domingo, 21 de abril de 2019

CALDO MÁGICO

Ontem à noite, finalmente tomei ayahuasca (ou daime) pela primeira vez, e foi uma experiência bem diferente da que eu esperava. Não tive alucinações. Não vi elefantinhos verdes nem divindades do Antigo Egito. O sabor também me surpreendeu. Achei quase gostoso. Uma espécie de suco V8 com algum tempero amargo. O orientador explicou que era um mix mais brando, e que quem quisesse poderia tomar uma segunda dose. Claro que eu quis, mas só ganhei meio copo a mais: ele sabia que era a minha primeira vez. Estávamos em um galpão amplo nos arredores de Cavalcante, deitados em colchonetes ao redor de um fogareiro. Éramos umas 16 pessoas, inclusive uma menina de 10 anos acompanhada pela mãe. Foi uma cerimônia religiosa do começo ao fim, com incenso, música e imagens sagradas espalhadas pelo ambiente. A onda - ou "borracheira"- levou pouco mais de uma hora para bater. Lembrou um pouco a do ecstasy. Senti frio, sono e um peso na barriga. Me cobri com um cobertor, fechei os olhos e comecei a ver padrões geométricos cada vez mais complicados. Sempre em moiré, como no gif aí em cima: as imagens um pouco fora de registro, e as cores mudando o tempo todo. Aos poucos, formas se destacavam do fundo, se misturavam entre si e viravam uma outra coisa, completamente diferente da original. Memórias visuais antiquíssimas começaram a pipocar, como se alguém estivesse revirando o baú do minha mente. Páginas de livros de ciências que eu vi quando tinha oito anos. Propagandas antigas. Objetos não-identificados. Mas, ao abrir os olhos, o mundo ainda estava lá, igualzinho ao que sempre foi. Depois de um tempo, saí do galpão e me sentei numa cadeira do lado de fora, contemplando o céu nublado de uma noite de lua cheia. O luar ainda baixo dava uma sensação de quase dia. A música, instrumental até então, virou um discurso que misturava palavras de Jesus e do Baghwan Shree Rajneesh. Eu olhava para o céu e via linhas conectando tudo, mosaicos, gráficos. Meu cérebro insistia em ligar pontos e dar feições humanas a buracos nas nuvens. Senti que aquele véu gasoso que nos cobria era Deus - o céu que nos protege. Sentia Deus em tudo, mas não vi entidades. Só a lua, que apareceu resplandecente dentro de um quadrado que se abriu na cobertura nublada. Linda, plena, parecia o olho de Sauron, mas em versão benigna. Depois o torpor aumentou e voltei a me deitar. Minha consciência parecia ter se dividido em pelo menos três partes. Uma delas delirava, vendo desenhos repetitivos, como um papel de parede "fleur de rocaille" ou uma obra de Escher. Uma outra parte permanecia totalmente lúcida, analisando tudo o que eu via e sentia. A terceira dormia. Não é errado dizer que eu sonhava acordado. Mas havia desconforto físico, sim: um frio cada vez mais intenso e uma baita dor no estômago, que parecia ter levado uma porrada. O efeito se dissipou relativamente rápido, estimulado por luzes acesas e canções mais agitadas. O povo todo se levantou, alguns veteranos dançaram e cantaram. As letras das músicas começaram a me irritar... Finalmente, senti vontade de ir ao banheiro. Fui três vezes. O pessoal com quem eu estava não quis ficar para o lanche que sucede a cerimônia, e fomos embora. Achei ótimo. Preferia comer em casa - só pão, arroz e queijo, sem a menor vontade de carne. Dormi esquisito, sem profundidade, e acordei com uma pontinha de dor de cabeça. Cheguei à conclusão óbvia de que essa trip hippie-mística-brasileira não tem muito a ver comigo. Quero tomar o daime de novo? Quero, mas não tão já.

16 comentários:

  1. existe energia sexual...em algum momento?

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    1. Para mim, não. Nem aquela fofura típica do ecstasy, que dá vontade de abraçar todo mundo.

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    2. Pela sua descrição lembra mais cogumelos mesmo, daqueles que vende nas lojinhas em Amsterdam. É tipo uma experiência sensorial, mas nãõ necessariamente uma coisa pra te deixar loka e dançando com os bracinhos para cima.

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  2. O Mio Babbino Caro
    Numa viagem dessa ver "novas obras" de
    Escher deve ser algo interessante.

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  3. As minhas foram parecidas. Muita cor nos visuais! Parecia uma rave! hehe..

    Mas achei anti-climático. Falavam tanto da tal da "borracheira" (se bem que sem falar nada) que achei que ia ser A experiência.

    Mais ou menos. Brasileiro é muito bicho-grilo. Sou mais "cibernético".

    (extraterrestre néééaaaammmm...)

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  4. Cd aquele anônimo que disse que vc se descobriria mulher?
    Kkkkkkkkkkkk

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    1. Leia atentamente o que eu disse. Isso foi na TERCEIRA sessão. A primeira é praticamente uma água de chuca, porque eles não conhecem a sua capacidade de resistir ao veneno (porque no fundo é isso mesmo, um veneno) e eles tem medo de te matar etc. Daí se vc não tiver convulsão nem nada do gênero, eles te dão mais um golinho só para te dar um barato e justificar a grana que vc gastou. Uma segunda sessão (que no caso dele aparentemente não vai ocorrer) é onde você tomaria um pouco mais e começaria a descobrir a real da coisa. E na terceira, o útero grita.

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    2. Tá explicado porque eu cortei fora o pênis na minha.. Achei que era só eu mesma!

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  5. Fico imaginando sentar em um vaso sanitario com 16 pessoas com diarreia e vomito!?!

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    1. Tem gente que PAGA para isso.

      Hollywood TÁ CHEIO deles!!

      (Fazem aqueles dois do caranaval do Mijair passarem vergonha!)

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    2. O lugar tinha um banheiro grande, com vários reservados, todos imaculadamente limpos. E os veteranos não o usaram para nada.

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  6. Santo Dai-me é uma coisa tão séria... Mas as bichas rycas acham que é aquela coisa do século passado chamada rave e só vão pq é hype (outra coisa do século passado) ou pq ouviu dizer que aquela celebridade do cinema cult tb toma. Tô fora dessa modinha entre o povo cult que fica comparando ayahuasca com ecstasy! O buraco é mais embaixo.

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  7. Aí meu Deus! To numa bad muito grande com esse gangster no poder, assassinato de vereadora negra sem solução é o número de assassinatos que só aumenta todo ano. Affe, não dá nem pra comer a pontinha de um cogumelo.

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    1. 'A minha alucinação
      É suportar o dia a dia
      E meu delírio
      É a experiência
      Com coisas reais'
      (Belchior)

      G-

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  8. É mais ou menos a descrição de todas as drogas enteogênicas: daime, DMT, 2CB, o próprio LSD...

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  9. Frequentei o Céu de Maria, do cartunista Glauco, na época vivo. Tive experiências muito fortes e um grande encontro comigo mesmo... Há 12 anos não vou lá... mas tenho saudades.

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