segunda-feira, 18 de março de 2019

EL AMOR DESPUÉS DEL AMOR


Ricardo Darín tem um público cativo no Brasil. O cinema em que eu fui ver "Um Amor Inesperado" no sábado à tarde estava quase lotado, e depois fiquei sabendo que vários amigos foram ver o filme no fim de semana da estreia. Devem ter gostado, porque este é um Darín dos bons: tem roteiro burilado e ótimas interpretações, dois fatores que nos fizeram amar o cinema argentino. Mas também é longo demais: dura 2h15, uma eternidade para uma comédia romântica. Para piorar, a história é para allá de previsívei. Um casal de meia idade se separa depois que o filho sai de casa, porque acabou o assunto (ela é Mercedes Morán, uma atriz fabulosa). Passam algum tempo se aventurando no Tinder, até que então... Estou dando spoiler? Alguém achou que o final seria diferente? "Um Amor Inesperado" não faz feio, mas tampouco entra para o rol dos melhores dos nossos vizinhos. É uma boa empanada, mas não chega a asado.

WHO'S BAD?


Desde 1993, quando surgiram as primeiras denúncias, que eu não tenho a menor dúvida: Michael Jackson gostava de garotinhos. Não. Tenho. A. Menor. Dúvida. Não vou usar o termo "pedófilo" por causa de uma filigrana: ao contrário dos velhos tarados que costumam ser associados à prática, Jackson também era um garotinho. Ou, no máximo, um adolescente recém-chegado à puberdade. Sua sexualidade estacionou por volta dos 13 anos de idade e nunca mais evoluiu um milímetro. Todo mundo se habituou a dizer que MJ era uma criança, que estava tendo a infância que lhe havia sido roubada, mas entre quatro paredes ele era um pouquinho mais velho. Só um pouquinho.


Neste ponto, o documentário "Deixando Neverland" não me trouxe novidade alguma sobre o finado Rei do Pop. Só detalhes, como as preferências do astro (ele era ativo!). E não me fez mudar de ideia. Antes de ver o filme de Dan Reed, escrevi uma coluna para o F5 dizendo que eu não deixaria de ouvir Michael Jackson (não que eu ouça muito, mas vá lá). Algumas pessoas me avisaram que o choque dos depoimentos de Wade Robinson e James Safechuck me encheriam de horror a "Thriller" - só que não. A música continua tão boa como já era antes.

Se Michael Jackson não tem muitos segredos para mim, não posso dizer o mesmo sobre seus acusadores. Não entendo muito o sofrimento pelo qual estão passando Wade Robson e James Safechuck. O primeiro venceu um concurso de dança aos cinco anos de idade, cujo prêmio era conhecer MJ em pessoa - e ele acabou contratado, fazendo parte do show até os 14 anos. O segundo fez um comercial de Pepsi com Jackson quando era pequeno, e logo entrou para o círculo íntimo do cantor. Ambos foram abusados por ele, mas admitem que era gostoso e divertido. Ambos testemunharam a favor do astro no processo de 1993. Foi só no segundo processo, em 2003, que a ficha parece ter caído. Só então eles se recusaram a participar. Mais tarde, casados e com filhos, se deram conta do horror por que passaram. Mas se deram mesmo? Ou foram induzidos a achar que sofreram? Porque, na época, saíram da experiência sem maiores problemas. Sim, participaram de brincadeiras sexuais com um adulto, e isto não é aceitável por qualquer ângulo. Mas sem violência física e, ao que parece, psicológica.

Não estou defendendo Michael Jackson, nem passando pano no que ele fez. Para mim, trata-se de uma figura trágica, que foi vítima do próprio sucesso e não soube buscar apoio profissional. Pagou com a própria vida, e privou o mundo de um talento gigantesco. Mas acho no mínimo curioso que Robson e Safechuck estejam passando AGORA por um sofrimento atroz. Robson até tentou processar o "estate" de Jackson em 2010, mas um juiz não deixou, alegando que já havia passado tempo demais. Não há inocentes nessa história.

"Deixando Neverland" tem quatro horas de duração, mas não precisava tanto. O diretor ficou com dó de cortar o farto material que coletou, e o resultado é meio chato e repetitivo. Além do mais, a discussão que propõe não deveria ser sobre a reputação de Wacko Jacko ou a permanência de sua obra. Vou fazer uma provocação, totalmente contrária aos ventos que sopram hoje em dia: será que toda relação entre um menor e um maior de idade é necessariamente ruim? É possível que não haja cicatrizes nem traumas? Veja bem, não estou afirmando, só perguntando. E perguntar é sempre bom e necessário.

domingo, 17 de março de 2019

TERÇA INSANA

Uma das poucas consequências positivas da desastrosa eleição do Mijair foi jogar mais luz sobre a extensa rede de fakenewseiros que trabalha para ele. Habituada a pregar aos convertidos, agora esses difamadores vêem suas mentiras confrontadas pela imprensa séria e pelas agências de checagem, e estão todos se borrando nas fraldas. É o caso de Allan dos Santos, responsável pelo abominável site Terça Livre. Só pelo vídeo acima dá para sacar o nível do sujeito. Como é que, em pleno ano da graça de 2019, alguém ainda chama a masturbação de "perversão sexual"? E ela ainda por cima queima neurônios...

Allan dos Santos foi quem espalhou no Brasil a mentira publicada na seção de blogs do site francês Mediapart, acusando Constança Rezende, do Estadão, de querer derrubar o governo. O próprio Bozo, em sua grandeza de estadista, repetiu o tuíte, e a repórter recebeu todo tipo de ameaça - por uma coisa que ela nunca disse, by the way. A potoca foi logo desmentida, mas adivinha se Allan se retratou? Claro que não. Até que, nesta sinistra sexta-feira, um outro jornalista do Estadão foi bater à sorrelfa à porta de sua casa...

Jornalistas, como todo mundo sabe, andam armados até os dentes, e vão às casas das pessoas para exterminá-las. Pelo menos é isto o que acha esse bobalhão, que não faz a mais puta ideia do que seja jornalismo de verdade. O coitadinho está até agora no Twitter se lamuriando do gravíssimo perigo que ele e sua família correm, como se todo mundo usasse das mesmas táticas sujas de perseguição e desmoralização que ele usa. Imagina se eu fosse ter um chilique cada vez que o acessor (com c mesmo) da cantora Francilayne mandasse uma mensagem para o meu celular, que eu só dou para quem eu conheço pessoalmente? Mas a verdade é que devemos agradecer ao Allan dos Santos. Nesses tempos sombrios, ele assumiu para si o papel de palhaço, e está nos divertindo a todos. Deus sabe como estamos precisando rir.

sábado, 16 de março de 2019

FALTA DE JUÍZA


Quando eu era pequeno, sabia de cor a escalação da seleção brasileira que venceu a Copa de 70. Hoje eu sei os nomes de todos os 11 juízes do STF, e se espremer acho que também saem quase todos da Suprema Corte americana. Esses magistrados fazem parte do nosso cotidiano, e alguns deles afetaram o planeta inteiro com suas decisões. É o caso de Ruth Bader Ginsburg, a fodona feminista que, na reta final de seus anos, se tornou uma heroína feminista e um ícone da cultura pop. No fim do ano passado saíram dois filmes em sua homenagem. Um deles é o excelente documentário "RBG", indicado a dois Oscar e já comentado aqui no blog. O outro, "Suprema", não chega aos calcanhares de sua biografada. O roteiro se prende a um caso emblemático, que deu o pontapé à carreira fulgurante de Ginsburg na defesa dos direitos igualitários. Mas o caso em si não é dos mais palpitantes, e Felicity Jones nem se esforça para captar a centelha que arde em sua personagem. Sobra um filme morno, quase aborrecido e nada obrigatório. Quem quiser conhecer essa mulher impressionante tem que ir atrás de "RBG".

sexta-feira, 15 de março de 2019

ECCO LA MARCIA REALE

"Marcia Reale" era o nome do antigo hino imperial italiano, usado até o país se tornar uma república. Também serviu para inspirar o nome artístico de Eunice Alves, a grande atriz brasileira que morreu nesta sexta. Foi ela própria quem me contou a origem de seu pseudônimo: trabalhamos juntos na segunda temporada de "Ô, Coitado!" no SBT, onde eu era um dos roteiristas, em 2000. Logo depois eu a indiquei para o que acabou se tornando um de seus últimos trabalhos: o filme "Avassaladoras", lançado em 2002, em que ela fez a avó da personagem da Giovanna Antonelli. Márcia Real era uma mulher linda, mesmo já entrada em anos, e uma profissional de primeira. Chegava ao estúdio sempre com o texto decoradíssimo e dava broncas nos colegas mais indisciplinados. Mas nós sempre nos demos bem, e eu agora lamento tê-la perdido de vista nos últimos anos.

