segunda-feira, 5 de novembro de 2018

UMA CASA NÃO É UM LARS


De tudo o que eu vi até hoje de Lars Von Trier, só gostei de um único filme: "Dogville", de 2003. Talvez porque seja o único em que uma mulher não é punida pelo simples fato de ser mulher. A misoginia do diretor é lendária, e ele dá curso solto a ela em "A Casa que Jack Construiu", que causou escândalo no último festival de Cannes. De fato, há muitas cenas horríveis (e quase todas estão no trailer), mas jura que alguém ainda se escandaliza com Von Trier? Metade do que ele fala ou diz é só para épater les bourgeois, e eu não sei se estou interessado na outra metade. Seu novo trabalho parece uma paródia dos anteriores: é como se algum engraçadinho resolvesse fazer um "spoof",  amontoando os clichês trierianos. Matt Dillon faz um serial killer, e somos obrigados a ver em detalhes todos os seus crimes pavorosos, desde que ele, quando criança, cortou a pata de um patinho. Dois gimmicks se repetem: imagens em P&B do pianista Glenn Gould em ação e a música "Fame", de David Bowie. Na terceira vez que qualquer um deles aparece, me deu um fartão daqueles. E toda a sequência final do Inferno de Dante, com Bruno Ganz fazendo o guia Virgílio, é oca e pretensiosa ao mesmo tempo. Das duas, uma: Lars Von Trier está tirando sarro de seus detratores, ou está exorcizando seus demônios. Ele podia estar roubando, podia estar matando, mas, ao invés disso, resolveu nos torturar com filmes que não são ruins, mas dificílimos de se ver.

2 comentários:

  1. Como meter o sarrafo num filme e, ao mesmo tempo, deixar o leitor interessadíssimo. Adorei!

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  2. Eu gosto um pouco de alguns filmes dele: Dançando no Escuro, Anticristo, Melancolia... alguns são realmente meio parecidos entre si, mas ainda estão entre as coisas mais interessantes do Netflix.

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