terça-feira, 31 de outubro de 2017

DENTRO E FORA DO IRÃ


O melhor filme iraniano que eu já vi foi produzido na Alemanha. "Teerã Tabu" tem assunto, diretor e atores iranianos, e é falado em farsi - mas, se tivesse sido feito no Irã, todo mundo teria sido enforcado. Desconfio até que é por isto que se trata de uma animação em rotoscopia: os cenários externos foram aplicados na pós-produção, já que seria impossível filmar na frente deles. Porque o longa de Ali Soozandeh revela o lado oculto da sociedade de seu país, onde vicejam as drogas, a putaria e a violência da polícia religiosa. Histórias diferentes se entrelaçam no roteiro: uma prostituta que tenta colocar seu filho surdo na escola, um rapaz que precisa pagar pela reconstituição do hímen de uma moça que ele pegou numa festa, uma mulher que aborta toda vez que engravida do marido. Tudo isto com um visual alucinante e uma trilha eletrônica que lembra o Gotan Project. Eis o poder da diáspora iraniana: já tem tanta gente fora do país que já é o suficiente para fazer um filme sensacional.

Quem ficou por lá também faz bom cinema. Eu me surpreendi com a delicadeza de "Fôlego" (que a Mostra de SP rebatizou erroneamente de "Respiro"), escolhido para representar o Irã no próximo Oscar. É a primeira vez que esta honra cabe a uma diretora, e desconfio que o filme tenha algo de biográfico. Pois fala de uma menina que cresce numa cidade do interior enquanto o pau come na capital - da revolução que depôs o xá em 1979 até o começo da guerra com o Iraque, o que finalmente afeta em cheio a vida de todos. Não há exatamente uma trama, mas as memórias da garota: os amiguinhos, os ciganos, os tabefes que ela leva o tempo todo de todo mundo. Sei que é um clichê maior que o mar Cáspio, mas esses dois filmes tão diferentes entre si ajudam a formar uma imagem mais clara desse lugar complexo que é o Irã. Outro clichê - um tapete persa?

PRECISAMOS FALAR SOBRE KEVIN

Na boa, estou quase com pena do Kevin Spacey. O cara foi acusado de uma hora para a outra de algo de que ele nem se lembra, ocorrido há mais de 30 anos. Achou então que finalmente estava na hora de se assumir gay, depois de ter passado toda a carreira se esquivando do assunto. Soltou uma resposta que só aumentou o problema, e ainda viu sua série "House of Cards" ser cancelada pela Netflix no mesmíssimo dia. Consta que o programa já ia mesmo terminar na sexta temporada, mas os executivos da plataforma fizeram questão de anunciar seu fim o mais rápido possível, já que Spacey se tornou radioativo. Até o filme "Gore", em que ele interpretaria o escritor gay Gore Vidal, corre o risco de ser cancelado. Enquanto isto, na mídia e nas redes sociais americanas, não surgiu uma única voz em sua defesa. Muitos estão hor-ro-ri-za-dos com o fato de um bêbado ter se tornado inconveniente - afinal, onde é que já se viu uma coisa dessas? Mas o que está pegando mesmo é a saída do armário numa hora imprópria Sou da opinião de que Spacey tentou fazer a coisa certa e acabar com a palhaçada que criou para si mesmo. Na verdade, faz algum tempo que as pistas estavam no ar: dos inúmeros personagens homo e bissexuais (como o próprio Frank Underwood) às piadas auto-incriminatórias que ele soltou durante a cerimônia dos últimos prêmios Tony. Só que o ator jamais teve o heroísmo de dizer com todas as letras que prefere os homens, não antes de ser acusado de assédio e pedofilia. Esta hesitação fez com que muitos jornalistas e ativistas simplesmente não tenham mais a menor simpatia pelo seu caso. Eu, como já disse antes, não engrosso o coro. Cada um sabe a hora de se expor, e os únicos que merecem ser arrancados à força do closet são os enrustidos homofóbicos. Mas Spacey foi inábil, tanto ao demorar tanto tempo para admitir algo que todo mundo já sabia, como no timing espetacularmente errado de sua revelação. Pelo menos por enquanto ainda não surgiram outras acusações, o que o diferencia de um predador como Harvey Weisntein (mas nada garante que não surgirão). De qualquer forma, temo por sua carreira: talvez agora Kevin Spacey seja despachado de volta para o teatro, que foi onde começou. Pior para ele, pior para todos nós. Estamos contentes agora?

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

FRIEZA FAMILIAR


Um dos critérios que eu uso para escolher o que vejo na Mostra de SP é se o filme em questão foi o escolhido por seu país para reprentá-lo no próximo Oscar. Nessa toada, assisti a dois longas que vêm de lugares frios na Europa e falam de famílias cuja disfunção afeta até quem não faz parte dela. Um deles é o islandês "A Sombra da Árvore", que sequer usa a beleza natural da ilha - é um drama urbano que parece se passar em qualquer ponto da Escandinávia. O roteiro parte de uma briga de vizinhos (a árvore de um faz sombra na casa do outro) que logo escala para uma guerra total, daquelas em que ninguém tem razão. Os dois lares têm sérios problemas internos, que transbordam para complicar a picuinha. Talvez sejam problemas demais: a trama do filho adúltero poderia ser um pouco reduzida, o que valorizaria ainda mais essa história que parece saída do Antigo Testamento.

Bem mais badalado é "Happy End", o mais recente trabalho de Michael Haneke na França, que no entanto irá concorrer pela Áustria no Oscar. Depois da emoção que foi "Amour", o diretor retoma sua frieza habitual e também alguns temas que sempre lhe foram caros, como a imigração ou a alienação da burguesia. O elenco tem nomes como Isabelle Huppert, Jean-Louis Trintignant e Mathieu Kassovitz, mas o melhor papel coube a Fantine Harduin, que interpreta uma garota problemática. Ela faz parte de uma família rica da região de Calais, cuja empreiteira toca uma obra onde ocorreu um grave acidente; como se não bastasse, ninguém se dá bem com ninguém e alguns até pensam em se matar. Não é um filme divertido (Haneke nunca é), mas também não tem o impacto dos títulos anteriores. Saí com o coração gelado.

PEDRADA NO CASTELO DE CARTAS

Kevin Spacey "assediou" Anthony Rapp? Vamos com calma. A própria vítima conta que seu algoz não ofereceu nada em troca além de uma trepada: não prometeu papel em filme, não ameaçou acabar com sua carreira. Tudo não passou de uma paquera mal-sucedida. OK, Rapp tinha 14 anos na época - mas estava numa festa de adultos em Hollywood. Não estou dizendo que a culpa seja dele, mas dá para suspeitar que o rapaz já não fosse tão ingênuo assim. De qualquer forma, essa denúncia serviu para Spacey finalmente acabar com um dos maiores segredos de polichinelo de todos os tempos, sua própria homossexualidade. O planeta inteiro sabia que o intérprete de Frank Underwood era gay desde que ele foi preso fazendo pegação num parque em Londres em 2004. Kevin Spacey está tentando desviar a atenção de seu "crime"? Talvez, mas e daí? Acho ainda mais feia a atitude de Rapp, ao desencavar uma história com mais de 30 anos que não teve maiores consequências. O fato é que NINGUÉM tem a ficha completamente limpa - nem eu, nem você, nem absolutamente ninguém. Se amanhã ou depois um de nossos muitos podres vier à tona, seremos massacrados sem piedade na internet. Porque, afinal de contas, o resto do mundo é composto apenas por santos impolutos, que jamais cometeram um único deslize nada vida, né não? Gentem! Qualquer reputação é um castelo de cartas, que não resiste à primeira pedra. Mas parece que está todo mundo a fim de atirar. E viva a Santa Inquisição.

