segunda-feira, 15 de julho de 2019

REI JÍAR

Biroliro é o rei da marcha-à-ré. Não é raro que ele solte uma barbaridade e depois a retire, ou nunca mais toque no assunto, se a reação nas redes sociais for ruim. Por isto, é curiosa a insistência na indicação do 03 para a embaixada em Washington, mesmo depois de quatro dias de má repercussão. Nem os minions mais fanáticos se uniram para apoiar a ideia: por motivos diversos, até Janaína Paschoal e Olavo de Carvalho se manifestaram contra. Entretanto, hoje o Bozo disse que, se está sendo criticada, então a proposta está certa. Hmm, e se fosse o contrário? Que lógica é essa?

A Luciana Coelho, minha colega na Folha, teve a coragem de apontar algumas vantagens no 03 como embaixador na corte de Donald Trump - claro que com muitas ressalvas. Ela vê coerência na atitude do Mijair. Eu também vejo, e é por isto que estou apavorado. Mais do que o despreparo evidente do rapaz para o cargo, mais até do que o próprio nepotismo do gesto, o que esta indicação revela é o desejo do Boçalnaro de fundar uma dinastia. Tal qual o déspota de um país do Oriente Médio, ele quer que os filhos sejam os herdeiros naturais de seu poder. Os próprios "garotos" (nenhum com menos de 35 anos) já se comportam como príncipes, mesmo sem terem cargos no Planalto. Esse desejo, afinal confesso, talvez traga em si a semete de sua própria destruição. Muitos (não todos) que votaram em Bostonazi não querem um ditador perpétuo, nem um monarca absolutista. E o favorecimento dos filhos é um sinal inequívoco de que não, a mamata não acabou. Como o "Rei Lear" de Shakespeare, o presidente se revela um mandatário inepto. Só falta seus três filhos mais velhos lutarem abertamente pelo trono. Mas não deve faltar muito.

domingo, 14 de julho de 2019

ÉDIPO COMPLEXO

"Tebas Land" começa com o ator Otto Jr. se apresentando para a plateia e explicando que queria montar um espetáculo sobre um prisioneiro de verdade, com o próprio em cena. Só que a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo não deixou, então o que se vê no palco é o ator Robson Torinni representando o preso. Os encontros entre os dois são reencenados: Martim matou o pai a garfadas, e os detalhes e a motivação do crime vão surgindo aos poucos. Mas Robson também volta a ser ele mesmo, e os dois discutem o texto que estão fazendo. Eu estava acreditando em tudo, até que lembrei que o texto é do uruguaio Sergio Blanco e já foi montado no mundo inteiro. Nada é real na peça, só as emoções. "Tebas Land" é uma variante interessantíssima do mito de Édipo e um jogo de espelhos teatral como há tempos eu não via. Fica só mais uma semana em cartaz no Sesc 24 de Maio, em São Paulo: eu recomendo para quem gosta de se perder em labirintos.

sábado, 13 de julho de 2019

LA ROSALÍA

Conheço essa música há mais de dois meses, mas talvez fosse melhor não conhecer. Sou súdito da espanhola Rosalía desde a virada do ano e acho sua mistura de flamenco com batidas eletrônicas uma das melhores coisas do pop atual. Também não vejo a hora dela medir forças com Anitta em um clipe. Os mesmos feats elas já têm: J Balvin participa da contagiosa "Con Altura", que não sai da minha cabeça por causa do "la Rosalía" lá pelo final. Vou atravessar a rua, olho para um lado, olha para o outro, la Rosalía. Busco um copo d'água na cozinha, abro a geladeira, la Rosalía. Ligo a TV, la Rosalía. Mudo de canal, la Rosalía, mudo de novo, la Rosalía, desligo, La Rosalía. La Rosalía. La Rosalía.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

SE EU FOSSE OUTRO EU

Quando eu tinha uns 13 anos, meu maior medo era cair em um universo paralelo. Uma matéria na extinta revista "Planeta", especializada em assuntos esotéricos, me deixou apavorado. Mas hoje em dia eu gosto desses filmes que mostram o que aconteceria se o personagem não fosse quem fosse. Uma realidade alternativa, onde outras possibilidades se concretizaram - mas no fundo ele continua o mesmo. Esse mote é reciclado em "Amor à Segunda Vista", uma bobagem romântica que foi bem de bilheteria na França e acaba de estrear no Brasil. O protagonista é um escritor famoso, casado com uma mulher frustrada por não ter seguido a carreira de pianista. Um belo dia, ele percebe que sua vida não é mais a mesma. O pobre não passa de um professor de literatura, e agora está solteiro. Sua mulher - que nem o conhece mais - é uma pianista de sucesso, e está noiva de outro. Ele então decide reconquistá-la. Essa premissa bonitinha é diluída ao longo de duas horas (tempo demais para uma comédia), e lá pelas tantas o roteiro patina. Mas o desfecho salva o dia: além de ligeiramente surpreendente, é generoso,  e está em perfeita sincronia com os dias de hoje.

TERRIVELMENTE NEPOTISTA

Sabe quem costuma nomear os próprios filhos como diplomatas? Ditadores africanos. Emires árabes. Déspotas em geral, que comandam monarquias disfarçadas. Por que é nisto o que a familícia Biroliro quer transformar o Brasil: numa capitania hereditária, onde eles se tornariam uma dinastia. Mijair acha que despachar o 03 para Washington vai pegar super bem com o Trump, como se não nosso embaixador nos EUA não precisasse ter boa relação com o Congresso de lá (que é majoritariamente democrata). Tomara que o STF barre essa molecagem. Este é mais um chute nos militares, que se venderam ao Bozo mas não ganharam nada em troca. E mais um downgrade na nossa combalida imagem internacional.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

DEPUTÁBATA

Não estou eufórico nem furioso com a reforma da Previdência. Sei que ela é necessária e acho que a que foi aprovada, até agora, foi a possível. Claro que acho absurda a pressão dos policias por mais benefícios. Também não entendo por que as mulheres poderão se aposentar antes que os homens, com menos tempo de contribuição: elas não vivem mais que eles? Mesmo assim, defendo uma das líderes da bancada feminina, a Tábata Amaral. A deputada federal pelo PDT-SP é firme, coerente e preparada, ao contrário do que choraminga a esquerda saudosista. Ciro Gomes estará sabotando a si mesmo se expulsá-la do partido (e nem será a primeira vez). Não votei na Tábata nas últimas eleições, mas vou considerá-la com carinho para tudo a que ela se candidatar daqui para a frente. Quer dizer... se ela se bandear para o Novo, a versão gourmetizada do PSL, nem fodendo.

AVE DE RAPINOE

Estou preparando uma galeria com os grandes heróis da resistência deste ano, e a mais nova integrante é Megan Rapinoe. A capitã da seleção americana de futebol feminino não é só uma baita jogadora: também é uma líder política, sem medo de peitar Donald Trump. Sua recusa em visitá-lo na Casa Branca e suas declaracões pró-inclusão mostram que ela é mesmo uma águia, dessas que voam alto e enxergam longe. Enquanto isso, aqui no Brasil, os craques do escrete canarinho gritam "mito!" e fazem fila para cumprimentar o Bozo. Até o Marquinhos, que passou reto pelo Despreparado, jurou que já haviam se confraternizado antes. Só o Tite agiu com um mínimo de decência, porque nunca se mistura com políticos.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

NO-SHOW

A desistência de Nick Minaj em se apresentar na Arábia Saudita levanta uma questão interessante: um artista deve se apresentar em ditaduras? A minha resposta é... depende. Quando o convite é para cantar na festinha particular do ditador, como Jennifer Lopez já fez no Turcomenistão, é claro que não. Mas sou a favor de Milton Nascimento fazer show em Israel, ou Madonna na Rússia. OK, esses dois países não são exatamente ditaduras. Mas Israel oprime os palestinos e a Rússia persegue os gays. Vale a pena boicotá-los? Eu respeito quem acha que sim, mas acho mais producente ir lá e se apresentar para um público que, não raro, também é vítima do regime. Madonna e Lady Gaga até correram o risco de ser presas, por se manifestarem a favor dos LGBT em terras de Putin. Mas a Arábia Saudita é diferente. É uma tirania asquerosa, de forte pendor teocrático, que decapita domésticas que matam seus estupradores. O príncipe Mohammad Bin Salman vem tentando modernizar o país: foi ele permitiu quem que os cinemas voltassem a abrir, e que as mulheres tirassem carteira de motorista. Também foi ele quem ordenou a morte do jornalista Jamal Kashoggi, além de muitas outras barbaridades. É decente colaborar com o plano de poder de um déspota sanguinário? Fora que o festival em que Nicki Minaj se apresentaria é segregado, com homens e mulheres em lados separados. E por que os pudicos sauidtas convidaram a cantora do escandaloso "Anaconda"? Ha, eu acho que sei por quê.

