segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

QUE AO MENOS SEJA DOCE

Confesso que estou mais curioso do que apavorado com 2019. Óbvio que um presidente de extrema-direita causa apreensão, ainda mais quando ele vem cercado por milicos, líderes teocráticos e tecnocratas sem coração. Mas há algo que, ao invés de  preocupar, me sossega um pouco: o extraordinário despreparo do Bozo e seu círculo mais íntimo. Ninguém sabe nada de porra nenhuma, e algumas decisões anunciadas já demonstram essa ignorância. Mudar a embaixada em Israel para Jerusalém pode agradar aos evanjas, mas vai prejudicar nossas exportações para os países árabes. Proibir a "pregação marxista" nas escolas (o que já é uma falácia) não vai ajudar nenhum aluno a aprender melhor. Bozo é mais chucro do que Jânio Quadros ou Fernando Collor de Mello, antecessores com quem tem muito em comum: todos foram eleitos como sendo "antissistema", apesar de serem políticos de carreira; todos prometeram combater à corrupção, mas já assumiram enrolados em suspeitas; e todos deslancham com apoio precário no Congresso. Jânio e Collor, a gente já sabe como acabaram. Que pelo menos as turbulências que vêm por aí nos caiam docinhas feio pão com leite condensado. Que, no entanto, faz muito mal à saúde e enjoa rapidinho.

(Mais previsões para o ano que entra na minha coluna de fim de ano no F5)

A ARRANHADA NA CERTEZA

Tenho horror às teorias de conspiração. Não sou daqueles que puseram em dúvida o atentado que o Bozo sofreu em setembro. Mas admito que a minha certeza ficou abalada depois de ver "A Facada no Mito". O vídeo que vem causando sensação no YouTube há uma semana é meio tosco, muito lento e cheio de erros de português. Também aponta como suspeito um simples erguer de sobrancelhas - algo que passaria como perfeitamente banal em um vídeo em movimento, mas não num frame de má qualidade. Mas alguns dados levantados são mesmo esquisitos, como a contagem regressiva com os dedos feita por um homem ao lado do então candidato logo antes do ataque, ou a preocupação dos seguranças do Bonoro em proteger o esfaqueador. "A Facada no Mito" não inclui outras estranhezas, como a identidade de quem está pagando os advogados de Adélio, ou as mortes de pessoas que eram próximas a ele - como a da dona da pensão onde ele morava. E fala algumas bobagens, como chamar de fake o atentado sofrido por Carlos Lacerda em 1954 - foi verdadeiro, porém mal-sucedido. De qualquer forma, acho o clã Boçalnaro perfeitamente capaz de montar uma farsa como esta. Por outro lado, o plano seria arriscadíssimo, e envolveria até o hospital mais renomado do país, o Einstein de SP. Bom, e agora?

domingo, 30 de dezembro de 2018

RETARDATÁRIOS


Dois filmes inscritos por seus países na disputa do Oscar estrearam em São Paulo no último fim de semana do ano. Um deles está entre os nove pré-finalistas: o dinamarquês "Culpa", o thriller mais barato da história do cinema. É só um policial atendendo a chamadas de emergência, mais nada. Mas o que ele ouve e diz é o bastante para pregar o espectador na cadeira durante uma hora e meia. As surpresas do roteiro não seriam nada se não fosse por Jakob Cedergren, praticamente o único ator em cena (os demais aparecem ao fundo, ou só a voz pelo telefone). Uma ideia bem original, que também funcionaria como um monólogo no teatro.


Já o israelense "O Confeiteiro" não entrou para o shortlist, mas merece ser visto. É uma história de luto e tolerância. Um executivo de Israel, que vai muito a Berlim a trabalho, engata um caso com o dono de uma confeitaria local. Só que ele tem mulher e filhos em Jerusalém... E aí ele morre num acidente, fazendo com que seu namorado vá procurar sua viúva. Há a coincidência meio forçada dela também ser dona de um café, onde ele se emprega sem contar quem é realmente. E aí, seus bolos começam a fazer sucesso apesar de não serem kosher, mas este nem é o conflito principal. Um lindo filme, cuja massa não desanda nem com uma patinada lá pelo meio.

