quarta-feira, 20 de março de 2019

COMPADRE WASHINGTON

Esperei o Bozo voltar para comentar sua viagem a Washington. Queria ver até onde ia o despreparo, a ignorância e o puxa-saquismo. Foram mais longe do que eu esperava, e ainda revelaram que não existe estratégia alguma entre os supostos gênios desse governo. faz sentido ir jantar com Steve Bannon logo no primeiro dia, sabendo que ele é um desafeto da Casa Branca? E para quê ofender os brasileiros que vivem ilegalmente nos EUA, sabendo que eles votaram no Biroliro achando que ele iria defendê-los? O fim do visto de entrada no país para americanos, canadenses, australianos e japoneses também tem cheiro de capacho, e os resultados financeiros são bem duvidosos. Turistas só virão para o Brasil quando o país for mais seguro e mais barato: praia bonita eles têm mais perto do que as nossas. Quanto à base de Alcântara, acho legal ganhar um troco algando-a para os gringos (lembrando que Mijair sempre votou contra quando era deputado). Mas o que me incomodou mesmo foi a forma da visita, nem tanto o conteúdo. Solnorabo é péssimo orador, escolhe as palavras erradas e transpira medo por todos os poros quando se aproxima de poderosos. Às vezes até  gostaria que ele declarasse guerra à Venezuela, pois assim os milicos o deporiam de uma vez. Veja a que ponto me rebaixei: eis-me aqui torcendo por uma intervenção militar.

TODA FAMÍLIA BEM FICA

Dá para imaginar um time brasileiro fazendo uma campanha por novos sócios como esta do Benfica? O clube português está alguns anos-luz à frente dos trogloditas que dominam o nosso futebol. Pelo menos, temos um conterrâneo na ficha técnica do comercial: o diretor de arte Eduardo Pastor, com quem eu trabalhei em priscas eras, hoje vivendo em Lisboa. Nem tudo está perdido, ó pá.

terça-feira, 19 de março de 2019

LINDA JACINDA

O mundo está carente de grandes líderes. Até os meus queridinhos Emmanuel Macron e Justin Trudeau estão passando por apuros. O presdiente francês enfrenta a revolta interminável dos "coletes amarelos", que junta as extremas esquerda e direita na mesma baderna. Já o premiê canadense está enrolado em uma crise palaciana que pode lhe custar a reeleição no fim do ano. Neste deserto de nomes, uma nova estrela acaba de despontar: Jacinda Ardern, a jovem primeira-ministra da Nova Zelândia. Nem me interessei em saber qual é a tendência política dela. Só o fato de Jacinda vestir véu para visitar alguns membros da comunidade muçulmana atingida pelo ataque da semana passada já prova que se trata de uma estadista. Depois a linda ainda avisou que jamais irá pronunciar o nome do terrorista, para não dar a ele nenhuma publicidade, e que as leis do país sobre armamentos serão revisadas. Enquanto isso, Trump passou o domingo reclamando no Twitter de problemas gravíssimos como uma reprise do programa "Saturday Night Live", e o nosso Biroliro levou algumas horas para se pronunciar sobre o massacre em Suzano. A Nova Zelândia é longe de tudo e influi muito pouco no panorama internacional, mas deveria servir de exemplo para todos nós. Depois da matança em Christchurch, muitos neozelandeses estão entregando suas armas para a polícia. Nunca tive tanta vontade de me mudar para lá.

DEATHFLIX


A morte está na moda. Três séries novas da Netflix tratam do assunto mais desagradável do mundo, mas de maneiras diferentes. A mais doce entre elas vem de um dos comediantes mais ácidos do mundo: Ricky Gervais, famoso por insultar meia Hollywood quando apresenta os Globos de Ouro. Seu personagem em "After Life" também é um sujeito sarcástico, que se sente autorizado a ser ainda mais impiedoso depois que sua mulher morre de câncer. Há momentos muito sombrios, outros de rir alto e alguns realmente enternecedores, como as conversas com a viúva feita por Penelope Wilton (de "Downton Abbey"). Tudo isto em uma cidadezinha fictícia de nome brasileiro, Cambury, feita com locações em diferentes cidades reais. Aposto que "After Life" será indicada a uma porrada de Emmys. Mas em qual categoria? Drama ou comédia?

"Boneca Russa" é uma doideira, parente de "A Morte lhe Dá Parabéns" e outras obras que usam o tema do "dia da marmota": a data que sempre se repete, num looping infinito. No caso, o bater de botas da protagonista, feita pela desagradável Natasha Lyonne. Seu personagem tem muito da persona da atriz, mais conhecida por "Orange is the New Black": egoísta, beberrona, inconveniente. Por causa dela, é difícil superar os dois primeiros episódios. Mas depois a coisa engrena, e "Boneca Russa" leva o espectador a um lugar realmente novo, difícil de classificar em termos dramáticos. Só que nenhuma razão é dada para as mortes recorrentes da personagem e de um outro cara, que aparece em meados da temporada. O último capítulo, então, é quase surrealista. Alguém saberia me explicar como se eu tivesse dois anos de idade?

