terça-feira, 20 de novembro de 2018

CONSCIENTE DE QUE AINDA SOU RACISTA

Nunca me considerei uma pessoa racista. Mas, de um ano e pouco para cá, minha percepção sobre o que é ser negro no Brasil mudou bastante. A minha consciência negra aumentou, olha só que metido. Participei de debates em público e de tretas na internet, fui xingado e elogiado, e constatei que, por maior que seja a minha solidariedade, jamais farei a puta ideia do que é sofrer com o racismo todos os dias da sua vida. E descobri que eu também sou racista: existe um racismo residual dentro de mim, que não me foi inculcado diretamente por ninguém. Peguei por osmose no meu meio social. Não agrido nenhum negro, não trato ninguém diferente, não conto piadas, não faço nada do que os racistas de carteirinha fariam. Tampouco escapo pelas desculpas modernas, do tipo "os negros estão de mimimi, a culpa pelo preconceito é deles mesmos, chega de vitimismo", tão populares entre a nossa direita. Sou a a favor das cotas e de mais atores negros nas novelas, olha só que fofo. Mas o meu radar interno ainda assinala quando há alguém negro por perto. Alguém diferente de mim. Enquanto essa joça apitar, eu não posso dizer que esteja 100% livre de ser racista. Droga.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

ACHO QUE ISSO NÃO É AMOR

O fechamento da revista "White" foi notícia no mundo inteiro. A publicação australiana voltada para o mercado de casamentos vai sair de circulação por falta de patrocínio. Muitas marcas deixaram de anunciar lá depois que a "White" se recusou a incluir casais do mesmo sexo em suas páginas, mesmo depois da legalização do casamento igualitário na Austrália. Bem-feito: não acompanharam as mudanças do mundo, não têm mais lugar nele. Mas os editores da revista ainda se fizeram de vítimas, ao publicar uma longa carta de adeus onde dizem que só querem saber de amor. Nada de guerra cultural, nada de julgamento, só love love love. Entretanto, love de cu é rola. Amor não tem xongas a ver com homofobia. Ninguém pode dizer que discrimina o próximo em nome do amor. Vá pro inferno, "White", e reze para o seu deus que não existe te tirar de lá.

O NHOQUE DO AZAR


Demorou, mas finalmente Julia Roberts se rendeu às séries. E justo em uma que usa pouco o famoso sorrisão de um milhão de megawatts: sua personagem em "Homecoming" é uma ex-agente social taciturna, que não se lembra de nada do que aconteceu no centro de reabilitação de veteranos de guerra onde trabalhava. A história já foi contada em um podcast que era praticamente uma radionovela, com atores famosos, e sua adaptação para a TV ficou a cargo de Sam Esmail, o criador de "Mr. Robot". Ele conta de maneiras diferentes as duas épocas em que transcorre a ação. Quando Julia lida com os soldados recém-chegados do Iraque e do Afeganistão, a imagem ocupa a tela toda, a atriz sorri e seu cabelo está bem pintado e bem tratado. Já no futuro indeterminado em que ela trabalha como garçonete, o quadro se estreita (paredes se fechando?), a fotografia é mais "suja" e o cabelo de Julia parece um ninho de rato. Em comum, só a paleta de cores, que puxa para o marrom, e a trilha sonora grandiosa, que mistura peças clássicas e contemporâneas. O curioso é que cada um dos dez episódios dura cerca de meia hora: assim o mistério parece se desenrolar mais rápido, o que não chega a ser verdade. E o que está por trás dele? Dois pratos de nhoque, veja só. Achei que tudo se resolveria depois da entrada em cena da saborosa massa italiana, mas a Amazon Prime Video já renovou "Homecoming" para uma segunda temporada.

domingo, 18 de novembro de 2018

ESTÁ COM TUDO E NÃO ESTÁ PROSA


Que mané circo místico. O verdadeiro circo brasileiro, que dominou e alucinou durante décadas, foi o do Chacrinha. O apresentador ressuscitou de uns anos para cá, encarnando no cavalo Stepan Nercessian. Teve o musical, teve o especial da Globo e agora tem o filme de Andrucha Waddington. Só não vou repetir que Stepan está perfeito em "Chacrinha - O Velho Guerreiro" porque agora ele encontrou um rival à altura: Eduardo Streiblitch, que interpreta o jovem Abelardo Barbosa. Senti que faltou um tequinho de ousadia no roteiro e na realização, mas a recriação de época está daquelas que te tragam e não largam mais. Chacrinha jogava bacalhau na plateia, clamava pela mandioca da Maria Bethânia e humilhava seus calouros, tudo isto em plena ditadura militar.  Talvez seja por isto esteja sendo tão invocado, pois os tempos estão encaretando novamente. Ele está voltando a ser necessário.