O SALVADOR SOBRAL BRASILEIRO


Em sua retrospectiva do ano publicada na Folha de S. Paulo, Caetano Veloso recomendou dois cantores brasileiros que eu não conhecia: Thiago Amud e Tim Bernardes. Imediatamente baixei os dois álbuns e escutei-os com atenção. Não gostei muito do Thiago, mas estou encantado pelo Tim. Ele foi indicado a Caetano pelo português Salvador Sobral, com quem tem muitas semelhanças - tanto físicas quanto vocais. Os dois fazem a linha frágil, com vozes afinadíssimas e cabelos em desalinho. Vocalista da banda O Terno, Tim lançou em 2017 seu álbum-solo "Recomeçar", com melodias delicadas, arranjos inovadores e muita dor de cotovelo. É uma pena eu ter demorado tanto para encontrar essa pérola, mas ainda bem que encontrei.

ESSE ÁRABE AINDA TEM FUTURO

"O Árabe do Futuro" foi anunciado como uma tetralogia. A partir de 2014, sairia um volume por ano, em que o cartunista francês (de pai sírio) Riad Sattouf contaria "sua juventude no Oriente Médio". O quarto volume, que deveria ter sido lançado em 2017, só veio à luz este ano, e é bem mais grosso do que os anteriores. Pensei que Sattouf quisesse enfiar o máximo de memórias em um único livro e dar a série por encerrada. Só que, depois de quase 300 páginas, vem uma surpresinha: "à suivre". Ou seja, continua, esse árabe ainda tem futuro. A notícia é maravilhosa, porque a saga de Sattouf é tão absorvente quanto o "Persépolis" de Marjane Satrapi. Criado entre a França, a Líbia e a Síria, ele tem um olhar predominantemente ocidental, que lhe deixa destacar as peculiaridades dos países árabes. Mas seus dons de narrador são tão poderosos que até detalhes banais, comuns a crianças e jovens do mundo inteiro, se tornam fascinantes. Que essa infância interminável ainda se prolongue por muitos e muitos tomos.

sábado, 29 de dezembro de 2018

SANDRA À PASSARINHO


"Bird Box" levanta uma questão interessante: teria sido um blockbuster se tivesse sido lançado nos cinemas? A Netflix divulgou que, só na primeira semana, o filme foi visto por mais de 45 milhões de contas do serviço. Já é muito mais gente do que teria pago ingresso. Nem todo mundo gostou, é claro, porque não se trata de nenhuma obra-prima. "Bird Box" é só uma variação muito bem feita do gênero zumbi, com o gimmick extra das pessoas precisarem estar vendadas na hora da fuga. Confesso que eu me diverti à pampa, mas também fiquei esperando... não uma explicação, porque eu não faço questão nenhuma de saber como é ou de onde vem o monstro que provoca o suicídio de quem o vê. Mas queria, sei lá, a possibilidade dele ser o nosso medo mais profundo, ou a projeção de um trauma de infância, ou quem sabe a depressão, como foi aventado por aí. E torci por um final com pegadinha, bem diferente da solução convencional encontrada. Ainda assim, a direção da dinamarquesa Susanne Bier é pra lá de competente, e todo o elenco está ótimo. Especialmente Sandra Bullock, que merece ser reconhecida como uma grande atriz. Mesmo já tendo atingido aquela idade indefinida depois de ter deixado a ciência agir em seu rosto. Não é à toa que um jovem tuiteiro que não a conhecia disse que "a moça de "Bird Box" parece o Michael Jackson".

AS PESSOAS DO ANO

Todo ano eu incluo na minha retrospectiva uma listinha das personalidades que mais se destacaram no noticiário. E imito o critério da revista Time: para o bem ou para o mal. Acontece que 2018 teve uma cota excessiva de vilões. Para dar uma ideia realista do que foram os últimos 365 dias, eu teria que lembrar de muitos escrotos. Como de horrenda basta a vida, minha lista de pessoas do ano só vai ter gente bacana. E veja só: sem que eu fizesse um esforço nesse sentido, minhas cinco selecionadas são todas mulheres. Sinal de que são elas que estão na linha de frente das mudanças, e sinal de que é contra essas mudanças que os reacionários se levantam no mundo todo. Sem mais delongas, vamos a elas:

Alexandria Ocasio-Cortez
Além de deputada federal eleita por um distrito do bairro novaiorquino do Queens, Alexandria também é a figura de proa de um movimento que está renovando a política americana. Bem mais à esquerda do mainstream do partido Democrata, ela e dezenas de outros eleitos por todos os EUA são um aperitivo do vem por aí. Muitas pedras no sapato do governo Trump, que já está se desmanchando feito a proverbial casa de cartas.

