terça-feira, 30 de abril de 2019

CARACAOS

Parece que vamos dormir sem saber quem está ganhando na Venezuela. Desconhece-se o paradeiro de Juan Guaidó. Leopoldo López de fato pediu refúgio (mas não asilo) na embaixada do Chile, mas não está mais lá. E Nicolás Maduro só se manifestou pelo Twitter: não fez pronunciamento na TV, o que é bastante estranho para um ditador que está clamando vitória. Afinal, quantos militares mudaram de lado? Eu disse várias vezes aqui que o chavismo descambaria para um banho de sangue, mas Deus me livre de ver minha profecia realizada. A Venezuela não aguenta uma guerra civil: sua economia está pior que a da Síria, conflagrada desde 2011. E eu não aguento ver fascistoides fingindo que defendem a democracia nas redes sociais, nem esquerdopatas denunciando mais um "golpe". Onde já se viu, defender regime que joga tanque contra sua própria população?

LEVANTE NO CAMPO


Sobibor parece o nome de uma boate para bibas, mas na verdade foi um campo de concentração nazista onde aconteceu um levante, seguido por uma fuga. Cerca de 400 pessoas conseguiram escapar, e umas 100 não foram recapturadas nem mortas. Esse episódio dramático da 2a. Guerra Mundial é o tema de "Sobibor", o filme que representou a Rússia no último Oscar. Pena que a realização não esteja à altura do assunto: depois de "Filho de Saul", ficou difícil para o cinema abordar o Holocausto de uma maneira criativa. A direção burocrática faz com que as muitas cenas de tortura doam até no espectador, e a catarse demora muito para aocntecer. Mesmo não sendo um passeio no parque, "Sobibor" é uma aula de história. Também é um lembrete de como o homem pode ser cruel.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

VÍTIMAS DE ASSÉDIO

Quinta-feira passada eu participei de uma live nos estúdios da rádio Jovem Pan, aqui em São Paulo. Paula Carvalho, Amanda Garcia, João Guimarães e eu comentamos sobre as séries da Globoplay, durante uma transmissão ao vivo pelo YouTube. Mas o vídeo só saiu no sábado, por uma razão peculiar: as cenas de "Assédio" chamaram a atenção do robozinho da Globo, que nos bloqueou. Como não estávamos pirateando nada (na verdade, eu só falei bem do programa), fomos liberados. E aí, gostou da minha performance? E da minha camisa?

VOX ABAFADA

Copo meio vazio: até ontem, a Espanha era o único grande país europeu que não tinha representantes da extrema-direita em seu parlamento. Agora tem 24, eleitos pelo partido Vox. Copo meio cheio: as pesquisas apontavam que o Vox conquistaria até 29 cadeiras. Não chegou a tanto, provavelmente por causa do comparecimento de 75% dos eleitores às urnas - o maior desde 2004. Analistas políticos apontam que foi o medo do avanço do fascismo que tirou tanta gente de casa. A Espanha passou quatro décadas sob o jugo do Generalíssimo Franco, e não parece disposta a repetir a experiência tão cedo. Somada à vitória razoável do PSOE, esses dados me levam a crer que começou o refluxo do nacionalismo reacionário. Vamos acabar de encher esse copo?

domingo, 28 de abril de 2019

INTELIGÊNCIA AMPUTADA

Mijair não é só preconceituoso e ignorante: é burro também, incapaz de ligar os pontos entre causa e efeito. Outro dia ele se chocou, com razão, ao saber que milhares de brasileiros precisam amputar o próprio pênis todos os anos. Por causa do câncer que, em muitos casos, é facilitado pelo acúmulo de sujeira entre prepúcio e glande (a circuncisão é rara no país). O problema se resolveria com água, sabão e um pouco de informação. Mas o próprio Biroliro sugeriu que os pais rasgassem as páginas sobre educação sexual da Caderneta da Saúde do Adolescente, publicada durante o governo Dilma, porque lá tem desenhos de pirocas e pepecas. E assim o obscurantismo se eterniza, pois evanjas e olavetes acham que aprender a cuidar do próprio corpo é coisa de demônio ou comunista. De resto, é impressionante a obsessão do Bozo com as partes pudendas e os fluidos corporais.

IRMA VAPT-VUPT

Vi duas vezes "O Mistério de Irma Vap" com Marco Nanini e Ney Latorraca. A primeira foi em 1986, logo depois da estreia. A segunda, muito anos depois, já com meu marido, lá por 91 ou 92. A peça permaneceria em cartaz até 1997, sempre com casa cheia. Só acabou porque os atores não aguentavam mais. Em 2008, Marília Pera reprisou sua direção com Marcelo Médici e Cássio Scapin, mas essa eu perdi. Só reencontrei Pav Amri agora, na "releitura" de Jorge Farjalla. É visível - e louvável - o esforço do diretor para se afastar de uma montagem que marcou a história do teatro brasileiro. A nova "Irma" é mais colorida, com um cenário completamente diferente e mais quatro atores/contrarregras em cena. Mas a maior diferença, é claro, é o elenco. Luís Miranda deita e rola nos papéis que eram do Neyla, e chega a imitá-lo no final. Mateus Solano, para quem está habituado a vê-lo em dramas, é uma revelação. Sem intervalo e com duas horas de duração, o espetáculo passa a jato, quase tão rápido quanto as famosas trocas de roupa. Uma grande brincadeira, que celebra o ofício do ator e o teatro como um todo.

sábado, 27 de abril de 2019

O REI DO STORYTELLING

Quem acompanha este blog sabe que eu nunca fui lulista. Cansei de meter o pau no ex-presidente e em sua sucessora Dilma Roussef. No ano passado, só votei em Fernando Haddad no segundo turno por uma razão prosaica: #EleNão. E tenho cá com meus botões que Lula é corrupto SIM, pois não é possível que um propinoduto como o que drenou a Petrobrás seja montado sem a anuência do presidente da República. Mas também está cada vez mais evidente que sua condenação pelo caso do triplex no Guarujá foi, no mínimo, apressada, para tirá-lo do páreo no ano passado. E, mesmo não aderindo ao #LulaLivre, me condoo com o sofrimento de Lula nos últimos tempos: a perda de entes queridos, a penúria financeira, a prisão em Curitiba. Há momentos emocionantes na longa entrevista que ele deu à Folha e ao El País. Também tem barbaridades: quando instado a fazer uma autocrítica, Lula diz que se arrepende de não ter regulamentado os meios de comunicação (i.e., enquadrado a mídia, como o chavismo fez na Venezuela). Mas o que mais me impressionou foi a consistência do discurso. Eu sou um aficionado do storytelling, e Lula domina a técnica como poucos. Adotou uma narrativa épica há muitas décadas, e se mantém absolutamente fiel ao personagem que criou. Duvido, no entanto, que essa narrativa vingue novamente: Lula jamais voltará ao poder. Mas sua "jornada do herói" merece ser estudada em detalhes, e não só pelos historiadores.

DOCFLIX


Chega uma hora em que a gente se cansa de série sobre um crime hediondo que abala uma pacata cidadezinha. Exaustos de tanta ficção parecia, meu marido e eu demos uma chance à não-ficção. Nas últimas semanas, assistimos a três minisséries documentais na Netflix, todas muito boas. A mais espetacular é "Nosso Planeta", a primeira incursão da plataforma em uma seara que parecia exclusiva da BBC e do Discovery: os documentários sobre a natureza. A produtora é a mesma de títulos como "Planeta Terra" e "Planeta Azul", e até a narração em off é de Sir David Attenboorugh (a quem eu conheci pessoalmente em fevereiro, em Liverpool, no BBC Showcase). Claro que há um certo dejà-vu: quantos programas sobre bichos se comendo uns aos outros são possíveis de se ver? Mas os drones e o HD abriram uma nova fronteira no gênero. As imagens tiram cada vez mais fôlego, as cores são cristalinas e há, de fato, muita cena inédita - que tal uma onça caçando um jacaré, ou golfinhos fugindo de baleias? A mensagem ecológica de "Nosso Planeta" não é nova, mas continua urgente. Agora quero ver como "One Planet, Seven Worlds", a série de que eu vi uma palhinha em Liverpool - e que foi feita pelas mesmíssimas pessoas, inclusive o fofo do Sir David - consegue fazer diferente (e melhor). Estreia no final do ano.


