quarta-feira, 18 de setembro de 2019

WEVEWEVEWEVEWEVEWERTON

As redes sociais serviram para radicalizar o mundo e nos dividir ainda mais. Mas também funcionam como câmera de vigilância:  não fosse por elas, aposto que este infame projeto de reforma eleitoral teria sido aprovado pelo Congresso sem maiores problemas. Mas os senadores sentiram a pressão, e agora não querem mais permitir que candidatos paguem seus advogados com dinheiro público. Resta uma dúvida: por que o Ciro Gomes foi tão agressivo contra a deputada Tabata Amaral durante a tramitação da reforma da Previdência, mas não deu nem um puxão de orelhas no inacreditável senador maranhense Weverton Rocha, seu correligionário no PDT?

terça-feira, 17 de setembro de 2019

ARREGÕES VÃO ARREGAR

A viagem a Nova York já foi adiada em um dia. Biroliro tem feito a frágil diante das câmeras de TV. E a deputada Carla Zambelli lançou uma campanha para que ele desista de abrir a Assembleia-Geral da ONU, no próximo dia 24. Ou seja, o plano está se desenrolando conforme o previsto. Dessa forma, o Bozo escapa de um vexame, e o Brasil também. E eu colho as glórias de ter previsto que ele iria arregar. Mas não sou só eu: até os bebês já sabiam disso.

C.S.I. DO BANHEIRÃO

Quase todas as gueis bem relacionadas do Rio e São Paulo receberam por WhatsApp um vídeo supostamente gravado no banheiro da The Week. É uma suruba sem camisinha, e os rostos dos felizardos não aparecem. Foi o que bastou para desencadear uma cruzada moralista nas redes sociais, com bichas puras e superiores criticando o comportamento libertino de suas irmãs. Algumas, com a cabeça ainda na década de 1980, pregam contra a disseminação do HIV, como se não existissem o PrEP ou os tratamentos que tornam o vírus indetectável (ou seja, intransmissível). Hoje me mandaram um vídeo onde um dos rapazes do banheirão é identificado por causa da tatuagem que tem no peito. Descobriram seu nome e até seu perfil no Instagram, como se fosse um perigoso bandido que precisa ser eliminado. Por que não gravam vídeos dos batedores de carteira que atuam nas boates? Não dá para reclamar de Crivellas ou Malafaias quando temos inimigos desse calibre no meio de nós.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

MEU NETINHO TERRORISTA


Não sei se fiquei mais exigente ou só chato mesmo, mas "Adeus à Noite" é o terceiro filme seguido que eu vejo cuja premissa é melhor do que a realização. A oitava parceria entre Catherine Deneuve e o diretor André Techiné ainda sofre de um certo atraso: fala da luta de uma avó para impedir que seu neto se junte ao Estado Islâmico, que já foi quase eliminado da face do planeta. A primeira hora é meio arrastada, e a agitação que vem depois não chega a tornar o filme realmente bom. Mas há Deneuve, como uma fazendeira: de cabelos escuros, com o glamour no mínimo (a zero ela não consegue), mas ainda e sempre Deneuve.

ETERNAMENTE EM BERÇO ESPLÊNDIDO

A direita gosta de espalhar que o atual clima de confronto na sociedade brasileira nada mais é do que uma reação natural aos anos de domínio do PT. É verdade que foi Lula quem deu o pontapé inicial no "nós contra eles", mas, tirando uns puxões de cabelo na Yoani Sánchez, a esquerda jamais partiu para as vias de fato contra seus críticos. Nunca houve antes um caso de escritor que não foi a um evento por causa de ameaças, como aconteceu há alguns meses com a Miriam Leitão (e olha que os petistas jamais gostaram dela). Hoje foi a vez do Felipe Neto cancelar sua participação no Educação 360. O vlogueiro até avisou que já tirou sua mãe do país. Claro que os minions vão dizer que tem treta aí, como dizem até hoje do Jean Wyllys (e não é uma graça eles não acreditarem que o ex-deputado vai dar aula em Harvard?). O que está acontecendo no Brasil é gravíssimo e é um indício óbvio de uma escalada fascista. E aí, vamos continuar dormindo até quando?

domingo, 15 de setembro de 2019

PERDIDO NA TRADUÇÃO


Só me animei a ver "O Tradutor" agora, depois que ele foi escolhido para representar Cuba no próximo Oscar. Depois de uma passagem discreta pelos cinemas, o filme está no Telecine Play, e vê-lo em casa talvez seja menos frustrante do que na telona. Porque não é grande coisa, apesar da boa premissa: no final da década de 1980, um professor de russo de Havana é deslocado para um hospital, onde servirá de intérprete entre os funcionários e os pequenos pacientes soviéticos, vítimas do desastre de Chernobyl. Rodrigo Santoro está fantástico como o protagonista, falando um espanhol com sotaque cubano quase perfeito e um russo que soa convincente (não sei avaliar). Também é surpreendente o alto padrão de vida do personagem, que mora numa casa ampla e confortável e faz compras com cupons em um supermercado repleto de artigos importados. O nível cai de repente, junto com o Muro de Berlim, levando Cuba a um buraco fundo de onde não saiu até hoje. O interesse pela trama também despenca: não há propriamente uma curva dramática, e os probleminhas que vão surgindo não justificariam um filme. Mas os letreiros finais esclarecem que os diretores são filhos do tradutor. Só eles mesmos para acharem que a vida do pai é uma epopeia cinematográfica.

sábado, 14 de setembro de 2019

ALGO DE PODRE NO REINO


A Dinamarca ainda não escolheu seu representante no próximo Oscar, mas periga ser "Rainha de Copas". O filme vem ganhando prêmios em festivais e tem um ótimo argumento: uma mulher de meia idade tem um caso com seu enteado adolescente, filho do primeiro casamento do marido, só porque ela pode e quer. Para piorar, ela é uma advogada esepcializada em abuso de menores. Infelizmente, roteiro e direção não estão à mesma altura. A história se arrasta ao longo da primeira hora, e só começa a ficar mais animada depois que Tryne Dyrholm - uma das atrizes mais desinibidas do mundo - cai de boca no que deve ser uma prótese. A personagem é de uma podridão só, capaz de qualquer coisa para se proteger. Merecia um filme melhor.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

SESSÃO DE TERAPIA

O repórter João Paulo Saconi, da revista Época, fez cinco sessões de coaching à distância com a terapeuta Heloísa Wolf, a sra. 03. O resultado foi esta matéria aqui, que só traz uma revelação surpreendente: na intimidade, o casal não é tão homofóbico como aparenta. Saconi se declarou gay e Heloísa não tentou "curá-lo", apesar de ter feito campanha pela chapa de Rozangela Alves no Conselho Federal de Psicologia. De resto, a moça se mostrou simpática e até um pouco indiscreta, dando detalhes do sogro. Terminado o tratamento de R$ 1.350,00, o jornalista avisou que iria publicar a reportagem, e Heloísa preferiu não acrescentar nada. Hoje Biroliro e o 03 estão fazendo escarcéu nas redes sociais, acusando Saconi de "se passar por gay" (ele é mesmo) e gritando que "a conversa deveria ficar entre os dois, por questão de ética". Quem não pode contar nada é o analista, não o analisando. E Saconi, na verdade, fez um test-drive nos serviços da bolsonora, coisa comum na imprensa mundial. O coaching que ela oferece é de uma bobagem estupefaciente, mas é bem-intencionado. Bem piores são as fake news espalhadas por sua nova família.

APESAR DE VOCÊ AMANHÃ HÁ DE SER

Não passaram nem 24 horas do "adiamento" de "Marighella", e eis que já temos um novo caso de censura. A embaixada brasileira no Uruguai, uma das patrocinadoras Cine Fest Brasil que acontece em outubro em Montevidéu, "pediu" que o filme "Chico: Um Artista Brasileiro" não fosse exibido na mostra. A nota do Ancelmo Góis n'O Globo não traz nenhuma razão para isto, mas fica patente a estupidez da nossa Chancelaria. Se tivessem deixado quieto, o documentário passaria por lá e quase ninguém ficaria sabendo. Agora temos uma notícia para agradar ao minguante gado bolsominion e estarrecer os demais brasileiros. Fora que os uruguaios, o povo mais liberal e educado da América Latina, devem estar se coçando para ver o filme proibido. Como há tempos que ele já existe em DVD (é de 2015), não duvido nada que um cineclube ou mesmo um bar promova uma sessão. Quem vai proibir quando o galo insistir em cantar?

