domingo, 23 de junho de 2019

CARA E COROINHA


François Ozon é um dos meus cineastas favoritos. Vi todos os seus longas e tenho pelo menos dois - "8 Mulheres" e "Uma Nova Amiga" - na minha lista da ilha deserta. Por isto eu estava especialmente ansioso por "Graças a Deus", que estreou no Brasil depois de vencer um prêmio em Berlim e receber ótimas críticas da especializada. Mas acabei indo ao cinema em um mau dia. Eu estava muito cansado, com sono atrasado, e a austeridade do filme me derrubou. Ozon está sóbrio como nunca, sem um pingo de humor ou ironia. Quase ninguém ri em cena, quase não há música. E tem muita, mas muita, muita locução em off, por quase duas horas e meia. É interessante ver como ele retrata católicos fervorosos sem ridicularizá-los. Esses personagens deixam claro que querem denunciar os abusos de que sofreram quando crianças para ajudar a Igreja, não para destruí-la. Mas a própria Igreja não lhes dá ouvidos, seguindo a rota suicida que adotou há décadas e que nem o papa Francisco ainda conseguiu mudar. Só que o roteiro é pouco mais do que uma série de encontros e reuniões em fogo baixo, sem piques emocionais. Ser abusado por um padre é muito chato, claro, mas relatar esse abuso é quase tão chato quanto - e essa parece ser a mensagem que Ozon queria passar. Verei de novo na TV paga.

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