A PRIMEIRA VÍTIMA?

Vou admitir: eu não era muito fã do Paulo Henrique Amorim. Até gostava bastante de seu estilo incisivo e coloquial - uma novidade na época em que ele despontou na Globo, em meados dos anos 80. Depois PHA passou por várias emissoras até se fixar na Record, onde foi útil enquanto o PT esteve no poder. Veja bem, minha pinimba não era o fato dele ser petista roxo. É desejável que um jornalista seja imparcial, mas não é obrigatório. Acontece que, em seu afã partidário, muitas vezes PHA cometeu injustiças, divulgou notícias mal apuradas e até agiu de modo grosseiro com colegas. Também foi um dos responsáveis pela criação da sigla PIG (Partido da Imprensa Golpista), que ajudou a minar a credibilidade do jornalismo profissional. Mas não deixo de me condoer com seu destino cruel. Só sua viúva poderá confirmar se ele andava cabisbaixo depois de ter sido tirado do "Domingo Espetacular" e encostado pela emissora, onde ainda tinha dois anos de contrato pela frente. Impossível não lembrar de Paulo Francis, que também morreu jovem do coração, acossado por um processo movido por um executivo da Petrobras. Terá sido Paulo Henrique Amorim a primeira vítima fatal do expurgo em andamento na imprensa pró-Bozo? Mais do que nunca, é preciso resistir. Ninguém solta a mão de ninguém.

terça-feira, 9 de julho de 2019

SOB O SIGNO DE LAGOSTA

A notícia saiu no domingo, mas eu estou rindo até agora com o #Lagostagate. Dessa vez a culpa não é do Bozo, mas não é incrível como ele atrai esse tipo de trapalhada? A Embaixada de Israel em Brasília cometeu o photoshop mais tosco de todos os tempos, ao pintar de preto (e sem cobrir direito) os lagostins que Biroliro e o embaixador de seu país favorito saborearam em um almoço. É estranho o cerimonial do Alvorada cometer uma gafe dessas: crustáceos não são kosher, portanto não podem ser comidos por judeus  religiosos. Vai ver é um olavete quem cuida agora dos cardápios presidenciais, e ele ainda conferiu se os bichos foram pescados perto da muralha de gelo que circunda a Terra Plana.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

MATCH POINT

Agora já sabemos para que servem as lives que o Biroliro faz toda quinta no Facebook: para lançar um tema aleatório, absolutamente irrelevante para a crise que vivemos, que vai ocupar a mídia e as redes sociais nos dias seguintes e desviar a atenção do desmonte da educação e da destruição do meio ambiente. Semana retrasada foram as pulseiras de nióbio. Na passada, o trabalho infantil, algo que não está em discussão há mais de 100 anos. O Bozo se jactou de ter "quebrado milho" aos nove anos de idade, no que foi prontamente desmentido pela própria mãe. Na sequência, o gado amigo passou a compartilhar os terríveis esforços que foram obrigados a fazer no escritório do papi ou na loja da mami, que lhes custaram a infância e os marcaram para sempre. Até a Leda Nagle, que muita gente ainda não sabia ter sido cooptada pelo lado negro da Força, aderiu. O lado bom é que não faltou declaração ridícula, nenhuma mais do que a tuitada pela deputada federal Bia Kicis (PSL-DF):  

"Aos 12 anos de idade, eu fazia brigadeiros para vender na minha escola. E o mais interessante era que eu não precisava, mas eu sentia uma enorme satisfação de pagar as minhas aulas de tênis com o esse dinheiro. Eu me sentia criativa e produtiva".  (dei uma melhorada na sofrível pontuação da parlamentar)

Vamos respirar fundo antes de repetir? Aulas. De. Tênis. A desonestidade intelectual (para não dizer burrice) dessa minionzada supera qualquer previsão, sem falar nas profundezas a que eles são capazes de rebaixar, só para defender um misógino racista homofóbico defensor da tortura e totalmente despreparado para o cargo. Pelo menos, Bia Kicis se mostrou uma ótima redatora para os memes da Barbie Fascista. Por isto, de hoje em diante, ela será chamada de Barbie Kicis aqui no meu blog. Só espero não ter que falar muito dela.

domingo, 7 de julho de 2019

PAVÃO DESMASCARADO

É fascinante o perfil de Carlos Biroliro publicado na revista Piauí deste mês, de autoria da jornalista Malu Gaspar. Eu confesso que esperava mais detalhes da infância e adolescência, mas o texto dá muitos rasantes na problemática do 02. O trecho mais instigante diz que o pai não gosta de brigar com o filho, pois tem medo que ele cometa um "gesto extremo". Não que a gente não desconfiasse, claro. O texto também revela que Carluxo e Léo Índio estão rompidos, depois que o primeiro-primo andou abusando de seu suposto poder político, mas não entra na discussão do será-que-ele-é. O grande assunto é, na verdade, a estrutura que o vereador carioca montou para atiçar a minionzada nas redes sociais. Li o artigo justo no fim de semana em que o tal do Pavão Misterioso voltou a voar no Twitter, com supostos prints de mensagens entre Glenn Greenwald, Davi Miranda, Jean Wyllys e Marcelo Freixo. O gado ficou todo excitadinho, mas não demorou muito para que internautas mais sérios percebessem que tudo não passa de uma farsa grosseira. E todos os indícios apontam para a verdadeira identidade do pavão: é óbvio, é o Carluxo, que se acha um gênio do mal mas é só do mal mesmo.

SINAN FECHADO



Poder de síntese não é o forte do diretor turco Nuri Bilge Ceylan. Seus filmes costumam durar mais de três horas, como é o caso do recente "A Árvore dos Frutos Selvagens" - que eu não teria visto, não fosse o representante da Turquia no último Oscar. Preparei uma matula com mantimentos, aproveitei que o marido estava ocupado com outra coisa e encarei o troço com a maior das boas vontades. Gostei mais do que esperava, risos. O protagonista é um jovem escritor chamado Sinan que está juntando economias para publicar seu primeiro livro; seu maior conflito é com o pai, que tem dívidas de jogo e vive surrupiando trocados do filho. Também tem uma ex-namorada de infância que vai se casar com outro, a mãe, a irmã, o cachorro e um poço cheio de metáforas. E muita, mas muita falação. Cada cena pode levar até 20 minutos corridos, com Sinan conversando com um editor ou com o prefeito de sua cidade. Tem horas em que é fascinante. E tem horas que enche o saco.

sábado, 6 de julho de 2019

O HOMEM, O MITO, O CHATO

Vamos falar a verdade; João Gilberto era chato pacaralho. Pobre de quem tinha que lidar com ele, produzir um show, gravar um disco. A gente releva porque ele era mesmo genial - e se hoje não soa genial para nossos ouvidos blasés, é preciso lembrar que os cantores brasileiros empostavam a voz antes dele, num estilo que ficou insuportável (basta escutar Francisco Alves). Além da obra, João Gilberto deixou para a posteridade um rosário de lendas, que podem ou não ter um pé na verdade. Consta que Caetano Veloso, ao produzir o último álbum de estúdio de JG, teve um ataque de nervos e mandou tudo às favas - e olha que Caetano talvez seja o mais devotado súdito do cara de todos os tempos. Mas a melhor história mesmo é protagonizada por Elba Ramalho. Ela teria telefonado para João um belo dia e, para sua surpresa, ele estava simpaticíssimo. Até perguntou se ela tinha um baralho. Elba saiu de casa eufórica, comprou um baralho e foi bater na porta do apartamento do eremita, crente que eles iriam varar a noite jogando um carteado. Chegando lá, João Gilberto se recusou a recebê-la. Só pediu para Elba passar as cartas por baixo da porta. Uma por uma.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

O PAU MANDADO

Louis Garrel vem se revelando um diretor de filmes fofos. Em "Um Homem Fiel", seu personagem tem o mesmo que em seu longa de estreia, "Dois Amigos", e é ainda mais bonzinho. Para não dizer que é um pau mandado: ele obedece sem pestanejar tudo o que as mulheres lhe pedem. Quando sua namorada avisa que engravidou de seu melhor amigo e que quer que ele saia de casa, ele sai. Quando os dois se reencontram nove anos depois, no enterro do amigo, ela quer que ele volte para ela, e ele volta. Mas agora a irmã menor do falecido também o quer: a primeira mulher então sugere que durmam junto para ver qual é, e ele aquiesce. É meigo, mas também não é nada de mais. Sobra a beleza do elenco: Laetitia Casta, Casada com garrel na vida real, foi top model e já interpretou Brigitte Bardot, e Lilly-Rose Depp é a filha de Johnny Depp com Vanessa Paradis. Sem falar no próprio Garrel, que fez mais um filme em homenagem a si mesmo.

