sexta-feira, 31 de março de 2017

É AUTOGOLPE

A Venezuela não para de nos horrorizar com sua infinita capacidade de fazer as coisas piorarem, sem jamais atingir o ponto de ruptura. O que falta para eclodir a guerra civil? Depois do golpe que Nicolás Maduro deu ontem em seu próprio regime, o país jogou o "proto" pras cucuias e já pode ser chamado de ditadura sem nenhum paliativo. Só que agora já faltam itens básicos até para a classe alta (a que ainda não fugiu para Miami). O chavismo finalmente se despe de seu último véu democrático, provando que só respeita o resultado das eleições que ganha. E agora, quem vai ter a coragem de defendê-lo?

quinta-feira, 30 de março de 2017

CUNHENADO

Agora pode ficar interessante. A condenação de Eduardo Cunha periga fazê-lo perder de vez as estribeiras, pois é remota a chance de algum recurso libertá-lo. Daqui a alguns dias também deve ser julgada sua mulher; sem mais nada a perder, o ex-poderoso chefão talvez não queira mais nada - só vingança, vingança, vingança aos santos clamar. Também fica mais difícil para os petistas acusarem Sergio Moro de só perseguir Lula, e até de fazerem bullying virtual em quem for fotografado jantando com o juiz. Mas voltemos a Cunha: ele dificilmente ficará na cadeia os quinze anos a que ficou condenando, mas há outros inquéritos em curso. Sinto que já podemos considerá-lo fora do baralho, e para todo o sempre. Resta saber se sua punição servirá para dissuadir seus muitos seguidores.

ATOR AOS PEDAÇOS


Em quase dez anos de blog, nunca fiz um único post sobre M. Night Shyamalan. O motivo é simples: desde 2006, quando ele lançou o horrendo "A Dama na Água", eu simplesmente parei de ver os filmes desse diretor. E olha que eu adorei "O Sexto Sentido" - aliás, como quase toda a humanidade. Mas os trabalhos seguintes de Night (como ele é chamado no meio artístico) foram ficando cada vez mais bobos e previsíveis, apesar dos supostos finais-surpresa. Este ano ele voltou a liderar bilheterias com "Fragmentado" e, como dessa vez as críticas são boas, fiquei curioso para ver. Não me arrependi, mas tampouco gostei. O roteiro tem boas sacadas, embora ainda pareça ter sido escrito por um adolescente. O melhor mesmo é a interpretação de James McAvoy, que consegue transformar as múltiplas personalidades de seu personagem (são 23, mas nem todas aparecem) em pessoas completamente diferentes, sem a ajuda de perucas ou maquiagem. Ele seria indicado ao Oscar se "Fragmentado" fosse um filme sério. Não é: é só mais uma tolice, com um pé nas histórias em quadrinhos. Ah, e o final-surpresa? Só quem for muito fã e tiver na cabeça os antigos trabalhos de Shyamalan é que vai curtir. Eu não sou.

quarta-feira, 29 de março de 2017

ENTÃO DEITA E ACEITA EU

Quando o Silva surgiu, uns quatro anos atrás, ele não tinha uma persona obviamente gay, tipo Liniker ou Jaloo. Mas, aos poucos, foi se soltando e dando umas indiretas. Num clipe do ano passado, ele já aparecia beijando uma moça e um rapaz. Hoje lançou esse vídeo que é uma beijação da porra. Pena que Silva não apareça com seu próprio namorado, o que já causou celeuma na internet.

(Só depois de postar o clipe é quem soube que o cara que o Silva beija no final é o Arto Lindsay, um importante músico americano que há décadas frequenta a MPB. E esqueci de dizer que a dica do vídeo me foi passada pelo Alan Zanluchi)

Ó QUERIDA JOSÉPHINE

Quem foi a primeira grande diva negra? Não, tolinho, que mané Diana Ross. Foi Joséphine Baker, uma americana que conquistou primeiro Paris e depois o mundo inteiro. E isto em 1926, quando o rádio engatinhava. Joséphine não era exatamente cantora, apesar de ter deixado vários discos. Sua fama devia-se a seu jeito furioso de dançar, algo que as plateias europeias jamais tinham visto, combinado com irresistíveis charme e bom humor. Hoje em dia ela seria acusada de ridicularizar e hipersexualizar as mulheres negras: apresentava-se praticamente pelada, usando apenas com um colar e um saiote de cacho de banana, e era muito careteira (confira o vídeo abaixo). Mas foi uma desbravadora em sua época, muito mais racista do que a nossa. Mais tarde La Baker revelou-se uma grande humanista, ao adotar uma dezena de crianças das mais variadas raças. Eu já conhecia sua trajetória por alto, mas agora estou mergulhando nos detalhes com a graphic novel francesa que leva seu nome: um calhamaço com mais de 500 páginas. Beyoncé talvez nem saiba, mas é descendente direta dessa vedete espalhafatosa que acabou se tornando um dos maiores ícones do showbiz de todos os tempos.

terça-feira, 28 de março de 2017

CHECK-IN. RELAX. TAKE A SHOWER.

O título deste post era o slogan do "Psicose" de Gus Van Sant, que recriava quase que frame a frame o original de Hitchcock. Naquele remake de 1997, o papel de Marion Crane coube a Anne Heche, que havia acabado de revelar ao mundo seu namoro com Ellen DeGeneres. A famosa cena do chuveiro ganhou um indisfarçável sabor de "toma, sapatona!". Ontem foi exibido nos EUA o episódio de "Bates Motel" com a mesma sequência, dessa vez estrelada por Rihanna. Só que... Pare de ler por aqui se você não quiser spoilers. Ou clique logo no vídeo acima e participe da enquete: Ri-Ri merecia morrer por causa de "Anti"?

GRAÇAS ATEUS


Acho que eu realmente não prestava atenção ao noticiário nos anos 1990, porque nunca tinha ouvido falar de Madalyn Murray O'Hair. Talvez porque o sequestro dessa militante ateísta, junto com o filho e a neta, não tenha sido investigado pela polícia de imediato; talvez porque só descobriram o que de fato aconteceu com os três muitos tempo depois. Esse caso chocante acaba de ganhar um filme disponível na Netflix, "A Mulher Mais Odiada dos Estados Unidos", que é mais instrutivo do que divertido. Madalyn se revoltou contra o fato das escolas públicas americanas obrigarem todos os alunos a rezar antes das aulas, não importava a religião deles. Abriu um processo que foi parar na Suprema Corte que, em 1963, decidiu pelo óbvio: a constituição garante a plena liberdade religiosa, inclusive o direito de não ter religião. Claro que isto rendeu a ela milhões de inimigos, e também milhões de dólares vindos de doadores. Dona de um temperamento explosivo (ela rasgava bíblias na TV, não exatamente uma estratégia inteligente), Madalyn também era uma aproveitadora: abriu uma conta secreta na Nova Zelândia para desviar uma graninha para si mesma, um autentico caixa dois. Melissa Leo está fenomenal no papel principal, mas o filme alterna tanto entre o horror e a ironia que fica difícil o espectador se envolver mais. Fica, no entanto, a lição: neste exato momento, os evangélicos estão realizando cultos em espaços públicos por todo Brasil, e precisamos de gente como Madalyn Murray O'Hair para barrar a teocracia.

segunda-feira, 27 de março de 2017

A GAIOLA DESCONECTADA

A lei garante que mães de crianças com menos de 12 anos cumpram prisão domiciliar. Mas o que mais revolta no caso de Adriana Ancelmo é que milhares de outras mães continuam presas, tendo cometido crimes muito menos graves que ela e seu marido gângster. Também causam espanto as condições impostas pela Justiça: o apartamento da família Cabral não pode ter telefone fixo nem internet. Mas pode ter celular? E se o celular for um smartphone? E se alguém passar mal? O socorro tem que ser pedido aos gritos? O que me consola é que o filho mais novo de Adriana já tem 10 anos. Em 2019, ela volta para a cadeia.