Meghan Markle
Quem diria que sangue negro iria correr nas veias da família real britânica? Claro que a chegada da ex-atriz americana à monarquia mais tradicional da Europa tem uma boa dose de jogada de marketing: é justo do que os Windsor precisam para se segurarem no trono mais um pouco. Mas não dá para duvidar do amor entre Meghan e o príncipe Harry depois daquela que foi a cerimônia de casamento mais emocionante da década.

Letícia Colin
O Brasil sempre tem muitas estrelas da TV e da música dignas de entrar em qualquer retrospectiva. E Letícia Colina nem é exatamente uma novidade: a carreira da moça já tem quase 20 anos. Mas foi divertido ver o público reagir espantado quando percebeu que a salerosa Rosa da novela "Segundo Sol" era feita pela mesma atriz que fez a princesa Leopoldina em "Novo Mundo". Além do talento de sobra, Letícia também dá a cara para bater. Adoro.

Elza Soares
A única a aparecer em mais de uma das minhas listas de 2018 (Elza também lançou um dos melhores discos do ano, "Deus É Mulher"). Mas não foi só na música que ela se destacou. Lançou uma biografia, inspirou um musical e virou uma espécie de deusaviva da cultura brasileira. E eu finalmente consegui vê-la ao vivo, na gravação do especial "O Fino da Bossa".

Marielle Franco
Como a maioria dos brasileiros, eu nunca tinha ouvido falar da vereadora carioca até ela ser assassinada. Uma tragédia ainda não resolvida, pois é óbvio que os culpados estão atrapalhando as investigações. Só que Marielle cresceu depois de morta. Ficou conhecida no país todo, elegeu três assessoras e hoje é um símbolo, uma ideia e um ideal. Está mais presente do que nunca.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

RÉPONDEZ S'IL VOUS PLAÎT

Cuba, Venezuela e Nicarágua foram desconvidadas para a posse do Bozo. São ditaduras asquerosas, mas também são países com que o Brasil mantém relações diplomáticas. Regimes tão ou mais horríveis, como a Coreia do Norte ou a Arábia Saudita, não tiveram seus convites revogados. Veja bem, não estou defendendo ditadura nenhuma. Mas, como diz o Hélio Schwartsman na Folha de hoje, posse presidencial não é festa particular: não é um evento de pessoas físicas, é uma ocasião de Estado. O presidente pode até vetar alguns desafetos, mas países inteiros é meio demais.

O mais engraçado é que o PT e o PSOL, os dois partidos mais ardentemente anti-Bozo, estão tendo a mesmíssima atitude com o sinal trocado. É digna da quinta série a decisão das legendas de não enviar nenhum parlamentar para assistir à posse. De novo: não é uma questão pessoal. Numa democracia de verdade, TODOS os partidos participam da posse, porque democracia não é só quando a gente ganha. Hillary Clinton respirou fundo, tapou o nariz e foi à posse do Trump; ela não inventou um resfriado ou um câncer no intestino para poder faltar.

E o mais incrível é a quantidade de gente nas redes sociais que apoia essa infantilidade das agremiações de esquerda. "Ãin porque o Bozo falou que ia metralhar todo mundo, ãin porque espalharam fake news, ãin porque ele não respeita a democracia" - e, portanto, nós devemos desrespeitar também? Realmente, muitos brasileiros não sabem como funciona uma república, a separação dos poderes, o sistema de pesos e contrapesos. Ainda estão presos à visão patrimonialista, misturando interesses da nação com picuinhas pessoais. Bem poucos entendem o que significa uma instituição. Que preguiça desse país.

AS MÚSICAS DE 2018

No ano passado, anunciei na minha retrospectiva que eu não estava mais comprando álbuns. Como todo o resto da raça humana, agora eu baixo dos serviços de streaming. Este ano acontece algo ainda mais grave: eu quase não ouço mais álbuns. Quer dizer, ouço quando baixo, escolho uma ou duas faixas (eu monto as minhas próprias playlists) e meio que esqueço do resto. Por isto, não consegui chegar a uma lista dos dez melhores álbuns do ano. E não teria chegado a cinco se, nos últimos dias de 2018, não tivesse surgido...

El Mal Querer, Rosalía
Conheci a moça graças a uma capa da Ilustrada; olhaí mais um motivo para vocês assinarem a Folha. É uma catalã de 25 anos (mas que parecem 15) que moderniza um gênero musical que não é o da sua terra: o flamenco vem da Andaluzia, muitas léguas mais ao sul. Talvez por isto ela não tenha tido pruridos em adicionar teclados eletrônicos e cordas clássicas em "El Mal Querer", seu segundo álbum. Un embrujo.
Chris, Christine and the Queens
Heloïse Letissier lançou o segundo álbum de seu alter ego e sua banda imaginária em formato duplo: as mesmas músicas se repetem, mas em francês e em inglês. Ela já faz algum sucesso no outre-manche, mas falta conquistar os EUA. Se nem a Anira tá conseguindo, acho ainda mais improvável que uma caminhoneira fashion chegue lá. Mas "Chris" é uma festa em qualquer língua. Quem que não curte uma empoderada?