Sou fã da Christiane Amapour desde o começo dos anos 90, quando ela despontou na CNN. Foi para lá que ela rodou "Amor e Sexo ao Redor do Mundo", cujos seis episódios estão disponíveis na Netflix. Cada um deles foca em uma cidade diferente: Tóquio, Delhi, Beirute, Berlim, Accra e Shanghai. Faltou uma na América Latina, mas quem sabe numa segunda temporada? Amanpour entrevista os locais, sempre com viés feminista, e descobre coisas incríveis, como um bar de gueixas masculinos voltado para as japonesas solitárias (ou que só querem desabafar). Os hábitos conjugais dessas culturas são muito diferentes, e eu fiquei com vontade de fazer algo parecido no Brasil. Fique ligado.


Tentamos ver "Império Romano" na primeira temporada, mas achamos um docudrama didático demais e meio pobrinho. A terceira safra, no entanto, nos fisgou: é a história de Calígula, o terceiro imperador, um maluco sanguinário de dar inveja ao Carluxo. São só quatro capítulos, e até que a produção não é das mais mambembes. Também ajuda o fato do ator sul-africano Ido Drent, que interpreta o monarca, aparecer bastante sem camisa. A violência e a putaria não chegam aos pés do infame longa semi-pornô de 1979, mas quem quiser entender um pouco mais do passado remoto vai gostar.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

HUMANAMENTE IMPOSSÍVEL

E pronto, já estamos com saudades de Ricardo Vélez Rodríguez. A proposta do novo ministro da Educação, Abraham Weintraub, de cortar investimento nos cursos federais de ciências humanas, é alguma vezes pior do que cantar hino e hastear bandeira. A justificativa usada transpira ignorância: o governo deveria investir apenas em cursos que dão "retorno imediato ao contribuinte", como se esta fosse a função primordial de uma universidade pública. Mas o que está por trás dessa ideia é muito mais perverso: é podar o senso crítico da sociedade e impedir que se formem cidadãos que pensem por si mesmos. Todo mundo tem que ser "técnico", bitolado e tão tiozão do pavê quanto o Biroliro, que não consegue ler nem teleprompter. Entre as muitas consequências inesperadas, este governo desmiolado está me dando ganas de aderir à luta armada. Partiu guerrilha?

DE MAIA A PIOR

Eu confesso: nunca tinha ouvido falar do Carlinhos Maia até ele se assumir gay, uns meses atrás. Quando li a manchete pensei "que legal, um influenciador dando exemplo para a garotada", mas mudei de ideia quando li o texto da notícia. O rapaz é um equivocado: diz que os héteros nunca insistiram para ele sair do armário, ao contrário do que ele chama de "ditadura gay" - um termo que até nossos inimigos vêm deixando de usar. Como que Carlinhos não pensou um segundo que os HTs não têm o menor interesse em que ele se assuma, mas as guei sim? Cada famoso que se revela homossexual incentiva mil anônimos a fazer o mesmo, e a romper o círculo de hipocrisia que nos rodeia. Agora Carlinhos está de casamento marcado, mas também não é um casamento gay: é a "união de dois caras". Em sua argumentação, o vlogueiro alega que não é casamento porque não tem a ver com igreja - ah, e o meu por acaso tem? Francamente. Pelo menos a internet não deixou barato, e o mancebo está levando uma surra de Twitter por sua homofobia encravada. Vamos dar um desconto pela idade tenra - Carlinhos Maia tem só 24 anos - e desejar felicidades aos noivos. Vamos desejar também que a juventude tenha exemplos mais fortes e coerentes em quem se espelhar, porque nunca precisamos tanto como agora.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

HOJE É DIA DE HOMOFOBIA, BB

Agora é assim: temos um presidente incapaz e atordoado, que acha que vai nos distrair da sua incapacidade proferindo atrocidades. Só hoje foram duas. No café da manhã com jornalistas, Biroliro disse o seguinte: "Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade. Agora, não pode ficar conhecido como paraíso do mundo gay aqui dentro." Não pode por quê? Por acaso o pink money vale menos? Além de extravasar sua homofobia, o Bozo ainda endossou o turismo sexual, contanto que seja com mulheres - talvez meninas? Não contente, à tarde o despreparado não só mandou o Banco do Brasil tirar do ar o comercial acima, cheio de comunistas defendendo a ideologia de gênero, como também demitir o diretor de marketing da instituição. Mais uma vez, parabéns a todos os meus ex-amigos gays que votaram nesse verme. Pelo menos não é o PT, talkei?

(leia mais sobre este assunto na minha coluna de hoje no F5)

COQUELUXO

O governo está dodói. Pegou uma doença infantil, que deveria estar erradicada e para a qual já existe vacina há muito tempo: a olavite. O vetor zero dessa infecção oportunista é o nosso querido Carluxo, que se acha um gênio do mal, mas mal dispõe das primeiras letras. Seus tuítes desconjuntados são constrangedores de se ler, e sua estratégia de tocar o terror à toa só desvela sua imaturidade e sua paúra de gente mais competente. Tudo isso seria muito engraçado, se o despreparado do Bozo Pai não substituísse os projetos que nunca teve pelos delírios dos Bozo Filhos. Mijair não sabe encarar um teleprompter, então é improvável que ele tenha lido um livro de Olavo de Carvalho, tão grosso e cheio de palavras difíceis. Mas sua prole leu, e aderiu à ideologia destrambelhada do ex-astólogo da Virgínia, que nunca havia sido aplicada em lugar nenhum. Agora vem sendo, nos ministérios da Educação e das Relações Exteriores, e o resultado está aí: um desastre completo e inimaginável, em duas pastas fundamentais. As vítimas da olavite acham que são a ponta-de-lança de uma revolução populista, que eliminará os intermediários e entronizará um líder autoritário e sua descendência por muitos séculos. Esquecem que, para isto, precisam de verdadeiro apoio popular - e este só vem depois de alguns sucessos, não de lacração nas redes sociais. As centenas de milhares de bolsominions (aposto que não chegam a um milhão) não bastam nem para o cheiro, e a popularidade em queda do ex-mito deveria acender um sinal de alerta no Planalto. Duvido que isto aconteça: Carluxo já msotrou que seu caso é grave, ao trocar a senha do Twitter do papi e nem avisá-lo (o mais incrível é que todos ficamos sabendo disso). De uma maneira enviesada, fico otimista. Essa turminha do barulho está armando altas confusões, e não tem a disciplina ou a esperteza política de um Orbán ou de um Erdogan para dinamitar as instituições e se eternizar no poder. Ainda bem.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

A CURA DE CÁRMEN

Impliquei muito com Cármen Lúcia enquanto ela foi presidente do STF. Cheguei a apelidá-la de Covárden Lúcia quando ela livrou a cara do Aécio Neves, no final de 2017, e perdeu a oportunidade de mudar o rumo da história do Brasil. Mas hoje a ministra se curou. De uma canetada, ela invalidou a decisão do juiz de Brasília que abria uma brecha para que clínicas de cura gay se instalassem no Brasil. Nenhum psicólogo sério defende a "terapia de reorientação sexual": só os que se dizem cristãos, mas que na verdade têm parte com o demo. Com esse gesto, a sanha mercenária de pastores que querem lucrar com a ignorância dos fiéis continuará represada, e Cármen Lúcia dá uma guaribada em sua biografia. Agora ainda falta curar o Dias Toffoli, que tá ficando doidinho.