O PATO VAZIO

Dessa vez nem fui espiar. Apesar de morar a uma quadra da Paulista, neste domingo não tive sequer a curiosidade de conferir a manifestação. Isto não quer dizer que eu seja contra a Lava-Jato ou a favor do voto em lista, é claro. Mas a pauta difusa - que protestava até contra o Estatuto do Desarmamento, um descalabro absoluto - fez com que muita gente não arredasse o pé de casa. Acho que estamos nos dando conta de que o apelo de movimentos como o MBL é bem menor do que parecia ser no ano passado. Também vivemos uma certa ressaca de passeatas: a fúria de 2013, que juntou tantas demandas diferentes, passa longe do momento presente, que no entanto é bem mais grave que o de então. O perigo é essa apatia se prolongar até as eleições do ano que vem e reelegermos mais dos mesmos. Aliás, como fizemos em 2014.

domingo, 26 de março de 2017

DRIVE BOY DOG BOY


Fui rever "Trainspotting" para me preparar para a continuação. Tenho o DVD há anos, mas só tinha visto quando passou no cinema, em 1996. E tive uma grata surpresa: o filme não envelheceu um segundo, continua vibrante e vital. É mais engraçado do que eu lembrava, com tiradas de humor negro e escatológico, mas também super trágico (claro que do bebê eu me lembrava bem). Já "T2 Trainspotting" é bom, mas podia ser mais curto e mais coeso. Nenhum dos dois longas tem exatamente uma história: são quase que coleções de esquetes sobre uma turma de amigos mucho locos. Nesta segunda parte, um deles - o violentíssimo Franco, feito pelo ótimo Robert Carlyle - agora trocou de lado, exercendo com garbo o papel de vilão. Os outros continuam mais ou menos como eram, apesar da heroína não ter mais o protagonismo na vida deles que tinha antes (mas ela ainda está lá - ô se tá). Há muitos momentos engraçados, mas paira uma melancolia no ar. Porque "T2" não deixa de ser um tratado sobre a passagem do tempo e o fim da juventude. A vida passou rápido para os drogadictos de Edinburgh: oportunidades se perderam, sonhos desmoronaram, looks se foram. Mas continua o desejo pela vida e a paixão pela música. Quando entra uma nova versão de "Born Slippy", então, tive que me conter para não sair gritando mega mega white thing lager lager lager.

sábado, 25 de março de 2017

DISCRETOS TÊM QUE SER OS BURROS

Não vou mais entrar em treta com estranhos no Facebook. Não vou mais entrar em treta com estranhos no Facebook. Não vou mais entrar em tr... epa, alá um estranho falando merda! E assim entrei numa treta logo cedo neste sábado, ainda antes do café da manhã. Minha querida Mariliz Pereira Jorge linkou sua coluna de hoje na Folha, criticando as declarações homofóbicas de Eurico Miranda. O presidente do Vasco defecou que "não tenho nada contra homossexual, mas contra veado", "Sou contra o gay espalhafatoso. Todos têm direito de ter a sua opção. Só não pode agredir o outro" e "O cara espalhafatoso me agride". Coitadinho, não é mesmo? Uma bicha louca deve doer tanto nele quanto uma lampadada na cabeça. Bom, o texto da Mariliz é sobre a quase nenhuma reação que essas barbaridades tiveram, sinal de que muita gente pensa como Eurico. E não é que veio uma fulana dizer que "meio que concorda" com esse troglodita? Para quê, não é mesmo? O sangue me ferveu e eu me meti na discussão, ainda que com mais comedimento do que nos  velhos tempos. A tal da mulher ainda tentou se safar com a clássica "é minha opinião, nem todos são obrigados a gostar de jiló", como se hortaliças e gente que apanha por ser o que é  fossem a mesma coisa. Pois eu não gosto de burros e preconceituosos: eles me agridem, e acho que não deviam deixar sua ignorância transparecer.

sexta-feira, 24 de março de 2017

DESÉSPERO

Em outras eras, eu estaria descascando o Ronaldo Ésper num post bem malcriado. Mas o tempo nos traz, se não sabedoria, pelo menos compaixão. O estilista não só se converteu à Igreja Universal do Reino de Deus como declarou que não é mais homossexual, "por minha força de vontade". Na mesma entrevista, Ésper também disse que "ninguém se cura disso", dando a entender que o desejo ainda está lá: ele só não está praticando. E acrescentou que não só já tentou o suicídio, mas que hoje é "um homem solitário, e mais nada". Morri de peninha... Ele e Clodovil vêm de uma geração em que era quase impensável dois homens viverem juntos e, até onde eu sei, nenhum dos dois jamais viveu um casamento. Clodovil morreu só e amargurado; se Ronaldo Ésper encontra algum conforto entre os gananciosos bispos da IURD, então good for him. Pelo menos ele já avisou que seus trejeitos não têm jeito.

CRENTE QUE EU ESTOU FERVENDO

Tenho recebido uma enxurrada de solicitações de amizade no Facebook, muito mais do que de costume. Ainda não sei a que se deve isto, mas não é porque eu virei famosinho de uma hora para a outra. A imensa maioria não faz a puta ideia de quem eu seja e muitos só querem ficar enchendo o saco no Messenger: "de onde vc tc? Gosta de tc?" Não, odeio tc e odeio quem não tem mais o que fazer além de novos amigos. Sempre foi minha política aceitar todo mundo, mas de uns tempos para cá comecei a recusar e até a bloquear os mais inconvenientes. Como a pobre velhinha gaúcha que encheu minha caixa postal de madrugada (ping! ping! ping!) com pérolas do humor neopentecostal, como essa aí acima. Vou para o inferno?

quinta-feira, 23 de março de 2017

PARA QUE TÁ FEIO

Não é de hoje que Gilmar Mendes envergonha a si mesmo. O processo que ele move contra Monica Iozzi, que retuitou um meme que o criticava por ter libertado Roger Abdelmassih, já é um vexame indigno de um ministro do STF. Mas sua recente declaração de que o vazamento de alguns nomes da  delação da Odebrecht pode melar a investigação deixa claríssimo de que lado ele está. Some-se a isto os jantarzinhos com Temer, o Velho, e vemos um juiz empenhado em "estancar a sangria" dentro do próprio Supremo. E ele não está sozinho: além da ajuda eventual de Toffoli e Lewandwski, Gilmar agora pode contar com Alexandre de Moraes, que está chegando cheio de amor pra dar.

