quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

MORO DE MEDO

"Não se nomeia ministro a quem não se possa demitir". Muito se repetiu esta frase quando o Bozo indicou Sergio Moro para o ministério da Justiça, no final do ano passado. Falou-se até que o ex-juiz teria carta branca para fazer o que bem quisesse. Mas a estatura de Moro começou a diminuir assim que ele aceitou o cargo: afinal, ao longo da Lava-Jato, ele disse algumas vezes que não estava interessado em se bandear para a política. O algoz de Lula encolheu ainda mais quando passou a conviver numa boa com o laranjal do PSL e os vínculos do clã Boçalnaro com as milícias do Rio de Janeiro. Ontem ele pareceu recuperar a hombridade ao convidar Ilona Szabó para o Conselho de Seguranca Criminal e Penitenciária. Mas a minionzada chiou, e hoje Moro abriu as pernas. Desconvidou uma das maiores especialistas em segurança pública do Brasil e ainda admitiu que foi por causa da "repercussão negativa" nas redes sociais. Acuma? Então trata-se mesmo de um bundão movido a likes? Ou então levou um pito do chefe, este sim um macaco que só faz o que a plateia gosta. O ex-super-herói morreu de medo de perder a sinecura: não pode mais voltar a ser juiz. Também nunca mais será o paladino que enganou tanta gente.

O DOMO DA DISCÓRDIA


De todas as maluquices que pastam soltas na internet, nenhuma me parece mais bizarra do que o terraplanismo. Até entendo como uma pessoa que tem as primeiras letras consegue acreditar no criacionismo, ser contra as vacinas ou mesmo votar no Bozo. Mas refutar milênios de evidências em troca de uma crença que não traz benefício algum - só a sensação de ser mais esperto que o sistema - é de uma estupidez infinita. Só que os fiéis da Terra Plana estão se multiplicando, ao sabor da onda de boçalidade e anti-intelectualismo que varre o mundo. Eles se apoiam no conceito de liberdade de opinião, mas opinião é gostar de macarrão com arroz. Eu sempre achei que essa galera precisava ser exposta ao ridículo, mas o documentário "A Terra É Plana", disponível na Netflix, me fez mudar de ideia. Os cientistas entrevistados dizem que é preciso não alienar ainda mais os birutas, que eles encaram como mentes inquisidoras, e sim trazê-los para a luz. O filme também mostra alguns dos líderes do movimento, como o carismático Mark Sargent: um cinquentão que ainda mora cm a mami e só usa boné, bermudas e camisetas que o identificam como um dos sumo-sacerdotes da seita que prega que o mundo é chato feito uma panqueca e o sol e a lua, apenas dois lustres pendendo de um domo. Não há uma única pessoa séria entre os terraplanistas. São todos meio marginais, querendo compensar a falta de estudo e de sucesso pessoal com uma teoria da conspiração com cinco mil anos de idade. Eles ainda não oferecem perigo imediato como os antivaxx, que já vêm causando mortes por onde se instalam. Mas podem causar um estrago considerável a médio prazo, com sua ignorância e arrogância.Vamos tratá-los com carinho, mas sem validar suas ideias abiloladas.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

UM GOVERNO NA ILONA

Um dos poucos prazeres que nos restam é ver a minionzada passando vergonha nas redes sociais. Ontem tinha minion defendendo que se filmasse as crianças cantando hino nas escolas, mesmo depois do burraldo do Vélez ter pedido perdão pela cartinha estúpida que enviou na véspera. Hoje é a vez deles atacarem Ilona Szabó, uma das cabeças mais racionais deste país, só porque ela foi nomeada SUPLENTE para o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, um órgão meramente consultivo. Sergio Moro revelou que ainda não é um caso perdido ao escolher a cientista política para o cargo, mas consegirá ele reagir à pressão dos imbecis? Ilona de fato fez campanha contra o Bozo e é meio surpreendente que ela aceite um cargo no atual governo, ainda que sem real poder. Eu também votei contra, mas acho que sua presença pode trazer um pouco de sanidade a este debate - que, de resto, pode trazer consequências terríveis para a população.

FREDDIE & GRACE

Todo mundo sabe que Rami Malek não foi o primeiro nome cogitado para encarnar Freddie Mercury no cinema. Johnny Depp, Sacha Baron-Cohen e Ben Whishaw chegaram a ser anunciados para o papel que acabou rendendo um Oscar ao ator de "Mr. Robot". O que eu sequer desconfiava é que Eric McCormack, o Will de "Will & Grace", quase chegou a intrerpretar o cantor do Queen em um filme que seria produzido pela banda e por Elton John, muitos anos atrás. Nunca tinha pensado nisso, mas Eric é de fato meio parecido com o finado Farroukh Bulsara. Inconformado, ele de vez em quando ainda se caracteriza como Freddie Mercury para entreter a plateia das gravações de sua sitcom, e até já fez uma aparição rapsódica em um episódio do ano passado. Teria convencido em "Bohemian Rhapsody"? Ou somebody better put you back into your place?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

RIR PARA NÃO CHORAR


Ontem à noite eu mediei o debate após a exibição do filme "Tá Rindo de Quê?" promovida pela Folha de S. Paulo. O documentário é dirigido pelo Cláudio Manoel do Casseta & Planeta e pelos meus chapas Alê Braga e Álvaro Campos, e traça um painel do humor brasileiro durante os anos da ditadura militar. Mas não só do humor engajado: fala-se muito do "Pasquim" e da censura, claro, mas também dos programas de TV de Jô Soares, Chico Anysio, Renato Aragão e Carlos Alberto da Nóbrega, e até do Asdrúbal Trouxe o Trombone, o grupo de teatro que revelou, entre outros, Regina Casé e Luís Fernando Guimarães. O filme cumpre várias funções: resgata imagens e piadas que estavam meio esquecidas, explica o contexto da época e nos encoraja a resistir à onda de boçalidade que varre o Brasil e o mundo. "Tá Rindo de Quê?" entra em cartaz nesta quinta, e em maio chega a segunda parte - "Rindo à Toa", sobre o humor brasileiro do anos 90. Um tercerio episódio, sobre o politicamente correto, está em produção.

PÁTRIA DESEDUCADORA

Cantei o Hino Nacional durante toda a minha adolescência. Uma vez por semana (ou por mês, não me lembro mais), minha classe descia ao pátio do colégio para o hasteamento da bandeira. Não era chato, muito pelo contrário: desse jeito não tínhamos aula! Também cursei as matérias de Educação Moral e Cívica e Organização Sócio-Política Brasileira (a famigerada OSPB, que, para ser sincero, eu acho bastante útil). Éramos ensinados que a Revolução de 1964 havia salvo o país do comunismo e a festejar o dia 31 de março. Nada disso impediu que eu me transformasse nessa bicha louca, feminista, pró-liberação das drogas e abortista. Por isto, RIO ALTO quando vejo que a minionzada acha que o "respeito aos símbolos nacionais" irá produzir uma geração inteira tão cretina quanto eles. Mas nada contra cantar o hino: faz parte da nossa história, e saber história nunca foi tão importante. Mas a cartinha do pseudo-ministro Rocardo Vélez enviada a escolas de todo o país vai muito além da mera patriotada. Como é que esse sujeito não tem um assessor jurídico, um departamento do Vai-Dar-Merda? Ninguém para avisar a ele que não se pode pedir para os colégios filmarem seus alunos, muito menos enviar essas imagens para o governo? Vélez não faz a puta ideia do que seja a nossa constituição ou de como funciona o governo. Hoje ele já se retraiu, pediu desculpas e alegou que tudo não passou de um enorme mal-entendido. Quem entendeu mal foram os brasileiros que votaram nessa corja, pois era meio óbvio que o nível era baixíssimo. O Bozo tem que perceber que esses ministros folclóricos agradam a uma nesga da população, e são capazes de produzir danos reais. Agora verão quem é que não foge à luta.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