HOMOFOBIA DEPILADA

O pastor-deputado Marco Feliciano já disse algumas vezes que a homofobia é caracterizada pela violência física. Dessa forma, pode ofender as guei, negar atendimento, expulsar do condomínio ou demitir só porque é homossexual. O que não pode é bater. Por causa de declarações como essa, fico com os três pés atrás quando leio que o Infeliciano irá capitanear um projeto de lei que criminaliza a homofobia no Brasil. Segundo a coluna de hoje da Monica Bergamo, a legislação preservaria a "liberdade de consciência e religiosa". Até aí, zuzo bem: a lei anti-homofobia do Canadá também tem esse tipo de salvaguarda. Na melhor das hipóteses, a bancada evangélica quer se adiantar ao julgamento do Supremo, e prever penas brandas para quem tacar pedra em bicha. Na pior, a definição de homofobia será tão vaga, mas tão vaga, que nada irá se encaixar nela, e a violência física contra os LGBTQ+ irá aumentar. Fiquemos de olho.

terça-feira, 23 de abril de 2019

ACABOU A RUANEY

De todas as fake news espalhadas pela extrema direita brasileira, a mais bem-sucedida foi a que destruiu a imagem da Lei Rouanet. Os terroristas virtuais conseguiram inculcar na cabeça de muita gente que a lei - um dos muitos mecanismos de financiamento à cultura brasileira - era só uma maneira do PT comprar apoio entre a classe artística. Vi um meme que dizia que Chico Buarque teria recebido 13 milhões de reais dos cofres públicos, o que é uma mentira de cabo a rabo. Poucos entendem como funciona a renúncia fiscal. Menos ainda encaram a indústria cultural como uma indústria, que gera mais empregos do que as indústrias farmacêutica ou têxtil. Tampouco se divulga que praticamente todas as áreas da economia recebem incentivos fiscais, e a cultura está entre as que menos recebe. Aliás, você sabia que o gasto em pensões para filhas solteiras de militares equivale ao dobro do que a Rouanet arrecadou em 2018? Fora que ter um projeto aprovado pela lei não significa que ele vá conseguir arrecadar nada. Tá assim de ideias legais que jamais saíram do papel, porque nenhuma empresa se interessou. Sim, quem decide onde investir são as empresas ou as pessoas físicas, não o governo, e é delas que sai o dinheiro, não dos cofres públicos. "Ãin, mas era dinheiro que era para ter virado imposto..." ADORO que nessas horas a extrema direita defende os impostos, mas vamos lá: também há estudos que os impostos gerados pela indústria cultural superam em muito o que deixou de ser arrecadado pela lei. Ou seja, todo mundo sai ganhando. Mas o Biroliro encara a cultura como inimiga (com razão, by the way) e vai fazer tudo o que estiver ao seu alcance para calá-la. É só para isso que a Rouanet foi desidratada, comprometendo seriamente inúmeros projetos. Também estou convicto de que ela mudou de nome por uma razão bem prosaica: o Bozo nunca conseguiu pronunciar direito "Rouanet". Uma palavra quase tão difícil quanto "Netanyahu".

O PRIMEIRO SUTIÃ RELOADED


Em 1987, um comercial da Valisère se tornou um marco na história da publicidade brasileira. "O Primeiro Sutiã" foi a primeira vez que a propaganda de lingerie assumiu um ponto de vista feminino. Até então, a roupa íntima era quase sempre anunciada como uma arma de sedução. O que interessava era agradar os homens. O filme criado por Rose Ferraz e Camila Franco, sob a direção criativa de Washington Olivetto, virou esse conceito de ponta cabeça. Ganhou uma tonelada de prêmios, trocentas paródias e uma repercussão duradoura. Seu mais recente reflexo está aí acima: uma variante do roteiro original, com uma menina trans como protagonista. Aplausos generalizados? Pois eu gostei médio da ideia, e menos ainda da execução. Acho para lá de delicado falar em transição de gênero em menores de idade. Claro que toda pessoa trans vai confirmar que já era do outro gênero desde que nasceu, e não há porque duvidar disso. Mas existem estudos que indicam que, de cada cinco crianças que dizem preferir ter nascido com outro sexo biológico, só uma faz transição de gênero na fase adulta. O comportamento infantil deve ser tolerado, claro, mas os pais não podem decidir que Julinho é Julieta só porque ele gosta de se vestir de princesa. Depois Julinho cresce e muda de ideia, e aí? De qualquer forma, o filme da produtora Madre Mia para a Antra (Associação Nacional de Transexuais e Travestis) prega a inclusão e a tolerância. Mas também pesa a mão: a cena do pai gritando "nããão!" é indigna até mesmo das novelas mexicanas, e a dublagem não é das mais perfeitas (o comercial foi rodado na Argentina). Tem cara de filme semi-fantasma para ganhar prêmio em festival, o que não é crime. Mas exala um certo aroma de oportunismo.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

BRUNEI TERRORISTINHA

O Brunei é uma aberração. É um país artificial, criado pelos britânicos pela mesma razão que surgiu o Kuwait: a riqueza em petróleo. Tanto um quanto outro poderiam fazer parte de seus vizinhos maiores (Malásia e Iraque, respectivamente), mas os colonizadores acharam que seria mais fácil manipulá-los se fossem independentes. O resultado está aí: Sadam Hussein invadiu o Kuwait em 1991, dando início à Geurra do Golfo e prenunciando a ocupação de seu país pelos EUA, mais de uma década depois. O Brunei não chega a tanto, mas apronta das suas de vez em quando. É uma monarquia absolutista, e o sultão bilionário não está nem aí para seu povo miserável. Ou está, um pouquinho: ele resolveu adotar uma interpretação radical da sharia, a lei islâmica, para agradar ao clero e à plebe crente. A legislação inclui o apedrejamento de homossexuais. A grita ao redor do mundo está grande, e George Clooney convocou um boicote aos hotéis que pertencem ao sultão (entre eles está o Príncipe di Saboia de Milão, onde me hospedei em fevereiro - eu não sabia de nada, juro!). Hoje o Brunei teve o desplante de enviar uma carta à União Europeia pedindo “tolerância, respeito e entendimento” aos valores tradicionais do país. Parece os evanjas que clamam pela "liberdade religiosa" de exercer a homofobia. Enfim, pau no cu do Brunei: o boicote merece todo apoio. Fora que o petróleo acabará em 50 anos e esse paiseco do mal retornará ao estado pantanoso que continua sendo em espírito.

PER AMOOORE

"Minha mãe sempre defendeu a democracia e existe uma consciência em tudo o que ela faz. Politicamente, ela é coerente", disse Gabriela Duarte ao ser abordada por um repórter do UOL durante uma apresentação do Cirque du Soleil. Eu teimo em discordar: se fosse coerente, Regina Duarte lembraria que três dos personagens mais importantes de sua carreira foram escritos por autores que tiveram problemas com a censura, e não correria a visitar o Mijair nem a apoiá-lo explicitamente. Muito menos cairia nessa engabelação da extrema direita e pediria o fechamento do STF, a antítese da democracia. Entendo que Gabriela fique ao lado da mãe por amor, mas tem coisas que Regina disse que são simplesmente imperdoáveis. Como, por exemplo, a homofobia do Bozo ser "da boca pra fora". Então tudo bem? E se fosse racismo da boca pra fora? Tálkei ofender um negro, contanto que não se bata nele? Gabriela reclama que Regina está sendo "patrulhada". Está mesmo, porque não tem cabimento uma atriz com esse currículo e essa experiência de vida falar barbaridades. Patrulhe você a sua mami, Gabriela, por amor a ela.

