sexta-feira, 18 de maio de 2018

A PARTE DO LEÃO

Passei um ano envolvido com uma produção de "O Leão no Inverno" que não vingou. Fiz uma tradução do maravilhoso texto de James Goldman, que já é um clássico do teatro contemporâneo. A peça se passa no Natal de 1183, na corte do rei inglês Henrique II. Especialmente para as festas, ele liberta sua mulher Eleonora - que está presa em um castelo por ter tramado contra o marido - e o que se segue é uma mistura fabulosa de conspiração política com episódio de sitcom. Sim, "O Leão no Inverno" é uma comédia, com tiradas impagáveis, apesar do amargor e das espadas em cena. Existem duas versões filmadas: o longa de 1968, que deu o Oscar a Katherine Hepburn, e o telefilme de 2003, que deu o Globo de Ouro a Glenn Close. Mas todos os papéis são bons, o que só aumenta o mistério dessa obra-prima, por mais de 50 anos, não ter sido montada no Brasil.

Já estávamos autorizados a captar recursos para o projeto quando soubemos que não só os direitos da peça haviam sido comprados por outros, como que também já havia uma montagem em andamento. Ontem fui assistir à pré-estreia dessa montagem em São Paulo, com uma certa apreensão: será que vou detestar? E se a montagem for sensacional, será que vou detestar ainda mais? Ah, o ciúme.

Prestei especial atenção à tradução de Marcos Daud. Ele manteve os nomes dos personagens no inglês original - inclusive com a pronúncia inglesa dos franceses Alaïs (que soa como "Élis") e Phillipe. Eu preferi verter todos os nomes para o português, porque dois dos filhos de Henrique II são conhecidos por aqui como Ricardo Coração de Leão e João Sem Terra. Mas o que me incomodou mesmo foi um erro crasso: lá pelas tantas, o rei diz que "não no meu relógio". O texto original é "not on my watch", que não tem nada a ver com relógios de pulso (aliás, inexistentes no século 12). Uma tradução ao pé da letra seria "não no meu turno". Em português mais corrente, "não enquanto eu estiver vivo" ou "não se eu puder evitar". Mas enfim, qual é o tradutor que nunca cometeu um deslize?

Mais grave é a concepção do diretor Ulysses Cruz. Alegando falta de verba, ele começa a encenação como se fosse um ensaio, com os atores já no palco antes do início do espetáculo (o que, para mim, quebra boa parte da magia do teatro) e, uma vez começado, com o texto na mão, como se não tivessem decorado. Cenários e figurinos feiosos também não ajudam a criar clima (mas a luz do Caetrano Vilela está linda, como de costume). Ulysses Cruz adere ao vício recorrente dos modernos diretores brasileiros: querem ser maiores que o texto, acrescentando percussão ao vivo, coreografias, efeitos, etc., que não servem ao autor (e, portanto, também não servem ao espectador). Já vi duas montagens brasileiras de "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?", por exemplo, que jogavam no lixo o texto do Albee. Aí vi uma encenação ortodoxa na Broadway e pirei...

Mesmo durando quase duas horas, sem intervalo, o texto sofreu alguns cortes importantes. Aí a culpa é do público nacional, que não tem saco para um espetáculo mais longo. Mesmo assim, os diálogos geniais de Goldman prevalecem. Ainda mais porque os dois atores principais, Regina Duarte e Leopoldo Pacheco, estão à altura do dramaturgo. Ela, então, está esplêndida, com tempos exatos de comédia e uma profunda compreensão do que está dizendo. Eu, que já impliquei com Regina outras vezes, agora virei seu súdito.

Dito tudo isso, este primeiro "O Leão no Inverno" brasleiro vale demais a pena. Quase todo o texto precioso de James Goldman está lá, na boca de dois gigantes das nossas artes cênicas. É a parte do leão, e não é pouca coisa, não.

28 comentários:

  1. Lembrei de uma vez ter lido sobre o “instituto relógio do mundo”.

    Esse post tá cheio de mágoa, espezinhando qualquer detalhe ou até os derrapões, mas eu teria feiro a mesma coisa se estivesse no seu lugar. E você sempre elogia quem se sobressai e merece reconhecimento. Justo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Discordo de vc, embora tenha Tony como ídolo, o q me faz suspeito, acho que a crítica dele não há absolutamente nada de amarga.

      Tony para mim é um dos melhores críticos de entretenimento em ação, só perde para Isabela Boscov da Veja, ô mulher gostosa de ler!

      Aliás o trecho do post que trata dos vícios dos diretores de teatro brasileiro me pegou em cheio, com as suas pretensões por uma inexistente genialidade, os diretores terminam afugentando o público.

      E quanto a peça em si, me lembro de flashes do filme rs que já passou na tv, e jamais desconfiei que se tratava de uma comédia. Lembro de ficar hipnotizado com a beleza daquela mulher envelhecida na cena linda em que a Katharine tira o véu e deixa cair os longos cabelos, no que, pelo que entendi com essa montagem, a atriz da personagem principal deve ser mais velha do que o ator principal.

      Tony, na sua montagem quem seriam os atores principais?

      Excluir
    2. Sim, Eleanor da Aquitânia era 10 anos mais velha que Henrique II. Ela havia sido amante do pai dele.

      No "Leão no Inverno", geralmente se escala uma atriz mais velha que o ator principal.

      Nosso projeto não tinha elenco definido. Algumas atrizes foram sondadas, e teve uma que participou de uma leitura. Engraçado que não lembramos da Regina Duarte, que está fantástica no papel.

      Excluir
    3. Tony é um leão ferido com um espinho que não escreve SEIS parágrafos de passive-aggressiveness porque está cheio de amor no coração.