LINHA DE PASSE

Para não pensar em besteira quando eu acordo no meio da noite, costumo fazer joguinhos mentais que eu mesmo invento. Um dos mais populares é listar os personagens de "Game of Thrones" em ordem de importância, alternando homens e mulheres. Mas nesta semana eu fiquei obcecado por outro desafio: traçar uma linha contínua ligando todas as unidades da federação do Brasil, sem nunca passar duas vezes pelo mesmo lugar (lembrando que o Distrito Federal tem uma curta divisa com o município de Cabeceira Grande, no norte de Minas Gerais). As pontas dessa linha têm que ser, obrigatoriamente, o Amapá e o Rio Grande do Sul: esses dois estados só são limítrofes a um único outro. Pois bem. Torci essa linha de tudo quanto é jeito, fui na diagonal, no zigue-zague, no periquito-maracanã, e nada. O máximo que eu consegui foi deixar o DF de fora. Hoje finalmente eu consultei um mapa e, 30 segundos depois, lá estava a linha ininterrupta, rindo da minha cara. Tão óbvia, tão ululante. Alguém aí se habilita?

quinta-feira, 4 de julho de 2019

QUEM SAMBA NA BEIRA DO MAR É SEREIA

Que a internet abriu as comportas do pior do ser humano, isso todos nós já sabemos. O que surpreende são as formas perversas que assumem o racismo, o machismo e a homofobia, sempre disfarçados de liberdade de expressão. Hoje subiu nos TTs mundiais a hashtag NotMyAriel, levantada pelos escrotinhos que se revoltaram com a escalação de Halle Bailey para o papel principal da versão live action de "A Sereiazinha". Afinal de contas, não existe sereia negra, não é mesmo? São todas brancas de cabelos vermelhos. Os babacas choramingam que a Disney estaria traindo suas memórias de infância, como se esses remakes caça-níqueis tivessem a obrigação de saírem idênticos aos desenhos. Que sejam, portanto, coerentes, e exijam uma atriz azul para interpretar a feiticeira Úrsula.

TENHO CHORADO PRA CACHORRO

Assisti da plateia a quase todas as edições do VMB. Ajudava muito meu irmão ser diretor da MTV Brasil, é claro. A premiação acabou junto com a emissora, e foi substituída pelo Miaw nessa nova encarnação da MTV. O novo troféu ignora os videoclipes e dá muita ênfase à internet, o que é compreensível para os tempos que correm. Fui convidado para a festa do ano passado e não fui, mas este ano relevei a desfeita. Quase me arrependi. Peguei um trânsito infernal para chegar ao Credicard Hall, me recusei a pagar 60 reais no estacionamento e deixei meu carro na rua. Na entrada, outra surpresa desagradável: não tem lugar sentado. Só pista, o que é um pouco demais para um ancião como eu. Por sorte, os shows que eu queria ver foram todos no começo. Abriu com Anitta e Ludmilla, depois teve Anavitória com Vitor Kley e, por fim, Emicida feat. Majur e Pabllo Vittar. Eu ainda não tinha ouvido "AmarElo" e fiquei impactado: trata-se de um hino, mas quem mais merece louros é o Belchior. O refrão, além de tudo, combina com esse período de luto que eu ainda estou vivendo. Terminado o terceiro bloco, me mandei. Nem o glamour do Hugo Gloss, nem a picardia de Sabrina Sato compensavam a minha exaustão.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

NÓIS É CAUBÓI

Nunca fui muito ligado em rap. Até já comprei discos de Jay-Z e Kanye West, mas não consegui gostar - acho que por causa da minha idade e/ou da minha cor. Mas precisei dar uma conferida em "Old Town Road", a mistura de trap (a variante do momento) com música country feita por Lil Nas X, que se tornou o maior sucesso do ano até agora nos Estados Unidos. A versão com Billy Ray Cyrus, o pai da Miley, está unindo o país, mesmo depois de Lil Nas X ter se revelado gay. Palmas para a coragem do moço, que só tem 20 anos, e viva esse mistureba. Que também rola por aqui, com resultados diversos: alguém aí gosta de funknejo?

TOCANDO O TERROR


Em novembro de 2008, um grupo de terroristas paquistaneses chegou a Mumbai, na Índia, de bote inflável. Desembarcaram em uma praia sem que ninguém os incomodasse, dividiram-se em táxis e promoveram matanças em 12 lugares diferentes. O mais fotogênico deles foi o hotel Taj Mahal Palace, o equivalente local do Copa, onde cerca de 30 pessoas morreram ao longo de três dias intermináveis. Essa história horripilante é contada em detalhes gráficos em "Atentado ao Hotel Taj Mahal". O filme de estreia do diretor australiano Anthony Maras é tenso do começo ao fim, com ótimas atuações e uma reconstituição minuciosa do interior do hotel. Mas é entretenimento? Será que é moralmente justificável transformar esse horror da vida real em atração de cineplex? A pergunta foi feita por muitos críticos americanos, e eu respondo que sim. "Atentado..." não é, de maneira alguma, para quem busca escapismo. Mas a verdadeira questão que ele levanta é interessante: o que você faria numa situação como essa? Muitos funcionários do hotel optam por dar no pé, outros ficam para proteger os hóspedes. Um traficante de armas russo que gosta de putas se comporta de maneira repugnante, até o momento em que age como um herói. Muitos dos personagens são fictícios ou compostos por várias pessoas reais, e os três dias de suplício são condensados em uma única noite. No final saí exausto, certo de ter visto um baita filme. Mas Deus me livre de ver de novo.

terça-feira, 2 de julho de 2019

PFFFFFFFF

Minha admiração por Sergio Moro sofreu o primeiro abalo quando ele divulgou o áudio daquela conversa entre Lula e Dilma. O conteúdo do diálogo era mesmo escandaloso, mas Moro estava infringindo as regras - e, por consequência, pondo em risco a própria Lava-Jato. Operações anteriores, como a Castelo de Cartas ou a Satiagraha, foram anuladas porque não andaram na linha. Mesmo assim, dei uma relevadas, justificando para mim memso que não dava para enfrentar um esquema tão grande sem jogar sujo de vez em quando. Hoje eu faço um mea culpa: ética é que nem gravidez. Não existe pela metade.

Um golpe mais forte aconteceu quando Moro aceitou ser o ministro da Justiça do Bozo. O simples fato dele participar do governo de um celerado já era grave o suficiente. Mas o pior era mostrar que, sim, ele sempre teve um lado, e estava se beneficiando da prisão de Lula, a quem ele mesmo condenara. Mas quem sabe o ex-juiz não funcionaria como um contrapeso moral aos excessos birolíricos?

Agora não sobra mais nada. Não tenho mais respeito, admiração, simpatia. Moro se revelou um sujeito tíbio, carreirista, de pouca fibra. Os vazamentos do Intercept comprovam que ele nunca foi imparcial. Seu depoimento de hoje no Congresso reiteram sua venalidade. Mandar o Coaf investigar as finanças de Glenn Greenwald é um ato digno da Venezuela chavista. Moro está cada vez menor - ou talvez só agora eu me dê conta de seu real tamanho. Ele e o Bozo se merecem.

