quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

PIOR DO QUE TRUMP


Donald Trump é uma figura tão bizarra, tão despreparado para o cargo que ocupa, que muita gente diz ter saudade do governo de George W. Bush. De fato, o antepenúltimo presidente americano era só burro. Ele não ia ao Twitter falar barbaridades, não era processado por estrelas pornô e nem acusado de ser um fantoche dos russos. Mas a pirotecnia de Trump ofusca a verdade de que Bush causou centenas de milhares de mortes e um estrago geopolítico do qual o mundo ainda não se recuperou. Na verdade, nem foi o próprio Bush, mas sua eminência parda, o vice-presidente Dick Cheney. Esse sim era inteligente, e totalmente sem escrúpulos. Uma figura meio opaca, sem carisma, e que no entanto rendeu um filme sensacional. "Vice" é a comédia política que o Brasil nunca conseguiu fazer. É o melhor trabalho do diretor e roteirista Adam McKay, que está pintando como o próximo Scorsese. Mesmo contando uma história conhecida, "Vice" traz uma surpresa atrás da outra: um final falso antes da primeira hora de projeção, o casal Cheney declamando "Macbeth" na hora de dormir e uma antológica cena em um restaurante, com o maître explicando os especiais do dia. Atores famosos como Naomi Watts e Alfred Molina fazem pontas não-creditadas, mas quem brilha mesmo, é claro, é o elenco principal. Christian Bale, Amy Adams e Sam Rockwell mais do que mereceram suas indicações ao Oscar. Bale, inclusive, seria o favorito, não fosse pelo amor a Freddie Mercury Rami Malek. Edição arrojada e um trabalho espantoso de cabelo e maquiagem fazem de "Vice" uma moderna obra-prima, mas sinto que o filme vai passar meio batido no Brasil. É preciso ter um mínimo de noção da política americana, ainda mais porque o roteiro não segue a ordem cronológica. Mas quem acompanhou o noticiário nos últimos 15 anos vai se deliciar de ver Condoleeza Rice e Colin Powell tão bem retratados. E quem se esqueceu do absurdo que foi a invasão do Iraque, que gerou o Estado Islâmico, vai sair indignado do cinema. Eu saí.

IRRE-SPONSÁVEIS

Cidadões e cidadoas, estamos sendo governados por uma cacocracia, da qual o ministro da Educação Ricardo Vélez Rodríguez é um expoente, haja vista o comunicado que sua pasta soltou ontem no Facebook, desementindo uma notícia dada pelo colunista de "O Globo" Ancelmo Gois e em seguida o atacando, lembrando que ele foi militante comunista há quase 50 anos, em um parágrafo cheio de vírgulas, que parece ter sido ditado em espanhol e vertido ao português pelo Google Translator, indigno de um funcionário do terceiro escalão, até porque o jornalista reafirmou a veracidade de suas informações e expôs ainda mais a cupidez de Vélez, uma prova viva de que o governo do Bozo não precisa de oposição, seus próprios integrantes se esforçam para desmoralizá-lo.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

LIGA PRO MEU AGENTE


Para mim, a melhor coisa da Netflix é o acesso a séries produzidas fora dos Estados Unidos. As americanas chegam aqui pela TV paga, mas as que vêm de lugares como a Islândia ou a Turquia não têm outra janela no Brasil. Meu crush atual é "Dix pour Cent" (ou "Call My Agent", se a sua interface estiver em inglês), um grande sucesso na França. Os dez por cento do título se referem à comissão que um agente de talentos recebe dos contratos assinados por seus clientes. Sim, agente de talentos: uma profissão que é comum em Hollywood e na Europa, mas ainda não se firmou por aqui. Isto quer dizer que "Dix pour Cent" só tem inreresse para quem curte os bastidores do showbiz. Não tem tiroteio nem máscaras de Salvador Dalí. Mas tem participações especiais de muitas estrelas do cinema francês: Isabelle Adjani, Juliette Binoche, Isabell Huppert... Cada episódio é estrurado em torno de uma delas, que fazem os papéis de si mesmas e enfrentam problemas baseados em casos reais. Enquanto isto, os próprios agentes vivem tramas de novelão, com direito a filha bastarda, lésbica poderosa e moça sonhadora que se torna atriz. Estou completamente viciado, e termino hoje a terceira temporada.

VIADAGEM SONORA

Fui convidado pelo Camilo Rocha do Nexo Jornal para participar do "Escuta", o podcast sobre música que ele faz com Guilherme Falcão. O tema desta edição são os novos artistas LGBT da cena brasileira. Os rapazes fizeram, em menos de meia hora, um panorama histórico de gays e afins no pop, com ênfase no Brasil. Eu apareço logo aos 3', mas vale a pena ouvir até o final. Ou melhor, escutar.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

ASSIM CAMINHA L'HUMANITÉ

É incrível a capacidade de algumas pessoas de idolatrar um político, mesmo quando todas as evidências apontam que ele de santo não tem nada. Isto está acontecendo agora entre alguns bolsominions, que insistem em chamar de "mito" um sujeito despreparado, mesquinho e cercado de milicianos. E acontece há anos em torno de Lula, mesmo depois de tantas delações e condenações. Hoje as redes sociais pegaram fogo com a proposta do jornal francês L'Humanité de indicar o ex-presidente ao prêmio Nobel da Paz. O que muita gente se esqueceu de dizer é que o Huma (para os íntimos) foi durante muito tempo o órgão oficial do Partido Comunista da França e ainda hoje se posiciona à extrema-esquerda. Também tem uma circulação desprezível e quase nenhuma influência no debate político de lá. É meio como o equivalente local do nosso diário "A Causa Operária". Mesmo assim, a campanha animou a esquerda brasileira, que mais uma vez serviu o pretexto ideal para a minionzada contra-atacar. Lula não merece Nobel nenhum, não só porque é corrupto e merece mesmo estar na cadeia. Mas, principalmente, porque foi ele quem lançou o discurso "nós contra eles", que dividiu o Brasil ao meio e acabou se voltando contra seu criador. No mais, se inscrever ao Nobel não significa nada: o Brasil tentou emplacar até o Chico Xavier, mas os espíritos não deram uma mãozinha.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

SENHORA DOS JARDINS DO CÉU


Maria Bethânia é a cantora brasileira que mais rendeu documentários até hoje. Lembro de pelo menos quatro: "Música É Perfume", "Pedrinha de Aruanda" (o único que eu não vi), "Karingana - Licença para Contar" e agora "Fevereiros", que entra em cartaz esta semana. O filme de Marcio Debelian parte do desfile da Mangueira de 2016, que homenageou "Berré" e venceu o carnava carioca, para mergulhar na religiosidade daquela que Jorge Amado chamava de "orixá vivo". Bethânia, de fato, é uma entidade: quem já a viu no palco sabe que ali há uma conexão entre esse mundo e algum outro. No filme ela conta como cresceu católica e candomblecista, por causa da influência da mãe e da vizinhança - e Caetano, curiosamente, escapou e virou meio ateu. Também explica que faz questão de passar todo mês de fevereiro em sua terra, Santo Amaro da Purificação, que faz uma grade festa religiosa nessa época. Com depoimentos de parentes (a irmã Mabel Veloso é um farol) e amigos (Chico Buarque, ouro agnóstico convicto), "Fevereiros" culmina com a Mangueira na avenida e Bethânia em estado de graça, em cima de um carro alegórico. Nesse momento se borra a fronteira entre o sagrado e o profano: é tudo uma coisa só. Aliás, este é o sentido da palavra "religião". Religar a Deus.