ATUALIZAÇÃO: O Uruguai deu mais uma prova de que é um dos países mais bacanas do mundo. A produtora Inffinito, responsável pelo  Cine Fest Brasil, deu uma solene banana para a embaixada brasileira e avisou que VAI incluir "Chico" na programação do festival. Também vai perder o patrocínio, é claro, mas a liberdade tem seu preço. Que esta desobediência nos contamine.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

É CENSURA QUE CHAMA

A estreia de "Marighella" nos cinemas brasileiros estava prevista para abril passado. Com receio da euforia ainda reinante entre a minionzada pelo começo do governo do Despreparado, produtores e distribuidor preferiram esperar mais um pouco. Remarcaram a estreia para 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Aí começaram a surgir notícias de que a Ancine estava regulando um repasse de um milhão de reais para o lançamento e outras burocracias mil. Hoje, a estreia de "Marighella" foi mais uma vez cancelada. Ou adiada para abril de 2020, como explica a Cristina Padiglione nesta matéria em seu blog Telepadi. Tomara que esse imbroglio se resolva logo, porque eu estou doidinho para ver o filme - inclusive porque meu marido está nele. Mas, enquanto essa estreia não acontecer, estamos diante de um caso de censura. Ainda disfarçada, traiçoeira, olhando de soslaio. Mas não me venham com justificativas: essa joça tem cheiro de censura, cara de censura, gosto de censura. Então olha a censura aí, gente!

O ARMÁRIO DE VIDRO OPACO

É ótimo que famosos como Paulo Gustavo e Carlinhos Maia sejam assumidamente gays. Mas é péssimo que os dois tenham se recusado a beijar os próprios noivos quando se casaram, em festas fartamente cobertas pela imprensa. Paulo Gustavo tampouco incluiu um beijo na cena do casamento gay que estará em "Minha Mãe É Uma Peça 3", que deve estrear no fim do ano. Todos esses não-beijos se curvam a uma suposta lógica do mercado, que reza que os fãs desses comediantes assumidamente gays deixariam de sê-los se os vissem beijando outro homem. É a velha linha do "tudo bem você ser o que quiser, mas não na frente de todo mundo". Um armário moderno, de porta de vidro opaco, que só sugere o que tem dentro. E que vai na contramão da revolta da Bienal do Livro, mas combina com os móveis jecas com que o governo Bozo quer enfeiar o Brasil.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

A HÉRNIA PROVIDENCIAL

Biroliro não estava com dor nem nenhum problema sério por causa da hérnia que surgiu em seu abdômen. A cirurgia para retirá-la poderia ser realizada a qualquer momento, ou jogada para as calendas. Foi marcada para o mês em que começa a Assembleia Geral da ONU, tradicionalmente aberta pelo presidente do Brasil. Bozo diz que irá a Nova York mesmo em uma cadeira de rodas, mas o plot para que ele não "possa" viajar já está em andamento. Depois de dois dias de plena recuperação, hoje o Despreparado teve uma complicaçãozinha e divulgou esta foto aí ao lado, onde pelo menos seus dois ombros estão cobertos. Nos próximos dias, deve vai surgir um atestado médico proibindo-o de fazer qualquer coisa (já não faz mesmo), e ele será poupado do vexame no plenário da ONU, com embaixadores se retirando, imprensa internacional caindo de pau e manifestantes berrando do lado de fora.

A SÉRIO NA SÍRIA

Sacha Baron Cohen talvez seja o homem mais engraçado do mundo, e com certeza é o mais cara-de-pau. Comédias-reality como "Borat" e "Brüno" fizeram com que eu não consiga pensar nele sem ter vontade de rir. Mas esta ânsia amainou um pouco depois que eu vi "O Espião", minissérie em seis episódios que acaba de chegar na Netflix. Sacha faz seu primeiro grande papel dramático: Eli Cohen, o israelense que conseguiu se infiltrar na elite política e econômica da Síria no começo da década de 1960. Nascido no Egito e fluente em árabe, Cohen convencia tão bem como o comerciante Kamel Amin Thaabet que chegou ao posto de ministro da Defesa do arqui-inimigo de Israel. A história é real e eu já sabia como acabava quando comecei a assistir, o que não prejudicou em nada a tensão que a série transmite. Com ótima reconstituição de época, "O Espião" discute vaidade, amor à pátria e até que ponto um Estado pode exigir sacrifício de seus cidadãos. Também fará com que Sacha Baron Cohen seja levado a sério.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

MARKETING DO ÓDIO

Era uma vez uma pequena cervejaria do sul do Brasil. Sem dinheiro para uma grande campanha publicitária nem um diferencial forte para seu produto, seus donos resolveram apelar. Publicaram o banner ao lado em sua página no Facebook, na esperança de receber pedidos de todo o país. Os comentários negativos se acumularam, e os homofóbicos postaram que estão sendo vítimas da intolerância, ai que dó. Parece até que estamos na Polônia. Processo neles?

KIMFIM

Shippei aí no título os deputados federais Sâmia Bonfim (PSOL-SP) e Kim Kataguiri (DEM-SP), mas não fluiu. A conversa entre os dois deu mais certo: é o segundo episódio da série "Fura Bolha", do Quebrando o Tabu. Vai ser triste para os minions ver que eles se tratam com cortesia na vida real, e um alívio para os civilizados como nós perceber que nem tudo está perdido. Também é bacana ver que o fralda-marrom está aos poucos se tornando hominho, deixando para trás as molecagens que marcaram os primórdios do MBL. Tomara que seja para valer.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

NO MAMES, GÜEY


Para que a plateia torça por um protagonista bandido, ele precisa ser simpático, charmoso ou pelo menos ter um ótimo motivo para ser do mal. Cagalera, o pivete violento e covarde de "Chicuarotes", não é nada disso. Não dá nem para culpar o meio de onde ele vem: seu irmão gay e gorducho é pacato e quase um intelectual. Palmas para Gael García Bernal, que não quis sequer criar um anti-herói neste filme que dirigiu. "Chicuarotes" bebe da fonte de "Amores Perros", "Cidade de Deus" e outros tantos títulos que tratam da miséria e da marginalidade. O México que aparece na tela é horrendo. Masculinidade tóxica é elogio para os brutamontes que ditam o ritmo de uma pequena cidade na periferia da capital, e Cagalera será um deles no futuro. Cabe às mulheres mudar o curso da história, e tanto a mãe como a namorada do personagem o fazem. "Chicuarotes" não é propriamente agradável de se ver - mas propõe uma reflexão interessante, güey.

O PAÍS A FAVOR DE FELIPE

Ainda estou sob o impacto da atitude madura e progressista do Felipe Neto nesse auê da Bienal do Livro. Se eu não tivesse idade para ser pai dele, estaria apontando o youtuber aos marcianos que me pedissem "levem-nos ao seu líder". Mas claro que o rapaz não é unanimidade. O deputado federal Carlos Jordy (PSL-RJ) - o mesmo que, em março passado, tentou jogar em Felipe a culpa pelo massacre na escola de Suzano (!!!) - subiu no Twitter a hashtag #PaisContraFelipeNeto, só para vê-la explodir na sua mão feito a bomba do Riocentro. Os apoiadores do vlogueiro tomaram-na dos minions e bots, em mais uma vitória do Bem contra o Mal. Só que essa não é a única investida contra Felipe Neto: tem muito gado mugindo nas redes que ele "apresenta as crianças ao mundo dos travestis" e outros absurdos do gênero. O fato é que essas fake news só atingem quem já não gostava do cara, e pouco abalam seu enorme fã-clube. Mais triste é ler críticas de gente que nem é bolsominion, mas acusa Felipe de "querer se promover" e/ou de surfar na modinha LGBT, já que em priscas eras ele fez vídeos contrários aos direitos igualitários. Tem também os sommeliers do bolso alheio, que o criticam por não dar dinheiro às escolas carentes ou para reaparelhar a polícia, funções que cabem ao Estado. Aliás, fica a dica: quando você se deparar com esse tipo de "whataboutism", fuja em desabalada carreira. É a pessoa que o faz que tem todos os defeitos que quer denunciar nos outros.

