domingo, 17 de novembro de 2019

TINTA FRESCA


Martin Scorsese é um dos meus cinco cineastas favoritos. Nunca vi um filme dele que não fosse pelo menos muito bom. Dá para imaginar como estava minha expectativa para "O Irlandês", ainda mais depois que as primeiras críticas vieram esplendorosas. Comprei meu ingresso com uma semana de antecedência para uma das sessões especiais que a Netflix está promovendo esta semana em S. Paulo. Preparei um farnel para enfrentar as três horas e meia sem fome nem sede, e quase levei uma almofada para o cinema. E aí... gostei. O filme é mesmo muito bom. Mas não achei espetacular. O que há de errado comigo? Vai ver que eu estava esperando pelo Scorsese exibicionista, aquele que faz um plano-sequência com 15 minutos de duração, ou por alguma montagem de arrepiar os cabelos feita por sua editora de sempre, Thelma Schoonmaker. O que há é um storytelling maduro, sem pressa, mas também sem enrolação. O ritmo cai de vez em quando, mas a sensação é mesmo a de que estamos maratonando uma boa série. Robert De Niro e sua eterna boca virada para baixo não me seduziu, mas Al Pacino está em chamas e Joe Pesci, em fogo baixo, queima tanto quanto. O efeito o de rejuvenescimento dos atores também está perfeito, e quem disser o contrário só está sendo implicante. Mas o drama do não-arrependimento e não-redenção do protagonista não me pegou. Talvez o filme ainda cresça dentro da minha cabeça. Talvez eu tenha que esperar a tinta secar na parede, como a do título do livro original: "Ouvi Dizer que Você Pinta Casas" (ou seja, é um matador de aluguel).

sábado, 16 de novembro de 2019

LA LA EXPO

Ontem eu passei mais de duas horas dentro da exposição "Musicais no Cinema", e foi pouco. A mostra, criada originalmente para o Musée de la Musique de Paris, ficou ainda maior e melhor em sua versão no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, É uma imersão na história dos filmes musicais, e não só de Hollywood. Tem muitas produções francesas, claro, mas também do resto do mundo: Índia, Japão, China, Alemanha e, claro, Brasil. O visitante ganha um par de fones de ouvido na entrada (não precisa devolver na saída), para poder se plugar nas dezenas de telas espalhadas pelo MIS e se deleitar. Tem os clássicos que todo mundo conhece, mas também não faltam curiosidades. Como "My Fair Lady" na voz de Audrey Hepburn, que acabou sendo dublada por uma cantora melhor (mas não muito), ou Elza Soares bem novinha sambando em três filmes de Mazzaropi.
Toda a parte brasileira tem curadoria do jornalista Duda Leite, e está simplesmente sensacional. Tem a chanchada, claro, mas também os filmes de Roberto Carlos, musicais new wave dos anos 80 como "Bete Balanço" e coisas inclassificáveis de tão esquisitas. Carmen Miranda ganhou sua própria ala, recheada de vestidos e acessórios vindos do acervo de seu museu (que está fechado há anos, no Rio de Janeiro). Duda também conseguiu trazer dois figurinos originais de "Rocketman", que deve receber uma indicação ao Oscar da categoria. Uma seção é voltada para as crianças, com muitos desenhos animados e Mary Poppins, e não faltam cenários para a gente pagar mico e postar no Instagram. Em suma: deslumbrante. Preciso voltar antes que acabe, em fevereiro.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

A MANCHA DE VINHO


Ainda gosto do Xavier Dolan? Claro: ele continua uma teteia. Mas como diretor, sei não. "The Death and Life of John Donovan", seu penúltimo filme - e o primeiro falado em inglês - teve críticas tão horrorosas que quase sumiu do mapa. Ninguém sabe, ninguém viu. Mas Dolan não deixou a peteca cair e lançou, logo em seguida, "Matthias & Maxime", em cartaz no Mix Brasil. É uma volta ao seu estilo tradicional: baixo orçamento e atores desconhecidos falando o impenetrável francês do Québec. Suspeito que ele também tenha voltado à adolescência. Porque a trama só faz sentido para alguém de 16 anos: dois amigos se beijam em um filme caseiro, e pinta aquela dúvida cruel. Acontece que os personagens têm 30 e já deviam se conhecer melhor a essa altura da vida, ainda mais nos dias de hoje. Dolan faz Maxime, que tem um sinal no rosto conhecido como "mancha de vinho" (aquele do Gorbachev). O francês de origem lusa Gabriel D'Almeida Freitas é Matthias, um tipão, mas a química entre os dois nunca entra em ponto de combustão. Com algumas cenas magníficas e outras jogadas fora, "Matthias & Maxime" parece um amontoado de ideias soltas e cruas. Deve ter sido mesmo rodado às pressas.

CONHECE-TE A TI MESMO

Uma das justificativas mais usadas pelas celebridades gays para não se assumirem é a perda de contratos de propaganda (sem falar do cargo de vice-presidente da República). Diego Hypolito acaba de provar que existe vida publicitária depois da saída do armário. Seu comercial para o gel KY não vai ganhar leão em Cannes, mas é totalmente pertinente e um teco atrevido. A Johnson & Johnson, antiga fabricante do produto, jamais teria a coragem de fazer um filme como este (hoje o KY é da Hipermarcas). Deslizou fácil e entrou gostoso.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

TABLEAUX VIVANTS


E voilà, começou mais um Festival Mix Brasil. Nem me recuperei ainda da Mostra e ontem lá estava eu novamente no Auditório Ibirapuera. O filme de abertura foi "Retrato de uma Jovem em Chamas", um romance lésbico dirigido por Céline Sciamma e estrelado por sua mulher na vida real, Adèle Haenel. A fotografia primorosa evoca quadros de Vermeer e as duas únicas vezes em que a música é usada são sublimes. Curiosamente, com tantas qualidades formais, o longa foi premiado em Cannes justamente por seu ponto mais fraco: o roteiro. Tem horas em que simplesmente não vai para a frente a história da jovem aristocrata francesa e a pintora que vai fazer seu retrato, para enviá-lo a um rico pretendente na Itália. As cenas de sexo até que são discretas. O que perturba mesmo é um aborto, feito sobre uma cama onde também brincam duas crianças pequenas.