CES TIRS AU HASARD


Estava eu assistindo ao terceiro episódio da série "Você" da Netflix quando, na última cena, começou a tocar uma música bem do meu número. Apontei meu smartphone para a TV e apertei o Shazam. Segundos depois, a faixa "Mortel" da francesa Fishbach já estava na minha biblioteca. Como não sou nativo digital, ainda fico maravilhado com a facilidade com que se consegue músicas novas hoje em dia. Minha mente foi forjada nos anos 70 e 80, quando o que havia eram discos de vinil e novidades como essa cantora francesa simplesmente não chegavam ao Brasil. Flora Fishbach tem 27 anos e faz um technopop melodioso, aparentado ao de suas conterrâneas Juliette Armanet e Christine and the Queens (recomendo todas). Seu álbum "À Ta Merci" é uma estreia impressionante, sem faixas fracas e uma enorme inventividade nos arranjos vocais. Obrigado, tecnologia, por me proporcionar encontros fortuitos. Como diz a letra de "Mortel", "nunca vi nada tão mortal como esse tiros ao acaso".

domingo, 27 de janeiro de 2019

DRIVING DR. SHIRLEY


É decepcionante que, com tantos concorrentes interessantes no páreo, o atual favorito ao Oscar seja "Green Book - O Guia". Não que o filme de Peter Farrelly seja ruim: pelo contrário, é bem feito e escorreito. Suas mais de duas horas passam sem uma única barriga. A produção enche os olhos e a música de "Doctor" Don Shirley - um pianista de jazz que existiu de verdade, mas que o burraldo aqui não conhecia - é de fato formidável. Mas "Green Book" também é quadrado, quase cúbico em sua ânsia de agradar às plateias convencionais. Quem for branco, hétero e cisgênero vai sair se sentindo ótimo do cinema: "puxa, como eu sou bacana, eu não tenho nojo de apertar a mão de um negro, nem chamo a polícia se souber que ele gosta de homem". Porque os personagens invertem o par de "Conduzindo Miss Daisy", vencedor do Oscar há quase 30 anos. O protagonista é um leão-de-chácara carcamano, habituado a resolver tudo na porrada mas com - surpresaaaa - um coração de manteiga. Ele é contratado por Shirley para servir de motorista e segurança durante uma perigosa turnê pelos sul dos Estados Unidos, no ainda racista ano de 1962. (chocante pensar que eu já tinha nascido e a discriminação racial ainda era legalizada por lá). O roteiro, apesar de azeitadinho, é absolutamente previsível, com todos os sustos e piadas nas horas certas.  O pior é que há filmes muito mais fortes sobre a experiência de ser negro na safra atual, como "Pantera Negra" ou "Infiltrado na Klan", e mesmo uma obra-prima que avança os limites do cinema como "Roma". Talvez "Green Book" funcione como um curativo nesses tempos tão difíceis, mas também pode ser um sinal de estagnação. Seu favoritismo ao Oscar  pode ser um sinal de que, nessas três décadas, não fomos muito mais longe do que Miss Daisy.

sábado, 26 de janeiro de 2019

É A LAMA É A LAMA

A extrema direita conseguiu inculcar em seus eleitores desavisados que a proteção ao meio ambiente é uma pauta da esquerda, que o aquecimento global é lenda e que multas e fiscalizações atravancam o progresso. Claro que essa nova tragédia em Minas Gerais não pode ser jogada na conta do novo governo - um dos grandes vilões parece ser o ex-governador petista Fernando Pimentel, que afrouxou as regulações. Mas não custa lembrar que o Bozo nomeou Ricardo Salles para o ministério do Meio Ambiente, um sujeito condenado em primeira instância por alterar a várzea do rio Tietê para facilitar a vida das mineradoras. Tomara que desse desastre em Brumadinho emerja nos brasileiros uma verdadeira consciência ecológica. Que a gente fique mais atento e mais esperto, porque a lama não conhece ideologia.  E que esses mortos não sejam em vão.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

O AMOR É LÍNDIO

Ocêis põe mardade em tudo, né não? Eitcha cabecinha suja docêis, credo. Olhaí o Carlucho com a namorada Paula Bramont, que traz um copo de vinho na mão. Ontem foi divulgado que os dois namoram em segredo há oito anos; ele morando no Rio e ela em Florianópolis. Super normal duas pessoas solteiras e desimpedidas namorarem em segredo, não é mesmo? E nada a ver a notícia ter aparecido justo na semana em que se comenta a relação entre o 02 e seu primo Léo Índio, talkei? Menos a ver ainda o cara do lado estar agarrando a mina dele, enquanto o Carlucho mal encosta na Paula. E alá quem tá atrás dos dois! Que gente ruim que ocês são.

Paula Bramont correu para apagar seus perfis nas redes sociais. É uma pena, pois assim ficamos privados de ver as milhares de fotos que ela deve ter tirado ao lado do Carlucho ao longo dos últimos oito anos e que comprovam o namoro secreto dos dois. Só sobrou essa aí do lado, que presta uma bonita homenagem ao cara que os apresentou: alá ele de novo, gente! Bom, e assim termina mais um episódio em que tentaram atacar a honra da família Bozo. Mais uma fake news inventada pela imprensa esquerdopata. Tudo esclarecido? Ufa. Então, vamos nos preocupar com o que realmente importa: por que a Interpol não prende o Jean Wyllys, agora que está mais do que provado que foi ele mais Marielle Franco que tramaram contra a vida do presidente? Isso a Globo não mostra!

JOGA PEDRA NO JEAN WYLLYS

O Brasil está passando por um vexame internacional com o autoexílio do Jean Wyllys. A notícia repercutiu mal pacarai na imprensa internacional. É de fato vergonhoso um país que não consegue proteger um de seus próprios deputados. E a vergonha só aumentou com a troça dos parlamentares eleitos pelo PSL, da plagiadora Joice ao perdedor (porque ele perdeu o processo que moveu contra mim) Alexandre Frota. Aí a minionzada achou que ainda não estava baixo o bastante e resolveu rastejar. Estão reagindo da mesma maneira com que torceram o assassinato de Marielle. A vereadora teria sido morta porque era ligada ao tráfico; Jean está "fugindo" porque é um dos mandantes da facada no Bozo, em setembro passado. A hashtag "InvestigarJeanWillis" (galera nem sabe escrever o nome dele direito, até porque muitos não sabem ler) espalha nas redes sociais uma história ainda mais absurda que a mamadeira de piroca. E então chega a notícia de que arrebentou mais uma barragem da Vale em Minas Gerais, e a minha vontade é imitar o Jean: cair fora dessa merda que virou o Brasil, e logo.

(RETROSPECTIVA: clique aqui e reveja todos os posts deste blog em que o Jean foi citado. Pena que não estejam em ordem cronológica)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

SEM VOCAÇÃO PARA MÁRTIR

Estive com Jean Wyllys apenas duas vezes (e duvido que ele se lembre de alguma). Na primeira, eu o vi na boate Galeria, no Rio, e fui me apresentar. Ele sabia quem eu era e foi super simpático. Alguns anos depois, nos cruzamos na casa de um amigo em comum. Jean já estava no segundo mandato de deputado federal e sofria toda sorte de ameaça. Parecia sisudo, preocupado, bem pouco afável. E olha que isto foi antes do impeachment: de lá para cá, o caldo engrossou muito para o lado dele. As fake news quase impediram que fosse eleito pela terceira vez e nossos inimigos chegaram ao Planalto. Hoje saiu a notícia de que Jean nem vai tomar posse no dia 1o de fevereiro. Está no exterior, em um país não-especificado, e pretende ficar por lá. Entendo perfeitamente e lamento muito. Jean não quer se tornar a próxima Marielle (que virá, ou alguém ainda duvida?). Sairá até das redes sociais. Faz muito bem, mas tomara que nunca se cale. Jean foi criticadíssimo até pelas bichas de direita, que nunca reconheceram o trabalho que ele fez pelos direitos LGBT. E daí que ele é de esquerda? Deveríamos estar lamentando a desistência de qualquer parlamentar eleito, por qualquer partido. Esse fato é gravíssimo, mas a minionzada não tem por que comemorar. Adivinha quem é o suplente do Jean na Câmara? O vereador carioca David Miranda, casado com o Glenn Greenwald, editor do The Intercept. Também do PSOL, também viado e ainda por cima negro.