domingo, 29 de outubro de 2017

O BRASIL NU

Quando acabou a ditadura militar, houve uma explosão de nudez no Brasil. Não que fôssemos muito vestidos antes: a tanga, o biquíni fio dental e a sunga cavada datam dos anos de chumbo (embora, curiosamente, o topless nunca tenha vingado por aqui). Mas, quando o Sarney assumiu, a mídia se despiu. Começou a aparecer gente pelada em abertura de novela, capas de disco e até em comerciais. Foi nessa época que Xuxa apresentava seu programa infantis vestida de dançarina burlesca, e pouca gente reclamava; Carla Perez descia até a boquinha da garrafa em horário livre, e havia concursos para crianças que a imitavam. Os brasileiros se tornaram o povo mais sem roupa do mundo, mas as mentalidades não acompanharam os corpos. Agora vemos o movimento contrário: qualquer nudez, em qualquer contexto, é vista como erótica e proibida para menores. Amigos meus que fizeram boas faculdades acham que a tal da performance do MAM é equivalente a um show de sexo explícito. Do jeito que a coisa vai, daqui a pouco vão proibir a "Maja Desnuda" do Goya e a Vênus de Milo. Não acredito que esse momento dure muito: afinal, faz calor no país, e a sensualidade venceu todos os embates em que se meteu (hmm) por aqui. Mas também duvido que nos aproximemos dos alemães ou dos escandinavos, que vão com a família inteira a colônias de nudismo e saunas sem que ninguém seja acusado de pedofilia. Apesar de tantas tentativas de cobrir peitos e bundas, o Brasil está mais pelado do que nunca, desfilando a céu aberto todo seu atraso moral. Vista a roupa, meu bem.

sábado, 28 de outubro de 2017

A QUARTA PIRÂMIDE DO EGITO


Mais de 40 anos depois de sua morte, Oum Kalsoum ainda é o maior nome da música árabe de todos os tempos. Mas sua vida talvez não renda um bom filme. A cantora egípcia começou a fazer um enorme sucesso por volta dos 20 anos de idade, e assim continuou pelo próximo meio século, sem grandes dramas. Mesmo assim, ela é o que há de mais interessante em "Procurando por Oum Kulthum" (seu nome não tem uma grafia oficial no Ocidente), em cartaz na Mostra de SP. Trata-se de um filme dentro do filme: uma diretora iraniana vai ao Egito rodar um longa sobre a diva, e seus probleminhas pessoais não têm como competir com a grandiosidade de sua biografada. Com cenários e figurinos fabulosos, "Procurando..." desperta a vontade de saber mais sobre Oum ("mãe") Kalsoum, que tinha uma voz de dar inveja a Maria Callas e foi usada por sucessivos governos como instrumento de união nacional. Batizada de "a quarta pirâmide" (embora existam centenas pelo país), ela está mais para a Esfinge.

ASNOS POR TODOS OS LADOS

Integrantes do minúsculo Partido da Causa Operária tumultuaram a exibição do documentário "O Jardim das Aflições" na UFPE, em Recife. Alguém devia dizer a esses trogloditas que assim só dão cartaz ao Olavo de Carvalho, o assunto do filme, que agora pode posar de perseguido. O mesmo pode ser dito à cambada da direita ignorante que está convocando um protesto contra a presença de Judith Butler no SESC Pompeia, em SP, de 7 a 9 de novembro. A filósofa americana é uma das criadoras da "ideologia de gênero", o atual bicho-papão dos evanjas e afins, mas vem ao Brasil para debater o conflito entre israelenses e palestinos. Os dois extremos querem sufocar a liberdade de expressão, e não dá para apoiar as atitudes de um lado e condenar as do outro. A censura, qualquer censura, prejudica a sociedade como um todo. Mas ainda não atingimos o estágio civilizatório para entender isto.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

ZERO À DIREITA

Minha primeira reação ao saber que a Justiça Federal suspendeu a regra do ENEM que mandava dar zero às redações que manifestassem repúdio aos direitos humanos foi de asco. Afinal, quem deu entrada à ação foi o movimento Escola Sem Partido - não exatamente uma entidade apartidária. Depois pensei melhor e concluí que a prova de redação não é para verificar as posições políticas de seu autor, e sim checar se ele escreve bem. Se tem a capacidade de sustentar um argumento, por mais hediondo que este seja. Aí respirei tranquilo. Depois de ler algumas frases que desclassificaram candidatos em anos recentes, percebi que gente como eles não vai mais levar zero de cara. Mas a nota seguirá baixa...

PUNHO FORTE, ALMA FRACA


Eu nunca tinha ouvido falar no lutador venezuelano Edwin Valero, que venceu por nocaute as 27 lutas profissionais de que participou. O fato de não gostar de boxe ajudou, mas eu devia andar meio desligado em 2010 para não lembrar de seu fim trágico: Valero matou a mulher e se suicidou na prisão. Sua história é contada em "El Inca", em cartaz na Mostra de SP e escolhido pela Venezuela para representá-la no próximo Oscar. Sinto dizer que o filme não está à altura do argumento: é longo demais, com muitas cenas sobrando. Mas o ator Alexander Letterni está convincente no papel principal: além da semelhança física com Valero (que ganhou o apelido de "Inca" por ser parecido com um índio peruano), ele transmite bem a dubiedade do personagem. O cara tinha uma enorme força física, mas era fraco de caráter. Deixou-se contaminar por ciúmes doentios de sua bela esposa, apesar de traí-la, e acabou cortando-lhe a garganta durante uma briga. É impressionante a quantidade de homens que cometem esse tipo de barbaridade, especialmente na América Latina (o Brasil está cheio de casos semelhantes). Diz muito sobre a fragilidade psicológica da nossa cultura machista. Mas "El Inca" não investiga as causas dessa contradição. Fica aquém, assim, do grande filme que poderia ter sido.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

VOODOO LOUNGE

Temer, o Velho, sobreviveu na Câmara a mais uma denúncia, mas talvez não sobreviva ao próprio corpo. Pressionado por todos os lados e confrontado com o papelão que vai deixar para a história, ele dá sinais de fraqueza política e física. Numa semana é o coração, na outra, a uretra. Normal para um homem de 77 anos e mais do que esperado para um larápio que se vê desmascarado. E antes que me acusem de desejar o mal de outrem, deixa eu esclarecer uma coisa: não estou torcendo para que o Temer morra. Só para que ele saia já do governo e pague pelos seus crimes. Se doer um pouquinho, melhor.

UM FILME NÃO-QUADRADO


Achei que o título de "The Square", que levou a Palma de Ouro no último Festival de Cannes, se referia a alguma praça. Na verdade, é o outro sentido da palavra: um quadrado. Ou melhor, uma instalação artística em forma de quadrado que enfeita... uma praça, em frente ao que um dia foi o Palácio Real da Suécia e agora, neste futuro imaginário, é um museu de arte moderna. Parece complicado? Você ainda não viu nada. "The Square" é um filme extremamente sofisticado, com duas tramas centrais que correm em paralelo e afetam o mesmo protagonista, o curador do museu (o belo ator dinamarquês Claes Bang). Em uma delas, o cara cai em um golpe no meio da rua e tem sua carteira e celular surrupiados. Na outra, uma dupla de publicitários inventa um vídeo para promover uma exposição que viraliza pelas razões erradas. No meio disso tudo, atores anglófonos como Elisabeth Moss (de "Mad Men"), Dominic West (de "The Affair") e uma performance em um jantar de gala de arrepiar os cabelos. Muitas cenas são apenas anedotas, sem consequência na pouca história que há. Mas todas contribuem para fazer de "The Square" uma sátira corrosiva, que resvala em vários temas contemporâneos: a desigualdade social, a falta de solidariedade, a vaidade intelectual e o significado da arte. Este filme moderno não se parece com nada e é absolutmente não-quadrado. O que não significa que seja redondo.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

