domingo, 30 de junho de 2019

BRINQUEDO RECICLADO


Tirando os executivos da Disney, precisávamos mesmo de "Toy Story 4"? Os atuais diretores da empresa estão decididos a ordenhar ao máximo todas as franquias da casa, haja vista a fúria com que produzem remakes com atores de desenhos clássicos ou episódios anuais de "Star Wars". Tudo para garantir os bônus de fim de ano e as aposentadorias a médio prazo. Dito isto, essa quarta aventura de Woody e sua gangue não é ruim: só não está no nível de excelência das três primeiras. O roteiro até assume que é supérfluo. Afinal, o que falta contar na história de Woody, depois que ele foi passado por seu dono original para uma menina em idade pré-escolar? E assim "Toy Story" está em vias de se tornar uma série de TV, com alguns capítulos melhores do que outro e nenhum mais atingindo a catarse original. O que torna o filme agradável é a técnica exuberante da Pixar e os talentos vocais do elenco (eu vi a versão original, com legendas). Também é divertida a criação de Garfinho: basta uns acessórios mal-ajambrados em um talher descartável para ele se tornar alguém, mesmo a contragosto. Tudo o que Garfinho quer, no princípio, e é se atirar no lixo e deixar de existir. Esse dilema existencial logo é substiuído por muita correria e humor engajado. Lindo, mas esquecível. Até porque daqui a pouco chega "O Rei Leão".

HIPOCRIMINIONS

Não vou dar uma de petista e ser contra tudo o que o governo fizer, só porque eu sou de oposição. Por tudo o que eu li, o Bozo teve, sim, um papel positivo na aprovação do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (e nem por isto eu vou deixar de chamá-lo de Bozo). Além do mais, ele conseguiu sair bem de Osaka, depois do vexame dos 39 quilos de pó na chegada. Mas é de se lamentar a hipocrisia crassa de todo o clã Biroliro. Agora eles estão se pavoneando nas redes sociais com a assinatura desse tratado, sendo que até ontem vociferavam contra o Mercosul, o globalismo e o Acordo de Paris, do qual, afinal, não saímos. Até pelo Brexit os celerados torciam, algo que agora vai ser bem ruim para o Brasil. Mas a incoerência está entranhada no DNA da familícia. Não faz o menor sentido, por exemplo, denunciar a ditadura da Venezuela e depois trocar juras de amor e postar fotinha com o príncipe Mohammad Bin-Salman, o açougueiro saudita.

sábado, 29 de junho de 2019

CRENTE DO RABO QUENTE

"Divino Amor" imagina como seria o Brasil daqui a oito anos, quando não haveria mais separação entre o Estado e a religião evangélica. Nem por isso o novo filme de Gabriel Mascaro chega a ser um "Conto da Aia" nacional: todo mundo aparenta estar contente nessa distopia, mesmo as mulheres que precisam ir à praia de burquíni. O carnaval foi substituído pela festa do Amor Supremo e não há mais nenhum gay à vista, o que talvez explique as roupas horrorosas. Mas essa prisão colorida tem uma válvula de escape: uma espécie de troca de casais em Cristo, onde todo mundo volta para seu cônje na hora do orgasmo. Dira Paes está ótima como uma funcionária pública que não vê o menor problema em se meter na vida particular dos cidadãos, até o momento em que ela mesma se vê traída pela estrutura de que participa com tanta sofreguidão. Eu não gostei de "Boi Neon", o longa anterior de Mascaro, e esse novo trabalho repete elementos como a fluorescência e os paus duros. Mas "Divino Amor" é mais redondo e mais instigante, mesmo escapando de ser um ataque óbvio aos hipócritas da teocracia.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

CINQUENTINHA

Hoje é dia de festa, bebê. Há exatos 50 anos, em 28 de junho de 1969, o levante de Stonewall marcou o início para valer do movimento LGBTQ+. É dia de honrar quem veio antes de nós e lutou para que pudéssemos andar de mãos dadas no meio da rua. Dia de homenagear travestis, drag queens e afins: elas, que não podem nem querem se esconder, sempre foram a nossa ponta-de-lança, dando a cara para bater quando os cis conseguiam passar despercebidos. Também é dia de lembrar que a luta não acabou: apesar do sucesso estrondoso (nenhum outro movimento conquistou tantos direitos em tão pouco tempo), ainda vemos barbaridades como a bizarra Damares Alves posando ao lado de um sujeito com uma camiseta onde se lê "Ideologia de Gênero Mata", um abuso político da tragédia do menino Ruan. Sem falar nas inúmeras violências, tanto físicas como psicológicas, a que ainda somos submetidos no Brasil e no mundo. É por isto que a revolta de Stonewall continua.

Hoje eu estou nas páginas do jornal O Povo, de Fortaleza, ao lado de amigos como Ailton Botelho, Bob Yang, Augusto Rossi e muitos outros nomes da comunidade LGBTQ+ brasileira. A convite do Emerson Maranhão, cada um de nós (50 ao todo, claro) escreveu um parágrafo sobre a importância de Stonewall. Leia a íntegra da matéria aqui. É de graça, mas antes precisa fazer cadastro.

Os 50 anos de Stonewall também são o assunto da minha coluna de hoje no F5.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

DESARMINHA


Minions do mundo inteiro estão chorando trancados no quarto, jogados na diagonal sobre a cama, depois que a malvada da Madonna lançou música e clipe criticando o armamento desvairado. A frágil estrutura emocional desses cotiadinhos vira farelo diante da sexagenária, que embarca em todas as causas justas desde meados da década de 80. "God Control" é, de fato, a melhor faixa de "Madame X", e a letra engajada contrasta com o arranjo alienante. Acho que Madge força a amizade em trechos do clipe (preferia que fosse só na boate, sem ela pagando de escritora), mas é inegável que é poderoso. E quando é que um luminar do pop nacional vai pegar em armas (virtuais) contra a arminha do Bozo?

A BRUXA ESTÁ PRESA


Como que o Reino Unido consegue participar da disputa pelo Oscar de filme estrangeiro? Antigamente, o regulamento exigia que os diálogos fossem em uma língua nativa do país. Nessa época, até que os britânicos emplacaram dois títulos entre os cinco finalistas, sempre falados em galês. Mas, hoje em dia, basta o país ter participado da produção: por isto, "Eu Não Sou uma Bruxa", filmado em Zâmbia por um diretor de Zâmbia com atores de Zâmbia e idiomas de Zâmbia, representou a rainha Elizabeth II no Oscar deste ano. Não foi longe, mas é interessante. Shula, uma garotinha órfã, é acusada de bruxaria em uma aldeia, e enviada para uma espécie de campo de concentração de feiticeiras. Esses campos até existem, só que em Gana - o do filme tem detalhe pitorescos, como carretéis de fitas que seguram as prisioneiras no chão, para elas não saírem voando. A menina então é explorada por um político corrupto, que a usa para charlatanices como identificar o culpado entre suspeitos de um roubo ou prometer chuva para um fazendeiro branco. O final destoa do tom cínico do resto, mas a mensagem é clara. Mesmo em países pobres, mesmo em culturas oprimidas, o ser humano é sempre uma merda.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

UM MILITAR DE CARREIRA

Duvido que esta tenha sido a primeira vez que o sargento Manoel Silva Rodrigues tenha transportado cocaína em um avião da FAB. Pela quantidade apreendida em Sevilha, o cara era profissional. Quis o azar que, depois de 29 viagens nas comitivas de três presidentes diferentes, ele fosse pego justamente em uma viagem do Bozo. O Despreparado teria que ser ainda mais chucro do que parece ser para ter algo a ver com isto, mas uma coisa é certa: ele atrai bandido para o seu entorno. É divertido ver sua credibilidade virar, aham, pó. Mais engraçado ainda é ver sua cara aplicada sobre a de seu arqui-inimigo Wagner Moura.