ARRUAÇA CONTRA O BRASIL

Tudo o que a familícia faz visa seu próprio benefício. O Brasil é a última de suas preocupações. Nos últimos dias tivemos dois exemplos. Primeiro, Mijair extinguiu o DPVAT, um imposto de custo baixíssimo para quem paga, mas essencial para o SUS. Ele quer simplificar a carga tributária? Não, só atingir o dono do PSL, Luciano Bivar, que possui uma seguradora. Ontem rolou a invasão da embaixada da Venezuela em Brasília por partidários de Juan Guaidó, e o 03 correu ao Twitter para apoiar essa patacoada. O objetivo era só manter a base energizada, mas Dudu colocou em risco nossos diplomatas: já pensou se uma milícia pró-Maduro resolve retaliar e invadir nossa embaixada em Caracas, fazendo todo mundo de refém? Os Biroliro se habituaram a falar merda quando eram apenas parlamentares do baixo clero, sem muito poder real. Ainda não entenderam onde estão agora, o que indica que não estarão por muito tempo.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

A SURUBA IMPERIAL

Já disseram que o Brasil é escrito por um roteirista ruim, e eu concordo. Essa história de que o Biroliro teria vetado o príncipe Luiz Philippe de Orléans e Bragança para ser seu vice, depois de ter recebido fotos de Sua Alteza participando de uma orgia gay, é digna de uma série bem ruim. As fotos teriam sido repassadas ao Mijair pelo Gustavo Bebbiano, já caído em desgraça, e o lance foi relevado pelo Alexandre Frota, outro que já rompeu com a familícia. Se o deputado federal, hoje no PSDB, fizer mesmo pixulecos de todo o clã Bostonaro, sou até capaz de perdoá-lo por ter me processado em 2016 (para quem não lembra: ele perdeu, coitadinho).

ACQUA ALTISSIMA

A acqua alta é um fato da vida em Veneza. Enfrentei o fenômeno logo na primeira vez em que visitei a cidade, no canranval de 1983. Imagine a Piazza di San Marco transformada em discoteca ao ar livre, cheia de gente com máscaras de commedia dell'arte e água até as canelas. Mas a que está acontecendo agora chegou a um metro e meio de altura: a maior em 50 anos. Culpa do aquecimento global? É provável. A meteorologia enlouqueceu no mundo inteiro, e não dá para dizer que isto é um padrão cíclico. Enquanto isto, Greta Thunberg é ridicularizada pelos boçais. Enquanto isto, a Catedral e o Palazzo Gritti estão inundados.








terça-feira, 12 de novembro de 2019

PASSA-ANEL

A familícia Biroliro ostenta um defeito que nada tem a ver com ideologia: mau gosto visual. Todos os logos do governo são pavorosos. Parecem ter sido feito pelo estagiário a bordo de um Windows 95. Hoje o 03 apresentou a identidade visual do que seria o nono partido do Mijair. O nome é meio de boiola: aliança lembra anel que lembra você sabe o quê, e os dois círculos em verde-e-amarelo parecem representar exatamente isto. A mistura de tipos em caixa alta e baixa é gratuita e aleatória, totalmente livre de significado.Não tem a empatia de um tucano, nem a portabilidade de uma estrela vermelha. Nem mesmo charme vintage: é só feia mesmo. Bem digna dos Biroliro.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O GOLPE MILICIANO

Não tem lado certo na Bolívia. Não dá para torcer nem para o Evo Morales, nem para as forças que o apearam do poder. Só para que a normalidade democrática seja reestabelecida o mais rápido possível. Mas isto ainda parece longe de acontecer, porque o país está um caos. Sim, houve um golpe por lá, mas não foi o clássico golpe militar sul-americano. Estamos diante de um novo tipo de levante: o golpe miliciano, nas palavras felizes do Pedro Doria. Foi parte da polícia quem se rebelou, não as Forças Armadas, insufladas pelo tenebroso Luós Fernando Camacho, um empresário de extrema direita ligado às igrejas neopentecostais. Policias mascarados participaram de depredações e perseguições - ou seja, agiram feito milicianos. O lado bom é que essa gangue não teve força para assumir o controle do país; o lado mau é que agora o caos reina na Bolívia. Tomara que esse neologismo não cruze a fronteira com o Brasil.

JOYLESS

"Joy", o representante da Áustria no próximo Oscar, tem um título irônico. Poucas coisas são menos alegres do que este filme sobre uma prostituta nigeriana em Viena. Ela tem uma dívida quase impagável, sofre agressões diariamente e ainda tem uma família que inventa doenças para ela mandar mais dinheiro. O que torna "Joy" palatável é a interpretação estóica de Anwulika Alphonsus (se ela chorasse o tempo todo ia ser um suplício para o espectador) e a direção sem firulas de Sudabeh Mortezai. O longa está disponível na Netflix desde maio, mas só me chamou a atenção depois que foi inscrito no Oscar. Merece a sua também.

ATUALIZAÇÃO: Logo depois que eu subi este post, a Academia anunciou que "Joy" foi desclassificado do páreo pelo Oscar. O motivo: dois terços dos diálogos são em inglês. A mesma razão que levou à desqualificação do nigeriano "Lionheart" na semana passada. O prêmio não se chama mais "melhor filme em língua estrangeira", e sim "melhor filme internacional", mas a regra do idioma continua a mesma. Por um lado, acho justo: isto evita que filmes britânicos e australianos dominem a categoria. Por outro, tem coisa mais internacional do que uma nigeriana na Áustria?

domingo, 10 de novembro de 2019

DESMORALESADO

Mais cedo ou mais tarde, todos os líderes populistas cometem o mesmo erro, sejam eles de direita ou de esquerda. Caem na tentação de se eternizar no poder, certos de que o amor que o povo nutre por eles é mais forte que qualquer instituição. Fujimori fez isto no Peru, Chávez fez isto na Venezuela e não duvido nada que a ideia tenha passado pela cabeça de Lula. Na de Evo Morales, isso estava claro desde 2016, quando ele não aceitou o resultado do plebiscito que ele mesmo convocou para alterar a Constituição que ele mesmo defendeu. Por isto, não foi surpresa nenhuma sua tentativa canhestra de fraudar as eleições deste ano. Tivesse Morales concordado com o segundo turno, ainda teria uma chance de legitimar seu quarto mandato consecutivo. Mas ele preferiu interromper a contagem dos votos quando começou a perder. Seguiram-se manifestações, quebra-quebra e até algumas mortes. Hoje, a auditoria que ele foi forçado a contratar revelou que "não podia dar fé" aos resultados - ou seja, houve fraude mesmo. Primeiro Morales anunciou novas eleições; depois, renunciou, sob pressão do Exército. Foi golpe? Depende de qual narrativa você acreditar. Eu acho que o golpe começou quando o caudilho boliviano ignorou as urnas e se candidatou de novo, e continuou pela tentativa de fraude. Mas o que virá em breve é que determinará o que de fato está acontecendo. Se houver eleições limpas e transparentes, então a Bolívia estará salva. Se um estado de exceção se prolongar como no Brasil pós-64, já era. De qualquer maneira, é triste ver toda a esquerda latino-americana lamentando a queda de Evo Morales. Significa que eles também seriam capazes de qualquer coisa para se manter no poder?