A CULPA NÃO É DO BULLYING

Dois gatilhos vêm sendo apontados como os responsáveis por despertar a sanha dos assassinos de Suzano: os videogames, e o bullying que eles teriam sofrido na própria escola Raul Brasil. De game eu não entendo picas, mas o bullying eu senti na pele. Fui alvo de gozações em dois colégios diferentes: primeiro aos 11 anos de idade e depois aos 14. Saí na porrada duas vezes. Não adiantou, as gozações continuaram. E aí sumiram, de uma hora para outra. Um ano depois, meus algozes me cumprimentavam como se nada. Mas eu sei que tive bastante sorte.

Bom, vamos lá. O bullying é uma coisa gravíssima, mas nem de longe é o maior culpado por esses crimes bárbaros. Meninos gays e meninas gordas são as vítimas preferenciais do bullying (que costuma ser praticado por meninos brancos e héteros, iguaizinhos aos assassinos de Suzano). Você já soube de algum gay assumido ou de alguma gordinha voltar à escola onde sofreu bullying e abrir fogo contra os outros alunos? Pois é. 

Como quase toda bicha da minha geração, eu também não escapei, como já contei lá em cima. Fiquei com cicatrizes, mas essa não foi a pior coisa que já me aconteceu. Cresci e me tornei essa pessoa ma-ra-v-lho-sa que vocês tanto adoram. Hoje em dia eu abro fogo, sim, mas com as palavras. 

Nem por isto defendo o bullying. Não acho que ele "enrijece o caráter", como já vi alguns pais dizerem, ou te ensina a te defender. É uma coisa horrorosa, eu sofria muito. Não precisava passar por isto. Mas ninguém - nenhum professor, diretor, bedel, pai de aluno, meus próprios pais, NINGUÉM - fazia nada para me defender. Só interferiam quando descambava pra porrada.

O bullying tem que ser evitado na hora. Tolerância zero. A vítima precisa saber que ela não está sozinha e que seus gozadores é que são os errados. Mas os atiradores que grassam mundo afora não podem se escorar no bullying para justificar seus crimes. O problema é bem mais complexo.

Minha teoria? Estamos assistindo, em escala global, à reação dos homens héteros (não necessariamente brancos) ao avanço das minorias. Trump, Bozo, Duterte, Erdogan, Orbán, o Estado Islâmico, os ataques às mesquitas da Nova Zelândia, os massacres nas escolas: são todas faces de um mesmo monstro, chamado ressentimento masculino. A sensação desses homens de estarem perdendo poder. Só que eles não entenderam que não perderam direito algum - só a possibilidade de explorar e humilhar os demais. Foram os outros que conquistaram mais direitos, só isto. Mas a igualdade incomoda a quem goza de privilégios.

Mulheres em posto de comando não são ameaça. Homossexuais se beijando em espaço público não são ameaça. Negros nas novelas não são ameaça. TODO MUNDO ganha com a igualdade. - inclusive dinheiro O preconceito é ruim para a sociedade como um todo. Ele faz mal para todos, até para os preconceituosos. Mas, enquanto essa ficha não cair, continuaremos presenciando injustiças e até mortes estúpidas.

quinta-feira, 14 de março de 2019

MELÔ DO PI-RI-PI-PI

Cansei de fazer post pesado. Cansei de reagir a cada desgraça que sai no noticiário. Quero celebrar o Pi Day, o dia do Pi, porque a data desta quarta, em inglês, se escreve 3/14 - o começo do número mais mágico de todos, que hoje sabemos ser seguido por 31 trilhões de outros algarismos. O Pi é um vislumbre do infinito, porque ele vai ficando cada vez menor, mas nunca acaba. É a chave dos mistérios, desde a Antiguidade. Para entender esse paradoxo, só mesmo comendo torta, o outro significado do dia em inglês. Ou levando um torta na cara.

QUE ÓDIO

Este post era para ter subido ontem, mas o massacre na escola em Suzano o adiou para hoje. Só que não é uma tragédia nova que me fará esquecer da tragédia anterior. A prisão dos assassinos de Marielle Franco traz um novo insulto à memória da vereadora e à inteligência de todos nós. É um acinte que setores da polícia carioca tentem caracterizar a ação de Ronnie Lessa e Elcio Vieira de Queiroz como "crime de ódio". Quer dizer então que os dois, que levam vidas de um luxo incompatível com as rendas que têm e mantêm um arsenal de dar inveja às Forças Armadas, passaram três meses tramando em detalhes o assassinato de Marielle e de seu motorista Anderson Gomes, só porque não gostavam das ideias dela? Porque não suportavam uma negra lésbica feminista na política? Ah, tá boua? O escândalo só cresce quando lembramos que, toda vez que um homossexual ou transexual é morto no Brasil sem motivo, a direita raivosa logo espuma que não existe crime de ódio por aqui. Mas se a vítima for filiada ao PSOL, aí sim, não é mesmo? Até os bebês que ainda não nasceram já sabe que tem gente graúda por trás dessa selvageria. Muitos indícios apontam para o MDB fluminense, que há décadas sufoca o estado e é o maior responsável pelo caos em que este se encontra. Pessoalmente, não acredito que o clã do Mijair esteja diretamente envolvido. Mas não dá para negar que eles vivem na maior promiscuidade com os milicianos, depois de tantas homenagens, empregos, vizinhanças e até namoros. A prisão dos executores foi só primeiro passo. Ainda faltam muitos, e não sei se seremos capazes de percorrê-los todos.

quarta-feira, 13 de março de 2019

TIROS NO BRASIL

Dois anos atrás, eu participei da sala de roteiro de uma série que ainda não foi produzida, chamada "Tiros no Paraíso". O argumento era livremente inspirado pelo massacre de Realengo: um garoto vítima de bullying matava metade de sua classe em uma escola fictícia na periferia de São Paulo, a Alberto Paraíso. Hoje, vendo as reportagens pela TV, fiquei impressionado: a E. E. Raul Brasil, em Suzano, é quase idêntica ao colégio que imaginávamos. Até as casas das vítimas e dos assassinos se parecem com as que pensamos para o programa. Só não chegamos ao nível de horror dos dois matadores da vida real: já surgiram indícios de que eles participavam do Dogolochan, um fórum na dark web onde incels e outros malucos se incentivam uns aos outros ao suicídio - e que levem junto com eles a "escória", i.e., mulheres, negros e gays. Que cultura doente é essa em que vivemos, que propiciou tamanha barbaridade? E, sim, o Bozo e suas arminhas nas mãos fazem parte do mesmo fenômeno. A glorificação da violência como solução dos conflitos, a ilusão da superioridade branca e masculina, está tudo amarrado e banhado de sangue. Tomara que essas mortes de hoje não tenham sido em vão. Que elas sirvam para o Brasil repensar essa alucinada política de rearmamento. Para não virarmos uma cópia piorada dos EUA, onde esses ataques já são rotina.

GRANDE DIA

Foi uma terça-feira surreal. Pela manhã, as notícias chocantes chegavam com a velocidade de balas de metralhadora. Prenderam os assassinos de Marielle! Um deles mora no mesmo condomínio do Mijair! A filha dele namorou com o 04! Pois é, também fiquei chocado dem saber que o 04 gosta de mulher. À tarde começou a palhaçada. Passando um recibo maior do que o gigantesco Vivendas da Barra, onde ninguém conhece ninguém, os bolsomijons adotaram a sofisticada estratégia de subir a hashtag #CelsoDaniel, porque né? Sempre deu certo! Afinal, se os petistas têm esqueletos no armário, isto significa que o nosso lado é totalmente inocente, talquei? Foi divertido ver os mesmos que reclamavam, um dia antes, da "extrema imprensa" (um termo que eu acho até elogioso), apelarem para um argumento digno da quinta série. "Ãin, mas pode ser tudo coincidência". Poder, pode. Mas já pensou o fuzuê se descobríssemos que o Adélio mora no mesmo prédio que o Lula em São Bernardo, que eles têm foto juntos e que os filhos já namoraram?

terça-feira, 12 de março de 2019

VIVENDAS DA BARRA

Não vamos dar muita importância ao fato do Bozo morar no mesmo condomínio que Ronnie Lessa, um dos suspeitos pela morte de Marielle Franco que foram presos na manhã de hoje, não é mesmo, pessoal? O Vivendas da Barra é imenso, quase do tamanho da Rocinha, e o Bozo tem apenas dois imóveis lá dentro. Mesmo que ele conheça seu vizinho Ronnie, isso não quer dizer nada, talkei? Eu mesmo já morei no mesmo prédio que o Wanderley Cardoso, e nunca gravamos uma única música juntos. Aliás, um sargento da reserva da PM morar no mesmo condomínio que o presidente da República deve ser uma coisa super normal, que acontece em qualquer lugar do mundo. E o Mijair ter atacado a imprensa que investiga as milícias, na véspera do suspeito ser preso no mesmo condomínio em que ele mora? Co-in-ci-dên-cia, galera. Só isso. Parem de ver maldade em tudo.