NÃO, NÃO SEI SE É UM TRUQUE BANAL


Queria muito ter gostado de "O Grande Circo Místico". Pelo trailer, parecia um filme de encher os olhos: produção suntuosa, atores lindos, efeitos especiais. Pelo pedigree, dava para adivinhar o tamanho do desafio de Cacá Diegues: um poema de Jorge da Cunha Lima de 1938, que foi musicado por Edu Lobo e Chico Buarque em 1983. Nos últimos 35 anos, a obra foi montada como balé e como musical, mas, apesar da beleza das canções, nenhuma dessas encarnações jamais chegou a ser aclamada como uma obra-prima. Sinto dizer que o filme também não o será. Personagens e tramas do poema estão lá, costurados pela presença de uma nova figura: Celavi (Jesuíta Barbosa), o mestre-de-cerimônias que não envelhece nunca, meio inspirado no Emcee de "Cabaret". Mas alguma não coisa funciona. O diretor desperdiça uma cena de enorme impacto potencial, um parto em pleno picadeiro, com a plateia aplaudindo. O ritmo aumenta e diminui sem motivo algum, tornando algumas passagens rápidas demais e outras enfadonhas. Quase todo mundo tem um destino trágico, e a sequência final - as gêmeas trapezistas que flutam nuas no ar - perde o sentido de transcendência cristã que tinha no papel. Fico pensando se Cacá Diegues não deveria ter feito um filme lírico, surrealista, sem narrativa linear. Do jeito que está, parece uma minissérie da Globo super bem feita, mas muito cortada para caber na "Sessão da Tarde".

sábado, 17 de novembro de 2018

A SAUDIZAÇÃO DO BRASIL

Talvez o aspecto mais apavorante da onda troglodita que varre o Brasil seja a aversão à educação sexual nas escolas. É um misto de ignorância e má fé, e as consequências podem ser trágicas: uma explosão no número de meninas grávidas, além de uma geração inteira de gente mal resolvida com sua sexualidade. O Bozo espalhou as fake news de que um livro para pré-adolescentes estava sendo dado para crianças bem pequenas, e muito incauto acreditou. Agora vem essa deputada Rosinha da Adefal (Avante-AL),  propor a eliminação de qualquer conteúdo sobre o funcionamento do aparelho reprodutivo em sala de aula. Não se poderia falar sequer em masturbação, um tema "inadequado para adolescentes" (BERRO). Ela virou motivo de chacota do Oiapoque ao Chuí, e em breve não estará mais na Câmara: é suplente, e não foi reeleita para a próxima legislatura. Mas é um sintoma claro da boçalidade que nos permeia. Educação sexual nem deveria mais causar polêmica. Há estatísticas que provam que, onde ela existe, ocorrem menos abortos, o que deveria ser um objetivo dos evanjas (mas não é: o que eles querem mesmo é o controle da mulher pelo homem). Eu estudei a matéria nos anos 70, em colégio de padres beneditinos, então não venham me dizer que ela é conflitante com a Palavra do Senhor. E quem quer viver na Arábia Saudita?

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

A VOLTA DO TAMANDUÁ

O Tamanduá do Henfil sugava o cérebro das pessoas. Sugou o da Elis Regina, e a cantora se apresentou em um evento do exército no auge da ditadura militar (o cartunista não sabia que ela havia sido coagida pelos milicos, o que só foi revelado anos mais tarde). O Tamanduá também sugou os cérebros de Hebe Camargo, Roberto Carlos, Wilson Simonal, FHC e até o próprio Henfil. Depois vinha o Cabôco Mamadô e enterrava os mortos-vivos. Pois eles estão de volta, 30 anos depois da morte de seu criador. Muitos amigos meus foram vítimas do Tamanduá, e algumas celebridades também. Outro dia comentei aqui no blog o triste caso da Maitê Proença. Hoje é a vez do Carlos Vereza, que já interpretou Graciliano Ramos no cinema e agora se diz revoltado com a ideologia de gênero. A entrevista do ator naFolha parece ter sido dada do além, depois do apocalipse zumbi. Portanto, é bom ficar esperto: o Tamanduá também quer te pegar.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

LINDA E INQUEBRÁVEL


Prescisamos falar sobre Linn da Quebrada. Precisamos ver, discutir, prestigiar aquela que é, talvez, a artista mais importante do Brasil de hoje. Eu já tinha me impressionado com a desenvoltura da moça e a de seu sidekick Jup do Bairro no documentário "Abrindo o Armário", que monta um painel da moderna viadagem nacional. Em "Bixa Travesty", que abriu o 26o. Festival Mix Brasil, Linn tem um filme só para ela. E se expõe de todas as maneiras possíveis: toma banho com a mãe, as duas peladas, exibe as partes pudendas, aparece careca no hospital se tratando de um câncer. Às vezes é excessivo, às vezes é mais do que queríamos saber. Mas o excesso faz parte do show de Linn. Em cena, ela é uma Maria Bethânia pós-tudo, e ainda usa uma luva metálica que foi do Ney Matogrosso. Fora do palco, é uma figura inteligente, articulada e provocante, que esbanja autoestima e se afoga em fragilidades. Admito que não sou grande fã das músicas, se é que se pode chamá-las assim: estão mais para longos discursos com um beat atrás, sem melodia ou refrão. Mas a força das palavras e do visual é avassaladora. O filme de Claudia Priscilla e Kiko Goifman captura a explosão de uma supernova, que não vai estourar um hit no rádio nem tocar na trilha da novela, Nem por isso Linn da Quebrada deixa de ser fundamental. Dona do próprio corpo e carismática, ela também é um raio vívido de amor e esperança que à terra desce. Um país que produz Linn da Quebrada ainda tem jeito. Vamos precisar dela nos anos que vêm.