"Love Death + Robots" é a única que traz a morte no título, mas ela nem sempre está presente nas tramas. Mal comparando, é uma variante de "Black Mirror" em desenho animado. Trata-se de uma antologia, exclusiva para adultos: os 18 episódios podem ser vistos em qualquer ordem, pois não têm relação entre si. Nenhum dura mais que 17 minutos (alguns, apenas seis). Cada um usa uma técnica diferente, e muitos são deslumbrantes. Outros deixam a gente sem saber se está vendo atores de carne e osso ou gerados pelo computador. Meu favorito até o momento é o terceiro curta, "A Testemunha", mas pode ser que eu mude de ideia: ainda não vi tudo.

segunda-feira, 18 de março de 2019

EL AMOR DESPUÉS DEL AMOR


Ricardo Darín tem um público cativo no Brasil. O cinema em que eu fui ver "Um Amor Inesperado" no sábado à tarde estava quase lotado, e depois fiquei sabendo que vários amigos foram ver o filme no fim de semana da estreia. Devem ter gostado, porque este é um Darín dos bons: tem roteiro burilado e ótimas interpretações, dois fatores que nos fizeram amar o cinema argentino. Mas também é longo demais: dura 2h15, uma eternidade para uma comédia romântica. Para piorar, a história é para allá de previsívei. Um casal de meia idade se separa depois que o filho sai de casa, porque acabou o assunto (ela é Mercedes Morán, uma atriz fabulosa). Passam algum tempo se aventurando no Tinder, até que então... Estou dando spoiler? Alguém achou que o final seria diferente? "Um Amor Inesperado" não faz feio, mas tampouco entra para o rol dos melhores dos nossos vizinhos. É uma boa empanada, mas não chega a asado.

WHO'S BAD?


Desde 1993, quando surgiram as primeiras denúncias, que eu não tenho a menor dúvida: Michael Jackson gostava de garotinhos. Não. Tenho. A. Menor. Dúvida. Não vou usar o termo "pedófilo" por causa de uma filigrana: ao contrário dos velhos tarados que costumam ser associados à prática, Jackson também era um garotinho. Ou, no máximo, um adolescente recém-chegado à puberdade. Sua sexualidade estacionou por volta dos 13 anos de idade e nunca mais evoluiu um milímetro. Todo mundo se habituou a dizer que MJ era uma criança, que estava tendo a infância que lhe havia sido roubada, mas entre quatro paredes ele era um pouquinho mais velho. Só um pouquinho.


Neste ponto, o documentário "Deixando Neverland" não me trouxe novidade alguma sobre o finado Rei do Pop. Só detalhes, como as preferências do astro (ele era ativo!). E não me fez mudar de ideia. Antes de ver o filme de Dan Reed, escrevi uma coluna para o F5 dizendo que eu não deixaria de ouvir Michael Jackson (não que eu ouça muito, mas vá lá). Algumas pessoas me avisaram que o choque dos depoimentos de Wade Robinson e James Safechuck me encheriam de horror a "Thriller" - só que não. A música continua tão boa como já era antes.

Se Michael Jackson não tem muitos segredos para mim, não posso dizer o mesmo sobre seus acusadores. Não entendo muito o sofrimento pelo qual estão passando Wade Robson e James Safechuck. O primeiro venceu um concurso de dança aos cinco anos de idade, cujo prêmio era conhecer MJ em pessoa - e ele acabou contratado, fazendo parte do show até os 14 anos. O segundo fez um comercial de Pepsi com Jackson quando era pequeno, e logo entrou para o círculo íntimo do cantor. Ambos foram abusados por ele, mas admitem que era gostoso e divertido. Ambos testemunharam a favor do astro no processo de 1993. Foi só no segundo processo, em 2003, que a ficha parece ter caído. Só então eles se recusaram a participar. Mais tarde, casados e com filhos, se deram conta do horror por que passaram. Mas se deram mesmo? Ou foram induzidos a achar que sofreram? Porque, na época, saíram da experiência sem maiores problemas. Sim, participaram de brincadeiras sexuais com um adulto, e isto não é aceitável por qualquer ângulo. Mas sem violência física e, ao que parece, psicológica.

Não estou defendendo Michael Jackson, nem passando pano no que ele fez. Para mim, trata-se de uma figura trágica, que foi vítima do próprio sucesso e não soube buscar apoio profissional. Pagou com a própria vida, e privou o mundo de um talento gigantesco. Mas acho no mínimo curioso que Robson e Safechuck estejam passando AGORA por um sofrimento atroz. Robson até tentou processar o "estate" de Jackson em 2010, mas um juiz não deixou, alegando que já havia passado tempo demais. Não há inocentes nessa história.

"Deixando Neverland" tem quatro horas de duração, mas não precisava tanto. O diretor ficou com dó de cortar o farto material que coletou, e o resultado é meio chato e repetitivo. Além do mais, a discussão que propõe não deveria ser sobre a reputação de Wacko Jacko ou a permanência de sua obra. Vou fazer uma provocação, totalmente contrária aos ventos que sopram hoje em dia: será que toda relação entre um menor e um maior de idade é necessariamente ruim? É possível que não haja cicatrizes nem traumas? Veja bem, não estou afirmando, só perguntando. E perguntar é sempre bom e necessário.

domingo, 17 de março de 2019

TERÇA INSANA

Uma das poucas consequências positivas da desastrosa eleição do Mijair foi jogar mais luz sobre a extensa rede de fakenewseiros que trabalha para ele. Habituada a pregar aos convertidos, agora esses difamadores vêem suas mentiras confrontadas pela imprensa séria e pelas agências de checagem, e estão todos se borrando nas fraldas. É o caso de Allan dos Santos, responsável pelo abominável site Terça Livre. Só pelo vídeo acima dá para sacar o nível do sujeito. Como é que, em pleno ano da graça de 2019, alguém ainda chama a masturbação de "perversão sexual"? E ela ainda por cima queima neurônios...

Allan dos Santos foi quem espalhou no Brasil a mentira publicada na seção de blogs do site francês Mediapart, acusando Constança Rezende, do Estadão, de querer derrubar o governo. O próprio Bozo, em sua grandeza de estadista, repetiu o tuíte, e a repórter recebeu todo tipo de ameaça - por uma coisa que ela nunca disse, by the way. A potoca foi logo desmentida, mas adivinha se Allan se retratou? Claro que não. Até que, nesta sinistra sexta-feira, um outro jornalista do Estadão foi bater à sorrelfa à porta de sua casa...