ADENDO: É claro que não dá para dizer que a familícia Biroliro seja cúmplice do traficante, apesar da intimidade que eles têm com o crime organizado. Mas uma coisa é certa: a segurança dos aviões presidenciais é para lá de falha, e isto é cupa das nossas queridas Forças Armadas. "Ãin, mas vai ver que já era assim nos governos Dilma e Temer". Bem provável. Isso não livra a cara de ninguém. A FAB deixou que um sujeito levasse uma carga IMENSA de cocaína num avião presidencial. E se o cara estivesse levando bombas? O Bozo preza tanto pela segurança pessoal, e deixou escapar essa (no mínimo). De resto, não foi o governo dele quem prendeu o meliante: foi o da Espanha, que está nas mãos dos socialistas. Chupem essa, minions. Cafunguem essa.

CORRIDA MALUCA

É estranhíssimo o entusiasmo do Biroliro em levar a Fórmula 1 para o Rio de Janeiro. A cidade está quebrada e falta tudo, inclusive um autódromo. Um novo circuito teria que ser construído do zero, no distante subúrbio de Marechal Deodoro. Já foi criada uma empresa para erguê-lo e administrá-lo, antes mesmo da prova ser transferida para a cidade. Não duvido nada que estejam rolando milhões nos bastidores. Enquanto isso, o Doria esperneia para manter a Fórmula 1 em São Paulo: o evento ainda é a maior atração turística paulistana, com faturamento superior à Parada Gay, ao carnaval e à Virada Cultural. Adoro ver o presidente e o governador em rota de colisão, e nesse caso eu torço pelo segundo. Mesmo sabendo que a Fórmula 1 está decadente, perdendo público e dinheiro no mundo inteiro. Mesmo com os helicópteros que não me deixam dormir no dia da corrida.

terça-feira, 25 de junho de 2019

CIRO NO PÉ

Tem como não amar o Ciro Gomes? Eu só votei nele no primeiro turno do ano passado porque parecia o mais capaz de derrotar o Bozo no segundo, e jamais concordei com todas as suas ideias - principalmente a relutância em reconhecer que há uma ditadura na Venezuela. Mas Cirão tem carisma de popstar, visão de estadista e coragem de jagunço. No Monring Show desta terça, na rádio Jovem Pan, ele voltou a chamar Fernando Holiday de capitão-do-mato e ainda juntou um "nazista" ao epíteto.  E isso porque Ciro já perdeu em primeira instância e com certeza vai enfrentar mais um processo. Como não amar esse cara-de-peste?

PETRA SOBRE PETRA


A turbulência política que se instaurou no Brasil desde as manifestações de 2013 já rendeu alguns documentários. Mas nenhum teve tanta repercussão quanto "Democracia em Vertigem", creio que por duas razões. A primeira é a Netflix: é muito mais fácil alguém ver esse tipo de filme em casa do que sair, pagar estacionamento, comprar ingresso caro e pipoca a 20 reais. A segunda é que a diretora Petra Costa consegue dar um tom bastante equilibrado, apesar de ter um ponto de vista claro (lembremos que cineasta não precisa ser imparcial e cinema não é jornalismo). A moça tem uma história de vida peculiar. Seu avô foi um dos fundadores da Andrade & Gutierrez, uma das maiores empreiteiras do país e frequentadora dos inquéritos da Lava-Jato. Já seus pais foram militantes de esquerda, que passaram um tempo no exílio. Na locução em off, a diretora assume com todas as letras que pertence à classe rica, e não endeusa Lula nem Dilma. Também consegue imagens históricas da intimidade dos dois ex-presidentes, jamais vistas em outro lugar. O tom didático explica o imbroglio brasileiro aos gringos, e "Democracia em Vertigem" já está cotado ao Oscar. Não traz novidades para quem acompanha o noticiário com atenção, mas serve como uma visão panorâmica dos últimos seis anos. É um filme interessante, a que se assiste com prazer. E ninguém é obrigado a concordar com a opinião de Petra Costa. Afinal, ainda somos uma democracia.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

SINAL VERDE

Eu estava esperando uma parada ultrapolitizada, cheia de gritos de guerra e performances ultrajantes. O que vi na Paulista foi uma festa de família, com crianças, gente educada e nenhuma baixaria. Não que eu seja contra: acho que parada gay pode, sim, ter algo de ultrajante. Mas este ano não teve. Sim, havia faixas  Lula Livre e camisetas #EleNão. Só que em clima de paz e amor, sem confrontação nem ressentimento. Foi então que eu percebi: melhor assim. A Parada do Orgulho LGBTQ+ de São Paulo já faz parte da rotina da cidade. Não é mais um evento disruptivo. É um carnaval temático, que tem muito a celebrar e muito pelo qual ainda lutar. O mais legal foi perceber que ninguém se amedrontou com as sandices homofóbicas do Bozo e seu entorno. Ficou claro que ele passará, e a Parada seguirá em frente. Até porque estamos chegando perto da de Nova York em número de patrocinadores: até que enfim descobriram que gay dá dinheiro, entre outras coisas. O lado chato foi ser atacado nas redes sociais por dois minions que eu nem conheço pessoalmente. Mas eu entendo a frustração deles. Esses boçais acham que elegeram um ditador, e que no dia seguinte as bichas, sapatas e trans voltariam para o armário. Como continuamos sambando na cara deles, apelaram para a violência verbal. Tô nem aí: palavras de estranhos não me ferem, ainda mais quando escritas com erros de português. E vamos em frente, como os bonequinhos que a Prefeitura colou nos semáforos.

