quinta-feira, 10 de outubro de 2019

MULHERES A BORDO


Sempre levo um livro na mala de mão, mas tenho lido cada vez menos nos voos internacionais. A razão é simples: o serviço de entretenimento de bordo dos aviões agora oferece centenas de filmes, séries, documentários e games, para que o passageiro encha o menos possível o saco das aeromoças. Assim, aproveito para ver o que não chegou no Brasil, ou o que chegou e eu perdi. O primeiro caso é o de "Late Night", uma comédia escrita e estrelada por Mindy Kaling, e dirigida por uma mulher também de ascendência indiana, Nisha Ganatra. Mindy faz uma roteirista principiante que consegue emprego no talk show de uma comediante britânica feita por Emma Thompson. Não existe nenhuma anfitriã mulher no horário nobre da TV americana, o que enfraquece um pouco a pegada feminista do filme. Mais grave é a falta de simpatia das duas personagens. A de Emma é uma esnobe cruel e não especialmente engraçada, o que torna seu sucesso ainda menos crível. A de Mindy não sossega o discurso empoderado (tem até uma piada com isso no roteiro), e suas tiradas tampouco são particularmente boas. "Late Night" flopou nos cinemas americanos e provavelmente só poderá ser visto por aqui na Amazon Prime Video. Queira muito recomendar, mas não consigo.

"Booksmart" é muito melhor. O filme entrou em cartaz por meia hora no Brasil em julho passado, como "Fora de Série", e já pode ser alugado nas boas plataformas do ramo. Talvez tivesse ido melhor por aqui se o título fosse "As CDFs", mais fiel ao espírito anárquico da trama. Também não foi bem nas bilheterias dos EUA, mas merecia mais. Porque é um ótimo exemplo de cinema feminino, de cabo a rabo. Tem roteiristas mulheres, produtoras mulheres, diretora mulher (a atriz Olivia Wilde, estreando atrás das câmeras) e conta a história de duas garotas de uma perspectiva feminina, mas nada mulherzinha. As duas são sexualizadas, desbocadas e em nada subservientes aos garotos. São colegas de escola e BFFs que, no último dia de aula, percebem que todos os alunos vagabundos entraram em faculdades tão boas quanto elas. Ou seja: não adiantou nada ter estudado tanto e perdido tantas festas. Por isto, para celebrar o final da high school, elas resolvem se jogar, e traçam tudo que aparece pela frente: drogas, bebidas, vaginas, o que for. Mas quase tudo dá muito errado, e "Booksmart" acaba lembrando "Depois de Horas", uma das muitas obras-primas de Martin Scorsese. Este eu recomeeendo.

14 comentários:

  1. Nossa Tony, o trailer de depois de horas é péssimo. Sério que é uma obra prima? Vou te falar 5 dos meus filmes favoritos e você indica algo para essa noite ok? ;) é meio old school, old is cool:

    -Festa em família, assisti pela primeira vez na casa do namorado Dinamarquês com uma sueca que comentou ‘os dinamarqueses são exatamente assim’ em Londres e amei!

    -Plata Quemada, dispensa comentários os argentinos estão anos luz a frente no cinema, talvez o filme mais erótico da história do cinema quem discordar me fale um que seja mais.

    -O invasor, infelizmente perdi o Paulo Miklos como Chet Baker na FAAP, eu amo porque o filme é muito São Paulo e me lembra as festas que eu ia na época, a cidade onde cresci.

    -O incidente linguini, David Bowie os personagens bizarros e o humor peculiar do filme.

    -Um lobisomem americano em Londres, só pra mencionar um filme de terror junto com hereditário, silêncio dos inocentes e o iluminado.

    Melho jogo : Life is Strange, não sou gamer mas o jogo estilo seriado me pegou é de extrema sensibilidade acho que você poderia escrever algo assim um game nesse estilo.

    E aí baseado no meu perfil o que ver hoje no Netflix?

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    1. Não vejo "Depois de Horas" desde a década de 1980, mas lembro que adorei. Os trailers daquela época tem outra pegada, não se deixe impressionar por eles. Vá ver "Depois de Horas".

      não sou algoritmo para sugerir de graça o que você deve ver... Acompanhe as dicas da minha coluna Multitela, que eu faço em troca de dinheiro.

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    2. hahaha...sabia que você iria responder algo assim, o trailer é péssimo! compre no apple store life is strange e jogue no computador. O brasil precisa produzir mais coisas assim...

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    3. E outra coisa, algoritmo nunca sugere nada de bom, sou totalmente anti tech...nem facebook tenho graças a deus, beaj!

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    4. Eu vi “Love Is Strange”, há cinco anos. Achei médio...

      E o Brasil JÁ produziu algo assim: um dos produtores de “Love Is Strange” é o Rodrigo Teixeira.

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    5. Interessante, mas o mercado de games ainda é pequeno não é?

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    6. Digo...não temos muitas produtoras

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    7. Recomendo The Wolf Among Us e The Walking Dead da Telltale Games.

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  2. Pela sua descrição, Booksmart parece um Superbad feminino.

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  3. Deve ser a correria, o sono ou confundiu atriz com atrás, mas vc colocou atriz com "s" na frase "a atris Olivia Wilde, estreando atrás das câmeras". Só pra avisar, não publica o comentário não kkkk.

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  4. O Mio Babbino Caro

    Hey Tony, me permita. Como você vê a entrega e as possibilidades do Tyler Perry Studios?

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    1. Os noticiários da TV americana deram muito destaque à inaguração dos estúdios do Tyler Perry na Geórgia. São 11 estúdios imensos, com uma área maior que as da Paramount, Fox e Disney SOMADAS. E ele ainda batizou cada estúdio como o nome de um artista negro famoso: Oprah Winfrey, Will Smith, Halle Berry, Denzel Washington, Diahann Carroll... Achei muito do caralho.

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