Jornalistas, como todo mundo sabe, andam armados até os dentes, e vão às casas das pessoas para exterminá-las. Pelo menos é isto o que acha esse bobalhão, que não faz a mais puta ideia do que seja jornalismo de verdade. O coitadinho está até agora no Twitter se lamuriando do gravíssimo perigo que ele e sua família correm, como se todo mundo usasse das mesmas táticas sujas de perseguição e desmoralização que ele usa. Imagina se eu fosse ter um chilique cada vez que o acessor (com c mesmo) da cantora Francilayne mandasse uma mensagem para o meu celular, que eu só dou para quem eu conheço pessoalmente? Mas a verdade é que devemos agradecer ao Allan dos Santos. Nesses tempos sombrios, ele assumiu para si o papel de palhaço, e está nos divertindo a todos. Deus sabe como estamos precisando rir.

sábado, 16 de março de 2019

FALTA DE JUÍZA


Quando eu era pequeno, sabia de cor a escalação da seleção brasileira que venceu a Copa de 70. Hoje eu sei os nomes de todos os 11 juízes do STF, e se espremer acho que também saem quase todos da Suprema Corte americana. Esses magistrados fazem parte do nosso cotidiano, e alguns deles afetaram o planeta inteiro com suas decisões. É o caso de Ruth Bader Ginsburg, a fodona feminista que, na reta final de seus anos, se tornou uma heroína feminista e um ícone da cultura pop. No fim do ano passado saíram dois filmes em sua homenagem. Um deles é o excelente documentário "RBG", indicado a dois Oscar e já comentado aqui no blog. O outro, "Suprema", não chega aos calcanhares de sua biografada. O roteiro se prende a um caso emblemático, que deu o pontapé à carreira fulgurante de Ginsburg na defesa dos direitos igualitários. Mas o caso em si não é dos mais palpitantes, e Felicity Jones nem se esforça para captar a centelha que arde em sua personagem. Sobra um filme morno, quase aborrecido e nada obrigatório. Quem quiser conhecer essa mulher impressionante tem que ir atrás de "RBG".

sexta-feira, 15 de março de 2019

ECCO LA MARCIA REALE

"Marcia Reale" era o nome do antigo hino imperial italiano, usado até o país se tornar uma república. Também serviu para inspirar o nome artístico de Eunice Alves, a grande atriz brasileira que morreu nesta sexta. Foi ela própria quem me contou a origem de seu pseudônimo: trabalhamos juntos na segunda temporada de "Ô, Coitado!" no SBT, onde eu era um dos roteiristas, em 2000. Logo depois eu a indiquei para o que acabou se tornando um de seus últimos trabalhos: o filme "Avassaladoras", lançado em 2002, em que ela fez a avó da personagem da Giovanna Antonelli. Márcia Real era uma mulher linda, mesmo já entrada em anos, e uma profissional de primeira. Chegava ao estúdio sempre com o texto decoradíssimo e dava broncas nos colegas mais indisciplinados. Mas nós sempre nos demos bem, e eu agora lamento tê-la perdido de vista nos últimos anos.

A CULPA NÃO É DO BULLYING

Dois gatilhos vêm sendo apontados como os responsáveis por despertar a sanha dos assassinos de Suzano: os videogames, e o bullying que eles teriam sofrido na própria escola Raul Brasil. De game eu não entendo picas, mas o bullying eu senti na pele. Fui alvo de gozações em dois colégios diferentes: primeiro aos 11 anos de idade e depois aos 14. Saí na porrada duas vezes. Não adiantou, as gozações continuaram. E aí sumiram, de uma hora para outra. Um ano depois, meus algozes me cumprimentavam como se nada. Mas eu sei que tive bastante sorte.

Bom, vamos lá. O bullying é uma coisa gravíssima, mas nem de longe é o maior culpado por esses crimes bárbaros. Meninos gays e meninas gordas são as vítimas preferenciais do bullying (que costuma ser praticado por meninos brancos e héteros, iguaizinhos aos assassinos de Suzano). Você já soube de algum gay assumido ou de alguma gordinha voltar à escola onde sofreu bullying e abrir fogo contra os outros alunos? Pois é. 

Como quase toda bicha da minha geração, eu também não escapei, como já contei lá em cima. Fiquei com cicatrizes, mas essa não foi a pior coisa que já me aconteceu. Cresci e me tornei essa pessoa ma-ra-v-lho-sa que vocês tanto adoram. Hoje em dia eu abro fogo, sim, mas com as palavras. 

Nem por isto defendo o bullying. Não acho que ele "enrijece o caráter", como já vi alguns pais dizerem, ou te ensina a te defender. É uma coisa horrorosa, eu sofria muito. Não precisava passar por isto. Mas ninguém - nenhum professor, diretor, bedel, pai de aluno, meus próprios pais, NINGUÉM - fazia nada para me defender. Só interferiam quando descambava pra porrada.

O bullying tem que ser evitado na hora. Tolerância zero. A vítima precisa saber que ela não está sozinha e que seus gozadores é que são os errados. Mas os atiradores que grassam mundo afora não podem se escorar no bullying para justificar seus crimes. O problema é bem mais complexo.

Minha teoria? Estamos assistindo, em escala global, à reação dos homens héteros (não necessariamente brancos) ao avanço das minorias. Trump, Bozo, Duterte, Erdogan, Orbán, o Estado Islâmico, os ataques às mesquitas da Nova Zelândia, os massacres nas escolas: são todas faces de um mesmo monstro, chamado ressentimento masculino. A sensação desses homens de estarem perdendo poder. Só que eles não entenderam que não perderam direito algum - só a possibilidade de explorar e humilhar os demais. Foram os outros que conquistaram mais direitos, só isto. Mas a igualdade incomoda a quem goza de privilégios.