A LUTA É UMA SÓ

Conheço o Dario Menezes há muitos anos. Ele foi editor do "Fantástico" e hoje atua como diretor e produtor independente. Ano passado, seu documentário "Abrindo o Armário" traçou um panorama interessante da homossexualidade masculina no Brasil. Este ano, Dario dedicou boa parte do primeiro semestre à matéria de quase 15 minutos exibida ontem pelo "Fantástico", sobre os 50 anos do levante de Stonewall e suas consequências sobre os direitos LGBT aqui no Brasil. Eu gravei meu depoimento em abril, e fiquei contente de ver que muita coisa foi aproveitada (é normal que se corte bastante, o tempo na TV é exíguo e precioso). A repercussão da reportagem está sendo, aham, fantástica: muita gente não sabia sequer da existência de Stonewall, o marco zero da nossa luta pela igualdade. Aliás, acho que vou parar de falar em "nossa luta" quando eu me referir às pautas LGBT. Como diz a Milly Lacombe no final da matéria, a luta é uma só: contra o racismo, contra o machismo, conta a homofobia. E as vítimas desses preconceitos não são só os negros, as mulheres ou os homossexuais. É a sociedade como um todo. Quanto mais gente se juntar, mais fácil cairá o muro.

domingo, 23 de junho de 2019

CARA E COROINHA


François Ozon é um dos meus cineastas favoritos. Vi todos os seus longas e tenho pelo menos dois - "8 Mulheres" e "Uma Nova Amiga" - na minha lista da ilha deserta. Por isto eu estava especialmente ansioso por "Graças a Deus", que estreou no Brasil depois de vencer um prêmio em Berlim e receber ótimas críticas da especializada. Mas acabei indo ao cinema em um mau dia. Eu estava muito cansado, com sono atrasado, e a austeridade do filme me derrubou. Ozon está sóbrio como nunca, sem um pingo de humor ou ironia. Quase ninguém ri em cena, quase não há música. E tem muita, mas muita, muita locução em off, por quase duas horas e meia. É interessante ver como ele retrata católicos fervorosos sem ridicularizá-los. Esses personagens deixam claro que querem denunciar os abusos de que sofreram quando crianças para ajudar a Igreja, não para destruí-la. Mas a própria Igreja não lhes dá ouvidos, seguindo a rota suicida que adotou há décadas e que nem o papa Francisco ainda conseguiu mudar. Só que o roteiro é pouco mais do que uma série de encontros e reuniões em fogo baixo, sem piques emocionais. Ser abusado por um padre é muito chato, claro, mas relatar esse abuso é quase tão chato quanto - e essa parece ser a mensagem que Ozon queria passar. Verei de novo na TV paga.

HOMOFOBIA IMATURA

Uma beleza a capa da Veja São Paulo dessa semana, que fala de um fenômeno comum mas que pouco aparece na mídia: pessoas que se assumem gays depois de terem casamentos heterossexuais e até filhos.  O texto reúne depoimentos em primeira pessoa que surpreendem pela banalidade (no bom sentido). Meu próprio marido foi casado com mulher por 12 anos antes de me conhecer, mas o caso dele não foi exatamente uma descoberta tardia. Também tenho um sobrinho que se separou da mulher depois de sete anos juntos, porque não aguentava mais levar uma vida dupla. Mas as reações no perfil no Instagram da Vejinha são de apavorar, como convém a esse tempos tenebrosos. No fundo, acho que a minionzada está "perplecta" pelo Brasil não ter se transformado em uma ditadura religiosa depois da eleição do Despreparado. Ainda existe dissenso, ainda existe diversidade e ninguém vai voltar para o armário. Mais fácil o Queiroz ser preso.

sábado, 22 de junho de 2019

AS AREIAS DO TEMPO

Minha obsessão deste fim de semana é cantora turca Melis Güven, que só canta sobre bases eletrônicas. Eu já conhecia "Zaman" ("Tempo") desde o ano passado, e agora não paro de ouvir a nova "Kum" ("Areia"). Pode ir, era só isto mesmo.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

ROLINHO PRIMAVERA


Estamos presenciando o surgimento de um novo subgênero cinematográfico: a comédia boba da Netflix. Filmes que seriam quase execráveis numa sala de cinema, mas até divertem no conforto do lar. Dizem que é o caso de "Mistério no Mediterrâneo", que eu só não vi ainda porque meu marido abomina o Adam Sandler. E também o de "Meu Eterno Talvez", que embarca na onda de "Podres de Ricos" com seu elenco quase todo oriental. A diretora Nanatchka Khan e o ator e roteirista Randall Park trabalham juntos na sitcom "Fresh Off the Boat", que não passa no Brasil mas já me fez rir muito em aviões. O longa não chega a tanto, mas tem seus bons momentos. A trama é óbvia. Namoradinhos de infância (ela é a comediante Ali Wong) se reencontram na vida adulta, e adivinha o que acontece? A melhor cena é com aquele que está pintando como o homem mais caliente de 2019: Keanu Reeves, que não só faz o papel de si mesmo como ainda tira sarro de si mesmo. Apesar de render algumas risadas, "Meu Eterno Talvez" tem aquele efeito-clichê da comida chinesa: depois de uma hora, a gente já está com fome outra vez.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

UM COMENTARISTA FANTÁSTICO

Um leitor fofo me acusou de cumplicidade na morte do Rubens Ewald Filho. Afinal, eu também defenderia a ideologia de gênero que tirou o comentarista do Oscar deste ano, fato que teria colaborado para o acidente que ele sofreu em uma escada rolante há pouco mais de um mês. Para quem não se lembra: durante a transmissão do Oscar de 2018 pela TNT, Rubens disse que a atriz trans chilena Daniela Vega "na verdade, é um rapaz". Abriram-se as portas do inferno, e o canal meio que o jogou para escanteio este ano: só comentários pré-gravados dele foram ao ar, para evitar acidentes. Eu só conhecia o Rubens de dizer oi e nunca privei da intimidade dele, então não posso dizer o quanto este episódio o afetou. Também acho que lhe faltou um teco de sensibilidade para os tempos que correm, mas a reação do tribunal da internet foi desproporcional. Eu mesmo já apanhei muito aqui no blog por usar "o travesti", algo que meu leitor fofo talvez desconheça. Não uso mais, por duas razões: 1) apesar do substantivo "travesti" ser masculino, a língua é um organismo vivo em perene mutação e blábláblá; 2) preguiça de brigar. Rubens era bem mais velho do que eu, então seu apego às antigas formulações devia ser ainda mais forte. É triste que o final de sua longa e ilustre carreira tenha sido marcado por esta derrapada. Mas é bom que agora, depois que ele se foi, seu nome ganhe ares de unanimidade. Um grande sujeito.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

FAZ TREMER TODA A RIBEIRA

Manda a Madonna de volta pro estúdio, porque a música portuguesa não para de avançar. A novidade do momento é a dupla Fado Bicha, que mereceu matéria na Ilustrada de anteontem. Hoje fui conferir o som dos gajos e adorei: o primeiro single, "O Namorico do André", é uma versão paneleira de "O Namorico da Rita", de Amália Rodrigues. Tem muito mais no YouTube deles, dando uma palhinha do que será o álbum. Já faz parte da minha trilha dessa semana do Orgulho LGBT+.

