quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

NOUVELLE TRISTESSE

Cheguei hoje de manhã ao Brasil e dei de cara com duas notícias trágicas. A maior delas é a enchente no Rio de Janeiro. Ainda nem acabamos de contar os mortos de Brumadinho e já ocorreu outro cataclisma, também totalmente inesperado, imprevisível, surpreendente. Afinal, quando foi que choveu forte no Rio durante o verão? A outra notícia me atingiu mais diretamente: a morte do Carlos Fernando. Eu conheci o cantor no final dos anos 80, quando a cena musical paulistana teve um mini-boom que gerou grupos como o Luni, Os Mulheres Negras e o Nouvelle Cuisine. Este último era apenas a coisa mais sofisticada que já floresceu no pop brasileiro, com releituras inventivas de standards de jazz e algumas músicas próprias. Mas o melhor de tudo era a voz de Carlos Fernando: um timbre incrível, com uma interpretação suave e irônica ao mesmo tempo. Ele gravou com Ângela Maria e Sarah Vaughn, mas seu momento de maior destaque foi o dueto com Marisa Monte no primeiríssimo disco dela, registrado ao vivo. Eu tive a sorte de assistir a este show no MASP, e também vi o Nouvelle Cuisine algumas vezes. Mas a banda não chegou a completar uma década, e Carlos Fernando saiu dela no final dos anos 90. Em 1999 ele ainda lançou seu único disco-solo, dedicado inteiramente à obra De Chico Buarque. Consta que o próprio Chico adorou, porque o álbum focava mais na melodia de suas canções do que nas letras. Depois disso, Carlos Fernando ainda fez alguns shows em bares, mas aos poucos foi se afastando da música e focando na carreira de arquiteto e artista plástico. Não sabia nada dele há muitos anos, e fiquei chocado com sua morte solitária: ele foi encontrado caído em seu apartamento, dois ou três dias depois de um enfarte fulminante. Uma tristeza enorme, ainda mais porque fica a sensação de um imenso desperdício.

8 comentários:

  1. Tragedia foi a privatização da Vale. Estamos na merda há anos querido. Ou nos revoltamos ou...

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    1. Não, tolinho. Tragédia é a má gestão, seja na empresa pública ou na privada. Veja o que aconteceu na Petrobrás. E a privatização das telefônicas fez com que o telefone deixasse de ser um artigo de luxo.

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  2. Eu o vi ano passado, andando pela calçada, num fim de tarde, praticamente em frente ao prédio que morava na Rua Aureliano Coutinho. Edifício com uma fachada muito chic, reformada por ele. Muito soturno e envelhecido; eu o achei muito triste . Na hora pensei num artista de luxo que ñ tem o devido e merecido reconhecimento...uma história , infelizmente , tantas vezes vista. Que Deus o receba de braços abertos.

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  3. Muito triste com a morte dele. Vi um show do Nouvelle no Centro Empresarial de SP na hora do almoço, em um programa que apresentava vários artistas aos funcionários. Fiquei muito impressionado com o talento dele e ainda fui sorteado com uma camiseta da banda, que recebi de suas mãos no palco!

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  4. Tony,

    Que delicia de canção, que voz de veludo desse cara, não que eu seja um grande conhecedor de música, mas há uma elegância, uma beleza... e nunca tinha ouvido falar dele aqui em Ssa/Ba.
    Ele chega a ofuscar Marisa, algo que já é sobrenatural! Rs

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  5. O Mio Babbino Caro
    Que perda que triste...Um cara como aquele morrer assim...Deus não se importa não? Quantas vezes não ouvi três da madrugada as três da madrugada... Tudo que ele inspirava, Otis Reding, Gershwin...Flores a ele...

    Quanto ao Rio né, Jards já cantou "Cidade Lagoa" há tanto tempo...na natureza os "intrujões" somos nós.

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