quarta-feira, 27 de junho de 2018

BOLA NÃO TEM LADO

Participei ontem à noite de um bate-papo na Livraria da Vila da Fradique Coutinho, aqui em São Paulo, no lançamento do livro "O Outro Lado da Bola", de Alvaro Campos, Alê Braga e Jean Diaz. O que é hoje uma "graphic novel" nasceu como um projeto de série de TV, que participou da mesma oficina da Globosat que eu, em 2013. Eu conhecia o roteiro do piloto, que não foi feito até hoje por pura miopia dos canais de TV e plataformas de streaming. Porque a história é ótima: um famoso jogador de futebol se vê forçado a sair do armário, depois de um acontecimento estrondoso em sua vida. E o debate que fez parte da noite de autógrafos falava justamente da homofobia no futebol. Além dos autores, também participaram a "peladeira" Stéfani (não guardei o sobrenome, perdão), do coletivo Pelado Real de futebol feminino, e o William de Lucca, o ativista LGBT que causou celeuma em março, ao tuitar sobre a homofobia de sua própria torcida, a do Palmeiras. A conversa foi ótima, com algumas perguntas do público presente, e muito esclarecedora. Porque vivemos em um país onde não só os jogadores não podem ser gays, como os próprios torcedores. E a homofobia é, na verdade, apenas uma fatia da pizza podre que é a relação dos brasileiros com o futebol. O que devia ser entretenimento e válvula de escape virou desculpa para violência atroz (lembram do sujeito que atirou uma privada do alto de um estádio, matando uma pessoa na rua?) e um ninho de corrupção, tanto na CBF como na FIFA. Claro que o Brasil é apenas um entre TODOS os países onde o futebol é homofóbico (e machista, e até racista - o que talvez melhore no dia em que tivermos um grande jogador negro, hahaha). Mas há esperança no ar. O comportamento exemplar das torcidas de seleções já eliminadas da Copa, como Irã e Panamá, é um alento. Assim como a moda que os japoneses lançaram e está se espalhando: limpar o estádio depois do jogo. Aos poucos, acho que está surgindo até no meio futebolístico a consciência de que o racismo, o machismo e a homofobia não são ruins apenas para suas vítimas imediatas, mas para toda a sociedade. Afinal, bola não tem lado - ou tem um lado só, e estamos todos nele.

13 comentários:

  1. O Mio Babbino o Caro
    Alentador é ler um post tão lúcido e humano como este. Realmente é lamentável ver uma paixão que pode ser tão bela se perder em ódio e ignorância.

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  2. Como sempre primoroso seu texto!

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  3. Não sei se entendi direito a parte que você diz "no dia em que tivermos um grande jogador negro". É uma ironia e você se refere ao fato de apesar do Pelé e outros jogadores negros, o racismo no futebol nunca deixou de existir? O mesmo se aplicaria se houvesse um grande jogador gay assumido?

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    1. Nem com um "hahaha" do lado você conseguiu entender que é ironia?

      Ou você realmente acha que eu nunca ouvi falar de Pelé?

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  4. Nossa, essa das 17:11 ganhou a taça!!

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  5. O problema de impor esse homem novo, tão limpinho e educado, idealizado por setores das Ciências Sociais, é desconsiderar a existência de uma natureza humana.

    Para quem acredita que podemos ser tão diferentes assim do que éramos na antiguidade clássica, na aurora da cristandade, no exército de Gengis Khan, ou nas touradas ibéricas, o comportamento humano seria socialmente construído. Só que não.

    Forçar a barra por idealismos desconectados do real tem servido de motivação para uma reação conservadora gigantesca, em todo o mundo ocidental. A ação irrefletida da esquerda marcusiana tornou-se o principal combustível da tão temida "extrema direita" e nem percebe isso.

    Agradecemos pela força!

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    1. "Agradecemos pela força": Ninguém deu força alguma para esses seus argumentos e de nada adianta esse seu inventário histórico querendo convencer que a saída para a humanidade é a barbarie.
      E lamento informar que essa reação conservadora é que vem contribuindo para o Declínio de "todo o mundo Ocidental". Olhe bem para a CHINA.
      G-

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    2. Desenhando:

      Agradecemos pela força (inconsciente) que a esquerda tem nos dado para que avancemos. A nosso ver, o declínio do mundo ocidental se deu por meio do "progressismo", mas isso está sendo corrigido.

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  6. 20:20 Todos aqui conhecem esse anônimo.
    G-

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  7. Mas os jogadores se abraçarem e se beijarem bastante no campo já pode. Pelo menos em partidas de grande tensão, como as da Copa, e em especial se o time está hesitante. Neymar e Thiago Silva se beijaram bastante, no ombro, após o gol desse no jogo com a Sérvia. E os abraços de dois a muitos jogadores chegam a ser padrão motel. Não deixa de ser um progresso.

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    1. 05:25 Raspas e restos já NÃO me imteresssam.
      G-

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  8. Quem sabe um dia, o racismo e a homofobia no futebol sejam como o mundial do Palmeiras.

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