Mulheres em posto de comando não são ameaça. Homossexuais se beijando em espaço público não são ameaça. Negros nas novelas não são ameaça. TODO MUNDO ganha com a igualdade. - inclusive dinheiro O preconceito é ruim para a sociedade como um todo. Ele faz mal para todos, até para os preconceituosos. Mas, enquanto essa ficha não cair, continuaremos presenciando injustiças e até mortes estúpidas.

quinta-feira, 14 de março de 2019

MELÔ DO PI-RI-PI-PI

Cansei de fazer post pesado. Cansei de reagir a cada desgraça que sai no noticiário. Quero celebrar o Pi Day, o dia do Pi, porque a data desta quarta, em inglês, se escreve 3/14 - o começo do número mais mágico de todos, que hoje sabemos ser seguido por 31 trilhões de outros algarismos. O Pi é um vislumbre do infinito, porque ele vai ficando cada vez menor, mas nunca acaba. É a chave dos mistérios, desde a Antiguidade. Para entender esse paradoxo, só mesmo comendo torta, o outro significado do dia em inglês. Ou levando um torta na cara.

QUE ÓDIO

Este post era para ter subido ontem, mas o massacre na escola em Suzano o adiou para hoje. Só que não é uma tragédia nova que me fará esquecer da tragédia anterior. A prisão dos assassinos de Marielle Franco traz um novo insulto à memória da vereadora e à inteligência de todos nós. É um acinte que setores da polícia carioca tentem caracterizar a ação de Ronnie Lessa e Elcio Vieira de Queiroz como "crime de ódio". Quer dizer então que os dois, que levam vidas de um luxo incompatível com as rendas que têm e mantêm um arsenal de dar inveja às Forças Armadas, passaram três meses tramando em detalhes o assassinato de Marielle e de seu motorista Anderson Gomes, só porque não gostavam das ideias dela? Porque não suportavam uma negra lésbica feminista na política? Ah, tá boua? O escândalo só cresce quando lembramos que, toda vez que um homossexual ou transexual é morto no Brasil sem motivo, a direita raivosa logo espuma que não existe crime de ódio por aqui. Mas se a vítima for filiada ao PSOL, aí sim, não é mesmo? Até os bebês que ainda não nasceram já sabe que tem gente graúda por trás dessa selvageria. Muitos indícios apontam para o MDB fluminense, que há décadas sufoca o estado e é o maior responsável pelo caos em que este se encontra. Pessoalmente, não acredito que o clã do Mijair esteja diretamente envolvido. Mas não dá para negar que eles vivem na maior promiscuidade com os milicianos, depois de tantas homenagens, empregos, vizinhanças e até namoros. A prisão dos executores foi só primeiro passo. Ainda faltam muitos, e não sei se seremos capazes de percorrê-los todos.

quarta-feira, 13 de março de 2019

TIROS NO BRASIL

Dois anos atrás, eu participei da sala de roteiro de uma série que ainda não foi produzida, chamada "Tiros no Paraíso". O argumento era livremente inspirado pelo massacre de Realengo: um garoto vítima de bullying matava metade de sua classe em uma escola fictícia na periferia de São Paulo, a Alberto Paraíso. Hoje, vendo as reportagens pela TV, fiquei impressionado: a E. E. Raul Brasil, em Suzano, é quase idêntica ao colégio que imaginávamos. Até as casas das vítimas e dos assassinos se parecem com as que pensamos para o programa. Só não chegamos ao nível de horror dos dois matadores da vida real: já surgiram indícios de que eles participavam do Dogolochan, um fórum na dark web onde incels e outros malucos se incentivam uns aos outros ao suicídio - e que levem junto com eles a "escória", i.e., mulheres, negros e gays. Que cultura doente é essa em que vivemos, que propiciou tamanha barbaridade? E, sim, o Bozo e suas arminhas nas mãos fazem parte do mesmo fenômeno. A glorificação da violência como solução dos conflitos, a ilusão da superioridade branca e masculina, está tudo amarrado e banhado de sangue. Tomara que essas mortes de hoje não tenham sido em vão. Que elas sirvam para o Brasil repensar essa alucinada política de rearmamento. Para não virarmos uma cópia piorada dos EUA, onde esses ataques já são rotina.

GRANDE DIA

Foi uma terça-feira surreal. Pela manhã, as notícias chocantes chegavam com a velocidade de balas de metralhadora. Prenderam os assassinos de Marielle! Um deles mora no mesmo condomínio do Mijair! A filha dele namorou com o 04! Pois é, também fiquei chocado dem saber que o 04 gosta de mulher. À tarde começou a palhaçada. Passando um recibo maior do que o gigantesco Vivendas da Barra, onde ninguém conhece ninguém, os bolsomijons adotaram a sofisticada estratégia de subir a hashtag #CelsoDaniel, porque né? Sempre deu certo! Afinal, se os petistas têm esqueletos no armário, isto significa que o nosso lado é totalmente inocente, talquei? Foi divertido ver os mesmos que reclamavam, um dia antes, da "extrema imprensa" (um termo que eu acho até elogioso), apelarem para um argumento digno da quinta série. "Ãin, mas pode ser tudo coincidência". Poder, pode. Mas já pensou o fuzuê se descobríssemos que o Adélio mora no mesmo prédio que o Lula em São Bernardo, que eles têm foto juntos e que os filhos já namoraram?

terça-feira, 12 de março de 2019

VIVENDAS DA BARRA

Não vamos dar muita importância ao fato do Bozo morar no mesmo condomínio que Ronnie Lessa, um dos suspeitos pela morte de Marielle Franco que foram presos na manhã de hoje, não é mesmo, pessoal? O Vivendas da Barra é imenso, quase do tamanho da Rocinha, e o Bozo tem apenas dois imóveis lá dentro. Mesmo que ele conheça seu vizinho Ronnie, isso não quer dizer nada, talkei? Eu mesmo já morei no mesmo prédio que o Wanderley Cardoso, e nunca gravamos uma única música juntos. Aliás, um sargento da reserva da PM morar no mesmo condomínio que o presidente da República deve ser uma coisa super normal, que acontece em qualquer lugar do mundo. E o Mijair ter atacado a imprensa que investiga as milícias, na véspera do suspeito ser preso no mesmo condomínio em que ele mora? Co-in-ci-dên-cia, galera. Só isso. Parem de ver maldade em tudo.


