sábado, 29 de junho de 2019

CRENTE DO RABO QUENTE

"Divino Amor" imagina como seria o Brasil daqui a oito anos, quando não haveria mais separação entre o Estado e a religião evangélica. Nem por isso o novo filme de Gabriel Mascaro chega a ser um "Conto da Aia" nacional: todo mundo aparenta estar contente nessa distopia, mesmo as mulheres que precisam ir à praia de burquíni. O carnaval foi substituído pela festa do Amor Supremo e não há mais nenhum gay à vista, o que talvez explique as roupas horrorosas. Mas essa prisão colorida tem uma válvula de escape: uma espécie de troca de casais em Cristo, onde todo mundo volta para seu cônje na hora do orgasmo. Dira Paes está ótima como uma funcionária pública que não vê o menor problema em se meter na vida particular dos cidadãos, até o momento em que ela mesma se vê traída pela estrutura de que participa com tanta sofreguidão. Eu não gostei de "Boi Neon", o longa anterior de Mascaro, e esse novo trabalho repete elementos como a fluorescência e os paus duros. Mas "Divino Amor" é mais redondo e mais instigante, mesmo escapando de ser um ataque óbvio aos hipócritas da teocracia.

5 comentários:

  1. Distopia bacana é "Cyberpunk", que entendeu com décadas de antecedência o horror em que o Ocidente está metido hoje. "Divino Amor" é só a projeção de uma mente militante e sem capacidade de ler a realidade.

    Por essas e outras que o cinema brasileiro é uma nulidade.

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    1. Eu aposto cem mangos que esse minion não viu “Divino Amor”, e vocês?

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    2. Com certeza Tony. A "curtura" dessa gentalha vai de niobio prá baixo...

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  2. Eu gostei de Boi Neon (experiência estranha ser a única pessoa na sala de cinema). Gostei mais ainda de Som ao Redor. Mas ambos nos deixam órfãos, pois parecem parar de repente, sem maiores explicações - como a vida.

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