O OSCAR? BAO BAO

Consegui ver todos os cinco curtas de animação indicados ao Oscar. Não tem segredo nenhum: estão todos no YouTube, é só procurar pelo nome. Até o premiado "Bao" está lá, o único que passou pelos cinemas brasileiros (como complemento de "Os Incríveis 2"). Foi uma vitória merecida, pois tudo em "Bao" é superior à concorrência, do visual ao roteiro. Mas todos os finalistas são bons.
"Animal Behaviour" é o mais longo dos cinco e também o único que não celebra a passagem de um momento para o outro da vida. O filme tem um humor sarcástico, para adultos, e faz lembrar que nem toda animação precisa ser fofa.
"Late Afternoon" vem da Irlanda e é o mais simples de todos. Seu estilo visual é antiquado - poderia ter sido feito nos anos 60 - mas isto faz parte de seu charme.
Fofura é o que não falta em "One Small Step", o mais infantil e sentimental entre os cinco concorrentes. Apesar do nome exótico, o Studio Taiko é britânico.
"Weekends" também tem uma história com que muitas crianças contemporâneas se identificam. O protagonista é um garoto que passa os finais de semana com o pai divorciado. Mas o ponto de vista é o de um adulto relembrando sua infância.

FOMOS ROUBADOS

Não consigo descrever minha indignação. Esta era para ser a noite de Glenn, o ano de Glenn, a consagração definitiva. Mas a ingrata da Academia achou que não: eu quase caí da cadeira quando o nome de Olivia Colman foi anunciado. Nada contra a atriz COADJUVANTE de "A Favorita", e ela mesma lamentou ter derrotado Glenn Close. Saí da Folha putaço, onde fui participar do live blog do Oscar, e miha fúria se esparramou pela minha coluna de hoje no F5. Glenn não merecia ser humilhada desse jeito. Você me paga, sua Academia duma figa.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

EU NÃO VOU DAR, EU VOU DISTRIBUIR

Os Oscars desta noite podem dividir muitas águas. A possível vitória de "Roma" como melhor filme superaria dois obstáculos importantes: seria o primeiro longa em língua estrangeira e o primeiro da Netflix a levar o prêmio principal. Aliás, a Academia tem feito um esforço considerável para se tornar menos americana e mais internacional. Convidou artistas e técnicos do mundo inteiro para se tornarem membros (no ano passado foram oito brasileiros, incluindo Carlinhos Brown) e categorias como documentário ou animação já cobrem o planeta inteiro. Além do mais, três dos indicados ao troféu de melhor fotografia deste ano vêm de filmes estrangeiros (Alemanha, México e Polônia). Claro que ainda falta mais representatividade nas categorias de atuação, mas a tendência é aumentar a presença de gringos. Outra curiosidade é a presença de três blockbusters entre os oito concorrentes a melhor filme: "Pantera Negra", "Bohemian Rhapsody" e "Nasce Uma Estrela". Só isto já bastou para soterrar a categoria "filme popular", uma ideia que foi levantada. Resta ver como a cerimônia irá se desenrolar sem um apresentador fixo e tanto drama nos bastidores. Mas nothing really matters, porque o Queen é quem vai abrir o show!

Seguem minhas profecias:

MELHOR FILME
Vai ganhar: "Roma". Tem gente falando em "Green Book" ou até mesmo "Bohemian Rhapsody", mas os precursores apontam para mais essa vitória.
Mas eu daria para...: "Roma" mesmo. Até gostei mais da segunda vez!

MELHOR DIRETOR
Vai ganhar: Alfonso Cuarón, "Roma". Quinta vez que o troféu vai para um mexicano em seis anos (dois desses mexicanos repetiram).
Mas eu daria para...: olha, eu não ia achar ruim se Spike Lee vencesse. Nem acho "Infiltrado na Klan" tão maravilhoso assim, mas a importância de Lee para o cinema americano merece um Oscar. E que outro diretor negro merecia mais ser o primeiro a vencer?

MELHOR ATOR
Vai ganhar: Rami Malek, "Bohemian Rhapsody", para o horror dos puristas. Dizem que, na verdade, a Academia estará premiando Freddie Mercury. Pergunta se eu acho isso ruim.
Mas eu daria para...: Malek, mesmo. Eu sou queenófilo desde os 14 anos de idade e me espantei como ele captou até o OLHAR do meu ídolo de adolescência. Dito isso, Bradley Cooper (que nunca ganhou) e Christian Bale (que venceu uma vez, como coadjuvante) também mereciam muito.

MELHOR ATRIZ
Vai ganhar: Glenn Close. Chegamos a um ponto que não é ela quem vai ganhar o Oscar, é o Oscar que vai ganhar Glenn Close. A Academia não precisa de mais injustiças históricas, como Richard Burton ou Peter O'Toole terem sido indicados trocentas vezes e nunca vencido um Oscar competitivo (O'Toole ganhou um honorário). Glenn é uma atriz de primeira grandeza e todos já sabem que lhe falta um Oscar.
Mas eu daria para...: dããã. Glenn Close é minha atriz favorita há mais de 30 anos. Eu torceria por ela se a outra indicada fosse a Virgem Maria. "Ãin, e a Olivia Colman?" Fantástica. Fabulosa. Jovem. Pode esperar mais um pouco. Fora que a rainha Anne é COADJUVANTE em "A Favorita" (a protagonista é a personagem da Emma Stone). Olivia teria papado o Oscar dessa categoria, mas a inscreveram como atriz principal para torná-la mais famosa. Conseguiram, next.

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Vai ganhar: Mahershala Ali, infelizmente. Nada contra, mas não tem porque ele vencer de novo, apenas dois anos depois da primeira vitória. Fora que seu personagem é protagonista, não coadjuvante. Ainda tenho esperança de que o prêmio vá para...
Mas eu daria para...:Richard E. Grant, perfeito em "Você Poderia Me Perdoar?" e jamais indicado antes, apesar da longa e ilustre carreira. Ontem ele ganhou o Independent Spirit. Oremos.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Vai ganhar: Regina King, apesar de nem ter sido indicada ao SAG Award. E apesar de "Se a Rua Beale Falasse" ser um filme bem marromeno e ela estar apenas OK.
Mas eu daria para...:Amy Adams, a próxima Glenn Close - esta já é sua sexta indicação.
 
MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Roma". Uma das barbadas da noite.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"A Favorita", no que periga ser seu único prêmio.
 
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Infiltrado na Klan". A chance da Academia de dar alguma coisa para o Spike Lee.

MELHOR FOTOGRAFIA
Três filmes estrangeiros e dois em preto-e-branco competem. Vai dar "Roma", cuja fotografia foi feita pelo próprio Alfonso Cuarón.

MELHOR MONTAGEM
"Bohemian Rhapsody"! Revi no avião, gostei menos que da primeira vez, mas a edição é mesmo primorosa. E salvou o que poderia ser uma colcha de retalhos, feita por dois diretores diferentes.

MELHOR DESENHO DE PRODUÇÃO
Páreo duríssimo. Sabia que aquelas ruas mexicanas da década de 70 em "Roma" são cenários? Pois é. Mas são mais impressionantes que a Wakanda de "Pantera Negra"? Vou de "Pantera", sem muita fé.