O 23 DE JANEIRO

Não estou muito entusiasmado. O regime chavista já periclitou seriamente pelo menos duas outras vezes. A primeira foi com o golpe fracassado de 2002: Hugo Chávez ainda estava no auge da popularidade e não foi deposto por uma coalizão de militares e empresários. A segunda foi em 2017, quando as manifestações apavoraram tanto Nicolás Maduro que ele mandou abrir fogo contra a população. O ditador já está fazendo isso novamente. A cada notícia que chega de Caracas, aumenta o número de mortos. Mas agora há uma diferença crucial: Juan Guaidó.

O presidente da Assembleia Nacional, eleita  democraticamente em 2016 e dominada pela oposição, proclamou-se presidente interino do país. A lógica é cristalina: golpista é Maduro, que melou o jogo quando seu time começou a perder e convocou uma Constituinte espúria. Tudo o que seu governo fez desde então está fora do estado de direito. O PT e outros partidos brasileiros que insistem em chamar de golpe o que está acontecendo na Venezuela passam por mais um vexame. Depois não sabem porque perderam duas eleições seguidas.

Sim, o Brasil faz bem em reconhecer Guaidó como o novo mandatário venezuelano. Será que Maduro também vai romper relações conosco e expulsar nossos diplomatas? Os EUA já avisaram que não vão retirar os seus, pois não reconhecem mais a autoridade do diretor. E agora? Maduro não reage e se enfraquece? Ou cerca a embaixada e se arrisca a uma invasão? Parece aquela velha piada do navio afundando com o cachorrinho Nabunda. Você leva ou deixa?

ATUALIZAÇÃO EM 26/01: Algumas pessoas questionam a legitimidade de Juan Guaidó, que teria se "autoproclamado" presidente da Venezuela. Não é bem assim. Minha amiga Sylvia Colombo, correspondente da Folha em Buenos Aires e a maior especialista em América Latina que eu conheço (ela está em Caracas neste momento) me explicou que foi a Assembleia Legislativa que assim decidiu, seguindo a Constituição Bolivariana elaborada por Hugo Chávez em 1999 - e que ainda está em vigor no país. Guaidó é o presidente interino encarregado, o que significa que ele tem que convocar novas eleições o mais rápido possível. Leia mais sobre os dispositivos legais que garantem sua legalidade aqui.

ELA AINDA É ELA?


Kéfera Buchmann é um unicórnio no showbiz brasileiro: um caso único de uma atriz que se tornou famosa, rica e popular antes mesmo de começar sua carreira. Foi graças a seu canal no YouTube que a paranaense se tornou uma das influenciadora digitais com mais seguidores no Brasil. Sua estreia no cinema foi estrondosa: no final de 2016, "É Fada!", vendeu cerca de dois milhões de ingressos. Mais de dois anos depois, será que Kéfera ainda é capaz de mobilizar tanta gente? Seus vídeos se tornaram mais espaçados, e ela agora faz novela na Globo. E seus fãs - meninas adolescentes, na maioria - cresceram. Estariam interessados em "Eu Sou Mais Eu"? O filme de Pedro Amorim parece ter sido calibrado tendo em vista este público. O assunto é justamente a passagem para a vida adulta, e a personagem central tem muito de sua intérprete. Kéfera também foi uma garota desajeitada, vítima de bullying no colégio. Não é o tipo de longa que me atraia (passei da idade faz tempo), mas fui à cabine para a imprensa e achei legalzinho, apesar de algumas barrigas. Mais interessante vai ser acompanhar a bilheteria. Se for boa, Kéfera estará provando que sua fama amealhada na internet ainda tem combustível para queimar.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

O INIMIGO AGORA É O MESMO

Caio Junqueira teve uma carreira recheada de trabalhos importantes, como os filmes "Central do Brasil" e "Tropa de Elite". Seu personagem nesse último é emblemático: o ingênuo recruta Neto, que se torna um PM embrutecido e acaba morto pela milícia. Quis o destino que Caio se fosse justo no momento em que surgem laços entre os violentos milicianos cariocas e a família do presidente da república (não acredito que eu escrevi esta frase: em que país que estamos mesmo?). Caio era filho do também ator Fábio Junqueira, que foi um dos melhores amigos do meu marido. Só conheci o pai, mas claro que a morte do rapaz me chocou e me emocionou. O Brasil está entrando no que promete ser um dos períodos mais estranhos de sua história, e um talento como o de Caio Junqueira vai fazer falta.

A BATATA EM CHAMAS

Até o momento, estava tudo muito pitoresco. O Queiroz fazendo dancinha de ano novo no hospital. Sua filha personal trainer batendo ponto em Brasília, ao mesmo tempo em que postava selfies com Bruna Marquezine no Rio de Janeiro. Quarenta e oito envelopes de dois mil reais, um trabalhão para alguém que não queria pegar fila. Esse clima gostoso de baixo clero foi quebrado com a revelação de que o 01 homenageou um miliciano e empregou, até novembro passado, a mulher e a filha do bandido. Não para por aí: quanto mais se puxa o fio, mais aparecem as ligações entre a família Bozo e as milícias que apavoram metade dos cariocas. Gente que rouba, que extorque, que mata e que manda matar. Nem eu, que nunca acreditei na honestidade dessa turma, esperava tamanha barbaridade. Essa batata pelando caiu no colo do papi, e não adianta a minionzada ficar levantando hashtag para demonstrar apoio ao inapoiável. Quem precisa mesmo ser convencido são os militares, que já ocupam um espaço enorme no novo governo e, com o Mourão na frente, dão sinais claros de que querem mais. E aí, se os milicos chegam ao Planalto, adeus reforma da Previdência. Ou alguém acredita que eles vão abrir mão de um único privilégio?

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

COM MEDO NOS OLHOS

Repare no olhar apavorado do Bozo quando ele assumiu o microfone no Forum  de Davos, na manhã desta terça. Claro que é normal ficar nervoso na estreia perante uma plateia internacional, mas há algo mais ali. Ou algo menos. Há a consciência do imenso despreparo para o cargo, o que não deixa de ser positivo. Mas o discurso em si foi pífio. Pelo menos o Biroliro não soltou nenhuma barbaridade damaresca, mas só proferiu platitudes. Os minions que ainda restam estão aplaudindo, e mais ninguém. Para a elite mundial, só restou uma sensação de superficialidade. Ainda mais porque os 45 minutos inicialmente previstos caíram para 30 e, no final, foram menos de seis. Mais oito minutos de perguntas fáceis e pronto: em um quarto de hora, Solnorabo encerrou sua participação nos mais importante encontro de líderes globais. Não duvido que depois ele tenha ido comer de novo no bandejão do supermercado Migros: como lá é self-service, ele nem precisa falar com o garçom. Quanto menos abrir a boca, melhor.

DESOLÉ POUR TIMOTHÉE

Eu tinha certeza certezíssima de que Timothée Chalamet receberia hoje sua segunda indicação consecutiva ao Oscar. Os produtores de "Querido Menino" se esforçaram: inscreveram o rapaz como coadjuvante, onde ele teria mais chances, ao invés de ator principal (reparou no título do filme? Adivinha quem é o menino). Timmy também emplacou entre os finalistas ao Globo de Ouro e ao SAG Award, dois sinais fortes de que estaria na corrida pelo Oscar. Mas não. A Academia quebrou meu coração e indicou cinco homens horríveis, bobos e maus no lugar do mais belo ser humano da atualidade. Não há de ser nada: Glenn Close recebeu sua sétima indicação, e Rami Malek, sua primeira. Torço por ambos, e também por "Roma" como melhor filme (filme estrangeiro já está no papo). Mas tá pintando que o vencedor vai ser mesmo "Green Book - O Guia", um filme feito por homens brancos héteros para ajudar outros homens brancos héteros a não se sentirem homofóbicos nem racistas.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

FLEXÍVEIS E DIVERSOS

Amanhã é dia de tirar a tiara do cofre e o mink da geladeira da Mme. Rosita para, devidamente paramentado, assistir ao anúncio dos indicados ao Oscar. Traumatizada com a campanha #OscarSoWhite de três anos atrás, a Academia quer garantir a diversidade: se não entre os indicados, pelo menos entre os apresentadores, Kumail Nanjiani e Tracee Ellis Ross. Os dois, muito mais conhecidos por trabalhos na TV do que no cinema, lerão a lista dos selecionados em 24 categorias, às 5h da manhã em Los Angeles e 11h em Brasília. Vou ver pela TNT.