CHANCELARIA DA VERGONHA

Ao contrário do que muita gente pensa, o Brasil tem uma tradição de estabilidade e ponderação na diplomacia que independe do governante de plantão. Mesmo durante o regime militar, nossos ministros das Relações Exteriores sempre foram pessoas preparadíssimas, que buscavam o melhor interesse do país. Nem a besta-fera do Marco Aurélio Garcia conseguiu estragar a gestão de Celso Amorim, o mais longevo dos chanceleres. Aí vem o Bozo, dá ouvidos ao celerado do Olavo de Carvalho e nomeia um puxa-saco de Donald Trump para o Itamaraty, comprometendo nossa independência e nossa influência no mundo. As opiniões que Ernesto Araújo emite em seu blog "Metapolítica 17" são dignas da TFP. O cara usa termos absurdos como "climatismo" e "racialismo", e ainda fala em uma grande conspiração esquerdista que quer impedir o nascimento de bebês. É sério: antes que um bozominion consiga me atingir com uma lampadada na cabeça, acho que o governo do Biroliro vai me matar é de vergonha mesmo.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

VAI PRA CUBA

Tem muito comentarista novo aqui no blog me xingando de "comunista" (como se fosse uma ofensa). Mas quem me lê há mais tempo sabe que eu tenho horror à ditadura cubana. Os irmãos Castro construíram um regime resistente às intempéries, porque fizeram da cúpula do exército um de seus maiores beneficiários.  Minhas preferências políticas não me impedem de ficar chocado com o fim abrupto do programa Mais Médicos. Quase 80% dos municípios brasileiros ficarão sem atendimento médico nenhum se os doutores cubanos tiverem que voltar para casa. Cidadezinhas no Norte e no Nordeste, comunidades indígenas, periferias das metrópoles, vai tudo ficar ao deus-dará. Solnorabo, para variar, preferiu agradar seu ressentido eleitorado, que acha que FHC é marxista-leninista ou que a Folha pertence ao Lula. Mas a grita está tão sendo tão grande que eu não irei me espantar se o Bozoçalnaro, mais uma vez, mudar de opinião. É o que dá eleger um despreparado que não tem a puta ideia do que vai fazer.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

MAITENÇA

Há exatamente um ano, eu era um dos integrantes da bancada que sabatinou Maitê Proença no "Roda Viva". Saí impressionado com a desenvoltura e a coragem dela de abordar temas delicados. Mas hoje estou na dúvida: finalmente vi o vídeo da atriz que vem circulando há alguns dias, e fiquei tenso. Quero crer que Maitê, que tem livros publicados e peças montadas, se expressou mal ao dizer que o homem comum abriu mão dos direitos humanos para ter segurança, emprego e comida na mesa. Não vou nem comentar sua adesão ao governo do Bozo, do qual ela até foi cotada para ser ministra (mas já desmentiram). Deus queira que eu esteja errado e que Maitê, Regina Duarte, Eduardo Costa, Zezé Di Camargo, Antonia Fontenelle, Danilo Gentili e Alexandre Frota estejam certos.

O BAÚ DA BOÇALIDADE

Como que Silvio Santos conseguiu se excitar com Claudia Leitte durante o Teleton? A cantora parecia uma galinha participando do Outubro Rosa. Mas, como todo mundo sabe, a cultura do estupro não é exatamente sobre sexo: é sobre poder. E Silvio vem exercendo o seu à vontade, sem medo da reação da mídia nem da bronca de suas filhas. Hoje Danilo Gentilli saiu em defesa do patrão, alegando que ele faz "zueira" com todo mundo. OK, mas Gentilli sabe que, como homem, dificilmente as palavras de um zoador vão se transformar em atos concretos. Para as mulheres é diferente. Todas as que eu conheço - TODAS - começaram a ser assediadas antes mesmo da puberdade, e não são raras as que já sofreram algum tipo de violência sexual. É por isto que a maneira como SS trata seus convidados merece repúdio, por mais que esteja respaldada pelo clima boçal do próximo governo. É bom estarmos preparados.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

CAPITÃO MARVEL

Não sou mais fã super-heróis. Parei de ler os quadrinhos do gênero quando eu tinha uns 12 anos. E agora só vou vê-los no cinema quando é um filme-evento tipo "Pantera Negra". A Marvel saturou de tal forma o mercado que me sugu qualquer interesse pelos mascarados que querem salvar o mundo. Mas presto meu tributo a Stan Lee, que morreu nesta segunda. O cara foi um criador de universos, da estatura de Hergé ou Walt Disney. Que ele chegue ao Valhala com honras de chefe de estado, e que suas criaturas aqui na Terra reencontrem o caminho do Bem.