Bom, ainda não sabemos se o Bozo conhece seu vizinho Ronnie Lessa. Mas o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz, o outro suspeito preso na manhã desta terça...

segunda-feira, 11 de março de 2019

LIGAÇÃO PERIGOSA


É oficial: a Netflix tem mesmo  filmes mais interessantes do que os que estão em cartaz nos cinemas. Uma boa surpresa esta semana foi a chegada à plataforma de "Mademoiselle Vingança", indicado a seis Césars e vencedor de um, melhor figurino. É uma produção luxuosa, ambientada em meados do século 18 e livremente inspirada em um livro de Diderot. A trama parece um esboço de "Ligações Perigosas", que seria escrito alguns anos depois. Uma viúva nobre resolve se vingar de seu ex-amante, fazendo-o apaixonar por uma bela jovem - só que ele não sabe tudo sobre sua nova paixão. Lento a princípio, com diálogos literários, o filme aos poucos se revela uma história cruel, em que a feiúra das almas contrasta com a beleza das imagens. Não tem o impacto do clássico com Glenn Close, mas é uma iguaria fina.

UM ESGOTO A CÉU ABERTO

O Bozo se supera. O despreparado que finge comandar a nação conseguiu postar um tuíte pior ainda do que o do vídeo obsceno do carnaval, menos de uma semana depois. É simplesmente criminoso um presidente difamar uma jornalista e espalhar fake news, baseado em um caso já desmontado pelas agências de checagem de notícias. Constança Rezende está sendo perseguida, entre outras coisas, porque seu pai Chico Otávio é um repórter carioca que está virando do avesso o submundo das milícias. Sentindo o cerco se apertar, o clã Boçalnaro apela para a única coisa que sabe fazer: baixaria virtual. Querem calar a imprensa profissional. Não é nenhuma surpresa, mas é gravíssimo. Mas sabe o que me apavora mais? É claro que os militares sabem dos laços dos Bostonazi com os milicianos. Sabem e não fazem nada, porque dependeram da popularidade do Mijair para voltar ao poder. Até quando esse esgoto vai correr a céu aberto, empesteando o país?

domingo, 10 de março de 2019

VAMOS À FODA

Já tem programa para o último fim de semana de março? Quem estiver por terras lusas não pode perder a III Feira da Foda, em Pias de Monção. Foda é o nome da delicada iguaria local, um cordeiro assado inteiro. O vídeo acima me deixou com água na boca, até porque em dado momento aparece um cartaz onde se lê "não há foda sem chouriço". Mas o locutor vai desanimando: "o primeiro dia é fantástico, o segundo é ótimo e o terceiro é divertido". Foda todo dia cansa.

CENTRAL DO EGITO


Quem quer ver filme de leproso? Eu quero! Quer dizer, eu quis ver "Yomeddine", o candidato do Egito ao último Oscar, que também foi exibido no festival de Cannes do ano passado. Mas não voi negar que também tenho um pouco de curiosidade mórbida... As vítimas da hanseníase parecem vindas diretamente da Antiguidade remota. São a lembrança da praga mais temida pela humanidade, tanto que o próprio nome original da doença - lepra - hoje é politicamente incorreto. Mas hoje ela está quase extinta, porque é facilmente curável. Resiste em bolsões de pobreza, como na periferia do Egito que aparece em Yomeddine. Quase nenhum ponto turístico aparece na tela: só um país feio povoado de gente quase sempre má. O filme de estreia de A. B. Shawky conta a história de um homem curado, mas coberto de cicatrizes, que deixa a colônia onde mora depois da morte da mulher e parte na companhia de um órfão rumo à sua cidade natal. Tudo acontece no caminho, e alguns momentos são bem difíceis de aguentar. Mas o tom é otimista, e a trama guarda um parentesco distante com o nosso "Central do Brasil". "Yomeddine" mostra que a humanidade não presta em nenhuma cultura, mas que também vale a pena manter a fé nela. Nem que seja na própria humanidade.

sábado, 9 de março de 2019

A RESISTÊNCIA SAI DA SOMBRA

A brincadeira do José de Abreu começou do jeito errado. Ele se autoproclamou presidente para ironizar Juan Guaidó, o legítimo mandatário da Venezuela. Mas aí Mijair e os bolsomijons levaram a sério, e o que era só uma piada está em vias de se tornar um "shadow cabinet". Este conceito é próprio da política britânica: o partido que perde as eleições monta um "ministério", que serve de contraponto às decisões do governo de verdade. Zé de Abreu já apontou Marielle Franco como sua primeira-dama e promete indicar uma maioria de mulheres, índios e negros para as outras pastas. Não sou fã da ideologia do ator, mas esta performance chegou na hora certa. Enquanto isso, os chupadores de laranja subiram #ZehdeAbreuNaCadeia, passando recibo de que estão mesmo apavorados com a boutade. Talvez devam estar mesmo: o Bozo também começou em forma de piada, e até hoje não se deu conta da seriedade do cargo.

sexta-feira, 8 de março de 2019

ALVO ATROZ


"Albatroz" é uma doideira. Um fotógrafo famoso lida com três mulheres ao mesmo tempo: a esposa, a amante e uma namorada de adolescência que reaparece clamando que ele ainda é dela. Ou não. Será tudo um sonho? E as agulhas que ele tem enfiadas na cabeça? Eletrodos? O que cazzo a neurociência tem a ver com isso tudo? No que poderia ser um plot, o cara fotografa um atentado terrorista em um restaurante em Jerusalém. Primeiro recebe prêmios, depois, críticas por não ter ajudado as vítimas. Mas por que ele é sinestésico? Vai saber. Com direção, fotografia e montagem alucinantes, "Albatroz" não tem parentes próximos no cinema nacional. Nada na obra de Bráulio Mantovani, roteirista de "Cidade de Deus", me fazia prever algo assim. Que sorte. Supresa de vez em quando é bom.

A MULHER DO DIA

Quando eu era publicitário full-time, os anúncios em homenagem ao Dia da Mulher eram quase todos naquela base "flores para outra flor". Para a propaganda, a data era antifeminista: dia de celebrar a delicadeza, a sedução, a inferioridade do segundo sexo. Mas as mulheres avançaram, e hoje vemos no mundo inteiro um fortíssimo movimento de contrarreação a esses avanços.  Bozo, Trump, Duterte, Orbán, Erdogan, são todos sintomas da mesma onda que tenta recuperar espaço para os homens. Mas é só isto mesmo: uma onda, vai passar. Nas empresas que eu frequento hoje em dia, tem sempre mulher em postos-chave - quando não na maioria dos cargos, algo cada vez mais comum. Também estão mais frequentes as notícias sobre feminicídio: reparou que no "Jornal Nacional" tem pelo menos uma, todo santo dia? Pode até ser que se esteja matando mais mulher do que antes, mas acho mais crível que se esteja é reportando mais esses crimes. É absurdo que os homens sejam educados para não suportar um reles pé na bunda. As mortas de hoje em dia nem precisaram trair, só dizer que queriam sair da relação. Mas a consciência está mudando e está crescendo. Agora há pouco, quando fui ao cinema na Paulista, havia uma imensa manifestação, com palavras de ordem e cartazes da Marielle. Ainda bem.

quinta-feira, 7 de março de 2019

MANGUEIRA TEU CENÁRIO É UMA BELEZA

Já entrou para a história: este foi o carnaval da resistência. O Brasil mostrou que está longe de ser essa boçalidade unânime que imaginam os bolsomijons. A agenda reacionária do governo não tem esse apoio todo, haja vista os gritos de guerra contra o Bozo, as fantasias de laranja, as homenagens a Marielle no sambódromo carioca, a vitória da Mangueira. Enquanto isto, Mijair continua metendo os pés pelas mãos: a declaração de hoje, de que a democracia só existe se as Forças Armadas assim o quiserem, foi mais uma crise artificial e desnecessária. O resultado é que o mercado já está se dando conta de que o candidato que ele apoiou não é confiável e que são cada vez menores as chances de uma reforma da Previdência razoável ser aprovada. Em um momento em que deveriam estar buscando o máximo de apoio possível, os Solnorabo tentam dividir o Brasil ainda mais. É uma corja desprezível, que nem de conservadora merece ser chamada - falta-lhe a honra para tanto. Mas um país em que um bloco fica em silêncio para uma mãe encontrar seu filho, em que o Seu Peru desfila sob aplausos com quase 100 anos de idade, em que a Mangueira levanta a Sapucaí com um enredo político - sim, esse país ainda tem jeito. Mas precisa despertar desse pesadelo.