MELHOR FIGURINO
Outra batalha imprevisível: "A Favorita", que usa tecidos modernos para reinterpretar o século 18, ou o afrofuturismo de "Pantera Negra"? Politicamente, "Pantera" tem vantagem, então vou nela.

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO
"Vice". Mas dizem que a do filme sueco "Border" é de cair o queixo. Ele seria o favorito aqui, se estivesse concorrendo em outras categorias.

MELHOR TRILHA ORIGINAL
Ninguém desponta como fortíssimo. Na dúvida, vou de "Pantera Negra" outra vez.

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
A outra barbada da noite: "Shallow", de "Nasce uma Estrela".

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"O Primeiro Homem". Acho justo.

MELHOR MIXAGEM DE SOM
"Bohemian Rhapsody". Ou seja, mais um prêmio para as músicas do Queen.

MELHORES EFEITOS VISUAIS
No últimos anos, o prêmio dessa categoria recheada de blockbusters foi para o indicado de MENOR bilheteria. Por esta regra, o vencedor será "O Primeiro Homem".

MELHOR LONGA EM ANIMAÇÃO
Chola, Pixar: desta vez quem leva é "Homem-Aranha no Aranha-verso".

MELHOR CURTA EM ANIMAÇÃO
Comemola, Pixar: seu "Bao" leva este para casa.

MELHOR CURTA COM ATORES
O favorito - e também o mais polêmico - é "Detainment", inspirado no caso real dos dois garotos ingleses de 12 anos que mataram um outro de dois, só pelo prazer. A mãe da vítima quer tirar o filme de circulação. Como a Academia não curte uma censura, pode dar o prêmio só de pirraça.

MELHOR DOCUMENTÁRIO DE LONGA-METRAGEM
"Free Solo" vinha sendo apontado como o favorito, mas "RBG" (que eu vi no avião e adorei) despontou nas últimas horas. Vai, Ruthm vai!

MELHOR DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM
Estão falando muito em "Absorvendo o Tabu", que pode ser visto na Netflix. 

Hoje à noite, a partir de 20h30, vou estar no live-blogging da Folha comentando em tempo real o tapete vermelho, a cerimônia em si e as premiacões do Oscar. Entre na home da Folha, que de lá te redirecionam.

SEQUESTRO NÃO-RELÂMPAGO


Já vi cinco filmes do iraniano Asghar Farhadi e só gostei para valer de um: "O Passado", que ele rodou na França, mas com personagens oriundos de seu país. Seu último longa, "Todos Já Sabem", foi feito na Espanha, em parte porque há situações que jamais poderiam acontecer no Irã. Uma mulher (Penélope Cruz, melhor do que nunca em todos os sentidos) vem com seus três filhos da Argentina para seu pueblo, para o casamento da irmã. Reencontra o ex-namorado (Javier Bardem, que parece mais gordo a cada cena), mas tudo de boas: ambos estão casados e felizes com outras pessoas. A festa é uma delícia, filmada daquele jeito que dá vontade de entrar nela, mas termina mal. A filha mais velha da mulher desaparece, e logo aparecem mensagens pedindo um resgate de 300 mil euros. Aí, o ritmo despenca e o espectador é obrigado a participar da agonia da família, em que o tempo para e o desespero só aumenta. A chegada de Ricardo Darín como o marido argentino na segunda metade do filme dá uma reanimada, e então surge o tal do segredo que todo mundo meio que já sabia. É nisto que mora o defeito do roteiro de Farhadi: ele pensou em uma situação de fora para dentro, sem desenvovler direito os personagens, e a revelação do mistério não abala nenhuma estrutura. "Todos Já Sabem" abriu o festival de Cannes do ano passado e chegou a ser cotado para representar a Espanha neste Oscar, mas também recebeu um brumadinho de críticas negativas. Não é horrível, tem momentos bem interessantes, mas fica bem aquém do que se esperava de um diretor que já faturou um Urso de Ouro e dois Oscars.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

I LOVE YOUR FUNNY FACE

Hoje morreu Stanley Donen, diretor do mais aclamado musical de todos os tempos - "Cantando na Chuva". Também é dele o filme de que eu mais gosto na vida, "Funny Face", traduzido no Brasil como "Cinderela em Paris". Vi pela primeira vez numa Sessão da Tarde antes de conhecer Paris pessoalmente, e vi pela segunda num cinema lá mesmo, aos prantos. Depois perdi a conta, porque comprei em VHS e também em DVD. É a perfeição em celulóide: tem tiradas finíssimas no roteiro, locações deslumbrantes, Fred Astaire, canções de George e Ira Gershwin, Audrey Hepbrun, figurinos de Givenchy. A sequência acima culmina com a Vitória de Samotrácia no Louvre, a imagem mais icônica do filme. Deu vontade de rever tudo. E criar coragem para fazer uma versão gay da história.

O CHICO E O OSCAR


Documentários de curta-metragem são uma relíquia do tempo em que não existia a televisão. Eles eram exibidos nos cinemas, junto com desenhos animados, curtas de ficção, episódios de seriados e um ou dois longas, em programas que podiam durar mais de quatro horas. A Academia de Hollywood reconhece há décadas a importância do gênero para a formação de novos cineastas, e dedica um Oscar para a categoria. Mas, até pouco tempo atrás, os "short docs" passavam batido até para quem mora nos Estados Unidos. Isto vem mudando: com a fragmentação dos canais de comunicação, agora eles podem ser vistos na TV paga ou no streaming. É o caso do favorito deste ano, que está disponível na Netflix. "Absorvendo o Tabu" foi financiado por uma ONG que quer facilitar o acesso das mulheres do mundo inteiro aos absorventes femininos, e decidiu produzir o filme justamente em um país onde a menstruação é um assunto proibido: a Índia. Quem já visitou um templo hindu certamente se espantou com o aviso na porta que proíbe a entrada de mulheres "impuras". A desinformação é generalizada entre os indianos, e muita gente - mulheres, inclusive - acha que o "chico" é uma espécie de doença a ser combatida. Para piorar, as marcas ocidentais de tampões e similares são muito caras para a maioria da população. A solução são essas máquinas semi-caseiras, muito usadas no Brasil para fabricar fraldas descartáveis. Em apenas 25 minutos - menos do que o tempo de arte de um "Globo Repórter" - o filme conta uma história de superação e empoderamento que vai na direção oposta à maré obscurantista que nos aflige. Apesar do tom chapa-branca, vale a pena ver "Absorvendo o Tabu". Até para quem nunca menstruou.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

MADURANDO LA GUERRA

Ia ser engraçado - e também trágico, é claro - se em menos de dois meses da presidência do Bozo o Brasil entrasse em seu primeiro conflito armado na América do Sul desde a Guerra do Paraguai. Tem maluco no governo doido para entrar em combate (ou melhor, mandar outros brasileiros entrarem), mas parece que nenhum deles é militar. Até já começou a correr sangue na nossa fronteira norte, mas eu duvido muito que essas escaramuças escalem para algo maior. Já a tão temida guerra civil venezuelana parece uma possibilidade mais concreta a cada hora que passa. Estou assistindo pela TV ao Venezuela Aid Live no momento em que escrevo este post, e me chama a atenção que o logo do show traga um mapa do país que inclui a região de Essequibo, aqueles dois terços da Guiana que a Venezuela diz serem dela. Ou seja: não vai faltar motivo para todo mundo sair dando tiro por aí.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O SUICÍDIO DE UMA CARREIRA

Custo a acreditar nessa história do Jussie Smollett. Como que ele achou que a notoriedade rendida por um suposto ataque racista e homofóbico iria lhe aumentar o salário? Como que ele achou que ninguém iria descobrir a farsa? Agora que a máscara caiu, Smollett de fato se tornou uma vítima. Morreu numa grana para pagar a fiança, destruiu a própria carreira e ainda periga ir em cana. Mas o estrago causado pelo babaca vai bem além de si próprio. Daqui em diante, qualquer pessoa que realmente for atacada vai ser posta em dúvida, porque a homofobia não existe e somos todos mimizentos e pipipi popopó. Num momento delicado como o atual, o ex-integrante do elenco de "Empire" deu uma baita munição aos nossos inimigos. Tenho vontade de eu mesmo pegar um tchako e dar na cara desse cretino.