sábado, 9 de novembro de 2019

ELZA LIVRE

Finalmente vi "Elza", o musical que homenageia nossa maior cantora viva. Vou ser bem chato e começar pelo que eu não gostei. A duração: duas horas e meia sem intervalo. Não precisava. Tem até uma pausa natural, que serviria de ponto para uma breve interrupção. Também tem uns vinte minutos sobrando. Cortes pontuais fariam um bem desgraçado. O visual: OK, nunca há dinheiro, mas o cenário e os figurinos acinzentados deixam o visual monótono, para não dizer pobrinho. É um alívio quando, na segunda metade, as atrizes entram com roupas coloridas. O roteiro: tem que ter uma boa noção da vida de Elza Soares para não se perder, porque os fatos e as canções não seguem uma ordem cronológica. Dito isto, vamos ao que eu AMEI. As atrizes: de onde foi que saiu essa mulherada? Algumas me pareceram familiares, mas não lembro de onde. Todas fabulosas. Sete timbres diferentes (e só o de Larissa Luz evoca o de Elza), intensa presença em cena, carisma, beleza, talento. Algumas marcas da direção: há ótimas soluções com latas d'água, e a cena em que todas cobrem com elas as cabeças, permanecendo em silêncio pelo que parece uma eternidade, é incômoda e poderosa. O repertório: aí é covardia, né? Todos os hits da carreira de Elza estão lá. A banda, também só de mulheres: pãtaqueoparêo. E o fato de eu ter ido justo na noite de ontem, com as pessoas bem mais exaltadas do que de costume. Aplaudiram de pé o penúltimo número, vê se pode? No final, plateia e elenco fizeram arminha com a mão. Mas com o indicador para cima.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

LULA SOLTO

Teve até beijo na boca. Fico contente pelo clima de empolgação e esperança que contagiou boa parte do país. Biroliro finalmente terá um adversário à altura; na verdade, mais alto do que ele. Mas também fico apreensivo. Será que, uma vez livre, Lula irá morder a isca e tentar incendiar o Brasil? É só isto o que a familícia espera, para ter um fiapo de pretexto para um golpe militar. Continuo não achando que Lula seja inocente - as provas contra ele são muitas - e também sigo a favor da prisão depois da segunda instância, como acontece na maioria dos países civilizados. Mas a Vaza-Jato deixou claro que o julgamento do ex-presidente foi parcial e precipitado. Lula merece, no mínimo, ser julgado de novo. Agora é torcer que baixe nele o Nelson Mandela, para quebrar a polarização vigente. Mas Lula será capaz disso? Quando que ele pôs o interesse nacional na frente de suas ambições pessoais?

ATUALIZAÇÃO: Troquei o nome do post. Lula não está livre: continua condenado em segunda instância e ainda responde a nove processos. Tampouco pode se candidatar, pois se encaixa na Lei da Ficha Suja. "Solto" é o termo correto para este momento.

FILMES QUE COMEÇAM COM RE


Matei a saudade da Mostra assistindo dois filmes na mesma noite. Um deles tem toda a pinta de "filme da Mostra", mas não fazia parte da programação. É o peruano "Retablo", que vai representar seu país no próximo Oscar. Retábulos (em português) são aquelas caixinhas que, originalmente, eram cheias de santos e colocadas em altares, mas depois evoluíram para pequenos museus portáteis. O protagonista de "Retablo" é um garoto de 14 anos, filho de um artesão dessas maravilhas. Um dia os dois pegam carona num furgão, e o rapaz, na caçamba, vê sem querer o pai batendo uma para o motorista. Eles moram numa comunidade tão primitiva que ladrões são açoitados em praça pública; imagine como a homossexualidade é bem recebida. "Retablo" é falado em quechua e um pouquinho lento. Na hora, achei meio chato. Hoje percebo que o filme está crescendo dentro da minha cabeça. Um sinal inequívoco de que valeu a pena.


Não posso dizer o mesmo de "O Relatório" (este, sim, fez parte da Mostra). O pedigree é impecável: direção e roteiro de Scott Z. Burns, que também escreveu "A Lavanderia", e um elenco de primeiríssima linha encabecado pelo feio-bonito Adam Driver. Baseada em fatos reais, a história tem a ver com o Brasil de hoje. Porque o tal do relatório é u calhamaço denunciando as torturas cometidas pelos americanos para extorquir informações de supostos terroristas. Por aqui, não ia faltar minion querendo que esses barbudos (nem todos culpados, veja bem) sofressem mais (por lá também não falta). Mas as instituições dos EUA são bem mais sólidas do que as nossas, e barbaridades medievais não costumam cair bem por lá. Annette Bening pode ser indicada ao Oscar de coadjuvante pelo papel da senadora democrata Dianne Feinstein, mas o filme como um todo parece um episódio aborrecido e mal-iluminado de "House of Cards". E eu nem orecisava ter me apressado: antes do fim do mês, "O Relatório" já estará disponível na Amazon Prime Video.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

"VOCÊ É UM COUVARDE"

Homofóbicos, entendam de uma vez por todas: não mexam com os filhos dos gays. Não levantem dúvidas sobre a legitimidade ou sobre a capacidade de educarmos crianças. Esse tipo de insinuação não é "um ataque bem-humorado", como tentou se justificar hoje de manhã o Augusto Nunes, durante um debate com Glenn Greenwald na rádio Jovem Pan. Glenn enfiou o dedo no nariz de Augusto, que se descontrolou ao vivo e a cores para todo o Brasil. Os dois trocaram sopapos, mas eu dou toda razão ao Glenn. Aliás, mexer com os filhos, sejam eles de gays ou não, é sempre covardia. Que o diga a Joice Hassellman.