EU NÃO CONHEÇO, MAS EU DEDUZO

O Pedro HMC do canal Põe na Roda me convidou para um teste capcioso: será que eu, com mais de 500 anos de estrada, saberia o significado das gírias que as gueis novinhas usam hoje? Eu topei, e me saí inesperadamente bem. E não sabia que se tratava de um concurso: o malvado do Pedro fez as mesmas perguntas para outros três contemporâneos meus. Acabei me sagrando vencedor, com seis pontos de vantagem sobre o segundo colocado. Agora, pergunta se eu ganhei alguma coisa com isso? Nada: nem cachê, nem um jogo de panelas Meridional. Só alguns novos admiradores, que estão mandando comentários no YouTube.

domingo, 11 de novembro de 2018

AQUISIÇÃO RECENTE


Um sinal de vitalidade da cinematografia de um país é quando ele tem um filme que poderia perfeitamente concorrer ao Oscar, mas um outro foi escolhido em seu lugar. É o caso de "Museu", que estava cotado para representar o México no prêmio da Academia até ser ofuscado por "Roma". Nenhum demérito nisso: o longa de estreia de Alonso Ruizpalacios continua sendo ótimo. O diretor conta uma história linear, baseada em um caso real, mas usa experimentalismos aqui e ali, e o resultado é revigorante. Gael García Bernal faz um sujeito desavisado que convence um amigo mais parvo ainda a ajudá-lo num grande roubo no Museu de Antropologia, que, na década de 70, ainda não tinha um forte esquema de segurança. Os dois surrupiam cerca de 140 peças pré-colombianas, mas depois se veem com um problema: não têm para quem vendê-las. Nenhum colecionador quer chegar perto de um tesouro nacional. Com estrutura de "road movie", "Museu" ganhou o prêmio de melhor roteiro no último festival de Berlim, e posiciona Ruizpalacios como o próximo grande diretor vindo do México. Nada mau para um país que, dos últimos cinco Oscars de melhor direção, levou quatro. E ainda tem imagens de arquivo da entrada triunfal da estátua monumental de Tláloc, o deus da chuva, na Cidade do México, em 1963. O monólito foi desenterrado de uma vila do interior para adornar a entrada do museu, e está lá até hoje (visitei algumas vezes o lugar). Mas me decepcionei com essas imagens, que registram um dia de sol: sempre acreditei na lenda de que Tláloc tinha feito chover torrencialmente sobre o D.F., em plena estação seca.

sábado, 10 de novembro de 2018

BEIJA EU, TU, ELE...


Anitta começou seu plano de dominação mundial há cerca de dois anos. Até o momento, conseguiu ficar famosa em alguns lugares da América Latina e olhe lá. É o resultado de uma curiosa estratégia, que a faz gravar mais em espanhol do que em inglês. Além do mais, ela não lança uma música de impacto desde "Vai, Malandra", quase um ano atrás. Seu novo EP "Solo" traz faixas em três línguas diferentes, mas nenhuma tem jeito de hit. E o clipe de "Não Perco Meu Tempo", em que ela beija 24 pessoas diferentes, só causa escândalo nesses tempos bocós em que estamos vivendo. Será que Anitta desandou? Perdeu o bonde da história, ao relutar tanto em aderir ao #EleNão, só para ficar do lado que perdeu as eleições? Talento e carisma a moça tem, mas o repertório anda fraquinho demais. Falta-lhe um megahit planetário, talvez sem reggaetón nem feat. algum rapper colombiano. E falta-lhe uma atitude mais convincente: só posar de gostosa, não dá mais.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

LADY MAURA

"The Affair" já tem quatro temporadas disponíveis na Netflix, mas a série nunca gerou muito interesse aqui no Brasil. Pois deveria: é um drama dos bons, sem as apelações lacrimejantes de "This Is Us" e personagens bastante complexos. O meu favorito é Helen, a mulher que achava que estava com a vida resolvida até o marido traí-la com outra e destruir um casamento de décadas. Chata, obstinada, frágil, racional, Helen é odiosa e adorável ao mesmo tempo, e muito por culpa de Maura Tierney. A atriz fez sucesso nos anos 90 na ótima sitcom "Newsradio", mas nunca emplacou uma carreira sólida no cinema. Permaneceu dez anos em "E.R.", mas só em "The Affair" encontrou um desafio à sua altura. Em breve será vista na telona como a madrasta de Timothée Chalamet em "Querido Menino" (e só ela para desviar minha atenção do menino). Eu também tenho a sensação de que sempre cruzo com Maura na rua: quem mais acha que ela tem cara de brasileira?