Quem vai estar no páreo? Como já faço há alguns anos, aqui vão minhas previsões para os troféus mais badalados. Dessa vez eu me baseio não só nos sites especializados que frequento o ano inteiro, como na minha própria experiência. Já vi mais da metade dos filmes cotados, e sei o que costuma pegar na Academia - tenho 44 anos de janela. Mas sempre rola alguma surpresa (ainda bem), e por isto meus palpites são flexíveis. Os primeiros nomes da lista são os mais prováveis, mas a última vaga é sempre  disputada por dois ou mais candidatos. Vamos lá:


MELHOR FILME
A Favorita
Green Book - O Guia
Inflitrado na Klan 
Nasce Uma Estrela
Pantera Negra
Roma 
Se a Rua Beale Falasse
Vice
e talvez...
Bohemian Rhapsody

Atualização: entrou "Bohemian", saiu "Rua Beale". O resto eu acertei.

MELHOR ATOR
Christian Bale (Vice)
Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela)
Rami Malek (Bohemian Rhapsody)
Viggo Mortensen (Green Book - O Guia)
e talvez...
Ethan Hawke (First Reformed)
ou
John David Washington (Infiltrado na Klan) 

Atualização: Não entrou nenhum dos meus dois alternativos, e sim Willem Dafoe. Bom para ele.

MELHOR ATRIZ
Glenn Close (A Esposa)
Olivia Colman (A Favorita)
Lady Gaga (Nasce Uma Estrela)
Melissa McCarthy (Você Poderia Me Perdoar?)
e talvez...
Emily Blunt (O Retorno de Mary Poppins)
ou
Yalitiza Aparicio (Roma) 

Atualização:  Entrou Yalitza. Único prêmio importante para o qual ela foi indicada.


MELHOR ATOR COADJUVANTE
Mahershala Ali (Green Book - O Guia)
Timothée Chalamet (Querido Menino)
Adam Driver (Infiltrado na Klan)
Richard E. Grant (Você Poderia Me Perdoar?)
e talvez...
Sam Elliott (Nasce Uma Estrela)
ou
Sam Rockwell (Vice)

Atualização: Como assim, Timothé de fora? Entraram os dois alternativos! Marmelada!

MELHOR ATRiZ COADJUVANTE
Amy Adams (Vice)
Regina King (Se a Rua Beale Falasse)
Emma Stone (A Favorita)
Rachel Weisz (A Favorita)
e talvez...
Claire Foy (O Primeiro Homem)
ou
Margot Robbie (Duas Rainhas)

Atualização:  Zebra! Nenhuma das duas alternativas, e sim Marina de Tavira por "Roma".

MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA
Assunto de Família (Japão)
Cafarnaum (Líbano)
Guerra Fria (Polônia)
Roma (México)
e talvez...
Em Chamas (Coreia do Sul)
ou
Never Look Away (Alemanha)

Atualização: A Alemanha entrou no lugar da Coreia, quebrando a tradição de haver pelo menos um país estreante na categoria entre os cinco indicados.

Alea jacta est.

CHOLA MAIS

O sobrenome da família Bozo se tornou uma marca. Tão reputada que até candidatos que não têm nenhuma relação de parentesco com o clã conseguiram se eleger depois de incluí-la ao próprio nome. Mas foi só chegar ao Planalto que a marca começou a sofrer desgaste. Isto era mais do que previsto: é muito mais fácil ser pedra (e virar "mito") do que vidraça. Mas as estripulias do 01 ultrapassam, de longe, o despreparo que o papi apresentou até o momento. Só os minions mais burros e/ou desonestos ainda engolem a história da venda do apartamento ou das lojas Kopenhagen. Nenhuma dessas teorias explica como a filha de Fabrício Queiroz conseguia bater ponto no gabinete do Bozo Pai em Brasília e trabalhar como personal trainer no Rio de Janeiro, nos mesmos dias e horários. O primogênito se enrolou de tal maneira que só lhe resta uma saída digna: a renúncia ao mandato de senador, que ainda nem assumiu. Só isto, talvez (eu disse talvez), não contaminasse o resto da família, toda ela vivendo (e enriquecendo) às custas da política desde 1989. Seria uma saída drástica e dolorosa, feito a amputação de uma perna sem anestesia. Mas claro que isto não vai acontecer: ninguém ali tem tanta hombridade. O mais provável é que os Solnorabo se tornem reféns de ninguém menos que Renan Calheiros, provável futuro presidente do Senado e raposa notória, que apoiou Lula até garantir sua própria reeleição por Alagoas. E assim, em tão pouco tempo, a marca Bozo já está degringolando. Chola mais, 01, chola que ainda tá pouco.

domingo, 20 de janeiro de 2019

I LOVE YOU, TOMORROW

"Annie" é o primeiro musical da vida de muitos americanos. É sobre crianças e para crianças. O pretexto ideal para os pais introduzirem os pimpolhos à Broadway e, quem sabe, despertar uma vocação de coreógrafo ou maquiador. Isto quer dizer que é teatro infantil: luxuoso, com orquestra, cenários elaborados, mas não mais complexo do que "Os Três Porquinhos versus o Bicho-Papão". É nesse espírito que deve ser visto o "Annie" que fica em cartaz em São Paulo por mais uma semana: uma montagem quadrada para uma peça quadrada. Mas é muito bem feita, como tudo que Miguel Falabella faz. Ele está divertido como Daddy Arbucks, e resvala para seus cacos (antibes?) habituais no final do espetáculo. A voz falha algumas vezes, mas ninguém está ficando mais jovem. Voz nenhuma é o que tem Ingrid Guimarães, mas ela também compensa com charme e timing. A única coisa com que realmente impliquei foi a versão de Falabella para a letra de "Tomorrow", o grand hit da peça. Tudo rima e faz sentido, mas sem a poesia de "you're only a day away".

sábado, 19 de janeiro de 2019

O DESAFIO DOS 17 ANOS


Nicole Kidman aparece feia e envelhecida em "O Peso do Passado". Oooooh. Só isto já parece bastar para o filme de Karyn Kusama vir arrancando elogios. Poucas coisas têm mais valor artístico do que uma beldade com a coragem de se enfeiar. Verdade que a atriz está bem, e o roteiro malandro traz uma pegadinha no final. Mas não chega a explicar por que a personagem sofre tanto. OK, ela é uma policial que participou de uma operação que deu errado 17 anos atrás - mas ainda não superou, tanto tempo depois? É o peso do presente que é quase insuportável, transformando o que poderia ser um trhiller mediano num tremendo baixo-astral. Mas Nicole está feia, e só isto é o que importa.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

CARLUCHO

Atendendo a pedidos, eis aí o vídeo que está causando furor no Vale esta semana. O que dizem é que o 02 -  o único solteiro do clã Biroliro - mora com o primo Leonardo Rodrigues de Jesus, o "Léo Índio", e que os dois são discretos e fora do meio. Não sei se é verdade: só dá para confirmar que rola uma brodagem entre ambos, com direito a apelido carinhoso. Lindo, porém revoltante. Carlucho é quem mais divulga nas redes as tiradas homofóbicas do papi - portanto, se ele for mesmo gay, merece ser arrastado para fora do armário. O problema é que, com esses dois novos membros tão reaças, as ações do Vale irão despencar.