Deus É Mulher, Elza Soares
Este ano eu ouvi mais música brasileira do que de costume, mas só um álbum me jogou ao chão: essa continuação do incrível "A Mulher do Fim do Mundo" de 2015, que ressignificou Elza Soares para as novas gerações. Eu sou da velha, mas fico embasbacado com essa mistura explosiva de repertório engajado + arranjos futuristas + uma mulher imortal, cantando como nunca aos 88 anos. Que sorte do Brasil em tê-la.

Désobeissance, Mylène Farmer
Há 30 anos que eu acompanho a carreira da Madonna francesa, e ela não me surpreende mais. Tampouco desaponta: seu 11o álbum é mais do mesmo, mas este mesmo é muito bom. Ah, sim, há uma surpresinha - a faixa "N'Oublie Pas", um dueto com a americana LP, que tem um timbre curioso e um enorme talento musical. De resto, Mylène segue sendo Mylène, com suas letras mórbidas e suas texturas sintéticas.

Songbook, Benjamin Biolay & Melvil Poupaud
Os únicos rapazes dessa lista femicêntrica são franceses, como outras duas selecionadas - o que não dá, de maneira alguma, noção da variedade de povos e nações que eu escuto o ano inteiro. Mas o encontro desses dois semideuses produziu um show (que eu não vi) e um disco (que eu não paro de ouvir) reunindo o crème de la crème do repertório do Biolay com clássicos do Hexágono. OK, eu me rendo.


Claro que tem muito mais coisa entre os meus fones de ouvido. Tem novos franceses, como os cantores Lomepal, Chaton e a banda Feu! Chaterton. Tem o tributo de Cher ao Abba, o disco mais viado do ano. Tem as bandas argentinas Bandalos Chinos e 1915, além dos veteranos Miranda! E Troye Sivan, Silva com ou sem Anitta, a dupla eletrônica Sofi Tukker, a banda americana Loma...

Minhas Top 10 do Ano, em ordem alfabética:
<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<< Bécane, Lomepal
Damn, dis-moi, Christine and the Queens
Dialeto, Diogo Piçarra
Envolvimento, MC Loma
Eva, MinaCelentano
N'Oublie Pas, Mylène Farmer & LP
Sorcerez, Gorillaz
Stavo Pensando a Te, Fabri Fibra feat Tiziano Ferro
Vámonos de Viaje, Bandalos Chinos

...e uma chinesa que eu não sei dizer o nome - 我在洗澡的時候我唱著情歌, que tal? - de um cantor chamado de Hong Kong chamado Lao Ci Hong.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

ROLÊ GRANDE

Que me perdoem os campograndenses, mas a vossa cidade não é pródiga em atrações turísticas. Aquele que seria o cartão postal da capital do Mato Grosso do Sul já está virando ruína sem ter ficado pronto: o Aquário do Pantanal, no meio do Parque das Nações Indígenas. É um exemplo concreto do descalabro na administração pública brasileira, onde autoridades e empreiteiras fizeram a farra, torraram milhões de dinheiro público e quase nada foi feito. Até os peixes que seriam expostos já morreram. E assim Campo Grande não tem muito o que oferecer ao turista. O Parque é até bastante limpo e bonito, habitado por quatis e capivaras. E dentro ainda tem o Museu das Culturas, que tem ótimas coleções de arte indígena e de história natural. Pena que a arquitetura arrojada das mostras não seja acompanhada por um design de luz decente. De lá fomos caminhar no centro antigo, que me surpreendeu pelo ar de cidade do interior (para não dizer faroeste). Afinal, Campo Grande já é capital de estado há mais de 40 anos, mas ainda é muito pouco densa. Um arranha-céu de luxo pode estar ao lado de um terreno baldio. Ainda visitamos a Morada dos Baïs, a mansão de 1915 que pertenceu à família fundadora da cidade. Ela serviu de casa para a pintora e escritora Lydia Baïs, uma espécie d Frida Kahlo brasileira que gostava de pintar a si mesma em quadros da Última Ceia. A casa é uma unidade do Sesc e deve ser uma das primeiras vítimas do corte que Paulo Guedes quer fazer no Sistema S.