ARMINHA EMPERRADA

Biroliro se gabou de ter uma caneta mais poderosa do que todas as cinco toneladas do Rodrigo Maia. Tal artefato lhe permitiria legislar por decreto, sem passar pela chatice do Congresso, estabelecendo uma linha direta com a população. Mas não é bem assim: ontem o Senado metralhou o decreto do rearmamento, e mais pipocos devem vir da Câmara. De nada adiantaram as ameaças que alguns parlamentares receberam. Hoje tem minion mimimizando nas redes sociais, pedindo o fechamento do Congresso. É impressionante a quantidade de gente supostamente educada que não fazideia do funcionamento das instituições e achou que estava elegendo um ditador. Até o Bozo acreditou nisso, e eis aí o resultado: um tiro pela culatra atrás do outro.

terça-feira, 18 de junho de 2019

ARTISTAS EM CONSERVA

Pode ser artista e conservador ao mesmo tempo? Não, porque fazer arte é quebrar regras, é inovar. Pode menos ainda ser artista e burro. Alguém declarar apoio ao Bozo a esta altura, depois de quase seis meses de um governo patético, é sintoma de burrice em estado terminal. Mas Roberto Alvim e sua mulher Juliana Galdino passaram um recibo de estupidez ao convocar supostos artistas conservadores para um banco de dados, destinado a montar uma "máquina de guerra cultural". A única resposta possível a essa bobajada é a adesão em massa: vamos todos mandar nossos currículos para lá e infiltrar esse banco com abortistas, feministas, travestis, maconheiros  não-binários, comunistas e adeptos de sexo bizarro em geral. Ainda mais agora que a Lei Adney acabou, é a nossa chance de seguir mamando nas tetas do governo. Bora!

A FLOR PEITA O GIGANTE

Em 1989, a ditadura chinesa não teve o menor escrúpulo em promover um massacre na Praça da Paz Celestial, em Pequim, onde, havia meses, se concentravam manifestantes contra o regime. Por que não fizeram o mesmo agora, contra os milhões de pessoas que saíram às ruas de Hong Kong? Porque, antes de mais nada, seria um desastre de relações públicas. Num momento em que a China tenta se vender como uma potência benigna, que ajuda os países pobrezinhos a construir portos e estradas, pegaria muito mal uma nova chacina - ainda mais em uma ex-colônia inglesa, que culturalmente ainda faz parte do Ocidente. Segundo, porque tal repressão provocaria uma fuga de capitais. Hong Kong talvez deixasse de ser um pólo financeiro, e isto traria repercussões indesejadas para todo o sul da China. Nas últimas décadas, floresceram por lá megalópoles com Shenzhen e Guangzhou, mas Hong Kong é o centro, o esteio e a razão de ser dessa próspera região. Mesmo assim, não deixa de ser curioso ver os chineses enfiarem a viola no saco. A tal da lei que previa a deportação para o continente de criminosos da ilha tentou pegar carona num rumoroso caso de assassinato do ano passado, mas o povo de Hong Kong é gato escaldado e sentiu de longe o cheiro da tramoia. A flor que orna sua bandeira se mostrou, por enquanto, capaz de dobrar o gigante chinês. Mas por quanto tempo ainda?

segunda-feira, 17 de junho de 2019

SOLTA O PAVÃO

Educação, cultura, conhecimento, nada disso nunca foi o forte dos extremistas de direita. Até porque, se fosse, eles não seriam extremistas, n'est-ce pas? Mas a ignorância dessa manada atingiu um novo píncaro com o suposto "Show do Pavão", que agitou as redes sociais na tarde de ontem. A teoria da conspiração que garante que Jean Wyllys foi comprado por Glenn Greenwald e David Miranda cai gostosamente por terra aos pés de erros crassos de inglês, que os minions nunca estudaram direito. Mas aí já seria pedir demais de uma corja que acha que um ex-astrólogo que não concluiu o ensino médio seja um filósofo, ou que um deputado do baixo clero que passou 28 anos mamando nas tetas do governo e só aprovou dois projetos insignificantes seja a pessoa indicada para tirar o Brasil da crise.

DÓI MESMO


A única razão que justifica a França ter escolhido "Memórias da Dor" como seu candidato ao último Oscar de filme estrangeiro é o fato da história se passar no final da 2a. Guerra Mundial, quando os foram soltos os prisioneiros dos campos de concentração nazistas. Os diários de Marguerite Duras, que teve dois casos extraconjugais enquanto o marido, da Resistência, estava preso, servem de base para o roteiro - e acabam por afundá-lo, gerando um excesso de locução em off e longas passagens onde não acontece absolutamente nada. A fotografia escuríssima também depõe contra, e a participação discreta de Benjamin Biolay não compensa o esforço. "Memórias da Dor" me doeu mesmo: cansei de me mexer na cadeira, buscando uma posição.

domingo, 16 de junho de 2019

CORTEM-LHE A CABEÇA!

Biroliro é um líder execrável, sem grandeza humana nem a menor noção do que seja comandar uma equipe motivada. Sua mania de fritar em público seus próprios ministros vai custar caro: de ontem para hoje, pediram demissão o perigoso comunista Marcos Barbosa Pinto e também o sujeito que tentou infiltrá-lo no governo, o líder stalinista Joquim Levy. Tenho vontade de esfregar essa notícia na cara dos meus ex-amigos do mercado financeiro, que acharam tudo bem jogar os amigos gays no fogo porque, afinal, Paulo Guedes teria ampla autonomia para implantar a pauta liberal e transformar o Brasil numa potência econômica. A realidade é bem outra: Bozo governa feito a Rainha de Copas da Alice, aos gritos de "cortem-lhe a cabeça!" e nenhuma ideia na própria. Mas a fatura não vai demorar. Muita gente que se uniu ao Bostassauro já está se articulando para cair fora, haja vista o jantar para João Doria na casa de Paulo Marinho, no Rio de Janeiro. Até a mega-oportunista da Joice Hasselman foi.

sábado, 15 de junho de 2019

FAST FOOD DISFARÇADO DE SOUFFLÉ


As credenciais de "Greta" são impecáveis. É o primeiro longa de Neil Jordan, que dirigiu pérolas como "Mona Lisa" e "The Crying Game",  em mais de uma década. Também é um thriller estrelado por Isabelle Huppert. Mas o título genérico que o filme ganhou em português, "Obsessão", revela melhor sua verdadeira natureza: é uma obra descartável, com um roteiro que parece ter sido escrito por um comitê de computadores. Huppert empresta seu eterno ar de superioridade intelectual a uma viúva solitária que gosta de perseguir mocinhas com idade para serem seu filha. Chloê Grace Moretz, que faz uma jovem que perdeu a mãe há pouco tempo, parece a vítima perfeita. A ingenuidade da personagem até justifica alguns de seus erros óbvios, mas só até certo ponto. Moretz agora é uma mulher adulta e parruda, e bastaria um peteleco seu para nocautear sua stalker. "Greta", na verdade, é um filme rotineiro e banal, cujo diretor e elenco já fizeram coisas bem melhores. Bobo fui eu, que achei que esse Big Mac era uma iguaria.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

PRA QUÊ DISCUTIR COM MADAME


Confesso que eu estava com medo de me decepcionar com "Madame X". A princípio, eu esperava um álbum fortemente influenciado pela música que se ouve em Lisboa, cidade para onde Madonna se mudou há dois anos. Ela mesma cansou de postar vídeos onde surgia caracterizada de fadista ou curtindo um som em uma tasca na Alfama. Mas as primeiras cinco faixas divulgadas foram para outro lado. "Medellín" é gostosinha, "I Rise" e "Crave" são fofas, "Future" me fez gostar de reggae e "Dark Ballet" é a "Bohemian Rhapsody" de Madge. Mas, por melhores que sejam essas músicas, a lusofonia passa longe.

