sábado, 3 de novembro de 2018

A NIGHT AT THE OPERA


O Queen é a maior paixão musical de toda a minha vida. Descobri a banda em 1974, na época do segundo disco, e nunca mais larguei. Acompanhei em tempo real todas as peripécias de Freddie, Brian, Roger e John. Eu estava no gramado do Morumbi em 1981, quando eles vieram ao Brasil pela primeira vez, e no Rock in Rio em 1985, quando vieram pela segunda. Sofri pacas quando Freddie morreu, em 1991. E li tudo que me caiu nas mãos sobre o maior de meus ídolos. Por tudo isto, foi com muita antecipação, mas também um certo receio, que eu fui ver "Bohemian Rhapsody", a cinebiografia chapa-branca de Farroukh Bulsara. E não é que eu gostei? O roteiro toma muitas liberdades dramáticas, e embaralha a ordem em que as músicas foram lançadas. O Queen não excursionou pelos EUA pela primeira vez em 1975 (já tinham ido no ano anterior, como número de abertura da turnê do Mott the Hoople), nem tocava "Fat-Bottomed Girls" nesses shows - essa canção, talvez a pior da carreira deles, só saiu em 1978. Tampouco foram os cariocas que inventaram de cantar "Love of My Life" em uníssono: isto já estava registrado no álbum ao vivo "Live Killers", de 1979, que saiu bem antes da banda pisar em terras brasileiras. Além do mais, não foi Freddie quem deu o pé em Mary Austin. Foi o contrário: chegou um ponto em que ela percebeu que havia perdido o namorado para o Vale (e Brian May escreveu "Save Me" inspirado no banzo do vocalista). Sem falar da maior licença poética de todas: Freddie não contou para os colegas que tinha AIDS logo antes do Live Aid, em 1985, porque ele só foi diagnosticado com a doença dois anos depois. Mas, apesar de todos esses deslizes que arrepiam um fã hardcore feito eu, "Bohemian Rhapsody" funciona muito bem. A trajetória de Freddie Mercury ganha uma curva dramática poderosa (o que nem sempre é visível na vida real), e até quem não conhece bem o Queen sai emocionado do cinema. As músicas, algumas quase cinquentenárias, não perderam o frescor nem a força - e a sala em que eu assisti estava lotada de gente nascida depois de "Made in Heaven", o disco póstumo de 1995. Acima de tudo, paira o verdadeiro champion dessa empreitada: Rami Malek, o ator de "Mr. Robot", que consegue capturar o gestual, o carisma e até o olhar de seu personagem. É um trabalho do nível do de Marion Cotillard em "Piaf", digno de todos os prêmios. "Bohemian Rhapsody" não é perfeito, mas é operático, impactante, meticulous and precise. Como toda a discografia do Queen. Como a própria carreira de Freddie. Até o mais chato dos fanáticos vai se entregar.

6 comentários:

  1. Eu me entreguei. O filme causa emoção e, como tenho dito, Malek incorpora Mercury (indicação ao Oscar, Tony? Aguardemos...). Também como fão do Queen, ouvir as músicas no cinema com toda a história girando despertou paixões e faz correr para o Spotify conferir a trilha sonora. Minha sessão também cheia de gente jovem, sinal de que é lenda mesmo atravessa gerações. A crítica em geral pode até espernear os defeitos, mas é impossível não se entregar à rapsódia boêmia.

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  2. Fui assistir o filme que trata da Banda QUEEN mas não gostei muito eles esqueceram de citar o ROCK IN RIO 1985 onde todos cantaram a música LOVE IS MY LIFE acho que deveria ser mais bem produzido.

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    1. O show no Rio é citado na data errada: 1980. É o que aparece na TV enquanto Freddie dá o fora em Mary Austin.

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  3. O certo seria A Queen ou é O Queen mesmo?

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  4. Nesses 44 anos, nunca ouvi ninguém falar A Queen. Sempre O Queen.

    Em Portugal diz-se OS Queen, sabia?

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  5. O Mio Babbino Caro
    Então fui assistir gostei. É interessante como a gente tenta se localizar em cada momento da banda e sua rainha. Roger Taylor é foda...Não vi aquele sonhado encontro de gerações na plateia, só tinha coroa mesmo mas o que me chamou mesmo atenção foi o "som a redor" a cada cena gay ou beijo, os senhores testosterônicos na sala não tinham como disfarçar seu desconforto em tom ofegante ou suspiro acompanhado de ajeitar-se na poltrona. O retrocesso veio para ficar ou nunca tinha ido embora. Porque saber que nosso Fred era gay me consta que todos já sabiam. Mas querem acreditar que os tempos devem permanecer de invisibilidade...

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