sábado, 7 de outubro de 2017

MODÉRNONA

Em 1986 - quando muitos dos meus leitores não eram sequer um brilho nos olhos de seus pais - Fernanda Montenegro estrelou no Rio uma montagem da "Fedra" de Racine, uma adaptação do século XVII de um mito grego. Imediatamente, um trio de atrizes lançou uma espécie de paródia chamada "Pedra, a Tragédia", juntando três textos curtos. No último, a grande (em todos os sentidos) Thelma Reston encenava sozinha os trocentos personagens de uma tragédia imaginária, "Ifigênia em Sodoma". Cada um deles merecia um gesto diferente: "quando eu fizer assim é Ulisses, quando eu fizer assim é Menelau...". Essa pérola do teatro besteirol não me saiu da cabeça durante "Antígona", o clássico de Sófocles que Andrea Beltrão transformou em um monólogo. O cenário é uma grande árvore genealógica na horizontal, explicando quem é filho de quem - algo essencial na história da filha de Édipo, que matou o pai e se casou com a mãe. Andrea muitas vezes assume um ar de professora, destrinchando os meandros da Grécia Antiga. Para ser bem esnobe: ela epiciza um texto dramático. Mas também encarna muitos dos personagens, dando-lhes corpo e voz e metamorfoseando-se neles. Sai do palco, corre pela plateia, sua, grita, se descabela. O problema é que a sala é grande demais: o enorme teatro Raul Cortez, em São Paulo, que não se presta a um espetáculo intimista. Mas nem por isto a abordagem que Andréa e o diretor Amir Haddad deram a um texto com 2.500 anos de idade deixou de me impactar. Os gregos tinham que ser montados mais amiúde: eles não são modérnonos, são etérnonos.

10 comentários:

  1. Anotem, o contra ataque que a esquerda e os artistas vão fazer, capitaneados pela Paula Lavigne, processando quem falar da arte deles vai ter o efeito contrário, vão ser mais odiados e rejeitados pela sociedade.
    A esquerda pavimentando a chegada da direita ao poder.

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    1. 11:28 Escuta aqui direitosa doente. Dá pra dá um tempo.

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    2. Essa ideia de esquerda monolítica é um dos pilares do atraso no Brasil. Sinceramente, parem com essa merda. São várias esquerdas e várias direitas. MBL não representa a direita como um todo, assim como a Paula Lavigne não representa a esquerda como um todo. Beijos from California

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    3. Sou de direita, mas quero ficar bem longe da internet em 2018. O ambiente virtual tornar-se-á ainda mais tóxico, dramático e infértil. O novo presidente será Bolsonaro, ou um algum boneco ventríloquo dos interesses globalistas, mas os embates sangrentos entre direita e esquerda deixarão marcas indeléveis. Viveremos uma carnificina moral.

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    4. Joano, aproveite que está se deliciando no capitalismo que vc odeia na América Latina e vai lá dar um trato naquele jornalista dilmista chatissimo que tbm odeia capitalismo latino mas ama o americano, e que vive brigando no twitter pois acha burro quem não concorda com ele, ele ta precisando de babado brasileiro ou alguém que o console pois o PT dele afundou 4eva.
      Grato, a gerência.

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    5. Em que momento mesmo eu falei mal do capitalismo na América Latina? haha

      Ser de esquerda não é necessariamente defender o fim do capitalismo. Também comporta a reforma dele.

      Estuda um pouquinho, gato.

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  2. muito bom, vale muito assistir ;-)

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  3. Você já é um pouco velho (comenta muito coisas antigas), mas ainda consegue ser bem gostosinho.

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  4. Esperando que ela venha para o Poeira... só vi A Memória da Água com ela e até hj não me perdôo por isso...

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