domingo, 21 de abril de 2019

CALDO MÁGICO

Ontem à noite, finalmente tomei ayahuasca (ou daime) pela primeira vez, e foi uma experiência bem diferente da que eu esperava. Não tive alucinações. Não vi elefantinhos verdes nem divindades do Antigo Egito. O sabor também me surpreendeu. Achei quase gostoso. Uma espécie de suco V8 com algum tempero amargo. O orientador explicou que era um mix mais brando, e que quem quisesse poderia tomar uma segunda dose. Claro que eu quis, mas só ganhei meio copo a mais: ele sabia que era a minha primeira vez. Estávamos em um galpão amplo nos arredores de Cavalcante, deitados em colchonetes ao redor de um fogareiro. Éramos umas 16 pessoas, inclusive uma menina de 10 anos acompanhada pela mãe. Foi uma cerimônia religiosa do começo ao fim, com incenso, música e imagens sagradas espalhadas pelo ambiente. A onda - ou "borracheira"- levou pouco mais de uma hora para bater. Lembrou um pouco a do ecstasy. Senti frio, sono e um peso na barriga. Me cobri com um cobertor, fechei os olhos e comecei a ver padrões geométricos cada vez mais complicados. Sempre em moiré, como no gif aí em cima: as imagens um pouco fora de registro, e as cores mudando o tempo todo. Aos poucos, formas se destacavam do fundo, se misturavam entre si e viravam uma outra coisa, completamente diferente da original. Memórias visuais antiquíssimas começaram a pipocar, como se alguém estivesse revirando o baú do minha mente. Páginas de livros de ciências que eu vi quando tinha oito anos. Propagandas antigas. Objetos não-identificados. Mas, ao abrir os olhos, o mundo ainda estava lá, igualzinho ao que sempre foi. Depois de um tempo, saí do galpão e me sentei numa cadeira do lado de fora, contemplando o céu nublado de uma noite de lua cheia. O luar ainda baixo dava uma sensação de quase dia. A música, instrumental até então, virou um discurso que misturava palavras de Jesus e do Baghwan Shree Rajneesh. Eu olhava para o céu e via linhas conectando tudo, mosaicos, gráficos. Meu cérebro insistia em ligar pontos e dar feições humanas a buracos nas nuvens. Senti que aquele véu gasoso que nos cobria era Deus - o céu que nos protege. Sentia Deus em tudo, mas não vi entidades. Só a lua, que apareceu resplandecente dentro de um quadrado que se abriu na cobertura nublada. Linda, plena, parecia o olho de Sauron, mas em versão benigna. Depois o torpor aumentou e voltei a me deitar. Minha consciência parecia ter se dividido em pelo menos três partes. Uma delas delirava, vendo desenhos repetitivos, como um papel de parede "fleur de rocaille" ou uma obra de Escher. Uma outra parte permanecia totalmente lúcida, analisando tudo o que eu via e sentia. A terceira dormia. Não é errado dizer que eu sonhava acordado. Mas havia desconforto físico, sim: um frio cada vez mais intenso e uma baita dor no estômago, que parecia ter levado uma porrada. O efeito se dissipou relativamente rápido, estimulado por luzes acesas e canções mais agitadas. O povo todo se levantou, alguns veteranos dançaram e cantaram. As letras das músicas começaram a me irritar... Finalmente, senti vontade de ir ao banheiro. Fui três vezes. O pessoal com quem eu estava não quis ficar para o lanche que sucede a cerimônia, e fomos embora. Achei ótimo. Preferia comer em casa - só pão, arroz e queijo, sem a menor vontade de carne. Dormi esquisito, sem profundidade, e acordei com uma pontinha de dor de cabeça. Cheguei à conclusão óbvia de que essa trip hippie-mística-brasileira não tem muito a ver comigo. Quero tomar o daime de novo? Quero, mas não tão já.

sábado, 20 de abril de 2019

ALECRIM E MIRRA

Essa estadia está sendo uma viagem iniciática. Ontem, no início da noite, participei de uma meditação junto com o grupo com que vou tomar ayahuasca hoje. Depois preenchi uma longa ficha, com todos os calmantes e psicotrópicos que eu NÃO tomo. É quase um exame psicoténico, para provar que não sou esquizofrênico. Agora de manhã teve o batizado do Tomás, o segundo neto do meu marido (e meu também, já que ele me chama de vovô Tony). Não foi na igreja nem com padre: chamamos a mesma xamã que batizou a Aurora quatro anos atrás, e fomos todos para um riacho perto da casa onde estamos hospedados. A sacerdotisa usou alecrim, como da outra vez, e também uma novidade: mirra, um dos três presentes que os Reis Magos levaram para Jesus, que eu nem sabia que era uma planta. Mas o cheiro é conhecido: é de igreja. Próxima etapa: um almoço leve, para não passar vexame logo mais.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

NOBODY CARES

Pela terceira vez na vida, estou em Cavalcante, no norte de Goiás, em plena Chapada dos Veadeiros. Vim passar a Páscoa com minha enteada, os netinhos e mais um monte de parentes. Cheguei ontem à tarde debaixo de chuva, depois de um voo de SP para Brasília e mais 300 km de estrada. Em compensação, logo depois surgiu um arco-íris imenso, completo (e, na verdade, duplo: mas o segundo, por cima do primeiro, era claro demais para sair na foto). Aproveitei a oportunidade para encarnar o Bob Esponja, e entendi como uma manifestação de boas-vindas da natureza. Porque este sábado vou fazer algo especial: com a lua cheia em Libra, experimentarei ayahuasca.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

PODE SER A GOTA D'ÁGUA


Eu não tinha idade para ver a primeira montagem de “Gota d’Água”, um monumento da cultura brasileira na década de 70. Mas lembro de ler muito a respeito e ficar curioso: a peça de Paulo Pontes e Chico Buarque traz para a favela carioca o mito grego de Medeia, a mulher que trama contra o ex-marido a vingança mais terrível de todos os tempos. Bibi Ferreira, que já era uma atriz consagrada, galgou mais alguns degraus rumo à glória como Joana, a versão carioca da maior bitch da Antiguidade clássica. O impacto foi tão grande que, talvez por isto,  “Gota d’Água” tenha demorado tanto tempo para ser remontada. Mas finalmente foi, e de uma maneira que não compete com a memória do original. “Gota d’Água (a Seco)” é uma versão de câmara do primeiro espetáculo. Sumiram todos os coadjuvantes, restando só os dois protagonistas em cena: Joana (Laila Garin) e seu amado Jasão (Alejandro Claveaux), muitos anos mais novo do que ela e que acaba de trocá-la pela filha de um homem poderoso. O contraste entre eles seria mais nítido se a diferença de idade entre os atores fosse gritante, mas ambos dão mais do que conta do recado. Alejandro é lindo e canta direitinho, mas Laila é dona de uma das vozes mais potentes surgidas no Brasil recentemente. O diretor Rafael Gomes transformou a peça, que já tinha algumas músicas, em um musical para valer, enxertando canções que Chico Buarque compôs em outros contextos, mas que se encaixam na trama com perfeição. Há três anos em cartaz pelo país, “Gota d’Água (a Seco) acaba de reestrear em São Paulo para uma temporada de pouco mais de um mês no Teatro Porto Seguro. Quem nunca tinha visto esse marco – tipo eu – tem agora mais uma chance.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

SENTINDO FRIO EM MINH'ALMA


"Ayka" venceu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes do ano passado e esteve entre os nove pré-finalistas do último Oscar de filme estrangeiro, representando o Cazaquistão. É de fato bom, mas é só para masoquistas. Em uma hora e 40 minutos, o roteiro condensa cinco dias angustiantes na vida da personagem-título, uma imigrante cazaque que faz trabalhos degradantes em Moscou. A primeira cena já é uma porrada: Ayka simplesmente foge pela janela de uma maternidade, depois de ter dado à luz um bebê. Talvez elas devesse ter ficado lá, pois sua vida lá fora é um horror. Cobradores ameaçam machucá-la se ela não pagar logo uma dívida; o dono da pensão onde mora também quer os aluguéis atrasados; a polícia está sempre no encalço dos trabalhadores ilegais; e a pemrissão de trabalho de Ayka venceu faz um ano, o que a impede de aceitar até os empregos mais horrendos. Tudo isso sob um frio tremendo, com a cidade coberta de neve. O interessante é que a protagonista não é uma mártir, nem um exemplo de luta e coragem. Ela tenta fugir de suas responsabilidades, mas o longa de Sergei Dvortsevoy não a julga. A atuação contida de Samal Yeslyamova também é admirável, e só explode no final. Quem estiver num dia bom pode ir ver "Ayka", mas sabendo que irá sofrer. Quem não estiver, melhor ler jornal, que é mais leve.