LEÕEZINHOS

Gosto muito de lhes ver, Madonna e Caetano, finalmente se conhecendo em pessoa. E justamente na semana em que o Brasil dá mais passos para trás, com deputados do ES aprovando a lei que proíbe nudez em exposições (inclusive nas telas!) e Alexandre Frota dizendo que o juiz que derrubou seu processo contra Eleonora Menicucci "votou com a bunda" - ele sabe que isto reduz suas chances na próxima instância, mas pode garantir sua eleição para deputado no ano que vem. No meio de tanta treva, meu coração tão só desentristece com a luz desses dois leoninos, fundamentais para a formação do meu gosto. Os haters podem pular este post: desta vez não vou aceitar seus comentários, porque hoje eu acordei com preguiça de treta. Só quero os filhotes de leão, raios da manhã.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

VIDAS NEGRAS IMPORTAM


No meio de tanta mostra e festival, um baita filme está passando meio despercebido nos nossos cinemas. Trata-se de "Detroit em Rebelião", mais uma obra-prima de Kathryn Bigelow - que ganhou um Oscar com "Guerra ao Terror" e esmerilhou com "A Hora Mais Escura". Bigelow é uma rara diretora mulher que não aborda temas supostamente "femininos" em seu trabalho. "Detroit" tem tanta tensão e violência que poderia ser assinado por Martin Scorsese. O roteiro recria, com alguma liberdade dramática, os acontecimentos que se seguiram a uma revolta de negros depois que a polícia invadiu uma boate de soul music, em 1967. Alguns manifestantes e transeuntes buscaram refúgio num hotel. E não é que um deles teve a brilhante ideia de disparar uma pistola de festim contra os policiais estacionados perto do local? Abrem-se as portas do inferno, com cenas daquelas da gente tapar com a mão o rosto (mas não os olhos). "Detroit em Rebelião" chegou a ser considerado um dos favoritos ao próximo Oscar pelos sites especializados, mas sua cotação vem caindo: o filme foi considerado "divisivo" pela América de Trump. Na verdade é um petardo que precisa ser visto, além de uma aula de cinema.

STUPID IS EASY

Para além da polêmica toda provocada pela campanha "Black is Beautiful" do papel higiênico Personal Vip Black - que eu concordo ser mesmo um desrespeito à história do movimento negro - tem outra coisa que me incomoda demais nesses anúncios. É a cara de primeira ideia. "Black is Beautiful" é a primeiríssima coisa que vem à cabeça de qualquer publicitário que receba um briefing para bolar um slogan para um produto preto que se pretende elegante. Claro que, em última instância, a culpa é do cliente, pois é ele quem aprova e paga a conta. Mas o pessoal da agência tinha que ter barrado essa chamada ainda nas internas, de tão óbvia que ela é. Fora que, mais uma vez, ninguém se deu ao trabalho de checar o impacto que este título provocaria nesses tempos sensíveis em que vivemos. A publicidade não pode viver na bolha que ela mesma cria para seus produtos, onde tudo é belo e limpo e bom; tem que cair na real, e ter a inteligência de antecipar a reação do consumidor. A Neogama e a Santher não fizeram nada disso, e ainda veicularam uma peça pra lá de preguiçosa. Que vai entrar pelas vias erradas nos, aham, anais da propaganda.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

GAME, SET, MATCH


Antes de mais nada, vou esclarecer uma coisa: o filme americano "Battle of the Sexes" deveria ter tido seu título traduzido ao pé da letra no Brasil, e não alterado para "Guerra dos Sexos" - que, como todo mundo sabe, é o nome de uma novela de Sílvio de Abreu que já teve duas versões. Por isto, aqui no blog vou usar mesmo "Batalha dos Sexos", que inclusive foi o nome que a mídia americana deu ao jogo de tênis entre Billie Jean King e Bobby Riggs, em 1973. Ela tinha 29 anos naquela época e estava no auge do vigor físico; ele, 55, e seus dias de glória já haviam passado. Mesmo assim, Riggs achou que o quarto de século de diferença entre ambos não pesaria na quadra. A partida ocupa apenas o final do longa: antes vem toda a contextualização do período, em que as feministas ainda tinham a fama de queimar sutiãs e seus detratores eram chamados de "porcos chauvinistas". Emma Stone está sutil como King, que então se descobria homossexual. Já Steve Carrell não economiza caretas, e só não pode ser acusado de overacting porque o verdadeiro Bobby Riggs era ainda mais canastrão. Cheio de calças boca-de-sino e gente que fuma em quartos de hotel, "Batalha dos Sexos" se passa há mais de 40 anos, mas chega em boa hora. Igualdade, respeito e autoaceitação são temas mais necessários do que nunca, e ficam mais palatáveis vestidos de comédia ligeira.

SANTINHA DO PAU CHEIO


A cantora e compositora Annie Clark nem precisava ter adotado o nome artístico de St. Vincent para se destacar. Seu trabalho, que já faturou um Grammy na categoria alternativa, chega ao ápice em seu quarto álbum, o recém-lançado "Masseduction". São treze canções difíceis de classificar, mas irresistíveis de ouvir. As letras inteligentes são um bálsamo para esses tempos difíceis; a capa (zoófila?) é digna de ser exposta na mostra Queermuseu. Pau neles, moça.

domingo, 22 de outubro de 2017

OLIVEIRA PRETE PARA PRESIDENTE


Imagine uma mistura ideal de FHC e Lula. Um presidente brasileiro respeitado e temido por seus pares, e apontado como um dos cinco homens mais influentes do mundo. Preocupado em acabar com a desigualdade e em liderar a América Latina. Como se não bastasse, o cara ainda fala um espanhol perfeito. Sim, ele existe, mas só no filme argentino "A Cordilheira", em exibição na Mostra de SP. O fictício Oliveira Prete (interpretado por Leonardo Franco) é o peso-pesado de uma reunião de cúpula realizada no Valle Nevado, no Chile. Mas o protagonista do longa é o presidente da Argentina - Ricardo Darín, lógico. Um "homem do povo" (assim dizia sua campanha) eleito sem muita aptidão para o cargo, mais preocupado com a filha problemática do que em fortalecer a matriz energética da região. "A Cordilheira" tampouco se decide: não sabe se é um trhiller político ou um drama familiar, e não satisfaz nenhum dos dois gêneros. Quando uma de suas vertentes parece que está engrenando, o diretor Santiago Mitre muda para a outra, desperdiçando o interesse do espectador. E pensar que ele teve quase todas as condições para realizar um filmaço: uma boa ideia original, uma locação fabulosa, um elenco cheio de nomes internacionais. Faltou roteiro. E sobrou, no final, um candidato perfeito para disputar o Planalto em 2018. Só que não.