O SILVIO SANTOS É COISA NOSSA

Se Silvio Santos fosse americano, sua vida já teria sido contada em dezenas de livros, dois filmes e uma minissérie de TV. Haveria até um ator premiado com o Oscar por interpretá-lo. Como ele é brasileiro, até pouco tempo só existiam seis biografias publicadas - ou melhor, hagiografias, em que o dono do SBT é tratado como um santo. "Topa Tudo por Dinheiro", de Mauricio Stycer, rompe essa tradição. Para começar, a obra não conta a trajetória de SS de forma linear. Cada capítulo realça um aspecto de sua atuação: animador de auditório, comerciante, empresário, aspirante a político, bajulador do governo de plantão. Passagens obscuras, como as candidaturas frustradas a cargos públicos, são esmiuçadas, com o apoio de uma vasta bibliografia e de depoimentos de testemunhas oculares (procurado pelo autor, o próprio Silvio se recusou a dar entrevista, como de costume). O retrato que emerge das páginas do livro está longe de ser lisonjeiro. Há desde passagens folclóricas, como a maneira com que SS muda os horários da grade de seu canal ou faz contratações absurdas, até episódios nebulosos (para dizer o mínimo) como a quebra do Banco Panamericano. Sou amigo do Stycer há mais de 20 anos e, quando ele me falou do projeto, apostei mentalmente que iria ter problemas. Um homem que se gaba de ter "autorizado" o comediante Ceará a imitá-lo (o que é uma bobagem total) não iria deixar barato, pensei eu. Só que, mais uma vez, Silvio nos surpreendeu a todos. Sem consultar a editora nem pedir a opinião de ninguém, como é de seu feitio, mandou o SBT produzir um comercial de 15 segundos sobre o livro, exibido durante três dias pela emissora. Tu-do de gra-ça. Como se fosse um perfume da Jequiti ou um carnê do Baú. Vai entender.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

IRMÃS INQUIETAS

"La Quietud" não tem nada de quieto. O novo filme do diretor argentino Pablo Trapero é um drama familiar rocambolesco, e foi o único título que eu consegui ver na repescagem da Mostra de SP. A trama é centrada na relação ultra próxima entre duas irmãs, feitas por Martina Gusman e Bérénice Bejo, de "O Artista" (em seu primeiro filme em espanhol em muitos anos). As atrizes são mesmo parecidas entre si, e eu cheguei a me confundir em algumas cenas. Para dar ideia de como elas são íntimas, o primeiro reencontro entre as duas descamba para uma sessão de masturbação que por pouco não vira um incesto lésbico. A mais velha, que mora em Paris, volta a Buenos Aires por causa do pai, que sofreu um AVC e está entre a vida e a morte. Sua estadia na Argentina  - principalmente na fazenda da família, que dá nome ao filme - se complica com a chegada do marido, a presença do amante e alguns segredos que vêm à tona. Pairando sobre tudo está a figura imponente da mãe, a soberba Graciela Borges, numa das melhores interpretações de sua longa carreira. "La Quietud" desvia para o drama político perto do final, e por alguns instantes eu fiquei sem saber qual era a meta de Trapero. Mas o desfecho retoma o mote principal, e de maneira satisfatória.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

HOMOMINIONS

Ontem, ao ser perguntado sobre a função de Magno Malta em seu governo, o Biroliro respondeu que o futuro ex-senador pode ir para um ainda inexistente Ministério da Família. Que faria exatamente o quê, hein? Mas isto não vai contra a ideia de cortar o número de ministérios na Esplanada? O Bozo ainda reiterou que a família "precisa ser defendida" (do quê? dele?) e que "família para mim é aquela que está prevista no artigo 226, parágrafo terceiro, da Constituição". Ou seja: eu, que estou casado com o mesmo homem há 28 anos, que ajudei a criar a filha dele e hoje os filhos dela me chamam de vovô - eu e eles não somos da mesma família, segundo um sujeito que está na terceira esposa e ameaçou de morte a segunda. Até aí, nenhuma novidade: todo mundo sempre soube que o Bostonazi é homofóbico, inclusive da boca dele. Menos, é claro, as guei que votaram nele. "Ãin, mas é só da boca pra fora..." Não interessa: presidente não pode agredir a minha família, nem verbalmente. "Ãin, mas o PT..." PT de cu é rola. O PT fez muito menos do que devia pelos LGBT nos 13 anos em que ficou no poder, mas nunca nos perseguiu. Só que os homominions não estão nem aí. Qualquer medida patrocinada por Magno Malta ou pelo próprio Solnorabo contra as famílias diversas não os afeta, e nunca os afetará. Sabe por quê? Por que eles sequer têm namorado. Tô falando sério: TODAS as bibas que eu conheço que votaram no Coiso estão encalhadas, e nenhuma teve até hoje um relacionamento realmente significativo. É gente que não veio ao mundo para ser amada. Não estou dizendo que absolutamente todos os gays que votaram no nosso inimigo comum são solteirões, mas os que EU CONHEÇO são. E eles permanecerão solteirões por todo a eternidade, cada vez mais solitários e amargos. Jamais constituirão família alguma, nem mesmo com um peixinho dourado. Catiça!