AGENDA LOTADA


Faz três anos que os Pet Shop Boys lançaram seu último álbum, o ótimo "Super". Portanto, já estava na hora de Neil Tennant e Chris Lowe se manifestarem. Só que, ao invés de um long-play com 10 ou 12 faixas, os rapazes preferiram um formato muito em voga nesses tempos de streaming: o EP, ou extended play. "Agenda" tem apenas quatro músicas, mas todas têm potencial para hit single. Em especial "The Forgotten Child", que encerra este que é o mais abertamente político trabalho dos Pets - uma dupla que, aliás, nunca fugiu ao debate. Com críticas às redes sociais e à desigualdade do mundo, "Agenda" devolve relevância a esses veteranos, na estrada há mais de 30 anos. Daqui a pouco saem os remixes para as peeshtas.

quarta-feira, 6 de março de 2019

#MIJAIR

O Carluxo, ou seja lá quem cuide das redes sociais da presidência e seu entorno, está precisando da orientação de um adulto responsável. Foram dois tiros de canhão nos próprios pés durante o Carnaval. O primeiro partiu do 03, que deplorou o direito de Lula de comprecer ao enterro do próprio neto. O segundo veio ontem e está mais para uma saraivada, porque os disparos ainda não pararam. O mais recente é esta pergunta aí ao lado, que vem recebendo respostas maravilhosas no Twitter. Gargalhadas à parte, passa da hora de alguém rever a estratégia digital dos Solnorabo. Ela pode servir para mobilizar a base, mas não está conquistando novos fãs. Se a economia não reagir, o governo estará mijando em si mesmo.

(Minha coluna de hoje no F5 se aprofunda no assunto e lamenta a indginidade do presidente - e olha que ela foi escrita antes do tuíte do golden shower)

G.R.E.S. UNIDOS DA NETFLIX


Nesta semana pós-Oscar, tem muito mais filme que me interessa no streaming do que em cartaz nos cinemas (até porque eu já vi tudo). Por isto, me aconteceu uma coisa inusitada neste carnaval: fui uma única vez ao cinema, e me afundei no catálogo da Netflix. Uma das minhas primeiras escolhas foi o curioso "Pelas Ruas de Paris", lançado mundialmente com exclusividade pelo serviço. Trata-se de um filme francês sem muita história: menina conhece menino numa rave, tomam ecstasy juntos e se beijam mooointo, menino se muda para Barcelona e menina quer visitá-lo. Mas o avião que ela tomaria cai, e então ela entra em uma longa reflexão sobre o significado da vida e da morte. Tudo isso sob uma trilha eletrônica excelente e lindas imagens psicodélicas da capital francesa. Faz algum sentido? Não muito. É bonito? Ô se é.

Depois me aventurei pelo badalado "Velvet Buzzsaw". O diretor Dan Gilroy reúne os atores de seu aplaudido "O Abutre", Jake Gylenhaal e Rene Russo (sua mulher na vida real), e ainda junta Toni Colette e John Malkovich no elenco - além da inglesa Zawe Ashton, que está se tornando figurinha fácil em tudo quanto é filme. A história é digna de um terror de quinta categoria: as obras de um pintor que morreu sem alcançar a fama são mal-assombradas, e matam qualquer um que chegar perto delas. As cenas de sanguinolência parecem ridículas de propósito, com braços decepados e muita gritaria. Era para ser uma sátira ao mercado da arte? No final é só uma bobagem luxuosa, que diverte mas não instrui.

O espanhol "Árvore de Sangue" se pretende muito mais denso, e quase consegue. O diretor Julio Medem já assinou trabalhos importantes como "Os Amantes do Círculo Polar" e "Lucía e o Sexo". Dessa vez ele se arrisca em uma rocambolesca saga familiar que tem espaço até para a máfia da antiga república soviética da Geórgia. Mas a fotografia é belíssima e o elenco traz dois atores que se tornaram conhecidos por aqui graças à enxurrada de séries não-anglófonas dos últimos tempos: a espanhola Úrsula Cerberó, a Tokyo de "A Casa de Papel", e o guapo canastrão argentino Joaquín Furriel, de "O Jardim de Bronze". Não é uma obra-prima, mas ainda é melhor do que ser roubado no bloquinho.

terça-feira, 5 de março de 2019

PONTO PARA O DEMÔNIO

É sabido que os evanjas precisam inventar inimigos para mobilizar as hordas que os sustentam. As guei são alvos preferenciais, mas volta e meia surgem imbecilidades feito a "cristofobia" aventada pelo pio Eduardo Cunha uns anos atrás. Hoje saiu a notícia de que a bancada evangélica quer processar por "intolerância religiosa" a escola de samba paulistana Gaviões da Fiel por causa da comissão de frente, em que Jesus Cristo lutava contra o demônio - e este parecia levar a melhor. Veja bem: não havia referência a religião alguma, e o embate entre Deus e o diabo é comum a todas as centenas de divisão do Cristianismo. Não se xingou nenhum líder, não se expôs nenhum fiel ao ridículo. Mas os evanjas radicais necessitam da guerra perpétua, e vão para a Justiça contra a escola. Duvido que dê em alguma coisa, mas este round marca mais uma pequena vitória do demo. Aliás, quem há de negar que o Cão tem ganhado todas ultimamente?

É FÁCEL ESPALHAR FAKE NEWS

O Bozo é muito, mas muito pior do que um mero despreparado. É uma pessoinha desprezível, com a envergadura de um chefe de gangue de ladrões de galinha. Mordido com os gritos de "vai tomar no cu" que tomaram os blocos de norte a sul do país, Solnorabo resolveu contra-atacar com essa marchinha mentirosa, que difama Caetano Veloso e Daniela Mercury. Os dois artistas, que lançaram "Probido o Carnaval" para protestar contra a Damares, voltam a ser alvo de calúnias. Nunca nenhum dos dois dependeu da Rouanet (que, by the way, gasta menos do que a metade do que é gasto com as pensões para as filhas solteiras dos militares). Mas faz parte  da estratégia da extrema-direita demonizar os artistas.  Acossado por denúncias de laranjas e milícias, o clã Boçalnaro se defende espalhando fake news, aliás como sempre. Eles precisam realmente ficar espertos, porque quem votou neles só por causa do antipetismo já está percebendo a cagada que fez. Vão cair "facelmente", como o Bozo tuitou ontem.

segunda-feira, 4 de março de 2019

LEGAL PACARAIMA

Difícil interpretar o que está acontecendo na Venezuela. Juan Guaidó não só não foi preso ao desembarcar no aeroporto de Maiquetía como ainda protagonizou um comício-monstro no centro de Caracas - e SUBIU NUM ANDAIME, como se vê na foto acima. Como que nenhum franco-atirador a soldo de Nicolás Maduro não derrubou o autoproclamado presidente inter.ino? O ditador deve estar com medo da reação internacional. Mas isto quer dizer que o regime está periclitando?

