sábado, 15 de dezembro de 2018

ME PEÇA QUE EU DOU

Agora sou um dramaturgo publicado. Minha primeira obra escrita especialmente para o teatro foi incluída no livro "Peças Curtas", junto com as de outros 13 colegas da Oficina de Dramaturgia voltada para a Comédia que eu cursei em novembro. Foram duas semanas intensas, divertidas e muito curtas: queria ter estudado mais, escrito mais, aprendido mais sobre Aristófanes e Beckett. Hoje rolou o lançamento do livro no Espaço Parlapatões, com a presena de quase todos os alunos e professores da Oficina. Exibidos como somos, lemos algumas das peças em voz alta no palquinho do bar. Entre elas estava a de minha "larva", "A Pistolinha", que eu transcrevo logo abaixo. Leia, coragem.


A PISTOLINHA

Sala de um apartamento de classe média. Ouvimos o som de uma campainha. HELOÍSA, 22 anos, entra afobada, vinda de seu quarto. Ela está terminando de se arrumar para sair: coloca um brinco na orelha ou coisa assim.

Heloísa:
Já vai!

Ela abre a porta e tem uma grande surpresa: do outro lado está uma sósia, HELOÍSA 2, mas com um corte de cabelo diferente, roupas meio gastas e um ar de desleixo. Heloísa 1 (como ela será idenitifcada daqui em diante, para diferenciá-la da outra) tapa a própria boca para conter um grito de espanto.

Heloísa 2:
Eu sei, eu sei, eu devia ter avisado. É que no futuro não tem mais WhatsApp. Foi proibido depois da Guerra Civil de 2020.
(entra e faz uma pausa dramática)
Heloísa, eu sou você. Você, daqui a cinco anos.

Heloísa 1:
Mas como??

Heloísa 2:
Ah, a tecnologia avançou muito. Lá de onde eu venho, já é possível viajar no tempo. E eu voltei ao passado para te convencer a mudar o futuro. O nosso futuro.

Heloísa 1:
Peraí, peraí, como é que é? Tecnologia? Passado? Futuro?

Heloísa 2:
Heloísa, eu sei que você está esperando o Armando. Que vocês estão saindo já faz um tempo, que ele é super legal, é um gostoso na cama, etc. etc. Eu sei, porque eu sou você, não é mesmo?

Heloísa 1:
Eu até achei que era ele quando ouvi a campainha. Mas, então, se você vem do futuro, me dá um número de loteria! Quem vai ganhar a Copa?

Heloísa 2:
Heloísa, presta muita atenção no que eu vou te dizer. Você vai romper com ele, entendeu? Vai terminar tudo. Dessa noite não passa!

Heloísa 1:
Mas, por quê? Você mesma acabou de dizer que ele é super legal!

Heloísa 2:
Bom, na verdade, ele não é tão legal assim. Se você sair com ele esta noite, vocês vão transar. E você vai engravidar.

Heloísa 1:
Mas eu tomei pílula!

Heloísa 2:
Tava vencida. Foco, Heloísa! Você vai engravidar, e vai querer tirar. Mas o Armando vai te convencer a ter o bebê. Vai prometer casamento e tudo.

Heloísa 1:
Ué, mas então...

Heloísa 2:
Então ele vai sumir, um mês antes de você ter esse filho. Vai de-sa-pa-re-cer no ar. Evaporar. E você vai ter que criar o garoto sozinha.

Heloísa 1:
É um garoto? Como se chama?

Heloísa 2:
Armandinho. Ai, que burra que eu fui de dar o mesmo nome do pai pro bebê! Agora eu lembro daquele canalha todos os dias.

Heloísa 1:
Mas você não está feliz, sendo mãe?

Heloísa 2:
Não! Eu tive que largar a faculdade. Agora trabalho num emprego de merda e crio o moleque sozinha. Ah, e sabe que mais? O moleque é um pentelho! Fica o dia todo com uma pistola das galáxias que faz um barulho infernal, eu tô ficando louca! Tão louca que eu trouxe essa pistolinha comigo.