HELENINHO

O general Augusto Heleno é um homúnculo. Não na estatura física, mas na moral. Quando jovem, ele integrou o grupo linha-dura de Sylvio Frota, que queria prolongar a ditadura militar e eliminar qualquer chance de abertura política. Mais tarde, chefiou a missão brasileira no Haiti, que teve alguns problemas mas terminou com saldo positivo. Heleno poderia ter sossegado na reserva e deixado um retrato simpático na história, mas preferiu embarcar de cabeça na aventura protogolpista de Mijair. Foi apontado por vários como a eminência parda do atual desgoverno, mas isto não o poupou de levar um chega-pra-lá do 02 quando um comissário de bordo da comitiva presidencial foi pego com quilos de cocaína no aeroporto de Barcelona. Como já viu outros colegas de farda serem defenestrados em choro nem vela, Heleninho aderiu à cartilha olavista. Disse que "tem que estudar como vai fazer" quando perguntado sobre o AI-5 proposto pelo 03. Depois tentou intimidar o Reinaldo Azevedo no Twitter, mas foi posto em seu devido lugar. Ontem, questionado pela deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) se apoiava mesmo a volta da ditadura, o mini-milico reagiu com um "você vai me torturar?". Essa figurinha patética, sem o menor traquejo político nem respeito pelo estado de direito, tenta bajular a familícia para se manter à frente do Gabinete de Segurança Institucional. Boa sorte, general: no futuro, o senhor não merecerá mais do que uma notinha de rodapé, da mesma altura do seu caráter.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

DOU-LHE TRÊS

Então teve o megaleilão do pré-sal. Mas o dia em que o Brasil entregaria suas riquezas de mão beijada às potências estrangeiras acabou tendo um desfecho diferente do anunciado pela esquerda: só arrecadaram-se 70 dos 100 bilhões esperados e, na prática, a compradora foi a Petrobrás - a mesma empresa que descobriu os campos. Já tem meme tirando sarro do semi-fiasco, mas eu vou ser elegante. Prefiro comparar com a deliciosa cena do leilão de "A Família Addams",

A MAIOR DERROTA DA HISTÓRIA DO MUNDO

No desencontrado calendário eleitoral americano, ontem alguns estados escolheram novos governadores. O Mississipi reelegeu um republicano, mas Virginia e Kentucky - considerados "vemelhos" no jargão de lá - de repente azularam. O primeiro não só deu a vitória a um democrata, como também a maioria do Legislativo estadual ao partido da sra. Warren. No segundo, a decisão foi no photochart: o democrata Andy Beshear bateu o republicano Matt Beavin por menos de meio ponto de diferença, mas não faz mal. O que importa mesmo é que Donald Trump se abalou até lá e, num comício pró-Beavin, implorou ao público: "Se perdermos, a imprensa vai dizer que Donald Trump sofreu a maior derrota da história do mundo. Vocês não podem deixar isso acontecer comigo!". Pois é, tarde demais. Nesta terça, 5 de novembro de 2019, nas eleições para governador do estado do Kentucky, Donald Trump sofreu a maior derrota da história do mundo.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

MEU REI


A peça "Henrique V" de Shakespeare foi levada duas vezes ao cinema, com Laurence Olivier e Kenneth Branagh encarnando o monarca inglês. Os dois atores já eram velhos demais para o papel: Henrique V tinha só 28 anos quando venceu os franceses na batalha de Agincourt. Timothée Chalamet, no esplendor dos 23, passa uma ideia mais realista do personagem histórico em "O Rei", disponível na Netflix. O filme de David Michôd não é uma adaptação do texto teatral, mas têm alguns pontos em comum com o palco. Como o "sidekick" Falstaff e o famoso discurso que inflamou as tropas (mas com palavras diferentes das shakespeareanas). Eu sou suspeito para falar do Chalamet: rendi-me a ele assim que o conheci, dois anos atrás, em "Me Chame Pelo Seu Nome". Aqui ele só confirma o enorme talento, compondo um rapaz que perde qualquer razão para sorrir depois que sobe ao trono. Se tivesse um lançamento convencional nos cinemas, "O Rei" estaria cotadíssimo para o Oscar - nos EUA o longa até passou em algumas salas, para poder concorrer na Academia. Mas a Netflix tem outros filmes no páreo, como "O Irlandês" e "Marriage Story", de perfil mais alto. Não faz mal. Timothée Chalamet é do quilate de Leonardo Di Caprio, um tipo de ator que surge muito raramente, e sua carreira mal começou. As joias de sua coroa ainda não foram lapidadas.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

ACENDERAM O PAVIO?

Vem bomba por aí. É o que dizem alguns jornalistas que circulam nos bastidores do poder. Isso explicaria o destempero da familícia nos últimos dias, ainda mais estridente do que o habitual. Também seria a razão da saída do governo do general Santa Rosa, secretário de Assuntos Estratégicos, seguido por três outros militares. Mas que petardo seria esse? O caso Marielle Franco? Hoje foi anunciado que o porteiro que se ouve falando na gravação periciada em tempo recorde não é o mesmo que anotou o número 58 na planilha de visitantes ao condomínio Vivendas da Barra no dia 14 de março de 2018. Ou será que a bomba é o escândalo do laranjal do PSL? O Bozo sabia de tudo, é claro. Mas também não duvido que nada que seja algo ainda mais escabroso. Por via das dúvidas, tapem os ouvidos. E os narizes.

O BACURAU DA ARGENTINA


Pronto, já identifiquei qual é o tema dominante do cinema em 2019: é a vingança. Basicamente, a vingança contra o sistema ("Coringa", "Parasita". "Bacurau"), mas também contra a boçalidade e a própria história ("Era Uma Vez... em Hollywood"). "A Odisseia dos Tontos" não está no mesmo patamar de qualidade dos filmes citados, mas é bastante bom. O representante da Argentina no próximo Oscar tem como protagonistas as pessoas simples de uma cidadezinha do interior, como o nosso "Bacurau", e também conta como elas lidaram com uma situação extremamente injusta. Só que, ao contrário do nosso longa, aqui ninguém parte para a ignorância. Ao contrário: o plano é elaborado, complicado a ponto de ralentar o ritmo do longa em certos momentos. Nossos heróis depositaram uma bolada no banco e foram vítimas do "corralito", o decreto baixado pelo governo em 2001 que limitava os saques das contas correntes. Mas a revanche deles não é contra nenhum político, e sim um banqueiro que tira vantagem da situação. Mais não posso contar. Além do roteiro, outra ótima razão para embarcar nessa odisseia é o elenco, captianeado pelo onipresente Ricardo Darín, embelezado por seu filho Chino e abrilhantado por dois veteranos sensacionais, Luis Brandoni e Rita Cortese. Para se comer frio.

domingo, 3 de novembro de 2019

LIGUE DJÁ!