quarta-feira, 22 de março de 2017

BOLICHE HUMANO

Por mais câmeras e detectores que se instalem, por mais soldados que se ponham na rua, é praticamente impossível impedir um ataque como o que aconteceu hoje em Londres. Foi pelo menos o terceiro motorista que saiu atropelando pedestres (o primeiro episódio do gênero foi em Nice, no 14 de julho do ano passado; o segundo, em Berlim, no Natal). Mesmo que se isolem áreas sensíveis como o entorno do Parlamento britânico, não dá para proteger uma cidade inteira desses malucos que jogam boliche com seres humanos. A única solução é mais inteligência - ou, em português castiço, mais espionagem. Por isto, não fico nem um pouco melindrado em saber que os EUA (e todos as grandes potências, não tenha dúvida) agora podem xeretar o interior das casas através de smart TVs. Prefiro que me vejam pelado do que morrer num atentado.

O PAPELÃO DA PF

A Polícia Federal tem que calibrar melhor a maneira como divulga suas atividades e evitar ataques de estrelismo. As frequentes pisadas no tomate abrem um flanco extremamente vulnerável e podem fazer ruir todo o esforço gasto na Lava-Jato. O escândalo da carne adulterada é um exemplo: cada vez mais especialistas estão esclarecendo que não, não se mistura papelão no produto. O que houve foi um telefonema grampeado mal-entendido pelos policiais, e que só serviu  para espalhar pânico e desinformação. Mas, como diz a professora Simone G. de Lima num textão no Facebook que está viralizando, essa mancada não pode ser o pretexto para melar a operação Carne Fraca. Tem mesmo muita maracutaia no setor, que deve ser investigada e punida. Mas para isso a PF precisa tomar tento.

terça-feira, 21 de março de 2017

HERMANOS E RIVAIS


Os argentinos torraram o nosso saco na Copa de 2014 cantando "Decíme Qué Se Siente". O lado bom é que essa musiquinha inspirou o filme "La Vingança", uma rara co-produção entre Brasil e Argentina, e que foi exibida por lá com o título que tanto nos espezinhou. Trata-se de uma comédia romântica concebida por homens, para homens (mas as mulheres também vão se divertir). Porque aqui o objetivo não é reconquistar o amor perdido, mas sim lavar a honra e pegar geral. Um cara é corneado pela namorada com um chef de cozinha portenho; seu melhor amigo (Daniel Furlan, de fazer xixi na calça de tão engraçado) o convence a ir até Buenos Aires num carro velho e se "vingar" comendo o maior número possível de argentinas. Claro que dá tudo errado, mas também dá certo. Nossa rivalidade histórica com os vizinhos do sul é bem explorada, mas não a ponto de virar a piada única dos comerciais de cerveja. Também fica clara a admiração que sentimos mutuamente - afinal, costumamos ser os primeiros destinos internacionais uns dos outros. "La Vingança" é um road movie irreverente, bem distante das comédias bobas que vão bem nas bilheterias brasileiras. Um filme tão bom que até parece... argentino.

FAXINA ÉTNICA


Muita gente acha que "Moonlight" só levou o Oscar porque o protagonista é pobre, negro e gay. Não vou negar as qualidades do filme, mas o momento político - ressaca do #OscarSoWhite + governo Trump - obviamente ajudou. Mais intrigante para mim é a vitória de "Fatima" no César do ano passado. Talvez porque não houvesse um favorito, e premiar a história da faxineira argelina que mal fala francês serviu para aliviar a culpa coletiva. Mas "história" é bondade minha: acontece muita pouca coisa ao longo de enxutos 80 minutos, e o final abrupto me deu a sensação de ter visto uma obra inacabada. Não recomendo.

segunda-feira, 20 de março de 2017

O GRITO DA MODA


Richard Spencer, um conhecido neonazista americano, disse que o Depeche Mode era "a banda oficial da alt-right". É verdade que os veteranos do pop eletrônico já usaram imagens que remetem ao fascismo em alguns momentos da carreira, mas isto não quer dizer que eles apoiem o ideário da extrema-direita. O novo disco, aliás, deixa isso claríssimo: "Spirit" é o trabalho mais explicitamente político do DM em seus mais de 30 anos de carreira. O single "Where's the Revolution" é o primeiro hino da era da pós-verdade, e muitas outras faixas lamentam o retrocesso pelo que o mundo passa hoje. Musicalmente, Dave Gahan e sua turma não estão muito diferentes: talvez mais melódicos que nos discos recentes, mas sem maiores novidades. Não sou fanático pelo Depeche Mode como o Daniel Cassús, mas acho que me animo a vê-los de novo (acabam de anunciar que voltarão ao Brasil este ano). Eu estava lá, no único show que os caras fizeram em SP, em 1994.

(O Estadão fez um infográfico incrível  com toda a história e as influências do DM)

A BELA E A BICHA


O tal do "momento exclusivamente gay" de LeFou na nova versão de "A Bela e a Fera" na verdade são dois: tem um no meio do filme e outro no finalzinho, tão rápidos que você perde se piscar. Nem era o caso para boicote, que, de qualquer forma, já fracassou. Recordes de bilheteria estão sendo quebrados no mundo inteiro. Muito mais ostensivo é o clima bicha-velha que impregna todo o longa. Tem coisa mais gay do que objets d'art que cantam e dançam em números inspirados nos musicais de Busby Berkeley? A direção de arte é deslumbrante, e os efeitos especiais só pecam na caracterização da própria fera. Emma Watson - que recusou "La La Land" para viver Belle - canta bem e manda bem, mas continua sendo uma garota (enquanto que sua xará Emma Stone, só dois anos mais velha, já é uma mulher). No elenco de apoio, Emma Thompson chega a soar como Julie Andrews na canção-título. Mas, fora a viadagem desenfreada, não há muito a acrescentar ao desenho animado de 1991. Só o fato de que as crianças que o viram na época agora são adultos, dispostos a gastar uma graninha para revisitar suas infâncias.

domingo, 19 de março de 2017

PIROU NO NEGÃO, PIROU

A morte de Chuck Berry me fez lembrar da versão de "Johnny B. Goode" que João Penca e os Miquinhos Amestrados fizeram nos anos 80. A banda do Leo Jaime não era oficialmente viada (apesar de também ter cometido "Telma Eu Não Sou Gay") e esses sucessos tocavam no rádio e na TV sem a menor reclamação. Ah, bons tempos em que ouvíamos coisas mais legais que Simaraia e Marionça.

sábado, 18 de março de 2017

UM A ZERO ZERO

Fechou o 00, um dos lugares mais legais que o Rio jamais teve em qualquer época. E fechou de repente, pois havia festas programadas para este fim de semana. Mas a bola era meio cantada: esta notinha de O Globo de um mês atrás dizia que a casa da Gávea teria que "mudar a proposta" (gay) se quisesse continuar funcionando depois de março, quando venceu o contrato de locação. Porque o 00 ocupava um espaço contíguo ao Planetário, num terreno que pertence à Prefeitura. E quem é mesmo o novo prefeito da cidade?... Pois é, começou a cruzada moralista do Crivella. Meu coração sangra, mas o que é que os cariocas esperavam quando elegeram um bispo?