A ONDA AZUL

Não foi um tsunami. Os republicanos até aumentaram seu número de cadeiras no Senado, passando de 51 para 54 (mas eram poucas as que estavam em jogo). Beto O'Rourke, o democrata que causou sensação no Texas, chegou perto, mas não destronou o infame senador Ted Cruz. Mas, por mais que o Trump cante vitória, não dá para negar que uma onda azul, a cor do Partido Democrata, varreu os Estados Unidos de uma costa a outra. E há muitos casos individuais dignos de nota, como o de Jared Polis: o primeiro gay assumido eleito governador de estado (o Colorado). Ou as duas muçulmanas e a indígena eleitas deputadas, todas pioneiras. Ou a vitória acachapante da progressista Alexandria Ocasio-Cortez, que levou quase 80% dos votos de seu distrito de Nova York e agora é mais jovem congressista de todos os tempos (ela tem 29 anos). Ou seja: a maré conservadora, que acaba de bater com força no Brasil, começa refluir nos EUA. A vida de Trump não será mais tão fácil, agora que a oposição controla a Câmara. Mas o mais importante é o surgimento de uma nova geração de líderes, mais diversos do que nunca (e isto também já começou a acontecer por aqui).

terça-feira, 6 de novembro de 2018

PLAYING BECKETT

Hoje minha aula na Oficina de Dramaturgia nos Parlapatões foi inteirinha sobre Samuel Beckett. A professora Claudia Vasconcellos, especialista no autor, analisou todas as peças importantes e ilustrou algumas com vídeos. O mais impactante é esse aí em cima, com toda "Peça" - a tradução brasileira de "Play". A direção é do finado Anthony Minghella ("O Paciente Inglês") e o elenco inclui o também falecido Alan Rickman, além de Juliet Stevenson e minha queria Kristin Scott-Thomas. Vi uma montagem em 1986, dentro de "Katastrophé", um dos eventos teatrais daquele ano em SP, mas nunca mais cruzei com o texto. Que é ininteligível se você não souber do que se trata: marido, esposa e amante falam do triângulo amoroso que os uniu. Só que eles estão só com a cabeça para fora de urnas funerárias - talvez estejam mortos? Os personagens falam sozinhos, e depois repetem tudo de novo. Hoje minha aula na Oficina de Dramaturgia nos Parlapatões foi inteirinha sobre Samuel Beckett. A professora Claudia Vasconcellos, especialista no autor, analisou todas as peças importantes e ilustrou algumas com vídeos. O mais impactante é esse aí em cima, com toda "Peça" - a tradução brasileira de "Play". A direção é do finado Anthony Minghella ("O Paciente Inglês") e o elenco inclui o também falecido Alan Rickman, além de Juliet Stevenson e minha queria Kristin Scott-Thomas. Vi uma montagem em 1986...

NO ANO QUE VEM, EM JERUSALÉM

Muitos israelenses desconfiam do suposto amor que a extrema direita do mundo inteiro sente por seu país, e com razão. Tanto afeto não é pelos judeus, claro: é só para agradar ao eleitorado evangélico, que acredita que um Israel poderoso aceleraria a batalha de Armageddon, o apocalipse e a segunda vinda de Cristo. É só por isto que Trump transferiu a embaixada dos EUA de Tel-Aviv para Jerusalém, e é só por isto que seu macaco de imitação brasileiro quer fazer o mesmo. Acontece que, na vida real,  as bravatas têm preço, O governo do Bozo nem começou e ele já abriu uma crise com o mundo árabe, o que pode trazer consequências graves para a nossa balança comercial (só o Egito gasta quase cinco vezes mais em produtos brasileiros do que Israel). E, em mais uma amostra de despreparo, o Biroliro não quis responder a uma pergunta sobre o cancelamento da visita que uma comitiva egípcia faria ao Brasil. Porque ele simplesmente não sabia o que responder.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

NHAÍ, AMAPÔ!

Muitas bibas soltaram fogos ao saber que caiu no ENEM uma questão falando de pajubá, “o dialeto secreto dos gays e travestis”. Já o Bozo, para variar, soltou uma besteira sem ter a puta da ideia do que se tratava. "Não tem nada a ver, não mede conhecimento algum", vociferou o despreparado. Mede sim: como dá para ler aí ao lado, a pergunta não era para ver se o aluno sabe o que significa neca ou edí, mas sim por quê o pajubá pode ser considerado um dialeto. Mesmo quem nunca passou perto de um gay na vida seria capaz de responder, até porque a resposta está inserida no enunciado. No mais, acho que seria alvissareiro que os minions aprendessem pelo menos o básico do pajubá. Para não correr o risco de um mal-entendido que descambe numa giletada, na próxima vez que saírem com a Jackelayne.