O INIMIGO AGORA É OUTRO

A esquerda se refestelou com o artigo do José Padilha publicado pela Folha nesta quarta. Pouco mais de um ano depois da primeira temporada de "O Mecanismo", o diretor reconheceu que errou ao confiar em Sergio Moro. O então juiz serviu de modelo para o personagem de Selton Mello na série, mas não é de agora ele demonstra que não é incorruptível. Moro, que já havia pisado no tomate algumas vezes ao longo da Lava Jato, aceitou ser ministro da Justiça na esperança de primeiro aprovar aseu pacote contra o crime e, depois, tornar-se ministro do STF ou até presidente da República. Para iso, como Padilha bem mostra em seu texto, Moro engole sapos gigantescos e faz de conta que não vê as ligações do clã Mijair com as milícias cariocas. Setores mais estridentes agora exigem que Padilha "corrija" a primeira temporada de "O Mecanismo", mas eu estou mais curioso para ver o que ele fará na segunda. O cineasta de "Tropa de Elite" é um bicho raro no Brasil: não é macaca de auditório de ninguém, pois põe a ética acima da ideologi.

terça-feira, 16 de abril de 2019

O AMIGO DO AMIGO DA ONÇA

É senascional a estratégia do Dias Toffoli para ninguém ficar sabendo que ele foi apontado por Marcelo Odebrecht como sendo "o amigo do amigo do meu pai". O presidente do STF fez com que seu colega Alexandre de Moraes mandasse a revista online Crusoé e o site O Antagonista retirarem do ar a matéria que apenas relatava os fatos. Moraes acabou agindo como o Amigo da Onça. Graças a essa absurda censura, agora MUITO MAIS GENTE está lendo o artigo e sabendo que Odebrecht apontou o dedo para Toffoli. O pior é que o Supremo acaba dando munição aos seus inimigos, num momento em que até a Regina Duarte clama pelo fechamento da nossa mais alta corte. Mas, agora, está difícil defender esses ministros. E está fácil contrariá-los: basta ler aqui a matéria censurada, que foi republicada pelo Intercept Brasil.

OS MONSTROS TAMBÉM AMAM


E se os neanderthais ainda vivessem entre nós? Teriam os mesmos direitos que os sapiens? Essa questão existencial me assombra desde a adolescência e toma forma em "Border", o representante da Suécia na disputa pelo último Oscar de filme estrangeiro.  A protagonista Tina, a bem da verdade, não é uma mulher pré-histórica: está mais para um troll, uma criatura do folclore sueco que hoje se disfarça de bolsominion. Tina trabalha na alfândega de um porto e está sempre identificando os contrabandistas: seu olfato apuradíssimo, uma característica neanderthal, percebe que ela fareje o medo. Um belo dia ela ajuda a capturar um traficante de pornografia infantil. Também conhece um homem com suas mesmas características físicas (inclusive a cicatriz de um rabo nas costas), e aos poucos se envolve com ele. Essas duas tramas se misturam, mas o resultado fica aquém do prometido. Mas "Border" vale a pena pelo simples fato de que não se parece com nada. Ah, sim, e os neanderthais teriam os mesmos direitos que nós.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

FÓSSEIS VIVOS NÃO SÃO BEM-VINDOS

O Museu de História Natural de Nova York é um lugar sagrado para a ciência e famoso por suas ossadas de dinossauros. Não fazia mesmo o menor sentido que esse santuário recebesse um jantar em homenagem a Bolsonaurus Minimus, um réptil antediluviano que escapou de extinção. O Bozo é um notório inimigo do conhecimento, haja vista os cortes que vêm fazendo nas pesquisas e seu apoio aos evanjas criacionistas. Que a Câmara de Comércio Brasil Estados-Unidos realize seu rega-bofes anual em local mais apropriado, tipo a sede da Ku Klux Klan. O mais legal é que, depois desse cancelamento e das críticas do prefeito Bill De Blasio ao presidente brazuca, já tem minion convocando boicote a Nova York pelas redes sociais. Isso mesmo, garotada, asustem a cidade mais importante do mundo com a fúria das suas hashtags.

NOSSA SENHORA DE TODOS NÓS

Certa vez, há muitos anos, fiz uma excursão de dia inteiro à Catedral de Chartres, a cerca de 90 km de Paris. É uma obra-prima da arquitetura gótica e um ds mais belos templos do mundo. Alguns dias depois, voltei à Catedral de Notre-Dame, na capital francesa, que eu já conhecida de outras viagens. E caí para trás. Que mané Chartres, que nada.  Talvez o Duomo de Milão seja até mais bonito por fora, mas nada se compara ao interior da igreja que serviu de palco para o romance entre Quasímodo e Esmeralda. Por isto, hoje estou rezando a todos os deuses para que este incêndio horroroso acabe logo e poupe muita coisa. Também acredito que tenha sido só um acidente, e não um atentado islâmico, como já tem afobado urrando nas redes sociais (Jesus e Maria são venerados no Islã). Porque a Notre-Dame, dada sua importância histórica, sua beleza icônica e sua presença na cultura popular, não é só de Paris. É do mundo inteiro, e é de todo mundo.

domingo, 14 de abril de 2019

A PONTE DOS SUSPIROS


Nunca vi o "Suspiria" do Dario Argento, um clássico do terror dos anos 70 que dizem ser um delírio psicodélico. Mas li que Luca Guadagnino acrescentou muita coisa em seu remake que não constava do original. Referências ao nazismo, ao Baader-Meinhof e até um personagem novo - um psicanalista idoso que só um tapado não percebe que é feito pela Tilda Swinton. Nenhuma dessas novidades melhor a história em si, que já não era grande coisa: mocinha americana entra para uma companhia de balé em Berlim e descobre que são todas bruxas. Ponto. Guadgnino tenta racionalizar o que era uma experiência estritamente sensorial, e só traz complicações desnecessárias. Logo ele, que fez filmes quase táteis de tão sensuais como "Eu Sou o Amor" e "Me Chame pelo Seu Nome". Portanto, deixe o cérebro de lado e se entregue a essa doideira. Tilda está fabulosa como um arremedo de Pina Bausch, coadjuvada por um elenco cheio de grandes atrizes europeias de uma certa idade. E Dakota Johnson mostra que tem muito mais do que 50 tons em seu repertório. "Suspiria" marca um desvio de rota na obra guadagniana. Vamos ver se ele continua por essa ponte ou se logo retorna às tramas intensas em mansões elegantes.

sábado, 13 de abril de 2019

OH MY MY MY

O K-Pop me pegou. Desde ontem que eu ouço sem parar "Boy With Luv", do BTS feat. Halsey. É pop pré-fabricado em estado puro, com as mesmas propriedades nutricionais do algodão doce sabor banana enlatado que eu comprei no mercado coreano. Também estou fascinado com a viadagem generalizada: eles sequer fingem, e as mina pira. O vídeo, inclusive, para no exato momento em que vão tirar a roupa e começar uma suruba. Mas é de uma energia contagiante, e é disso que eu preciso neste fim de semana do Songkran, o réveillon tailandês. Para quem não liga o nome à pessoa: a primeira lua cheia da primavera no hemisfério norte marca o início da estação das chuvas por lá, e as pessoas comemoram jogando água umas nas outras no meio da rua. Em 2018 eu festejei em Chiang Mai e foi um chuá.  Portanto, jogue água em quem você ama, e feliz ano novo.