Só que o resto do disco é bem como eu queria, e até mais. Madonna canta em português o tempo todo, e os arranjos trazem guitarradas, funk carioca e até violinos da disco music setentista. O "Faz Gostoso" da Blaya, o maior hit português de 2018, agora ganhará o mundo com a ajuda de Anitta. "God Control" é sensacional, talvez minha favorita. E as letras politizadas são até um pouco óbvias, mas é um alívio não ver mais Madonna se fingindo de adolescente que brigou com o namoradinho. Pela primeira vez em anos, ela soa como o que realmente é: uma mulher inteligente, vivida, sexualmente ativa, no esplendor dos 60 anos. "Madame X" entra para o panteão dos grandes trabalhos de Madonna, ao lado de "Confessions on the Dancefloor", "Ray of Light" e "Like a Prayer".  Talvez também já seja o melhor álbum de 2019.

HOMEM À BEIRA DE ATAQUE DE NERVOS


"Dor e Glória", o novo filme de Pedro Almodóvar, é aquilo que a crítica americana chama de "flawed masterpiece": uma obra-prima imperfeita. O diretor espanhol quis produzir uma meditação sobre o envelhecimento, a solidão e a amargura. Pela primeira vez, lançou um filme claramente autobiográfico. Até o nome do protagonista é óbvio: Salvador Mallo, um quase-anagrama de Almodóvar. Mas o roteiro é meio frouxo e deixa algumas pontas soltas. Na primeira metade, há um personagem secundário que parece ser importante para a trama, um ator que encena um monólogo escrito por Mallo e o apresenta à heroína. Mas a função desse cara é só servir de escada para a chegada do ex-namorado do diretor, feito pelo argentino Leonardo Sbaraglia. Depois ele desaparece, e a droga também não acarreta maiores consquências. Mas o reencontro dos amantes é uma das melhores cenas da obra almodovariana: Banderas está simplesmente sublime, fazendo por merecer o prêmio de melhor ator que recebeu em Cannes e a indicação ao Oscar que talvez ainda receba. A outra sequência icônica é a da descoberta do desejo por Mallo ainda criança, quando ele desmaia ao ver um homem adulto nu pela primeira vez. Penélope Cruz está ótima como sempre como a mãe do protagonista, e pena que ela não tenha uma cena junto com Banderas. Almodóvar também sempre dá um jeito de incluir no elenco quem quer que seja que esteja caliente no momento na Espanha: dessa vez é a cantora de flamenco eletrônico Rosalía, que aparece lavando roupa no rio ao lado de Penélope. "Dor e Glória" talvez seja o filme mais sombrio e circunspecto da carreira do cineasta, mas tomara que não seja seu testamento artístico. A tu vera, a tu vera, siempre la verita tuya...

quinta-feira, 13 de junho de 2019

OITO A TRÊS

A criminalização da homofobia já tinha maioria para ser aprovada quando a votação foi retomada hoje no STF. Agora há pouco saiu o placar final: oito votos a favor, três contra. Não se repetiu a unanimidade que aprovou o casamento igualitário em 2011, mas, ainda assim, é uma vitória acachapante. E não se pode acusar os ministros Lewandowski, Dias Toffoli e Marco Aurélio de homofóbicos: eles também votaram a favor do casamento gay, oito anos atrás. Mas dessa vez preferiram declarar que essa competência cabe ao Congresso, que, no entanto, continua omisso. Aliás, se deixarmos para os nossos nobres deputados, a homofobia é capaz de se tornar obrigatória em todo o país. Na verdade, nenhuma religião sofrerá repressão alguma: se fôssemos ser rigorosos com todas elas, a Igreja Católica teria que ordenar mulheres, e as Testemunhas de Jeová não poderiam proibir as transfusões. Tenho até amigos gays que preferiam que o Supremo não se metesse nesse assunto, e eu respeito essa opinião. Mas sou do campo contrário, e hoje estou contente - ainda mais porque o casamento gay também foi aprovado pela Suprema Corte do Equador. Agora poderemos processar quem nos xinga!

GOL DE PEPECA

Que tal a capa do "Charlie Hebdo" desta semana? O desenho em "homenagem" à Copa do Mundo de futebol feminino, que acontece na França, está causando bafafá nas redes sociais - ça va sans dire. Muita gente achou nojenta, machista, irritante e por aí vai. Concordo (mais ou menos) com os críticos em um ponto: por que sempre se apela para o sexo quando o assunto é mulher? Por outro lado, o "Charlie" é aquele jornal que já pôs na capa o Pai, o Filho e o Espírito Santo se enrabando mutuamente. E claro que não dá para esquecer do atentado de 2015, que matou alguns de seus melhores cartunistas por causa de piadinhas com Maomé. Eu penso o seguinte: se podemos brincar com a religião, então também podemos brincar com qualquer coisa. Fora que eu faço uma leitura progressista dessa capa. Vejo o clitóris sendo comparado a um golaço. Em-po-de-ra-men-to! Pois é, je suis toujours Charlie.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

UMA FAMÍLIA BRASILEIRA

A repugnante Joice Hasselman chama David Miranda de "marido", com aspas, de Glenn Greenwald. A minionzada está chafurdando na homofobia para atacar o casal, e até circulou um vídeo de Miranda sambando sem camisa, sem perceber que isto, na verdade, conta pontos para o deputado. Mais graves são as ameaças de morte: devem ser blefe, mas o assassinato de Marielle Franco já mostrou do que os milicianos são capazes. E mais patética é a hashtag #DeportaGreenwald. O jornalista do The Intercept tem filhos brasileiros (sim, são seus filhos na letra da lei) e não seria deportado facilmente nem se tivesse cometido um crime. Mas não cometeu: só expôs a hipocrisia de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol. Pode-se até discordar das ideias políticas de Greenwald e Miranda: eu, por exemplo, estou bem mais ao centro do que eles. Mas não se pode por em dúvida o casamento dos dois, nem o fato de que tiraram dois meninos de um orfanato para criá-los com todo amor. Quem faz isto é  covarde. Mas desde quando a coragem é algo inerente aos bostominions?

terça-feira, 11 de junho de 2019

CINDERELA FLOP


Tem alguns filmes americanos que conseguem ótimas críticas, indicações a prêmios e bilheterias razoáveis, e mesmo assim não estreiam nos cinemas brasileiros. É o caso de "Oitava Série", disponível por enquanto apenas no streaming (ou em aviões - eu o vi no meu voo para Nova York). Trata-se um filme para adultos sobre a adolescência: é improvável que garotas da idade da protagonista Kayla queiram se ver desse jeito na tela. Elas preferem "Cinderela Pop". Isto não quer dizer que "Oitava Série" não seja otimista. Mas Kayla é um poço de inseguranças, e nossa vergonha alheia só aumenta quando ela grava vídeos de autoajuda para o YouTube que ninguém vê. Elsie Fisher está fantástica no papel, e concorreu ao Globo de Ouro de melhor atriz de comédia por ele. O ultracompetitivo ambiente escolar dos Estdaos Unidos funciona quase como uma casa mal-assombrada, repleta de terrores, e a gente só não sofre mais porque sabe que é só uma fase. Divertido, irônico e sem um pingo de pieguice, o longa de estreia do ex-youtuber Bo Durnham vale a pena. Até porque o diretor e a atriz irão longe.