No mais, é lamentável que o Brasil continue precisando de um salvador da pátria. É uma herança do sebastianismo? Um reflexo da nossa pouca educação? O grave é que esses super-heróis, mais cedo ou mais tarde, são desmascarados. Getúlio, Jânio, Collor, Lula... passamos por isto algumas vezes, não aprendemos nada e estamos passando de novo. Nós também merecemos o Bozo e o Moro.

MAJOR MISTAKE

Eduard von Westernhagen era mesmo nazista? O major alemão foi de fato condecorado por Hitler, por atos de bravura durante a Segunda Guerra Mundial. Mas não foi julgado por crimes contra a humanidade. Tanto que se reincorporou ao exército da Alemanha em 1955, quando ele foi recriado. Tampouco estava clandestino no Brasil, quando foi morto - por engano - por um grupo de extrema-esquerda em 1968. Mesmo assim, pega mal pacaray essa homenagem que o nosso querido Exército resolveu prestar a ele, ainda mais nesse momento de intensa polarização. O intuito maior parece ser provocar a esquerda, mas a que custo? Meu pai, que lutou na Itália pela FEB, ficaria ultrajado se vivo fosse. Por que o Exército insiste nessa vergonha? Que falta que faz um bom RP, hein?

segunda-feira, 1 de julho de 2019

PULGA PARA SE COÇAR


Como titular da coluna Multitela da Folha, eu tenho a obrigação de saber quais são as melhores séries e onde que elas estão. Mesmo com tanta responsabilidade, só vim a descobrir "Fleabag" agora, quando saiu a segunda e última temporada. É apenas uma das melhores séries cômicas de todos os tempos, ainda que com uma boa dose de tragédia. A descrição lembra "Girls" e um montão de outras: uma moça irreverente enfrenta com galhardia e bom humor os desafios da vida moderna, olha só que original. Mas Phoebe Waller-Bridge faz toda a diferença. A atriz principal também é a criadora da série - e também a de "Killing Eve" e de "Run", que estreia em breve na HBO. Ou seja, um major talent, de quem ainda ouviremos falar muito. "Fleabag" tem ao todo só 12 episódios, com menos de meia hora cada. Dá para ver tudo de uma enfiada só e ainda sair se coçando para ver mais.

A NOVA NANA GOUVÊA

Imagine se um déspota feito o Putin ou o Erdogan levasse seu pimpolho às reuniões do G20. A imprensa ocidental ia cair matando, e com razão. Mas porque a grita é relativamente pouca quando Ivanka Trump ou Eduardo Biroliro circulam entre os líderes mundiais? O filho 03 ainda tem a desculpa de ser deputado federal, mas ms. Kushner nem cargo oficial tem. O vídeo dela tentando se imiscuir numa conversa entre Macron, May, Trudeau e Christine Lagarde, do FMI, é priceless. Como a internê nada perdoa, já abundam os memes de Ivanka photobombing momentos cruciais da história. E assim fica nítido mais um traço perturbador dos novos autocratas: a pretensão de fundarem dinastias, como se fossem ditadores árabes.

domingo, 30 de junho de 2019

BRINQUEDO RECICLADO


Tirando os executivos da Disney, precisávamos mesmo de "Toy Story 4"? Os atuais diretores da empresa estão decididos a ordenhar ao máximo todas as franquias da casa, haja vista a fúria com que produzem remakes com atores de desenhos clássicos ou episódios anuais de "Star Wars". Tudo para garantir os bônus de fim de ano e as aposentadorias a médio prazo. Dito isto, essa quarta aventura de Woody e sua gangue não é ruim: só não está no nível de excelência das três primeiras. O roteiro até assume que é supérfluo. Afinal, o que falta contar na história de Woody, depois que ele foi passado por seu dono original para uma menina em idade pré-escolar? E assim "Toy Story" está em vias de se tornar uma série de TV, com alguns capítulos melhores do que outro e nenhum mais atingindo a catarse original. O que torna o filme agradável é a técnica exuberante da Pixar e os talentos vocais do elenco (eu vi a versão original, com legendas). Também é divertida a criação de Garfinho: basta uns acessórios mal-ajambrados em um talher descartável para ele se tornar alguém, mesmo a contragosto. Tudo o que Garfinho quer, no princípio, e é se atirar no lixo e deixar de existir. Esse dilema existencial logo é substiuído por muita correria e humor engajado. Lindo, mas esquecível. Até porque daqui a pouco chega "O Rei Leão".

HIPOCRIMINIONS

Não vou dar uma de petista e ser contra tudo o que o governo fizer, só porque eu sou de oposição. Por tudo o que eu li, o Bozo teve, sim, um papel positivo na aprovação do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (e nem por isto eu vou deixar de chamá-lo de Bozo). Além do mais, ele conseguiu sair bem de Osaka, depois do vexame dos 39 quilos de pó na chegada. Mas é de se lamentar a hipocrisia crassa de todo o clã Biroliro. Agora eles estão se pavoneando nas redes sociais com a assinatura desse tratado, sendo que até ontem vociferavam contra o Mercosul, o globalismo e o Acordo de Paris, do qual, afinal, não saímos. Até pelo Brexit os celerados torciam, algo que agora vai ser bem ruim para o Brasil. Mas a incoerência está entranhada no DNA da familícia. Não faz o menor sentido, por exemplo, denunciar a ditadura da Venezuela e depois trocar juras de amor e postar fotinha com o príncipe Mohammad Bin-Salman, o açougueiro saudita.

sábado, 29 de junho de 2019

CRENTE DO RABO QUENTE

"Divino Amor" imagina como seria o Brasil daqui a oito anos, quando não haveria mais separação entre o Estado e a religião evangélica. Nem por isso o novo filme de Gabriel Mascaro chega a ser um "Conto da Aia" nacional: todo mundo aparenta estar contente nessa distopia, mesmo as mulheres que precisam ir à praia de burquíni. O carnaval foi substituído pela festa do Amor Supremo e não há mais nenhum gay à vista, o que talvez explique as roupas horrorosas. Mas essa prisão colorida tem uma válvula de escape: uma espécie de troca de casais em Cristo, onde todo mundo volta para seu cônje na hora do orgasmo. Dira Paes está ótima como uma funcionária pública que não vê o menor problema em se meter na vida particular dos cidadãos, até o momento em que ela mesma se vê traída pela estrutura de que participa com tanta sofreguidão. Eu não gostei de "Boi Neon", o longa anterior de Mascaro, e esse novo trabalho repete elementos como a fluorescência e os paus duros. Mas "Divino Amor" é mais redondo e mais instigante, mesmo escapando de ser um ataque óbvio aos hipócritas da teocracia.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

CINQUENTINHA

Hoje é dia de festa, bebê. Há exatos 50 anos, em 28 de junho de 1969, o levante de Stonewall marcou o início para valer do movimento LGBTQ+. É dia de honrar quem veio antes de nós e lutou para que pudéssemos andar de mãos dadas no meio da rua. Dia de homenagear travestis, drag queens e afins: elas, que não podem nem querem se esconder, sempre foram a nossa ponta-de-lança, dando a cara para bater quando os cis conseguiam passar despercebidos. Também é dia de lembrar que a luta não acabou: apesar do sucesso estrondoso (nenhum outro movimento conquistou tantos direitos em tão pouco tempo), ainda vemos barbaridades como a bizarra Damares Alves posando ao lado de um sujeito com uma camiseta onde se lê "Ideologia de Gênero Mata", um abuso político da tragédia do menino Ruan. Sem falar nas inúmeras violências, tanto físicas como psicológicas, a que ainda somos submetidos no Brasil e no mundo. É por isto que a revolta de Stonewall continua.

Hoje eu estou nas páginas do jornal O Povo, de Fortaleza, ao lado de amigos como Ailton Botelho, Bob Yang, Augusto Rossi e muitos outros nomes da comunidade LGBTQ+ brasileira. A convite do Emerson Maranhão, cada um de nós (50 ao todo, claro) escreveu um parágrafo sobre a importância de Stonewall. Leia a íntegra da matéria aqui. É de graça, mas antes precisa fazer cadastro.