domingo, 8 de setembro de 2019

STONEWALL IN RIO

Bem-feito pro Bozo. Planejou um 7 de Setembro onde ele seria a grande estrela. Chamou Silvio Santos, Edir Macedo e o Véio da Havan para coadjuvantes, desfilou no chão tentando sugar um pouco da popularidade de Sergio Moro, regeu os Dragões da Independência. E foi ofuscado pela molecada na Bienal do Livro, que fez passeata e gritaria contra a censura de Marcelo Crivella, e por um líder inesperado: Felipe Neto. Hoje finalmente o STF deixou claro que ninguém pode recolher livro nenhum, mas a Prefeitura do Rio ainda fez jogo de cena dizendo que vai entrar com recurso. Eles mesmos sabem que não vai dar em nada, mas o objetivo sempre foi apenas impressionar os trogloditas que querem que a homofobia seja política do Estado. Crivella não tem nada a apresentar em sua campanha de reeleição, então apela para o que há de mais baixo na humanidade. Doria, que foi pelo mesmo caminho, agora diz que não precisa pegar tão pesado assim. Pesado pegaremos nós: com a liberdade de expressão não se brinca, muito menos com a cidadania plena. Homofobia é crime e casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal. Se a sua religião acha feio, problema dela. Ontem rolou um Stonewall na Bienal do Livro, e foi só um aperitivo. Outros virão.

sábado, 7 de setembro de 2019

UM PREFEITO DE QUINTA

Naquela quinta-feira, Marcello Crivella acordou super bem-disposto. O prefeito do Rio de Janeiro se sentia ainda mais cheio de energia e amor do que de costume, e com uma vontade avassaladora de fazer algo especial pela cidade. Mas por onde começar? Qual problema urgente mereceria mais a sua atenção?

Um assessor lembrou da saúde pública, e Crivella pediu a seu motorista para tocar para um hospital municipal. "Vou dar uma incerta, chegar sem avisar", pensou, com um toque de malícia. Logo depois, se arrependeu. "Isto não é muito cristão de minha parte".

O prédio havia sido reformado recentemente e luzia de novo. O brilho do chão chegava a incomodar. No saguão amplo e arejado, algumas poucas pessoas iam de lá para cá, sem pressa nem aflição.

O alcaide foi até a recepção e pediu para falar com o diretor. "A diretora", corrigiu a recepcionista, portadora da síndrome de Down. Em seguida apareceu a dra. Cleusa, negra, lésbica, gorda a umbandista. Crivella conteve a supresa e perguntou: "Algum problema, senhora diretora? Em que podemos lhe ajudar?" 

Cleusa suspirou. "De fato, estamos com um probleminha", admitiu ela. "Há vagas sobrando. Minha equipe está ociosa. O pior é que o hospital estadual do bairro vizinho também está, e eles vêm até aqui para roubar os meus pacientes. Chegam a oferecer dinheiro para o pessoal se internar lá. Só ontem perdi dois!"

Crivella sorriu desanimado, disse que não podia fazer nada e despediu-se. Do hospital, rumou para uma comunidade carente. Quem sabe, lá ele conseguiria dar vazão aos ímpetos benfazejos que formigavam por todo seu corpo?

Qual o quê. Ruas asfaltadas e arborizadas, crianças na escola, comércio funcionando. Nada de esgoto a céu aberto. Nem uma única bala perdida. Uma monotonia só. "Maçada!", resmungou o prefeito, com cuidado para ninguém ouvir.

Na saída, ainda teve que se desvencilhar do pessoal de uma escola de samba, que o homenageou com o samba-enredo do ano que vem. Convidaram-no a desfilar. "Não sei se consigo, oito escolas já me chamaram", riu, sem graça. 

Disfarçando a irritação, Crivella entrou no carro oficial e pediu sugestões ao seu staff. Um colégio? Todos a plena vapor, atraindo alunos da rede particular. Uma delegacia? Quase todas viraram balcões de informações para turistas. Uma praia? Limpas, seguras, uma chatice. Fora que está nublado, não rende foto boa.

Começou a bater o desespero. Com mais de um ano de mandato pela frente, Marcelo Crivella se aterrorizou com o tédio que se aproximava a passos largos. Quer dizer, então, que não havia mais nada que ele pudesse fazer pelos cariocas? Nenhuma questão a ser resolvida? Como preencher tanto tempo? 

Foi aí que seu celular soltou aquele "ping" característico de mensagem entrando. Sem muita esperança, Crivela desbloqueou a tela do aparelho e entrou primeiro no aplicativo, depois no grupo. Então seus olhinhos se iluminaram. Bem à sua frente, descortinou-se aos poucos uma ilustração. Dois rapazes se beijando.

INFLUENCIADOR PARA VALER


Como qualquer pessoa acima dos 30 anos e com mais de dois neurônios na cabeça, eu achava o Felipe Neto um babaca até meados do ano passado. Não que eu prestasse muita atenção nos seus vídeos, mas o pouco que eu vi me bastou para arquivá-lo no meu almoxarifado mental. Aí, depois que o Bozo foi eleito, Felipe se revelou não só um rapaz dotado de senso crítico e inteligência, como um autêntico líder. Um influenciador que vai além do digital. Haja vista a ação que ele promove hoje na Bienal do Livro do Rio de Janeiro: a distribuição gratuita de 14 mil livros de temática LGBT. O que va ter de adolescente lendo essas páginas e se dando conta de que não é pecado ser gay, lésbica ou trans me enche o coraçãozinho de esperança. São reações épicas como esta que vão fazer oportunistas feito Doria ou Crivella perceberem que estão apelando para uma faixa ínfima do eleitorado. Enquanto estivermos vivos e com gente como Felipe Neto do nosso lado, esses retrocessos no pasarán.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

ALL MY TROUBLES SEEMED SO FAR AWAY


Toda a graça de "Yesterday" está no trailer. O roteiro não sabe o que fazer da ótima premissa: como seria um mundo onde quase ninguém se lembrasse dos Beatles? Jack Malik lembra e, graças a isso, passa de cantor de barzinho a superstar global em apenas um mês. Legal, né, mas e daí? Só os conflitos mais óbvios: a namorada de anos acha que está sendo esnobada, e Jack se sente culpado por estar mentindo. Não ajuda muito o ator Dimesh Patel não ser bonito, carismático ou mesmo um grande intérprete. Ele não teria cadeiras viradas no "The Voice", porque não passa do nível de... cantor de barzinho. Mas o filme traz várias piadas inteligentes, uma simpática participação de Ed Sheeran e um momento realmente tocante, que eu não posso dizer o que é. Pairando sobre tudo, a glória da música dos Beatles. Isso não é pouco, só que não é cinema.
Sabe o que é melhor do que "Yesterday"? "Tiozão", o vídeo produzido pelo Porta dos Fundos para promover o filme. Um exemplo de branded content bem feito.

LACRADO E RECOLHIDO

Quase todo político diz coisas que ele sabe serem inviáveis, só para agradar seu eleitorado mais fiel. Mas o prefake Marcelo Crivella foi longe demais, porque não demorou para quebrar a cara. O suposto bispo gravou um vídeo avisando que ia mandar a Bienal do Livro recolher "Vingadores - A Cruzada das Crianças", uma graphic novel da Marvel onde aparecem dois caras se beijando, "para proteger nossas crianças". O que chegou na Bienal foi uma notificação extrajudicial pedindo para que o tal gibi fosse embalado. E a Bienal respondeu que hahaha ocê num manda inheu. Não vai recolher nem embalar porra nenhuma, e Crivella teve a boquinha lacrada e foi recolhido à sua insignificância.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

ARAS BOLAS

Augusto Aras é uma escolha lamentável para a PGR. Mas esta indicação do Biroliro tem um lado positivo: deixa claro para a minonzada que o mito deles não está nem aí para a Lava-Jato ou qualquer forma de combate à corrupção. O que o Despreparado quer mesmo é blindar a si mesmo e à sua família contra qualquer investigação bisbilhoteira, que revele das rachadinhas aos laços com as milícias. O Bozo, no fundo, não tem nada de ideológico, muito menos de patriota. Tudo o que ele almeja é se dar bem. Quem lê jornal já sabia disso, mas que bom que essa notícia finalmente chegou ao gado.