Bom, ainda não sabemos se o Bozo conhece seu vizinho Ronnie Lessa. Mas o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz, o outro suspeito preso na manhã desta terça...

segunda-feira, 11 de março de 2019

LIGAÇÃO PERIGOSA


É oficial: a Netflix tem mesmo  filmes mais interessantes do que os que estão em cartaz nos cinemas. Uma boa surpresa esta semana foi a chegada à plataforma de "Mademoiselle Vingança", indicado a seis Césars e vencedor de um, melhor figurino. É uma produção luxuosa, ambientada em meados do século 18 e livremente inspirada em um livro de Diderot. A trama parece um esboço de "Ligações Perigosas", que seria escrito alguns anos depois. Uma viúva nobre resolve se vingar de seu ex-amante, fazendo-o apaixonar por uma bela jovem - só que ele não sabe tudo sobre sua nova paixão. Lento a princípio, com diálogos literários, o filme aos poucos se revela uma história cruel, em que a feiúra das almas contrasta com a beleza das imagens. Não tem o impacto do clássico com Glenn Close, mas é uma iguaria fina.

UM ESGOTO A CÉU ABERTO

O Bozo se supera. O despreparado que finge comandar a nação conseguiu postar um tuíte pior ainda do que o do vídeo obsceno do carnaval, menos de uma semana depois. É simplesmente criminoso um presidente difamar uma jornalista e espalhar fake news, baseado em um caso já desmontado pelas agências de checagem de notícias. Constança Rezende está sendo perseguida, entre outras coisas, porque seu pai Chico Otávio é um repórter carioca que está virando do avesso o submundo das milícias. Sentindo o cerco se apertar, o clã Boçalnaro apela para a única coisa que sabe fazer: baixaria virtual. Querem calar a imprensa profissional. Não é nenhuma surpresa, mas é gravíssimo. Mas sabe o que me apavora mais? É claro que os militares sabem dos laços dos Bostonazi com os milicianos. Sabem e não fazem nada, porque dependeram da popularidade do Mijair para voltar ao poder. Até quando esse esgoto vai correr a céu aberto, empesteando o país?

domingo, 10 de março de 2019

VAMOS À FODA

Já tem programa para o último fim de semana de março? Quem estiver por terras lusas não pode perder a III Feira da Foda, em Pias de Monção. Foda é o nome da delicada iguaria local, um cordeiro assado inteiro. O vídeo acima me deixou com água na boca, até porque em dado momento aparece um cartaz onde se lê "não há foda sem chouriço". Mas o locutor vai desanimando: "o primeiro dia é fantástico, o segundo é ótimo e o terceiro é divertido". Foda todo dia cansa.

CENTRAL DO EGITO


Quem quer ver filme de leproso? Eu quero! Quer dizer, eu quis ver "Yomeddine", o candidato do Egito ao último Oscar, que também foi exibido no festival de Cannes do ano passado. Mas não voi negar que também tenho um pouco de curiosidade mórbida... As vítimas da hanseníase parecem vindas diretamente da Antiguidade remota. São a lembrança da praga mais temida pela humanidade, tanto que o próprio nome original da doença - lepra - hoje é politicamente incorreto. Mas hoje ela está quase extinta, porque é facilmente curável. Resiste em bolsões de pobreza, como na periferia do Egito que aparece em Yomeddine. Quase nenhum ponto turístico aparece na tela: só um país feio povoado de gente quase sempre má. O filme de estreia de A. B. Shawky conta a história de um homem curado, mas coberto de cicatrizes, que deixa a colônia onde mora depois da morte da mulher e parte na companhia de um órfão rumo à sua cidade natal. Tudo acontece no caminho, e alguns momentos são bem difíceis de aguentar. Mas o tom é otimista, e a trama guarda um parentesco distante com o nosso "Central do Brasil". "Yomeddine" mostra que a humanidade não presta em nenhuma cultura, mas que também vale a pena manter a fé nela. Nem que seja na própria humanidade.

sábado, 9 de março de 2019

A RESISTÊNCIA SAI DA SOMBRA

A brincadeira do José de Abreu começou do jeito errado. Ele se autoproclamou presidente para ironizar Juan Guaidó, o legítimo mandatário da Venezuela. Mas aí Mijair e os bolsomijons levaram a sério, e o que era só uma piada está em vias de se tornar um "shadow cabinet". Este conceito é próprio da política britânica: o partido que perde as eleições monta um "ministério", que serve de contraponto às decisões do governo de verdade. Zé de Abreu já apontou Marielle Franco como sua primeira-dama e promete indicar uma maioria de mulheres, índios e negros para as outras pastas. Não sou fã da ideologia do ator, mas esta performance chegou na hora certa. Enquanto isso, os chupadores de laranja subiram #ZehdeAbreuNaCadeia, passando recibo de que estão mesmo apavorados com a boutade. Talvez devam estar mesmo: o Bozo também começou em forma de piada, e até hoje não se deu conta da seriedade do cargo.

sexta-feira, 8 de março de 2019

ALVO ATROZ


"Albatroz" é uma doideira. Um fotógrafo famoso lida com três mulheres ao mesmo tempo: a esposa, a amante e uma namorada de adolescência que reaparece clamando que ele ainda é dela. Ou não. Será tudo um sonho? E as agulhas que ele tem enfiadas na cabeça? Eletrodos? O que cazzo a neurociência tem a ver com isso tudo? No que poderia ser um plot, o cara fotografa um atentado terrorista em um restaurante em Jerusalém. Primeiro recebe prêmios, depois, críticas por não ter ajudado as vítimas. Mas por que ele é sinestésico? Vai saber. Com direção, fotografia e montagem alucinantes, "Albatroz" não tem parentes próximos no cinema nacional. Nada na obra de Bráulio Mantovani, roteirista de "Cidade de Deus", me fazia prever algo assim. Que sorte. Supresa de vez em quando é bom.

