sábado, 11 de novembro de 2017

OS CORAÇÕES PROIBIDOS

Revi em DVD um dos meus filmes favoritos de todos os tempos: o francês "Os Corações Loucos", com Gérard Depardieu e Isabelle Huppert ainda cheirando a leite. O título original, "Les Valseuses", era uma antiga gíria para as bolas do saco. E faz jus ao roteiro: Depardieu e Patrick Dewaere (que estourou os miolos com um tiro de fuzil alguns anos depois) fazem dois rufiões que flanam pelo norte da França cometendo pequenos furtos, roubando carros só para passear e tratando as mulheres na porrada. Foi aí que a coisa pegou: eu lembrava bem do longa, mas mesmo assim fiquei chocado. Em dado momento, os pilantras encurralam uma mãe que amamenta um bebê num vagão de trem, sem nenhum outro passageiro por perto. Eles simplesmente a obrigam a dar de mamar para um deles - e ela, a princípio forçada, quase goza. Imagina o forrobodó que uma sequência como esta provocaria hoje. E não é a única: a personagem de Miou-Miou, uma "shampooineuse" (quem lava cabelo no salão de beleza) meio puta, é praticamente um objeto que passa de mão em mão, até que o primeiro orgasmo finalmente a transforma numa pessoa. O fato é que "Les Valseuses" transpira machismo (afinal, foi rodado em 1973), mas de maneira crítica, e todo mundo é complexo. Principalmente as mulheres, que  manifestam desejo mesmo quando recatadas - talvez dando munição a quem reclama de que os estupradores alegam que "no fundo elas gostam", talvez reconhecendo que mulher sente tanto tesão quanto o homem. Terminei com a sensação de que um filme assim talvez não fosse mais feito. Mas que bom que já foi: é uma obra-prima do pós-nouvelle vague, libertina e libertária, e ainda necessária. Tente ver, tem no YouTube.

7 comentários:

  1. Na boa, Gérard Depardieu jovem era mais bonito que Alain Delon, que delícia!

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  2. Ton, vc acha que se Nelson Rodrigues fosse contemporâneo hoje seria um material em potencial para patrulha tanto da esquerda feminista quanto da direita moralista?

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    Respostas
    1. NR continua a ser...o anjo pornográfico.

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    2. Nélson sempre dividiu opiniões. Era um conservador ferrenhamente anticomunista, mas escandalizava a direita religiosa com suas peças "imorais". Sofria patrulha de todos os lados, mas seu talento se impôs. É o maior dramaturgo brasileiro de todos os tempos: o nosso Shakespeare.

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  3. <> curtindo esta vibe despudorada de tony

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