PERDÓN, SEÑORA

Este é o novo normal: agora, toda semana, os brasileiros de bom senso e boa educação temos que pedir desculpas a alguma figura estrangeira pelas grosserias do Despreparado. Depois da madame Macron, o alvo da vez foi Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile e atual Comissária de Direitos Humanos da ONU. Nicolás Maduro também reagiu quando ela apontou os muitos abusos cometidos na Venezuela. Mas o Bozo conseguiu ser pior do que o ditador: tripudiou que o pai de Bachelet foi morto pelo regime de Pinochet. É de uma baixaria sem limites e indigna até dos brasileiros que votaram nesse estrupício. Pelo menos foi lindo ver Sebastián Piñera e outros nomes da direita do Chile cirticarem Biroliro, mostrando que conservadorismo e boçalidade não são necessariamente a mesma coisa. No mais, como diz minha amiga Mariliz Pereira Jorge: fala mais, Bostonaro. Porque, a cada barbardidade proferida, sua popularidade desaba mais um pouquinho.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

PACHÁ E CAUXI

O Cauxi está de volta. Depois de morar conosco entre 2012 e 2013, o gato amazonense da minha enteada voltou a São Paulo. Junto com ele chegou o Pachá, um siamês nascido em Brasília. Habituado a viajar e a trocar de estado, Cauxi foi despachado e desembarcou como se nada. Explorou a casa e está à vontade. Já o Pachá encarou um avião pela primeira vez. Veio na cabine junto com meu marido e se escondeu embaixo de um móvel assim que saiu da bolsa. Só agora que anoiteceu é que ele se aventurou a conhecer o apartamento. Os dois vão estranhar muito: até a manhã de hoje, moravam em uma casa nos arredores de Cavalcante, na Chapada dos Veadeiros. Agora vivem na região da av. Paulista. Só sairão daqui quando minha enteada, que está de mudança com a família para Lisboa, puder recebê-los por lá. Nesse momento, seria trabalheira demais. Já bastam duas crianças. Melhor para mim, que voltei a ter a casa cheia de bichos.

PRETINHO BÁSICO

Sábado é dia de usar preto pelo Brasil. Biroliro convocou o gado a vestir verde e amarelo "em defesa da Amazônia", o que não faz sentido: todo mundo sabe que foi ele quem deu o aval para grileiros e madeireiros tacarem fogo na mata. Portanto, vamos sair de luto pela pátria chamuscada. Mas também porque preto emagrece e cai bem, e a elegância é um insulto para aqueles que não a tem.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

FURACÃO DORIA

Não votei em João Doria para prefeito. Não votei em João Doria para governador. Mas talvez tenha que votar nele para presidente, se o outro candidato disputando o segundo turno de 2022 for o Biroliro. Doria está se movimentando para capturar o voto dos minions arrependidos, tentando se mostrar como um moderado e até encampando as pautas medievais desse eleitorado. Hoje ele mandou recolher um livro escolar que, supostamente, defende a ideologia de gênero, uma quimera da direita que não existe na vida real. Era um material para adolescentes, sem ilustrações e com definições claras de termos como "cisgênero". Doria não é um brucutu como o Bozo e sabe que não é a ausência de um livro que vai impedir que surjam gays e transexuais. Mas dá provas de cinismo e falta de escrúpulo ao destilar homofobia, ainda que de forma sutil. É um furacão no pior sentido da palavra: um desastre de categoria 5, capaz de destruir o que estiver no caminho para alcançar seu objetivo.

BORSCHT SEM CARNE


Não sei o que aconteceu, mas os filmes franceses estão chegando mais depressa no Brasil. Antes só vinham os premiados e as grandes bilheterias, muitas vezes com um ano de atraso. Agora eles entram em cartaz por aqui meros dois meses depois de estrear em Paris, e podem não ser grande coisa. É o caso de "Minha Lua de Mel Polonesa". O trailer acima vende uma comédia: um casal de judeus franceses - ela religiosa, ele nem tanto - vai passar uns dias em Cracóvia, na Polônia, gerando confusão e gargalhadas. O filme em si é bem mais sério: a moça procura traços da avó, que nasceu na Polônia, e está mais interessada em uma homenagem às vítimas do Holocausto do que em fazer turismo. Acontece que, como em outros filmes de temática judaica, não se fornece uma chave emocional para os goyim entrarem na história. Para mim o resultado ficou bem aquém do esperado, como a sopa borscht sem pedaços de carne que irrita a protagonista em um restaurante típico.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

BAIXO AUGUSTO

Augusto Nunes nem vai lembrar, mas ele foi muito gentil comigo nas duas vezes em que eu participei do "Roda Viva", na época em que ele comandava o programa. Me recebeu muito bem, me deu dicas preciosas e, durante a transmissão, fazia gestos discretos avisando que eu seria o próximo a falar. Não me alinho politicamente com ele, mas é bom para a democracia que nem todos pensem igual. Só que agora Augusto Nunes foi longe demais. Em um comentário na rádio Jovem Pan, o jornalista sugeriu que os filhos de Glenn Greenwald e David Miranda deviam ser encaminhados para o Juizado de Menores, já que os dois pais trabalham fora e, portanto, não têm tempo de cuidar das crianças. É isso mesmo que você leu. Como é que ficam, então, os bilhões de casais héteros que têm filhos mas também trabalham fora? Nunes não teria feito esse comentário asqueroso se Greenwald fosse de direita, ou heterossexual. Mas fez, e transmitiu homofobia, partidarismo e canalhice em poucas palavras. Concordo com o Gilberto Dimmenstein do Catraca Livre, no vídeo aí em cima: perdi o respeito por Augusto Nunes. E respeito é como virgindade. Perdeu, está perdido para sempre.

SHIPPAR É NORMAL

Precisou que a Fernanda Young morresse para eu criar vergonha na cara e terminar de ver a primeira (e, provavelmente, única) temporada de "Shippados", disponível desde junho na Globoplay. A série é mesmo ótima. Tatá Werneck está incrível como a séria-quase-chata Rita. A sacada dos namorados que vivem pelados é genial (palmas para a desinibição de Clarice Falcão e Luís Lobianco). E onde estava Rafael Quiroga nesses anos todos, que só agora eu percebi sua existência? Só que "Shippados" não é, como eu cheguei a imaginar, uma versão 2.0 de "Os Normais". Aquele primeiro grande sucesso de Fernanda e seu marido, Alexandre Machado, falava do cotidiano dos eternamente noivos Rui e Vani, juntos há muito tempo. Já "Shippados" mostra um casal em vias de se apaixonar: as surpresas, as inseguranças, as pequenas decepções, o amor que acaba florescendo. Não é curioso? Fernanda e Alexandre assinaram juntos sua primeira sitcom quando já conviviam há oito anos, e claro que havia muito deles em Vani e Rui. Mas sua última série fala da descoberta do amor, depois de quatro filhos e mais de 25 anos de uma história em comum. Que fecho mais lindo para o ciclo.

domingo, 1 de setembro de 2019

GUSTAVO BOLADO

Não duvido nada que os minions que interromperam o show de Gustavo Mendes em Teófilo Ottoni, na sexta passada, tenham se confundido. Compraram ingresso achando que iam ver o cara que faz a Dilma Bolada, Jeferson Monteiro - este sim um puxa-saco assalariado do governo petista. Gustavo também tem sua versão de Dilma Rousseff, mais crítica à ex-presidente, além de tirar sarro de Temer e Biroliro. Foi justamente quando fez piada com o Despreparado que o gado mugiu na plateia. Seguiu-se um bate-boca do comediante com parte do público, uma debandada e uma escolta da PM para garantir a segurança de Gustavo. Essas milícias do apupo estão se sentindo empoderadas, depois de impedirem a ida da Miriam Leitão a uma feira do livro em Santa Catarina ou buzinarem durante a palestra do Glenn Greenwald em Paraty. Mas não estão habituadas a uma resposta na lata como a de Gustavo no palco, nem com esse vídeo irado aí acima. É bom essa matilha jair se acostumando: bolados estamos quase todos.