ONDE QUERES FAMÍLIA, SOU MALUCO

Caetano Veloso e Paula Lavigne se conheceram em 1982. Ele tinha 40 anos; ela, apenas 13. Transaram, namoraram, casaram-se quatro anos depois. Tiveram dois filhos, se separaram, voltaram. É puxado chamar de "pedofilia" uma relação que já dura mais de três décadas. Além do mais, quando ela perdeu a virgindade para ele - como admitiu na já célebre entrevista que deu à revista "Playboy" em 1998 - o Código Penal não dizia que era crime manter relações sexuais com menores de 13 anos. A discussão era caso a caso, a cargo do juiz e com base no comportamento do/da menor. Se fosse a juízo naquela época, Caetano seria absolvido: Paula vem de uma família de intelectuais, e seus pais sabiam o tempo todo do namoro da filha com um homem mais velho. A mudança na lei só aconteceu em 2009, então é incabível condenar retroativamente o músico. O juiz que irá julgar o processo que o casal agora move contra o MBL e Alexandre Frota deve levar tudo isso em conta. Talvez seja esta a única maneira de lidar com quem incentiva o ódio online: pedindo indenizações na Justiça. O MBL descobriu uma maneira rápida de inflamar seu público, enquanto ignora gostosamente as suspeitas de corrupção que assolam o governo Temer. São hipócritas no sentido clássico do termo. Mas, para além disso, cabe uma questão: por que os artistas brasileiros viraram alvo dos trollers? Só o apoio que muitos deles deram ao PT não explica (e Caetano, por exemplo, jamais se declarou petista). Suspeito que exista uma inveja primal do sucesso e da fama de que eles desfrutam, inflamada pelas acusações de desvio de dinheiro público através das leis de incentivo à cultura. Essa turba não sabe como essas leis funcionam, nem que o próprio Danilo Gentili se valeu dos mecanismos da Lei do Audiovisual (que implica em renúncia fiscal, ou seja, dinheiro público) para produzir seu filme. Acima de tudo isto, paira a ameaça da volta da censura e da instalação de uma ditadura cultural, que cale os dissidentes em nome de uma maioria ignorante. Foi mais ou menos assim como aconteceu na Rússia.

sábado, 21 de outubro de 2017

TRISTESSE


Ontem foi meu aniversário. Como já fiz em outros anos, me dei a tarde livre e fui me enfurnar na Mostra de Cinema de SP. Queria muito ver "Félicité", o primeiro filme indicado pelo Senegal ao Oscar (apesar da ação se passar na República Democrática do Congo). Aproveitei para pegar o longa que passava imediatamente antes, o argentino "El Pampero". Apesar de não durar nem 1h20 e ter uma premissa interessante - mulher em fuga se esconde no barco de um homem amargurado - o filme é chato e melancólico. O que poderia ser uma boa trama policial vira uma meditação sobre a morte e a solidão, não exatamente do que eu estava a fim no dia de meus anos.
Pior ainda foi o meu aguardado "Félicité", uma das coisas mais maçantes que vi na vida. De novo, a premissa prometia: cantora da noite de Kinshasa precisa arranjar dinheiro para a operação do filho que sofre um acidente de moto. As críticas eram ótimas, e o filme ganhou o Urso de Prata (o equivalente ao segundo lugar no Festival de Berlim). Mas é uma tristeza só: miséria, desespero, sujeira, dívidas atrasadas, pernas amputadas. A protagonista, a despeito do nome feliz, quase não sorri. E da metade para o fim o troço vira uma obra de vanguarda, com cenas escuríssimas que não levam a lugar nenhum e zero de carga dramática. Ano que vem vou ao circo, ou quem sabe a um show sertanejo. Aniversário é pra gente se divertir.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

LEE LEE SANTOS


Rita Lee construiu toda sua carreira como a embaixadora do rock no Brasil, mas no fundo ela nunca me enganou. E nem ao Lulu Santos, que se propôs a dar tratamento pop a alguns dos grandes sucessos da mulher que mais vendeu disco em toda a nossa história. O tributo "Baby Baby!" não traz grandes surpresas: o repertório é meio óbvio, e nenhum dos arranjos se afasta radicalmente das versões originais. Mas é gostoso feito um pudim com uma calda diferente.

O MAIOR CARTAZ


Vão chover indicações ao Oscar sobre "Três Anúncios para um Crime", que está passando na Mostra de SP mas só estreia em janeiro no Brasil. A mais óbvia é para Frances McDormand, que encontrou nesta mistura de filme policial com comédia negra um papel sob medida para seus traços duros (ela está cada vez mais parecida com William Dafoe) e seu estilo ácido de atuação. E a maior barbada é para o roteiro original do também diretor Martin McDonagh: ele solta um monte de pistas falsas, desafia os clichês e faz o espectador não desgrudar os olhos da tela. A premissa sugere um drama pesadão: sete meses depois do brutal assassinato da filha adolescente, uma mãe inconformada com a lerdeza da polícia cobra resultados em três outdoors à beira de uma estrada em sua cidadezinha no interior dos EUA. Mas o que se segue, bem ao estilo dos irmãos Coen, é um estudo sarcástico das complexas relações entre os habitantes do lugar. Ninguém é santo ou vilão. Todos os personagens são humanos, e a violência explode entre eles muitas vezes em chave cômica. "Três Anúncios..." venceu o último Festival de Toronto, que só tem voto popular, e vai se tornar um fenômeno do boca-a-boca. Que puta filme.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

SOMOS O QUE SOMOS


Quase tudo o que eu falei da entrega do Prêmio Bibi Ferreira no ano passado vale para este ano. O show é tão bem elaborado, bem escrito e bem interpretado que deveria passar na TV aberta. É umas duzentas vezes melhor que a porcaria que fizeram para o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. Alessandra Maestrini, eterna mestre de cerimônias, teve este ano o apoio de Miguel Falabella e outros nomes do teatro musical - a cena em que os dois aparecem com os trajes invertidos destruiu de vez o pouco que restava da família brasileira, já abalada com as aulas de ideologia de gênero que Pablo Vittar vai dar em Ponta Grossa. E os números dos espetáculos indicados mostraram que não falta qualidade nem quantidade aos nossos talentos. Meu único senão é o fato dos dois grandes premiados da noite terem sido as remontagens de "Les Misérables" e "My Fair Lady". Além do fato de serem peças gringas e já antigas, são o déjà-vu do déjà-vu. A primeira é uma franquia internacional, que pouco acrescenta à primeira encenação brasileira de 17 anos atrás. A segunda é quase um repeteco da montagem que Jorge Takla fez há uns cinco anos, embora com outro elenco. Assim, parece que se confirma a tendência do Bibi Ferreira premiar sempre as produções mais luxuosas da temporada. Mas o mais importante da noite foram mesmo os muitos protestos contra a censura, vindos de todos os premiados e apresentadores, e o número final, em que Falabella começou a cantar "I Am What I Am", da "Gaiola das Loucas", e depois passou a bola para algumas das drags mais famosas de São Paulo. Somos o que somos, e ninguém mais vai nos calar.

THE DARK SIDE OF BRAZIL

Graças à nossa educação incipiente e aos vestígios de uma mentalidade medieval, o Brasil nunca foi um país de gente esclarecida. Mas, há até pouco tempo, os ignaros tinham pouco acesso aos meios de comunicação. A internet mudou tudo isso e mostrou que o país era ainda pior do que a gente pensava. O curioso episódio Polenguinho / Pink Floyd funcionou como um prisma, revelando os matizes da estupidez que ainda grassa por aqui. Os asnos que reclamaram da brincadeira que a marca fez com a capa de um dos discos mais importantes da história do rock demonstram falta  de cultura geral (não sabem que a luz branca é composta por sete cores diferentes), falta de cultura pop ("The Dark Side of The Moon" vendeu 45 milhões de cópias desde 1973, mas pelo jeito não chegou no rincão remoto onde os asnos pastam) e falta de bom senso, achando que o anúncio de um queijo pode tornar uma pessoa gay. Ainda bem que muitos internautas rebateram os homofóbicos na lata, e a resposta da marca foi perfeita. Quem acha que o Polenguinho promove a "ideologia de gênero" (o nome que os preconceituosos descobriram para camuflar seu preconceito) pode muito bem deixar de comprá-lo. Também deveria desligar a Globo, sair do Facebook, evitar Coca-Cola, não ir à Disney, jogar fora o iPhone e boicotar todas as empresas que ajudam na luta pela igualdade de direitos.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

VIRANDO FARINHA

João Doria vem sendo avaliado como ruim de administração porém bom de marketing. Pois eu já acho que o prefeito de São Paulo anda derrapando na incessante autopromoção.  Não havia um mísero assessor por perto para sugerir que o anúncio do tal "granulado alimentar" - um biscoito feito com a farinha de alimentos por vencer - talvez caísse mal para a imagem dele? Não vou nem entrar no mérito se o produto é alimento ou suplemento, ou se fere a dignidade humana. O fato é que Doria, na ânsia de lançar sua pré-candidatura à presidência, soltou mais um vídeo precipitado, sem prever as reações na imprensa e nas mídias sociais. Desse jeito, tanta pretensão logo vai ser moída.

