domingo, 20 de outubro de 2019

MOSTRA À TROIS


"'Hotzek e a Pedra'. Um camponês se apaixona por uma pedra. 380 minutos, em preto-e-amarelo. Falado em albanês, com legendas em servo-croata. Atenção: o ventilador do cineclube está quebrado". Esta dica de filme de arte saiu no "guia" do "Planeta Diário" há mais de 30 anos. E continua atual, pois lembra a descrição de "Honeyland": a última coletora de mel silvestre da Europa... O representante no Oscar da Macedônia do Norte (a boa e velha Macedônia, obrigada a acrescentar um "do Norte" ao nome para não melindrar a vizinha Grécia) é um documentário que, se passasse no canal Nat Geo, ninguém ia prestar atenção. Mas ganhou prêmio em Sundance e virou um filme badalado: o gigantesco Cinearte estava lotado na tarde deste sábado. A protagonista parece a irmã pobre da Rossy de Palma e tem os dentes mais feios que eu já vi. Mora numa choupana de pedra com a mãe doente e leva uma vida duríssima, mas nunca perde o bom humor. É bonito, contemplativo e um bom perfil de personagem real. Ah, sim, e é falado em turco.


Já "Buoyancy" (rebatizado como "Empuxo" pela Mostra) é o candidato da Austrália, mas é falado em khmer e tailandês. E é um baita filme: a história do garoto que foge de casa e acaba escravizado em um navio de pesca é tensa, envolvente e ainda tem um final surpreendente e satisfatório. Como nenhum dos atores é conhecido, também passa a sensação de estarmos vendo um documentário. Num momento em que a escravidão voltou à ordem do dia, o longa nos lembra que ela ainda não acabou em muitos lugares do mundo Anote o nome do diretor Rodd Rathjen, porque ele fatalmente será cooptado por Hollywood para dirigir filmes da Marvel. Foi o melhor até agora.


E o pior foi "O Último Amor de Casanova". O erro começou na hora em que peguei o ingresso: o filme entra em cartaz em novembro, então eu não precisava tê-lo visto na Mostra e economizado minha credencial para coisas mais raras. E continuou na tela, porque o tratamento que o diretor Benoit Jacquot dá ao que teria sido a derradeira paixã de Giacomo Casanova é para lá de sombrio. Vincent Lindon faz o famoso sedutor sem um pingo de sedução, e pouco mais do que nada acontece durante uma hora e meia (ainda bem que é curto). O melhor filme sobre o personagem continua sendo "Casanova e a Revolução".

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