terça-feira, 26 de março de 2019

A ÓPERA DA PADROEIRA


"Aparecida" não é o tipo de espetáculo que me atrai naturalmente. Não sou católico e não acredito na virgindade de Maria. Mas ganhei convites para a estreia para convidados, e lá fui eu conferir o primeiro musical escrito por Walcyr Carrasco. Na verdade, há bem pouco texto falado: quase tudo é dito nas letras de Ricardo Severo, sobre canções de Carlos Bauzys. Mas foi Walcyr quem criou a estrutura da peça, usando elementos que ele já conhecia desde que escreveu a novela "A Padroeira" e o caso de um milagre cujo favorecido, milagrosamente, sentou-se ao seu lado em um avião. Toda a saga da santa do Brasil está lá: da descoberta por pescadores no rio Paraíba, no começo do século 18, à restauração da imagem depois dela ter sido pulverizada por um maluco, em 1978. A encenação de Fernanda Chamma alterna momentos intimistas com outros espetaculares, usando muito bem as projeções e o elenco numeroso. Mas o mais marcante em "Aparecida" é mesmo a música, que passa longe do estilo da Broadway. A partitura tem influências afro, caipiras e até do rock, mas é quase uma peça erudita. Sem refrões fáceis para sair assobiando, ao contrário: algumas melodias são até bem difíceis, desafiando os atores e o espectador. Não há nenhum hit óbvio, mas o público não parece se importar. Sem pregação religiosa ostensiva, "Aparecida" está mais para uma ópera pop. Mas desde quando a ópera não é um gênero feito para as massas?

3 comentários:

  1. O Mio Babbino Caro
    Me chama atenção essas romarias que se criam em torno de um "Santo" sempre me levei a crer que a fé em Aparecida transcende em muito e nada tem ver com o Vaticano embora evidentemente o Vaticano não opere assim.

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  2. Eu só acho engracado a peça ter apoio do Minc e o ingresso custar um rim. Imagine se o Minc não apoiasse... Kkkk

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  3. Adorei a proposta de uma ópera pop,isso contribui para a deselitização,e bom que não tenha pregação religiosa intensiva,até porque que eu saiba o Walcyr Carrasco não é religioso praticante,mas se tivesse tbm seria natural,afinal a maior parte da população brasileira ainda é católica,então natural que exista produtos culturais voltados para esse segmento,como já teve o filme ´´Maria Mãe do Filho de Deus´´,com o padre Marcelo Rossi, um outro filme ´´Aparecida´´ com o Murilo Rosa,esse sim um filme mais religioso,só acho hipócrita o comportamento homofóbico do clero católico,quando é notório que existem muitos padres homossexuais no armário,segundo um livro de um pesquisador francês,80% dos padres são homossexuais,o que vc acha disso Tony?Já leu o livro? https://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2019-02-18/vaticano-homossexuais-igreja-catolica.html

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