O mundo fica menos engraçado sem o Walter Mercado. O astrólogo portorriquenho ficou famoso em toda a América Latina e construiu um império que chegou até o Brasil nos anos 90, quando seu bordão "Ligue djá!" se popularizou por aqui. Mas quem ligasse se desapontava: não era ele quem atendia, claro, mas algum assistente anônimo. Seu look atemporal também remetia a uma época em que algumas bichas não sabiam envelhecer: preferiam se transformar em bonecas de porcelana Walter morreu hoje sem saber que me inspirou um projeto de série de TV, que já circulou por várias produtoras mas continua engavetada. Quem sabe agora, que passou para outro plano, ele não me dá uma forcinha?

sábado, 2 de novembro de 2019

VIRGEM DE NOVO


Lília Cabral teve dois enormes sucessos no teatro na última década e meia. O primeiro, "Divã", virou filme e depois série de TV. O segundo, "Maria do Caritó", deve seguir pelo mesmo caminho. A história da mulher mantida virgem para pagar uma promessa do pai (ou seja, guardada no caritó, a prateleira alta de algumas casas nordestinas, longe do alcance das crianças) ficou menos frenética na tela do que no palco, mas tão engraçada quanto e com um final um teco mais contemporâneo. "Cine Hollyúdi" provou que dá para fazer humor popular na televisão sem baixar o nível nem a audiência. Não duvido que já tenha gente na Globo pensando na primeira temporada de "Maria do Caritó".

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

LAVOU, TÁ NOVO


Agora já dá para dizer que existe um novo subgênero em Hollywood: a comédia ácida que satiriza o mercado financeiro, com elenco fabuloso e atores dando falas malandrinhas diretamente para a câmera. Depois de "A Grande Aposta" e "O Lobo de Wall Street", o mais novo membro do clube é "A Lavanderia", que está disponível na Netflix. Talvez a palhaçada seja o único jeito de tornar palatável um assunto tão árido? Aqui o alvo é o escândalo conhecido como Panama Papers, cujo epicentro foi o escritório de advocacia Mossack Fonseca, especializado em abrir empresas-fantasmas em paraísos fiscais. E, para tornar o prejuízo palpável, a protagonista é uma viúva americana que só quer receber o seguro pela morte do marido. Quando ela descobre que a seguradora meio que não existe, resolve investigar por conta própria. O roteiro é divertido ao ponto de, lá pela metade, eu ter tido a impressão de que um problema técnico havia interrompido o filme original e começado um outro, com outra história e outros personagens. Tudo se junta no final, é claro, com uma longa tomada única que sublinha pela enésima o talento espantoso de Meryl Streep, Gary Oldman e Antonio Banderas. "A Lavanderia" é o melhor filme em mais de uma década de Steven Soderbergh, um diretor que já assinou obras-primas mas que, nos últimos tempos, só fazia ligeirezas. Este aqui não vai entrar para a história, mas é limpinho e engomado.

TÁ MARCADA COM A MINHA LETRA

Quando o Bozo foi eleito no ano passado, uma coisa curiosa aconteceu: a Folha de S. Paulo ganhou um monte de novos assinantes, a um ritmo diário 10 vezes maior do que o normal. A campanha suja que o então candidato fez contra o jornal surtiu o efeito exatamente contrário. Nesta quinta, o Despreparado avisou que vai cancelar as assinaturas da Folha de todos os órgãos federais, copiando o que o Trump fez com o New York Times da semana passada. Mijair, para variar, justificou o gesto com uma mentira: disse que o jornal publicou uma conversa que ele teve com os editores com todos os palavrões que pedira que fossem cortados. A Folha de fato cortou os palavrões, mas isso não interessa aos minions. Eles já não leem a grande imprensa, então nem ficaram sabendo, e o que vale para eles é a palavra do "mito". Aliás, este é o único objetivo do chefe da familícia: impressionar seu gado. Por que, a essa altura, ele já sabe que suas palavras contra a Folha só aumentam as assinaturas do jornal. Assinadas com quê mesmo? Caneta azul, azul caneta...

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

PAPAS MÓVEIS

Ufa. Acabou a Mostra. Ainda tem a repescagem, mas os poucos filmes que me interessam passam em horários complicados para mim. Já basta a cerimônia de encerramento de ontem, que começou com uma hora e meia de atraso e ainda entregou trocentos troféus antes de exibir "Os Dois Papas". Mas valeu a pena: o primeiro longa de Fernando Meirelles em mais de sete anos é magistral. Adaptado de uma peça do neozelandês Anthony McCarten, que cometeu o roteiro de "Bohemian Rhapsody" mas foi indicado ao Oscar por "A Teoria de Tudo e "O Destino de uma Nação", o filme só poderá ser visto por aqui na Netflix, onde estreia em dezembro. E não, não parece teatro filmado: tem muitas cenas na Argentina, muitos flashbacks e sequências espetaculares que parecem mesmo terem sido rodadas no Vaticano e em Castel Gandolfo, a residência papal de verão. Mas são os diálogos entre os então papa Bento 16 e cardeal Jorge Bergoglio que mais prendem a atenção. O argentino vai pedir sua aposentadoria ao alemão, num encontro que eu não sei se aconteceu de fato na vida real. Não importa: tudo soa verdadeiro. Jonathan Pryce provavelmente terá sua primeira indicação ao Oscar, pois está soberbo como o papa Francisco. Mas ele é quase ofuscado por um Anthony Hopkins em estado de graça, que consegue humanizar e até tornar simpática uma figura que eu sempre detestei, Joseph Ratzinger. Juntos, eles mostram como a Igreja tenta romper a imobilidade histórica e parar de perder fiéis (como eu, por exemplo). Há que se interessar por história, política e religião para gostar de "Os Dois Papas", a antítese de um filme de Marvel. Mas tem pelo menos um herói de carne e osso, a depender da sua inclinação política.