sábado, 31 de agosto de 2019

A MALUCA DE DEUS

A igreja do Imaculado Coração de Maria lotou para a missa de sétimo dia de Fernanda Young. Famosos de diversas áreas, amigos de várias fases da vida e maluquetes em geral foram abraçar a família e rezar pela escritora. Tinha uma trans belíssima, um cara de vestido e outro de tiara de orelhinhas. Quase o coquetel de abertura de um vernissage punk em uma galeria alternativa. Mas era missa mesmo, celebrada por um padre moderno que ressaltou que Fernanda e o marido Alexandre ajudaram muito na restauração da igreja centenária, perto da casa deles. Pois é, galera: além de tudo, Fernanda Young era católica praticante. Uma maluca de Deus, e não há nada de contraditório nisso. Católico quer dizer universal; universal quer dizer para todo mundo. Mas há setores fortes no Vaticano que fingem não saber disso e pregam a exclusão. O discurso do padre sobre Fernanda me emocionou às lágrimas, e de repente eu me senti acolhido pela Igreja onde fui criado - e de onde saí por vontade própria, por não compactuar com o machismo e a homofobia explícitos. Mas na manhã de hoje, no Imaculado Coração de Maria, me deu vontade de fazer algo que eu não fazia há muito tempo: comungar. Comunguei. Comuniquei-me, como diz a raiz latina. Depois parentes e amigos deram depoimentos, e Rita Lee - grisalha, curvada, voz tênue - leu a letra de "O Hino dos Malucos", de Fernanda e Alexandre. Na saída, após beijos e abraços, ainda ganhei um saquinho de balas e outro com sal grosso e um líquido que eu ainda não descobri o que é. Manias de Fernanda. Também levei para casa uma rosa amarela e um poster com a imagem aí em cima - do outro tem o "Poema do Menino Jesus", lido na voz de Maria Bethânia em uma gravação que abriu os trabalhos. Saí mexido, surpreso com o meu catolicismo renitente. Fernanda Young me fez voltar a comungar. A maluca de Deus continua realizando milagres.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

FAZENDO O EGÍPCIO

Otávio Frias Filho escreveu "Tutankáton" em 1990, entre a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética. Ele mesmo dizia que a peça não era para ser montada, mas declamada; por alguma razão misteriosa, só agora, um ano depois de sua morte, é que o texto ganha vida no palco. A montagem de Mika Lins é austera e rigorosa, ao mesmo tempo em que amacia uma possível aridez. Figurinos e caracterizações são espetaculares, evocando o antigo Egito do jeito mais minimalista, e a música pontual também é impactante. O elenco negro foi uma escolha acertada em todos os sentidos: político, estético, artístico, com destaque para o veterano Augusto Pompeo. A única branca é Bete Coelho, amiga pessoal de Otávio, que faz uma impressionante vidente cega. E, com o passar dos anos, "Tutankáton" adquiriu novos significados. Para quem não lembra: o jovem faraó que hoje chamamos de Tutancâmon foi possivelmente morto por um complô palaciano, que queria substituir a nova religião monoteísta (o deus único era Áton, o disco solar) pelos velhos deuses de antes. OFF escreveu pensando na erosão do sonho da esquerda, abalada com o fim da utopia socialista. Mas, no Brasil de 2019, os sacerdotes do antigo culto parecem o entorno do Biroliro, que quer fazer o país retroceder 50 anos. "Tutankáton" é das grandes peças do ano e precisa ser vista. Pena que ficou só quatro semanas em cartaz: a última récita é neste domingo.

O ACUSADO

O movimento #MeToo conseguiu quebrar a impunidade que protegia abusadores contumazes como Harvey Weinstein e David Cosby. Mas, como toda revolução, também exagerou na dose. É preciso uma boa dose de histeria, por exemplo, para achar que Aziz Ansari estuprou uma moça que só no dia seguinte revelou que não estava a fim - e pela internet, não na frente dele. Woody Allen, então, ao meu ver é um injustiçado: não acredito em uma só palavra de Dylan Farrow, a filha de Mia de quem ele supostamente abusou quando ela era criança. Em uma zona mais cinzenta está Roman Polanski. O diretor polonês voltou a ficar em evidência com "Era Uma Vez... em Hollywood", que trata do assassinato de sua então mulher, Sharon Tate. E agora está no olho do furacão por causa de seu filme "J'Accuse", em competição no festival de Veneza. A presidente do júri, a argentina Lucrecia Martel, se recusou a comparecer à sessão de gala, mas acha OK que o longa concorra, "para abrir o diálogo". O próprio Polanski, hoje octagenário, nem se abalou de sua casa na Suíça, para não ter que lidar com a imprensa pentelha. Não deve aguentar mais perguntas sobre o que aconteceu em 1977, quando transou com uma menina de 14 anos, levada a uma festa em sua casa pela própria mãe. Para quem se horroriza com o caso, eu respondo: anos setenta, beee. Os tempos eram outros. A suposta vítima, hoje uma senhora, já disse que são águas passadas, mas Polanski continua impedido de pisar nos EUA e até a Academia ameaçou expulsá-lo (depois voltou atrás). Não vou cair na bobagem de dizer que o cara deve ser inocente porque seus filmes costumam ser ótimos. Mas também não vou deixar de ver "J'Accuse", que é sobre o infame caso Dreyfuss: o militar francês e judeu acusado injustamente de traição, no final do século 19. A história se repete?

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

CHURRASQUINHO GREGO

Quantos vídeos do surubão de Mykonos você viu? Eu já recebi quatro, mas o último - o mais nítido e explícito de todos - pode ter sido gravado em qualquer lugar. E quantos conhecidos ou ex-peguetes você já identificou? Tem muita guei online lívida com o que viu, como se esse povo fosse para a Grécia para comer moussaka. Também conheço quem já esteja economizando para viajar para lá no ano que vem. Acho uma baita sacanagem alguém entrar numa orgia dessas com celular na mão e sair gravando (não que os convivas pareçam se importar), e uma sacanagem maior ainda postar os filminhos no WhatsApp. Mas eu vi com prazer e curiosidade, e repassei para alguns amigos. Nessas horas, sou que nem o The Intercept: não fui eu quem hackeou, mas o conteúdo é de interesse público.

BATENDO NAS INSTITUIÇÕES

Os candidatos a tirano dos dias de hoje não dão golpes de estado nem põem tanques na rua. Primeiro eles são eleitos pelas regras democráticas, depois começam a golpear as instituições pelo lado de dentro, para aumentar o próprio poder. Foi o que aconteceu na Turquia, na Venezuela e na Hungria, países sem tradições liberais. Nos EUA, Trump faz o que pode, e é imitado por Biroliro aqui no Brasil - mas ambos encontram em si mesmos seus piores inimigos. Agora é a Itália, em eterna barafunda política, que se defende do ataque da extrema-direita de Matteo Salvini, e até o próprio Reino Unido, pátria da democracia constitucional, onde Boris Johnson levou apenas um mês para tirar a máscara. Mas lá parece que a porrada da suspensão do Parlamento não vai dar certo. O Financial Times, o Hugh Grant, a primeira-ministra da Escócia, a opsição e uma petição com mais de um milhão de assinaturas já exigem a queda de Johnson. É um sinal da saúde das instituições britânicas. Uma saúde tão robusta que, às vezes, funciona contra o país: são a insistência em aceitar o referendo de 2016 e a relutância em convocar um novo pleito que mantêm viva a ameaça do Brexit.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