A MULHER DO DIA

Quando eu era publicitário full-time, os anúncios em homenagem ao Dia da Mulher eram quase todos naquela base "flores para outra flor". Para a propaganda, a data era antifeminista: dia de celebrar a delicadeza, a sedução, a inferioridade do segundo sexo. Mas as mulheres avançaram, e hoje vemos no mundo inteiro um fortíssimo movimento de contrarreação a esses avanços.  Bozo, Trump, Duterte, Orbán, Erdogan, são todos sintomas da mesma onda que tenta recuperar espaço para os homens. Mas é só isto mesmo: uma onda, vai passar. Nas empresas que eu frequento hoje em dia, tem sempre mulher em postos-chave - quando não na maioria dos cargos, algo cada vez mais comum. Também estão mais frequentes as notícias sobre feminicídio: reparou que no "Jornal Nacional" tem pelo menos uma, todo santo dia? Pode até ser que se esteja matando mais mulher do que antes, mas acho mais crível que se esteja é reportando mais esses crimes. É absurdo que os homens sejam educados para não suportar um reles pé na bunda. As mortas de hoje em dia nem precisaram trair, só dizer que queriam sair da relação. Mas a consciência está mudando e está crescendo. Agora há pouco, quando fui ao cinema na Paulista, havia uma imensa manifestação, com palavras de ordem e cartazes da Marielle. Ainda bem.

quinta-feira, 7 de março de 2019

MANGUEIRA TEU CENÁRIO É UMA BELEZA

Já entrou para a história: este foi o carnaval da resistência. O Brasil mostrou que está longe de ser essa boçalidade unânime que imaginam os bolsomijons. A agenda reacionária do governo não tem esse apoio todo, haja vista os gritos de guerra contra o Bozo, as fantasias de laranja, as homenagens a Marielle no sambódromo carioca, a vitória da Mangueira. Enquanto isto, Mijair continua metendo os pés pelas mãos: a declaração de hoje, de que a democracia só existe se as Forças Armadas assim o quiserem, foi mais uma crise artificial e desnecessária. O resultado é que o mercado já está se dando conta de que o candidato que ele apoiou não é confiável e que são cada vez menores as chances de uma reforma da Previdência razoável ser aprovada. Em um momento em que deveriam estar buscando o máximo de apoio possível, os Solnorabo tentam dividir o Brasil ainda mais. É uma corja desprezível, que nem de conservadora merece ser chamada - falta-lhe a honra para tanto. Mas um país em que um bloco fica em silêncio para uma mãe encontrar seu filho, em que o Seu Peru desfila sob aplausos com quase 100 anos de idade, em que a Mangueira levanta a Sapucaí com um enredo político - sim, esse país ainda tem jeito. Mas precisa despertar desse pesadelo.

AGENDA LOTADA


Faz três anos que os Pet Shop Boys lançaram seu último álbum, o ótimo "Super". Portanto, já estava na hora de Neil Tennant e Chris Lowe se manifestarem. Só que, ao invés de um long-play com 10 ou 12 faixas, os rapazes preferiram um formato muito em voga nesses tempos de streaming: o EP, ou extended play. "Agenda" tem apenas quatro músicas, mas todas têm potencial para hit single. Em especial "The Forgotten Child", que encerra este que é o mais abertamente político trabalho dos Pets - uma dupla que, aliás, nunca fugiu ao debate. Com críticas às redes sociais e à desigualdade do mundo, "Agenda" devolve relevância a esses veteranos, na estrada há mais de 30 anos. Daqui a pouco saem os remixes para as peeshtas.

quarta-feira, 6 de março de 2019

#MIJAIR

O Carluxo, ou seja lá quem cuide das redes sociais da presidência e seu entorno, está precisando da orientação de um adulto responsável. Foram dois tiros de canhão nos próprios pés durante o Carnaval. O primeiro partiu do 03, que deplorou o direito de Lula de comprecer ao enterro do próprio neto. O segundo veio ontem e está mais para uma saraivada, porque os disparos ainda não pararam. O mais recente é esta pergunta aí ao lado, que vem recebendo respostas maravilhosas no Twitter. Gargalhadas à parte, passa da hora de alguém rever a estratégia digital dos Solnorabo. Ela pode servir para mobilizar a base, mas não está conquistando novos fãs. Se a economia não reagir, o governo estará mijando em si mesmo.

(Minha coluna de hoje no F5 se aprofunda no assunto e lamenta a indginidade do presidente - e olha que ela foi escrita antes do tuíte do golden shower)

G.R.E.S. UNIDOS DA NETFLIX


Nesta semana pós-Oscar, tem muito mais filme que me interessa no streaming do que em cartaz nos cinemas (até porque eu já vi tudo). Por isto, me aconteceu uma coisa inusitada neste carnaval: fui uma única vez ao cinema, e me afundei no catálogo da Netflix. Uma das minhas primeiras escolhas foi o curioso "Pelas Ruas de Paris", lançado mundialmente com exclusividade pelo serviço. Trata-se de um filme francês sem muita história: menina conhece menino numa rave, tomam ecstasy juntos e se beijam mooointo, menino se muda para Barcelona e menina quer visitá-lo. Mas o avião que ela tomaria cai, e então ela entra em uma longa reflexão sobre o significado da vida e da morte. Tudo isso sob uma trilha eletrônica excelente e lindas imagens psicodélicas da capital francesa. Faz algum sentido? Não muito. É bonito? Ô se é.