YOU CAN'T SPELL TRUTH WITHOUT RUTH


Ruth Bader Ginsburg, a segunda mulher a se tornar juíza da Suprema Corte dos Estados Unidos, é uma lenda viva. Uma heroína com mais de meio século de luta pelos direitos da mulher (incluindo a legalização do aborto) e pautas progressistas em geral. Como ela está com quase 86 anos de idade e a saúde cada vez mais frágil, já estão surgindo filmes em sua homenagem. Um deles, "Suprema", estreia no Brasil no dia 14 de março e é uma dramatização, com Felicity Jones no papel da magistrada. O outro não tem previsão de chegar aqui: o documentário "RBG", indicado a dois Oscars, que eu vi no avião que me trouxe de volta da Inglaterra. Em pouco mais de uma hora e meia, as diretoras Julie Cohen e Betsy West traçam um retrato convincente da tímida moça judia que se tornou uma advogada vitoriosa nos anos 70, o que a cacifou para o mais alto tribunal do país. Ruth teve a sorte de se casar com um homem compreensivo, que sempre a incentivou na carreira - e isto em um tempo em que lugar de mulher era na cozinha. Também foi abençoada com muita determinação, ótimo senso de humor e uma grandeza de espírito capaz de torná-la amiga de seu maior adversário na Corte, o abominável Antonin Scalia (que o demônio o tenha - eu não possuo essa grandeza). Nos últimos anos, The Notorious RBG - uma brincadeira com a alcunha do rapper B.I.G. - tornou-se uma figura pop, inspirando camisetas, tatuagens e paródias no "Saturday Night Live". E também uma espécie de Mother of Dragons da vida real, mais do que necessária nesse tempos boçais por que estamos atravessando.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

MACUMBA PSICOLÓGICA

O Brasil foi vítima de um feitiço. As declarações machistas, racistas e homofóbicas de um deputado do baixo claro atraíram a atenção da mídia, que o transformou em presença constante nos Superpops da vida. Tais barbaridades horrorizaram boa parte do país, mas encantaram a outra. Quando o deputado se candidatou à presidência, a imprensa tentou confrontá-lo quanto a essas opiniões – o que só aumentou sua popularidade. Quando se percebeu que o flanco por onde o celerado deveria ser atacado – seu despreparo – já era tarde. Um providencial atentado à faca o retirou dos debates e entrevistas, e o converteu em mártir para muita gente. O cara acabou eleito com quase 60 milhões de votos.

Um pouco antes do segundo turno, eu soltei um post aqui no blog lamentando a pequenez da alma do Bozo. Um sujeito infantil, pirracento, ressentido, sem um quarto da envergadura exigida para o cargo máximo da nação. Agora, aos 50 dias de seu (des)governo, fica claro que até eu estava sofrendo de miopia. Boçalnaro é muito, mas muito pior do que a encomenda. Não tem a menor habilidade e está cercado por sacripantas. Seus filhos são péssimos e pelo menos quatro de seus ministros – Damares, Vélez, Araújo, Salles – estão abaixo de qualquer critério.

A demissão em câmera lenta de Gustavo Bebbiano foi um show de incompetência. O Bozo mentiu, foi desmentido, fez picuinha e perdeu a confiança de uma parcela significativa de seu próprio partido. A mais do que necessária reforma da Previdência corre risco. Sea economia não melhorar até o fim do ano, vai se começar a procurar um motivo qualquer para o impeachment, igualzinho ao que aconteceu com a Dilma. Mas já tem quem fale em impeachment "branco", como o Reinaldo Azevedo. O Bozo continuaria na cadeira, mas os adultos do governo assumiriam o real poder. Só isto para quebrar a macumba psicológica a que o país foi submetido. Todos juntos: I'm dreaming of a white impeachment...

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

LO BITLE

Vir a Liverpool e não ver nada dos Beatles é como ir a Roma e não ver Anita Ekberg na Fontana di Trevi. Ainda mais porque o museu oficial, the Beatles Story, fica bem em frente ao meu hotel. Hoje o evento acabou mais cedo e sobrou um tempo para visitar Lo Bitle, que é uma gíria particular minha e do meu irmão - culpa dos livrinhos da Mafalda que líamos em espanhol quando pequenos, crianças metidas que ainda somos. O museu - ou "experiência" - é meio caça-níqueis, com salgadíssimos ingressos a quase 17 libras, e poucos objetos que realmente foram usados pelos Fab Four. Mas tem muitas fotos que eu não conhecia, uma programação visual agradável e uma linha do tempo fácil de acompanhar. De lá caminhei até a soturna Catedral de Liverpool, a maior do Reino Unidos, construída em estilo gótico inglês no final do século 19. É mais impressionante do que bonita, mas um símbolo da cidade - foi lá que Paul McCartney estreou seu "Liverpool Oratorio", a única peça de música clássica escrita por um dos Beatles. Voltei ao hotel sob uma garoa fina e friiia...

THE FUNK SOUL BROTHER

O BBC Showcase é um evento grandioso, para onde vêm compradores e jornalistas do mundo inteiro. Mas nem tudo é business: à noite, todos os presentes são convidados para um jantar, depois do qual se apresenta algum astro inglês. O de ontem foi Fatboy Slim, de quem eu não ouvia falar há algum tempo. Mas o cara continua afiadíssimo e mandou um set de arrepiar, com muito remix e mash-up da banda inglesa mais quente do momento, o Queen. Acabou por volta das onze e meia da noite, mas a brasileirada queria esticar. Eu me juntei a eles - hei, quando é que vou ter 58 anos de novo em Liverpool? - e tocamos para o lendário Cavern Club, onde os Beatles começaram. O bar fica um uma rua cheia de bares, todos tentando tirar uma casquinha dos Fab Four (bem na frente tem até um cover, o Cavern Pub). Mas o original fecha à meia-noite, então tivemos que nos contentar com o Sgt. Pepper's, na porta ao lado, e nos misturarmos aos torcedores do Bayern que vieram para um jogo. Voltei sozinho para o hotel, com admirável sendo de direção. Ainda mais depois de uns pints.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

MERSEYBEAT

Cheguei a Liverpool às cinco da tarde de ontem, vindo de trem de Londres. Até chegar no hotel, me instalar e ainda me registrar para o evento da BBC, já eram quase seis. Estou na Albert Dock, os antigos estaleiros que fizeram a fortuna da cidade nos séculos 18 e 19, hoje um complexo de museus, hotéis e restaurantes. Só que não consegui visitar o Beatles Experience ou o Museu Marítimo, as atrações mais top: tudo fecha cedo. Tive que me contentar com um longo passeio à luz da lua, me maravilhando com o icônico Liver Building ou pensando nos escravos que chegaram aqui (Liverpool era onde moravam os maiores mercadores de gente). A cidade enfrentou a decadência econômica no século passado, mas floresceu culturalmente graças aos Beatles, todos nascidos aqui, e à chamada Merseybeat, o som de Liverpool (Mersey é o rio em cuja foz ela cresceu). Vou ver se eu consigo fazer turismo. Mas agora, toca pro Showcase.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