O ESTADO SOU EU

"Patrimonialismo" não é uma palavra muito frequente no nosso vocabulário cotidiano. Mas quase todos os presidentes brasileiros foram patrimonialistas: agiram como se o Estado fosse propriedade privada deles. Quem lembra dos arbustos vermelhos no Palácio da Alvorada sob Lula, podados em formato de estrela? Esse abuso de autoridade foi redefinido com sucesso no desgoverno do Despreparado. O exemplo mais óbvio é a indicação do 03 para a embaixada nos EUA, digna de emirado árabe ou ditadura africana. Agora o Bozo condiciona a aceitação da ajuda monetária do G7 para combater as queimadas na Amazônia a um pedido de desculpas do Macron. Para começar, não foi só a França quem ofereceu esse dinheiro, e ele não é só para nós: seria repartido entre os nove países amazônicos. No entanto, mesmo que fosse um presente francês exclusivo para o Brasil, Biroliro não pode agir como se a grana fosse não para a preservação do meio ambiente, mas para o bolso dele. Ou vai ver que vai?

terça-feira, 27 de agosto de 2019

A ESCOLHA VISÍVEL

Meu chute da semana passada se mostrou correto. A Academia Brasileira de Cinema escolheu "A Vida Invisível" para representar o Brasil no próximo Oscar. O filme de Karim Aïnouz perdeu o "de Eurídice Gusmão" do título, o que vai facilitar seu marketing, e já tem muita coisa a favor. Como a distribuição da Amazon nos EUA, ou a presença de dois veteranos do Oscar: Fernanda Montenegro no elenco e Rodrigo Teixeira na produção. A disputa com "Bacurau" foi acirrada, cinco votos a quatro. Torçamos para que essa escolha seja tão certeira como meu chute.

MUSIC MAKE YOU LOSE CONTROL

Adoro uma cerimônia de premiação, mas faz muito tempo que eu não sento diante da TV para encarar um VMA. Prefiro catar as melhores apresentações no dia seguinte: afinal, foi para isto que Deus criou a internet. O show mais espetacular costuma ser o do ganhador do prêmio Video Vanguard, e ontem não foi diferente. Efeitos, cenários e figurinos elevaram a eterna feat. Missy Elliott à categoria de superstar, e olha que ela não emplaca um hit há uns 15 anos.
Outra preta gorda que se destacou foi a adorável Lizzo, minha crush do momento. Vozeirão, carisma e uma sensualidade totalmente à vontade dentro do corpanzil.
Mas a tônica da noite foi mesmo a infiltração da música latina no pop americano. Teve J Balvin, Camilla Cabello, CNCO e, pairando acima de todos, La Rosalía. La Rosalía. A espanhola está seguindo a cartilha da Anitta, lançando uma música por mês com algum convidado latinoamericano, e se dado melhor que a nossa conterrânea. Aliás, vou cobrar de novo: cadê o dueto das duas? La Rosalía.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

PARDON, MADAME

Brigitte Macron é uma mulher bonita e elegante. Também é apontada como a moldadora do caráter de seu ex-aluno Emmanuel. Os dois vivem uma história de amor ininteligível para um sujeito que troca de esposa quando elas começam a envelhecer, como se fossem integrantes do Menudo. A grosseria do Biroliro com a primeira-dama de um país amigo revela como é superficial sua noção de casamento. Gretchen já pediu perdão ao casal francês, e eu assino embaixo. Pardon, Madame Macron, em nome de todos os brasileiros civilizados. Nunca passamos tanta vergonha como agora.

ÍNDIOS MAFIOSOS


O começo de "Pássaros de Verão" é uma beleza. O filme que representou a Colômbia no último Oscar (e ficou entre os nove semifinalistas) abre com uma espécie de dança do acasalamento, em que uma moça da tribo dos wayuu escolhe seu futuro marido. Essa cultura tradicional logo será abalada por fenômeno contemporâneo: o tráfico de maconha, a que os índios aderem alegremente. O resultado é que alguns enriquecem rapidamente, erguendo mansões na paisagem árida do departamento de La Guajira, no extremo norte colombiano. Outra consequência é o aumento da violência. As mortes se espalham pelos clãs. Esse longa austero confirma o talento de Ciro Guerra, que concorreu ao Oscar com "O Abraço da Serpente" em 2016. E tem alguns pontos de contato com "Bacurau": o cenário de desolação, o tiroteio desenfreado, a crítica social. A diferença é que, aqui, não há mocinhos. Ao virar máfia, os wayuu se tornam seus próprios vilões.

domingo, 25 de agosto de 2019

FOREVER YOUNG

Duas semanas atrás, meu marido me chegou correndo com uma notícia chocante: morreu Fernanda Young! Era engano, claro. Quem havia morrido era uma amiga carioca do mesmo sobrenome. Logo saiu na imprensa que Fernanda ensaiava uma peça com estreia em setembro. E ontem mesmo estive com Renata, sua irmã, na festa de aniversário de um amigo comum. Hoje, o equívoco se tornou verdade. O Brasil acordou em choque: como assim? De asma?? Logo a Folha me pediu um texto comentando as séries escritas por Fernanda e seu marido Alexandre Machado, que pode ser lido aqui. Depois que mandei a matéria, lembrei de mais um monte de coisas que poderia ter dito: ela fez coisas demais em seus meros 49 anos, e ainda tinha tanto por fazer. Eu mesmo me arrependo de não ter tido mais contato com Fernanda. A gente se conhecia há décadas, mas nunca fomos próximos. Nos reencontramos há uns três anos no aniversário do mesmo amigo, ficamos de combinar coisas juntos e não combinamos. Eis aí uma dica para todo mundo: abrace quem você ama, telefone, aproveite enquanto ainda estamos aqui. A vida é um sopro e amanhã podemos não estar mais.

MESA POSTA

Não é só o conceito de feminismo que está errado no polêmico post de Rosângela Moro no Instagram. A mulher do futuro ex-ministro da Justiça disse "sorry, feministas" e que adora cuidar do marido, como se as duas coisas fossem incompatíveis. É bastante comum que a direita chucra ache que feminismo é o contrário de machismo. Como se não bastasse, a mesa está mal posta. Não se usa sous-plat com jogo americano. Não se coloca a colher sobre o prato. E o que dizer do colarzinho de pérolas? A cônje é cafona no úrtimo, e ainda se expõe desnecessariamente. Mas este é um aspecto positivo da internet: ela escancara uma janela para os fracos de espírito exibirem suas vaidades. Junto com elas, surgem também a ignorância e a falta de noção.

sábado, 24 de agosto de 2019

LOOKING LIKE RAGU

Ando prestando menos atenção ao pop americano até do que ao sertanejo brasileiro, que em geral eu abomino. Esgotou-se minha paciência para rappers genéricos e cantoras sensuais/iguais. Mas ontem eu topei com esse vídeo da Lizzo, de quem já tinha ouvido falar, e me lambuzei. "Juice" é um hino à autoestima com uma letra melequenta: tem até um verso que diz que a moça está parecendo um molho à bolonhesa (o ragu do título desse post) de tão apetitosa. Também ajuda a faixa ter um arranjo retrô, que lembra a aurora da minha vida.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

GLAUBER ON ACID


Existem alguns subgêneros exclusivos do cinema brasileiro: a chanchada, a pornochanchada, o favela movie e o filme de cangaço. Este último andava semi-esquecido desde a morte de Glauber Rocha, mas acaba de ressuscitar atirando. Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles fizeram em "Bacurau" o primeiro filme de cangaço do século 21, repleto de signos contemporâneos e passível de múltiplas interpretações. Dá até para ter uma visão bolsominion: os habitantes de Bacurau são cidadãos de bem que pegaram em arminhas para se defender das potências imperialistas. Mas claro que não é essa a intenção dos diretores, haja vista que a pré-estreia em que eu estava terminou com gritos de "fora Bolsonaro". Dornelles parece ter trazido leveza e humor para Mendonça, e limado tomadas desnecessárias como a do bebê trocando fralda em "Aquarius". Há sequências sublimemente decupadas em "Bacurau", alguns sustos e gargalhadas e uma Sonia Braga mais atriz e menos vaidosa do que nunca. Parece que um Glauber redivivo tomou LSD, ou cruzou com Tarantino. "Bacurau" é um estrondo.

