terça-feira, 23 de abril de 2019

O PRIMEIRO SUTIÃ RELOADED


Em 1987, um comercial da Valisère se tornou um marco na história da publicidade brasileira. "O Primeiro Sutiã" foi a primeira vez que a propaganda de lingerie assumiu um ponto de vista feminino. Até então, a roupa íntima era quase sempre anunciada como uma arma de sedução. O que interessava era agradar os homens. O filme criado por Rose Ferraz e Camila Franco, sob a direção criativa de Washington Olivetto, virou esse conceito de ponta cabeça. Ganhou uma tonelada de prêmios, trocentas paródias e uma repercussão duradoura. Seu mais recente reflexo está aí acima: uma variante do roteiro original, com uma menina trans como protagonista. Aplausos generalizados? Pois eu gostei médio da ideia, e menos ainda da execução. Acho para lá de delicado falar em transição de gênero em menores de idade. Claro que toda pessoa trans vai confirmar que já era do outro gênero desde que nasceu, e não há porque duvidar disso. Mas existem estudos que indicam que, de cada cinco crianças que dizem preferir ter nascido com outro sexo biológico, só uma faz transição de gênero na fase adulta. O comportamento infantil deve ser tolerado, claro, mas os pais não podem decidir que Julinho é Julieta só porque ele gosta de se vestir de princesa. Depois Julinho cresce e muda de ideia, e aí? De qualquer forma, o filme da produtora Madre Mia para a Antra (Associação Nacional de Transexuais e Travestis) prega a inclusão e a tolerância. Mas também pesa a mão: a cena do pai gritando "nããão!" é indigna até mesmo das novelas mexicanas, e a dublagem não é das mais perfeitas (o comercial foi rodado na Argentina). Tem cara de filme semi-fantasma para ganhar prêmio em festival, o que não é crime. Mas exala um certo aroma de oportunismo.

10 comentários:

  1. O Mio Babbino Caro
    Cabe às Trans apontar aonde o calo dói. Lindo e poético o filme creio ser mais inverossímil o pai presentear a filha Trans com o primeiro sutiã do que ter um surto e gritar não não ao constatar "seu filho" como mulher Trans.

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  2. Não é um comercial, Tony. Não no sentido explícito de que quer vender algo. É mais um filme de divulgação da associação de trans e travestis. Concordo que não é lá muito bem feito, mas há de concordar que por se tratar de algo baseado em fatos reais, consegue passar a mensagem. Tá valendo!

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    1. Você não é publicitário, né? É sim um comercial, no sentido de que quer vender uma ideia (ou mesmo angariar doações para a Antra). Há categorias específicas para este tipo de filme (como os publicitários chamam os comerciais nas internas) nos grandes festivais de propaganda, como Cannes.

      E, para quem já trabalhou no meio, surge a suspeita de que a ideia surgiu antes do cliente. Alguém pensou no roteiro e só depois foi procurar a Antra, que não deve ter desembolsado um tostão pela produção. Em casos assim, aliás, é comum agência e produtora trabalharem de graça. O que elas querem é visibilidade - e prêmios.

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  3. Poderia ser incrível, mas a cranastrice do pai acabou tornando tudo tão cafona... Que ator ruim, chama o Cigano Igor, please!

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  4. maldade sua, publicitários, oportunistas? naonde?

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  5. Não caberia processo da Valisère (isso ainda existe?) ou da W Brasil (idem?) pelo plágio gritante, Tonya?

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    1. Caberia se fosse uma ação escancaradamente comercial e todo mundo estivesse de má vontade. Como é para uma ONG sem fins lucrativos, está mais para homenagem.

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  6. Você tocou num ponto tão delicado... me incomodou muito ver uma criança estrelando o comercial. Ver um menino (não por causa do gênero, mas uma criança de 11 anos do sexo masculino) ganhando um sutiã, me cortou o coração. O filme é ruim e piegas...foi duro passar por todos aqueles intermináveis minutos... e fiquei mals com o final. Queria ter ficado com um gosto de "celebração da diversidade / empatia / respeito", mas fiquei com dor no coração, imaginando o que é uma criança passar por isso. Fiquei com dó, fiquei com um sentimento ruim. E fiquei mal comigo mesma por sentir isso.

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