DE VOLTA A 1887

Em mais uma tentativa desesperada de garantir os votos que talvez lhe faltem para salvar seu mandato, o presidente Temer, o Velho, cedeu à pressão da bancada ruralista e aliviou a definição de trabalho análogo à escravidão. É um gigantesco passo atrás, criticado por FHC e pela própria Secretária de Direitos Humanos do governo Temer, Flávia Piovesan. Estamos quase abolindo a Abolição da Escravatura. Dá até vontade de rezar para que não surja uma terceira denúncia contra o Velho: o que mais será que ele é capaz de trocar pelos votos que o safem? Eu tremo só de pensar.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

R.I P. PSDB

Votei várias vezes nos tucanos. Nunca me considerei um deles, mas cravei PSDB em todas as eleições presidenciais (inclusive na de 89, em que fui de Covas no primeiro turno e nulo no segundo). Mas o partido já vinha se desfigurando há tempos, aceitando membros das bancadas BBB (bala, Bíblia e boi) e pendendo muito mais à direita do que nos tempos de FHC. Hoje o tucanato bateu o prego de seu próprio caixão, ao votar em peso pela manutenção do mandato de Aécio Neves. O senador mineiro tinha que ter sido defenestrado assim que surgiu a gravação onde ele se auto-incrimina, mas faltou honradez a seus correligionários. Agora, que arquem com o ônus nas urnas de 2018. Eu, pelo menos, jamais votarei neles.

O DESTIM DO AECIM

É quase comovente ver Aécio Neves lutando pela sobrevivência política, como um cristão atirado aos leões. O futuro ex-senador se debate, esperneia, chora, sussurra juras de amor e ameaça levar todo mundo com ele se não for salvo. Digo "futuro ex-senador" porque me parece que o destim do Aecim já está selado. Ele pode até se safar na votação que deve acontecer ainda hoje no Senado (talvez seja adiada por falta de quórum e/ou manobras). Mas seu mandato expira no ano que vem, e eu desconfio que depois ele sequer consiga se eleger deputado. Esta é uma característica positiva dos eleitores tucanos: um dos cardeais do PSDB foi exposto como um pulha, e ninguém que votou nele fica pentelhando por aí gritando "Aécio, guerreiro do povo brasileiro". Só os petistas é que têm um deus acima do bem e do mal (para não dizer ladrão de estimação).

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

KURTZGRILA

Outra eleição teve um triste resultado neste domingo, e dessa vez não podemos dizer que houve fraude. O partido conservador ÖVP ganhou na Áustria, e seu líder Sebastian Kurtz, de apenas 31 anos, deve ser o próximo primeiro-ministro do país. Até aí, tudo bem: nas democracias, é normal que haja alternância de partidos no poder. E quem é que vai reclamar de ter um gatíneo desses como chefe de Estado? Acontece que, para formar seu governo, Kurtz provavelmente fará uma coalizão com o FPÖ, da extrema-direita. Não sei vocês, mas eu fico todinho arrepiado só de pensar nesses caras mandando nos austríacos. Da última vez, parece que a coisa não foi bem.

TRISTE VENEZUELA

A Venezuela deveria ter tido eleições para governadores estaduais no ano passado. O pleito foi adiado duas vezes com desculpas esfarrapadas do chavismo, que temia perder nas urnas, e convocado às pressas assim que se instalou a espúria Assembleia Constituinte. Tratava-se de um golpe de marketing, bastante usado pelo falecido caudilho: buscar um mínimo de legitimidade no voto popular, para ninguém se atrever a chamar o país de ditadura. Mas boa parte da oposição decidiu participar, receosa de que se repetisse o mesmo que aconteceu após o boicote de 2005: o governo levaria tudo. Só que Nicolás Maduro já demonstrou que não joga limpo, e desta vez não foi diferente. Várias seções eleitorais foram alteradas do dia para a noite, especialmente no estado de Miranda - que rodeia Caracas e é governado atualmente por Henrique Capriles, o maior nome oposicionista. Resultado: os antichavistas perderam Miranda e levaram apenas cinco dos 18 estados em que eram favoritos, contrariando todas as pesquisas confiáveis. Se houvesse lisura, isto seria impossível: nenhuma situação vence quando a inflação é galopante e faltam itens básicos para a população, como remédios e comida. Mas agora Maduro vai se jactar de tolerar alguns governos estaduais de oposição (que, no entanto, ainda estão condicionados ao reconhecimento da espúria Constituinte), e dar argumentos ao PT e outras esquerdas de que a Venezuela é uma democracia em pleno funcionamento. Não é, e tão cedo não deixará de sê-lo. Além do mais, por causa da apatia reinante, já que muita gente se cansou de espernear contra o regime e só levar na cabeça.

domingo, 15 de outubro de 2017

A CASA DOS HORRORES

O UOL publicou neste domingo uma longa matéria sobre um hospital de São Paulo que, entre 1930 e 1945, "tratou" pacientes acometidos de "pederastia e homossexualismo". É uma visão do inferno: há registros de onze homens internados que foram submetidos a confinamento, eletrochoques e comas induzidos, e nenhum caso de sucesso. Um deles, inclusive, teve duas "recaídas" depois da primeira alta. A reportagem retrata a mentalidade vigente há mais de 70 anos, mas também é um lembrete do horror que estão querendo trazer de volta. Quem defende que alguém que esteja sofrendo por sua orientação sexual procure auxílio psiquiátrico para voltar a ser hétero geralmente tem em mente um adulto angustiado, em plena posse de suas faculdades mentais. É claro que essas pessoas existem, e é mais claro ainda que elas podem falar com psicólogos e psiquiatras sobre a dor que as aflige. E o profissional, se o for mesmo, não tentará "curá-las", mas tentar fazer com que elas se aceitem como de fato são. Mas o que importa aqui é que, se qualquer coisa com cheiro de "cura gay" for aprovada, suas vítimas preferenciais - sim, vítimas - não serão os tais adultos, mas crianças e adolescentes internados pelos próprios pais. Ainda existem centros desse gênero nos Estados Unidos e em alguns países da Ásia, e os relatos de quem sobreviveu a eles não fica muito a dever ao antigo Pinel de Pirituba. É bom ter isto em mente antes de achar razoável que se flexibilizem à marra as determinações do Conselho Federal de Psicologia. Também convém lembrar que lei nenhuma tem como mandar na ciência ou na natureza.

sábado, 14 de outubro de 2017

OLÊ MULHER RENDEIRA


"Entre Irmãs" é cinemão com todas as letras em caixa alta. É uma baita produção onde nada parece ter sido economizado: locações, direção de arte, música, tudo é copioso feito um açude transbordando. Inclusive a duração de quase três horas. Saí com a sensação de ter visto uma minissérie de uma só sentada, sem um único respiro - inclusive, suspeito que o filme ficará melhor quando for exibido pela TV neste formato, com breaks e ganchos. A história é folhetim puro. Duas irmãs do interior do Nordeste têm destinos diferentes: uma se casa com um ricaço e vai para Recife, a outra entra para o cangaço. Marjorie Estiano e Nanda Costa estão perfeitas, uma tranquila, a outra fogosa. Aliás, todo o elenco está soberbo. Mas o roteiro tem barriguinhas, que poderiam ter sido eliminadas e tornado este bom longa num épico sensacional. Um filme mais curto, inclusive, ganharia mais sessões nas salas. De qualquer forma, é ótimo que Brasil produza obras desse tamanho. Nosso cinema já sabe namorar: agora precisa aprender a fazer renda.