ESTANISLAO, LAO, LAO

O encrenqueiro
Do embaixapeiro
Que não tem pau, não tem pau, não tem pau, pau, pau
O encrenqueiro
Do embaixapeiro
Levou um crau da drag queen

O primeiro-filho
Do argentino
O Estanislao, Estanislao, Estanislao, lao, lao
O primeiro-filho
Do argentino
Humilhou o zero-três

O inseguro
Que faz arminha
Ficou de mal, ficou de mal, ficou de mal, mal, mal
O inseguro
Que faz arminha
Quer voltar com o AI-5

Mas é um covarde
E não é páreo
Pro Estanislao, Estanislao, Estanislao, lao, lao
Que disse "os amo"
Por isso estamos mais juntos do que nunca!


quarta-feira, 30 de outubro de 2019

GRITOS E SUSSURROS

O berreiro armado pelo Biroliro na madrugada da Arábia Saudita vai entrar para a história como um dos maiores vexames de uma carreira vexaminosa. Jamais um presidente brasileiro se comportou com tamanha descompostura. O chilique deixou claro que não há estratégia política alguma: só impulsos incontroláveis, que denotam uma personalidade tosca e mesquinha. Enquanto se investiga se alguém atendeu mesmo o interfone na casa 58, vamos comentar à boca pequena:

- As evidências de ligações entre o clã e a milícia são abundantes e cada vez mais visíveis. Não estou dizendo que o próprio Bozo seja o mandante de qualquer crime, mas a intimidade entre os lados está registrada em atos, fotos e áudios.

- É claro que os militares sabiam dessas ligações. Afinal, o Rio ficou sob intervenção das Forças Armadas durante quase um ano. O triste é que, mesmo sabendo disso, quiseram embarcar nessa canoa, na ânsia de voltar ao poder (e talvez na ilusão de que controlariam o Despreparado).

- Quem matou Marielle deve estar arrependidíssimo. Jamais imaginou que a eliminação de uma reles veradora em primeiro mandato iria evoluir para uma bola de neve de proporções planetárias, capaz de abalar a República.

- O 03 já avisou que "a história se repetirá" se o Brasil tiver protestos parecidos com os do Chile. Ou seja, ameaçou um golpe de estado. Tem gente no governo procurando pretextos e cavando apoio nas Forças Armadas. Não é por outra razão que Mijair vai em qualquer formaturazinha de sargentos. Mas vai ter respaldo popular? Duvido muito. De qualquer forma, a resistência já começou.

- Que ótima ideia comprar briga com a rede Globo, não é mesmo?

MOSTRA À QUATRE - part deux


Vi quatro filmes esquisitos nos últimos dois dias. O primeiro deles venceu o festival de Berlim: é o franco-israelense "Sinônimos", que já tem estreia garantida no Brasil. O protagonista é um bonitão que aparece pelado quase metade do tempo, mas sua beleza é amortecida pela personalidade. O cara é um puta chato. É um ex-soldado de Israel que quer se esquecer de seu país natal e se estabelecer na França; até hebraico ele se recusa a falar. "Sinônimos" discute identidade e pertencimento, sem oferecer propriamente uma trama. Isto não seria grave se o personagem gerasse empatia. Não gera.


Mais estranho ainda é "Monos", que irá representar a Colômbia no próximo Oscar. Um grupo de adolescentes guerrilheiros mantém uma americana refém no alto de uma montanha. Ponto. Por que eles lutam? Qual sua ideologia? É impossível não lembrar o longo sequestro de Ingrid Betancourt pelas FARC, mas os moleques do filme não passam de estagiários da guerrilha. A atriz americana Julianne Nicholson faz a cientista capturada pela gangue, e sua total disponibilidade para se arranhar, sujar e levar bofetadas certamente contará pontos na Academia. A trilha sonora eletrônica ainda reforça o clima estapafúrdio.

Outro que tentará o Oscar é "O Paraíso Deve Ser Aqui", concorrendo pela Palestina. Assim como o italiano Nanni Moretti, o diretor Elia Suleiman gosta de se colocar como personagem e assunto de seus filmes. Também sem um plot definido, ele percorre Nazaré, a cidade em que mora, e também Paris e Nova York, um pouco em busca de financiamento para filmar, um pouco porque sim. Um produtor francês diz que seu roteiro não é "palestino o suficiente", como se um cineasta vindo de lá só pudesse falar da crise eterna com Israel. Na verdade, Suleiman fala da "palestinização" do mundo, que ergue barreiras e postos de controle até para as populações supostamente locais. Muito lindo e esquisito.


Para coroar essa tetralogia da estranheza, nada melhor que "O Farol". Um filme de terror ainda menos convencional do que "A Bruxa", o trabalho de estreia do diretor Robert Eggers. Dois homens - um mais velho, um mais novo - cuidam de um farol na costa da Nova Inglaterra no final do século 19, e demônios externos e internos aparecem para assombrá-los. Os dois brigam, se abraçam e quase se beijam, cercados por sereias, monstros e muita imundície. Robert Pattinson e Willem Dafoe estão ótimos, e a fotografia em preto-e-branco remete ao expressionismo alemão. Aliás, é quase um filme mudo, com pouquíssimos diálogos e um design de som fenomenal. Mas também é cheio de símbolos, sem uma mensagem óbvia e com um caminhão de referências. Vá com um amigo, para discutir depois.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

SEM OPÇÃO, SEM OPÇÃO, SEM OPÇÃO

A esquerda anda se regozijando com o que vê como o fiasco das políticas neoliberais, com as manifestações no Equador e no Chile e a vitória de Alberto Fernández nas eleições argentinas. Mas faz vista grossa aos protestos contra a fraude evidente que Evo Morales cometeu na Bolívia, e não sabe como classificar os protestos em Hong Kong e no Líbano (que acabam de derrubar o premiê do país). Até o Iraque aderiu à onda, e os ativistas de lá adaptaram "Bella Ciao", popularizada pela série "A Casa de Papel": o refrão em árabe quer dizer "sem opção", um desabafo depois de anos de guerra civil. Pois o meu diagnóstico é mais simples: em tempos de internet, onde houver governo ruim e alguma democracia, a população irà às ruas para reclamar. não importa se o mandatário de plantão foi de direita ou de esquerda. A incompetência nunca teve ideologia.