ZERINHO CORTA TUDO

Há duas questões interessantes nesta última reviravolta do caso Queiroz. A mais óbvia: por que Luiz Fux aceitou suspender a investigação? Meio mundo está atacando o ministro do STF, que dá a impressão de querer puxar o saco do Bozo. Mas ele próprio se defendeu com um argumento contundente: se tivesse negado o pedido, as provas poderiam ser anuladas. Não sou jurista nem entendo nada de direito, mas, se for isto mesmo, Fux terá cometido um ato de grandeza: deu a cara a tapa para impedir que um larápio se safasse. A segunda pergunta é mais desconcertante: o que se passa na cabeça do 01, para adotar uma estratégia que equivale a uma confissão de culpa? Até os minions menos tapados estão caindo em si, depois de tantas manobras e escapulidas. O que está ficando evidente é que o clã Boçalnaro cometeu todos os delitos que estavam ao seu alcance enquanto militava no baixo clero: contratou funcionários-fantasmas, fez rachadinha com o salário deles, pescou em área protegida. Mas o ministro Marco Aurélio, vilão em dezembro passado, hoje é o herói: ele sinalizou que a mamata do 01 vai acabar. Faltam as dos outros zeros.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

A ARMA DO NEGÓCIO

Durante muito tempos, os EUA foram os únicos países do mundo dito civilizado que facilitavam a posse e o porte de armas. Fuzis são vendidos em supermercados e há pouca fiscalização sobre quem compra: é um resquício da luta pela independência do país, quando empunhar armas (contra os ingleses) virou cláusula da Constituição. O resultado é um lobby rico e poderoso que barra qualquer tentativa de controle, mesmo sendo raro o mês que não tenha um massacre em alguma escola. Agora Israel e Itália, ambos governados por partidos de direita, estão entrando para esse clube perigoso. E o Brasil? Eu votei contra a venda de armas em 2005, e não me arrependo. Mas também concordo com tudo o que diz o Joel Pinheiro da Fonseca, que escreve ótimas colunas na Folha e tem um canal no YouTube muito interessante. Portanto, faço dele as minhas palavras. Só gostaria de acrescentar que eu duvido que haja uma corrida às lojas: aposto que não tem tanta gente assim disposta a desembolsar pelo menos quatro paus num revólver simplezinho. Por outro lado, deve ser mais que o suficiente para fazer um estrago - inclusive nelas mesmas.


NAVALHA NO EGO

Muito tempo atrás, quando eu era um publicitário imberbe, trabalhei para um dos piores clientes do mundo: a Gillette. As campanhas levavam, literalmente, anos para serem aprovadas, e quase nunca traziam uma boa ideia. Depois a empresa foi comprada pela P&G, que deu uma modernizada em sua comunicação. Agora a Gillette está sendo alvo de fogo pesado: muitos caras inseguros de si mesmos estão atacando o novo filme institucional, que dá um twist no slogan "o melhor do homem". Este é só mais um exemplo de que o avanço do conservadorismo no mundo inteiro é uma contra-reação ao avanço dos direitos de quem não se enquadra na tríade homem-branco-hétero. Mas os argumentos dos detratores são tão frágeis quanto a masculinidade dos nossos políticos, que acabaram com o gabinete de número 24 do Senado. Negros, gays e, acima de tudo, mulheres não vão mais baixar a cabeça. E quem não gostar se arrisca a levar uma giletada.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

UM TERROR DE GAROTO


No ano passado, tive uma grata surpresa com "A Amante", o primeiro longa do diretor tunisino Mohammed Ben Attia. Por isto, fiquei curioso para ver seu novo filme, "Meu Querido Filho", apesar do argumento não me parecer muito original. Uma família de classe média entra em desespero quando o filho único, um rapaz quietarrão que sofre de enxaqueca, desaparece, deixando só um bilhete: "fui para a Síria". Ou seja, se juntou ao Estado Islâmico. E aí o pai vai atrás do moleque, como a mãe de "O Caminho de Istambul", que eu vi na Mostra de 2016. Até aí, problema nenhum. Mas já percebi que o cinema de Attia tem uma tendência à imobilidade. Aqui a ação vai parando, parando, justamente quando deveria estar pegando fogo. Como sairá seu terceiro filme? Vou dar mais uma chance.

ISSO, ISSO, ISSO

Não adiantou nada torcer contra, talkei? O primeiro resultado positivo do governo do Bozo já apareceu: o histórico esquete "Vila Militar do Chaves", exibido ontem na estreia da sexta e última temporada do "Tá no Ar". Estou desconfiado de que até os minions gostaram, pois não encontrei um único comentário contra nas redes sociais - e olha que o Adnet já foi jurado de morte por essa cambada, ainda mais depois que a lei que leva seu nome garantiu a mamata de tantos artistas esquerdopatas. A Globoplay não permite que a gente embede seus vídeos, mas dá para ver aqui. Será que a TV brasileira produz algo melhor este ano? Hmm, aposto que sim. Pelo jeito que a coisa vai, assunto para sátira não vai faltar.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

SEM SAÍDA

"Brexit means Brexit", insistia Theresa May, logo após o plebiscito que derrubou David Cameron e a levou para Downing Street. A então recém-empossada primeira-ministra sempre foi contra a saída do Reino Unido da União Europeia, mas jurou que iria respeitar o resultado das urnas. Quase três anos depois... o Brexit está uma mess. Ninguém se entende e cresce o movimento por uma nova consulta popular. Mas aí cabe a questão: a democracia não estaria sendo aviltada? O povo já não foi claro? Não dá para fazer como o saudoso Eduardo Cunha, que punha e repunha uma matéria em votação no Congresso até ela ser aprovada como ele queria. Só que a campanha de 2016 foi a primeira em que bots e fake news tiveram um papel crucial. Os britânicos foram desinformados sobre as consequências da saída da UE. Caíram na esparrela armada pela Rússia, que tem todo o interesse em enfraquecer a Europa (e agora quer que o Trump faça os EUA deixaram a OTAN, veja só). Sabendo disso, acho que a única saída é mesmo um outro plebiscito. E torcer para que a razão vença dessa vez.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

TRATAMENTO DE CANAL

É claro que é uma ótima notícia a criação da CNN Brasil. Até a Turquia já tem há anos sua própria filial do mais famoso canal de notícias do mundo. Além da geração de mais de 300 empregos, a CNN é uma empresa séria, que passa longe das fake news - tanto que está na mira do Trump. O que chama a atenção no caso brasileiro é o currículo dos envolvidos. Rubens Menin é um empresário respetiado, com um importante trabalho filantrópico. Mas, até onde eu li, também é um entusiasta do governo Bozo. E Douglas Tavolaro não só passou 15 anos na Record e assinou a biografia de Edir Macedo como também é sobrinho do bispo. Dá para imaginar essa turma fazendo jornalismo crítico? E a CNN, que os direitopatas juram ser de esquerda, como é que fica?

O RIO ÀS BARATAS

Não consigo ter pena do meu estado e da minha cidade natais. Primeiro meus conterrâneos elegem Crivella prefeito e depois se horrorizam quando descobrem que o pastor está mais interessado em arrebanhar fiéis. Depois colocam um juiz desconhecido e inexperiente no governo, que manda confeccionar uma inédita faixa para a posse e já botou as manguinhas de censor para fora. Ongem ele proibiu uma performance na Casa Franca-Brasil, ao mandar fechar com um dia de antecedência uma exposição que já começou truncada. O precedente é grave, pois nunca vai faltar pretexto para a censura: a proteção às criancinhas, um documento que faltou, a sobrecarga na rede elétrica... Vamos ver se Wilson Witzel enfrenta com o mesmo garbo as milícias que controlam boa parte do estado - responsáveis, entre outras coisas, pelo assassinato de Marielle.

domingo, 13 de janeiro de 2019

CALA A BOCA, BATTISTI

Cesare Battisti não soube read the room, como dizem os gringos. Não interpretou direito os sinais que já estavam no ar, como a vinda de Evo Morales à posse do Bozo. A presença do presidente boliviano, sempre alinhado com a esquerda e os bolivarianos, demonstrou pragmatismo. A Bolívia tem uma longa fronteira com o Brasil e recebe muitos investimentos de cá. Um episódio como aquele de uns anos atrás, quando uma unidade da Petrobras por lá foi retomada à força, talvez fosse respondido agora com uma invasão por terra (Lula, na época, só passou um pano úmido). Além do mais, o terrorista italiano ainda teve a manha de deixar barba e cabelo crescerem, ficando a cara de um dos disfarces que a PF divulgou que ele poderia estar usando. Nessas horas, ninguém raspa a cabeça e ninguém foge para o Tadjiquistão. Ali ás, nem para a Venezuela: se tivesse se mandado para Caracas, Battisti estaria livre agora, se bem que com fome. Na Itália (um país com que a Bolívia também não tem por que se indispor), pelo menos, a cadeia serve três refeições por dia.