UMA CASA NÃO É UM LARS


De tudo o que eu vi até hoje de Lars Von Trier, só gostei de um único filme: "Dogville", de 2003. Talvez porque seja o único em que uma mulher não é punida pelo simples fato de ser mulher. A misoginia do diretor é lendária, e ele dá curso solto a ela em "A Casa que Jack Construiu", que causou escândalo no último festival de Cannes. De fato, há muitas cenas horríveis (e quase todas estão no trailer), mas jura que alguém ainda se escandaliza com Von Trier? Metade do que ele fala ou diz é só para épater les bourgeois, e eu não sei se estou interessado na outra metade. Seu novo trabalho parece uma paródia dos anteriores: é como se algum engraçadinho resolvesse fazer um "spoof",  amontoando os clichês trierianos. Matt Dillon faz um serial killer, e somos obrigados a ver em detalhes todos os seus crimes pavorosos, desde que ele, quando criança, cortou a pata de um patinho. Dois gimmicks se repetem: imagens em P&B do pianista Glenn Gould em ação e a música "Fame", de David Bowie. Na terceira vez que qualquer um deles aparece, me deu um fartão daqueles. E toda a sequência final do Inferno de Dante, com Bruno Ganz fazendo o guia Virgílio, é oca e pretensiosa ao mesmo tempo. Das duas, uma: Lars Von Trier está tirando sarro de seus detratores, ou está exorcizando seus demônios. Ele podia estar roubando, podia estar matando, mas, ao invés disso, resolveu nos torturar com filmes que não são ruins, mas dificílimos de se ver.

domingo, 4 de novembro de 2018

AS TREVAS QUE SE APROXIMAM

Aposto que uma das primeiras medidas do próximo governo será algo na área de costumes, "em defesa da família". O Bozo vai proibir que as creches usem mamadeira de piroca, por exemplo: é fácil de aprovar, e quem é que vai ser contra? E vai dar a sensação aos minions de que agora sim, o Brasil está entrando nos eixos. Mas antes mesmo da posse já tem deputado querendo causar com iniciativas parecidas. Alan Rick (DEM-AC) soltou uma nota de protesto contra a série "Super Drags", que estreia dia 9 na Netflix: "Estamos presenciando mais um ataque às crianças às nossas crianças". Sim, um ataque por um programa para MAIORES DE 16 ANOS. Não duvido que o ilustre parlamentar saiba disso: ele só quer sinalizar ao seu eleitorado que está pegando em armas contra os supostos inimigos. Mas a zoação dos internautas foi tão grande que Rick já apagou seu tuíte equivocado. Um pouco mais grave é a proposta de Jesse de Farias Lopes (PSL-SC), que fez uma enquete em sua página no facebook perguntando se a galera seria a favor de uma lei proibindo beijos gays em público. O "não" ganhou com 80% dos votos e a pesquisa saiu do ar, mas talvez nem precisasse. Uma lei dessas seria declarada inconstitucional: se casais héteros podem se beijar em público, então gays também podem. Quer dizer, se o STF ainda tiver só 11 juízes, e não 21 como quer o Biroliro.

sábado, 3 de novembro de 2018

A NIGHT AT THE OPERA


O Queen é a maior paixão musical de toda a minha vida. Descobri a banda em 1974, na época do segundo disco, e nunca mais larguei. Acompanhei em tempo real todas as peripécias de Freddie, Brian, Roger e John. Eu estava no gramado do Morumbi em 1981, quando eles vieram ao Brasil pela primeira vez, e no Rock in Rio em 1985, quando vieram pela segunda. Sofri pacas quando Freddie morreu, em 1991. E li tudo que me caiu nas mãos sobre o maior de meus ídolos. Por tudo isto, foi com muita antecipação, mas também um certo receio, que eu fui ver "Bohemian Rhapsody", a cinebiografia chapa-branca de Farroukh Bulsara. E não é que eu gostei? O roteiro toma muitas liberdades dramáticas, e embaralha a ordem em que as músicas foram lançadas. O Queen não excursionou pelos EUA pela primeira vez em 1975 (já tinham ido no ano anterior, como número de abertura da turnê do Mott the Hoople), nem tocava "Fat-Bottomed Girls" nesses shows - essa canção, talvez a pior da carreira deles, só saiu em 1978. Tampouco foram os cariocas que inventaram de cantar "Love of My Life" em uníssono: isto já estava registrado no álbum ao vivo "Live Killers", de 1979, que saiu bem antes da banda pisar em terras brasileiras. Além do mais, não foi Freddie quem deu o pé em Mary Austin. Foi o contrário: chegou um ponto em que ela percebeu que havia perdido o namorado para o Vale (e Brian May escreveu "Save Me" inspirado no banzo do vocalista). Sem falar da maior licença poética de todas: Freddie não contou para os colegas que tinha AIDS logo antes do Live Aid, em 1985, porque ele só foi diagnosticado com a doença dois anos depois. Mas, apesar de todos esses deslizes que arrepiam um fã hardcore feito eu, "Bohemian Rhapsody" funciona muito bem. A trajetória de Freddie Mercury ganha uma curva dramática poderosa (o que nem sempre é visível na vida real), e até quem não conhece bem o Queen sai emocionado do cinema. As músicas, algumas quase cinquentenárias, não perderam o frescor nem a força - e a sala em que eu assisti estava lotada de gente nascida depois de "Made in Heaven", o disco póstumo de 1995. Acima de tudo, paira o verdadeiro champion dessa empreitada: Rami Malek, o ator de "Mr. Robot", que consegue capturar o gestual, o carisma e até o olhar de seu personagem. É um trabalho do nível do de Marion Cotillard em "Piaf", digno de todos os prêmios. "Bohemian Rhapsody" não é perfeito, mas é operático, impactante, meticulous and precise. Como toda a discografia do Queen. Como a própria carreira de Freddie. Até o mais chato dos fanáticos vai se entregar.