(Mais detalhes sobre o fechamento do 00 aqui, no Vipado)

sexta-feira, 17 de março de 2017

CARNE TRÊMULA

Sei não, mas esse escândalo da carne adulterada pode ter consequências políticas muito mais devastadoras do que qualquer Lava-Jato. É muito mais fácil se chocar com o fato de que comemos papelão com toxinas do que entender um esquema de caixa-dois. PMDB e PP, já tão emporcalhados por outras mamatas, agora estão sendo grelhados em fogo alto. Este cheiro de queimado que estamos sentindo vem do fiofó desses apavorados senhores.

HOLOCAUSTO ALTERNATIVO


Na primeira vez em que ouvi falar de negacionistas do Holocausto, não acreditei. Como que alguém pode refutar um fato histórico fartamente documentado, testemunhado por centenas de sobreviventes? Bom, acontece que o registro material do massacre dos judeus e outras minorias pelos nazistas não é tão abundante assim. Não existem fotos das câmeras de gás lotadas, pela mais óbvia das razões: quem iria deixar fazerem essas fotos? Mesmo assim, há indícios mais do que suficientes da matança nos campos de concentração e, acima tudo, o relato dos que conseguiram escapar. Mas no mundo da pós-verdade cada uma credita no que quiser, e sempre há quem apresente "provas" do que quer que seja. É por isto que "Negação" é um filme tão importante para os dias que correm, apesar de relatar um caso acontecido há quase 20 anos: um negacionista inglês processou uma historiadora americana que o ridicularizou em seus livros. A mulher saiu vencedora, mas é de se questionar se também não forneceu holofotes a seu desafeto, que arrebanhou ainda mais seguidores. "Negação" não tem efeitos especiais nem cenas de luta física (só verbal), mas é um pitéu para quem não se recusa a pensar dentro de uma sala de cinema. E ainda tem uma performance esplêndida do ator britânico Timothy Spall, quase irreconhecível por trás de uma careta permanente.

quinta-feira, 16 de março de 2017

LISTA D'UH

Nenhuma grande surpresa na nova lista do Janot. Os usual suspects estão todos lá. Mas quase todos têm foro privilegiado, o que quer dizer que serão julgados lá por 2130. Mais fácil escorraçá-los do poder em 2018. Só que a corja já fala em aprovar a toque de caixa o famigerado voto em lista, onde o eleitor escolhe apenas o partido. Os caciques é que determinam quem vêm na frente, ou seja... eles mesmos. Portanto, só há um jeito de eliminá-los. É votar em partidos que não estejam envolvidos na Lava-Jato. Dãããã.

O MENINO COM O DEDO NO DIQUE

Ufa. Ao contrário do que previam os arautos do apocalipse, a extrema-direita não saiu vencedora nas eleições holandesas. Não foi exatamente derrotada: o PVV, partido do alucinado Geert Wilders, ganhou 19 cadeiras no parlamento, o mesmo que outras duas agremiações. Mas dificilmente fará parte da próxima coalizão que governará o país. Quem se deu bem foi o atual primeiro-ministro, Mark Rutte, cujo VVD levou 32 dos 152 assentos disponíveis - bem menos do que da última vez mas, provavelmente, o suficiente para se manter no poder. Eu, que nunca tinha ouvido falar do cara até semana passada (alguém por aqui se interessa pela política holandesa?), agora virei fã de carteirinha. Ele disse que a população do país deu "basta ao populismo errado" - o que levanta a questão, existe populismo certo? A médio prazo, os populistas só dividem a sociedade. Esse resultado mostra que a onda xenófoba-boçalista existe e é uma força considerável, mas que não está a ponto de conquistar todos os países civilizados. O que aconteceu nos EUA foi um acidente: é sempre bom lembrar que Trump só foi eleito graças ao arcaico sistema americano, pois perdeu de longe no voto popular. Agora é torcer para que a França mantenha a racionalidade no pleito de abril e, em setembro, a Alemanha.

Reza uma antiga lenda holandesa que um garoto chamado Hans Brinker teria descoberto uma rachadura num dique. Ele então passou a noite inteira com o dedo enfiado no buraco, enfrentando frio, fome, sono e sede, até receber ajuda na manhã seguinte. Com este ato de bravura, impediu o rompimento da barragem e salvou sua aldeia. Será que, no futuro, a vitória de Mark Rutte será comparada à história do menino com o dedo no dique?

quarta-feira, 15 de março de 2017

CÉÉÉREBRO

Li dois livros do Reza Aslan e me tornei fã do cara. O primeiro, "No god but God", é uma breve história do islamismo. O autor, nascido no Irã mas radicado desde pequeno nos Estados, se converteu depois de adulto à fé de seus antepassados, e se tornou um dos maiores estudiosos de religião do mundo. Isso o credenciou a escrever "Zelota", o outro de seus livros que eu li - uma biografia de Jesus Cristo que causou furor na direita americana por ter sido cometida por um muçulmano. Hoje Aslan é quase um popstar, com uma badalada conta no Twitter e um programa na CNN chamado "Believers". Que já provocou celeuma com seu primeiro episódio: Aslan foi visitar na Índia uma seita marginal do hinduísmo, os aghori, que, entre outras coisas, comem carne humana. Calma lá, eles não cozinham ninguém em caldeirões: apenas consomem os cadáveres de quem teve morte natural. O apresentador compartilhou dessa prática milenar e degustou um cérebro humano bem torradinho em frente as câmeras. Foi o que bastou para  a direita acusar a CNN, "inimiga" de Trump, de apelar para o sensacionalismo mais barato, e para a esquerda acusar Aslan de incentivar o racismo contra os hindus. Acontece que ele não inventou nada: os aghori estão lá, e por que um repórter deveria ocultar sua existência? Além do mais, o hinduísmo não é exatamente uma religião super bacana, com seu rígido sistema de castas. Mas como lidar com isto, num tempo em que o preconceito vem à tona e os nervos estão à flor da pele?

terça-feira, 14 de março de 2017

IRMÃOS PROBLEMA


Os irmãos Dardenne até que seguem uma fórmula. Pegam uma estrela francesa do momento e dão a ela um papel totalmente sem glamour. Depois a coitada passa o filme inteiro em busca de alguma coisa, numa situação dramática porém corriqueira. Tudo isto sem a menor acrobacia com a câmera, sem uma fotografia muito colorida, sem um pingo de música. Foi assim nos últimos trabalhos da dupla e assim é no espartano "A Garota Desconhecida". Adèle Haenel faz uma médica durona, que não descansa enquanto não descobrir quem era a moça que bateu em seu consultório fora do horário, não foi atendida e acabou assassinada. Não é nada divertido, mas ninguém vai a um filme dos irmãos Dardenne para se divertir. Vai para pensar na natureza humana, nos problemas da Europa moderna e, claro, na própria inteligência.