DROGA LEVE


A única coisa que ergue "Querido Menino" acima da mediocridade é Timothée Chalamet, e olha que eu não digo isto só porque estou apaixonado pela criatura mais linda que Deus pôs na Terra. Mas são a beleza e o talento de Timmy que fazem com que este filme, um bem-intencionado relato da luta de um pai para salvar o filho das drogas, não seja imediatamente esquecido. Não que "Querido Menino" seja ruim. Os atores estão bem e o roteiro não tem furos, embora jamais explique por que o protagonista se afundou na crystal meth. Pena que o diretor belga Felix Van Groeningen, que me fez chorar feito um bebê de colo em "Alabama Monroe", desta vez não tenha me suscitado nenhuma emoção mais forte do que checar as horas. Ainda acho que Timothée merecia ter sido indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante, no lugar de Sam Elliott ou Sam Rockwell. Só espero que este trabalho marromeno não sirva de porta de entrada para ele rodar filmes realmente ruins, desses que fazem mal à saúde.

domingo, 3 de março de 2019

VOU ESCANGALHAR O TELEMÓVEL

Já começam a surgir as concorrentes do Eurovision, que acontece daqui a dois meses em Israel. A Itália vai mandar "Soldi", a vencedora do Festival de Sanremo, cantada por um filho de imigrantes árabes chamado Mahmood. Portugal definiu ontem, na Festival da Canção, sua candidata: o vira futurista "Telemóveis", com o indefinível Conan Osiris. Como o público do Eurobichion gosta dessas viadagens, acho que até dá para passar para a segunda fase - o que é raro para os tugas.

sábado, 2 de março de 2019

ENROSCADOS NAS REDES

A familícia Boçalnaro teve uma ascensão meteórica gracas às redes sociais. Sem papas na língua nem apreço às regras gramaticais, o Bozo e sua prole numérica conquistaram um grande número de seguidores fanáticos, alguns ainda mais cretinos do que eles. A onda se avolumou depois da facada, que gerou compaixão em gente que não estava nem aí para o clã, e se juntou a uma vaga ainda mais poderosa, a do antipetismo. O resultado foi a vitória nas eleições. Mas os jovens Solnorabo ainda não perceberam que o Brasil não se transformou em uma ditadura hereditária, e continuam se comportando com a desfaçatez de Uday e Qusay Hussein, os filhos de Saddam (que a gente sabe como acabaram). Entenderam menos ainda que agora tudo o que eles postam nas redes sociais têm um alcance muito maior do que antes. Não estão falando só com o fã-clube: o país inteiro está de olho neles, e nem sempre pronto para aplaudir. O 03 deu uma derrapada gostosa ontem. Achou que iria agradar suas macacas de auditório com um tuíte tripudiando do sofrimento de Lula, que perdeu um neto de sete anos de idade. A reação negativa foi imensa, vinda até de quem votou no pai dele, e hoje o pau-pequeno teve que se explicar. Explicou mal, é claro: disse que Lula não merece tratamento diferenciado, esquecendo-se que o comparecimento ao funeral de parentes próximos é um direito de todos os presos. Como os Bostonazi não aceitam palpites de gente de fora da curriola (vide o caso Ilona Szabó), não há um único assessor que possa dizer para eles maneirarem. Portanto, vai ser engraçado vê-los se enforcando com a própria corda. As mesmas redes sociais que ergueram a familícia irão derrubá-la, e este processo já está em andamento.

sexta-feira, 1 de março de 2019

PRONTA PARA O CLOSE-UP

Justiça poética: apenas alguns dias depois de perder o Oscar pela sétima vez, Glenn Close viu confirmado seu maior projeto. "Sunset Boulevard", o musical de Andrew Lloyd Weber que lhe rendeu um prêmio Tony e um enorme sucesso na Broadway, finalmente vai virar filme. Close repetirá na tela o papel de Norma Desmond, a diva do cinema mudo que sonha com uma volta triunfal. As filmagens começam em outubro, o que sinaliza um lançamento no final do ano que vem. Será que, em 2021, Glenn Close será indicada ao Oscar pela oitava vez? Será que... ganha? Para isto o filme vai ter que ser bom, e eu tenho as minhas dúvidas. O diretor será o coreógrafo Rob Ashford, que nunca fez cinema na vida (mas é para isto que existem os assistentes). Ainda falta anunciar o resto do elenco: Hugh Jackman? Ewan McGregor? Jake Gylenhaal? Eu adoraria ver Olivia Colman no papel de uma criada... Mas o que realmente importa é que La Close, com o perdão do trocadilho óbivo, está mais do que pronta para seu close-up.

BALANÇA MAS NÃO CAI


El Capitán é uma formação rochosa com mais de 900 metros de altura. Fica no Parque Nacional de Yosemite, na Califórnia, e uma de suas faces é um paredão desafiador até para alpinistas experimentados. Imagine, então, escalar esse troço usando apenas a força das mãos e dos pés, sem cordas nem nenhum equipamento de segurança. Basta um errinho bobo para a morte certa. Mas Alex Honnold é doido o suficiente para tentar. Ele também é o assunto de "Free Solo", que ganhou o Oscar de melhor documentário e estreia no canal Nat Geo no dia 9 de fevereiro. O filme revela um pouco da personalidade de Alex: uma criança tímida que se tornou um rapaz que vive sozinho em um trailer, com uma certa dificuldade em manter namoradas (ele prefere arriscar a vida do que agradar às moças). O falecido pai de Alex era portador da Síndrome de Asperger, dentro do espectro do autismo; eu não me espantaria se o filho fosse diagnosticado com algum distúrbio que o impede de ter empatia ou uma correta avaliação dos riscos. Ele continua brincando com a sorte, mesmo depois que alguns de seus colegas se esborracham, e insiste em conquistar El Capitán no mano a mano. Para tanto, ele escala a rocha diversas vezes da maneira tradicional, com cordas, aprendendo onde fica cada reentrância e cada saliência. Isto permite que ele identifique o trajeto menos perigoso, por onde dá início à empreitada, em uma manhã clara de verão. As quatro horas de escalada são resumidas em poucos minutos, mas suficientes para fazer alguém que morre de medo de altura (tipo eu) tapar os olhos com as mãos. Foi um sofrimento acompanhar esta sequência final, mesmo sabendo que Alex seria bem-sucedido. Mas convém não se apegar muito: o cara pretende continuar na prática. Portanto, não será surpresa a notícia de sua morte nos próximos anos. "Free Solo" trata de uma personalidade muito menos importante do que a juíza Ruth Bader Ginsburg, retratada em "RBG". Mas suas imagens de tirar o fôlego, captadas por drones ou cameramen pendurados no vazio, fazem algo a mais do que o outro favorito ao Oscar: avançam o cinema.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

MORO DE MEDO

"Não se nomeia ministro a quem não se possa demitir". Muito se repetiu esta frase quando o Bozo indicou Sergio Moro para o ministério da Justiça, no final do ano passado. Falou-se até que o ex-juiz teria carta branca para fazer o que bem quisesse. Mas a estatura de Moro começou a diminuir assim que ele aceitou o cargo: afinal, ao longo da Lava-Jato, ele disse algumas vezes que não estava interessado em se bandear para a política. O algoz de Lula encolheu ainda mais quando passou a conviver numa boa com o laranjal do PSL e os vínculos do clã Boçalnaro com as milícias do Rio de Janeiro. Ontem ele pareceu recuperar a hombridade ao convidar Ilona Szabó para o Conselho de Seguranca Criminal e Penitenciária. Mas a minionzada chiou, e hoje Moro abriu as pernas. Desconvidou uma das maiores especialistas em segurança pública do Brasil e ainda admitiu que foi por causa da "repercussão negativa" nas redes sociais. Acuma? Então trata-se mesmo de um bundão movido a likes? Ou então levou um pito do chefe, este sim um macaco que só faz o que a plateia gosta. O ex-super-herói morreu de medo de perder a sinecura: não pode mais voltar a ser juiz. Também nunca mais será o paladino que enganou tanta gente.