TOQUE DE CLASSE


Carla Bruni é a antítese do "The Voice". Madame Sarkozy canta de um jeito dolente, quase preguiçoso. Não sei se funciona no palco, mas seus discos sempre me dão a sensação de que ela está ali do lado, sussurrando suas canções no meu ouvido. "French Touch" não traz nenhuma composição dela, nem grandes novidades. São apenas covers de standards do pop em inglês, como se ela estivesse de olho no mercado anglófono. Não é um disco formidável, mas é uma delícia. E nada é mais gostoso que a levada bossa nova que ela deu a "Miss You", dos Rolling Stones. Perfeito para aliviar o stress.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

DIVAS INJUSTIÇADAS

Por incrível que pareça, Grace Jones e Maria Bethânia têm muita coisa em comum. As duas nasceram em pequenas cidades do Terceiro Mundo, em famílias numerosas e religiosas. Saíram de casa cedo para tentar a sorte e se deram bem rapidamente. Construíram carreiras que já duram décadas e ambas continuam na ativa, mesmo tendo por volta de 70 anos. Suas vozes graves e poderosas as fazem reconhecíveis na primeira nota. Elas também têm a capacidade de se apoderar de qualquer música que cantam, trazendo-a para seu universo particular. Para completar, as duas viraram o assunto de documentários fracos.

"Karingana - Licença para Contar" acompanha a visita de Bethânia a Moçambique em 2016. O título se refere a uma expressão local usada por alguém que vai contar uma história, mas é justamente história o que falta no filme. Quem não souber muito sobre a antiga colônia portuguesa na África Oriental vai continuar sem saber: não há contextualização, nem muitas imagens que mostrem o país. A diretora Mônica Monteiro preferiu colher depoimentos de moçambicanos louvando a língua lusitana, o que é lindo mas não é didático. Também vemos Bethânia com um grupo de dança folclórica e conversando com os escritores Mia Couto (moçambicano) e Agualusa (angolano), que ela depois traz ao palco de seu show. O espetáculo em si, mais de poesia do que de música, poderia acontecer em qualquer lugar: não sabemos como é o teatro, nem a plateia. Mas é o que acaba salvando "Karingana", porque Bethânia é sempre fenomenal. Um ímã para os olhos e os ouvidos, ela transborda felicidade por estar em cena e nos torna felizes juntos. Merecia bem mais.
Pior ainda é "Grace Jones: Bloodlight and Bami", em que a diretora Sophie Fiennes consegue a proeza de tornar chata uma das mulheres mais interessantes do mundo. Durante cinco anos, a irmã do ator Ralph Fiennes seguiu a cantora por estúdios, bastidores e viagens à Jamaica. Passou outros cinco finalizando o filme, mas em nenhum momento lhe ocorreu dar alguma estrutura ao material que rodou. As sequências são montadas de qualquer jeito, fora de ordem cronológica ou qualquer outra que lhes desse sentido. Grace aparece mais velha, depois remoça, depois envelhece de novo, sem uma mísera legenda que identifique data e local. Vemos a diva tendo um de seus famosos ataques, o que é sempre divertido, e um pouco de sua família - o filho Paulo, o ex-marido Jean-Paul Goude, a neta Athena, então recém-nascida, e muitos do clã da Jamaica. Mas nada é explicado, nem mesmo o título - "bloodlight" é gíria para a luz vermelha que se acende nos estúdios durante as gravações, e "bami"é  um pão típico da Jamaica. Se eu não tivesse lido a autobiografia de Grace Jones dois anos atrás, teria boiado legal.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

DORMINDO NO PONTO

Minha empolgação por Cármen Lúcia começou a diminuir assim que ela assumiu a presidência do STF. O estilo panos-quentes da ministra não era bem do que o Brasil estava precisando neste momento, que pede posições mais firmes. Me decepcionei ainda mais quando, há alguns dias, ela votou pelo ensino religioso nas escolas públicas, um descalabro num estado que se quer laico - e uma abertura de pernas imperdoável à sanha evangélica. Ontem Cármen Lúcia estava parada no ponto, mas não fez sinal e deixou passar o ônibus da história. Com um simples voto dela, a cleptocracia vigente no Brasil teria sofrido um abalo daqueles, talvez irreversível. Mas a mineirinha se enrolou, quis agradar todo mundo e deu uma sobeja demonstração de covardia. Livrou a cara de Aécio Neves e deu a senha para os que já roubam continuarem roubando, numa boa. Inclusive a nossa vida, a nossa dignidade e a nossa esperança por um país melhor. Agora é tarde, dorminhoca.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

QUEM DÁ MAIS?

E lá vamos nós outra vez. Está aberta mais uma consulta pública no site do Senado, agora perguntando se o internauta apoia "criminalizar a homofobia para punição de pessoas que atacam outras pessoas por serem LGBT". A frase é assim mesmo, mal-escrita e meio vaga, mas o nosso "sim" não deve titubear. Não que eu ache que uma vitória acachapante irá reverter na aprovação da lei, mas porque os homofóbicos vão fazer um carnaval se o "não" ganhar, o que "provaria que a maioria dos brasileiros é contra a ditadura gayzista". Vamos lá, é só clicar no "sim" e pronto; não vai tomar nem 30 segundos e dá para entrar via Facebook.

O CATECISMO FINLANDÊS


Tenho algo a acrescentar à minha crítica ao filme "Tom of Finland" que saiu hoje na Folha. Não coube no espaço que me coube no jornal, e a rigor nem é sobre o longa em si. Só queria ressaltar como Touko Laaksonen (o nome real do artista) virou um herói para as bibas que conhecem seu trabalho. Se ele desenhasse mulheres com peitões e bundonas, hoje talvez tivesse caído em desgraça, acusado de machismo e objetificação. Mas Tom of Finland criou um universo de beleza masculina tão exagerada que a gente sabe que aquilo é só uma fantasia. Seus homens são tão ridiculamente perfeitos e bem-dotados que não dá nem para dizer que ele estabeleceu um padrão impossível de ser seguido - até porque, na vida real, Tom era feio, magricela e barrigudo, não exatamente a combinação mais atraente. Acho isso um ponto positivo da cultura gay.  A maioria de nós não vê a sexualidade como um instrumento de opressão, e nossos astros pornôs são como semideuses. Pelo menos do puritanismo bocó, escapamos.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

LGBTV-BR

Hoje saiu no iG uma boa matéria sobre a representação de gays, lésbicas e trans na televisão brasileira, incluindo trechos de uma entrevista que eu dei semana passada para a repórter Karine Seimoha. O artigo também inclui declarações do diretor Daniel Ribeiro (de "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho") e do ativista Vinicius Oziel. Quase quatro anos depois do beijo entre Félix e Niko em "Amor à Vida", a gente analisa o que melhorou e piorou de lá para cá na nossa TV. Leia e comente, aqui ou lá - mas imploro para não resvalarmos para o debate insano entre direita e esquerda. Estamos falando de direitos humanos básicos, algo que nem deveria mais levantar polêmica. Valendo?

