sábado, 7 de setembro de 2019

UM PREFEITO DE QUINTA

Naquela quinta-feira, Marcello Crivella acordou super bem-disposto. O prefeito do Rio de Janeiro se sentia ainda mais cheio de energia e amor do que de costume, e com uma vontade avassaladora de fazer algo especial pela cidade. Mas por onde começar? Qual problema urgente mereceria mais a sua atenção?

Um assessor lembrou da saúde pública, e Crivella pediu a seu motorista para tocar para um hospital municipal. "Vou dar uma incerta, chegar sem avisar", pensou, com um toque de malícia. Logo depois, se arrependeu. "Isto não é muito cristão de minha parte".

O prédio havia sido reformado recentemente e luzia de novo. O brilho do chão chegava a incomodar. No saguão amplo e arejado, algumas poucas pessoas iam de lá para cá, sem pressa nem aflição.

O alcaide foi até a recepção e pediu para falar com o diretor. "A diretora", corrigiu a recepcionista, portadora da síndrome de Down. Em seguida apareceu a dra. Cleusa, negra, lésbica, gorda a umbandista. Crivella conteve a supresa e perguntou: "Algum problema, senhora diretora? Em que podemos lhe ajudar?" 

Cleusa suspirou. "De fato, estamos com um probleminha", admitiu ela. "Há vagas sobrando. Minha equipe está ociosa. O pior é que o hospital estadual do bairro vizinho também está, e eles vêm até aqui para roubar os meus pacientes. Chegam a oferecer dinheiro para o pessoal se internar lá. Só ontem perdi dois!"

Crivella sorriu desanimado, disse que não podia fazer nada e despediu-se. Do hospital, rumou para uma comunidade carente. Quem sabe, lá ele conseguiria dar vazão aos ímpetos benfazejos que formigavam por todo seu corpo?

Qual o quê. Ruas asfaltadas e arborizadas, crianças na escola, comércio funcionando. Nada de esgoto a céu aberto. Nem uma única bala perdida. Uma monotonia só. "Maçada!", resmungou o prefeito, com cuidado para ninguém ouvir.

Na saída, ainda teve que se desvencilhar do pessoal de uma escola de samba, que o homenageou com o samba-enredo do ano que vem. Convidaram-no a desfilar. "Não sei se consigo, oito escolas já me chamaram", riu, sem graça. 

Disfarçando a irritação, Crivella entrou no carro oficial e pediu sugestões ao seu staff. Um colégio? Todos a plena vapor, atraindo alunos da rede particular. Uma delegacia? Quase todas viraram balcões de informações para turistas. Uma praia? Limpas, seguras, uma chatice. Fora que está nublado, não rende foto boa.

Começou a bater o desespero. Com mais de um ano de mandato pela frente, Marcelo Crivella se aterrorizou com o tédio que se aproximava a passos largos. Quer dizer, então, que não havia mais nada que ele pudesse fazer pelos cariocas? Nenhuma questão a ser resolvida? Como preencher tanto tempo? 

Foi aí que seu celular soltou aquele "ping" característico de mensagem entrando. Sem muita esperança, Crivela desbloqueou a tela do aparelho e entrou primeiro no aplicativo, depois no grupo. Então seus olhinhos se iluminaram. Bem à sua frente, descortinou-se aos poucos uma ilustração. Dois rapazes se beijando.

10 comentários:

  1. Crivela quer proteger crianças é só ir até a Cinelândia ou Candelária que estão cheias delas!

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  2. O Mio Babbino Caro
    É só termos um pouco mais de paciência e vermos esses caras aprenderem que não rende mais se meter em assunto de viados kkkk

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  3. Durou pouco, viu?
    https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/09/07/nova-decisao-do-tj-rj-pede-para-recolher-que-livros-com-tematica-lgbt-que-nao-estejam-lacrados-na-bienal.ghtml

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  4. O Mio Babbino Caro
    Somente eu que estou achando que o Brasil tornou-se uma imensa piada trágica?

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  5. Com certeza essa besta recebeu notícias de Whatsapp falando que essa revista era focada para crianças de 5 anos e mostrava até uma suruba.

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  6. Texto cremoso... delícia de ler ;) Congrats!

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  7. Se TODO MUNDO se assumisse a coisa seria tão diferente...

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  8. Acabou a novela! Dodge pediu e Toffoli atendeu: está suspensa a apreensão de livro na Bienal. Ufa!

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