A DOR DO JEAN

Eu tentei ver a entrevista do Jean Wyllys ao Pedro Bial na madrugada de quinta para sexta, mas soçobrei. A Globo inventou uma porra de "Festival Zorra", e o resultado é que esta semana o "Conversa Bial" entrou no ar quando o primeiro galo já estava cantando. Só hoje consegui assistir ao programa, e não foi uma experiência agradável. A dor do Jean transborda da tela. Se eu mal aguentei ver até o fim, não consigo nem imaginar o que ele passou nos últimos anos, quando até gays supostamente esclarecidos o transformaram em saco de pancada. O próprio Jean quer entender a sua estranha trajetória , de vencedor do "BBB 5" em 2005 a inimigo público no. 1 em 2018. É surpreendente como as fake news espalhadas pelo Bozo colaram com facilidade nele. É como se aquela turma que não gosta de assumir a própria homofobia só estivesse esperando uma mínima justificativa para deixar aflorar seus preconceitos - no caso, a alegação de que Jean é pedófilo e/ou defende a pedofilia, uma calúnia a céu aberto. Ainda acho que muito do que aconteceu com ele foi por decorrência de sua aparência: magro, baixinho, sem se enquadrar nos padrões vigentes, Jean Wyllys tem o physique du rôle do garoto que apanha de todo mundo do colégio (seu suplente David Miranda, que é atlético, bonitão e pai de família, deve escapar da mesma sina). Temos uma dívida eterna com Jean Wyllys, e ele deve ser recebido com fanfarra e tiara de flores quando voltar ao Brasil. Talvez algum dia o mereçamos outra vez.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

PRIMINHO TÁ BEM?

Fernando Haddad foi ou não foi homofóbico? Acho a questão complexa e interessante. A primeira coisa que me salta aos olhos é a vontade do PT de emular a agressividade da extrema direita nas redes sociais. O paritdo gastou muito tempo e dinheiro treinando suas tropas virtuais, que foram pulverizadas sem deixar traço pelo rolo compressor dos bolsominions. Mas vamos ao cerne da pergunta. É válido jogar esta carta na mesa? Depende. Se o Carluxo for um gay enrustido, não vale. Ninguém merece ser arrancado à força do armário. Com uma única exceção: se o Carluxo for homofóbico, sua hipocrisia precisa ser exposta à luz do dia. Mas aí entram duas variantes. A primeira: o 02 é gay mesmo? Temos fotos sugestivas, declarações de apreço e muita fofocaiada, mas falta aquilo que o Agildo Ribeiro chamava de "fotocópia da bunda". Eu não posso dizer por a+b que o Carluxo seja do Vale, não tenho provas definitivas (alguém aí tem?). A segunda variante: Carluxo é homofóbico? O 03 nós sabemos que é, pois já fez campanha nas redes dizendo que todo pedófilo é gay e vice-versa. Já o 02 tem um bonito discurso defendendo a diversidade, em uma das poucas vezes que ele abriu a boca na Câmara de Vereadores do Rio. Mas a família como um todo é pré-medieval, e jamais um de seus membros discordou do outro em público. Carluxo pode ser acusado de homofobia por osmose? Alguém aí teria um exemplo dele atacando as guei? De qualquer forma, é meio desalentador ver um homem refinado como Haddad se rebaixando ao nível de seus oponentes. E aí surge uma outra questão: será que a única maneira de derrotar a boçalidade é se tornar um boçal também?

quinta-feira, 11 de abril de 2019

VIVA A LIBERDADE DE OFENDER

escrevi sobre o assunto no F5, mas vou me estender por aqui. Estou surpreso com a quantidade de gente boa que está festejando a condenação do Danilo Gentili a quase sete meses de cadeia, em regime semiaberto. Não que eu seja fã do cara: acho um escroto de marca maior. A voz mais representativa da classe média jovem, branca, heterossexual e direitista. Na verdade, se fosse só isso, tava bom: o problema é que Gentili joga seus seguidores contra seus desafetos (contra mim foram duas vezes), e um dia alguém pode se machucar de verdade. Mas, por enquanto, foram só ofensas dignas da quinta série. Acho até razoável a Maria do Rosario entrar na Justiça, mas querer calar Gentili à força é coisa digna do regime... cubano. Ou do nazista, que era de direita. No frigir dos ovos, não dá para torcer para que só nossos adversários paguem caro por seus crimes. Esta pena desproporcional abre o precedente para que, amanhã ou depois, o Carluxo consiga prender alguém que faça piadas sobre ele e o Leo Índio, alegando que lhe ofenderam a honra e coisa e tal. Mais ponderação e menos punitivismo, pessoal: a liberdade de expressão envolve, sim, uma certa liberdade de ofender. Se todo mundo só proferisse delicadezas, ela nem seria um direito necessário.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

DONIRENIS TARGARYEN

A gente mal se recuperou do áudio do Seu Armando -  que não é fake, é arte - e já tem um novo meme nas paradas. É este comercial da rede de supermercados Queiroz, do Rio Grande do Norte. A Danaerys é feita pela humorista dona Irene, a garota-propaganda da marca. Vou comprar pro meu bichinho.

A VERDADE VEM À TONA


Ontem a Folha promoveu em São Paulo uma sessão especial de "Boy Erased - Uma Verdade Anulada". Como se sabe, o filme tinha sua estreia no Brasil prevista para janeiro. Chegou a ter trailer legendado e poster nos cinemas, mas a Universal cancelou o lançamento na última hora. A distribuidora alegou razões econômicas, mas pegou mal pacas: ficou com cara de, no mínimo, autocensura. Seria uma submissão ao "menino veste azul, menina veste rosa", um slogan oficioso do novo governo? O próprio Bozo disse no Twitter que não tinha nada a ver com isto. De qualquer forma, a Universal merece o prêmio Anti-Top de Marketing. Não aproveitou a comoção em torno do cancelamento para fazer um lançamento ainda que pequeno, e prejudicou seriamente a própria imagem. Na semana que vem, "Boy Erased" sai em DVD por aqui. Eu mais que recomendo: o longa é ainda melhor do que eu esperava. Adaptado de um livro autobiográfico, o roteiro trata de um adolescente criado em uma família evangélica. Quando ele admite que sente atração por outros rapazes, o pai pastor não tem dúvidas: despacha o moleque para uma clínica de "cura gay", onde ele sofre o diabo. Mesmo tendo como companheiros de pena ninguém menos que Troye Sivan e Xavier Dolan - apenas o cantor gay e o cineasta gay mais relevantes da atualidade. Lucas Hedges está fantástico, mais uma vez, comprovando que é mesmo um ator com uma longa carreira pela frente. Nicole Kidman e Russell Crowe, em papéis coadjuvantes, também brilham, mas a grande supresa é mesmo o Flea do Red Hot Chilli Peppers. Sem falar no diretor Joel Edgerton, que também interpreta o diretor da clínica - há uma surpresinha sobre o personagem nos letreiros finais. "Boy Erased" só traz verdades.

E por falar em verdade, eu me envolvi sem querer num mal-entendido. Houve um sorteio de brindes antes da sessão. Cinco espectadores ganhariam o livro  original e o DVD do filme. Eu estava sentado justamente em uma das cadeiras contempladas, mas recusei o prêmio. Como sou colaborador da Folha, achei que não seria ético eu levar os brindes. Dei tudo para o sujeito sentado ao meu lado, que falava ALTO e parecia muito empolgado com o sorteio. Mais tarde, no debate que seguiu a sessão, esse cara fez um monte de perguntas impertinentes, interrompendo os demais. Um chato de galochas. Hoje fiquei sabendo que muita gente pensou que ele fosse o meu marido, e que eu simplesmente teria dado o prêmio para ele. Ou seja: eu quis dar uma de bacana, desperdicei meu brinde com um babaca e ainda fiquei mal na foto. A minha verdade foi anulada!

terça-feira, 9 de abril de 2019

OUSE SONHAR

Agora é oficial. Depois de algumas semanas de especulação, ontem foi confirmado que Madonna se apresentará na final do Eurovision, em Tel Aviv, no dia 18 de maio. Mas será que vai mesmo? A imprensa de Israel diz que Madge cantará duas músicas, uma nova e uma antiga, e que uma delas incomodou a organização do festival. Será "Indian Summer", cujo clipe ela gravou em Portugal e que deve ser o primeiro single do próximo álbum? Também corre que a Rainha Né Mores gravou um vídeo de viés político, que também teria irritado os israelenses. Só que o cachê de um milhão de dólares cobrado pela diva será pago por um empresário que luta contra os boicotes a Israel: só de aceitar essa grana, Madonna estará endossando a anexação dos territórios palestinos? Ousemos sonhar que não é bem assim, e que ela emprestará seu prestígio ao evento mais cafona do mundo. Ousemos sonhar ainda mais: que o novo trabalho não se chame "X", como levam a crer esas postagens no Instagram. Este título já foi usado por Kylie Minogue em um disco de 2007. Rainha não copia as súditas.