COLÔNIA DO SACO CHEIO


Lucrécia Martel não é para todo mundo. O estilo hermético da diretora argentina faz com que seja até surpreendente a escolha de "Zama" para representar seu país no próximo Oscar. O longa é uma co-produção com o Brasil e tem vários atores nossos no elenco, inclusive o sempre incrível Mateus Nachtergaele. O roteiro fala da obsessão de um oficial da Coroa espanhola baseado no que hoje é o Paraguai em capturar um malfeitor enquanto espera sua transferência de volta para a Europa, em pleno século 17. Mas está longe de ser um thriller: é um filme-cabeça de época, com animais invadindo o quadro sem mais nem menos (a cena da lhama é sensacional) e muita encucação, temperada com violência aqui e ali. A sessão em que eu o assisti no Festival do Rio terminou com algumas vaias e gritos de "vergonha!", mesmo na presença da diretora e da equipe. Talvez porque Zama mostra os escravos negros sendo maltratados? Não entendi. De qualquer forma, é um filme lindo e árido, que só vai agradar aos fãs de Martel.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

GENTE SEM LOÇÃO

Nos meus tempos de propaganda, trabalhei com uma grande empresa americana que achava que o mundo inteiro era igual aos Estados Unidos. Produtos e campanhas não eram adaptados para outros países, com resultados comicamente catastróficos. Também trabalhei com uma grande empresa europeia cuja filial brasileira vetava a presença de negros nos anúncios. Não era uma ordem da matriz: o gerente tupiniquim é que era racista. Mas nunca, em meus 25 anos neste mercado, topei com uma estupidez tão grande quanto o comercial da Dove que causou uma pororoca de proporções planetárias nas redes sociais neste fim de semana. Claro que convém vê-lo por inteiro, e não apenas o composit de imagens sem contexto que vem sendo replicado por aí. Dá para perceber que o conceito pretendido era algo como "sinta-se uma nova mulher cada vez que você usar a loção Dove". Num mundo menos carregado, talvez a mensagem tivesse passado sem problemas. Só que esse mundo não existe, e é de pasmar que uma empresa global como a Unilever, onde prima a diversidade (também trabalhei com eles), não tenha percebido a arapuca colossal em que estava se metendo. O passado de Dove condena: a marca já lançou um protetor solar para pele "de normal a escura", entre outros passos falsos. Mas esse filme desastrado, que já foi tirado do ar, talvez tenha danificado-a para sempre.

O MISTÉRIO DO AMOR


Das boas coisas da vida: ir ao cinema esperando adorar o filme, e adorar mesmo. Eu estava trepidando para ver "Me Chame pelo Seu Nome" desde que saiu o trailer, uns meses atrás. Consegui, no Festival do Rio - e é essa beleza toda que estão falando. A história não podia ser mais simples. Demora um pouco para engrenar e é até previsível. Mas é de uma delicadeza e de uma violência que me abalou os alicerces. Não vai faltar hipócrita gritando "pedofilia!" quando o longa estrear oficialmente no Brasil em janeiro, porque o personagem principal é um garoto de 17 que se envolve com um homem de 30. Os dois são as coisas mais bonitas que Deus pôs no mundo. Armie Hammer transborda magnetismo como o estudante americano que vai passar seis semanas na casa de um professor de arqueologia no norte da Itália. Mas o filme é de Timothée Chalamet. Lindo feito uma estátua romana, o rapaz ainda fala inglês, francês e italiano, toca piano e é um ator fabuloso. O diretor Luca Guadagnino já tinha feito um dos meus filmes favoritos, "Io Sonno l'Amore", e agora assina mais um para a minha lista da ilha deserta. Vão chover indicações ao Oscar, inclusive para a canção "Mystery of Love" de Sufjan Stevens. E eu vou ver de novo quando entrar em cartaz, ô se vou.

domingo, 8 de outubro de 2017

ARTE NÃO É PEDOFILIA

Pedofilia é um crime sério. Não dá para sair acusando alguém de cometê-la ou incitá-la sem provas, a torto e a direito, só para provocar comoção. Mas foi exatamente isto o que fizeram o MBL e políticos como João Doria, Marcelo Crivella ou Magno Malta. Todos tentaram criar uma onda de pânico moral e tirar proveito dela. Agora vão levar o troco. Adriana Varejão - a autora da tela "Cena do Interior II", de 1994, um dos pivôs do caso Queermuseu - vai entrar na Justiça contra seus difamadores. Gaudêncio Fidélis, o curador da exposição censurada, também. E toda a classe artística está se unindo ao lado deles. Hoje começou a ser divulgada a campanha da #342Artes, vertente do movimento liderado por Paula Lavigne. Mas ela não vai ficar só nos videos para a internet. Os acusadores vão ter que responder judicialmente às pesadas acusações que vêm fazendo, que são totalmente infundadas e fruto de má-fé para ludibriar os incautos. Quem cobra moralidade no mundo das artes está fazendo o jogo de quem preservar a imoralidade na política: simples assim.

(Olá, você que vai fazer um comentário dizendo que artistas mamam na Lei Rouannet e que a "maioria" é contra essas obras degeneradas: não precisa. Bjs.)

sábado, 7 de outubro de 2017

BOLSOMICO

Na reportagem de capa da "Veja" desta semana, Jair Bolsonaro diz que tem medo de que "o sistema" se volte contra ele. Vão fazer de tudo para impedir sua vitória nas eleições do ano que vem. E, se ele vencer, vão fazer de tudo para que sofra impeachment o quanto antes. O Bolsonazi tem razão: a própria chamada de capa da revista é um sinal de que o establishment brasileiro já está se voltando contra sua candidatura. Nenhuma democracia aceita fácil um extremista. Mesmo o Trump foi bombardeado pelos republicanos até a convenção do partido, e só ganhou por causa de um arcaísmo da constituição americana. Na Europa, a extrema-direita tem crescido, mas não o suficiente para tomar o poder - e eu duvido que consiga, mesmo com o impulso do terrorismo islâmico. Aqui, um país mal-educado e desinformado, existe toda uma geração que não viveu o regime militar e se sente ameaçada pelos perigosos movimento feminista, negro e LGBT. Bolsonazi fala para essa galera, e para alguns velhos além dela. A repercussão de suas ideias parece imensa, mas está confinada a uma bolha. No ano que vem ele finalmente será confrontado por rivais em debates. Provavelmente, irá xingar muito e desqualificar seus adversários, o que vai agradar quem já o segue. Mas será que consegue novos seguidores? É inevitável que surja um candidato de centro-direita, seja ele Alckmin, Doria ou algum outro nome, com apoio de boa parte da mídia e do grande capital. Meu palpite: o desarticulado Bolsonazi verá seus votos desidratarem, e não deve chegar sequer ao segundo turno (bate na madeira). Mas tem uma coisa com que é bom mesmo a gente "jair" se acostumando. A extrema-direita chegou para ficar, como em muitos outros países. Gostemos ou não, agora ela faz parte do jogo.

MODÉRNONA

Em 1986 - quando muitos dos meus leitores não eram sequer um brilho nos olhos de seus pais - Fernanda Montenegro estrelou no Rio uma montagem da "Fedra" de Racine, uma adaptação do século XVII de um mito grego. Imediatamente, um trio de atrizes lançou uma espécie de paródia chamada "Pedra, a Tragédia", juntando três textos curtos. No último, a grande (em todos os sentidos) Thelma Reston encenava sozinha os trocentos personagens de uma tragédia imaginária, "Ifigênia em Sodoma". Cada um deles merecia um gesto diferente: "quando eu fizer assim é Ulisses, quando eu fizer assim é Menelau...". Essa pérola do teatro besteirol não me saiu da cabeça durante "Antígona", o clássico de Sófocles que Andrea Beltrão transformou em um monólogo. O cenário é uma grande árvore genealógica na horizontal, explicando quem é filho de quem - algo essencial na história da filha de Édipo, que matou o pai e se casou com a mãe. Andrea muitas vezes assume um ar de professora, destrinchando os meandros da Grécia Antiga. Para ser bem esnobe: ela epiciza um texto dramático. Mas também encarna muitos dos personagens, dando-lhes corpo e voz e metamorfoseando-se neles. Sai do palco, corre pela plateia, sua, grita, se descabela. O problema é que a sala é grande demais: o enorme teatro Raul Cortez, em São Paulo, que não se presta a um espetáculo intimista. Mas nem por isto a abordagem que Andréa e o diretor Amir Haddad deram a um texto com 2.500 anos de idade deixou de me impactar. Os gregos tinham que ser montados mais amiúde: eles não são modérnonos, são etérnonos.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

ANDRÓIDES SONHAM COM BEBÊS ELÉTRICOS?