LONDRES EXIBIDA

Essa cidade é inesgotável. Não importa quantas vezes se venha para cá: sempre tem algo novo para se ver e fazer. E mesmo o que é antigo é muito. Ainda não dei conta de tudo, e nem quero dar. Mas tiquei mais algumas casinhas nessa minha oitava viagem. Comecei pela Tate Modern, o gigantesco prédio à margem do Tâmisa que abriga a coleção do século 20 em diante da Tate Gallery. O ingresso para a retrospectiva de Pierre Bonnard, o mais tardio dos impressionistas (ele só morreu em 1947) custa 20 libras, mas a visita ao acervo permanente é gratuita. Tem obras essenciais de Picasso, Liechtenstein, Brancusi e também de alguns brasileiros, como Tunga ou Cildo Meirelles. Só que uma das maiores atrações da atualidade são os prédios residenciais de luxo que subiram bem ao lado do museu, quase que só com paredes de vidro. Os moradores chegaram a abrir um processo para obrigar a Tate a proibir os visitantes do terraço no último do andar de devassarem suas privacidades. Mas o juiz deu risada: quem mandou morar em apartamentos transparentes? Que comprem cortinas.

De lá cruzei o rio e fui à Somerset House, uma enorme instituição particular onde está em cartaz uma mostra sobre Charlie Brown e seu autor, Charles M. Schulz. Eu li muito Minduim (a simpática tradução brasileira de “Peanuts”) na minha adolescência – estava muito na moda nos anos 70. Revendo os personagens depois de tanto tempo, achei todos um pouco encucados demais, e o humor é muito amargo (quando há humor). Mas não dá para negar a importância cultural desses quadrinhos. Eles capturaram o espírito de seu tempo, e influenciaram tudo o que veio depois.

Isto foi ontem. Hoje tive a manhã livre antes de zarpar de trem para Liverpool. Como meu hotel fica em um canto dos Kensington Gardens (e o meu quarto dava para o palácio onde Diana morou no fim da vida) e o dia estava glorioso, lá fui eu passear pelo parque às nove da manhã. O tempo exato de chegar ao museu Victoria & Albert bem na hora em que estava abrindo, uma hora depois. Passei duas horas lá dentro e me maravilhei. O V&A nunca esteve no topo da minha lista, porque as artes decorativas tampouco estão. Mas a real é que aquilo lá é um palácio que transpira história da arte. A seção oriental é de cair o queixo, e a europeia começa no final do Império Romano. Só tive tempo de visita o térreo e o subsolo, mas vou tentar voltar lá na quarta-feira, quando passo a tarde em Londres. Talvez dê até para pegar a exposição do Dior, que estava com ingressos esgotados neste domingo(a 25 libras cada!) Enfim, a Victoria eu já vi. Agora falta o Albert.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

LONDON CALLING

Good morning. Amanheci em Londres, onde vou passar o dia de hoje batendo perna e visitando museus. Amanhã tomo um trem para Liverpool, o verdadeiro destino desta viagem: fui convidado pela BBC para cobrir o BBC Showcase, o grande evento anual onde a emissora pública do Reino Unido apresenta suas novidades. Vão ser dias bem intensos, mas pergunta se eu estou reclamando?

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

EXCELSO CELSO

Dizer que o discurso de Celso de Mello foi épico é pouco. O decano do STF fez uma brilhante defesa da criminalização da homofobia, expôs Damares Alves ao ridículo e ainda usou a palavra "weltanschauung", para desespero dos boçais. Agora o julgamento só será retomado na semana que vem, e nada garante que o resultado será positivo. O vice Mourão já expleiu que "não há urgência", como se quem já esperou dez mil anos pudesse esperar mais um pouquinho. E nossos inimigos caíram na armadilha: alegando defesa da liberdade de expressão e religião, eles estão se revelando os crápulas que de fato são. Pode ser que não dê em nada, mas o simples fato do Supremo estar discutindo este assunto mostra que a "pauta de costumes" tão sonhada pelos evanjas não terá vida fácil. Amém.

TREMENDÃO RHAPSODY


A cinebiografia de Erasmo Carlos padece do mesmo problema que sua autobiografia, publicada há quase dez anos: falta drama. O livro ainda cobria a vida toda do Tremendão, mas o filme opta por um recorte e se concentra nos tempos da Jovem Guarda. Justamente a época mais feliz, com mais sucessos, mulheres e carrões de uma carreira que nunca teve baixos muito pronunciados. Dito isto, "Minha Fama de Mau" é divertido, com uma esmerada direção de arte e um Chay Suede esbanjando carisma. Mas, ao contrário do que consegue Rami Malek em "Bohemian Rhapsody", em nenhum momento o espectador acha que está vendo o original. Não houve uma preocupação em transformar o esguio Chay no bochechudo Erasmo, o que me incomodou um pouco. Também achei meio "roteirice" o fato das namoradas que cruzam o caminho do astro serem todas feitas pela mesma atriz, Bianca Comparato, e terem nomes parecidos - Lara, Samara, Clara - até desembocar na Nara, a maior paixão, com quem ele viria a se casar e ter três filhos. Mas a história não chega até a separação do casal, nem ao suicídio de Nara, em 1995. Termina quase 30 anos antes, com uma briga algo forçada com Roberto Carlos, seguida pela reconciliação através da música "Amigo" (composta, na verdade, quase dez anos depois). Parece que está mesmo na moda inventar conflitos e alterar a ordem cronológica, como no filme do Queen. Só faltou "Minha Fama de Mau" terminar com Erasmo chamando Roberto e Wanderléa para anunciar que está com AIDS e depois fazerem juntos o último programa da Jovem Guarda.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

O PARTIDO DO SUCO DE LARANJA

O mais divertido desse embate entre Gustavo Bebbiano e o clã Solnorabo é que dá para torcer contra todos. Que se explodam! Eu tinha certeza de que essa galera era incompetente e corrupta, mas não esperava que o despreparo se manifestasse tão cedo. O Bozo tem um mês e meio de presidência, não fez nada de relevante até o momento e acumula uma crise atrás da outra. Claro que não foi o PSL quem inventou essa prática de lançar candidatas-laranja, só para cumprir a lei que obriga 30% de mulheres na disputa pelas vagas e para meter a mão no Fundo Partidário. Mas é justamente por ser um velho hábito, assim como a rachadinha, que mostra que de novo essa corja não tem nada. E o mito, hein? Tão machão, tão valente na internet e não tem culhão para demitir um ministro. Prefere ficar de futriquinha no Twitter, ui ui ui.