FODA-SE AS LEIS E TODAS AS REGRAS

Anotem o que vou dizer agora: o bozoarismo cairá porque não é um movimento orgânico. Não é como o petismo, que levou décadas para construir sua militância. Aposto que mais da metade da corja que hoje surfa na onda da extrema-direita está lá por puro oportunismo (e falta de caráter, é óbvio). Um sujeito que fazia filme pornô de repente é contra as obras de arte "imorais"? Uma jornalista que postava tuítes contra o golpe de 64 de repente adere a ele? Mas nenhum caso é mais engraçado do que o de Ana Campagnolo, eleita deputada estadual em Santa Catarina depois de posar com armas e fazer campanha para os alunos filmarem seus professores esquerdistas. Alguém finalmente vasculhou o Twitter da carreirista, e descobriu que, em 2012, ela defendia as delícias da maconha e a vontade de enriquecer sem trabalhar. A moça correu para deletar sua conta (como se assim fosse possível apagar o passado) e já abriu outra, onde só está ganhando comentários negativos. É só mais uma hipócrita, que fingiu ser conservadora e cristã para ser eleita - e assim, wuhuu, enriquecer sem trabalhar. Uma deputada estadual que pode te prejudicar.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

OITENTA TIROS

A notícia mais chocante do dia deveria ser a troca do ministro da Educação: sai um celerado que não é do ramo nem entende picas de gestão, entra um celerado que também não é do ramo mas entende um pouquinho. A crise entre olavistas e militares vai continuar, e não se iludam sobre quem vai sairá vencedor. Afinal, quantas tropas mesmo tem o ex-astrólogo? Mas, se os milicos são o fio-terra da racionalidade desse desgoverno que vivemos, hoje eles têm muito a responder e a nos pedir perdão. Porque o assassinato de Evado Rosa dos Santos no Rio de Janeiro não é aceitável em hipótese alguma. Não há engano que justifique 80 tiros de fuzil sobre um carro: só há o racismo e a truculência de quem acha que arma é solução para tudo. Os 12 militares já presos precisam ser sumariamente defenestrados do Exército. Caso contrário, a cúpula das Forças Armadas estará endossando mais essa selvageria.

SÓ A CABECINHA


O embate entre Mary Stuart e Elizabeth I já foi contado tantas vezes que fica difícil encontrar um novo ângulo. A saída encontrada por "Duas Rainhas" foi rejuvenescer as atrizes. Nem Saoirse Ronan nem Margot Robbie já fizeram 30 anos, e cá estão elas representando papéis que costumam ser dados a grandes damas do teatro em língua inglesa. Levando em conta que a trama para quando Mary é presa por Elizabeth, aos 25 anos, até que faz sentido. Depois há um salto para a execução da rainha da Escócia, quase 20 anos depois, mas deixaram que Saoirse mantivesse sua carinha serelepe. A pobre Margot, tida como uma das beldades do cinema atual, teve pior sorte: sua cútis angelical foi coberta por camadas de pancake e pústulas de varíola, eca, num dos mais impressionantes trabalhos de maquiagem que eu já vi. A beleza das imagens ajuda a contar histórias, repleta de detalhes tediosos que significam pouco para quem não foi à escola na Grã-Bretanha. A diretora Josie Roarke, vinda do teatro, também opta pela escalação de elenco color blind: há atores negros e orientais em papéis de cortesãos britânicos do século 16, e foda-se. "Duas Rainhas" era tido como um dos pesos-pesados do último Oscar, mas só emplacou duas indicações técnicas e não converteu nenhuma. Talvez por isto só esteja sendo lançado por aqui em abril, quando a poeira da temporada de prêmios já baixou. É uma experiência suntuosa, que vale a pena mesmo sabendo como termina o choque entre essas duas mulheres.

domingo, 7 de abril de 2019

JÁ COMEU KIMTCHI?

Gostei do kimtchi só pela descrição, sem nem ter provado: picles de acelga, bem apimentado. Aí provei em um supermercado de Bangkok no ano passado, e confirmei minha suspeita. É mesmo muito bom. Voltei decidido a comprar a iguaria em alguma loja coreana de São Paulo, mas levei um ano para por a intenção em prática. Ontem finalmente fui ao Otugui, no Bom Retiro, e pirei o cabeção, Levei não só kimtchi como também shoju, temperos e até Dr. Pepper Cherry, que não é da Coreia mas é bom pacas. Também fiz uma cesta com alguns produtos, para dar de aniversário a um amigo. Só quando cheguei em casa é que me toquei: esqueci da carne de cachorro!!

sábado, 6 de abril de 2019

VOCÊ PINTA COMO EU PINTO?


Depois de três filmes, dá para sacar qual é a do diretor argentino Gastón Duprat. "O Homem do Lado" falava de arquitetura.;"O Cidadão Ilustre", de literatura; e o atual, "Minha Obra-Prima Maestra", de pintura. Duprat discute não só o que é arte, como também a maneira de avaliá-la. Fama e grana sempre estiveram perto de seus personagens, mas em "Obra-Prima" elas estão no centro da história. Que poderia ser assinada por Banksy: um galerista de Buenos Aires finge a morte de um dos artistas que representa, para que os preços de suas obras disparem. A dupla de vigaristas é feita por duas lendas do cinema argentino, Guillermo Francella e Luís Brandoni, e a química entre ambos faz crer mesmo que sejam amigos de décadas. O longa não é uma obra-prima feito "O Cidadão Ilustre", mas o bom roteiro honra a tradição dos nossos vizinhos. Vale o preço do ingresso.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

NÃO NOS REPRESENTA

Douglas Garcia cometeu estelionato eleitoral? Seus eleitores continuariam votando nele se soubessem que ele é gay? Talvez: a extrema direita ama de paixão quando um de seus perseguidos adere a ela. Acham que isto prova que quem reclama é mimizento. Dessa maneira, figuras bizarras como Douglas e o Fernandinho Feriado só ajudam seus (nossos) inimigos. O deputado estadual do PSL faz uma burrada maior ainda ao dizer que o movimento LGBT "não o representa". É graças a esse movimento, que sempre teve travestis e transexuais na linha de frente, que ele talvez não leve porrada na rua. Já sua transfobia me parece uma mistura de oportunismo político (ele quer agradar os celerados de sua base) com ignorância pura e simples. Douglas Garcia tem 25 anos, vem de uma família evangélica de uma favela barra pesada e a direita lhe pareceu um jeito de consertar o mundo. O convívio com Erica Malunguinho pode lhe fazer bem. Na entrevista que ele deu à Folha, Douglas soa como um rapaz que ainda está permeável a novas ideias. Por outro lado, também foi ao Twitter dizer que, agora que saiu ao armário (por ter sido ameaçado de ter um vídeo de sexo divulgado e levado um pito da Janaína, bem feito), sua primeira medida para combater a homofobia vai ser propor ao Mijair a facilitação do porte de armas (que sacada, o despreparado nunca tinha pensado nisso). Aí sou eu quem vai comprar um revólver. Tem cada vez mais gente que merece ser abatida a tiros.