IN-CHER-PTION

Queria muito ter visto "The Cher Show" porque, né, maricona. Mas minha agenda em Nova York estava tão corrida que o musical vencedor do Tony de melhor atriz ficou para uma próxima viagem. Pelo menos vi uma cena do espetáculo durante o ensaio e a cerimônia da premiação, quando as três Chers de diferentes idades cantam juntas e outras oito aparecem ao lado delas fazendo carão. A própria Cher não se fez de rogada e já se juntou algumas vezes a suas avatares da Broadway. Aí em cima temos as quatro cantando juntas no programa do Jimmy Fallon. E, logo abaixo, a original visita suas cópias no teatro e todas cantam juntas outra vez. É Cher dentro da Cher cercada por Cher acima da Cher. Até o ponto em que o mundo inteiro será composto por Chers, inclusive você e eu.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

TONY WENT TO THE TONYS

Estou fechando a mala em Nova York. Volto hoje à noite para São Paulo. A mala vai leve, não comprei quase nada. Mas a cabeça ainda está processando o turbilhão de informações dos últimos dias. Fui duas vezes ao Metropolitan Museum, abri a exposição de Burle Marx no Jardim Botânico e hoje ainda conferi a Bienal do museu Whitney. Também subi no Vessel: 16 lances de escada, cada um com 14 degraus. Revi dois amigos queridos. Fui a dois shows da Broadway. Participei de uma mesa-redonda transmitida pelo Facebook. Jantei no Sardi's, o lendário restaurante dos artistas. Andei a Hih=gh Line todinha. E ontem dediquei o dia inteiro aos Tony Awards. Fui ao ensaio geral de manhã e à cerimônia de entrega à noite, ambos no Radio City Music Hall. Depois teve uma festa no ex-hotel Plaza, hoje um flat mas ainda grandioso. Vou contar detalhes de tudo isso na minha coluna de quarta no F5, não "perda". E mesmo com uma agenda tão cheia, sinto que não fiz anda. Por mais tempo que se passe em Nova York, sempre sobra um bilhão de coisas por fazer. Como, por exemplo, subir ao novo World Trade Center. Já estou sonhando com minha próxima visita a essa cidade que até dorme, mas não acaba nunca.

DESMORONAMENTO

Não tem hacker nenhum. É praticamente impossível interceptar mensagens enviadas pelo Telegram - não é à toda que é o aplicativo favorito do Estado Islâmico e de outras organizações terroristas. Foi alguém do círculo íntimo de Sergio Moro, provavelmente um membro do grupo, quem vazou as conversas comprometedoras do ex-juiz com procuradores. A pergunta de um milhão de dólares: por que? Para acabar com suas chances de virar ministro do STF? Para sabotar, três anos antes, sua possível candidatura à presidência da República? Tenho amigos petistas que estão radiantes, achando que Lula vai ser solta e ainda indenizado. Não é bem assim: não há nada que inocente o ex-presidente. Só indícios cada vez mais fortes de que Moro não agiu com imparcialidade - o que, de resto, não foi surpresa para quase ninguém. Mas isto abalará a popularidade do ministro da Justiça? Entre os bolsominions, não. Essa turma não tem o menor respeito pelas instituições e acha lindo que um juiz aja de acordo com suas preferências políticas (contanto que bata com a dela, claro). A dúvida é como Moro fica entre os antipetistas moderados, que jair-estão-se-arrependendo. Vai desmoronar?

domingo, 9 de junho de 2019

TRANSBORDANDO DE ORGULHO


Fui ver meu segundo musical dessa temporada. Era uma matinê, e metade do teatro estava tomada por um público que não é tão frequente na Broadway: negros. Um pessoal que tem vindo em massa prestigiar o espetáculo sobre os Temptations, o grupo masculino de rhythm'n'blues de maior sucesso de todos os tempos. "Ain't Too Proud" tem uma montagem enganadoramente simples, sem cenários físico, mas com um uso inteligente de telões, esteiras e palcos giratórios - toda a glória da tecnologia. A trilha reúne todos os hits do grupo e mais uns tantos da gravadora deles, a lendária Motown. Mas o que me chamou a atenção mesmo foi a energia masculina em cena. O elenco tem só quatro mulheres ao lado de 15 homens e no final eles surgem todos de terno e gravata, dançando com testoterona. As coreografias são complicadíssimas e o clima reinante no teatro lembrava o de uma igreja no Harlem: muito aplauso em cena aberta, muito grito, e no final a plateia toda de pé, algo bem raro fora do Brasil. "Ain't Too Proud" na verdade contradiz o próprio título, porque é um musical que celebra a cultura negra com todo orgulho possível. Justíssimo, aliás.

sábado, 8 de junho de 2019

BURLEMARXISMO CULTURAL

Abriu hoje, no Jardim Botânico de Nova York, uma grande exposição em homenagem a Roberto Burle Marx. Peguei o metrô para o Bronx e fui conferir logo de manhã. É de cair o queixo: a peça de resistência é um jardim tropical percorrido por um calçadão que evoca o de Copacabana. Quanto tempo levou para que as plantas todas crescessem e ficassem deslumbrantes? Também há uma estufa com muitas espécies brasileiras e de outros países que Burle Marx gostava de usar, inclusive algumas que levam seu nome. Além de um espelho d'água com plantas aquáticas e muitas plaquinhas com códigos QR, que fazem seu celular tocar música brasileira ou levam a testes tipo "que planta mais combina com você?" Para terminar, há uma pequena mostra do trabalho de Burle Marx como artista visual (ele fazia quadros, tapeçarias e litogravuras) e uma recriação do ateliê em seu sítio fluminense. Fiquei orgulhosíssimo de ser seu conterrâneo, mas também preocupado: o Brasil de hoje está entregue a uma idiocracia, empenhada em destruir o que sobrou do nosso meio ambiente. Como que um país que gerou um ecologista como Burle Marx desceu a esse ponto?