HAKUNA MAMATA

O Leonardo Sakamoto já percebeu o padrão: toda vez que surge uma notícia embaraçosa para o governo, Carluxo tenta desviar a atenção com um tuíte escabroso. Mas o estrago cometido pela pica-cometa do áudio do Queiroz só aumentou com o vídeo do leão rodeado por hienas, postado no Twitter do Mijair e rapidamente removido. É engraçado listar quem o 02 percebe como inimigos: tem até o movimento feminista e a rádio Jovem Pan, que costuma ser simpática ao governo. Óbvio que Carluxo da Lua quer amealhar apoio para um golpe de estado, mas lá de dentro da bolha ele não vê que o apoio ao papi vem minguando. E ainda fornece munição à internet, que deitou e rolou em cima dele.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

DESPERTA, AMÉRICA DO SUL

Neste domingo teve eleições presidenciais na Argentina e no Uruguai, e municipais na Colômbia, É de lá que vem a notícia mais animadora: a vitória de Cláudia López, a primeira prefeita assumidamente gay de uma capital da América do Sul (já houve outras e outros, no armário até hoje...). Nem sei qual é a plataforma da sra. López, mas o simples fato dela ter sido eleita em um país machista já é um sinal de progresso. No mais, torcendo para que Daniel Martínez vença o segundo turno no Uruguai (embora Lacalle Pou, o candidato de direita, seja palatável) e que, na Argentina, Alberto Fernández mantenha  a madame K longe dos cofres públicos.  Ah, e que as eleições brasileiras de 2020 não tardem.

BOOM

Jorge Fernando era uma explosão. Explodiu no vídeo em 1978, com apenas 23 anos, como um dos quatro amigos que iam morar juntos na série "Ciranda, Cirandinha", uma das coisas mais ousadas já feitas pela Globo (os outros três eram Fábio Júnior, Lucélia Santos e Denise Bandeira). Depois canalizou sua imensa energia para a direção e praticamente inventou o estilo "novela das 19 horas", com fartas doses de humor. No teatro, seu monólogo "Boom!" ficou anos em cartaz. Eu não o conheci pessoalmente, mas quem teve essa sorte só fala bem dele. Ontem o que explodiu foi seu coração. Sua morte precoce é mais uma nesse ano estranho, em que o planeta parece estar em convulsão. Que seus olhos gigantes continuem a brilhar, iluminando as trevas que querem nos engolir.

domingo, 27 de outubro de 2019

MOSTRA À QUATRE


Essa Mostra não termina nunca... Nos últimos dois dias eu vi quatro filmes de quatro países diferentes, mas confesso que estou um pouco cansado. Pelo menos três dos filmes foram muito bons. Talvez o mais interessante seja "Apenas 6,5", o maior sucesso do ano nas bilheterias do Irã. Estamos acostumados aos filmes de arte vindos de lá, mas este aqui é um thriller de ação para Hollywood não botar defeito. O título se refere aos seis milhões e meio de usuários de drogas que o país diz ter, e a trama mostra o embate entre um policial durão e um chefão do tráfico. "Apenas 6,5" é vigorosamente contra qualquer droga (inclusive o álcool, proibido pelo Islã) e não está interessado nas mazelas sociais que facilitam o consumo e o comércio de entorpecentes. Mas mostra uma realidade que, aqui no Ocidente, a gente não conhece: uma cracolândia bem no centro de Teerã. A duração podia perder uns vinte minutos para o meio ser mais ágil, mas começo e final são soberbos. Uma boa surpresa.


Um que me surpreendeu negativamente foi "Deus É Mulher e Seu Nome É Petúnia" (o exibidor brasileiro resolveu mudar o nome da protagonista, Petrúnia, com R). Premiado em Berlim, o filme da Macedônia do Norte (o segundo que eu vejo este ano!) tem uma boa premissa. Uma moça gorda e feia, frustrada com o desemprego, participa num impulso de uma cerimônia reservada aos homens: mergulha no rio e recupera uma cruz atirada n'água por um padre, o que lhe garantiria um ano inteiro de boa sorte. Segue-se um escândalo, Petrúnia vai parar na delegacia e daí não passa. Fiquei esperando uma reviravolta ou  um final satisfatório, mas não. O roteiro empaca, como as tradições do país.


Já o representante da Alemanha no Oscar é ótimo, mas duvido que tenha chances. O país só emplaca finalistas quando fala de nazismo ou comunismo; seus problemas contemporâneos não atraem a atenção da Academia. E o problema mostrado em "System Crasher" (a Mostra manteve o título em inglês) é até comum: Benni, uma garota de nove anos, é jogada de um lar adotivo para o outro, porque não consegue controlar suas crises de fúria. Tudo o que ela quer é voltar a viver com a mãe, que tem outros dois filhos pequenos e sempre um namorado desagradável de plantão. Todo o sistema de proteção social alemão se une para ajudar Benni, mas ela parece refratária a qualquer coisa que não seja morar com a mãe (e nem isso dá certo). Helena Zengler dá, talvez, a melhor performance infantil de todos os tempos, fazendo de "System Crasher" um filme para lá de incômodo (e com alguma semelhança com o "Mommy" do Xavier Dolan). Quem vai encarar?

"O Pássaro Pintado", que vai disputar o Oscar pela República Tcheca, tem uma curiosa simetria com "System Crasher". Aqui também o protagonista é uma criança em apuros, só que o mundo parece resolvido a eliminá-la. O romance de Jerzy Kosinski virou um filme com quase três horas de duração, que lembra a maratona de uma minissérie: é dividido em episódios, alguns bem cruentos. Tem uma maravilhosa fotografia em preto-e-branco e a participação de muitos atores interancionais, incluindo Udo Kier ("Bacurau"). A história se passa em algum lugar da Europa Oriental no que parece ser a Idade Média, mas logo percebemos que é durante a Segunda Guerra Mundial. O menino judeu e sem nome vai passando de mão em mão, sempre com alguém tentando explorá-lo economica ou sexualmente. De novo, não é para os mais sensíveis. Mas é um baita filme.

sábado, 26 de outubro de 2019

BRAXIT

As prováveis eleições de governos mais à esquerda na Argentina e no Uruguai são um ótimo pretexto para a corja bozoariana propor a saída do Brasil do Mercosul. Já surgiu até um neologismo, o "braxit". Só que uma união tarifária e comercial não é um clubinho de governos ideologicamente próximos: milhões de empregos podem ser perdidos, só para o Mijar continuar o teatro de tratar mal quem não comunga com ele. E para quem acha que, livre dos vizinhos, o Brasil estará livre para firmar contratos vantajosos com os EUA: ahã, sim, claro. Donald Trump manteve todas as promessas até agora, não é mesmo?