O CAVALO DE TROYE

Uma das vantagens do home office é deixar a televisão ligada enquanto a gente trabalha. Costumo sintonizar na Globo News, mas hoje mudei para o canal Bis por causa do Lollapalooza: queria dar uma espiada no Troye Sivan. E me surpreendi não com o show em si, que não tem nenhum efeito cênico além do próprio cantor, mas com o público, que sabia todas as músicas de cor. Claro que metade era biba, mas a outra era de mulheres louquinhas por esse garoto. E fiquei me perguntando: será que se eu tivesse ido um ídolo abertamente gay (Freddie Mercury não era) na adolescência, eu teria saído do armário mais cedo? 

quinta-feira, 4 de abril de 2019

EMMA-EMMA-EMMA


"Um Ato de Esperança" começa como um filme de tribunal. Uma juíza durona precisa (Emma Thompson, em seu melhor papel em anos) decidir se um rapaz com leucemia pode receber uma transfusão de sangue. O problema é que nem ele nem os pais querem: são todos Testemunhas de Jeová. Mas o roteiro de Ian McEwan, baseado em seu próprio livro, vai além da discussão sobre lei e moral. A juíza é tão focada em seu trabalho que seu casamento está indo pras picas, e ela não consegue mais sair do mode on profissional em nenhuma situação. O final precisava de uma catarse mais intensa para calar fundo, mas a ausência de sentimentalismo também é bem-vinda. De vez em quando, é bom ver um filme feito só para adultos.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

BEAVIS & BUTTIGIEG

Hã-hã-hã. O candidato gay à presidência dos Estados Unidos tem bunda (butt) no nome. Tirando isso, não há nada que possa ser dito contra Pete Buttigieg, prefeito de uma cidade no estado de Indiana e estrela em ascensão no partido Democrata. O cara é veterano da guerra no Afeganistão, formado em Harvard e Oxford e já foi reeleito para um segundo mandato. Arrecadou sete milhões de dólares nas últimas semanas, o suficiente para começar uma campanha nas eleições primárias. Mas não deve ir muito longe. Tem apenas 37 anos, e nomes bem mais experientes já estão no páreo pela indicação. Pete Buttigieg deve estar concorrendo só para ficar mais conhecido: ele ainda tem a vida inteira pela frente. Mas claro que é sensacional que um homossexual não só assumido, como casado com outro homem, seja levado a sério para o cargo mais poderoso do planeta. Isto e a eleição de Lori Lightfoot, a primeira prefeita negra e lésbica de Chicago, talvez sejam sinais de que a maré reacionária começa a ceder. E não só nos EUA: na Turquia, o partido de Recep Erdogan perdeu as prefeituras de Istambul, Ancara e Izmir, apenas as três maiores cidades do país. Enquanto isto, no Brasil, Mijair vem perdendo os apoios eventuais e ficando só com sua base de fanáticos - que é muito, muito menor do que ele imagina. A virada já começou?

COISA MAIS LINDA

Devemos celebrar a abertura de um processo de impeachment contra Marcelo Crivella? Ainda não. Dos três vereadores sorteados para formar a comissão que irá analisar o pedido, dois são aliados do prefeito-pastor. Eles têm 90 dias para apresentar um parecer; se não cumprirem o prazo, o processo é simplesmente arquivado. Ainda há uma manobra em curso para evitar uma nova eleição direta para prefeito, como prevê a lei atual (o vice de Crivella morreu no ano passado e o cargo está vago). Adivinha quem está por trás? O MDB, que domina a Câmara Municipal e é o responsável pela penúria do estado do Rio. De qualquer jeito, só essa ameaça de impeachment já serve de aviso para o Mijair: ou ele se dá bem com o Legislativo, ou baubau. O curioso é que o Carluxo, que de vez em quando é vereador carioca, votou a favor do impeachment de Crivella. Vamos rir com a reação da filharada quando o feitiço se voltar contra o papi.

terça-feira, 2 de abril de 2019

INCELS ON THE RISE

Esse gráfico acima é assustador. A linha laranja revela a porcentagem de homens americanos abaixo de 30 anos não treparam uma única vez nos últimos 12 meses. O número pulou de abaixo de 10 para 23% em dez anos, e nunca esteve tão alto. As causas seriam muitas: da crise econômica, que faz com que muitos caras não tenham a oportunidade de comer as colegas de trabalho, à popularidade dos videogames, muito mais fáceis e divertidos do que fazer uma mulher gozar. Além de surpreendente, esse dado talvez explique... o avanço da extrema-direita, pelo menos nos EUA. É sabido que o grosso do apoio a Donald Trump é masculino. Sujeitos frustrados pela falta de empregos... e de xoxota? Os incels reclamam que 20% dos homens ficam com 80% das mulheres, e respondem com atentados a essa tremenda injustiça. Mas o jeito de corrigir a distorção é um só: educação sexual nas escolas, para ninguém achar que sexo é sujo ou pecaminoso. Além de, talvez, ignorar os últimos lançamentos do Xbox.

ALMAS LAVADAS

"Um Banho de Vida" foi um enorme sucesso de bilheteria na França e só não representou seu país no Oscar porque estreou fora do prazo de inscrição. É uma comédia sentimental e previsível, que segue uma premissa velha como andar para a frente: um grupo de losers se inscreve no campeonato de um esporte improvável e sai de lá, adivinha? Winner! O tal do esporte é nado sincronizado masculino; outro diferencial é que um dos integrantes do grupo sofre de depressão, um mal raramente retratado no cinema. Quase todos, aliás, são homens de meia idade procurando se reinventar (só não sei o que faz o imigrante do Sri Lanka, que sequer tem nome - talvez ele esteja lá só para preencher alguma cota). O elenco é cheio de figurões do cinema francês, mas quem acabou levando o César de ator coadjuvante foi um cantor: Philippe Katerine, que 15 anos atrás era uma teteia e hoje parece o Monstro da Lagoa Negra. Há várias piadas boas e uma personagem especialmente marcante - uma treinadora bitch que também é cadeirante - mas o filme melhoraria se fosse umas braçadas mais curto. Mesmo assim, as Esther Williams de sunga lavam a alma do espectador.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

ISRAMINIONS

Tem que ser maluco feito um evanja fanático para torcer para que o Apocalipse venha logo. Tem que ser mais doido ainda para não ser evangélico e colar bandeirinha de Israel ao lado do nome e da bandeirinha do Brasil, como muitos minions fazem no Twitter. Mas eles não querem nem saber. Acham que Israel sempre foi um baluarte da extrema-direita e que não há a menor chance de mudar. Vi até um bobalhão insistindo com o Guga Chacra no Twitter que Israel jamais havia tido um governo de esquerda - essa galera não consegue sequer dar uma googlada antes de falar merda. Enquanto isto, em Jerusalém, Mijair mais uma vez foi contra os interesses nacionais e só fez o Brasil passar vexame. Não é qualquer um que consegue prejudicar o agronegócio e ainda criar treta com o Hamas em uma mesma tacada. O mais engraçado é que semana que vem tem eleição em Israel, e o Netaniaaaoooaaaoo (como diz o Bozo) periga perder. Quando é que Biroliro vai aprender que um presidente não pode tomar partido em eleição de outro país? Lula sempre torceu abertamente pelo chavismo, e olha como isto lhe fez bem.

O ANO DA MENTIRA

A ordem do Bozo para se comemorar (depois mudada para "rememorar") o golpe de 64 nos quartéis teve um efeito que ele não esperava. Nunca se discutiu tanto a ditadura militar nas redes sociais, e os fatos apresentados deram uma surra nas mentiras propagadas pelos minions. Relatos de torturas até em bebês suplantaram bobagens do tipo "meu avô não sofreu nada", até porque esse tipo de argumentação é o mais furado que existe. Hoje, a verdadeira data da deposição de João Goulart, viu o sucesso da hashtag #BolsonaroDay, associando o nome do despreparado ao Dia Universal da Mentira. Só que estamos vivendo um ano inteiro dedicado às fake news de Mijair e sua prole - por outro lado, elas reverberam entre cada vez menos gente. Quem votou nele só para não votar no PT já está pulando fora, como atestam as últimas pesquisas. Mas o clã Biroliro está incorrendo no mesmo erro que foi fatal para Lula: eles acham que têm muito mais apoio do que de fato têm. Com o desemprego dando sinais de que não arrefeceu e a reforma da Previdência empacada no Congresso, não vai demorar para até esse núcleo duro se dissolver. Para mentir deslavadamente como Trump ou o Lula dos bons tempos, um presidente tem que ter a economia indo bem. Senão, leva pau.