O melhor de Campo Grande é mesmo seu povo, que adora comer fora. Ontem fomos encarar o sobá obrigatório na Feira Central, socada de gente na noite quente de quarta-feira. Hoje visitamos o Gastrota, que se autotintula "O Parque dos Chefs" mas é uma grande praça de alimentação a céu aberto, sem nada mais elaborado do que poke havaiano. E por falar em culinária, o que dizer dos salgadões típicos daqui, maiores do que o campo que deu nome à cidade? Só aguentei metade de um tal de cigarrete, um croquetão de presunto e catupiry.

AS SÉRIES DE 2018

As séries são os novos romances. Ninguém mais vê outro tipo de programa, ninguém vai ao cinema, ninguém lê livros - todo mundo só vê séries. A chamada "long form TV" supriu nossas necessidades de ouvir histórias, ainda mais depois que passou a estar disponível em qualquer lugar e a qualquer hora. Podem anotar: a temporada final de "Game of Thrones" vai ser o último momento em que a humanidade se reunirá ao redor da TV em um mesmo dia, no mesmo horário. Dali em diante, só assistiremos às nossas próprias programações, ainda mais do que já fazemos agora. Na minha própria, essas foram as que mais reinaram no ano que ora finda:

SÉRIES NOVAS

La Casa de las Flores (Netflix)
Esta sátira às novelas mexicanas passou meio batida pelo Brasil, mas foi um sucesso tão retumbante no resto da América Latina que gerou até concurso de vídeos de imitação de Paulina de la Mora. A personagem vivida pela ótima Cecilia Suárez fa-la tu-do pau-sa-da-men-te, pois vive sob o efeito de calmantes. A segunda temporada já está em produção.

The Handmaid's Tale (Paramount)
A série que abalou os Estados Unidos em 2017 só chegou ao Brasil no começo deste ano. Pelo menos a segunda temporada não tardou a ser exibida; por outro lado, ao ir além do livro de Margaret Atwood, o roteiro se tornou irregular. Mas o assunto continua na ordem do dia, ainda mais com o avanço da extrema-direita no Brasil. Damares Alves, a futura ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, é nossa Tia Lydia?

Insatiable (Netflix)
A sitcom sobre uma garota obesa que de repente emagrece e parte em busca de vingança recebeu uma saraivada de críticas antes mesmo de estrear, acusada de gordofobia. Besteira: trata-se, na verdade, de um programa que questiona a ditadura do padrãozinho, tanto estético quanto sexual. E ainda traz uma personagem gira: Nonnie, a melhor amiga que se descobre lésbica, feita pela mais-do-que-incrível Kimmy Shields.

Jogos Sagrados (Netflix)
Não vi ninguém além de mim comentando a primeira série da Netflix produzida na Índia: nem na imprensa, nem na blogosfera, nem ao vivo. O fato é que vocês não sabem o que estão perdendo. Baseada em um calhamaço policial que cobre décadas de história indiana, "Jogos Sagrados" traz um tempero exótico a um gênero meio batido. E a gente ainda aprende um bocado sobre um dos países mais fascinantes do mundo.

Pose (Fox Premium)
Outra forte candidata a personagem do ano é a amazona transexual Elektra Abundance, a antagonista-que-vira-boa da série ambientada no universo das houses novaiorquinas do final dos anos 80. Ryan Murphy marcou mais um golaço com este potente cocktail de glamour, desespero e atitude. Começo a suspeitar que o criador de "Glee" e outros sucessos tem poderes infalíveis.


Menção mais do que honrosa:
a sensacional "Ilha de Ferro" (Globoplay), do qual eu sou suspeito para falar. Só não entrou na lista porque o relapso aqui ainda não terminou de assistir...