SÓ QUEM FECHA COM O BONDE

A expansão da internet e a crescente visibilidade LGBT trouxeram ao Brasil um fenômeno que existe há décadas lá fora: a cantora idolatrada pelas guei porque, além de produzir hits poderosos, também é incansável defensora dos nossos direitos. O paradigma máximo é Madonna, mas muitas outras merecem a faixa: Lady Gaga, Katy Perry, Cher, Beyoncé... Por aqui, não temos tamanha abundância. Primeiro foi Anitta quem tombou, ao relutar em aderir ao #EleNão. Agora é a vez de Valesca Popozuda, que achou que estava sendo super humana e solidária ao postar um Stories onde defende o direito de seu grande amigo Agustin Fernandez falar a merda que quiser. Tenho horror a esse sujeito e até recomendei ao Pedro HMC, que estava repercutindo o caso no Twitter, para seguir o conselho do Ricardo Boechat e não dar palanque a otário. Mas a otária neste caso é mesmo a Valesca, que perdeu sua credibilidade como musa gay. Dá para imaginar Madonna fazendo algo parecido? Passando pano para alguém que disse que os homossexuais querem "privilégios"? Por isto que Madonna reina há quase três décadas. Valesca já era, e a próxima da lista periga ser a isentona Ivete Sangalo. Ainda bem que temos Daniela Mercury, Preta Gil e várias outras que não abrem concessão. Aqui dois papos não se cria e nem faz história.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

BIBI CAMPEÃ

Houve um momento em que eu achei que Bibi Ferreria iria nos enterrar a todos. A mulher era um dínamo. Com mais de 90 anos de idade, estreava um show novo por ano, excursionava pelo Brasil e pelo mundo, cantava com Liza Minelli no Carnegie Hall. Consegui vê-la várias vezes na reta final dessa jornada gloriosa, que terminou hoje da maneira mais pacífica possível. Já estou com saudades, mas não dá para ficar triste: Bibi foi plena até o fim. Teve amores, uma filha, saúde de ferro, muito sucesso e uma das carreiras mais longevas da história do showbiz (ela era bebê quando entrou no palco pela primeira). Ainda ganhou a chance de assistir, no ano passado, ao musical que a homenageava. Pedir mais do que isso é abuso, e Bibi Ferreira deu muito em troca. Showwoman completa, diretora afiada, personalidade ímpar. O simples fato dela ter existido me faz crer que o Brasil talvez ainda tenha jeito.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

SE A RUA BEALE ANDASSE


Agora é oficial: Barry Jenkins é um diretor superestimado. Eu já não tinha achado "Moonlight" grande coisa, e "Se a Rua Beale Falasse" é simplesmente ruim. Não li o romance de James Baldwin, portanto não sei o quanto o filme é fiel à história original: só sei que a trama não anda. A história do rapaz negro preso por causa de um estupro que ele não cometeu cai em ponto morto logo depois de uma explosiva cena de briga de famílias, e dali não sai nunca mais. Nem Regina King, cotada para o Oscar de atriz coadjuvante, eu achei que estivesse particularmente bem. É pena, porque filmes que denunciam o racismo são cada vez mais necessários. Filmes chatos, não.

HOMOFOBIA = RACISMO

Quando um grupo que persegue outro vê seu "direito" de perseguir ameaçado, ele se põe na posição de perseguido. É o que o Infeliciano está fazendo neste exato momento: usando a retórica típica das pautas de esquerda para combater essas mesmas pautas. É asqueroso o anúncio que ele vem veiculando em seus perfis nas redes sociais, mostrando um rapaz aos prantos só porque não pode mais ser homofóbico. A chamada também contém erros de forma e de conteúdo. Por que aspas ao redor de homofobia? É impressionante como pouca gente consegue usá-las direito. E reparou como a frase deixa implícito que a homofobia é OK? Não, não é, e a ADO 26 está correta em equipará-la ao racismo. Mas talvez não seja a argumentação ideal para vencer no STF. Concordo que o assunto é espinhoso, até porque, no cristianismo mainstream, só alguns setores da Igreja Anglicana convivem bem com a viadagem. Talvez devêssemos seguir o exemplo do Canadá, que enquadrou a  homofobia sem melindrar (muito) as denominações religiosas. De qualquer forma, a votação de amanhã vai ser interessante. Vamos acompanhar com atenção.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

SENHOR CORAGEM

Estive com Ricardo Boechat uma única vez, no lançamento de uma série do Discovery na qual ele fazia a narração. Não perdi a oportunidade de cumprimentá-lo pelo culhão de peitar o sinistro Malafaia - para quem não lembra, em 2015 o jornalista mandou o horrendo pastor "procurar rola". Boechat riu e lamentou o processo que sofria, mas também disse que não se arrependia de nada. Sua morte em um acidente de helicóptero na manhã desta segunda-feira só reforça uma sensação terrível: a eleição do Bozo desequilibrou o universo e abriu um portal cósmico, de onde estão chovendo tragédias de todo o tipo sobre este país de infelizes. Ricardo Boechat fará uma falta tremenda, ainda mais neste momento em que tanto precisamos dele. Que sua coragem sirva de exemplo para todos nós.

O NAMORADO DO MARIDO DELA


O cinema asiático descobriu a viadagem. Há muitos filmes de temeatica LGBT vindos daquele canto do planeta, e um dos melhores acaba de estrear na Netflix. É o taiwanês "Dear Ex", que conta uma história que poderia se passar em qualquer país do mundo. Ao ficar viúva, uma mulher descobre que seu finado marido deixou um polpudo seguro de vida - só que em favor de um namorado, de quem ela nunca tinha ouvido falar. Esse ótimo argumento é desenvolvido com maestria pelos diretores Chih-Yen Hsu e Mag Shu (não consegui descobrir o gênero deles, nem se são parentes ou casados). A decupagem é fantástica, a pós-produção exagera as cores quentes da fotografia e ainda há uma das melhores trilhas sonoras dos últimos anos (já baixei no Apple Music: procure por DJ Dillidong). Desde já, um dos bons títulos do ano. No mais, é impressionante como a Netflix vem oferecendo, na média, filmes melhores do que os que chegam aos cinemas

domingo, 10 de fevereiro de 2019

DIANTE DO TRONO

Guardadas as devidas proporções, a festa de aniversário de Donata Meirelles em Salvador é uma espécie de Fyre Festival à brasileira. Os organizadores gastaram uma fortuna, usaram as mídias sociais crentes que estavam abafando e tudo o que conseguiram foi gerar uma treta que vai grudar feito craca nas reputações dos envolvidos. Não era, como alguns sites de esquerda disseram, um evento que tinha por tema o "Brasil colônia-escravocrata". Tampouco as modelos estavam vestidas de mucamas: o traje envergado é só uma versão festiva das vendedoras de acarajé soteropolitanas. Mas é preciso uma dose extra de falta de noção para uma branca se sentar em um trono ("de candomblé") em pose de rainha, ladeada por duas negras, e postar a foto no Instagram achando que o Brasil de 2019 vai achar lindo. não faltou quem lembrasse que o marido de Donata, o publicitário Nizan Guaanes, tem uma agência chamada África que emprega poucos negros. Como bem reparou a historiadora Lilia Schwarcz, tudo isso faz parte do racismo estrutural: aquele tão integrado no dia-a-dia que quem o comete nem percebe o que está fazendo. Donata Meirelles está pagando um preço, mas ela nem de longe é a única culpada. E, mesmo quando não houver intenção, vale sempre a pergunta: serei mal interpretado? O que diz o departamento do Vai-Dar-Merda?

sábado, 9 de fevereiro de 2019

PINTANDO DE OUVIDO


"No Portal da Eternidade" é um filme belíssimo. O diretor Julian Schnabel, que também é um pintor consagrado, consegue capturar a cor, a vibração e a textura das telas de Vincent Van Gogh. Enquadramentos inusitados, edição não-linear e o uso inteligente do foco dão a sensação de um quadro em movimento. Também tem a atuação indicada ao Oscar de Willem Dafoe, que quase convence, aos 63 anos, ter apenas 37. Dito isso, "No Portal..." também é um filme chato. Não é bem uma biografia, mas flashes da vida do artista, que foi desprezado em seu tempo e se tornou depois de morto o autor das pinturas mais caras já vendidas. Um detalhe me irritou um pouco: há cenas em inglês, cenas em francês e cenas em inglês com sotaque francês. Lento, em fogo baixo (não vemos Van Gogh cortando a própria orelha) e cheio de referências para os iniciados, o longa deve ter sido lançado nas salas brasileiras só por causa do Oscar. Aposto que "Boy Erased" teria mais apelo.