OS ESPETACULARES HOMENS-ARANHAS


Passei o final da minha infância apavorado com os universos paralelos. Li uma matéria na extinta revista "Planeta" que às vezes bastava virar uma esquina para, pá, cair numa realidade parecida com a nossa, mas ligeiramente diferente. Ou então topar com a sua versão na outra dimensão, mais magro, mais rico e louro de olhos azuis. O conceito de "multiverso" foi adotado com gosto pelas HQs de super-heróis, para justificar as muitas mortes e origens de seus personagens. No cinema, ninguém abusou mais do que o Homem-Aranha, que já está no terceiro ator desde que a franquia foi lançada em 2002. Mas agora essas versões live-action vão ter que rebolar, porque "Homem-Aranha no Aranha-verso" é apenas o melhor filme de super-herói jamais feito, em qualquer estilo. Não só pela ideia genial de combinar diferentes iterações do aracnídeo humano, mas, principalmente, pelo festim visual na tela. Combinando todas as técnicas conhecidas de animação (e algumas ainda não, me pareceu), o resultado é um gibi que tomou ayahuasca. Eu nunca gosto de filmes em 3D - acho que os óculos escurecem a imagem, e depois de cinco minutos a gente nem se liga mais - mas, aqui, o 3D faz MUITA diferença. São tantos planos, tantas texturas, tantos jatos de cor, que só um cinemão super-equipado faz justiça a essa nova obra-prima. Num ano que tem os ótimos "Ilha dos Cachorros" e "Os Incríveis 2" no páreo, "Homem-Aranha no Aranha-verso" merece mais que todos juntos o Oscar de longa em animação, porque é o que realmente faz avançar a arte. E ainda tem uma versão suína do herói, sem dúvida nenhuma inspirada no "Spider-Pig" que o Homer cantava no filme dos Simpsons.

sábado, 12 de janeiro de 2019

FILA INDIANA


"O Livro da Selva" não envelheceu bem. Rudyard Kipling é visto hoje como racista e colonialista. Pelo menos o Mogli é indiano: menos polêmico que o branco Tarzan, que consegue habilidades maiores que as dos nativos negros. De qualquer forma, a história do garoto criado por lobos continua rendendo novas versões. Três anos atrás, a Disney lançou a versão aparentemente "live action" do longa em animação dos anos 60, que faturou o oscar de efeitos especiais. Agora a fila andou: "Mogli - Entre dois Mundos" está disponível na Netflix desde meados de dezembro. Uma outra visão da história, sem musiquinhas e bem mais pesada que a disneyana. Morre até um personagem fofinho, que não aparecia no desenho animado. Mas, apesar dos bichos falantes, gostei bastante desse suposto realismo. Não atrapalha o fato das feras terem as vozes de Cate Blanchett, Benedict Cumberbatch ou Christian Bale. Também não me incomodou o grande número de moscas em cena, ou os ferimentos expostos: os bichos na natureza são assim. Palmas para Andy Serkis, o ator que se especializou em encarnar criaturas pelo sistema "motion capture". Já estava na hora dele levar um Oscar honorário.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

MAMA, BOZARÉ

O general Mourão falou que a promoção do filho dele no Banco do Brasil, para ganhar uma Michelle a mais, é "assunto encerrado". Nananina: o escândalo continua reverberando, ainda mais depois que descobriram que o antecessor do rapaz não ganhava 100 paus, e que ele não foi "perseguido" durante os anos do PT no governo (na verdade, foi promovido oito vezes). Para que esta e outras ladroagens não caiam no esquecimento na próxima vez que a Damares expelir uma barbaridade, já existe o site Acabou a Mamata, que registra cada violação da ética cometida pelo governo que era contra "tudo o que está aí". Na contagem não entram casos bisonhos como o do presidente da Arpex, que foi demitido mas se recusou a ir embora. E nem lances realmente sérios, como a demissão da diretora do departamento de HIV/AIDS do Ministério da Saúde, o que pode custar a vida de muita gente. Mais uma vez, parabenizo os asnos que caíram nesse conto do vigário que é o Bozo. Ou vocês também estão de olho numa boquinha?

(Gracias a Pedro HMC por mais esta dica preciosa)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

ELE TAMBÉM


Um fenômeno curioso está se passando com "A Esposa". O roteiro, baseado no livro do mesmo nome, rodou os estúdios de Hollywood ao longo de mais de 12 anos. Foi rejeitado por causa do titulo e pela protagonista ser uma mulher madura. Até que Glenn Close se interessou pelo papel, e os produtores conseguiram financiamento na Europa. O resultado é um filme redondinho, que conta a história da mulher com talento literário mas que sufocou a própria carreira em prol da do marido. Quando ele recebe o prêmio Nobel, a tensão acumulada durante anos explode. Glenn, fabulosa como sempre, já ganhou o Globo de Ouro e é a favorita para o Oscar, que há três décadas lhe escapa das mãos. Mas por que ninguém fala de Jonathan Pryce? O ator inglês está fantástico como o autor vaidoso e infiel, e merecia ser indicado a alguns prêmios. Sinal dos tempos: um filme tão alinhado ao movimento #MeToo, que finalmente vai consagrar uma das atrizes mais injustiçadas da história do cinema, não está rendendo aplausos para seu antagonista masculino.

TINTIN NO PAÍS DOS NONAGENÁRIOS

O herói do meu roman de formation completa exatos 90 anos no dia de hoje. Foi em 10 de Janeiro de 1929, uma terça, que Tintin surgiu nas páginas do "Le Petit Vingtième", suplemento infantil do jornal católico belga "Le XXème Siècle", num traço tosco e ainda em preto-e-branco. Em seus primeiros anos, o intrépido repórter era um agente do imperialismo: suas viagens inaugurais foram à União Soviética, para revelar a farsa do comunismo, e ao então Congo Belga, para cantar loas ao colonialismo branco. Foi só na quarta aventura, "Os Charutos do Faraó" (uma das minhas favoritas), que Tintim começou a se parecer com o que é até hoje: o personagem das tenazes de ouro, com coragem, inteligência e nenhuma personalidade. Ou seja, perfeito para o leitor se projetar nele. Eu o conheci quando tinha seis anos de idade e nunca mais larguei. Sei todos os livros de cor, e ele está comigo quando refaço seus passos pelo mundo - como na estação ferroviária de Genebra ou no aeroporto de Jakarta. Visitei o Museu Hergé em Louvain-la-Neuve e tenho uma extensa biblioteca sobre Tintin, que não para de crescer. Só assim dá para continuar evoluindo: Hergé proibiu expressamente que surgissem novos livros após sua morte, em 1983. Curiosamente, este foi o jeito de manter Tintin jovem para sempre. Acaba de sair um app que permite ler todos os álbuns no celular, mas eu sou tintinólogo de raiz. Ainda prefiro em papel e, de preferência, em francês. Mille millions de mille milliards de mille sabords!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

DEUS NOS LIVROS

Previsível já era. Agora está ficando monótono. Todo dia alguém do governo Bozo faz uma cagada apoteótica, causando confusão e expondo despreparo. Hoje foi a vez do sinistro (com S mesmo) da Educação, o pouca-prática Ricardo Vélez. Pela manhã foi anunciado que os livros didáticos podem trazer erros de revisão e até propaganda; mas não trariam mais referências bibliográficas, nem tratariam de violência contra a mulher ou de quilombolas. A grita foi enorme, e no final da tarde o sinistro voltou atrás - mas, num gesto que revela a extensão de seu caráter, jogou a culpa no governo Temer. Mais uma vez, parabéns aos amigos que votaram no Boçalnaro porque o PT pipipi popopó. Aviso não faltou, mas parece que vocês estudaram nesses livros que quase foram aprovados.