MINISSÉRIES

O Assassinato de Gianni Versace (Fox Premium)
Quem foi esperando um mergulho na intimidade de Gianni e Donatella - tipo eu - se decepcionou um teco. Mas foi só até entender que mais essa façanha de Ryan Murphy é na verdade sobre Andrew Cunanan, o psicopata assassino que rendeu a Darren Criss o Emmy de melhor ator em minissérie. Penélope Cruz, Edgar Ramírez e até Ricky Martin também estão ótimos, mas o que importa mesmo é mostrar como a homofobia introjetada pode se tornar fatal.
La Balada de Hugo Sánchez (Netflix)
Devo ser o único brasileiro que vê a mexicana "Club de Cuervos", uma das séries mais engraçadas da atualidade. Mas por lá a repercussão é grande o suficiente para gerar este spin-off estrelado por um coadjuvante, o puxa-saco Hugo Sánchez, que se vê encarregado de levar o time para um torneio na Nicarágua. O ex-ator mirim Jesús Zavala merece muitos prêmios.
My Brilliant Friend (HBO)
Eu confesso: larguei no meio o romance de Elena Ferrante que se tornou cult no mundo inteiro. Mas caí de boca nessa adaptação para a TV, tornada ainda mais saborosa por causa dos dialogo em dialeto napolitano. A saga de Lila e Lenu se interrompe bruscamente, no ponto em que acaba o livro: vem aí a segunda temporada, mas com outro nome. E em inglês, cazzo.

Sharp Objects (HBO)
E por falar em final abrupto, que tal a frase "Don't tell mama?" Bastaram três palavrinhas para destruir toda a sensação de paz que o espectador atingiu depois de sofrer ao longo dos oito episódios desta versão do livro de Gillian Flynn, sobre um assassino de garotas no sul dos Estados Unidos. Amy Adams é outra que pode ir arrumando espaço para troféus na prateleira.
Wild Wild Country (Netflix)
Quase não vejo séries documentais, porque a maioria é do tipo "The Making of a Murderer": lentas, hiperdetalhistas, que não chegam a lugar nenhum. Mas me rendi a esta, porque uma das minhas irmãs foi sannyasi e eu queria saber mais sobre a religião que a dominou por mais de dez anos. Acabei descobrindo em Sheela Anand uma vilã icônica, mais interessante do que o Baghwan Shree Rajneesh. Mas a serie também é leeenta.

E ainda teve as séries antigas que tiveram boas temporadas em 2018: "The Affair", "Better Call Saul", "Divorce", "Merlí", "This Is Us", "Versailles"...

ATUALIZAÇÃO: Esqueci de incluir entre as séries minha queridinha "Samantha!", da Netflix. Sou uma das poucas pessoas que realmente gostou dessa sitcom nacional: eu diria que sou uma das poucas que entendeu. A busca pela fama a qualquer custo é um assunto que sempre me faz rir, e a bela Emmanuelle Araújo revelou um timing cômico que a Globo nunca deixou ela por para fora. A próxima temporada já foi filmada!


MAIS UMA ATUALIZAÇÃO: A velhice é muito triste. Foi ela quem me fez esquecer da melhor sitcom sobre velhice jamais feita: "O Método Kominsky", muito superior à similar "Grace and Frankie", também da Netflix. Michael Douglas e Alan Arkin fazem amigos de longuíssima data que enfrentam juntos as agruras da terceira idade: a perda do cônjuge, problemas financeiros, o encarquilhamento fisico. Tudo com muito sarcasmo. Assim dá gosto envelhecer.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

UMA BABÁ QUASE IMPERFEITA


Eu abri o berreiro no cinema quando Mary Poppins subiu aos céus no final de seu primeiro filme. Por quê, meu Deus, por quê? Foi ali que eu comecei a entender que a vida é dura. Mais de meio século depois, eu ainda não superei o trauma. E fiz questão de fazer nossa neta passar por ele: a programação no Natal aqui em Campo Grande incluía uma visita a um cineplex local, para a pequena Aurora se maravilhar com "O Retorno de Mary Poppins". O novo longa é um misto de continuação e remake do original. Tem uma estrutura parecida, que inclui o obrigatório segmento em animação. O que falta são músicas tão boa quantos e, é claro, Julie Andrews. Emily Blunt está linda e ótima, mas não canta feito um rouxinol. Já os efeitos da sequência no fundo do mar são dignos de "O Sítio do Pica-Pau Amarelo" da década de 70. Mas, o que importa? A Aurora adorou. E não verteu uma única lágrima.

OS FILMES DE 2018

E aqui começa a minha tão aguardada retrospectiva do ano que ora finda. 2018 foi um ano bastante bom no cinema, e eu listei 25 títulos que poderiam fazer da minha lista dos dez melhores. Foi duro chegar a um veredito - e, quando cheguei, me dei conta de que vi oito dos dez eleitos em um intervalo de apenas três semanas, entre 12 de outubro e 2 de novembro. Uma mistura explosiva de Mostra de SP com filmes do Oscar, que estão chegando mais cedo ao Brasil. Os que quase chegaram lá estão listados no final do post. Sinta-se convidado a discordar.