Heloísa 2 tira uma pistolinha de plástico do bolso e a entrega a Heloísa 1.

Heloísa 2:
Toma! Essa porra vai ficar aqui, no passado.

Ouvimos de novo o som da campainha.


Heloísa 1:
É o Armando! Vai se esconder lá dentro, rápido!

Heloísa 2:
Vou. Mas não esquece, hein? Dá um pé na bunda desse cara!

Heloísa abre a porta para ARMANDO, 25, boa pinta, enquanto Heloísa 2 corre para dentro do apartamento.

Armando:
Oiê! Com quem você estava falando?

Heloísa 1:
Eu... eu tava falando sozinha. Escuta, Armando, a gente precisa conversar.

Armando:
Mas, agora? O filme que a gente vai ver começa daqui a quinze minutos. Não dá pra ser depo/

Heloísa 1: Eu não vou mais ao cinema.

Armando:
Mas foi você quem escolheu esse filme!

Heloísa 1:
Armando, eu não vou mais ao cinema nem a lugar nenhum com você, entendeu?

Armando: Hã?
Mas a gente se falou faz uma hora, e estava tudo bem...

Heloísa 1:
Só que não está mais! As coisas mudaram. Eu mudei.

Armando:
Helô, o que é que está acontecendo? Você está tão esquisita. Parece até outra pessoa.

Heloísa 1:
Já te disse, eu mudei! Não quero mais saber de você. Tchau.

Heloísa começa a empurrar Armando para fora do apartamento. Enquanto ele se debate, Heloísa 2 entra na sala, vinda de dentro. Agora ela usa roupas elegantes e algumas joias. Está maquiada e penteada.

Heloísa 2:
Ahá! Deu certo!

Heloísa larga Armando. Ambos estão espantados com a aparição.

Armando:
Quem é você??

Heloísa 2:
Ué, você não me conhece mais? Sou eu, Armando! A Heloísa!

Armando:
E essa aqui, quem é?

Heloísa 2:
É a Helena, minha irmã gêmea. A gente fez uma aposta. Ela disse que conseguia te enganar. E pelo jeito, eu perdi!

Heloísa 1:
Armando, não é nada disso!

Heloísa 2:
Agora já deu, né, Helena? Não precisa mais ficar no personagem. Você já ganhou a aposta.

Armando:
Mas eu nunca soube que você tinha uma irmã gêmea!

Heloísa 2:
Ih, longa história. Ela mora no Amapá, tá passando por dificuldades... (sussurra) É mãe solteira. Vamos embora, que eu te conto no caminho.

Heloísa 2 vai saindo com Armando, quando Heloísa a puxa pelo braço.

Heloísa 1:
Que história é essa? Não era para eu terminar com o Armando?

Heloísa 2:
E você fez muito bem! Quando eu voltar para o futuro, minha vida já vai ser outra. Olha só como eu estou! Terminei a faculdade de Direito, virei uma advogada fodona e estou namorando o Ministro da Justiça. Ah, e o mais importante: não tem mais moleque nenhum me enchendo o saco!

Heloísa 1:
Que ótimo, mas... onde é que você tá indo com ele agora?

Heloísa 2: U
é, ao cinema! Depois jantar, e depois... transar, wuhuu! O Armandinho é um canalha, mas é um gostoso na cama. Tchau!

Heloísa 2 e Armandinho saem, deixando Heloísa atônita na sala. Ela então se dá conta de que está com a pistolinha na mão, e a dispara. O barulho é mesmo horrível, e Heloísa leva um baita susto.

Um comentário:

  1. Hahahaha! Eu gostei da sacada no final.
    Porque será que criança gosta de coisas que fazem barulhos infernais e repetitivos?
    Meu filho mais velho, uma vez ganhou da minha mãe, um maldito pianinho que cantava aquela música da fazenda e fazia som de animais quando apertava desenho dos mesmos.
    Gente, eu tenho certeza que aquilo foi uma espécie de vingança dela. Muitas e muitas vezes, tive que esconder as pilhas aquela porcaria e aguentar ele ficar reclamando que não funcionava mais.

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