cansaram de postar fotos antigas de manifestações dizendo que era passeata conra is direitos LGBT ou coisa que o valha. Hoje, o Guilherme Fiuza - cujo claim to fame foi ter namorado a Narcisa Tamborindeguy - levantou a dúvida de que a foto da praia lotada publicada pelo Estadão não havia sido tirada ontem, ou que era manipulada. Fiuza meio que assumiu o erro depois que exames mais atentos mostraram que havia gente de máscara na imagem, mas a essa altura seus seguidores não queriam mais aber da verdade. Já Donald Trump nem se dá ao trabalho de fingir arrependimento. O Bebê Laranja jogou no Biden a culpa pela morte de um de seus apoiadores, quando todo mundo sabe que é ele o principal incitador da violência nos Estados Unidos. Ainda teve o desplante de defender o moleque de 17 anos que saiu armado com uma metralhadora e matou dois manifestantes em Kenosha na semana passada. Chegamos ao ponto em que não há agência de checagem, prova cabal nem cano fumegante que convença os fanáticos. Cada vez mais, eles só acreditam em seus próprios delírios.

O NOVO LEGAL

A entrega do VMA, na noite deste domingo, foi a primeira grande premiação do showbiz americano a acontecer durante a pandemia. Eu estava com medo de que a cerimônia fosse chata feito uma reunião corporativa pelo Zoom, com uma sucessão de artistas cantando no quintal de suas casas e discursando dentro de um mosaico de quadradinhos. Mas o que rolou foi um programa dinâmico, com ótimas performances ao vivo espalhadas por diversas locações simultâneas e um uso exemplar da tecnologia. O público fez falta? Mais ou menos. Eu não faço a menor questão de ver aqueles astros entediados bocejando na plateia, enquanto uma claque paga se esgoela dentro do fosso junto ao palco. O troféu de Vídeo do Ano foi para The Weeknd, mas a rainha da noite foi mesmo Lady Gaga.  Parecia que ela entrava em cena de cinco em cinco em minutos para receber algum prêmio, e seu número - na verdade, um medley de "Enigma", "911", "Rain On Me" e "Stupid Love" - lavou a alma das guei que ainda estavam chateadas por causa do "Joanne" (eueueueueu). Como sempre, não faltaram mensagens políticas, da solidariedade às vítimas do racismo ao simples uso de máscaras. Mensagem-bônus: mesmo em tempos de novo normal, ainda é possível fazer algo legal.

domingo, 30 de agosto de 2020

TODA MENINA DIANA

Há exatos 23 anos, meu marido e eu estávamos em casa vendo CNN en Español, sabe-se lá por quê, quando surgiu a notícia de um acidente de carro em Paris. "Diana está grave" disse a repórter. Era um sábado à noite e eu queria ir ao cinema. Meu cônje, já dando sinais de ancianidade precoce, preferiu ficar em casa. Fui assistir sozinho "Para Roseanna", um filme do qual eu já teria esquecido há muito tempo, não fosse por aquela noite. Quando voltei para casa, o inimaginável havia acontecido: a princesa Diana, a mulher mais famosa da minha geração, havia morrido por causa do acidente. Não só ela, como também seu namorado Dodi al-Fayed e o segurança do casal. O motorista, milagrosamente, havia escapado. Diana era menos de um ano mais jovem do que eu, e sua morte foi O acontecimento de 1997 - ofuscou até mesmo o assassinato de Gianni Versace, ocorrido dois meses antes (e ela foi ao funeral do estilista). Menos de duas semanas depois, lá estava eu em Paris, mandado pela agência de propaganda onde eu trabalhava para criar uma campanha internacional de xampu. Meu primeiro dia era livre e toquei para o túnel de Alma, onde o carro de Diana havia se espatifado contra uma parede, fugindo de paparazzi em motocicletas. A entrada estava proibida para veículos e pedestres, mas eu me fiz de turista imbecil e entrei como se nada. Tirei muitas fotos do que parecia uma enorme sepultura vazia, com marcas na parede e flores pelo chão. Na saída, um gendarme tentou me chamar a atenção, mas novamente eu me fiz de idiota.

Lady Diana Spencer foi o maior terremoto jamais sofrido pela Casa de Windsor. Seus pais se divorciaram cedo e sua mãe casou de novo e foi morar na Argentina. Quando Di (um apelido inventado pela imprensa) começou a namorar o príncipe Charles, 13 anos mais velho, não teve ninguém que chegasse nela e explicasse: "você vai ser contratada por uma empresa. Ou melhor, vai entrar para uma espécie de máfia. Tudo isso é um grande teatro: Charles namora há anos uma mulher casada, e vai continuar namorando. Você só foi escolhida porque é bonitinha, nobre e, principalmente, virgem - uma raridade entre as meninas da sua idade. Então aguente firme. Tenha os filhos dele e garanta o herdeiro do trono. Ignore a Camilla e arranje você também um amante. Mas seja discreta: este é o preço que você tem que pagar para nunca mais ver um boleto na vida". 

Diana acreditou mesmo que estava vivendo um conto de fadas. Quando descobriu que não era nada disso, botou pra quebrar. Não arranjou um amante, mas vários - e não fez o menor segredo disso. Ninguém jamais irá me convencer de que o príncipe Harry não é filho de James Hewitt, com quem ele se parece até na orelha. Tudo isso fez com circulasse a teoria de que a princesa teria sido assassinada, até porque estava prestes a se casar com um muçulmano. Nisto eu já não acredito. O fato é que Diana continua sendo uma figura icônica, e sua próxima encarnação nas telas será através da divina Elizabeth Debicki, na quinta e sexta temporadas de "The Crown". Mas o filme que eu estou mesmo na pilha der ver é outro. Certa noite, louca para dar uma saidinha sem ser incomodada pelos fotógrafos, Diana foi convencida por Freddie Mercury, seu amigo e vizinho do bairro de Kensington,  a se disfarçar com uma peruca e ir com ele a uma boate gay. Isto, sim, é uma bohemian rhapsody.