O DOMO DA DISCÓRDIA


De todas as maluquices que pastam soltas na internet, nenhuma me parece mais bizarra do que o terraplanismo. Até entendo como uma pessoa que tem as primeiras letras consegue acreditar no criacionismo, ser contra as vacinas ou mesmo votar no Bozo. Mas refutar milênios de evidências em troca de uma crença que não traz benefício algum - só a sensação de ser mais esperto que o sistema - é de uma estupidez infinita. Só que os fiéis da Terra Plana estão se multiplicando, ao sabor da onda de boçalidade e anti-intelectualismo que varre o mundo. Eles se apoiam no conceito de liberdade de opinião, mas opinião é gostar de macarrão com arroz. Eu sempre achei que essa galera precisava ser exposta ao ridículo, mas o documentário "A Terra É Plana", disponível na Netflix, me fez mudar de ideia. Os cientistas entrevistados dizem que é preciso não alienar ainda mais os birutas, que eles encaram como mentes inquisidoras, e sim trazê-los para a luz. O filme também mostra alguns dos líderes do movimento, como o carismático Mark Sargent: um cinquentão que ainda mora cm a mami e só usa boné, bermudas e camisetas que o identificam como um dos sumo-sacerdotes da seita que prega que o mundo é chato feito uma panqueca e o sol e a lua, apenas dois lustres pendendo de um domo. Não há uma única pessoa séria entre os terraplanistas. São todos meio marginais, querendo compensar a falta de estudo e de sucesso pessoal com uma teoria da conspiração com cinco mil anos de idade. Eles ainda não oferecem perigo imediato como os antivaxx, que já vêm causando mortes por onde se instalam. Mas podem causar um estrago considerável a médio prazo, com sua ignorância e arrogância.Vamos tratá-los com carinho, mas sem validar suas ideias abiloladas.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

UM GOVERNO NA ILONA

Um dos poucos prazeres que nos restam é ver a minionzada passando vergonha nas redes sociais. Ontem tinha minion defendendo que se filmasse as crianças cantando hino nas escolas, mesmo depois do burraldo do Vélez ter pedido perdão pela cartinha estúpida que enviou na véspera. Hoje é a vez deles atacarem Ilona Szabó, uma das cabeças mais racionais deste país, só porque ela foi nomeada SUPLENTE para o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, um órgão meramente consultivo. Sergio Moro revelou que ainda não é um caso perdido ao escolher a cientista política para o cargo, mas consegirá ele reagir à pressão dos imbecis? Ilona de fato fez campanha contra o Bozo e é meio surpreendente que ela aceite um cargo no atual governo, ainda que sem real poder. Eu também votei contra, mas acho que sua presença pode trazer um pouco de sanidade a este debate - que, de resto, pode trazer consequências terríveis para a população.

FREDDIE & GRACE

Todo mundo sabe que Rami Malek não foi o primeiro nome cogitado para encarnar Freddie Mercury no cinema. Johnny Depp, Sacha Baron-Cohen e Ben Whishaw chegaram a ser anunciados para o papel que acabou rendendo um Oscar ao ator de "Mr. Robot". O que eu sequer desconfiava é que Eric McCormack, o Will de "Will & Grace", quase chegou a intrerpretar o cantor do Queen em um filme que seria produzido pela banda e por Elton John, muitos anos atrás. Nunca tinha pensado nisso, mas Eric é de fato meio parecido com o finado Farroukh Bulsara. Inconformado, ele de vez em quando ainda se caracteriza como Freddie Mercury para entreter a plateia das gravações de sua sitcom, e até já fez uma aparição rapsódica em um episódio do ano passado. Teria convencido em "Bohemian Rhapsody"? Ou somebody better put you back into your place?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

RIR PARA NÃO CHORAR


Ontem à noite eu mediei o debate após a exibição do filme "Tá Rindo de Quê?" promovida pela Folha de S. Paulo. O documentário é dirigido pelo Cláudio Manoel do Casseta & Planeta e pelos meus chapas Alê Braga e Álvaro Campos, e traça um painel do humor brasileiro durante os anos da ditadura militar. Mas não só do humor engajado: fala-se muito do "Pasquim" e da censura, claro, mas também dos programas de TV de Jô Soares, Chico Anysio, Renato Aragão e Carlos Alberto da Nóbrega, e até do Asdrúbal Trouxe o Trombone, o grupo de teatro que revelou, entre outros, Regina Casé e Luís Fernando Guimarães. O filme cumpre várias funções: resgata imagens e piadas que estavam meio esquecidas, explica o contexto da época e nos encoraja a resistir à onda de boçalidade que varre o Brasil e o mundo. "Tá Rindo de Quê?" entra em cartaz nesta quinta, e em maio chega a segunda parte - "Rindo à Toa", sobre o humor brasileiro do anos 90. Um tercerio episódio, sobre o politicamente correto, está em produção.

PÁTRIA DESEDUCADORA

Cantei o Hino Nacional durante toda a minha adolescência. Uma vez por semana (ou por mês, não me lembro mais), minha classe descia ao pátio do colégio para o hasteamento da bandeira. Não era chato, muito pelo contrário: desse jeito não tínhamos aula! Também cursei as matérias de Educação Moral e Cívica e Organização Sócio-Política Brasileira (a famigerada OSPB, que, para ser sincero, eu acho bastante útil). Éramos ensinados que a Revolução de 1964 havia salvo o país do comunismo e a festejar o dia 31 de março. Nada disso impediu que eu me transformasse nessa bicha louca, feminista, pró-liberação das drogas e abortista. Por isto, RIO ALTO quando vejo que a minionzada acha que o "respeito aos símbolos nacionais" irá produzir uma geração inteira tão cretina quanto eles. Mas nada contra cantar o hino: faz parte da nossa história, e saber história nunca foi tão importante. Mas a cartinha do pseudo-ministro Rocardo Vélez enviada a escolas de todo o país vai muito além da mera patriotada. Como é que esse sujeito não tem um assessor jurídico, um departamento do Vai-Dar-Merda? Ninguém para avisar a ele que não se pode pedir para os colégios filmarem seus alunos, muito menos enviar essas imagens para o governo? Vélez não faz a puta ideia do que seja a nossa constituição ou de como funciona o governo. Hoje ele já se retraiu, pediu desculpas e alegou que tudo não passou de um enorme mal-entendido. Quem entendeu mal foram os brasileiros que votaram nessa corja, pois era meio óbvio que o nível era baixíssimo. O Bozo tem que perceber que esses ministros folclóricos agradam a uma nesga da população, e são capazes de produzir danos reais. Agora verão quem é que não foge à luta.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

O OSCAR? BAO BAO

Consegui ver todos os cinco curtas de animação indicados ao Oscar. Não tem segredo nenhum: estão todos no YouTube, é só procurar pelo nome. Até o premiado "Bao" está lá, o único que passou pelos cinemas brasileiros (como complemento de "Os Incríveis 2"). Foi uma vitória merecida, pois tudo em "Bao" é superior à concorrência, do visual ao roteiro. Mas todos os finalistas são bons.
"Animal Behaviour" é o mais longo dos cinco e também o único que não celebra a passagem de um momento para o outro da vida. O filme tem um humor sarcástico, para adultos, e faz lembrar que nem toda animação precisa ser fofa.
"Late Afternoon" vem da Irlanda e é o mais simples de todos. Seu estilo visual é antiquado - poderia ter sido feito nos anos 60 - mas isto faz parte de seu charme.
Fofura é o que não falta em "One Small Step", o mais infantil e sentimental entre os cinco concorrentes. Apesar do nome exótico, o Studio Taiko é britânico.
"Weekends" também tem uma história com que muitas crianças contemporâneas se identificam. O protagonista é um garoto que passa os finais de semana com o pai divorciado. Mas o ponto de vista é o de um adulto relembrando sua infância.

FOMOS ROUBADOS

Não consigo descrever minha indignação. Esta era para ser a noite de Glenn, o ano de Glenn, a consagração definitiva. Mas a ingrata da Academia achou que não: eu quase caí da cadeira quando o nome de Olivia Colman foi anunciado. Nada contra a atriz COADJUVANTE de "A Favorita", e ela mesma lamentou ter derrotado Glenn Close. Saí da Folha putaço, onde fui participar do live blog do Oscar, e miha fúria se esparramou pela minha coluna de hoje no F5. Glenn não merecia ser humilhada desse jeito. Você me paga, sua Academia duma figa.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

EU NÃO VOU DAR, EU VOU DISTRIBUIR

Os Oscars desta noite podem dividir muitas águas. A possível vitória de "Roma" como melhor filme superaria dois obstáculos importantes: seria o primeiro longa em língua estrangeira e o primeiro da Netflix a levar o prêmio principal. Aliás, a Academia tem feito um esforço considerável para se tornar menos americana e mais internacional. Convidou artistas e técnicos do mundo inteiro para se tornarem membros (no ano passado foram oito brasileiros, incluindo Carlinhos Brown) e categorias como documentário ou animação já cobrem o planeta inteiro. Além do mais, três dos indicados ao troféu de melhor fotografia deste ano vêm de filmes estrangeiros (Alemanha, México e Polônia). Claro que ainda falta mais representatividade nas categorias de atuação, mas a tendência é aumentar a presença de gringos. Outra curiosidade é a presença de três blockbusters entre os oito concorrentes a melhor filme: "Pantera Negra", "Bohemian Rhapsody" e "Nasce Uma Estrela". Só isto já bastou para soterrar a categoria "filme popular", uma ideia que foi levantada. Resta ver como a cerimônia irá se desenrolar sem um apresentador fixo e tanto drama nos bastidores. Mas nothing really matters, porque o Queen é quem vai abrir o show!