MERDOGAN

Et voilà: com este singelo post, lá se vão minhas chances de voltar à Turquia. Pelo menos enquanto durar o sultanato de Recep Tayyip Erdogan, que promete ser longo. O proto-ditador voltou às manchetes esta semana, depois de xingar de "nazistas" os governos europeus que proibiram comícios a favor dele em seus territórios. Ah, nada como usar a liberdade de expressão dos outros para promover o avanço do seu estado totalitário, não é mesmo? Além do mais, a patacoada de Erdogan não podia ter vindo num momento pior. Juntar milhares de turcos residentes na Holanda - mas ainda com direito a voto na Turquia - numa imensa manifestação política serve direitinho para eleger Geert Wilders, o candidato holandês de extrema-direita que tem ojeriza a imigrantes. Erdogan está se revelando uma versão de Hugo Chávez do Oriente Médio, ao tentar aumentar seus poderes através do voto. Se ele conseguir transformar o parlamentarismo turco em presidencialismo, estará enterrando o projeto de Atatürk de uma república laica, moderna e ocidentalizada. Vai dar merda, vocês vão ver.

segunda-feira, 13 de março de 2017

ISABELLE EN VACANCES


De um ano para cá, vi nada menos do que seis filmes com Isabelle Huppert. Claro que, ao filmar tanto, ela não consegue estrelar apenas obras-primas. O recém-estreado "Souvenir", então, só não é uma bobagem completa por causa da presença da atriz. Tenho a sensação de que Isabelle só topou fazê-lo para ter uma espécie de férias remuneradas. O papel da operária que foi cantora num concurso tipo Eurovision, muitos anos antes, não exige nada dela. O mais difícil deve ter sido decorar as coreografias que acompanham as canções, uma pior do que a outra. Trabalhe menos, Isabelle: afinal, não é todo dia que surge um "Elle".

AGORA VALE

Um dos maiores sucessos do Tim Maia foi "Vale Tudo", que ele gravou em dueto com Sandra Sá. A música se tornou tão representativa da carreira dele que deu nome a sua biografia, escrita por Nélson Motta. Mas ela tem um refrão que sempre me incomodou: "só não vale dançar homem com homem, nem mulher com mulher". Este pedaço da letra não só contradiz a suposta intenção libertária da canção como ainda soa hipócrita na voz de Sandra de Sá, que já há trinta anos tinha fama de sapata. Mas nada como um dia depois do outro: hoje Sandra está nas manchetes, assumindo seu amor por outra mulher. Seria o caso de atualizar "Vale Tudo", ou eu estou sendo um chato de galochas?

domingo, 12 de março de 2017

O DEUS QUE NÃO RESPONDE


O Martin Scorsese de "Silêncio" não lembra em nada o diretor do hiperativo "O Lobo de Wall Street" de três anos atrás. Aquele filme tinha tudo o que se costuma esperar do cineasta: montagem clipada, trilha sonora barulhenta, humor negro, sexo. Já seu novo longa, o terceiro com tema religioso (depois de "A Última Tentação de Cristo" e "Kundun"), tem planos longos, lentos, sem nenhuma música para suavizar. O Japão feudal onde se passa a história é quase feio, com muita miséria, e a fotografia tende para o chumbo ao longo de quase três horas de duração. Ou seja: é praticamente uma penitência assistir "Silêncio". Para dificultar ainda mais, o roteiro fala de uma fé que se quer inquebrantável, um conceito meio alienígena neste século 21. Dois padres portugueses vão ao Japão em busca de um terceiro, sobre quem circulam boatos de que teria renegado o catolicismo. O que eles encontram é uma repressão brutal aos novos convertidos, digna de Nero na Roma Antiga. Os kirishtan são queimados vivos, crucificados, afogados ou pendurados de cabeça para baixo com um corte no pescoço, para sangrar até a morte. "Silêncio" tem tanta tortura e suplício que podia ter sido feito por Mel Gibson. O filme propõe, no final, uma questão profunda: o que significa ser cristão de verdade? Venerar um monte de objetos físicas? Ou o amor ao próximo vem em primeiro lugar? A resposta parece óbvia mas, para o pessoal do século 17, pisar numa imagem de Cristo equivalia a renegá-lo. Foi esse apego às relíquias materiais que acabou comprometendo a expansão da Igreja pelo Japão - que, aliás, também se defendeu com unhas e dentes contra o que percebeu ser uma invasão cultural. "Silêncio" é um filme dificílimo: foi muito mal de bilheteria nos Estados Unidos e recebeu uma mísera indicação ao Oscar (melhor fotografia). E vai se mostrar uma prova de resistência mesmo para quem tiver dúvidas parecidas com as do ex-coroinha Scorsese.

O GAROTO QUE CULTIVAVA ORQUÍDEAS

Conheci Fernando Grostein Andrade em 2011, quando ele dirigiu um comercial meu de pasta de dente. Naquela época eu já tinha visto seu excelente documentário "Quebrando o Tabu", e ele me presenteou com um DVD do filme. Depois ainda nos esbarramos algumas vezes e mantivemos contato por Facebook. Mesmo assim, a "notícia" de que ele é gay me pegou de surpresa: meu gaydar devia estar na oficina, sei lá. A princípio, o próprio Fernando achou que a revelação de sua orientação sexual não devia ser do interesse de ninguém. Mas ele é irmão do Luciano Huck, e acabou recebendo uma avalanche de mensagens positivas. Então percebeu que sua história estava ajudando milhares de outros jovens como ele por todo o Brasil. Hoje Fernando lança seu canal no YouTube, onde conta essa história em detalhes no primeiro vídeo postado. O que mais chama a a atenção é o fato dele ter nascido numa família liberal (o pai era editor da "Playboy"), com recursos até para que ele criasse orquídeas em casa, e mesmo assim não foi fácil se assumir. No fundo, é um caso parecido com o de tantos outros - inclusive o meu, e o de todos os que participaram do histórico "Não Gosto dos Meninos". Assista ao depoimento do Fernando, divulgue, mostre para alguém que está precisando. Lembre-se: um dia você também precisou.

