terça-feira, 30 de outubro de 2018

MOSTRUÁRIO D


Jamais serei um crítico de cinema respeitado, porque existe um tipo de filme super bem avaliado que simplesmente não me desce. Dramas longos, com tramas banais, pouca ou nenhuma música: até quando, Senhor? É o caso de "Em Chamas", exibido no Festival de Cannes e escolhido pela Coreia do Sul para disputar uma indicação ao próximo Oscar de filme em língua estrangeira. Um rapaz tímido e outro mais atirado disputam a mesma garota durante duas horas e meia. Só a desconcertante sequência final traz alguma energia, justificando o título do longa mas não o preço do ingresso. Até o momento, foi o pior filme que eu vi na Mostra de São Paulo.

"Cafarnaum", prêmio do júri em Cannes, é bem mais envolvente. É quase uma versão libanesa de "Pixote": um garoto pobre, vindo de uma família desestrutrada, vive nas ruas de Beirute e acaba sendo meio que adotado por uma imigrante etíope, tão miserável quanto ele. Sim, é um filme sobre crianças sofrendo, mas pelo menos não há a violência ensandecida da realidade brasileira. A diretora Nadine Labaki, que sempre fez filmes com pelo menos um pé na fofura, dessa vez radicalizou. Mas o desfecho otimista deixa perceber que se trata de um filme de mulher. Nada contra, tem horas em que mulher é muito bom.

"O Homem que Matou Dom Quixote" levou 25 anos para ser feito e o resultado é uma bagunça gloriosa. É deslumbrante de se ver: cenários, figurinos, efeitos, um turbilhão de cores impactantes. E ainda tem grandes interpretações. O veterano Jonathan Pryce não surpreende por estar ótimo como o "cavaleiro de triste figura", mas é Adam Driver  o feio-bonito que se tornou frequente nas telas de uns anos para cá - que tem a oportunidade de revelar novos lados de seu imenso talento. Mas o roteiro é um moinho de vento. Terry Gilliam jogou fora o que havia rodado com Johnny Depp e Jean Rochefort no começo da década, e mudou tudo: agora o protagonista é um diretor em crise criativa. De volta à Espanha para rodar um comercial, ele se lembra de seu primeiro filme, uma pretensiosa versão em P&B do clássico de Cervantes, e logo reencontra alguns dos atores com quem trabalhou. Mais logo ainda está confundindo ficção e realidade, tal como o famoso personagem, mas tudo não passa de uma gigantesca egotrip do diretor de "Brazil". Com diálogos bobos e soluções óbvias, o filme se arrasta, apesar da féerie visual. Vai ser mesmo o fracasso comercial que seus produtores originais tanto temiam.

9 comentários:

  1. Cinema morreu nos anos 90, caro Tony. Agora, é outra coisa... O próprio conceito de Mostra e Festival perdeu relevância na era digital. Cada resistência dos produtores e produtores em se entregar sem culpas à distribuição digital só faz que filmes certo não cheguem para as pessoas certas. Não por nada que a TV está dando golaços na sétima arte.

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    1. Concordo com o 00:10, Tony! Passou da hora dessas mostras ocorrerem 'on line', ainda que paralelamente, por preços camaradas. Queiramos ou não, insistir no formato do cinema tradicional é puro elitismo. Imagine a gay lá dos cafundós do interior podendo assistir aos filmes que você recomendou, agora mesmo.

      Já pensou em estruturar algo assim? Daria um excelente retorno (tanto de prestígio, quanto financeiro).

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  2. O Mio Babbino Caro
    Que dura, franca e corajosa constatação bom Tony.
    Mas você acredita que sejam as obras tipo aquelas empreitada de assistir "Berlin Alexanderplatz" do Fassbinder...

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    1. Hahahaha, adorei. Seria título perfeito para um post só sobre o filme "O Homem que Matou Dom Quixote".

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  4. Tony, já que você é letrado AND informado sobre todos os assuntos, me ajude aqui: ao contrário de você, eu *amo* filmes paradões, do tipo que alguém já descreveu como "filme de candelabro parado". A descrição é perfeita, e é exatamente isso que eu gosto. Então lhe pergunto: onde, em 2018, encontra-se isso? Antigamente as locadoras de DVD tinham coleções inteiras de cinema europeu, iraniano e afins, mas nesta transição para o streaming parece que a oferta minguou (e nem sei se locadora ainda existe, mas eu não tenho mais DVD). Não existe, digamos, Ingmar Bergman ou Kiarostami no Netflix, e os canais de filme da tv paga são um saco - eu não aguento os intervalos nem a ideia de ter que saber o dia e a hora certo do filme. Então onde encontrar estes filmões todos? Obrigado.

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    1. Boa pergunta. Eu, como titular da coluna Multitela, deveria saber respondê-la, mas não sei. Vou investigar.

      Enquanto isto, uma dica: o canal Arte 1 lança sua plataforma de VOD na próxima segunda-feira 05/11. Talvez haja filmes desse tipo lá.

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    2. legal, obrigado! (e honrado pela resposta) abcs.

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    3. Se você tiver Now, existe uma seção de filmes para alugar lá que colocaram o nome de "Filmes independentes", com vários filmes europeus interessantes, vale a pena dar uma olhada.

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