      Excluir
  2. Não teria sido uma mancada fenomenal se debruçar sobre um texto por um ano cujos direitos não tinham sido comprados? Uma dúvida, vc se acha qualificado para traduzir peça de teatro ou foi uma aventura na cara de pau?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. 1) Eu não sabia que não tínhamos os direitos.

      2) Sim, eu me acho mais do que qualificado para traduzir teatro. Falo inglês fluentemente desde os 14 anos de idade e, como roteirista, tenho bom ouvido para diálogos.

      3) Sem cara de pau não se faz nada nessa vida.

      Excluir
    2. Obrigado pela resposta, também acho que cara de pau é metade de tudo na vida.

      Excluir
    3. Tony goes é mara!!!!

      Excluir
  3. Já vi o filme. O texto é bom. Agora, só um Off-Topic: essa operação gigantesca "a maior do mundo" realizada ontem contra a pornografia infantil, pra mim não passa de propaganda política em ano eleitoral, não engulo não. Quer coisa mais fácil do que prender possíveis algozes de criancinhas e ganhar a simpatia do povo. Essa é uma prática antiga usada por políticos, as chamadas "vice arrestings", na Paris de fins do século XIX e início do XX os alvos eram os bordéis; nos EUA dos anos 40 e 50 eram os gays; no Brasil do século XXI são os suspeitos de armazenar material proibido.
    PS1: os que vão presos sempre são peixes pequenos, porque todo mundo sabe que a prática do delito é velha conhecida dos poderosos de plantão, sejam eles da mídia, política, religião, forças armadas, etc...
    PS2: um abraço para o Magno Malta, o arauto da moral e dos bons costumes, o mais perfeito exemplo de verme da república.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. No caso propaganda política pra qual político? Não vi nenhum liderando o fato.

      Excluir
    2. Raul Jungmann é empregado de quem?

      Excluir
  4. Vou ver com certeza. Embora , só pra começar , tb deteste espetáculos teatrais com atores no palco, aquecendo, antes do início...Mas ontem fui ver Rita Pavone no Tom Brasil. Aos 72, canta muito. Sucessos italianos e em português inglês, espanhol e francês .Mas O final foi dramático . Gripada, com febre, ela desmaiou no palco . Saiu nos braços de um músico , correndo pros bastidores . Tentou voltar, depois de cinco minutos. E tornou a bambear . Amanhã tem show no Rio. Espero q se recupere.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que draminha...as bichas amam! Vai uma coitada desmaiar no ônibus por uma gripe, é assaltada ou coisa pior...poupe-me e poupe-nos.

      Excluir
  5. Tony, acompanho seu blog desde praticamente o começo, e sei que o foco em geral é em cultura e eventualmente polêmicas/militância gay. No entanto, reparo que não vejo mais posts sobre suas experiências no meio gay, sobre costumes gays, modinhas gays, comportamento gay e quem sabe sobre como os muitos subgrupos gays se movimentam e se relacionam entre si nesses tempos de redes sociais que exibem o orgulho gay e também a vaidade.
    Sua vida social gay, por assim dizer, deu lugar a calmaria?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Um pouco. Durante quase dez anos, eu saía todo sábado à noite. Hoje em dia saio umas quatro vezes por ano e olhe lá. Mas continuo tão militante como sempre.

      Excluir
    2. Tony. Não sai mais tanto por causa da qualidade dos lugares que decaiu, por causa da falta de segurança, da idade, da vida a dois ou do Netflix?

      Excluir
    3. A idade pesa, mas não no sentido de não aguentar o tranco. Simplesmente não me divirto tanto como já me diverti um dia. E a Netflix afeta tudo, até minhas idas ao cinema. "Devo ir e morrer na grana do ingresso, ou fico em casa vendo Netflix?".

      Excluir
    4. Entendo. Ultimamente só vou no cinema quando é para ir numa sala IMAX. Se for para ver numa sala comum, acho mais vantajoso assistir em casa mesmo.

      Excluir
    5. Natflix e seus filmes podres e documentarios flopados...ruim demais e olha que gosto de quase tudo.

      Excluir
    6. 14:23 O Netflix tb não me agrada muito. Uso mais o telecine play e o hbo go.

      Excluir
  6. Se ir ao cinema fosse só morrer na grana do ingresso era muito bom. Mas tem a absurda taxa de administração da compra pela internet, o escorchante estacionamento ou o uber, o assalto do baleiro - ainda que nada da abominável pipoca - e o inevitável rango ao final. Ou seja, atualmente ir ao cinema é programa caro e se o filme for ruim é tremendo mico.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fora as salas com o ar condionado cheio de acaros e o cheiro de mofo e o povo batendo papo, rindo alto, comendo fazendo barulho...parece que sairam para almocar ou jantar e o filme é mero detalhe, como uma tv ligada em um restaurante e falam alto e fazem barulho como se estivesem em suas casas...brasileiro anda muito mal educado.

      Excluir
    2. Tem coisa mais nojenta que aquelas pessoas que comem big mac dentro do cinema? Tenho vontade de vomitar na pessoa.

      Excluir
  7. hahaha "não no meu relógio" é de cair o c* da bunda.

    ResponderExcluir
  8. Q bibas chatas q reclamam de tudo...velhinhas q ñ chupam um pau a décadas...como disse a coitadinha das 14:20...poupem-me...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Lorenzetti: Já a senhora deixou bem claro no outro post que precisa pagar para conseguir um, né?

      Excluir
  9. Mas por que não escalaram o Kit Harington?!? Ficaria tão gracinha ele declamando: -Não no meu turno!

    ResponderExcluir
  10. Vi na estréia e gostei muito. Achei Regina e Leopoldo fantasticos

    ResponderExcluir