Os 50 anos de Stonewall também são o assunto da minha coluna de hoje no F5.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

DESARMINHA


Minions do mundo inteiro estão chorando trancados no quarto, jogados na diagonal sobre a cama, depois que a malvada da Madonna lançou música e clipe criticando o armamento desvairado. A frágil estrutura emocional desses cotiadinhos vira farelo diante da sexagenária, que embarca em todas as causas justas desde meados da década de 80. "God Control" é, de fato, a melhor faixa de "Madame X", e a letra engajada contrasta com o arranjo alienante. Acho que Madge força a amizade em trechos do clipe (preferia que fosse só na boate, sem ela pagando de escritora), mas é inegável que é poderoso. E quando é que um luminar do pop nacional vai pegar em armas (virtuais) contra a arminha do Bozo?

A BRUXA ESTÁ PRESA


Como que o Reino Unido consegue participar da disputa pelo Oscar de filme estrangeiro? Antigamente, o regulamento exigia que os diálogos fossem em uma língua nativa do país. Nessa época, até que os britânicos emplacaram dois títulos entre os cinco finalistas, sempre falados em galês. Mas, hoje em dia, basta o país ter participado da produção: por isto, "Eu Não Sou uma Bruxa", filmado em Zâmbia por um diretor de Zâmbia com atores de Zâmbia e idiomas de Zâmbia, representou a rainha Elizabeth II no Oscar deste ano. Não foi longe, mas é interessante. Shula, uma garotinha órfã, é acusada de bruxaria em uma aldeia, e enviada para uma espécie de campo de concentração de feiticeiras. Esses campos até existem, só que em Gana - o do filme tem detalhe pitorescos, como carretéis de fitas que seguram as prisioneiras no chão, para elas não saírem voando. A menina então é explorada por um político corrupto, que a usa para charlatanices como identificar o culpado entre suspeitos de um roubo ou prometer chuva para um fazendeiro branco. O final destoa do tom cínico do resto, mas a mensagem é clara. Mesmo em países pobres, mesmo em culturas oprimidas, o ser humano é sempre uma merda.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

UM MILITAR DE CARREIRA

Duvido que esta tenha sido a primeira vez que o sargento Manoel Silva Rodrigues tenha transportado cocaína em um avião da FAB. Pela quantidade apreendida em Sevilha, o cara era profissional. Quis o azar que, depois de 29 viagens nas comitivas de três presidentes diferentes, ele fosse pego justamente em uma viagem do Bozo. O Despreparado teria que ser ainda mais chucro do que parece ser para ter algo a ver com isto, mas uma coisa é certa: ele atrai bandido para o seu entorno. É divertido ver sua credibilidade virar, aham, pó. Mais engraçado ainda é ver sua cara aplicada sobre a de seu arqui-inimigo Wagner Moura.

ADENDO: É claro que não dá para dizer que a familícia Biroliro seja cúmplice do traficante, apesar da intimidade que eles têm com o crime organizado. Mas uma coisa é certa: a segurança dos aviões presidenciais é para lá de falha, e isto é cupa das nossas queridas Forças Armadas. "Ãin, mas vai ver que já era assim nos governos Dilma e Temer". Bem provável. Isso não livra a cara de ninguém. A FAB deixou que um sujeito levasse uma carga IMENSA de cocaína num avião presidencial. E se o cara estivesse levando bombas? O Bozo preza tanto pela segurança pessoal, e deixou escapar essa (no mínimo). De resto, não foi o governo dele quem prendeu o meliante: foi o da Espanha, que está nas mãos dos socialistas. Chupem essa, minions. Cafunguem essa.

CORRIDA MALUCA

É estranhíssimo o entusiasmo do Biroliro em levar a Fórmula 1 para o Rio de Janeiro. A cidade está quebrada e falta tudo, inclusive um autódromo. Um novo circuito teria que ser construído do zero, no distante subúrbio de Marechal Deodoro. Já foi criada uma empresa para erguê-lo e administrá-lo, antes mesmo da prova ser transferida para a cidade. Não duvido nada que estejam rolando milhões nos bastidores. Enquanto isso, o Doria esperneia para manter a Fórmula 1 em São Paulo: o evento ainda é a maior atração turística paulistana, com faturamento superior à Parada Gay, ao carnaval e à Virada Cultural. Adoro ver o presidente e o governador em rota de colisão, e nesse caso eu torço pelo segundo. Mesmo sabendo que a Fórmula 1 está decadente, perdendo público e dinheiro no mundo inteiro. Mesmo com os helicópteros que não me deixam dormir no dia da corrida.

terça-feira, 25 de junho de 2019

CIRO NO PÉ

Tem como não amar o Ciro Gomes? Eu só votei nele no primeiro turno do ano passado porque parecia o mais capaz de derrotar o Bozo no segundo, e jamais concordei com todas as suas ideias - principalmente a relutância em reconhecer que há uma ditadura na Venezuela. Mas Cirão tem carisma de popstar, visão de estadista e coragem de jagunço. No Monring Show desta terça, na rádio Jovem Pan, ele voltou a chamar Fernando Holiday de capitão-do-mato e ainda juntou um "nazista" ao epíteto.  E isso porque Ciro já perdeu em primeira instância e com certeza vai enfrentar mais um processo. Como não amar esse cara-de-peste?

PETRA SOBRE PETRA


A turbulência política que se instaurou no Brasil desde as manifestações de 2013 já rendeu alguns documentários. Mas nenhum teve tanta repercussão quanto "Democracia em Vertigem", creio que por duas razões. A primeira é a Netflix: é muito mais fácil alguém ver esse tipo de filme em casa do que sair, pagar estacionamento, comprar ingresso caro e pipoca a 20 reais. A segunda é que a diretora Petra Costa consegue dar um tom bastante equilibrado, apesar de ter um ponto de vista claro (lembremos que cineasta não precisa ser imparcial e cinema não é jornalismo). A moça tem uma história de vida peculiar. Seu avô foi um dos fundadores da Andrade & Gutierrez, uma das maiores empreiteiras do país e frequentadora dos inquéritos da Lava-Jato. Já seus pais foram militantes de esquerda, que passaram um tempo no exílio. Na locução em off, a diretora assume com todas as letras que pertence à classe rica, e não endeusa Lula nem Dilma. Também consegue imagens históricas da intimidade dos dois ex-presidentes, jamais vistas em outro lugar. O tom didático explica o imbroglio brasileiro aos gringos, e "Democracia em Vertigem" já está cotado ao Oscar. Não traz novidades para quem acompanha o noticiário com atenção, mas serve como uma visão panorâmica dos últimos seis anos. É um filme interessante, a que se assiste com prazer. E ninguém é obrigado a concordar com a opinião de Petra Costa. Afinal, ainda somos uma democracia.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

SINAL VERDE

Eu estava esperando uma parada ultrapolitizada, cheia de gritos de guerra e performances ultrajantes. O que vi na Paulista foi uma festa de família, com crianças, gente educada e nenhuma baixaria. Não que eu seja contra: acho que parada gay pode, sim, ter algo de ultrajante. Mas este ano não teve. Sim, havia faixas  Lula Livre e camisetas #EleNão. Só que em clima de paz e amor, sem confrontação nem ressentimento. Foi então que eu percebi: melhor assim. A Parada do Orgulho LGBTQ+ de São Paulo já faz parte da rotina da cidade. Não é mais um evento disruptivo. É um carnaval temático, que tem muito a celebrar e muito pelo qual ainda lutar. O mais legal foi perceber que ninguém se amedrontou com as sandices homofóbicas do Bozo e seu entorno. Ficou claro que ele passará, e a Parada seguirá em frente. Até porque estamos chegando perto da de Nova York em número de patrocinadores: até que enfim descobriram que gay dá dinheiro, entre outras coisas. O lado chato foi ser atacado nas redes sociais por dois minions que eu nem conheço pessoalmente. Mas eu entendo a frustração deles. Esses boçais acham que elegeram um ditador, e que no dia seguinte as bichas, sapatas e trans voltariam para o armário. Como continuamos sambando na cara deles, apelaram para a violência verbal. Tô nem aí: palavras de estranhos não me ferem, ainda mais quando escritas com erros de português. E vamos em frente, como os bonequinhos que a Prefeitura colou nos semáforos.

