terça-feira, 24 de abril de 2018

O GURU SEM FUTURO


Uma das minhas irmãs mais velhas foi sannyasin durante um bom tempo. Ela só se vestia em tons de vermelho e laranja, e chegou a mudar de nome. Como quase todos os seguidores do Baghwan Shree Rajneesh, o fervor dela não sobreviveu à morte do guru, em 1990. Foi graças a ela que eu comecei a ver  "Wild Wild Country" sem sair da estaca zero. O que foi bom, porque a série da Netflix não faz muita força ara ser didática. Os diretores optaram por usar um copioso material de arquivo e longos depoimentos dos envolvidos ainda vivos, mas dispensaram uma locução em off que poderia esclarecer melhor as coisas. Jamais ficamos sabendo quais eram os fundamentos ensinados pelo Baghwan (que, no final da vida, tentou um rebranding ao se rebatizar de Osho). Como que tanta gente se deixava hipnotizar pelo cara, enquanto outros tantos lhe tinham horror? Além disso, os seis episódios poderiam ter sido condensados em quatro, ou talvez em um documentário em longa-metragem. Mas nada disso diminui o impacto da história, quase surreal demais para ser verdadeira. Em 1981, fugindo de sua Índia natal por razões obscuras, Baghwan Shree Rajneesh adquiriu uma área considerável num canto remoto do estado americano do Oregon. A cidade mais próxima tinha 40 habitantes, quase todos velhos. Mas foram eles que se opuseram ferozmente à criação da comunidade de Rajneeshpuram, povoada por adeptos do "amor livre". Se fosse hoje, essa história esbarraria em questões como imigração e tolerância religiosa. Na época, quase descambou para um conflito armado, além de um misterioso episódio de envenenamento por salmonella. "Wild, Wild Country" vale como registro histórico, e também como um drama complexo sem heróis nem vilões claros.

5 comentários:

  1. "Se fosse hoje, essa história esbarraria em questões como imigração e tolerância religiosa."

    Fica a dica sobre o delírio pós moderno dos lacradores de plantão.

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  2. Boa tarde Tony, neste site aqui http://www.oregonlive.com/pacific-northwest-news/index.ssf/2018/03/read_the_oregonians_original_2.html tem a história contada na íntegra pelos jornais da época. Encontrei isso neste outro site aqui https://longform.org/ (o qual é muito bom e contém links para ótimos textos jornalísticos de várias fontes e épocas). Abraço!

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  3. Tony. Isso é fato. Tua família é uma das mais interessantes. Se fosse hoje, daria um reality show dos bons.

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  4. Tem pessoas que não gostam de ver a alegria de viver dos outros!!

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