Seguem minhas profecias:

MELHOR FILME
Vai ganhar: "Roma". Tem gente falando em "Green Book" ou até mesmo "Bohemian Rhapsody", mas os precursores apontam para mais essa vitória.
Mas eu daria para...: "Roma" mesmo. Até gostei mais da segunda vez!

MELHOR DIRETOR
Vai ganhar: Alfonso Cuarón, "Roma". Quinta vez que o troféu vai para um mexicano em seis anos (dois desses mexicanos repetiram).
Mas eu daria para...: olha, eu não ia achar ruim se Spike Lee vencesse. Nem acho "Infiltrado na Klan" tão maravilhoso assim, mas a importância de Lee para o cinema americano merece um Oscar. E que outro diretor negro merecia mais ser o primeiro a vencer?

MELHOR ATOR
Vai ganhar: Rami Malek, "Bohemian Rhapsody", para o horror dos puristas. Dizem que, na verdade, a Academia estará premiando Freddie Mercury. Pergunta se eu acho isso ruim.
Mas eu daria para...: Malek, mesmo. Eu sou queenófilo desde os 14 anos de idade e me espantei como ele captou até o OLHAR do meu ídolo de adolescência. Dito isso, Bradley Cooper (que nunca ganhou) e Christian Bale (que venceu uma vez, como coadjuvante) também mereciam muito.

MELHOR ATRIZ
Vai ganhar: Glenn Close. Chegamos a um ponto que não é ela quem vai ganhar o Oscar, é o Oscar que vai ganhar Glenn Close. A Academia não precisa de mais injustiças históricas, como Richard Burton ou Peter O'Toole terem sido indicados trocentas vezes e nunca vencido um Oscar competitivo (O'Toole ganhou um honorário). Glenn é uma atriz de primeira grandeza e todos já sabem que lhe falta um Oscar.
Mas eu daria para...: dããã. Glenn Close é minha atriz favorita há mais de 30 anos. Eu torceria por ela se a outra indicada fosse a Virgem Maria. "Ãin, e a Olivia Colman?" Fantástica. Fabulosa. Jovem. Pode esperar mais um pouco. Fora que a rainha Anne é COADJUVANTE em "A Favorita" (a protagonista é a personagem da Emma Stone). Olivia teria papado o Oscar dessa categoria, mas a inscreveram como atriz principal para torná-la mais famosa. Conseguiram, next.

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Vai ganhar: Mahershala Ali, infelizmente. Nada contra, mas não tem porque ele vencer de novo, apenas dois anos depois da primeira vitória. Fora que seu personagem é protagonista, não coadjuvante. Ainda tenho esperança de que o prêmio vá para...
Mas eu daria para...:Richard E. Grant, perfeito em "Você Poderia Me Perdoar?" e jamais indicado antes, apesar da longa e ilustre carreira. Ontem ele ganhou o Independent Spirit. Oremos.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Vai ganhar: Regina King, apesar de nem ter sido indicada ao SAG Award. E apesar de "Se a Rua Beale Falasse" ser um filme bem marromeno e ela estar apenas OK.
Mas eu daria para...:Amy Adams, a próxima Glenn Close - esta já é sua sexta indicação.
 
MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Roma". Uma das barbadas da noite.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"A Favorita", no que periga ser seu único prêmio.
 
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Infiltrado na Klan". A chance da Academia de dar alguma coisa para o Spike Lee.

MELHOR FOTOGRAFIA
Três filmes estrangeiros e dois em preto-e-branco competem. Vai dar "Roma", cuja fotografia foi feita pelo próprio Alfonso Cuarón.

MELHOR MONTAGEM
"Bohemian Rhapsody"! Revi no avião, gostei menos que da primeira vez, mas a edição é mesmo primorosa. E salvou o que poderia ser uma colcha de retalhos, feita por dois diretores diferentes.

MELHOR DESENHO DE PRODUÇÃO
Páreo duríssimo. Sabia que aquelas ruas mexicanas da década de 70 em "Roma" são cenários? Pois é. Mas são mais impressionantes que a Wakanda de "Pantera Negra"? Vou de "Pantera", sem muita fé.

MELHOR FIGURINO
Outra batalha imprevisível: "A Favorita", que usa tecidos modernos para reinterpretar o século 18, ou o afrofuturismo de "Pantera Negra"? Politicamente, "Pantera" tem vantagem, então vou nela.

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO
"Vice". Mas dizem que a do filme sueco "Border" é de cair o queixo. Ele seria o favorito aqui, se estivesse concorrendo em outras categorias.

MELHOR TRILHA ORIGINAL
Ninguém desponta como fortíssimo. Na dúvida, vou de "Pantera Negra" outra vez.

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
A outra barbada da noite: "Shallow", de "Nasce uma Estrela".

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"O Primeiro Homem". Acho justo.

MELHOR MIXAGEM DE SOM
"Bohemian Rhapsody". Ou seja, mais um prêmio para as músicas do Queen.

MELHORES EFEITOS VISUAIS
No últimos anos, o prêmio dessa categoria recheada de blockbusters foi para o indicado de MENOR bilheteria. Por esta regra, o vencedor será "O Primeiro Homem".

MELHOR LONGA EM ANIMAÇÃO
Chola, Pixar: desta vez quem leva é "Homem-Aranha no Aranha-verso".

MELHOR CURTA EM ANIMAÇÃO
Comemola, Pixar: seu "Bao" leva este para casa.

MELHOR CURTA COM ATORES
O favorito - e também o mais polêmico - é "Detainment", inspirado no caso real dos dois garotos ingleses de 12 anos que mataram um outro de dois, só pelo prazer. A mãe da vítima quer tirar o filme de circulação. Como a Academia não curte uma censura, pode dar o prêmio só de pirraça.

MELHOR DOCUMENTÁRIO DE LONGA-METRAGEM
"Free Solo" vinha sendo apontado como o favorito, mas "RBG" (que eu vi no avião e adorei) despontou nas últimas horas. Vai, Ruthm vai!

MELHOR DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM
Estão falando muito em "Absorvendo o Tabu", que pode ser visto na Netflix. 

Hoje à noite, a partir de 20h30, vou estar no live-blogging da Folha comentando em tempo real o tapete vermelho, a cerimônia em si e as premiacões do Oscar. Entre na home da Folha, que de lá te redirecionam.

SEQUESTRO NÃO-RELÂMPAGO


Já vi cinco filmes do iraniano Asghar Farhadi e só gostei para valer de um: "O Passado", que ele rodou na França, mas com personagens oriundos de seu país. Seu último longa, "Todos Já Sabem", foi feito na Espanha, em parte porque há situações que jamais poderiam acontecer no Irã. Uma mulher (Penélope Cruz, melhor do que nunca em todos os sentidos) vem com seus três filhos da Argentina para seu pueblo, para o casamento da irmã. Reencontra o ex-namorado (Javier Bardem, que parece mais gordo a cada cena), mas tudo de boas: ambos estão casados e felizes com outras pessoas. A festa é uma delícia, filmada daquele jeito que dá vontade de entrar nela, mas termina mal. A filha mais velha da mulher desaparece, e logo aparecem mensagens pedindo um resgate de 300 mil euros. Aí, o ritmo despenca e o espectador é obrigado a participar da agonia da família, em que o tempo para e o desespero só aumenta. A chegada de Ricardo Darín como o marido argentino na segunda metade do filme dá uma reanimada, e então surge o tal do segredo que todo mundo meio que já sabia. É nisto que mora o defeito do roteiro de Farhadi: ele pensou em uma situação de fora para dentro, sem desenvovler direito os personagens, e a revelação do mistério não abala nenhuma estrutura. "Todos Já Sabem" abriu o festival de Cannes do ano passado e chegou a ser cotado para representar a Espanha neste Oscar, mas também recebeu um brumadinho de críticas negativas. Não é horrível, tem momentos bem interessantes, mas fica bem aquém do que se esperava de um diretor que já faturou um Urso de Ouro e dois Oscars.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

I LOVE YOUR FUNNY FACE

Hoje morreu Stanley Donen, diretor do mais aclamado musical de todos os tempos - "Cantando na Chuva". Também é dele o filme de que eu mais gosto na vida, "Funny Face", traduzido no Brasil como "Cinderela em Paris". Vi pela primeira vez numa Sessão da Tarde antes de conhecer Paris pessoalmente, e vi pela segunda num cinema lá mesmo, aos prantos. Depois perdi a conta, porque comprei em VHS e também em DVD. É a perfeição em celulóide: tem tiradas finíssimas no roteiro, locações deslumbrantes, Fred Astaire, canções de George e Ira Gershwin, Audrey Hepbrun, figurinos de Givenchy. A sequência acima culmina com a Vitória de Samotrácia no Louvre, a imagem mais icônica do filme. Deu vontade de rever tudo. E criar coragem para fazer uma versão gay da história.