A LUTA É UMA SÓ

Conheço o Dario Menezes há muitos anos. Ele foi editor do "Fantástico" e hoje atua como diretor e produtor independente. Ano passado, seu documentário "Abrindo o Armário" traçou um panorama interessante da homossexualidade masculina no Brasil. Este ano, Dario dedicou boa parte do primeiro semestre à matéria de quase 15 minutos exibida ontem pelo "Fantástico", sobre os 50 anos do levante de Stonewall e suas consequências sobre os direitos LGBT aqui no Brasil. Eu gravei meu depoimento em abril, e fiquei contente de ver que muita coisa foi aproveitada (é normal que se corte bastante, o tempo na TV é exíguo e precioso). A repercussão da reportagem está sendo, aham, fantástica: muita gente não sabia sequer da existência de Stonewall, o marco zero da nossa luta pela igualdade. Aliás, acho que vou parar de falar em "nossa luta" quando eu me referir às pautas LGBT. Como diz a Milly Lacombe no final da matéria, a luta é uma só: contra o racismo, contra o machismo, conta a homofobia. E as vítimas desses preconceitos não são só os negros, as mulheres ou os homossexuais. É a sociedade como um todo. Quanto mais gente se juntar, mais fácil cairá o muro.

domingo, 23 de junho de 2019

CARA E COROINHA


François Ozon é um dos meus cineastas favoritos. Vi todos os seus longas e tenho pelo menos dois - "8 Mulheres" e "Uma Nova Amiga" - na minha lista da ilha deserta. Por isto eu estava especialmente ansioso por "Graças a Deus", que estreou no Brasil depois de vencer um prêmio em Berlim e receber ótimas críticas da especializada. Mas acabei indo ao cinema em um mau dia. Eu estava muito cansado, com sono atrasado, e a austeridade do filme me derrubou. Ozon está sóbrio como nunca, sem um pingo de humor ou ironia. Quase ninguém ri em cena, quase não há música. E tem muita, mas muita, muita locução em off, por quase duas horas e meia. É interessante ver como ele retrata católicos fervorosos sem ridicularizá-los. Esses personagens deixam claro que querem denunciar os abusos de que sofreram quando crianças para ajudar a Igreja, não para destruí-la. Mas a própria Igreja não lhes dá ouvidos, seguindo a rota suicida que adotou há décadas e que nem o papa Francisco ainda conseguiu mudar. Só que o roteiro é pouco mais do que uma série de encontros e reuniões em fogo baixo, sem piques emocionais. Ser abusado por um padre é muito chato, claro, mas relatar esse abuso é quase tão chato quanto - e essa parece ser a mensagem que Ozon queria passar. Verei de novo na TV paga.

HOMOFOBIA IMATURA

Uma beleza a capa da Veja São Paulo dessa semana, que fala de um fenômeno comum mas que pouco aparece na mídia: pessoas que se assumem gays depois de terem casamentos heterossexuais e até filhos.  O texto reúne depoimentos em primeira pessoa que surpreendem pela banalidade (no bom sentido). Meu próprio marido foi casado com mulher por 12 anos antes de me conhecer, mas o caso dele não foi exatamente uma descoberta tardia. Também tenho um sobrinho que se separou da mulher depois de sete anos juntos, porque não aguentava mais levar uma vida dupla. Mas as reações no perfil no Instagram da Vejinha são de apavorar, como convém a esse tempos tenebrosos. No fundo, acho que a minionzada está "perplecta" pelo Brasil não ter se transformado em uma ditadura religiosa depois da eleição do Despreparado. Ainda existe dissenso, ainda existe diversidade e ninguém vai voltar para o armário. Mais fácil o Queiroz ser preso.

sábado, 22 de junho de 2019

AS AREIAS DO TEMPO

Minha obsessão deste fim de semana é cantora turca Melis Güven, que só canta sobre bases eletrônicas. Eu já conhecia "Zaman" ("Tempo") desde o ano passado, e agora não paro de ouvir a nova "Kum" ("Areia"). Pode ir, era só isto mesmo.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

ROLINHO PRIMAVERA


Estamos presenciando o surgimento de um novo subgênero cinematográfico: a comédia boba da Netflix. Filmes que seriam quase execráveis numa sala de cinema, mas até divertem no conforto do lar. Dizem que é o caso de "Mistério no Mediterrâneo", que eu só não vi ainda porque meu marido abomina o Adam Sandler. E também o de "Meu Eterno Talvez", que embarca na onda de "Podres de Ricos" com seu elenco quase todo oriental. A diretora Nanatchka Khan e o ator e roteirista Randall Park trabalham juntos na sitcom "Fresh Off the Boat", que não passa no Brasil mas já me fez rir muito em aviões. O longa não chega a tanto, mas tem seus bons momentos. A trama é óbvia. Namoradinhos de infância (ela é a comediante Ali Wong) se reencontram na vida adulta, e adivinha o que acontece? A melhor cena é com aquele que está pintando como o homem mais caliente de 2019: Keanu Reeves, que não só faz o papel de si mesmo como ainda tira sarro de si mesmo. Apesar de render algumas risadas, "Meu Eterno Talvez" tem aquele efeito-clichê da comida chinesa: depois de uma hora, a gente já está com fome outra vez.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

UM COMENTARISTA FANTÁSTICO

Um leitor fofo me acusou de cumplicidade na morte do Rubens Ewald Filho. Afinal, eu também defenderia a ideologia de gênero que tirou o comentarista do Oscar deste ano, fato que teria colaborado para o acidente que ele sofreu em uma escada rolante há pouco mais de um mês. Para quem não se lembra: durante a transmissão do Oscar de 2018 pela TNT, Rubens disse que a atriz trans chilena Daniela Vega "na verdade, é um rapaz". Abriram-se as portas do inferno, e o canal meio que o jogou para escanteio este ano: só comentários pré-gravados dele foram ao ar, para evitar acidentes. Eu só conhecia o Rubens de dizer oi e nunca privei da intimidade dele, então não posso dizer o quanto este episódio o afetou. Também acho que lhe faltou um teco de sensibilidade para os tempos que correm, mas a reação do tribunal da internet foi desproporcional. Eu mesmo já apanhei muito aqui no blog por usar "o travesti", algo que meu leitor fofo talvez desconheça. Não uso mais, por duas razões: 1) apesar do substantivo "travesti" ser masculino, a língua é um organismo vivo em perene mutação e blábláblá; 2) preguiça de brigar. Rubens era bem mais velho do que eu, então seu apego às antigas formulações devia ser ainda mais forte. É triste que o final de sua longa e ilustre carreira tenha sido marcado por esta derrapada. Mas é bom que agora, depois que ele se foi, seu nome ganhe ares de unanimidade. Um grande sujeito.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

FAZ TREMER TODA A RIBEIRA

Manda a Madonna de volta pro estúdio, porque a música portuguesa não para de avançar. A novidade do momento é a dupla Fado Bicha, que mereceu matéria na Ilustrada de anteontem. Hoje fui conferir o som dos gajos e adorei: o primeiro single, "O Namorico do André", é uma versão paneleira de "O Namorico da Rita", de Amália Rodrigues. Tem muito mais no YouTube deles, dando uma palhinha do que será o álbum. Já faz parte da minha trilha dessa semana do Orgulho LGBT+.

ARMINHA EMPERRADA

Biroliro se gabou de ter uma caneta mais poderosa do que todas as cinco toneladas do Rodrigo Maia. Tal artefato lhe permitiria legislar por decreto, sem passar pela chatice do Congresso, estabelecendo uma linha direta com a população. Mas não é bem assim: ontem o Senado metralhou o decreto do rearmamento, e mais pipocos devem vir da Câmara. De nada adiantaram as ameaças que alguns parlamentares receberam. Hoje tem minion mimimizando nas redes sociais, pedindo o fechamento do Congresso. É impressionante a quantidade de gente supostamente educada que não fazideia do funcionamento das instituições e achou que estava elegendo um ditador. Até o Bozo acreditou nisso, e eis aí o resultado: um tiro pela culatra atrás do outro.

terça-feira, 18 de junho de 2019

ARTISTAS EM CONSERVA

Pode ser artista e conservador ao mesmo tempo? Não, porque fazer arte é quebrar regras, é inovar. Pode menos ainda ser artista e burro. Alguém declarar apoio ao Bozo a esta altura, depois de quase seis meses de um governo patético, é sintoma de burrice em estado terminal. Mas Roberto Alvim e sua mulher Juliana Galdino passaram um recibo de estupidez ao convocar supostos artistas conservadores para um banco de dados, destinado a montar uma "máquina de guerra cultural". A única resposta possível a essa bobajada é a adesão em massa: vamos todos mandar nossos currículos para lá e infiltrar esse banco com abortistas, feministas, travestis, maconheiros  não-binários, comunistas e adeptos de sexo bizarro em geral. Ainda mais agora que a Lei Adney acabou, é a nossa chance de seguir mamando nas tetas do governo. Bora!