(A mesma edição de hoje da Folha que traz uma entrevista de Fernando Grostein Andrade também tem um perfil do ministro Herman Benjamin, do TSE, que é gay assumido. Leia, divulgue, mostre para alguém que está precisando)

sábado, 11 de março de 2017

FORA KIRKMAN


É impressionante a timidez da nossa teledramaturgia em transformar a presidência da república um assunto. Lembro da minissérie "O Brado Retumbante", na Globo, e do quê mais? Enquanto isso, nos Estados Unidos, são pelo menos três as séries de TV atuais que têm um presidente como protagonista: "Veep", "House of Cards" e "Designated Survivor". Esta última já tem metade de sua primeira temporada disponível na Netflix e é a única que vem da TV aberta. Isto transparece no ritmo mais rápido e nos ganchos que encerram os blocos. Também não há espaço sobre elucubrações sobre o poder, pois a qualquer momento tudo pode ir pelos ares. Kiefer Sutherland faz Tom Kirkman, um ministro apagado que é o único remanescente do governo depois que um sentado no Capitólio mata quase todo o Executivo e o Legislativo federais. Instado pela Constituição a assumir a Casa Branca, ele aos poucos descobre que a conspiração que matou seu antecessor é de gente próxima, não de terroristas islâmicos. "Designated Survivor" saciou minha fome por drama político enquanto Frank Underwood não volta: a quinta temporada de "House of Cards" teve que ser rescrita, depois que a eleição de Trump lhe ultrapassou em absurdo. Só estreia em maio. E por aqui, quando faremos algo no gênero?

"Designated Survivor" ainda tem um plus a mais nos atores Maggie Q e Adan Canto. Ela é havaiana, de mãe vietnamita e pai irlandês. Ele é mexicano (fez novelas na Televisa), mas fala um inglês impecável. Eu me entregaria a qualquer um dos dois fácil, fácil. Lidem com isto.

sexta-feira, 10 de março de 2017

SOUTH PARK

Era uma vez um país governando por uma presidenta incompetenta e dominado por grandes grupos econômicos. Aí descobriram umas maracutaias, a imprensa fez um escarcéu, o povo foi para as ruas e a presidenta acabou impichada. Resta saber se o próximo governo da Coreia do Sul trará renovação para valer, ou se serão os mesmos de sempre se fingindo de santos. A semelhança com o Brasil não para por aí: o país foi uma ditadura até a década de 1980 (o ditador Park Ghung-Hee era o pai da presidenta deposta ontem, Park Geun-Hye). Mas os índices sócio-econômicos de lá são de dar vergonha na gente, que temos muitíssimos mais recursos naturais que a ponta sul da pequena península coreana. Nós também não temos, ainda bem, um vizinho maluco ameaçando nos bombardear todo dia. Mesmo assim, vou prestar mais atenção na política sul-coreana. Se ela conseguir se reinventar, será um bom exemplo para a nossa.

TODO NUDE SERÁ CASTIGADO

Como sou recatado e do lar, não frequento nenhum desses aplicativos de pegação onde vocês se divertem. O intercâmbio de fotos íntimas não faz parte do meu cotidiano. Por isto, imagine o meu espanto ao receber duas levas de nudes via Facebook, na mesmíssima noite. A primeira veio acompanhada de uma gravação: "ih, foi mal, não era pra você, desculpa aí". O velho truque do se colar, colou. A segunda não trouxe nada além de fotos e um vídeo: nem uma rosa, nem sequer um bilhetinho. Parte de mim ficou lisonjeada, por ainda despertar o desejo de gente sem noção. Mas um outro lado meu teve uma reação surpreendente: eu me senti invadido, feito uma menina sentada no cinema ao lado de um cara que de repente abre o zíper da calça. Um nude não solicitado não deixa de ser uma agressão, e eu mal faço ideia do que passam as mulheres desde a mais tenra idade. Não sei se quero receber mais.

quinta-feira, 9 de março de 2017

TRANSFOBIA (AINDA) NÃO É CRIME

Não tive coragem de encarar o vídeo da Dandara. Não me mandem links, não quero ver. Mas isto não quer dizer que eu não ligue para a violência contra travestis e transexuais. Mesmo com tanto avanço dos direitos LGBT, o Brasil continua sendo um inferno para quem não se sente alinhado com seu gênero original. Ainda temos aquele medo adolescente de paquerar uma mulher e, na hora do vamovê, tcharam! - ela põe um pau pra fora! Nunca soube de nenhum caso desses na vida real, e geralmente quem paquera travesti está mesmo a fim de pau. Mas o mito continua, e rende até anúncio para o Dia da Mulher. Como este outdoor aí em cima, veiculado na Grande São Paulo, para uma marca de cosméticos chamada Pedaços de Amor (que, pelo visto, de amor não tem xongas). Os babacas até acham que fizeram sucesso, pois postaram um outro anúncio comemorando mais de um milhão de visualizações no Facebook. São brincadeiras como essa que pavimentam o caminho para as pauladas e os tiros que vêm depois. Crime foi o que aconteceu com a Dandara e com centenas de outras, mortas todos os dias Brasil afora. E um dia há de ser crime veicular uma propaganda como esta. Que, além de tudo, tem uma direção de arte horrorosa...

(Obrigado pela dica, Estêvão Delgado Martins)

quarta-feira, 8 de março de 2017

O VELHO E O LAR

Michel Temer, o Velho, mais uma vez justificou a alcunha que ganhou neste blog. Seu discurso pelo Dia da Mulher foi outro vexame histórico, onde o presidente-tampão voltou a demonstrar seu descompasso com o século 21. Quer dizer então que é só a mulher quem faz supermercado? Só ela quem cuida da educação dos filhos? Mas o que é que se esperava de alguém que indicou Fátima Pelaes para a Secretaria de Políticas para Mulheres, uma evangélica que é contrária o aborto em qualquer situação e que está sendo investigada por desvio de dinheiro? Atraso e fraude, eis a cara desse governo.

افعل ذلك


Justo no Dia Internacional da Mulher, a Nike anuncia o lançamento de um véu desenhado especialmente para as atletas muçulmanas. Em outros tempos eu veria o Nike Pro Hijab como uma concessão absurda ao fundamentalismo religioso. Hoje estou um teco mais esclarecido, e entendo que ele é um avanço feminista. Não há lei alguma que obrigue uma atleta a ser sensual na pista ou na quadra, e as esportistas islâmicas já são uma afronta e tanto aos radicais que as preferem trancadas em casa. A Nike tanto sabe disso que também está veiculando o comercial acima, com quatro atletas árabes consagradas. Mais poder para elas - como, aliás, fez a torcida brasileira com as egípcias do vôlei de praia nas Olimpíadas do Rio.

(olha que fofo: o título deste post é "just do it" em árabe)

terça-feira, 7 de março de 2017

KATE BUSH SAI DA MOITA


O que falta para Kate Bush ser aclamada como um dos maiores nomes da música pop de todos os tempos, no nível de David Bowie? Falta ela se expor mais, claro. E lançar novidades mais amiúde. Depois de um início de carreira agitado, Ms. Bush começou a espaçar cada vez mais seus trabalhos. Chegou a ficar doze longos anos na moita. Aí resolveu trabalhar, mas nem tanto: de 2005 para cá, foram dois álbuns de inéditas, outro de regravações e 22 espetáculos em Londres, numa temporada de pouco mais de um mês em 2014. Apenas dois anos e pouco depois, Kate Bush se dignou a compartilhar com a humanidade a íntegra do setlist destes concertos históricos em... CD. Sim, "Before the Dawn" é um CD físico, triplo, com encarte e muitas fotos. Não tem em streaming, nhénhénhé. Tampouco em DVD: para quê imagens, não é mesmo? Foram apenas as únicas apresentações dela em 35 anos, e quem viu, viu - só os 75 mil sortidos que esgotaram os ingressos em 15 minutos, cinco meses antes. Nem no YouTube tem cenas piratas, tamanho o controle que Kate exerce sobre sua própria obra. Só o vídeo acima, que deve ter sido projetado durante o show. Eu estaria espumando de ódio, não fosse o CD sensacional. Com poucos hits (a clássica "Wuthering Heights" ficou de fora) e muito material de seus discos mais recentes, a artista tece uma tapeçaria sonora inacreditável. Uma viagem aural que se sustenta sozinha. Mas jamais vou perdoar Kate Bush se ela não liberar a gravação em HD (aposto que existe!) desse show épico nos próximos 50 anos.

