quinta-feira, 28 de novembro de 2019

UMA FLIP PARA ELIZABETH BISHOP

Até anteontem, eu tinha Elizabeth Bishop na mais alta conta. Para além da qualidade literária, a poeta americana gostava do Brasil (mas não se furtava às críticas), onde morou muitos anos, e foi abertamente lésbica numa época em que isso estava fora de cogitação. Aí Bishop foi escolhida como a homenageada da Flip do ano que vem, e abriram-se as portas do inferno. Um de seus pecados foi ter elogiado, numa correspondência pessoal, o golpe de 1964, logo depois dele ter ocorrido. Galera esquece que Nélson Rodrigues e Guimarães Rosa, que já foram homenageados pela Flip, também apoiaram o golpe - até porque, em 1964, não se imaginava que ele degringolaria numa ditadura de mais de duas décadas. Bishop também é execrada por ser estrangeira, apesar de sua óbvia ligação com o Brasil (e foi aqui, e não nos EUA, que fizeram uma peça e um filme sobre ela). Haveria muitos outros escritores mais merecedores do que ela. Vou contar um segredinho: sempre haverá. Literatura não é ciência exata, gostos e avaliações flutuam, e viva a diversidade. Houve até quem achasse que a escolha de Bishop era uma subserviência ao atual governo, e chegou a circular nas redes que o próprio Biroliro iria à abertura da Flip. Desconsiderando que a agenda presidencial ainda não chega a julho de 2020, Mijair mal sabe ler, não faz a puta ideia de quem seja Elizabeth Bishop e, quando souber, vai ser recusar a prestigiar uma sapatona. O lado bom desse imbróglio todo é que estamos discutindo, mais uma vez, as diferenças entre um artista e sua arte. Bishop era uma pessoa complexa e produziu grande poesia. Não agrada todo mundo? Ótimo, vamos debater isto.

11 comentários:

  1. tá na moda escarafunchar o passado de qualquer nome que venha a tona por qualquer motivo até que se ache o mínimo do incoerente sobre aquele nome e então, assim, o defensor da perfeição, possa gloriosamente, do alto da sua presunção, apontar o dedo e declarar: cancelado!
    superficial e cafona tudo isso.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Agora temos gerado uma geração de detetives morais que aparentemente são obcecados pelo comportamento de escritores e outros artistas.

      Se entregássemos todas as obras de escritores moralmente duvidosos ao buraco da memória, o cânone ocidental seria tão frágil que dificilmente valeria a pena ler.

      O romancista Anatole France comentou certa vez que é igualmente bom que o coração seja ingênuo e a mente não. Se os anjos escrevessem, ele opinou, eles certamente produziriam literatura ruim. Oscar Wilde colocou de outra maneira em The Critic as Artist, quando observou que "toda poesia ruim surge de sentimentos genuínos". Basta visitar um cemitério para ver se ele está certo; alguns dos epitáfios mais obscuros que eu já vi surgiram claramente de uma profunda tristeza. Os críticos, em outras palavras, devem ser gratos por nem todos os artistas serem pessoas decentes.

      Excluir
    2. Boas críticas são capazes de equilibrar a subjetividade do temperamento pessoal com a objetividade da experiência profissional. O Retrato de Dorian Gray foi universalmente condenado pelos críticos com base em que era "imoral, cruel, grosseiro e bruto". Quando o romance foi republicado, Wilde acrescentou um prefácio como uma forma de refutação, que deveria ser uma leitura obrigatória para todos os críticos hoje. Nele, ele explica que o vício e a virtude são simplesmente "materiais" para os artistas, lembrando-nos que a representação da imoralidade não é necessariamente um endosso a esse comportamento. Mesmo se fosse, por que deveria importar? "Não existe livro moral ou imoral", proclama Wilde. 'Livros são bem escritos, ou mal escritos. Isso é tudo.'

      Excluir
  2. Até os americanos deixaram de apoiar a ditadura depois que os milicos passaram até a mirar em amigos dos gringos. Nossa ditamole (como as outras bancadas pelos eua no mesmo período) ainda sofreu outro “golpe” quando Carter assumiu. Ali virou só briguinha interna dos militares mesmo.

    ResponderExcluir
  3. Bola de Neve Church...

    ResponderExcluir
  4. Claro que eles sabiam que a desenrolar ditadura todo mundo sabia eles apenas não queriam ascensão dos mais pobres do Preto como sempre aí na história do Brasil não aguento mais ver babar de uniforme aguento mais essa cidade de merda

    ResponderExcluir
  5. Fiquei surpreso pela escolha por Bishop, nada contra ela, considero ela uma das melhores poetisas do sec xx, mas poderiam ter escolhido Joao Cabral de Melo Neto, que fará 100 anos, devido seu centenário....

    ResponderExcluir
  6. Quem apoiou o golpe bom intencionado não é

    ResponderExcluir
  7. O mundo esta dividido entre esquera e direita? E eu que acho os dois uma merda...o que fazer?? Prefiro ficar com A ARTE DE PERDER.

    ResponderExcluir
  8. Onde isso vai parar? Monteiro Lobato, Picasso, Gauguin...

    ResponderExcluir