segunda-feira, 2 de abril de 2018

QUEM SÓ LÊ TÍTULO NÃO VÊ CORAÇÃO

Duas polêmicas agitam as redes sociais contra - pela enésima vez - a imprensa. Mais especificamente, contra dois jornalistas: Danilo Thomaz, da revista "Época", e Daniela Pessoa, da "Veja Rio". O primeiro assina uma matéria de capa sobre o PreP,  a pílula que previne a infecção pelo vírus HIV. A segunda escreveu uma reportagem, também de capa, sobre a volta triunfal de Gretchen ao topo do showbiz brasileiro. Daqui da Tailândia, não consegui ler na íntegra nenhum dos dois textos, mas o que deu me pareceu bem pesquisado e bem redigido. Só que o que incomodou os internautas não foram os textos, que têm muitas letras. A galera se eriçou mesmo por causa das chamadas. A "Vejinha" carioca estampou a capa ao lado, onde a rainha do bumbum aparece de frente e inesperadamente vestida. E a "Época", no cabeçalho da matéria, diz que "Eles (os gays) estão abandonando a camisinha, aumentando o risco de doenças sexualmente transmissíveis". Tanto Daniela quanto Danilo foram massacrados na rede (ela, inclusive, pela própria Gretchen). Mas quem jamais pisou numa redação não sabe que quase nunca são os repórteres que escrevem os títulos de seus artigos. São os editores, figuras que os leigos talvez nem saibam que existe. Além do mais, o pessoal tinha que ler o conteúdo antes de criticar a chamada (eu mesmo já apanhei muito por causa disso). E além do além do mais, a transmissão de DST, que havia caído com os preservativos, voltou a subir. Ah, Gretchen não tem mais, aos 60 anos, o corpo que tinha aos 20. Parabéns a você que chegou até aqui. Agora pode comentar.

5 comentários:

  1. Tony, nem sempre podemos concordar, não é mesmo?
    Eu discordo de você por alguns motivos.
    1) A matéria liga homossexualidade a um comportamento promíscuo. Há pessoas promíscuas entre gays e heterossexuais. O Tinder veio justamente demonstrar isso para os heteros, que fazem sexo com desconhecidos pela internet tanto quanto gays, sem mais obstáculos. Logo, o autor da reportagem é “corréu” neste caso, pois teve a intenção de fazer essa associação, fazendo uma pesquisa de campo fajuta e contando camisinhas no chão.

    2) Um dos grandes vetores do vírus HIV se chama “hétero na encolha”. Aquele cara que diz que é hétero, mas transa com homens. Por isso mesmo, todas as campanhas relativas ao HIV falam em “homens que fazem sexo com homens” (ou, HSH). Não só isso, mas em um momento em que discutimos “queer” e outras denominações menos taxativas e binárias, há pessoas que podem ter um encontro sexual com alguém do mesmo sexo e que, ainda assim, não se consideram homossexuais. A sexualidade humana é incrível. Nesse sentido, a reportagem ao associar PrEP a gays, acaba criando um obstáculo para quem não é gay tomar a medicação.

    3) Existe uma diferença entre causalidade e correlação. O uso de camisinhas vem diminuindo há muito mais tempo, muito antes de o PrEP se fazer disponível em farmácias brasileiras ou pelo SUS. Vem de uma falta de conscientização da população, em especialmente os mais jovens, que acham que não contrairão o vírus e que as terapias retrovirais tornam a pessoa HIV+ saudável tanto quanto outro indivíduo (HIV-). Logo, não existe uma correlação clara entre uso do PrEP e aumento de outras DSTs, algumas delas que têm se mostrado mais comuns entre héteros e em razão da resistência a antibióticos.

    Beijos e abraços,
    João

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Além da diminuição da preocupação dos jovens, héteros e gays, a popularização do prep nos EUA e França influenciou sim os hábitos dos gays. Outro fator a observar é que antes apenas nos filmes héteros os atores não utilizavam preservativos. Agora praticamente todos os estúdios divulgam com todas as letras os filmes gays que têm cena bareback. Duvido que todos esses filmes também não influenciam os hábitos daqueles que os assistem com frequência. Qualquer pessoa que está nos apps há muitos anos também nota a quantidade de perfis nos quais usuários colocam bareback como condição. Antes era tabu, coisas de ambientes mais específicos, alguns cidades, que por algum motivo os gays têm prática mais ousadas e por vezes mais 'arriscadas': São Francisco e Berlim são notórios. Noto, por experiência própria, que nos últimos 3 anos grande parte dos homens com quem saí tentaram escapar da camisinha e normalmente não saio com ninguém com menos de 40 anos e isso não acontecia antes. Penso que fazer sexo bareback uma vez ou outra possa ser um caminho sem volta para muitos. Aconteceu duas vezes comigo e posso dizer que achei muito melhor. Mas o estresse e preocuopaçao não valem a pena. Logo eu, que nunca fiz bareback com namorados cai na burrice de fazer com dois estranhos e fiquei naquela tensão de fazer profilaxia pos exposição uma vez e deixar passar na segunda vez. Isso porque moro em Portugal e as coisas são mais fáceis, exceto ao fato de não existir prep. Os hospitais apenas oferecem a medicação para pós exposição e infectados. Truvada nem é vendido em farmácias para quem quiser comprar com receita médica.

      Excluir
  2. A Greti disse pra Sonia Abraham que não ficou chateada com o título de capa da matéria, mas com a matéria que, segundo ela, tenta a denegrir, a colocar como alguém que do ostracismo de repente virou modinha, além de chamarem o marido de mestre de obras. A Greti sabe capitalizar em cima de polêmica, ela deve ter AMADO a capa, porque ela não tem exatamente uma carreira a zelar. Fazer um drama é parte da capitalização.

    ResponderExcluir
  3. Tony, por favor leia o posicionamento do CRT DST SP. https://www.facebook.com/notes/crt-dstaids-sp-centro-de-refer%C3%AAncia-e-treinamento-dstaids-sp/nota-conjunta-sobre-a-reportagem-da-revista-%C3%A9poca-sobre-prep/1625077424212219/

    ResponderExcluir
  4. Tony, veja esse vídeo.

    ela fala exatamente sobre isso em : 15:30

    https://www.youtube.com/watch?v=gbkwdcSr4iw

    "essas pessoas ja usavam preservativo antes..." pra usar a preps precisa se vincular ao sistema de saude;;;

    ResponderExcluir