TERRA, ÁGUA E FOGO

Em setembro do ano passado, quando na mesma semana o Museu Nacional pegou fogo e o Bozo foi esfaqueado, eu postei que era horrível viver no Brasil, mas nunca monótono. Agora tudo o que eu quero é um pouco de monotonia: esttá duro suportar a sequência de desastres dos últimos dias, todos previsíveis e evitáveis. Gostaria de acreditar que a eleição de um governo de gente extremista e despreparada abriu uma espécie de portal da negatividade, deixando o Brasil ainda mais vulnerável do que de costume. Mas é claro que, qualquer que tivesse sido o resultado da eleição, essas tragédias teriam acontecido de qualquer jeito. São todas frutos do nosso descaso, do nosso jeitinho e da nossa ganância.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

POMBO NÃO CANTA


"Tito e os Pássaros" estreia semana que vem no Brasil já com prestígio internacional. O longa em animação participou de vários festivais no exterior, foi indicado a melhor filme independente no Annie (o Oscar dos desenhos animados) e entrou na shortlist do próprio Oscar (mas não ficou entre os cinco finalistas). Tecnicamente, é um prodígio. Personagens que parecem ter sido recortados com tesourinha de criança movem-se sobre fundos pincelados, numa paleta de cores que puxa para o sombrio e ao som de uma trilha excepcional. Mas o roteiro tem problemas. No varejo, há alguns detalhes complicados e confusos, como uma máquina que não serve para nada ou pombos que cantam (?). No atacado, uma mensagem política muito pertinente: vivemos uma cultura que semeia o medo, para depois tirar proveito dele. Mas será que a criançada,  a quem "Tito" se destina, está interessada nisso? A equipe do filme diz que as reações infantis têm sido ótimas, mas tenho cá minhas dúvidas se os petizes vão mesmo entender o que está sendo proposto. Manipulação pela mídia, apresentadores de extrema direita, medo de ter medo - tudo isso me parece fora do alcance de alguém com menos de 13 ou 14 anos. De qualquer forma, "Tito e os Pássaros" é mais um exemplo da maturidade da animação brasileira. Nosso Oscar ainda vai chegar.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

GATO POR LABRE

Conheço muita gente que votou no Bozo e nos candidatos do PSL por causa do PT. Muitos não prestaram atenção no reacionarismo absurdo de boa parte desses sujeitos, ou achou que era só folclore. Que qualquer coisa valia a pena para "varrer a corrupção". Agora já se sabe que o clã Boçalnaro é metido com milícias, e vários dos deputados eleitos estão expondo sua obtusidade. Um deles é o sensual deputado federal Márcio Labre, do Rio de Janeiro, que propôs uma lei proibindo a venda da pílula, do DIU e de quase todos os métodos anticoncepcionais (só faltou a camisinha) - seriam todos "mini-abortos". Não são, mas ignorância e desinformação sempre estiveram na metodologia dessa corja. Depois da reação das redes sociais, o parlamentar disse que o projeto não estava pronto, que havia sido protocolado por engano e que pipipi popopó. Melhor assim: esse episódio patético serviu para ele se expor como um energúmeno a ser marcado de perto. Também provou, pela enésima vez, que essa onda retrógrada (conservadorismo não é isso) que varre o mundo é, antes de mais nada, uma tentativa de conter o avanço dos direitos das mulheres.

NOUVELLE TRISTESSE

Cheguei hoje de manhã ao Brasil e dei de cara com duas notícias trágicas. A maior delas é a enchente no Rio de Janeiro. Ainda nem acabamos de contar os mortos de Brumadinho e já ocorreu outro cataclisma, também totalmente inesperado, imprevisível, surpreendente. Afinal, quando foi que choveu forte no Rio durante o verão? A outra notícia me atingiu mais diretamente: a morte do Carlos Fernando. Eu conheci o cantor no final dos anos 80, quando a cena musical paulistana teve um mini-boom que gerou grupos como o Luni, Os Mulheres Negras e o Nouvelle Cuisine. Este último era apenas a coisa mais sofisticada que já floresceu no pop brasileiro, com releituras inventivas de standards de jazz e algumas músicas próprias. Mas o melhor de tudo era a voz de Carlos Fernando: um timbre incrível, com uma interpretação suave e irônica ao mesmo tempo. Ele gravou com Ângela Maria e Sarah Vaughn, mas seu momento de maior destaque foi o dueto com Marisa Monte no primeiríssimo disco dela, registrado ao vivo. Eu tive a sorte de assistir a este show no MASP, e também vi o Nouvelle Cuisine algumas vezes. Mas a banda não chegou a completar uma década, e Carlos Fernando saiu dela no final dos anos 90. Em 1999 ele ainda lançou seu único disco-solo, dedicado inteiramente à obra De Chico Buarque. Consta que o próprio Chico adorou, porque o álbum focava mais na melodia de suas canções do que nas letras. Depois disso, Carlos Fernando ainda fez alguns shows em bares, mas aos poucos foi se afastando da música e focando na carreira de arquiteto e artista plástico. Não sabia nada dele há muitos anos, e fiquei chocado com sua morte solitária: ele foi encontrado caído em seu apartamento, dois ou três dias depois de um enfarte fulminante. Uma tristeza enorme, ainda mais porque fica a sensação de um imenso desperdício.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

IL LOUVRE D'ITALIA

Só agora, na quarta vez que vim a Milão, é que arranjei tempo para visitar o museu mais importante, a Pinacoteca Di Brera. A instituição surgiu em meados do setecento e recebeu uma guaribada de Napoleão Bonaparte, que quis transformá-la no equivalente italiano do Louvre. Durante um tempo, a Pinacoteca foi ligada a uma academia de arte: um lugar para se ver e aprender com os mestres. Mas depois ela descobriu sua verdadeira vocação: como o próprio nome diz, praticamente só tem quadros (as exceções são duas estátuas de Napoleão), e quase todos os italianos. Fui preparado para passar o dia, mas o museu em si ocupa menos de um andar inteiro do Palazzo di Brera. Com toda a calma, vi tudo em meia hora. Nem por isso saí menos maravilhado tem muito Caravaggio, Tintoretto, a italianada toda. Quase tudo arte sacra - acho que as que retratam deuses romanos foram todas para o Louvre mesmo. Ma è veramente incredibile.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

L'ANNO DEL MAIALE

Feliz ano novo chinês! Hoje começa o Ano do Porco de Terra, que não é exatamente uma alcunha glamurosa. Mas é uma época que sempre foi befazeja para mim: 1971, 1983, 1995 e 2007, os quatro anos do Porco que eu vivi até agora, foram todos ótimos. Os suínos são tidos como preguiçosos e glutões na China, mas também como inofensivos - e, não entendi bem por que, atraem dinheiro. Eu ainda estou tentando interpretar o que significa entrar no Ano do Porco na Itália. Talvez signifique que eu vá comer muita salumeria nos próximos 12 meses? Mais do que eu já como? Tá óóótemo.