A FLOR PEITA O GIGANTE

Em 1989, a ditadura chinesa não teve o menor escrúpulo em promover um massacre na Praça da Paz Celestial, em Pequim, onde, havia meses, se concentravam manifestantes contra o regime. Por que não fizeram o mesmo agora, contra os milhões de pessoas que saíram às ruas de Hong Kong? Porque, antes de mais nada, seria um desastre de relações públicas. Num momento em que a China tenta se vender como uma potência benigna, que ajuda os países pobrezinhos a construir portos e estradas, pegaria muito mal uma nova chacina - ainda mais em uma ex-colônia inglesa, que culturalmente ainda faz parte do Ocidente. Segundo, porque tal repressão provocaria uma fuga de capitais. Hong Kong talvez deixasse de ser um pólo financeiro, e isto traria repercussões indesejadas para todo o sul da China. Nas últimas décadas, floresceram por lá megalópoles com Shenzhen e Guangzhou, mas Hong Kong é o centro, o esteio e a razão de ser dessa próspera região. Mesmo assim, não deixa de ser curioso ver os chineses enfiarem a viola no saco. A tal da lei que previa a deportação para o continente de criminosos da ilha tentou pegar carona num rumoroso caso de assassinato do ano passado, mas o povo de Hong Kong é gato escaldado e sentiu de longe o cheiro da tramoia. A flor que orna sua bandeira se mostrou, por enquanto, capaz de dobrar o gigante chinês. Mas por quanto tempo ainda?

segunda-feira, 17 de junho de 2019

SOLTA O PAVÃO

Educação, cultura, conhecimento, nada disso nunca foi o forte dos extremistas de direita. Até porque, se fosse, eles não seriam extremistas, n'est-ce pas? Mas a ignorância dessa manada atingiu um novo píncaro com o suposto "Show do Pavão", que agitou as redes sociais na tarde de ontem. A teoria da conspiração que garante que Jean Wyllys foi comprado por Glenn Greenwald e David Miranda cai gostosamente por terra aos pés de erros crassos de inglês, que os minions nunca estudaram direito. Mas aí já seria pedir demais de uma corja que acha que um ex-astrólogo que não concluiu o ensino médio seja um filósofo, ou que um deputado do baixo clero que passou 28 anos mamando nas tetas do governo e só aprovou dois projetos insignificantes seja a pessoa indicada para tirar o Brasil da crise.

DÓI MESMO


A única razão que justifica a França ter escolhido "Memórias da Dor" como seu candidato ao último Oscar de filme estrangeiro é o fato da história se passar no final da 2a. Guerra Mundial, quando os foram soltos os prisioneiros dos campos de concentração nazistas. Os diários de Marguerite Duras, que teve dois casos extraconjugais enquanto o marido, da Resistência, estava preso, servem de base para o roteiro - e acabam por afundá-lo, gerando um excesso de locução em off e longas passagens onde não acontece absolutamente nada. A fotografia escuríssima também depõe contra, e a participação discreta de Benjamin Biolay não compensa o esforço. "Memórias da Dor" me doeu mesmo: cansei de me mexer na cadeira, buscando uma posição.

domingo, 16 de junho de 2019

CORTEM-LHE A CABEÇA!

Biroliro é um líder execrável, sem grandeza humana nem a menor noção do que seja comandar uma equipe motivada. Sua mania de fritar em público seus próprios ministros vai custar caro: de ontem para hoje, pediram demissão o perigoso comunista Marcos Barbosa Pinto e também o sujeito que tentou infiltrá-lo no governo, o líder stalinista Joquim Levy. Tenho vontade de esfregar essa notícia na cara dos meus ex-amigos do mercado financeiro, que acharam tudo bem jogar os amigos gays no fogo porque, afinal, Paulo Guedes teria ampla autonomia para implantar a pauta liberal e transformar o Brasil numa potência econômica. A realidade é bem outra: Bozo governa feito a Rainha de Copas da Alice, aos gritos de "cortem-lhe a cabeça!" e nenhuma ideia na própria. Mas a fatura não vai demorar. Muita gente que se uniu ao Bostassauro já está se articulando para cair fora, haja vista o jantar para João Doria na casa de Paulo Marinho, no Rio de Janeiro. Até a mega-oportunista da Joice Hasselman foi.

sábado, 15 de junho de 2019

FAST FOOD DISFARÇADO DE SOUFFLÉ


As credenciais de "Greta" são impecáveis. É o primeiro longa de Neil Jordan, que dirigiu pérolas como "Mona Lisa" e "The Crying Game",  em mais de uma década. Também é um thriller estrelado por Isabelle Huppert. Mas o título genérico que o filme ganhou em português, "Obsessão", revela melhor sua verdadeira natureza: é uma obra descartável, com um roteiro que parece ter sido escrito por um comitê de computadores. Huppert empresta seu eterno ar de superioridade intelectual a uma viúva solitária que gosta de perseguir mocinhas com idade para serem seu filha. Chloê Grace Moretz, que faz uma jovem que perdeu a mãe há pouco tempo, parece a vítima perfeita. A ingenuidade da personagem até justifica alguns de seus erros óbvios, mas só até certo ponto. Moretz agora é uma mulher adulta e parruda, e bastaria um peteleco seu para nocautear sua stalker. "Greta", na verdade, é um filme rotineiro e banal, cujo diretor e elenco já fizeram coisas bem melhores. Bobo fui eu, que achei que esse Big Mac era uma iguaria.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

PRA QUÊ DISCUTIR COM MADAME


Confesso que eu estava com medo de me decepcionar com "Madame X". A princípio, eu esperava um álbum fortemente influenciado pela música que se ouve em Lisboa, cidade para onde Madonna se mudou há dois anos. Ela mesma cansou de postar vídeos onde surgia caracterizada de fadista ou curtindo um som em uma tasca na Alfama. Mas as primeiras cinco faixas divulgadas foram para outro lado. "Medellín" é gostosinha, "I Rise" e "Crave" são fofas, "Future" me fez gostar de reggae e "Dark Ballet" é a "Bohemian Rhapsody" de Madge. Mas, por melhores que sejam essas músicas, a lusofonia passa longe.

Só que o resto do disco é bem como eu queria, e até mais. Madonna canta em português o tempo todo, e os arranjos trazem guitarradas, funk carioca e até violinos da disco music setentista. O "Faz Gostoso" da Blaya, o maior hit português de 2018, agora ganhará o mundo com a ajuda de Anitta. "God Control" é sensacional, talvez minha favorita. E as letras politizadas são até um pouco óbvias, mas é um alívio não ver mais Madonna se fingindo de adolescente que brigou com o namoradinho. Pela primeira vez em anos, ela soa como o que realmente é: uma mulher inteligente, vivida, sexualmente ativa, no esplendor dos 60 anos. "Madame X" entra para o panteão dos grandes trabalhos de Madonna, ao lado de "Confessions on the Dancefloor", "Ray of Light" e "Like a Prayer".  Talvez também já seja o melhor álbum de 2019.

