sexta-feira, 1 de março de 2019

BALANÇA MAS NÃO CAI


El Capitán é uma formação rochosa com mais de 900 metros de altura. Fica no Parque Nacional de Yosemite, na Califórnia, e uma de suas faces é um paredão desafiador até para alpinistas experimentados. Imagine, então, escalar esse troço usando apenas a força das mãos e dos pés, sem cordas nem nenhum equipamento de segurança. Basta um errinho bobo para a morte certa. Mas Alex Honnold é doido o suficiente para tentar. Ele também é o assunto de "Free Solo", que ganhou o Oscar de melhor documentário e estreia no canal Nat Geo no dia 9 de fevereiro. O filme revela um pouco da personalidade de Alex: uma criança tímida que se tornou um rapaz que vive sozinho em um trailer, com uma certa dificuldade em manter namoradas (ele prefere arriscar a vida do que agradar às moças). O falecido pai de Alex era portador da Síndrome de Asperger, dentro do espectro do autismo; eu não me espantaria se o filho fosse diagnosticado com algum distúrbio que o impede de ter empatia ou uma correta avaliação dos riscos. Ele continua brincando com a sorte, mesmo depois que alguns de seus colegas se esborracham, e insiste em conquistar El Capitán no mano a mano. Para tanto, ele escala a rocha diversas vezes da maneira tradicional, com cordas, aprendendo onde fica cada reentrância e cada saliência. Isto permite que ele identifique o trajeto menos perigoso, por onde dá início à empreitada, em uma manhã clara de verão. As quatro horas de escalada são resumidas em poucos minutos, mas suficientes para fazer alguém que morre de medo de altura (tipo eu) tapar os olhos com as mãos. Foi um sofrimento acompanhar esta sequência final, mesmo sabendo que Alex seria bem-sucedido. Mas convém não se apegar muito: o cara pretende continuar na prática. Portanto, não será surpresa a notícia de sua morte nos próximos anos. "Free Solo" trata de uma personalidade muito menos importante do que a juíza Ruth Bader Ginsburg, retratada em "RBG". Mas suas imagens de tirar o fôlego, captadas por drones ou cameramen pendurados no vazio, fazem algo a mais do que o outro favorito ao Oscar: avançam o cinema.

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