El Ángel
O representante da Argentina na disputa pelo próximo Oscar de filme em língua estrangeira é baseado na história verídica de um garoto de família que se tornou bandido pelo simples prazer de matar. A reconstituição da década de 70 e o clima homoerótico são pontos bônus desse thriller impecável, que eu vi na Mostra de SP e que estreia no circuito brasileiro em 2019.


O Beijo no Asfalto
Em um ano fraquinho para o cinema nacional, a estreia do ator Murilo Benício na direção de longa se destacou pelo rigor e pela inventividade. Tem preciosa fotografia em preto-e-branco de Walter Carvalho e um elenco afiadíssimo a serviço de um dos melhores textos de Nélson Rodrigues, que, infelizmente, se tornou atual outra vez. E ainda é um hino de amor... ao teatro.

Bohemian Rhapsody
Como o primeiro “Mamma Mia!”, este aqui é um mau filme, mas um ótimo programa. Minhas redes sociais se encheram de testemunhos emocionados de gente que foi às lágrimas com essa cinebiografia deturpada de Freddie Mercury – alguns nem tinham vivido a época do Queen. A crítica odiou e eu me incomodei com as músicas fora de ordem, mas, e daí? Rami Malek arrasa!

Cafarnaum
Filme sobre criança abandonada sofrendo o diabo no meio da rua sempre corre o risco de resvalar para o sentimentalismo, mas a diretora libanesa Nadine Labaki mantém o pulso firme e consegue emocionar a plateia sem apelar. Prêmio do Júri em Cannes, o filme já é um dos nove pré-selecionados pelo Oscar. O grande favorito do público na Mostra deve estrear logo.

A Favorita
O cineasta grego Yorgos Lanthimos deixa de lado os dramas contemporâneos com um pé no surrealismo para enfrentar um filme de época de visual requintado e roteiro sarcástico: duas cortesãs inglesas disputam a atenção da rainha Anne, no começo do século 18, em troca de favores sexuais. Olivia Colman, divina como o pivô desse triângulo, pode tirar o Oscar de Glenn Close. Mais um da Mostra que entra em janeiro.

A Morte de Stálin
O roteirista britânico (apesar do nome italiano) Armando Ianucci estreia na direção de cinema com um filme que parece um episódio estendido de sua sitcom “Veep”, cheio de políticos imbecis que não sabem o que fazer para se segurar no poder. A diferença é que corre sangue e morre gente. Mais desmoralizante para o comunismo do que toda a obra do astrólogo auto-exilado.

Uma Mulher em Guerra
Outro título cotado para o Oscar de filme estrangeiro que bateu na trave. Mas esta ótima comédia islandesa sobre uma ativista ecológica enlouquecida, que derruba a flechadas uma linha de transmissão elétrica, já ganhou um outro tipo de prêmio: será refeita em inglês, com Jodie Foster no papel principal. Será que vão manter os músicos que tocam "ao vivo" a trilha sonora, uma ótima sacada do diretor Benedikt Erlingsson?

Nasce uma Estrela
Cinemão com “C” maiúsculo, e competente em tudo o que se propõe fazer. Boa versão contemporânea de um clássico que Hollywood refaz a cada geração. Lady Gaga talvez não esteja interpretando alguém muito diferente de si mesma, mas não dá para negar que ela está ótima. E Bradley Cooper impressiona na direção, mas vai levar mesmo é o Oscar de melhor ator. 

Podres de Ricos
Mal lançado no Brasil, o filme não repetiu por aqui o sucesso estrondoso nos Estados Unidos. A trama é a mais velha do mundo: moça pobre namora rapaz rico, e a mãe dele quer separá-los. Mas a graça é o sabor oriental, realçado pela fina flor dos atores de origem asiática que filmam no Ocidente. Quase tão divertido quando se hospedar em um hotel de luxo em Singapura.

Roma
Gostei quando eu vi pela primeira vez, mas não achei essa coisa toda. Aí aconteceu algo curioso: o drama de Alfonso Cuarón, épico e intimista ao mesmo tempo, foi crescendo na minha cabeça. Quando o revi no cinema, delirei com tamanho apuro técnico e estético. Agora já está rolando um backlash e tem gente achando monótono, mas para mim é mesmo o melhor filme do ano.