Depois me aventurei pelo badalado "Velvet Buzzsaw". O diretor Dan Gilroy reúne os atores de seu aplaudido "O Abutre", Jake Gylenhaal e Rene Russo (sua mulher na vida real), e ainda junta Toni Colette e John Malkovich no elenco - além da inglesa Zawe Ashton, que está se tornando figurinha fácil em tudo quanto é filme. A história é digna de um terror de quinta categoria: as obras de um pintor que morreu sem alcançar a fama são mal-assombradas, e matam qualquer um que chegar perto delas. As cenas de sanguinolência parecem ridículas de propósito, com braços decepados e muita gritaria. Era para ser uma sátira ao mercado da arte? No final é só uma bobagem luxuosa, que diverte mas não instrui.

O espanhol "Árvore de Sangue" se pretende muito mais denso, e quase consegue. O diretor Julio Medem já assinou trabalhos importantes como "Os Amantes do Círculo Polar" e "Lucía e o Sexo". Dessa vez ele se arrisca em uma rocambolesca saga familiar que tem espaço até para a máfia da antiga república soviética da Geórgia. Mas a fotografia é belíssima e o elenco traz dois atores que se tornaram conhecidos por aqui graças à enxurrada de séries não-anglófonas dos últimos tempos: a espanhola Úrsula Cerberó, a Tokyo de "A Casa de Papel", e o guapo canastrão argentino Joaquín Furriel, de "O Jardim de Bronze". Não é uma obra-prima, mas ainda é melhor do que ser roubado no bloquinho.

terça-feira, 5 de março de 2019

PONTO PARA O DEMÔNIO

É sabido que os evanjas precisam inventar inimigos para mobilizar as hordas que os sustentam. As guei são alvos preferenciais, mas volta e meia surgem imbecilidades feito a "cristofobia" aventada pelo pio Eduardo Cunha uns anos atrás. Hoje saiu a notícia de que a bancada evangélica quer processar por "intolerância religiosa" a escola de samba paulistana Gaviões da Fiel por causa da comissão de frente, em que Jesus Cristo lutava contra o demônio - e este parecia levar a melhor. Veja bem: não havia referência a religião alguma, e o embate entre Deus e o diabo é comum a todas as centenas de divisão do Cristianismo. Não se xingou nenhum líder, não se expôs nenhum fiel ao ridículo. Mas os evanjas radicais necessitam da guerra perpétua, e vão para a Justiça contra a escola. Duvido que dê em alguma coisa, mas este round marca mais uma pequena vitória do demo. Aliás, quem há de negar que o Cão tem ganhado todas ultimamente?

É FÁCEL ESPALHAR FAKE NEWS

O Bozo é muito, mas muito pior do que um mero despreparado. É uma pessoinha desprezível, com a envergadura de um chefe de gangue de ladrões de galinha. Mordido com os gritos de "vai tomar no cu" que tomaram os blocos de norte a sul do país, Solnorabo resolveu contra-atacar com essa marchinha mentirosa, que difama Caetano Veloso e Daniela Mercury. Os dois artistas, que lançaram "Probido o Carnaval" para protestar contra a Damares, voltam a ser alvo de calúnias. Nunca nenhum dos dois dependeu da Rouanet (que, by the way, gasta menos do que a metade do que é gasto com as pensões para as filhas solteiras dos militares). Mas faz parte  da estratégia da extrema-direita demonizar os artistas.  Acossado por denúncias de laranjas e milícias, o clã Boçalnaro se defende espalhando fake news, aliás como sempre. Eles precisam realmente ficar espertos, porque quem votou neles só por causa do antipetismo já está percebendo a cagada que fez. Vão cair "facelmente", como o Bozo tuitou ontem.

segunda-feira, 4 de março de 2019

LEGAL PACARAIMA

Difícil interpretar o que está acontecendo na Venezuela. Juan Guaidó não só não foi preso ao desembarcar no aeroporto de Maiquetía como ainda protagonizou um comício-monstro no centro de Caracas - e SUBIU NUM ANDAIME, como se vê na foto acima. Como que nenhum franco-atirador a soldo de Nicolás Maduro não derrubou o autoproclamado presidente inter.ino? O ditador deve estar com medo da reação internacional. Mas isto quer dizer que o regime está periclitando?

DROGA LEVE


A única coisa que ergue "Querido Menino" acima da mediocridade é Timothée Chalamet, e olha que eu não digo isto só porque estou apaixonado pela criatura mais linda que Deus pôs na Terra. Mas são a beleza e o talento de Timmy que fazem com que este filme, um bem-intencionado relato da luta de um pai para salvar o filho das drogas, não seja imediatamente esquecido. Não que "Querido Menino" seja ruim. Os atores estão bem e o roteiro não tem furos, embora jamais explique por que o protagonista se afundou na crystal meth. Pena que o diretor belga Felix Van Groeningen, que me fez chorar feito um bebê de colo em "Alabama Monroe", desta vez não tenha me suscitado nenhuma emoção mais forte do que checar as horas. Ainda acho que Timothée merecia ter sido indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante, no lugar de Sam Elliott ou Sam Rockwell. Só espero que este trabalho marromeno não sirva de porta de entrada para ele rodar filmes realmente ruins, desses que fazem mal à saúde.

