terça-feira, 11 de dezembro de 2018

SINTO-ME BEIJADO


No começo dos anos 80 houve um surto de Nélson Rodrigues no cinema brasileiro. Talvez porque o autor tivesse acabado de morrer, deram para filmar muitas obras suas. E uma que me marcou foi "O Beijo no Asfalto", dirigido por Bruno Barreto. Foi o primeiro Nélson de que eu realmente gostei; hoje, conhecendo outras peças, posso dizer que ainda é a minha preferida. E agora acho que gosto ainda mais, depois de ver o maravilhoso tratamento que Murilo Benício deu a ela, em seu primeiro longa como diretor. Havia muitos pés-atrás: fotografia em preto-e-branco, que costuma afastar o público, e metalinguagem, que costuma desagradar à crítica. Os atores são filmados lendo o texto ao redor de uma mesa e discutindo falas e intenções. Depois, corta-se na mesma cena para interpretações em cenários, realistas como devem ser. Chato? Pretensioso? Só que o elenco é de fechar o comércio, para usar uma expressão daquela época. Tem Lázaro Ramos como Arandir, dando uma nova camada ao personagem. Tem Débora Falabella, com quem eu sempre impliquei, no melhor desempenho de sua carreira. E tem Fernanda Montenegro, para quem a peça foi escrita. Ela fazia a jovem Selminha em 1960 e agora faz a vizinha faladeira, com o mesmo brilho habitual. Mas pairando acima de todos ainda está Nélson Rodrigues. "O Beijo no Asfalto", sobre o escândalo causado por um homem que atende ao pedido de outro, moribundo, e lhe dá um beijo antes que este morra, corria o risco de ficar datado. Mas os acontecimentos recentes deixaram a obra subitamente contemporânea, quase 60 anos depois de sua estreia. Não é um filme para grandes bilheterias, mas quem gostar de teatro vai amar. Penso até que deveria ser nosso representante no Oscar: tem Fernandona, que os gringos conhecem, e tem Nélson, que eles precisam conhecer. Quem sabe no ano que vem?

9 comentários:

  1. Na sua opinião, Nelson era moralista?

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    1. Ô se era. Reacionário e libertário ao mesmo tempo.

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  2. O Mio babbino Caro
    Nelson Rodrigues era um gênio!!!!

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  3. Esse filme é paradigmático: Benício, até onde pesquisei, bancou a produção com o próprio dinheiro. Infelizmente, fez isso porque não conseguiu "incentivo" em tempo hábil, mas já é um começo. Que todos, daqui por diante, sigam seu exemplo. O Estado não pode ser usado como fonte de recursos para setores privilegiados da sociedade.

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    1. Mais um que não entendeu como funciona a Lei Rouanet...

      Vê se aprende alguma coisa:
      https://oglobo.globo.com/cultura/lei-rouanet-minimo-que-voce-precisa-saber-para-falar-do-assunto-sem-passar-vergonha-23293997

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    2. Benício se inspira em Al Pacino, inspiração vale a pena, imitação não! Palmas para ele, então!

      Tony, o que vc acha sobre a série Sob Pressão?
      É tão estranho assistir, pois parece as séries americanas de dramas médicos, mas totalmente adaptada a vergonhosa realidade brasileira.

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    3. Louis Malle também fez um filme em que os atores liam uma peça e depois a interpretavam: "Tio Vanya em Nova York", com Julianne Moore.

      Acho "Sob Pressão" excelente. Uma das melhores séries já feitas no Brasil.

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  4. Tony e essa do Bozo almoçar com vários sertas hein?? Ele se diz muito fã do gênero (q agora eu detesto + ainda) desde os anos 60 e VÁRIOS cantores sertanejos já demonstraram apoio ao lixo, inclusive aquela dupla q ganhou os melhores do ano no Faustão e dedicou o prêmio "ao nosso capitão" e q o mesmo "será o melhor presidente do país" (kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk vai sim....)

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  5. Tony,

    Faça-se o favor e vá assistir Roda Viva no Teatro Oficina (ou sesc pompeia se você já tiver o ingresso).

    Beijos

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