Os outros 15 filmes que poderiam muito bem estar na minha lista dos dez mais são os seguintes:

A Balada de Buster Scruggs - O melhor dos Irmãos Coen em anos, só na Netflix
O Destino de uma Nação - Gary Oldman sublime como Winston Churchill
Dogman - Vi na Mostra do Cinema Italiano. Grande Matteo Garrone!
Hereditário - Não sou chegado a filmes de terror, mas este me pegou
Os Incríveis 2 - A Pixar sabe fazer continuações melhor que ninguém
Eu, Tonya - Tonya Harding ganha a tragicomédia que merecia
A Ilha dos Cachorros - Animação precisa e criativa de Wes Anderson
Lady Bird – A Hora de Voar - Nasce uma grande diretora: Greta Gerwig
Marvin - Num ano cheio de filmes LGBT, esse foi o que mais me tocou
Museu - O outro grande filme mexicano de 2018
Novitiate - Vi no avião e me encantei com a história da freirinha
The Tale – O Conto - Telefilme da HBO sobre assédio sexual
Todos os Paulos do Mundo - Ótimo documentário sobre o grande Paulo José
Tully - Obrigatório para todas as mães de filhos pequenos
Você Poderia me Perdoar? - Melissa McCarthy fazendo drama

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

SONO GRANDE

Foi só desembarcar em Campo Grande para eu ser atacado por um enxame de moscas tsé-rsé. O calor, as comidas pesadas e o acesso limitado a celular e computador (estou num sítio sem wi-fi) também contribuíram para o sono mortal que me acomete esses dias. Além do cansaço acumulado de um ano inteiro: em 2018 foi raro o fim de semana em que eu não trabalhei. Pois é, eu podia ter prestado concurso para o Banco do Brasil, mas preferi escrever. E não estou reclamando. Feliz Natal para todozzzz roinc roinc.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

IT'S A WONDROUS STORY TO ME

"Bohemian Rhapsody" está virando all things for all people. Cada um faz o que quiser da música do Queen. Quase dez anos atrás, houve aquela versão dos Muppets. Este ano, a faixa virou paródia política no "Zorra", embalada pelo sucesso do filme. Hoje o Daniel Cassús me mandou essa variante cristã, com letra saudando o nascimento de Jesus em Belém. A produção é pobrinha e é curioso ver como Beelzebu virou Herodes. Só faltou o Smilingüido dar as caras, mas olha como é fofo o trecho heavy metal, com Maria e José banging heads.

NATAL COM SOBÁ

Já passei o Natal em Avignon, em Santiago de Compostela, numa ilha em Belize e num parque na Namíbia. Mas este ano vai ser mesmo em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Longa história: é aqui que moram as irmãs do genro do meu marido, e é aqui que ele e minha enteada vêm passar o Natal deste ano, trazendo os dois filhos - que são meus netos também. Então convenci a todos que nós também deveríamos vir. Afinal, a infância das crianças passa voando e daqui a pouco elas não vão mais querer saber da família. Portanto, aqui estamos. Campo Garnde é um forno, mas isto já era esperado. Surpresa mesmo foi saber que o prato típico da cidade é o sobá: a variante local do udon japonês, trazido por imigrantes vindos da ilha de Okinawa. Os campograndenses são tão obcecados pelo sobá que até erigiram um monumento em homenagem à iguaria. Ainda não tive a oportunidade de provar, mas fico aqui até sexta. E alguém mais tem dicas do que eu não devo perder?

domingo, 23 de dezembro de 2018

PAQUERAR, TRANSAR E SAIR CORRENDO


Eu deveria ter amado "Conquistar, Amar e Viver Intensamente" (eita titulozinho imbecil). Afinal, o novo filme de Christophe Honoré se passa em 1993, quando eu supostamente estava no auge da beleza física e da assanhadice. Na verdade, não estava: já havia me casado com Oscar e, nos nossos primeiros anos juntos, nem na boate nós íamos. Mesmo assim, vivi bem aquela época e, mais importante, perdi amigos e ex-namorados para a "maldita", o tema de fundo do longa. A AIDS entra em "Paquerar, Transar e Sair Correndo" (uma tradução mais fiel) como o grande estraga-prazeres. Mas é bastante louvável que os personagens não se sintam culpados, e que a discriminação que a sociedade nos impõe até hoje não tenha preponderância no roteiro. O que interessa mesmo é uma reflexão sobre o significado de ser homossexual e homem, com a promiscuidade que muitos dizem ser natural ao gênero, em um tempo liberador e aterrorizante ao mesmo tempo. O ritmo desanda no terço final, quando o clima de alegria e putaria finalmente é trocado pelo corredor frio de um hospital. Mesmo assim, o filme tem um enorme saldo positivo: a ascensão do interessantíssimo Vincent Lacoste, um ator que está aí há anos, ao posto de protagonista. E talvez ao de meu próximo noivo secreto.