segunda-feira, 20 de novembro de 2017

TEATRO VEZES TRÊS

Charles Darwin levou uma tartaruga gigante das Galápagos para a Austrália, durante sua volta ao mundo na década de 1830. A bichinha foi batizada de Harriet e morreu 175 anos, em 2006. Tamanha longevidade inspirou a peça espanhola "A Tartaruga de Darwin", onde o quelônio "evolui" para a forma humana e se transforma numa variante réptil do "Repórter Esso", a testemunha ocular da história. Henriqueta (como foi traduzida no texto de Juan Mayorga) viu tudo e conheceu todo mundo: estava na sala quando os emissários de Hitler e Stálin assinaram um pacto de não-agressão, por exemplo. Ana Cecília Costa está fantástica como a velha senhora e Tuna Dwek arrebata a platéia na montagem de Mika Lins que fica em cartaz no SESC Ipiranga, em São Paulo, até 17/12. E esta foi apenas a minha primeira peça deste final de semana.

A segunda foi ali ao lado, no saguão do Museu do Ipiranga: "Leopoldina, Independência e Morte". A primeira imperatriz do Brasil entrou na moda por causa da novela "Novo Mundo", e finalmente está deixando de ser retratada como uma gorda chata que merecia ser chifrada. Foi, na verdade, a grande artífice da independência, e o texto de Marcos Damigo (que também assina a direção) resgata sua importância histórica. Fabiana Gugli encarna tantas faces dessa personagem complexa que o espectador até esquece que está vendo um monólogo. O entorno suntuoso também ajuda: no alto da escadaria está uma estátua de Pedro I, com quem a rainha ferida discute. No último dia em cartaz, 3 de dezembro, o público da primeira sessão, às 15h, ainda terá uma visita guiada à cripta onde estão ambos, sob o Monumento, a algumas centenas de metros dali.

Encerrei meu périplo teatral com a badalada montagem de Gabriel Villela para "Boca de Ouro", do Shakespeare brasileiro - vulgo Nélson Rodrigues. Achei os figurinos coloridíssimos, uma marca do diretor, um pouquinho over, a ponto de me distanciar do universo rodriguiano. Mas as interpretações são fenomenais, a começar por Malvino Salvador, que exibe um "range" que a TV simplesmente não aproveita. Com muita música, sangue de mentirinha e energia transbordante, foi uma chave de ouro para o finde. 

5 comentários:

  1. Adorei Boca de Ouro.Gostei de tudo. A melhor direção de Villela em muitos anos. E no espaço do Tuca Arena ficou perfeito.Junto com O Som e a Sílaba e O Assalto, são as melhores encenações a q assisti em 2017.

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  2. O Mio Babbino Caro
    E como está aqueles lados lá do Ipiranga, que faz tanto tempo que não passo rss

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    1. Para mim também, fazia um tempão. Eu estive no Ipiranga pela última vez em 2004, numa festa no Palacete Jafet. No Museu, então, acho que estive lá na adolescência e olhe lá.

      O Ipiranga podia ser lindo se o entorno do Parque do Monumento - e o próprio Parque - fossem melhor cuidados. Mas você se afastar duas quadras e vira um bairro horrível. Por outro lado, tem muito prédio novo subindo. Nesses casos, não acho ruim a tal da gentrificação.

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  3. marquito arrasa. imagino q vc já viu as outras peças dele q estão rodando por aí, memórias póstumas e dom casmurro ;) se ñ foi vale a pena

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    1. Eu vejo tudo o que ele faz, Somos amigos há muitos anos.

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