HOMEM À BEIRA DE ATAQUE DE NERVOS


"Dor e Glória", o novo filme de Pedro Almodóvar, é aquilo que a crítica americana chama de "flawed masterpiece": uma obra-prima imperfeita. O diretor espanhol quis produzir uma meditação sobre o envelhecimento, a solidão e a amargura. Pela primeira vez, lançou um filme claramente autobiográfico. Até o nome do protagonista é óbvio: Salvador Mallo, um quase-anagrama de Almodóvar. Mas o roteiro é meio frouxo e deixa algumas pontas soltas. Na primeira metade, há um personagem secundário que parece ser importante para a trama, um ator que encena um monólogo escrito por Mallo e o apresenta à heroína. Mas a função desse cara é só servir de escada para a chegada do ex-namorado do diretor, feito pelo argentino Leonardo Sbaraglia. Depois ele desaparece, e a droga também não acarreta maiores consquências. Mas o reencontro dos amantes é uma das melhores cenas da obra almodovariana: Banderas está simplesmente sublime, fazendo por merecer o prêmio de melhor ator que recebeu em Cannes e a indicação ao Oscar que talvez ainda receba. A outra sequência icônica é a da descoberta do desejo por Mallo ainda criança, quando ele desmaia ao ver um homem adulto nu pela primeira vez. Penélope Cruz está ótima como sempre como a mãe do protagonista, e pena que ela não tenha uma cena junto com Banderas. Almodóvar também sempre dá um jeito de incluir no elenco quem quer que seja que esteja caliente no momento na Espanha: dessa vez é a cantora de flamenco eletrônico Rosalía, que aparece lavando roupa no rio ao lado de Penélope. "Dor e Glória" talvez seja o filme mais sombrio e circunspecto da carreira do cineasta, mas tomara que não seja seu testamento artístico. A tu vera, a tu vera, siempre la verita tuya...

quinta-feira, 13 de junho de 2019

OITO A TRÊS

A criminalização da homofobia já tinha maioria para ser aprovada quando a votação foi retomada hoje no STF. Agora há pouco saiu o placar final: oito votos a favor, três contra. Não se repetiu a unanimidade que aprovou o casamento igualitário em 2011, mas, ainda assim, é uma vitória acachapante. E não se pode acusar os ministros Lewandowski, Dias Toffoli e Marco Aurélio de homofóbicos: eles também votaram a favor do casamento gay, oito anos atrás. Mas dessa vez preferiram declarar que essa competência cabe ao Congresso, que, no entanto, continua omisso. Aliás, se deixarmos para os nossos nobres deputados, a homofobia é capaz de se tornar obrigatória em todo o país. Na verdade, nenhuma religião sofrerá repressão alguma: se fôssemos ser rigorosos com todas elas, a Igreja Católica teria que ordenar mulheres, e as Testemunhas de Jeová não poderiam proibir as transfusões. Tenho até amigos gays que preferiam que o Supremo não se metesse nesse assunto, e eu respeito essa opinião. Mas sou do campo contrário, e hoje estou contente - ainda mais porque o casamento gay também foi aprovado pela Suprema Corte do Equador. Agora poderemos processar quem nos xinga!

GOL DE PEPECA

Que tal a capa do "Charlie Hebdo" desta semana? O desenho em "homenagem" à Copa do Mundo de futebol feminino, que acontece na França, está causando bafafá nas redes sociais - ça va sans dire. Muita gente achou nojenta, machista, irritante e por aí vai. Concordo (mais ou menos) com os críticos em um ponto: por que sempre se apela para o sexo quando o assunto é mulher? Por outro lado, o "Charlie" é aquele jornal que já pôs na capa o Pai, o Filho e o Espírito Santo se enrabando mutuamente. E claro que não dá para esquecer do atentado de 2015, que matou alguns de seus melhores cartunistas por causa de piadinhas com Maomé. Eu penso o seguinte: se podemos brincar com a religião, então também podemos brincar com qualquer coisa. Fora que eu faço uma leitura progressista dessa capa. Vejo o clitóris sendo comparado a um golaço. Em-po-de-ra-men-to! Pois é, je suis toujours Charlie.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

UMA FAMÍLIA BRASILEIRA

A repugnante Joice Hasselman chama David Miranda de "marido", com aspas, de Glenn Greenwald. A minionzada está chafurdando na homofobia para atacar o casal, e até circulou um vídeo de Miranda sambando sem camisa, sem perceber que isto, na verdade, conta pontos para o deputado. Mais graves são as ameaças de morte: devem ser blefe, mas o assassinato de Marielle Franco já mostrou do que os milicianos são capazes. E mais patética é a hashtag #DeportaGreenwald. O jornalista do The Intercept tem filhos brasileiros (sim, são seus filhos na letra da lei) e não seria deportado facilmente nem se tivesse cometido um crime. Mas não cometeu: só expôs a hipocrisia de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol. Pode-se até discordar das ideias políticas de Greenwald e Miranda: eu, por exemplo, estou bem mais ao centro do que eles. Mas não se pode por em dúvida o casamento dos dois, nem o fato de que tiraram dois meninos de um orfanato para criá-los com todo amor. Quem faz isto é  covarde. Mas desde quando a coragem é algo inerente aos bostominions?

terça-feira, 11 de junho de 2019

CINDERELA FLOP


Tem alguns filmes americanos que conseguem ótimas críticas, indicações a prêmios e bilheterias razoáveis, e mesmo assim não estreiam nos cinemas brasileiros. É o caso de "Oitava Série", disponível por enquanto apenas no streaming (ou em aviões - eu o vi no meu voo para Nova York). Trata-se um filme para adultos sobre a adolescência: é improvável que garotas da idade da protagonista Kayla queiram se ver desse jeito na tela. Elas preferem "Cinderela Pop". Isto não quer dizer que "Oitava Série" não seja otimista. Mas Kayla é um poço de inseguranças, e nossa vergonha alheia só aumenta quando ela grava vídeos de autoajuda para o YouTube que ninguém vê. Elsie Fisher está fantástica no papel, e concorreu ao Globo de Ouro de melhor atriz de comédia por ele. O ultracompetitivo ambiente escolar dos Estdaos Unidos funciona quase como uma casa mal-assombrada, repleta de terrores, e a gente só não sofre mais porque sabe que é só uma fase. Divertido, irônico e sem um pingo de pieguice, o longa de estreia do ex-youtuber Bo Durnham vale a pena. Até porque o diretor e a atriz irão longe.

IN-CHER-PTION

Queria muito ter visto "The Cher Show" porque, né, maricona. Mas minha agenda em Nova York estava tão corrida que o musical vencedor do Tony de melhor atriz ficou para uma próxima viagem. Pelo menos vi uma cena do espetáculo durante o ensaio e a cerimônia da premiação, quando as três Chers de diferentes idades cantam juntas e outras oito aparecem ao lado delas fazendo carão. A própria Cher não se fez de rogada e já se juntou algumas vezes a suas avatares da Broadway. Aí em cima temos as quatro cantando juntas no programa do Jimmy Fallon. E, logo abaixo, a original visita suas cópias no teatro e todas cantam juntas outra vez. É Cher dentro da Cher cercada por Cher acima da Cher. Até o ponto em que o mundo inteiro será composto por Chers, inclusive você e eu.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

TONY WENT TO THE TONYS

Estou fechando a mala em Nova York. Volto hoje à noite para São Paulo. A mala vai leve, não comprei quase nada. Mas a cabeça ainda está processando o turbilhão de informações dos últimos dias. Fui duas vezes ao Metropolitan Museum, abri a exposição de Burle Marx no Jardim Botânico e hoje ainda conferi a Bienal do museu Whitney. Também subi no Vessel: 16 lances de escada, cada um com 14 degraus. Revi dois amigos queridos. Fui a dois shows da Broadway. Participei de uma mesa-redonda transmitida pelo Facebook. Jantei no Sardi's, o lendário restaurante dos artistas. Andei a Hih=gh Line todinha. E ontem dediquei o dia inteiro aos Tony Awards. Fui ao ensaio geral de manhã e à cerimônia de entrega à noite, ambos no Radio City Music Hall. Depois teve uma festa no ex-hotel Plaza, hoje um flat mas ainda grandioso. Vou contar detalhes de tudo isso na minha coluna de quarta no F5, não "perda". E mesmo com uma agenda tão cheia, sinto que não fiz anda. Por mais tempo que se passe em Nova York, sempre sobra um bilhão de coisas por fazer. Como, por exemplo, subir ao novo World Trade Center. Já estou sonhando com minha próxima visita a essa cidade que até dorme, mas não acaba nunca.