VELHO TUDO DE NOVO

Está sendo lindo ver o Mijair convocar um gabinete de crise para lidar com o fogo na Amazônia, depois dele ter incitado os agros a queimar a mata e jogado a culpa nas ONGs. A reação internacional está até um pouco exagerada, mas que ótimo: o Despreparado está conhecendo na marra as consequências de fazer e dizer tanta merda. Mas nada é tão divertido quanto o partido Novo, o PSL que sabe a ordem dos talheres, correndo para se desvincular de Ricardo Salles. A agremiação não fez nada quando seu filiado, que não se elegeu deputado federal mesmo prometendo armar o campo, foi acusado de improbidade administrativa. Agora que Salles foi vaiado em um evento sobre mudanças no clima e até a Madonna partiu para cima do Borsalino, João Amoêdo soltou uma longa thread no Twitter dizendo que mal conhece o ministro do Fim do Meio Ambiente. É legal que o Novo não compactue com esse celerado, mas dá para acreditar que Amoêdo esteja sendo sincero? O partido já mostrou que é tão antigo quanto qualquer outro, nas ideias e nas práticas. Esse Novo nasceu velho.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

OMODÊUSO

Levei quatro longos meses para ler "Homo Deus", de Yuval Noah Harari. E isto porque o livro já estava lá em casa há quase um ano. E isto porque levei outros dois para comprar, pois me disseram que era "Sapiens' requentado. Não é: na verdade, é um exercício de futurologia fascinante e assustador ao mesmo tempo. Harari diz que o homem está em vias de se tornar um deus - não o Deus onipotente e onisciente das religiões monoteístas, mas uma espécie de deus grego, com poderes limitados e ainda sujeito a paixões. Também fala que somos todos algoritmos, e que o dataísmo - a supremacia do fluxo de dados sobre todo o resto - está emergindo como uma nova fé. É um ótimo livro, que eu demorei para ler porque minha vida está um tumulto e porque troquei o hábito de ler na cama antes de dormir pelo hábito de ficar zapeando o celular na cama antes de dormir. E que o Bozo nem veja a capa. Ele vai achar que estão chamando Jesus de gay.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

TRANS QUE PARECEM TRANS

Enquanto eu assistia ao desfile de modelos trans que encerrará o programa "Born to Fashion", comecei a julgar mentalmente as meninas que encaravam a passarela. "Essa aqui quase parece uma mulher cis, essa outra nem tanto, aquela lá nem a pau...". Aí eu me dei conta de que estava usando um parâmetro antiquado: aquele que diz que, para uma mulher transgênero ser "bem sucedida", ela precisa convencer - ou melhor, tapear - que nasceu com genitália feminina. Ora essa, se hoje eu concordo que ninguém precisa passar por cirurgia de redefinição sexual ou coisa que o valha para ser reconhecido como do gênero a que diz pertencer, por que ainda me prendo tanto às aparências? O mercado ainda prefere modelos trans que passem por mulheres biológicas, como a belíssima Valentina Sampaio. Mas beleza é só um dos quesitos desejáveis numa top model: também contam presença, atitude, desenvoltura. E isso, muitas trans que parecem trans têm de sobra. Não há nada de errado com o corpo de ninguém, portanto não há nada de errado com uma trans que estampe, no rosto e no jeito, aquilo que ela de fato é: uma pessoa mais corajosa que a maioria de nós.

A VERDADE EM CHAMAS

Em 1981, um capitão e um sargento do Exército brasileiro tentaram soltar uma bomba no meio do público que assistia a um show em comemoração do Dia do Trabalho. O objetivo era culpar a esquerda e melar o processo de redemocratização que engatinhava no Brasil de então. Só que o artefato explodiu antes do previsto, quando os dois milicos ainda estavam no carro, matando um deles. Biroliro vem do mesmo porão de quartel de onde saiu o atentado do Riocentro. Faz parte de sua mentalidade cometer um crime para jogar a culpa no que ele vê como adversário. Por isto, não surpreende nada que hoje ele tenha dito que são "as ONGs" quem estão por trás dos incêndios na Amazônia, dos maiores de todos os tempos. Bozo usa "ONG" como se fosse o sinônimo de alguma organização horrenda, tipo... hã... milícia? E acha que é plausível que uma entidade que luta pela preservação da floresta seja capaz de tacar fogo na mesma. A reação internacional a essa barbaridade vai ser enorme, como já está sendo aos próprios incêndios. E bomba armada por Mijair vai estourar em seu colo, como aconteceu com os celerados de há quase 40 anos.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

SE FOR, VÁ NA PAZ

Não é todo ano que que o Brasil tem um filme competitivo internacionalmente. A última vez foi em 2016, com "Aquarius" - que acabou preterido por "Pequeno Segredo" na corrida pelo Oscar. Mas, em 2019, temos dois fortíssimos candidatos: "Bacurau", de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, e "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão", de Karim Aïnouz. Salvo uma zebra das galáxias, um dos dois será escolhido para representar o Brasil na próxima premiação da Academia. A seu favor, "Bacurau" tem justamente a injustiça cometida três anos atrás - além, é claro, do Prêmio do Júri em Cannes, a mais alta honra alcançada pelo cinema nacional naquele festival em décadas. Mas, neste momento, eu apostaria em "Eurídice". Alguns sinais estão no ar. O filme foi comprado pela Amazon, que não costuma brincar em serviço e tem um bom currículo em campanhas por prêmios. Está entre os cinco favoritos do  Film Experience, meu site favorito de previsões para o Oscar. E "Bacurau" já foi selecionado para concorrer pelo Brasil nos prêmios Goya, da Espanha - uma consolação antecipada? O júri da Academia Brasileira de Cinema terá que ponderar as qualidades de cada filme com suas supostas chances. O resultado sai dia 27.

MISS WHITNEY

Um dos prazeres que nos restam nessa Idade das Trevas é ver os luminares da extrema-direita meterem os pés pelas mãos e depois dizerem que não é bem assim. O Biroliro faz isso quase todo dia: primeiro brada que quem manda é ele, depois afina o discurso quando a PF reclama. Hoje foi a vez de Wilson "Whtiney" Witzel - aquele que adora desfilar com uma faixa imaginária de governador, feito miss recém-coroada. Whitney saltou de um helicóptero na Ponte Rio-Niterói comemorando a morte de um bandido como quem celebra um gol. Depois, diante das câmeras, lembrou que finge que é cristão, e lamentou que o desequilibrado que sequestrou um ônibus na manhã de hoje tenha sido alvejado pela polícia. Tomara que ele ainda cometa muitas gafes até 2022 e inviabilize sua candidatura à presidência. da República

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

LA NUIT BRÉSILIENNE

Os meteorologistas ainda estão debatendo o quanto de fuligem das queimadas causou o efeito de "noite americana" - um truque cinematográfico que faz o dia escurecer e rendeu o título de um dos melhores filmes de François Truffaut - na tarde desta segunda em São Paulo. Para mim, a explicação é mais simples: começou oficialmente a Idade das Trevas, povoada de quimeras e crendices.