JE SUIS MACRON

A eleição presidencial francesa embolou de tal maneira que se tornou o que os americanos chamam de "no brainer": não há o que discutir, tem que se votar em Emmanuel Macron. O candidato do centro é o único nome palatável para assumir o comando da segunda maior economia da Europa. Marine Le Pen muito tem se esforçado para dar um verniz em seu ideário fascista, mas sua proposta de tirar a França da União Europeia é exatamente o sonho dos russos. François Fillon, da direita moderada, não só é contra a adoção de crianças por casais gays como também é um parasita, que deu cargos públicos à mulher e ao filho  onde eles não precisavam fazer nada. E Benoît Hamon, que bateu o primeiro-ministro Manuel Valls nas primárias do partido socialista, periga chegar num desonroso quarto lugar. Sobra o jovem Macron (40 anos), que foi ministro de François Hollande e encarna a renovação responsável do cenário político francês. Além do mais, ele competirá com Justin Trudeau pelo título de líder mundial mais gateeenho. Por isto que agora eu sou Macron desde pequeno.

segunda-feira, 6 de março de 2017

DESISTE, MALAFAIA

E a lista de marcas dignas de um boicote do Malafaia só faz crescer, feito pinto de adolescente reprimido. Hoje uma amiga me mandou essa belíssima campanha da Nike, rodada na Itália. São muitos filmes, todos disponíveis no Vimeo. Aqui só postei dois: acima está o teaser, que se dá ao luxo de não ter assinatura nem pack-shot. E o clima é tão envolvente que eu demorei para perceber que o rapaz de cabelos longos NÃO TEM UM BRAÇO. Abaixo, a versão longa do diretor, mais para  videoclipe do que para comercial. Pois é, Malafaia: seus fiéis terão que viver num mundo sem computador, sem refrigerante, sem desenho animado e sem tênis. Em compensação, terão seus gritos. O que será que eles irão escolher?

EU ME SINTO À VONTADE NESTE MUNDO


Que tempos, meus amigos. Antigamente, o vencedor de Sundance só passava no Brasil um ano depois e olhe lá. Muitos títulos premiados no maior festival do cinema independente americano jamais chegaram aqui. Isto mudou: o campeão de 2017 já está disponível na Netflix, pouco mais de um mês depois de sua vitória, e sequer passará nos cinemas. "Já Não me Sinto em Casa Neste Mundo" é uma comédia violenta, descendente direta dos filmes de Tarantino e dos irmãos Coen, e provavelmente será vista por muito mais gente do que se tivesse que encarar uma bilheteria. Não é nenhuma obra-prima da sétima arte; ao contrário de seus ilustres antepassados, não inova um iota. Mas é divertido do começo ao fim - principalmente no fim, quando o diretor e roteirista Macon Blair perde totalmente o pudor de jogar na tela qualquer ideia que lhe passe pela cabeça. A protagonista é uma enfermeira solitária e deprimida, que resolve ir atrás do safado que assaltou sua casa. Também é o melhor papel da carreira de Melanie Lynskey, que estreou em "Heavenly Creatures" ao lado de Kate Winslet mas jamais se tornou uma estrela como a colega. Eu me senti privilegiado de poder apreciar esta iguaria num domingo chuvoso, com as ruas em volta da minha casa tomadas pelos últimos blocos. Adoro ir ao cinema, mas também fico perfeitamente à vontade neste mundo novo que está surgindo.

domingo, 5 de março de 2017

UM LIMITE ENTRE OS MEIOS


Existe uma cerca separando "Um Limite Entre Nós" de sua plena fruição pelo espectador. É o mesmo muro que divide o teatro do cinema: são meios diferentes, cada um com suas características, e nem sempre o que funciona bem de um lado faz o mesmo do outro. O que funciona aqui é o texto da peça de August Wilson, grande sucesso na Broadway (e jamais montada no Brasil, pois imagine se a nossa classe média branca vai assistir a um espetáculo sobre negros). Denzel Washington optou por manter o texto na íntegra, sem nenhum corte, e disso resultou o mais longo dos nove indicados ao Oscar de melhor filme deste ano. É interessante, mas também é meio chato. Ainda bem que os atores são todos excepcionais, e ninguém mais do que a divina Viola Davis - capaz de expelir ranho pelo nariz sob as ordens do diretor, na cena mais porrada do filme. "Um Limite Entre Nós" é obrigatório para quem aprecia a alta cultura e/ou quem quer saber mais sobre o cruel cotidiano dos negros na América do século 20 (se bem que o personagem principal transcende essa cerquinha e se torna um homem universal, complexo e completo). O resto do público vai preferir ver "Logan".

sábado, 4 de março de 2017

COME PRIMA, PIÙ DI PRIMA,T'AMERÓ...

Alô, alô, Malafaia! Agora que nós somos BFF no Twitter, deixa eu te sugerir mais uma oportunidade de dar com os burros n'água. Convoca um boicote contra a Coca-Cola, que está erotizando refrigerantes com homossexualismo! Depois, não esquece de boicotar também o Facebook, a Apple, a Procter & Gamble, a Globo, a Microsoft... Ah, já ia esquecendo do Twitter. São todas empresas gay-friendly!

DO QUE TANTO ELES TÊM MEDO

Lideranças religiosas no Brasil e nos Estados Unidos estão em polvorosa contra a Disney. O estúdio do Mickey incluiu alguns beijos entre pessoas do mesmo sexo numa cena do desenho animado "Star Vs the Forces of Evil". Também anunciou que há um personagem gay no remake de "A Bela e a Fera" que está chegando aos cinemas. Foi o que bastou para que figuras sinistras como Silas Malafaia acusassem a Disney de "erotizar crianças com o homossexualismo" (sic), como se a visão de dois homens em cartum se beijando despertasse nos meninos uma vontade irrefreável de fornecer o fiofó. Mas é claro que não é assim que funciona; caso contrário, não haveria gays no mundo, pois desde pequenos somos todos submetidos a uma avalanche de cenas de amor entre casais heterossexuais. Do que essa turma têm mesmo medo é da normalização da viadagem, esta sim subversiva (para os padrões deles). "Star Vs. the Forces of Evil" mostra casais gays como parte da paisagem: fazem parte da vida e não merecem destaque especial. Isto dá um nó nas cabeças dos reacionários, que tentam pintar qualquer desvio da heteronormatividade como coisa do demônio. É por isto que eles também piram quando uma novela tem um personagem gay bem resolvido e bem sucedido, mas toleram as bichas loucas dos programas de humor. De qualquer forma, a deles é uma luta inglória: o avanço dos direitos igualitários não vai retroceder. Ainda mais quando nossos inimigos dão tiros em seus próprios pés.