O GUARDIÃO DA HOMOFOBIA

As bibas mais novas talvez não saibam que Aguinaldo Silva, antes de se tornar um autor de novelas de enorme sucesso, foi um pioneiro na luta pelos direitos LGBT no Brasil. Entre 1978 e 1981, ele editou o "Lampião", nosso primeiro jornal abertamente voltado ao público gay - e isto ainda durante a ditadura militar, quando "homofobia" nem era uma palavra de uso corrente. Mas a militância parece ter ficado no passado. Em suas novelas, Aguinaldo só costuma retratar bichas caricatas, como o Crô de "Fina Estampa", que são alvo da chacota geral e nunca arranjam namorado. Ele também adora emitir opiniões polêmicas pelo Twitter, como sua recente defesa da ministra Damares Alves ("sensata" e "preparadíssima" - heloooooo!). Agora surge a notícia de que o prefeito Eurico (Dan Stulbach) de "O Sétimo Guardião" será punido por trair a irmandade secreta que vigia uma fonte da juventude: casado e hétero, ele passará a gostar só de homens. Que tipo de cabeça doente acha que, em pleno 2019, sentir atração pelo próprio sexo ainda é um castigo? Aguinaldo Silva deve estar achando esta situação muito engraçada, mas ela passa uma mensagem erradíssima para a garotada que ainda vê novela.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

A MULHER DE CÉSAR E O FILHO DO VICE

"Não basta a mulher de César ser honesta. Ela tem que parecer honesta". Todo mundo conhece essa frase, atribuída ao próprio Júlio César. Todo mundo, menos os políticos brasileiros. Volta e meia algum é pego fazendo algo perfeitamente normal, porém injustificável à luz da ética. Hoje foi a vez do filho do vice-presidente Mourão receber uma promoção que vai triplicar seu salário. Os já bem razoáveis 12 mil por mês saltarão para 36, graças ao novo cargo que ele ocupará no Banco do Brasil. Um aumento de 200%, de um dia para o outro. "Mas antes ele não podia ser promovido, porque o PT dominava o BB...". Pois é. Só que pegou mal pacaraio, a ponto de até bolsominions estarem questionando. Mas quem resiste a 24 mil reais a mais na conta, todo mês? 24 mil, uma "Michelle"!

O SHOW NÃO TEM QUE CONTINUAR

Duas semanas atrás, a Folha publicou uma matéria minha sobre a crise eterna do "Video Show". No texto, eu me perguntava se o programa em que trabalhei entre 2013 e 2014 ainda tinha salvação. Não teve: a Globo acabou de anunciar que a última edição do "Video Show" irá ao ar nesta sexta. Foi quase en passant, no meio de um e-mail anunciando novas atrações. E assim termina um pedaço da história da televisão brasileira, depois de 35 anos ininterruptos. Torço para que meus amigos que ainda estavam lá sejam reencaminhados para outros programas da casa: eu não tive essa sorte, depois que o Boninho reassumiu o comando da atração. Mas tenho orgulho do período que passei no Projac. Aprendi para caramba, me diverti outro tanto, e fizemos muita coisa de que realmente me orgulho. Verdade que não fomos bem de audiência, mas ainda dávamos mais Ibope do que essas últimas fases. Em homenagem a esse capítulo da minha vida, reproduzo aí em cima o logo daquela época, o melhor que o programa já teve. Vá em paz, "Video Show".

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

MACHADO NA CARNE


Crimes famosos costumam ser aqueles que todo mundo sabe quem matou, mas o assassino segue lindo, leve e todo pimpão. Aqui no Brasil houve o rumoroso caso de Dana de Teffé: a Justiça nunca condenou o óbvio culpado, Leopoldo Heitor (os nomes parecem de novela mexicana, mas eu juro que é tudo verdade). Nos Estados Unidos até hoje se discute se Lizzie Borden teria mesmo matado o pai e a madrasta a machadadas. Mas o filme "Lizzie" não tem dúvidas, e apresenta uma versão bem plausível do que teria acontecido. Chloë Sevigny faz bom uso de sua cara de neurótica no papel-título, e encontra uma boa escudeira em Kristen Stewart - quem diria que a canastrona que fazia a Bella um dia se tornaria uma boa atriz? Dessa vez, o ritmo lento e a ausência de música não me incomodaram. Só que "Lizzie" é mesmo um filme menor, lançado em uma semana quieta nos cinemas. Pelo menos serve para distrair enquanto não chegam mais títulos do Oscar.

NÃO NOS PERDEREMOS MAIS

Fiquei mais de 30 anos sem ir a um show da Leila Pinheiro. Até ontem, eu só a tinha visto uma vez, no Teatro Ipanema, no Rio, por volta de 1986. Leila ainda era uma novata que surfava no sucesso de "Verde", com que emplacara um terceiro lugar em um festival da Globo no ano anterior. Depois disso, não é que a perdi de vista, mas nos extraviamos. Só fui redescobri-la justamente no espetáculo "Extravios", que esteve em cartaz neste fim de semana em São Paulo, no SESC Vila Mariana. Sob a direção de Ana Beatriz Nogueira, Leila consegue uma proeza e tanto: faz uma apresentação intimista, em que parece estar cantando para um grupo de amigos na varanda de sua casa. Só que por trás da espontaneidade há rigor, há todo um conceito. O repertório à prova de bala ergue uma ponte a Portugal - o número de abertura é justamente minha amada "Amar pelos Dois", com que Salvador Sobral venceu o Eurovision de 2017 - ao mesmo tempo em que torna delicadas canções frenéticas como "Chuva, Suor e Cerveja". Com intervenções esporádicas do cavaquinho de João Felipe, Leila se acompanha ao teclado ou ao violão, com a voz tão potente e afinada como era três décadas atrás. "Extravios" não é um show para levantar poeira, e sim um reencontro com músicas excepcionais e uma intérprete idem.

domingo, 6 de janeiro de 2019

A FAMÍLIA QUE ROUBA UNIDA


O enredo de "Assunto de Família" é encantador. Um bando de marginalizados pela rica sociedade japonesa caba se juntando pelas curvas da vida, e forma uma família perfeitamente funcional. Há a senhora idosa, cuja aposentadoria é a principal fonte de renda do grupo: ela prefere compartilhar a grana com todos, para não ter que viver (e morrer) sozinha. Há a neta da velha, que trabalha em um peep show; uma proletária que comete pequenos furtos em seu trabalho; e um ladrão semi-profissional, que treina duas crianças para roubar supermercados. É uma história que poderia ser adaptada para quase qualquer país do mundo, e funcionaria muito bem no Brasil. Mas eu não gosto da direção de Hirokazu Kore-eda. Acho seu estilo minimalista demais, quase frio, e o não-uso da música não deixou que eu me emocionasse como esperava. Claro que esta é uma opinião pessoal minha: "Assuntos de Família" levou a Palma de Ouro em Cannes no ano passado e está entre os nove pré-finalistas do Oscar. Mas a mensagem final não podia ser mais linda: família de verdade é aquela que a gente escolhe. Nem que para isto seja preciso roubar.

sábado, 5 de janeiro de 2019

SMOKE GETS IN YOUR EYES

Ninguém deve dar atenção às bobagens ditas por Damares Alves. Essa polêmica do rosa e azul foi plantada de propósito, só para nos distrair do verdadeiro escândalo: a suspeitíssima movimentação financeira do motorista Fabrício Queiroz. Que, por sua vez, também é uma cortina de fumaça. Enquanto prestamos atenção no laranja, direitos trabalhistas são suprimidos, terras indígenas leiloadas, grávidas demitidas e assim por diante. É o que dizem os patrulheiros da internet, em eterna ronda para ver quem não aderiu ao protesto certo. Que, aliás, nem existe: o protesto certo é sempre outro, não aquele que você estiver fazendo.  Essa polícia acha que somos todos cachorrinhos, que não conseguimos prestar atenção em mais de uma coisa de cada vez. Fora que a patacoada do rosa e azul é grave, sim: é a manifestação de uma mentalidade medieval, na boca de uma mulher espertalhona e carreirista que se faz de vítima toda vez que é contestada. E não foram poucas as pessoas que lembraram de por o laranja na paleta de cores da ministra, mostrando que o Queiroz bem que tentou sumir, mas não foi esquecido. Mas o mais grave disso tudo é o total despreparo da cúpula do governo: não sabem o que estão fazendo e sequer combinam dizer as mesmas coisas. Mais uma vez, parabéns aos asnos que elegeram es... ei, olha só aquele espelhinho!