O RETORNO DA PRIMAVERA

O Bozo e seus minions têm a típica mentalidade de bully. Vivem fazendo arminha com as mãos, ameaçam jornalistas, dizem que tem que morrer mais gente. Mas é só alguém reagir que eles correm chorando para a tia. Não aguentam nem um clipe como "Primavera Fascista", que não tem imagens violentas. Ãin, a letra é pesada? É, e isto bastou para a minionzada reclamar para o YouTube, que tirou o vídeo do ar. Mas ele já está de volta, em vários canais: de qualquer forma, é bom ver logo, antes que removam de novo (e que tal alguém subir no Vimeo?). Pelo menos até o Biroliro começar a cagar na Presidência, vamos ser patrulhados por esses nenéns que não podem ser contrariados. Têm medo de cara feia, tadinhos.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

ALÉM DA MOSCA AZUL

Sérgio Moro estava exultante. O sorriso do futuro ministro da Justiça exalava energia suficiente para iluminar uma cidade de porte médio. O juiz não conseguia esconder sua euforia no voo que o levou de volta a Curitiba, depois de um pulinho no Rio para conversar com o Biroliro. Satisfeita, a mosca azul murmurou para si mesma: "missão cumprida".

Há pontos positivos na nomeação de Moro para uma superpasta que englobe a Justiça e a Segurança Pública. Ele é rigoroso, preparado e obstinado. Pode ser a salvação da Lava-Jato, que sempre corre perigo quando se aproxima de algum partido que não seja o PT. O homem de preto também pode estar pensando no próprio futuro: o cargo é um atalho para o STF, o sonho de qualquer magistrado (posso estar enganado, mas eu duvido que Moro pense em ser presidente).

Também há aspectos negativos, é claro. Moro jamais se livrará da suspeita de que recebeu um prêmio por ter ajudado a eleição do Bozo. Também reforça a narrativa ideal dos petistas, de que tudo não passou de uma manobra política e que Lula é um mártir inocente. E tem mais: como é que alguém que se diz tão probo aceita ficar sob as ordens de um notório defensor da tortura, além de racista, machista e homofóbico? Pouca surpresa aí: a mulher de Moro fez campanha pelo Solnorabo - e alguém tem dúvidas sobre o voto do próprio Moro?

Já nutri por Sérgio Moro a mesma admiração que muita gente ainda dedica a ele. Hoje vejo também um sujeito que adora um holofote, que torce a lei para atingir seus objetivos e que meio que acredita na própria lenda. Vejo sua entrada no próximo governo com apreensão, mas também com curiosidade. Só vou relaxar quando ele pegar Onyx Lorenzoni ou outro alguém da nova cúpula da República.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

SE ARREPENDIMENTO MATASSE

O mais legal da resistência ao presidente eleito é o clima de galhofa. Galera tá tirando sarro das tentativas da minionzada de intimidar quem não votou no Bozo: haja vista a quantidade de gemidão do zap que a trouxa da deputada catarinense recebeu em seu celular (quem mandou divulgar o número?). Uma das iniciativas mais engraçadas é o perfil "Bolsominions Arrependidos" do Instagram, que republica postagens reais de gente que percebeu que fez cagada domingo. Já tem mais de três mil seguidores e olha que hoje ainda é quinta. Solnorabo precisa ser vigiado a cada passo, e poucas armas são mais eficazes que o humor. Pelo menos, ainda estamos nos divertindo.

ROMANCE DA EMPREGADA


A Colonia Roma é um bairro tradicional da Cidade do México. Tem muitas casas do período chamado "Porfiriato": os quatro mandatos consecutivos de Porfírio Díaz, o presidente que antecedeu a Revolução Mexicana de 1910. São imóveis geminados, sem muita imponência do lado de fora, mas espaçosos e confortáveis por dentro. É num deles que se passa boa parte de "Roma", talvez a obra-prima de Alfonso Cuarón. O diretor volta a filmar em espanhol pela primeira vez desde o icônico "Y Tu Mamá Tambien", de 2001, em glorioso preto-e-branco. A direção de arte reconstrói o começo dos anos 70 em detalhes, e o design de som é de cair o queixo. O filme foi pensado para a tela grande, e só na finalização é que foi arrematado pela Netflix. Atingirá muito mais gente, mas quem conseguir assisti-lo no cinema vai aproveitar muito mais (eu vi no encerramento da Mostra de SP). A história da empregada doméstica que engravida do namorado enquanto a patroa se divorcia do marido vira um drama épico, e há pelo menos três sequências que merecem todos os prêmios: um incêndio florestal, uma perseguição dentro de uma loja e um quase afogamento. Yalitza Aparicio, que nunca havia atuado antes, está cotada para o Oscar, e pelo menos o troféu de filme em língua estrangeira parece já estar no papo. Lento e majestoso, "Roma" é mesmo tudo isso que dizem.