domingo, 3 de março de 2019

VOU ESCANGALHAR O TELEMÓVEL

Já começam a surgir as concorrentes do Eurovision, que acontece daqui a dois meses em Israel. A Itália vai mandar "Soldi", a vencedora do Festival de Sanremo, cantada por um filho de imigrantes árabes chamado Mahmood. Portugal definiu ontem, na Festival da Canção, sua candidata: o vira futurista "Telemóveis", com o indefinível Conan Osiris. Como o público do Eurobichion gosta dessas viadagens, acho que até dá para passar para a segunda fase - o que é raro para os tugas.

sábado, 2 de março de 2019

ENROSCADOS NAS REDES

A familícia Boçalnaro teve uma ascensão meteórica gracas às redes sociais. Sem papas na língua nem apreço às regras gramaticais, o Bozo e sua prole numérica conquistaram um grande número de seguidores fanáticos, alguns ainda mais cretinos do que eles. A onda se avolumou depois da facada, que gerou compaixão em gente que não estava nem aí para o clã, e se juntou a uma vaga ainda mais poderosa, a do antipetismo. O resultado foi a vitória nas eleições. Mas os jovens Solnorabo ainda não perceberam que o Brasil não se transformou em uma ditadura hereditária, e continuam se comportando com a desfaçatez de Uday e Qusay Hussein, os filhos de Saddam (que a gente sabe como acabaram). Entenderam menos ainda que agora tudo o que eles postam nas redes sociais têm um alcance muito maior do que antes. Não estão falando só com o fã-clube: o país inteiro está de olho neles, e nem sempre pronto para aplaudir. O 03 deu uma derrapada gostosa ontem. Achou que iria agradar suas macacas de auditório com um tuíte tripudiando do sofrimento de Lula, que perdeu um neto de sete anos de idade. A reação negativa foi imensa, vinda até de quem votou no pai dele, e hoje o pau-pequeno teve que se explicar. Explicou mal, é claro: disse que Lula não merece tratamento diferenciado, esquecendo-se que o comparecimento ao funeral de parentes próximos é um direito de todos os presos. Como os Bostonazi não aceitam palpites de gente de fora da curriola (vide o caso Ilona Szabó), não há um único assessor que possa dizer para eles maneirarem. Portanto, vai ser engraçado vê-los se enforcando com a própria corda. As mesmas redes sociais que ergueram a familícia irão derrubá-la, e este processo já está em andamento.

sexta-feira, 1 de março de 2019

PRONTA PARA O CLOSE-UP

Justiça poética: apenas alguns dias depois de perder o Oscar pela sétima vez, Glenn Close viu confirmado seu maior projeto. "Sunset Boulevard", o musical de Andrew Lloyd Weber que lhe rendeu um prêmio Tony e um enorme sucesso na Broadway, finalmente vai virar filme. Close repetirá na tela o papel de Norma Desmond, a diva do cinema mudo que sonha com uma volta triunfal. As filmagens começam em outubro, o que sinaliza um lançamento no final do ano que vem. Será que, em 2021, Glenn Close será indicada ao Oscar pela oitava vez? Será que... ganha? Para isto o filme vai ter que ser bom, e eu tenho as minhas dúvidas. O diretor será o coreógrafo Rob Ashford, que nunca fez cinema na vida (mas é para isto que existem os assistentes). Ainda falta anunciar o resto do elenco: Hugh Jackman? Ewan McGregor? Jake Gylenhaal? Eu adoraria ver Olivia Colman no papel de uma criada... Mas o que realmente importa é que La Close, com o perdão do trocadilho óbivo, está mais do que pronta para seu close-up.

BALANÇA MAS NÃO CAI


El Capitán é uma formação rochosa com mais de 900 metros de altura. Fica no Parque Nacional de Yosemite, na Califórnia, e uma de suas faces é um paredão desafiador até para alpinistas experimentados. Imagine, então, escalar esse troço usando apenas a força das mãos e dos pés, sem cordas nem nenhum equipamento de segurança. Basta um errinho bobo para a morte certa. Mas Alex Honnold é doido o suficiente para tentar. Ele também é o assunto de "Free Solo", que ganhou o Oscar de melhor documentário e estreia no canal Nat Geo no dia 9 de fevereiro. O filme revela um pouco da personalidade de Alex: uma criança tímida que se tornou um rapaz que vive sozinho em um trailer, com uma certa dificuldade em manter namoradas (ele prefere arriscar a vida do que agradar às moças). O falecido pai de Alex era portador da Síndrome de Asperger, dentro do espectro do autismo; eu não me espantaria se o filho fosse diagnosticado com algum distúrbio que o impede de ter empatia ou uma correta avaliação dos riscos. Ele continua brincando com a sorte, mesmo depois que alguns de seus colegas se esborracham, e insiste em conquistar El Capitán no mano a mano. Para tanto, ele escala a rocha diversas vezes da maneira tradicional, com cordas, aprendendo onde fica cada reentrância e cada saliência. Isto permite que ele identifique o trajeto menos perigoso, por onde dá início à empreitada, em uma manhã clara de verão. As quatro horas de escalada são resumidas em poucos minutos, mas suficientes para fazer alguém que morre de medo de altura (tipo eu) tapar os olhos com as mãos. Foi um sofrimento acompanhar esta sequência final, mesmo sabendo que Alex seria bem-sucedido. Mas convém não se apegar muito: o cara pretende continuar na prática. Portanto, não será surpresa a notícia de sua morte nos próximos anos. "Free Solo" trata de uma personalidade muito menos importante do que a juíza Ruth Bader Ginsburg, retratada em "RBG". Mas suas imagens de tirar o fôlego, captadas por drones ou cameramen pendurados no vazio, fazem algo a mais do que o outro favorito ao Oscar: avançam o cinema.