ENTRANDO NO VERMELHO

Ecco "Entering Red", o novo curta-metragem de Campari. Foi para o lançamento do filme que eu vim para Milão a convite da marca, pelo segundo ano consecutivo. Os últimos dias têm sido uma imersão total no líquido vermelho. Abrimos os trabalhos no domingo à noite com drinks no Camparino, o bar histórico da Galleria Vittorio Emanuele. Ontem de manhã visitamos a Galleria Campari, um museu na antiga fábrica da bebida em Sesto San Giovanni, uma cidade na Grande Milão, hoje quase um bairro. O almoço foi no Bar Basso, onde se inventou o Negroni Sbagliato. À noite rolou uma festa para a imprensa e os influencers presentes no FifiyFive, a mesma boate onde foi rodado o filme. Hoje cedo teve coletiva e apresentação do curta, e eu acabei de fazer uma entrevista EM ITALIANO (scusi) com o diretor Matteo Garrone  - que fez "O Conto dos Contos" e "Dogman", dois filmes que eu adoro. E logo mais tem outra festa, com direito a tapete vermelho e black tie. Espero ter um mínimo de sobriedade para aproveitar. Hoje comecei a beber às 11h15. Não vou recusar drink de graça, né?

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

UM FILME ANULADO


Muito, mas muito esquisito mesmo este cancelamento da estreia de "Boy Erased - Uma Verdade Anulada" no Brasil. O filme estava previsto para entrar em cartaz no dia 31 de janeiro. Já tinha dois trailers legendados em português e poster em algumas salas. Então, sumiu da lista do site FilmeB, sem nenhuma explicação. Que veio ontem: um internauta perguntou à conta da Universal Pictures no Twitter porque o filme não havia sido lançado, a resposta foi essa aí abaixo. Seguiu-se uma chuva de reclamações, e a distribuidora alegou que era por razões comerciais. Mas agora ela diz que sim, "Boy Erased" será lançado por ela no Brasil, mas só em DVD. Bom, não é tão raro assim um filme ser anunciado e depois não estrear. Menos raro é esse filme sumido já ter trailer, poster, o escambau - gastou-se um dinheiro que vai ser jogado fora? Esquisito mesmo é um filme sobre um garoto internado à força numa clínica de "cura gay" pelos pais evangélicos sair de circulação no momento em que assume um governo de extrema direita no Brasil. Não é segredo que alguns líderes evangélicos querem legalizar a "cura gay" por aqui. O filme, baseado numa história real, é propaganda contra. O fato é que agora a Universal está com uma batata quente nas mãos (dá uma olhada nos perfis dela nas redes sociais). E também com uma oportunidade de marketing, com tanta propaganda gratuita.

CAMPEÕES FORA DE CASA


Não levo mais nada para ler a bordo de voos longos. A oferta de filmes e séries é tão grande que eu acabo esquecendo do pobre do livro, que às vezes vai e volta intocado. Não deu outra no meu voo para Milão. Muito filme que ainda não chegou/nem vai chegar ao Brasil. Meu primeiro escolhido foi "Campeones", que representou a Espanha no Oscar e ganhou no ábado vários prêmios Goya (o Oscar espanhol), inlcuisve melhor filme. É feito para agradar as massas: um técnico de futebol é pego dirigindo embriagado, e punição que ele recebe é treinar um time de "subnormales". A palavra envolve pessoas com síndrmoe de Down, distintos graus de autismo e aparvalhados em geral. E o roteiro é pra lá de previsível: no começo o sujeito odeia, depois vai se encantando por seus novos atletas e o final tem lágrimas, triunfo e abraços. Mas é tudo muito bem feito, e os atores que fazem os "sub" também o são na vida real. não entendo porque esse blockbuster não é lançado nos cinemas brasileiros. Tem tudo para virar um novo "Intocáveis".

Já chegando na Itália, resolvi ver um filme italiano para ir entrando no clima. E peguei um título que estava sendo anunciado quando estive em Milão no ano passado: "A Casa Tutti Bene" (em casa todos bem), de Gabriele Muccino. Também sem grandes novidades, mas muito bem feito. A trama é bem peninsular: uma família estendida se reúne em uma linda ilha, para a missa e o almoço comemorativo do longo casamento de papai e mamãe. Aí, o mar fica revolto e todos ficam literalmente ilhados lá durante dois dias. E eclodem as paixões reprimidas, as invejas, os ressentimentos. O elenco tem vários astros italianos da atualidade, e o potencial comercial também é óbvio: não sei porque este aqui tampouco estreou no Brasil.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

ANCORA MILANO

No ano passado, eu pisei o calcanhar nas bolas do touro que aparece em um mosaico no chão da Galleria Vittorio Emanuele, e girei. Como prometia a superstição, eis-me de volta a Milão. Cheguei neste domingo e fico até quarta, para uma intensa programação de festas e entrevistas a convite de uma marca de bebidas. Não deixe de pisar no touro quando você vier para cá. Dá certo.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

RENAN NO CHÃO

Hoje pode ter sido um sábado histórico para o Brasil. O dia em que finalmente o MDB deixou de dar as cartas, mesmo depois de ter ido mal nas eleições de novembro passado. O partido cometeu um erro colossal ao insistir na candidatura de Renan Calheiros, sem perceber o movimento popular de ojeriza ao senador alagoano. O resultado foram dois dias tumultuadíssimos, um circo no plenário e a eleição de um nome do baixo clero para a presidência da casa. Davi Alcolumbre pode ser apoiado pelo Bozo, mas veremos se ele tem a habilidade política para aprovar as reformas necessárias. O divertido é que agora o Canalheiros buscará vingança. A proteção que ele prometeu ao 01 agora se tornará perseguição. E as ações dos fabricantes de pipoca de microondas acabam de disparar.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

RENAN NO AR

Quase onze anos atrás, quando comecei este blog, Renan Calheiros era um dos meus alvos favoritos. O senador alagoano enfrentava um escândalo embrulhado em uma maracutaia - recebia propina para custear um filho bastardo - e acabou renunciando para não ser cassado. Mas voltou na eleição seguinte, e voltou, e voltou, e hoje está aí de novo, tentando ser eleito presidente do Senado pela quinta vez. Conseguirá? A eleição desta sexta foi suspensa depois da bagunça no plenário, e eu também estou no ar. Não sei se torço contra ou a favor do Canalheiros. Claro que seria lindo se ele fosse chutado para escanteio, mas não ao custo de termos um bozominion no comando. Por que é que o Brasil só piora?

DAMARÉ TEDESCO

Damares Alves seria o alívio cômico deste governo, não fossem suas ideias perigosas e ela própria uma bandida. Sim, bandida: o que ela fez foi sequestro, e não importa se Lulu está feliz. Alguns bebês sequestrados pelos militares argentinos também se tornaram pessoas felizes, mas isto não diminuiu o horror que foi cometido. Some-se a isto a mentira que Damares pregou, ao se declarar mestra sem ter feito mestrado; seu projeto de lei que permite o homeschooling; sua denúncia fake de que na Holanda se masturbam bebês... Damares não é louca, mas é uma fanática religiosa que não tem o menor escrúpulo em desrespeitar a lei dos homens se achar que está servindo à suposta lei de Deus. Só num país virado do avesso, que sobe a hashtag "UstraVive", essa criminosa consegue se manter no poder. Até quando? Até os militares perceberem que ela é da mesma laia de seu antigo chefe, Magno Malta, que levou um chega-pra-lá.