O PROTETOR-GERAL DA REPÚBLICA

Tenho um misto de dó e raiva de quem votou no Bozo achando que ele combateria a corrupção. Dó porque a intenção era boa. Raiva porque era só prestar atenção nos noticiários para saber, mesmo antes da eleição, que a família estava metida em falcatruas. Mas está ficando mais difícil enganar os trouxas: depois do nepotismo escancarado de indicar o 03 para a embaixada nos EUA, agora o Despreparado ameaça nomear para a Procuradoria-Geral da República um sujeito chamado Antônio Carlos Simões Soares, com pelo menos dois escândalos no currículo: este aqui e este outro. Adivinha como ele chegou lá? Foi por sugestão do advogado de defesa do 01. Ou seja: Biroliro sequer está interessado em implantar uma revolução conservadora ou qualquer coisa que o valha. Só quer mesmo proteger a prole e o próprio mandato, mais nada. Já se fala em rebelião no Ministério Público e também na PF, que vem sofrendo ingerências indevidas do presidente. A briga vai ser boa: os rolos do 01 são simplesmente o ponto fraco do clã, porque, se alguém puxar o fio da meada, vai dar em ligações até com a milícia que matou Marielle. Mijair deve ir pras cabeças, posto que está se mijando.

domingo, 18 de agosto de 2019

PILANTRAGEM RHAPSODY


Os dois filmes começam com o cantor biografado à beira de um ataque de nervos, prestes a entrar em cena. O show que se aproxima será crucial não só para sua carreira, mas para o resto de sua vida. Aí começa um longo flahsback, e o show em questão é retomado na sequência final. A diferença é que, ao contrário do que acontece com Freddie Mercury em "Bohemian Rhapsody", Wilson Simonal dá com os burros n'água: o espetáculo-surpresa com que tentou fazer um comeback em 1975 foi um tremendo fiasco, e sua reabilitação só começou depois de morto  25 anos depois. Isso faz de Simonal uma figura ainda mais trágica que o vocalista do Queen, mas "Simonal" não está à sua altura. Talvez por problemas de orçamento, a cinebiografia do ídolo que levantou multidões nos anos 1960 não dá conta da grandeza de sua popularidade, nem de sua queda livre. Simonal pediu para seus amigos do DOPS darem um susto em um contador que ele suspeitava estar lhe roubando; os meganhas exageraram e torturaram o sujeito, que pôs a boca no mundo. Isso bastou para que colar a pecha de delator a serviço da ditadura no intérprete de besteiras deliciosas como "Mamãe Passou Açúcar em Mim" e "Meu Limão, Meu Limoeiro". Se alguém quiser uma visão muito mais rica dessa história, eu recomendo que procure o documentário "Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei", de 2009. "Simonal", infelizmente, não dá duro o bastante.

sábado, 17 de agosto de 2019

UN'ESTATE ITALIANA


Paolo Virzì é um grande cineasta? Fiquei com esta sensação depois de ver "O Capital Humano", que representou a Itália no Oscar de 2014. Gostei menos de "Loucas de Alegria, seu filme seguinte, e de "Ella e John", sua primeira incursão em língua inglesa. E admito que me desapontei bastante com "Noite Mágica". Acho que me empolguei demais com o trailer, e também fui para o cinema exausto de uma semana puxadíssima. Acabei achando que os atores falam depressa demais, e não mergulhei no imbróglio em que três jovens roteiristas se envolvem com um velho diretor. O lado bom é que tudo se passa em Roma, durante a Copa de 1990. Além da beleza da cidade, a trilha sonora ainda tem "Un'Estate Italiana", o tema do Mundial, composto por Giorgio Moroder (de cuja letra, nclsuvie, saiu o título do longa) e a inacreditável "Cacao Meravigliao", uma bobagem que seria inofensiva se não fosse racista.

RESISTIR ESTÁ NA MODA

Ontem fui assistir ao desfile que encerrará o reality "Born to Fashion", que estreia no canal E! no ano que vem. Trata-se de uma competição à la "Next Top Model", com um diferencial importante: todas as aspirantes a modelo são mulheres trans. O projeto está naquela famigerada lista dos que "não deveriam ser aprovados pela Ancine", junto com as séries "Me Chama de Bruna" (que o Bozo confundiu com o filme "Bruna Surfistinha") e "Dra. Darci" (cuja grande ameaça à família tradicional brasileira é o Tom Cavalcante vestido de mulher). "Born to Fashion" teve sorte. Já estava em produção quando Biroliro anunciou que não haverá mais financiamento público para obras de temática LGBT. Projetos que já estavam aprovados, agora ficarão a ver navios. Claro que isso se chama cen-su-ra.  Pelo menos ainda existem mecanismos estaduais e municipais de fomento às artes. E tem que existir vontade de resistir: se a gente não der força para os filmes e programas viadais , então a familícia já ganhou.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O IDIOTA DE IPANEMA

Biroliro foi chamado publicamente de idiota duas vezes nas últimas 48 horas. Uma foi por seu ex-BFF, o neotucano Alexandre Frota. A outra foi por Christian Ehring, apresentador do programa "Extra-3" da TV alemã, que também o xingou de "Samba-Trump". O Despreparado diz que são nossos embaixadores e o INPE que prejudicam a imagem do Brasil lá fora, mas só os minions mais tapados ainda acreditam nisso. Ao invés de Johnny Bravo, ele está é mais para Johnny Depp.

ENTRANDO NUMA FRIA MAIOR AINDA

O mundo inteiro está dando risada, mas essa ideia do Trump de comprar a Groenlândia para os Estados Unidos tem antecedentes históricos. No começo do século 19, os EUA adquiriram a Louisiana da França, um território muito maior do que o estado atual do mesmo nome. Anos depois, compraram o Alasca da Rússia. A Groenlândia também daria aos EUA um maior controle do oceano Ártico, hoje quase nas mãos dos russos. Além disso, graças ao degelo das capotas polares, daqui a pouco será navegável a mítica Passagem do Noroeste, que liga o Atlântico ao Pacífico pelo norte. Mas será que as 56 mil almas que vivem naquelas paragens topam sair dos sistemas públicos de saúde e educação da Dinamarca e cair sem rede no vale-tudo americano? Claro que não. Elas sabem, assim como nós, que Trump quer mesmo é explorar petróleo e gás natural, e talvez construir um campo de golfe. A Groenlândia que se exploda.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

BERLIM DO PARÁ

A ditadura militar viu florescer Chico Buarque, Caetano Veloso e dezenas de outros cantautores que criticavam o regime em letras censuradas. O governo Biroliro ainda não descambou de vez para o autoritarismo, mas o festival de excrementos emitido pela boca do Despreparado já merecia uma resposta à altura da atual MPB. OK, a vertente queer da nossa música está rija como nunca, com Johnny Hooker, Linn da Quebrada, Liniker, Jaloo e muitxs outrxs rompendo a heteronormatividade. Mas ainda falta um hino para a resistência. À faute de mieux, no momento eu vou de "Padê e Cachaça", que já me viciou. A cantora Crystyany Kettchy é uma paulistana radicada em Berlim, e no clipe só falta índio para ter tudo que os minions abominam. E aí, quem tá a fim de fazer uma festa?

ATUALIZAÇÃO: A própria Crystyany me escreveu para agradecer por este post! Ô glória. Ela também pediu para fazer uma correção: não nasceu no Pará, e sim em São Paulo mesmo, capital. Eu que entendi errado quando li seu perfil no Twitter. Pois ee, eu costumo misturar as coias. Alôka.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

FROTA SEM RUMO?

Alexandre Frota me processou em 2016, por causa desta minha coluna no F5. Ele perdeu em primeira instância e nunca mais recorreu. Mesmo assim, magoei. Jurei que nunca mais tocaria no nome dele aqui no blog, porque o mais terrível castigo para uma subcelebridade é a indiferença. Mas veja só as voltas que a vida dá. Frota foi eleito, como já era esperado, deputado federal pelo PSL de São Paulo. Uma vez empossado, como nunca foi esperado, tornou-se uma das poucas vozes razoavelmente sensatas na bancada do partido da Câmara, e se destacou pela capacidade de articulação política. Também saiu em defesa do cinema brasileiro e, pasme, virou um crítico contumaz do Biroliro e sua prole desqualificada. Foi aí que o caldo entornou. Consta que o próprio Despreperado, com sua grandeza de caráter e infinita capacidade de perdoar, exigiu sua expulsão do PSL. Então Frota se redimiu? Calma lá com esse andor. Na mesma época que me processou, ele também moveu açõs contra outras 10 pessoas, sempre por motivos fúteis - perdeu todas. Desde então, espalhou fake news contra Jean Wyllys, protestou na porta do MAM e continuou se comportando feito um brutamontes da extrema-direita. Foi só depois que entrou para o Congresso que afinou; mesmo assim, há denúncias contra ele de malversação de verbas públicas. Também estaria chateado por não ter conseguido emplacar apaniguados em postos oficiais. Ou seja: não dá para dizer que o Frotinha voltou para o lado claro da Força. E agora, tudo indica que ele vai para o PSDB de João Doria... Mais uma razão para eu nunca mais dar meu voto para os tucanos.