O CHICO E O OSCAR


Documentários de curta-metragem são uma relíquia do tempo em que não existia a televisão. Eles eram exibidos nos cinemas, junto com desenhos animados, curtas de ficção, episódios de seriados e um ou dois longas, em programas que podiam durar mais de quatro horas. A Academia de Hollywood reconhece há décadas a importância do gênero para a formação de novos cineastas, e dedica um Oscar para a categoria. Mas, até pouco tempo atrás, os "short docs" passavam batido até para quem mora nos Estados Unidos. Isto vem mudando: com a fragmentação dos canais de comunicação, agora eles podem ser vistos na TV paga ou no streaming. É o caso do favorito deste ano, que está disponível na Netflix. "Absorvendo o Tabu" foi financiado por uma ONG que quer facilitar o acesso das mulheres do mundo inteiro aos absorventes femininos, e decidiu produzir o filme justamente em um país onde a menstruação é um assunto proibido: a Índia. Quem já visitou um templo hindu certamente se espantou com o aviso na porta que proíbe a entrada de mulheres "impuras". A desinformação é generalizada entre os indianos, e muita gente - mulheres, inclusive - acha que o "chico" é uma espécie de doença a ser combatida. Para piorar, as marcas ocidentais de tampões e similares são muito caras para a maioria da população. A solução são essas máquinas semi-caseiras, muito usadas no Brasil para fabricar fraldas descartáveis. Em apenas 25 minutos - menos do que o tempo de arte de um "Globo Repórter" - o filme conta uma história de superação e empoderamento que vai na direção oposta à maré obscurantista que nos aflige. Apesar do tom chapa-branca, vale a pena ver "Absorvendo o Tabu". Até para quem nunca menstruou.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

MADURANDO LA GUERRA

Ia ser engraçado - e também trágico, é claro - se em menos de dois meses da presidência do Bozo o Brasil entrasse em seu primeiro conflito armado na América do Sul desde a Guerra do Paraguai. Tem maluco no governo doido para entrar em combate (ou melhor, mandar outros brasileiros entrarem), mas parece que nenhum deles é militar. Até já começou a correr sangue na nossa fronteira norte, mas eu duvido muito que essas escaramuças escalem para algo maior. Já a tão temida guerra civil venezuelana parece uma possibilidade mais concreta a cada hora que passa. Estou assistindo pela TV ao Venezuela Aid Live no momento em que escrevo este post, e me chama a atenção que o logo do show traga um mapa do país que inclui a região de Essequibo, aqueles dois terços da Guiana que a Venezuela diz serem dela. Ou seja: não vai faltar motivo para todo mundo sair dando tiro por aí.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O SUICÍDIO DE UMA CARREIRA

Custo a acreditar nessa história do Jussie Smollett. Como que ele achou que a notoriedade rendida por um suposto ataque racista e homofóbico iria lhe aumentar o salário? Como que ele achou que ninguém iria descobrir a farsa? Agora que a máscara caiu, Smollett de fato se tornou uma vítima. Morreu numa grana para pagar a fiança, destruiu a própria carreira e ainda periga ir em cana. Mas o estrago causado pelo babaca vai bem além de si próprio. Daqui em diante, qualquer pessoa que realmente for atacada vai ser posta em dúvida, porque a homofobia não existe e somos todos mimizentos e pipipi popopó. Num momento delicado como o atual, o ex-integrante do elenco de "Empire" deu uma baita munição aos nossos inimigos. Tenho vontade de eu mesmo pegar um tchako e dar na cara desse cretino.

YOU CAN'T SPELL TRUTH WITHOUT RUTH


Ruth Bader Ginsburg, a segunda mulher a se tornar juíza da Suprema Corte dos Estados Unidos, é uma lenda viva. Uma heroína com mais de meio século de luta pelos direitos da mulher (incluindo a legalização do aborto) e pautas progressistas em geral. Como ela está com quase 86 anos de idade e a saúde cada vez mais frágil, já estão surgindo filmes em sua homenagem. Um deles, "Suprema", estreia no Brasil no dia 14 de março e é uma dramatização, com Felicity Jones no papel da magistrada. O outro não tem previsão de chegar aqui: o documentário "RBG", indicado a dois Oscars, que eu vi no avião que me trouxe de volta da Inglaterra. Em pouco mais de uma hora e meia, as diretoras Julie Cohen e Betsy West traçam um retrato convincente da tímida moça judia que se tornou uma advogada vitoriosa nos anos 70, o que a cacifou para o mais alto tribunal do país. Ruth teve a sorte de se casar com um homem compreensivo, que sempre a incentivou na carreira - e isto em um tempo em que lugar de mulher era na cozinha. Também foi abençoada com muita determinação, ótimo senso de humor e uma grandeza de espírito capaz de torná-la amiga de seu maior adversário na Corte, o abominável Antonin Scalia (que o demônio o tenha - eu não possuo essa grandeza). Nos últimos anos, The Notorious RBG - uma brincadeira com a alcunha do rapper B.I.G. - tornou-se uma figura pop, inspirando camisetas, tatuagens e paródias no "Saturday Night Live". E também uma espécie de Mother of Dragons da vida real, mais do que necessária nesse tempos boçais por que estamos atravessando.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

MACUMBA PSICOLÓGICA

O Brasil foi vítima de um feitiço. As declarações machistas, racistas e homofóbicas de um deputado do baixo claro atraíram a atenção da mídia, que o transformou em presença constante nos Superpops da vida. Tais barbaridades horrorizaram boa parte do país, mas encantaram a outra. Quando o deputado se candidatou à presidência, a imprensa tentou confrontá-lo quanto a essas opiniões – o que só aumentou sua popularidade. Quando se percebeu que o flanco por onde o celerado deveria ser atacado – seu despreparo – já era tarde. Um providencial atentado à faca o retirou dos debates e entrevistas, e o converteu em mártir para muita gente. O cara acabou eleito com quase 60 milhões de votos.

Um pouco antes do segundo turno, eu soltei um post aqui no blog lamentando a pequenez da alma do Bozo. Um sujeito infantil, pirracento, ressentido, sem um quarto da envergadura exigida para o cargo máximo da nação. Agora, aos 50 dias de seu (des)governo, fica claro que até eu estava sofrendo de miopia. Boçalnaro é muito, mas muito pior do que a encomenda. Não tem a menor habilidade e está cercado por sacripantas. Seus filhos são péssimos e pelo menos quatro de seus ministros – Damares, Vélez, Araújo, Salles – estão abaixo de qualquer critério.

A demissão em câmera lenta de Gustavo Bebbiano foi um show de incompetência. O Bozo mentiu, foi desmentido, fez picuinha e perdeu a confiança de uma parcela significativa de seu próprio partido. A mais do que necessária reforma da Previdência corre risco. Sea economia não melhorar até o fim do ano, vai se começar a procurar um motivo qualquer para o impeachment, igualzinho ao que aconteceu com a Dilma. Mas já tem quem fale em impeachment "branco", como o Reinaldo Azevedo. O Bozo continuaria na cadeira, mas os adultos do governo assumiriam o real poder. Só isto para quebrar a macumba psicológica a que o país foi submetido. Todos juntos: I'm dreaming of a white impeachment...