(Minha coluna de ontem no F5 despertou a ira do Malafaia, que foi ao Twitter me chamar de marica. Não, pastor, feio mesmo é ser indiciado pela Polícia Federal.)

sexta-feira, 3 de março de 2017

LA LA SE FAZ, LA LA SE PAGA

Os Estados Unidos têm um milhão de defeitos, mas pelo menos lá se leva a responsabilidade a sério. Haja vista o que aconteceu com os dois funcionários da PriceWaterhouse Cooper que entregavam os envelopes nos bastidores do Oscar: Brian Cullinan e Martha Ruiz não perderam seus empregos, mas foram banidos para todo o sempre da premiação da Academia. A culpa foi quase toda dele, que se distraiu tuitando fotos da Emma Stone, mas ela entrou no rolo pela demora em corrigir o imbroglio. E olha que ningém se machucou - só os egos dos produtores de "La La Land". A comparação não é simétrica, mas não resisto a lembrar da marmelada que a Liga das Escolas de Samba promoveu neste carnaval. Por aqui, tudo bem um carro atropelar dezenas de pessoas em pleno Sambódromo e um outro desabar com outras dezenas de pessoas em cima. Paraíso de Tuituti e Unidos da Tijuca não só não serão rebaixadas, como perigam receber desagravos . Êêêêê Brasil.

EU GOSTO DE KETCHUP

A Austrália tem uma certa imagem de paraíso: clima agradável (fora do deserto, claro), gente civilizada, ausência de grandes problemas. Até o Mardi Gras de Sydney, o carnaval de lá, ajuda a construir essa impressão de um lugar avançado, onde os gays festejam na rua sem serem molestados. Mas a realidade é que o casamento entre pessoas do mesmo sexo até hoje não se tornou lei, encruado num parlamento dividido entre liberais e conservadores. Por isto, vem a calhar o comercial acima, onde a orientação sexual (jamais diga "opção") é tratada com total falta de cerimônia, como se fosse a reles preferência por um condimento.

quinta-feira, 2 de março de 2017

ATROPELANDO O SAMBA

Paraíso do Tuiuti e Unidos da Tijuca tinham que ter sido automaticamente rebaixadas, sem choro nem vela. Não mereciam sequer ter seus pontos contabilizados: grupo de acesso djá!, e cuidado para não machucar mais ninguém no desfile do no que vem. Mas no Brasil os poderosos sempre se perdoam, e a pena de uma coitada que roubou quatro fraldas é igual à de um delator da Odebrecht. Já a irresponsabilidade que gera feridos graves é deixada para lá, porque, afinal, quem nunca, não é mesmo? Houve outros quase-acidentes no sambódromo carioca neste carnaval, o que só prova que TODAS as escolas têm culpa no cartório. Que venham os processos.

RECUSA NÃO É CENSURA

Muita gente acha que liberdade de expressão significa que qualquer um pode dizer o que quiser, a qualquer hora e em qualquer lugar. Quem restringir este direito sagrado estaria praticando censura. Não é bem assim: a liberdade de expressão quer dizer apenas que ninguém pode ser processado por manifestar o que pensa, principalmente pelo governo. Pessoas físicas e entidades privadas podem muito bem se recusar a ouvir ou a dar a palavra a quem quer que seja. Meu blog, por exemplo, está longe de ser uma democracia: aqui mando eu, e não estou nem aí se alguém ficou magoadinho porque eu não aceitei um comentário mal-criado. Por isto, acho perfeitamente legítimo que o clube A Hebraica tenha desconvidado Jair Bolsonaro a fazer uma palestra depois que mais de três mil sócios se posicionaram contra (e outros mil, a favor). A Hebraica é um clube judaico e, se tem alguém que deveria estar vacinado contra a extrema-direita, é justamente o povo judeu (deveria, mas não está: a extrema-direita anda cada vez mais forte na política de Israel). Bolsonazi, como o próprio apelido diz, é um arauto da intolerância e da violência. É ainda mais rasteiro do que Trump, e nunca teve papas na língua para desancar mulheres, gays ou qualquer um que não concorde com ele. Sua reputação de honesto provavelmente não resistiria a uma investigação mais séria, e desconhecem-se suas ideias para a economia ou qualquer coisa que cheire a administração pública. Se A Hebraica de São Paulo prefere não lhe abrir palanque, está em seu pleno direito, e eu apoio totalmente (já A Hebraica carioca o convidou alegremente, desrespeitando a memória das vítimas do Holocausto). Por incrível que pareça, hoje eu estou mais para a opinião do Reinaldo Azevedo do que para o do Clóvis Rossi. Bolsonaro tem livre acesso às redes sociais e milhares de fanáticos, ou seja: não lhe falta espaço nem plateia para as merdas que espalha. Mas de merda se mantém distância, e serpente se mata no ovo.

quarta-feira, 1 de março de 2017

OVE O VELHO


"Um Homem Chamado Ove" foi o único dos cinco finalistas ao Oscar de filme estrangeiro a ser indicado a um outro prêmio da Academia: melhor maquiagem, graças à caracterização do ator que interpreta o protagonista. O curioso é que Rolf Lassgård tem 61 anos, e precisou ser envelhecido para fazer um personagem de... 59. Ove na verdade aparenta ter duas décadas a mais, tanto no físico como na alma. É um sujeito ranzinza, amargurado pela perda da esposa e sem paciência para as coisas mais ínfimas. Este filme sueco foi bem de bilheteria até nos Estados Unidos, talvez por recontar uma história bem manjada: a da pessoa de mal com o mundo que recupera a alegria de viver. Mas tanta familiaridade não compromete: "Um Homem Chamado Ove" é simpático a ponto de ser inofensivo.

MARDI TRÁS

Mardi Gras é o famoso carnaval de Nova Orleans, ainda mais dominado pela viadagem do que o daqui. Mas este ano não dava para pular como se nada, pois o governo Trump já começou a restringir os direitos dos LGBT. Como a Secretaria de Tturismo local leva o problema a sério, contratou uma agência de propaganda, a 360i New York, para pensar numa ação de protesto. O resultado está aí em cima: um bloco que parece igual a qualquer outro, até que começa a desfilar para trás. Os participantes tiram perucas e maquiagens e se escondem, deixando os espectadores perplexos. Aí todo mundo volta a desfilar para frente, levando uma faixa onde se lê "Nós nunca iremos retroceder". O evento foi bolado por uma equipe comandada pelo brasileiro Fabio Seidl e contou com a participação de 400 voluntários. É importante ressaltar que se tratou de uma parada oficial, financiada pela prefeitura de Nova Orleans. Enquanto isto, no Rio de Janeiro, Marcelo Crivella deu W.O. total na data mais importante do calendário turístico da cidade.