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A FAMÍLIA QUE ASSUSTA UNIDA


Será que o Brasil finalmente aprendeu a fazer filme de terror? Depois do apavorante "Morto Não Fala", "O Juízo" é mais um digno exemplar nacional do gênero. O novo longa de Andrucha Waddington, que estreia em dezembro e está em cartaz na Mostra de SP, é um assunto de família. O roteiro é de sua mulher Fernanda Torres, e a sogrona Fernanda Montenegro faz uma participação especial. Além deles, uma nova geração entra em cena: Joaquim Torres Waddington, filho de Andrucha e Fernanda, com um cabelão e um olhar intenso que lembram a jovem Maria Bethânia. A trama é uma versão brasileira de um template básico do horror: a casa mal-assombrada, onde o espírito de alguém que foi injustiçado busca se vingar dos descendentes de quem o matou. No caso, um escravo e sua filha, que perseguem a família que herdou uma fazenda no interior do Rio. "O Juízo" tem poucos sustos e pouco sangue, compensados por um climão ameaçador que se sustenta até o final. Essa família é muito unida, mas também muito ouriçada...

ATREVA-SE A SABER

O último episódio de "Merlí" deu um salto de sete anos no futuro e mostrou como estavam seus alunos . Pol, o mais brilhante, não só era o novo professor de filosofia do colégio, como estava casadinho com o filho do mestre, Bruno. Mas o que aconteceu nesse meio tempo? É o que vai contar o spin-off "MerlÍ: Sapere Aude" (atreva-se a saber, em latim), que estreia na Espanha em dezembro. Alguns personagens antigos estão de volta, como Carmina Calduch, a mãe de Merlí, e nem todos os diálogos são no delicioso catalão. Mas o que chama mais a atenção é a quantidade de casinhos hétero e homo que Pol vai ter na faculdade. Estava mais que na hora de uma série "high profile" ter um protagonista bissexual. Se esse cara é o guapo do Carlos Cuevas, já estou contando os dias.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

IMPIXE

No campeonato permanente de pior ministro do governo Mijari, hoje Ricardo Salles marcou mais pontos. O celerado adotou no Twitter a tática favorita dos bullies de mau-caráter: acusou quem ele enxerga como inimigo dos crimes de que é acusado, sem apresentar a mais mínima prova. O navio do Greenpeace que esteve nos mares do Nordeste brasileiro há cerca de um mês não é um petroleiro, nem tem capacidade para armazenar todo o óleo que atingiu as praias do Maranhão à Bahia. Nem é obrigação do Greenpeace ajudar a limpar o pixe: em primeiro lugar, essa tarefa cabe ao governo federal que, como se sabe, ignorou o desastre durante mais de um mês. Salles fala para os ignorantes e desinformados que votaram no Despreparado, mas assina seu atestado de canalha com esse tuíte e se esquece de que o mandato do Bozo um dia irá acabar. Pelo jeito, bem antes do esperado.

MOSTRA À TROIS - part deux


Sobrevivi a mais um round de pré-candidatos ao Oscar de filme internacional em exibição na Mostra de São Paulo. Um deles foi o representante da Noruega, "Cavalos Roubados", apontado pelos sites do ramo como um dos favoritos à indicação (a vitória já é de "Parasita" - desistam, fãs de "A Vida Invisível"). O filme é um drama que se passa em duas épocas: 1999, quando o protagonista é feito por uma cara conhecida, Stellan Skarsgård, e durante a 2a. Guerra, quando o país estava ocupado pelos nazistas. A fotografia é belíssima, os atores são incríveis e os inúmeros acidentes - desastres de carro, quedas de cavalo, troncos que caem - são filmados com perícia. Mas alguma chave não me girou, porque eu não consegui me conectar emocionalmente ao longa. Próximo!

Achei que iria acontecer o mesmo com "O Jovem Ahmed". Afinal, eu nunca fui muito fão do estilo lacônico dos irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne. Mas não é que eu gostei? Não há um único frame a mais ou a menos na história do moleque belga de 14 anos que, influenciado por um imã radical, entra em vias de se tornar um terrorista islâmico. Ele tenta assassinar a professora "impura", que ousa ensinar árabe com a ajuda das letras de canções populares, e vai para o reformatório, onde finge se recuperar. A temática é parecida com a do recente "Adeus à Noite", mas o resultado é bem melhor. Os Dardenne mereceram o prêmio de direção no último festival de Cannes, uma espécie de 3o lugar.


"La Mala Noche" é o candidato do Equador, um país que tem uma produção cinematográfica pequena e irregular (este é apenas o segundo filme de lá que eu vejo na vida). Trata-se de um drama sobre escravidão sexual, protagonizada por uma ótima atriz chamada Noëlle Schönwald. Mas a narrativa da diretora Gabriela Calvache é meio confusa, e o desfecho, embora realista, deixa um gosto amargo no olho do espectador. Acho que não tem muita chance entre os membros da Academia. De qualquer forma, é curioso como a escravidão, em suas diversas formas, entrou para a ordem do dia. Talvez estejamos dispostos a acabar com ela?

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

SOIS REI? SOIS REI?

Poucas vezes na vida eu vi um look mais jeca do que o que o Biroliro usou ontem na entronização do novo imperador do Japão. Não sei o que dói mais na vista: se a faixa presdencial, que jamais deveria ser usada nesse tipo de cerimônia, ou se o colar, que jamais deveria etc. etc. Pelo menos, não por um presidente da República. Mas o Despreparado já deixou claríssimo que se vê como um monarca absolutista, fundador de uma dinastia. Um monarca jeca, é claro, que acha que a culinária jpaonesa se resume ao sushi e que prefere comer hambúrguer em Tóquio. Por falar em hambúrguer, o embaixapeiro desistiu mesmo de ir para Washington, ufa, e agora terá que demonstrar uma habilidade política que não possui para liderar o governo na Câmara. Vamos ficar calados enquanto a familícia se encastela?