NINGUÉM SOLTA O CLITÓRIS DE NINGUÉM

Uma das primeiras medidas tomadas por Luiz Henrique Mandetta, o novo ministro da Saúde, foi tirar do ar uma cartilha com dicas de saúde para homens transexuais. A desculpa oficial é que o material contém erros e precisa ser atualizado, mas quem é que acredita nisso? Só que os minions não contavam com a nossa astúcia. A cartilha ainda pode ser baixada do site da militante LGBT Maiara Reis. Não creio que o meu blog tenha muita audiência entre homens trans (só conheço dois pessoalmente), mas é preciso manter esse tipo de informação circulando. Passe adiante se você conhecer algum. Ninguém solta nada, talkei?

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

UNDER HIS EYE

Não, ainda não enjoei de pegar no pé da Damares Alves. A ministra-pastora é um gêiser de besteiras, e por enquanto está divertido rebatê-las. Não sou só eu: hoje a Tia Lydia brasileira foi confrontada por um vendedor de uma loja em Brasília, que estranhou ela estar usando a proibida cor azul (esta polêmica também rendeu a minha coluna de hoje no F5). Ontem, durante uma entrevista à Globo News, Damares criticou o SISU, por ele permitir que jovens entrem para universidades em estados distantes de onde moram. Isto enfraqueceria a família, alegou ela. A boboca se esquece que a época da faculdade é o início da vida adulta, e tudo o que muitos jovens querem é ir para bem longe de papai e mamãe. Educadores e até alunos já caíram de pau sobre a ignorantona, e eu vou cair também. E assim, a ministra-pastora liquida a simpatia que angariou com sua triste história de infância (ela foi abusada por um pastor). Talvez fosse o caso dela voltar à goiabeira, para consultar o que Jesus acha do fato dela ter inventado a farsa do kit gay e espalhado, em 2012, que a ex-ministra Marta Suplicy teria gasto uma fortuna em dinheiro público para ensinar os pais a masturbarem seus bebês.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

A MURALHA

Quem já foi a um templo hindu certamente reparou em um aviso: "proibido a entrada de mulheres impuras", i.e., menstruando. Não há revista íntima nem detector de absorventes, então fica a critério de cada uma (e duvido que alguma turista de outra religião tenha obedecido). Talvez por isto mesmo, um templo no estado de Kerala, no sul da Índia, impôs uma regra mais radical: ele proíbe a entrada de mulheres em idade fértil, dos 10 aos 50 anos de idade. Na semana passada, duas mulheres em idade fértil desafiaram esse despautério, que já havia sido declarado ilegal pela Justiça de lá. Muitos homens se revoltaram, houve protestos e quebra-quebra, e aí a mulherada deu um troco à altura. Mais de CINCO MILHÕES DE MULHERES formaram uma linha com MAIS DE 620 KM DE COMPRIMENTO. Uma verdadeira muralha. Isto aconteceu na Índia, um país de cultura diferente da nossa, mas ainda mais machista em muitos aspectos. E se isto acontece do outro lado do mundo, pode muito bem acontecer por aqui.

Já este acontecendo em outros lugares. A onda de extrema-direita que varre o mundo, das Filipinas à Itália, já começa a retroceder. Donald Trump se vê todo dia mais enrolado, e cada vez mais analistas apostam que ele não chega ao final do mandato. Os republicanos perderam o controle da Câmara de Deputados, que voltou a ser presidida... por uma mulher. Na Hungria, Viktor Orbán, o amigão do Bozo, enfrentou sua primeira rebelião popular, depois de propor uma lei trabalhista absurda. Todos esses políticos na verdade fazem parte de algo maior do que o mero espectro político: são a reação machista ao avanço da mulher na sociedade. São todos homens, que pregam o retorno a um passado "mais simples", onde os machos faziam o que queriam e as mulheres calavam a boca. Aqui no Brasil, esses reaças se manifestam não só com a eleição do Bozo, mas também com os episódios de violência contra a mulher que todo dia explodem no noticiário. Antigamente, os homens matavam as esposas adúlteras, quando as flagravam nos braços de um amante. Hoje a mulher nem precisa trair: basta dar o fora no sujeito, dizer que vai embora, para apanhar e até morrer. Era contra esses brucutus que a ministra Damares deveria pregar contra - justo ela, que foi abusada quando pequena. Mas a pastora foi cooptada pelo mesmo sistema que a agrediu, e agora defende que menino é menino e menina é menina, contra todas as evidências que a ciência e a vida oferecem. Não há de ser nada. Nossa muralha está em gestação, seja física ou virtual. Seja rosa ou azul. Aguardem.

O ROSA E O AZUL

Juro que eu tento mudar de assunto. Que eu quero ser mais pop, como me cobrou um leitor. Mas, pelo menos nesses primeiros dias do novo governo, não está rolando. Hoje a ministra Damares bradou aos quatro ventos que "é uma nova era no Brasil: menino veste azul e menina veste rosa". Não, pastora, isto é uma velha era, que remonta ao reinado da rainha Vitória. Porque foi naquela época que se determinou que as cores dos quartos de bebê seriam rosa para as meninas e azul para os meninos. Antes disso, o rosa até era considerado masculino, sabia? Porque é um tom do vermelho, a cor do sangue, que remete à bravura e à coragem "inatas" dos homens. Ou seja: tudo construção cultural. Tudo IDEOLOGIA DE GÊNERO. Tudo um esforço hercúleo para que as crianças se comportem de acordo com o que eles acham condizente com o sexo biológico. E o mais patético é que... não adianta nada. Quem for viado será, quem for sapatão será, quem for trans também. O triste é que serão na surdina, no armário, sofrendo para que esses fanáticos achem que estão agradando a um deus que nem existe. Mas do lado das guei estão as pessoas com cérebro, coração e alguma cultura, que sabem que rosa e azul são só cores. Que só dizem o que quisermos que digam.

("O Rosa e o Azul", de Renoir, está no MASP. Aposto que Damares nunca foi lá.)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

O VOTO-RICOCHETE

Durante a campanha eleitoral, discuti com vários amigos gays que iriam votar no Bozo (e rompi para sempre com a maioria). Alguns me garantiam que nããão, quando o capitão reformado for eleito, ele não irá perseguir a bicharada nem concretizar nenhuma das barbaridades que vive dizendo. É tudo da boca pra fora, me juravam. É só marketing. Eu já acho o simples fato de falar barbaridades imperdoável, por melhor que fosse o programa do Bonoro (se houvesse um programa, é claro). Aí, adivinha o que aconteceu? No SEGUNDO dia de seu governo, Solnorabo já assinou uma MP que altera as diretrizes da proteção aos direitos humanos promovida pelo ministério comandado por Damares Alves. O novo texto cita a mulher, a criança, o adolescente, o idoso, o índio, o negro e os deficientes físicos, mas não faz nenhuma menção aos LGBT. Sem falar que Ricardo Vélez, o ministro da Educação escolhido pelo Olavão e aprovado pela bancada teocrática, já desmontou a Secretaria da Diversidade. Gostaria de parabenizar, outra vez, todos os gays que apertaram o 17. Tomara que vocês sejam os primeiros a morrer.