MUDANÇA DE GÊNERO


Uma das melhores comédias dos anos 80 virou um dos musicais mais engraçados de todos os tempos. A versão de "Tootsie" em cartaz na Broadway me fez rir alto, algo que não vem fácil para um sujeito blasé como eu. O roteiro do filme foi adaptado para os tempos que correm e está sensível a questões como o empoderamento feminino. A maior parte da ação também não se passa mais nos bastidores de uma novela de TV, mas nos ensaios de... um musical da Broadway. Mas o essencial continua lá: Michael Dorsey, um ator temperamental que gosta de brigar com os diretores, não consegue emprego de jeito nenhum. Aí ele descobre que há um papel para o qual não estão encontrando a pessoa certa; faz o teste e passa. Só que, claro, é um papel de mulher. E para isto ele tem que se tornar uma atriz de meia-idade da qual ninguém nunca tinha ouvido falar, Dorothy Michael. Segue-se muita confusão, com Michael/Dorothy se apaixonando por uma colega de elenco, e um outro colega de elenco se apaixonando por Dorothy/Michael. Tudo isso ao som de músicas memoráveis e atores fabulosos, dos quais quatro estão concorrendo ao Tony. Um deles é barbada: Santino Fontana faz a gente se esquecer de Dustin Hoffman, inclusive porque canta maravilhosamente bem nos dois gêneros. Acho que desde "Xanadu", há mais de dez anos, eu não me divertia tanto num musical.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

MUSICAL THEATRE IS NOT FOR SISSIES

Hoje de manhã eu participei, aqui em Nova York, de uma mesa-redonda animadíssima sobre teatro musical. Estavam lá o coreógrafo colombiano Sergio Trujillo, o ator mexicano Mauricio Martínez, a jornalista mexicana Susana Moscatel e o youtuber brasileiro Igor Saringer. Discutimos durante mais de meia hora a presença de latinos na Broadway (Trujillo e Martínez fazem carreira aqui) e a paixão que todos temos pelos musicais. É um gênero teatral tão puxado que Martínez até nos contou o bon mot que dá nome a esse post: teatro musical não é para mariquinhas. A íntegra da conversa pode ser vista aqui, neste vídeo na página do canal Film & Arts no Facebook. Vá deslumbrar-se com o meu espanhol.

DARK BALLET

Eu sempre sonhei em entrevistar a Madonna. Iria perguntar sobre suas influências e preferências atuais. Também contaria que a acompanho desde 1983 e que tenho todos seus álbuns. Ela me reconheceria como mais do que um fã: como um igual, alguém de quem ela poderia ficar amiga para sempre. Me convidaria para jantar e até para eu gravar um feat. com ela. Claro que se eu realmente pudesse conversar com ela aconteceria a mesma coisa que está se passando com Vanessa Grigoriadis, a repórter do "New York Times" que escreveu um longo artigo chamado "Madonna aos 60". Ela passou dias com a cantora em Londres, quase entrou em sua intimidade e a cobre de elogios em seu texto, de resto muito bom. Madonna odiou, claro. Foi ao Instagram dizer que se sentiu "esuprada" (um termo que ela usa para qualquer contrariedade que sofre) e que "morte ao patriarcado", porque, né? A real é que Madge é uma control freak desde sempre. E ter uma jornalista independente escrever o que quiser sobre ela, sem o crivo de um assessor de imprensa, deve ser crime de lesa-majestade em sua cabeça. Eu venero Madonna, mas perdi quase toda a vontade de me aproximar dela. Não tenho mais saco para essa dança macabra que ela faz com a imprensa.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

SINÔNIMO DE VIADAGEM


Lembra do Met Gala do mês passado? A festa também marca a abertura da exposição anual do departamento de vestuário do museu, sempre com o mesmo tema da festa. Que, em 2019, é o camp: um termo que a imprensa está pagando um dobrado para explicar para os leitores héteros, quando poderia simplesmente o sinônimo mais conhecido, "viadagem". A grande Susan Sontag escreveu em 1964 um ensaio que ficou famoso, "Notes on Camp", onde definia o termo como a artificialidade, o exagero, a cafonice transada. Mas é só viadagem mesmo, como fica claro desde o começo da mostra. Lá estão estátuas de Antínoo e retratos do Cavaleiro d'Eon, que viveu como mulher a segunda metade de sua vida. Também há registros do surgimento da palavra "camp" no pajubá inglês do século 19 - sim, já havia um mundinho gay naquela época. Acho que sempre houve. Somos antediluvianas.
Mas "Camp: Notes on Fashion" é, antes de mais nada, uma exposição de moda. Depois da intordução, o que tem é vestidos e mais vestidos, um mais divino, escandaloso e deslumbrante do que o outro (tirei muitas fotos e postei no meu Instagram, vai lá). Tem Saint-Laurent, Gianfranco Ferré, Moschino, Viktor & Rolf e muita coisa vintage - algumas, vitorianas. Tudo ao som de, claro, Judy Garland, quem mais? Senti falta de stage clothes de Madonna e Lady Gaga, sacerdotisas do camp, mas tá valendo. A ausência delas foi compensada por um remix de nove minutos do vídeo de "Deep in Vogue" do Malcolm McLaren, um ano mais velha que o "Vogue" da Madge. No YouTube só tem a versão normal, mas não falta viadagem. "Camp" fica em cartaz até 8/9: quem vier a NY não pode perder.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

TONY GOES TO THE TONYS

Há anos que eu venho ameaçando com um processo a American Theatre Wing pelo uso indevido da marca. Como assim, os prêmios da Broadway têm o meu nome e eu não recebo um dólar de royalties? Não importa que os Tony Awards existam desde 1947: eu quero a minha parte em dinheiro. Mas vou ter que me contentar só com uma viagem mesmo. A convite do canal Film & Arts, embarco daqui a pouco para Nova York, para cobrir a entrega dos Tonys no domingo à noite. Serão cinco dias intensos, com pouco tempo livre e muitas entrevistas com gente de teatro, culminando com a cerimônia no Radio City Music Hall. Ainda estou me beliscando, mas não com muita força que é para não acordar.

O PRAZER DE SE ESPATIFAR

Eu sei que está ficando monótono, porque todo dia o Mijair comete pelo menos uma barbaridade. Até pensei em não comentar as mudanças que ele propôs para o Código Nacional de Trânsito, mas consegui passar batido. A mais grave é não obrigar mais sua claque de caminhoneiros a fazer exame toxicológico: o uso de rebites e afins vai explodir, os acidentes irão aumentar e, mais cedo ou mais tarde, morreremos todos nas ferragens. Também vai ter bebê batendo a cabecinha e morrendo porque não estava na cadeirinha, bêbado atropelando velhinha e geral se arrebentando por aí. Ah, mas quer saber? Que se fodam. A única coisa que importa é o prazer de dirigir. Mais nada. O tiozão do churrasco que ocupa o Palácio do Planalto não tem nenhuma visão de estado mais sofisticada do que aliviar as próprias multas e as de sua família, talkei?

terça-feira, 4 de junho de 2019

ESCROTIDÃO TEM CURA?

Rodrigo Duterte se declarou várias vezes como favorável aos direitos LGBT. O presidente das Filipinas disse que pensava em legalizar o casamento igualitário em seu país, que precisava ter homossexuais em seu ministério e que até já havia pensado em se tornar bissexual, "para ter mais opções". Mas, de uns tempos para cá, o proto-ditador deu para trás. Surfando uma onda de alta popularidade por causa da bonança econômica, Duterte pôs em prática o que Mijair ameaça fazer por aqui: saiu matando a torto e a direito, em nome do combate ao narcotráfico. Muitos inocentes pereceram, mas a população ignorantona achou lindo. As Filipinas também são um país de maioria católica, herança da colonização espanhola, e a viadagem em geral não é bem vista por lá. Para agradar a esse eleitorado carola, Duterte soltou esta semana que foi gay um dia, mas que havia se "curado". Really? Isso aí tem cheiro de manobra diversionista: não duvido nada que estejam para surgir fotos comprometedoras, que Duterte esteja tentando neutralizar a priori. Também é prova do caráter dúbio do mandatário, um dos porta-estandartes da onda de escrotidão política que varre o mundo de hoje.

