quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

A MURALHA

Quem já foi a um templo hindu certamente reparou em um aviso: "proibido a entrada de mulheres impuras", i.e., menstruando. Não há revista íntima nem detector de absorventes, então fica a critério de cada uma (e duvido que alguma turista de outra religião tenha obedecido). Talvez por isto mesmo, um templo no estado de Kerala, no sul da Índia, impôs uma regra mais radical: ele proíbe a entrada de mulheres em idade fértil, dos 10 aos 50 anos de idade. Na semana passada, duas mulheres em idade fértil desafiaram esse despautério, que já havia sido declarado ilegal pela Justiça de lá. Muitos homens se revoltaram, houve protestos e quebra-quebra, e aí a mulherada deu um troco à altura. Mais de CINCO MILHÕES DE MULHERES formaram uma linha com MAIS DE 620 KM DE COMPRIMENTO. Uma verdadeira muralha. Isto aconteceu na Índia, um país de cultura diferente da nossa, mas ainda mais machista em muitos aspectos. E se isto acontece do outro lado do mundo, pode muito bem acontecer por aqui.

Já este acontecendo em outros lugares. A onda de extrema-direita que varre o mundo, das Filipinas à Itália, já começa a retroceder. Donald Trump se vê todo dia mais enrolado, e cada vez mais analistas apostam que ele não chega ao final do mandato. Os republicanos perderam o controle da Câmara de Deputados, que voltou a ser presidida... por uma mulher. Na Hungria, Viktor Orbán, o amigão do Bozo, enfrentou sua primeira rebelião popular, depois de propor uma lei trabalhista absurda. Todos esses políticos na verdade fazem parte de algo maior do que o mero espectro político: são a reação machista ao avanço da mulher na sociedade. São todos homens, que pregam o retorno a um passado "mais simples", onde os machos faziam o que queriam e as mulheres calavam a boca. Aqui no Brasil, esses reaças se manifestam não só com a eleição do Bozo, mas também com os episódios de violência contra a mulher que todo dia explodem no noticiário. Antigamente, os homens matavam as esposas adúlteras, quando as flagravam nos braços de um amante. Hoje a mulher nem precisa trair: basta dar o fora no sujeito, dizer que vai embora, para apanhar e até morrer. Era contra esses brucutus que a ministra Damares deveria pregar contra - justo ela, que foi abusada quando pequena. Mas a pastora foi cooptada pelo mesmo sistema que a agrediu, e agora defende que menino é menino e menina é menina, contra todas as evidências que a ciência e a vida oferecem. Não há de ser nada. Nossa muralha está em gestação, seja física ou virtual. Seja rosa ou azul. Aguardem.

5 comentários:

  1. Não vejo a hora desse bando de neanderthals voltarem pras cavernas.

    ps. o torrent de "Beautiful boy", novo filme do Chalamet, já está entre nós.

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  2. Ai, Tony, não vejo a hora da extrema-esquerda voltar ao poder!

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  3. O Mio Babbino Caro
    off-topic
    Vá ver 'Maria Callas - em suas próprias palavras'!

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  4. Ontem eu vi o caso de uma menina morta por um rapaz porque ela não aceitou o pedido de namoro. Nem precisa ter relacionamento com o agressor pra sofrer violência doméstica e feminicídio.

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