SANDUÍCHE DE PEPINO


Nunca li nada de J. R. R. Tolkien. Assisti à toda trilogia do "Senhor dos Anéis" no cinema e gostei bastante, mas nem isso me animou a encarar os livros. Aquele mundo povoado por personagens chamados Legolas ou Galadriel sempre me pareceu uma bobagem colossal. Mudei um pouco de ideia quando me viciei em "Game of Thrones', um descendente direto das sagas tolkenianas. E acabei indo ver a cinebiografia "Tolkien", quase uma "história de origem" do escritor. Mas quem for esperando grandes emoções irá se decepcionar. O Ronald do filme (como ele era chamado pelos colegas de escola) é um rapaz polido, muito interessado em aprender gótico antigo e com um grande sentido de lealdade aos amigos. O roteiro reforça que a Irmandade do Anel é baseada em seu grupinho no colégio, e que a experiência traumática nas trincheiras da 1a. Guerra Mundial serviram de inspiração para as batalhas de seus futuros romances. Mas tudo isso é fervido em fogo baixíssimo, e o sabor resultante lembra o dos sanduíches de pepino servidos no chá das cinco.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

BALANÇANDO A ZORRA TODA

Gostar de mulheres não é nenhuma novidade entre as cantoras brasileiras, mas elas quase sempre foram muito discretas. Na década de 1980, Angela Ro Ro deu uma descarrilada na própria carreira ao dar piti em público e escancarar que havia levado um pé de Zizi Possi. De lá para cá, tivemos Ana Carolina se declarando bissexual até assumir o namoro (já terminado) com a atriz Letícia Lima, Daniela Mercury exibindo sua mulher Malu Verçosa para todo o universo e diversos outros casos de famosas de vários quilates revelando que gostam de pegar mulher. Mas o caso de Ludmilla é único: não me lembro de outra cantora nacional, no melhor momento de sua carreira, admitir com tamanha tranquilidade que está de cacho com outra moça. No caso, a bailarina Brunna Andrade, que faz parte da trupe da artista há dois anos. "Ãin, mas ela está querendo se promover", vão dizer os homofóbicos disfarçados. É bem provável: Ludmilla está lançando o álbum/DVD ao vivo "Hello Mundo" e precisa de toda mídia que for possível. Mas não é sensacional termos chegado ao ponto em que admitir publicamente uma relação homossexual faz bem à carreira de alguém?

Para além dos interesses comerciais, acho que este episódio revela um fenômeno importante. A mulherada - principalmente as que são donas do próprio nariz e que não dependem de homem para nada - está cada vez mais confortável em dispensar o sexo masculino e namorar entre si. É bom esses machões tomarem tento na vida, porque estão se tornando obsoletos. E é exatamente por causa dessa mudança de paradigma que vemos o patriarcado reagir no mundo inteiro, de Donald Trump a Rodrigo Duterte ao Mijair. Vão conseguir? Duvide-o-dó.

UM REAÇA A MENOS

Eu nunca tinha ouvido falar do tal do MC Reaça até me deparar com o tuíte do Biroliro lamentando a morte do cantor. Até aí, o nível do meu desconforto foi suportável: é sempre triste alguém morrer com apenas 25 anos, e é natural que um político mande condolências à família de um de seus apoiadores. Também não tive surpresa nenhuma ao ler as letras do Reaça (não tive coragem de ouvir as músicas), que repassam a ideia, popular entre a extrema-direita, de que as feministas são sujas e peludas. Mas meu estômago virou quando eu soube que Tales Volpi Fernandes, que era casado, espancou a amante quando soube que essa estava grávida. Depois se enforcou, deixando um bilhete pedindo para que a esposa ajude a criar o filho da outra. É muita covardia junta: um sujeito desses não merece a menor homenagem. Aliás, já vai tarde. MC Reaça parece um retrato acabado do boçalnarismo. E pensar que o Bozo não soltou um pio sobre os dois inocentes metralhados pelo Exército no Rio, no começo de abril...

domingo, 2 de junho de 2019

VACAS GORDAS, VACAS MAGRAS


Será que as gerações atuais conhecem O Gordo e O Magro? Eu vi muitos filmes da dupla quando criança, tanto na TV quanto em sessões que os cinemas promoviam nos domingos de manhã. Hoje em dia, não encontro Stan Laurel e Oliver Hardy em lugar nenhum. Só no filme "Stan & Ollie”, que pulou os cinemas brasileiros para estrear direto no sob demanda. O roteiro foca em dois momentos da carreira da dupla. O primeiro é quase um prológo e se passa em 1937: os dois estão no auge, trabalhando sem parar e ganhando menos do que merecem. No segundo, em 1953, os anos de glória ficaram para trás, e eles tentam agitar as coisas em uma turnê pela Grã-Bretanha. Mas já não são tão populares quando antes, e Ollie tem sérios problemas cardíacos. Não há muito mais trama do que isto, mas o que salta aos olhos é a amizade entre os dois. Foi um feliz casamento profissional, cheio de amor e respeito mútuo, e durou mesmo até que a morte os separasse. Essa love story heterossexual é bem contada por Steve Coogan e John C. Reilly (que foi indicado ao Globo de Ouro de ator em comédia). Outra que se sobressai no elenco é a inglesa Nina Arianda, como a esposa russa de Stan. Olho nela.

sábado, 1 de junho de 2019

OUR SONGS


Que delícia que é o filme do Elton John. Mesmo com o protagonista sofrendo de rejeição e/ou depressão quase o tempo todo, "Rocketman" é esfuziante, colorido e cheio de soluções inventivas. Ajuda muito o fato de Elton ainda estar firme e forte. Saímos do cinema sem aquele travo amarguinho do "Bohemian Rhapsody". O diretor aqui é o mesmo que entrou para salvar o filme do Queen depois que Byran Singer foi demitido: Dexter Fltecher, que pode fazer toda uma carreira só dirigindo cinebiografias de rockstars. Até porque "Rocketman" é um musical propriamente dito, com os clássicos do repertório da tia entrando fora de ordem cronológica, mas no momento dramático apropriado. E os números são sensacionais, com Taron Egerton fazendo um Elton bem mais sexy que o original. Aliás, como muito já se disse, não faltam sexo e drogas, ao contrário de "BoRhap". Quem não gostar de musicais nem de Elton não precisa nem passar na porta: "Rocketman" é para os fãs de ambos. É "gostoso feito um bolo" - foi assim que Ana Maria Bahiana descreveu o álbum "Captain Fantastic" em 1975, e suas palavras ficaram na minha cabeça desde então. As canções de Elton John também fazem parte da minha vida, embora eu nunca tenha sido fanático por ele (e nunca o vi no palco, que falha no meu currículo). Na verdade, são canções de todos nós. Nossa trilha.