O primeiro "Blade Runner" foi um fenômeno da era do home video. Fracassou nas bilheterias americanas em 1982, mas virou cult assim que foi lançado em VHS e hoje é reverenciado como um clássico. Muito se falou numa continuação ao longo desses 35 anos, mas só agora ela se concretizou. "Blade Runner 2049" é um digno sucessor, com tomadas espetaculares e um som de arrebentar (eu vi numa tela IMAX). Só não é tão bom quanto o primeiro; quem sabe, daqui a alguns anos, eu mude de ideia? O curioso é que essa versão "canadense" (o diretor Denis  Villeneuve e o astro Ryan Gosling vieram de lá) corrobora uma minhoca que nasceu na minha cabeça. Um tema recorrente do entretenimento atual são os andróides com inteligência artificial. Eles aparecem em séries como "Westworld" e filmes como "Ex-Machina", sempre questionando seus criadores e a si mesmos. No entanto, não um problema muito comum: na minha família, por exemplo, só tivemos um caso de um tio-robô, e ele já foi neutralizado. Por que, então, esta obsessão com o assunto? Afinal ainda não chegamos ao ponto de termos replicantes enchendo o saco. Na verdade, acho que essas atualizações de Pinóquio não são parábolas admoestando o homem a não querer emular Deus e criar vida onde não haveria (isto "Frankenstein" já faz), mas metáforas sobre filhos. Eles nunca saem como os pais gostariam, e muitos se rebelam. E adivinha do que se trata "Blade Runner 2049"? Pois é, alguns replicantes podem engravidar. Mais não vou dizer, porque o roteiro é tido como cheio de surpresas (embora não para mim). De qualquer forma, é de encher olhos e ouvidos. Tem dias em que a gente precisa desse bombardeio sensorial.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A CENSURA, LIVRE

Torquato Jardim, o ministro da Justiça, quer que a classificação indicativa dos espetáculos saia das mãos do governo. Ele cita o exemplo americano, onde é a própria indústria do cinema que determina a faixa etária adequada para cada filme. Seria lindo, não fosse por duas razões: 1) Jardim foi indicado ao cargo por Temer para conter a Lava-Jato, portanto qualquer coisa que ele fizer é pra lá de suspeita; e 2) alguém duvida que a classificação indicativa cairia nas mãos não da indústria do entretenimento, mas nas de "representantes da sociedade civil"? Em português claro, nas das igrejas evangélicas, cada vez mais abusadas. Veja só o novo projeto de lei do Infeliciano: o deputado-pastor quer proibir shows, games e filmes que "desrespeitem símbolos religiosos". Ou seja - qualquer coisa, pois a interpretação do que seja desrespeito é elástica e arbitrária. Desse jeito, vão para o mesmo saco Madonna, "A Última Tentação de Cristo" e acervos inteiros de museus. Oremos para que esse PL não passe, ou seja barrado no Supremo por inconstitucionalidade. Vamos aproveitar e rezar para que um item da reforma política que está sendo aprovada de sopetão também caia logo: a censura de "discursos de ódio ou informações falsas" em blogs e redes sociais, sem ordem judicial. Isto quer dizer que eu vou em cana, e boa parte dos meus comentaristas também. A não ser que a gente reaja: a censura está doidinha para voltar, mais linda, leve e solta do que nunca.

SIM AO IMS

No meio de tanta discussão desgastante sobre o que é arte e o que deixa de ser, há uma notícia boa que merece ser destacada: a nova sede do Instituto Moreira Salles em São Paulo, no comecinho da Paulista. O IMS é uma instituição privada, ligada à família que fundou o Unibanco (hoje fundido com o Itaú), e suas atividades refletem o gosto pessoal de seus donos, com ênfase na fotografia. Seria absolutamente incrível se o prédio recém-inaugurado aceitasse a mostra "Queermuseu", mas a programação já está fechada para os próximos meses. Aberto para a avenida e sem cobrar ingressos para suas exposições, o IMS já é um sucesso de público. Especialmente popular é o filme "The Clock", que fica em cartaz até o fim do ano: um longuíssima-metragem com 24 horas de duração, composto por cenas de outros filmes onde os personagens veem que horas são. A hora da tela é sincronizada com a hora real, o que dá uma sensação de urgência e encantamento. Nos fins de semana, o IMS fica aberto 24 horas: dá para entrar e passar horas assistindo a "The Clock", como fez uma amiga no sábado passado.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

TRETA GIL

Enquanto que o resto do Brasil ainda se digladia por causa da performance no MAM, no mundinho guei já tem treta nova rolando. Preta Gil, que sempre foi simpatizante da causa LGBT, teria recusado o convite para ser madrinha da Parada Gay do Rio por falta de pagamento. Ela teria apenas que dizer umas palavras, acenar para o público e ser coroada; não era para dar um show em cima de um trio elétrico. Mas a assessoria da cantora diz que ela não pôde aceitar porque está acertando uma apresentação para a mesma data, com cachê e tudo. Entendo a revolta das bibas, que estão reclamando nas redes sociais que o lacre de Preta Gil só funciona com a bandeirada rodando. Ainda mais neste ano, em que a Parada carioca deve estar sofrendo mil vicissitudes nas garras do prefeito-crente. Mas também entendo o lado dela. Um artista vive de sua arte - é diferente de, digamos, um advogado que presta trabalhos voluntários no fim de semana. Já dizia Cacilda Becker, "não me peçam para dar a única coisa que eu tenho para vender". E os músicos, hoje em dia, vivem mesmo é de shows, já que ninguém mais compra disco e os serviços de streaming pagam uma miséria. Então, ela preferir faturar ao invés de desfilar de graça tem lá o seu mérito. Por outro lado... a Parada deste ano vai estar mais politizada do que nunca, e Preta pode estar desperdiçando a chance de se tornar uma artista importante, com mensagem, ao invés de apenas a excelente entertainer que ela já é. Para pensar em casa.

(Sei que Preta Gil está longe de ser uma unanimidade, mas não é seu mérito artístico que está sendo discutido aqui. Por favor, não mande comentários do tipo "odeio, quero que morra", além do mais porque eu não vou mesmo aceitar.)

terça-feira, 3 de outubro de 2017

VIENS, MALIKAAA

De vez em quando, mais ou menos a cada três anos, surge um espetáculo teatral que me deixa plenamente satisfeito. O de 2017 é "O Som e a Sílaba", que entra em cartaz em SP na próxima sexta-feira (ontem eu fui à pré-estreia). Gostei de tudo: texto, direção, cenário, luz, atrizes, música. E que música - simplesmente algumas das árias mais lindas da história da ópera. Eu já sabia que Alessandra Maestrini cantava bem, mas que era soprano absoluta?? Ela e sua professora de canto Mirna Rubim encarnam aqui também uma dupla de aluna e mestra, mas com um obstáculo a mais. Sarah Leighton, a personagem de Alessandra, é portadora da síndrome de Asperger, um distúrbio dentro do espectro do autismo. Contando assim parece que "O Som e a Sílaba" é só uma historinha piegas de superação, o que eu detesto. É muito mais do que isso: é uma comédia com tiradas de rachar de rir (não fosse o autor Miguel Falabella, também diretor), um drama comovente numa montagem digna da Broadway e um recital lírico, tudo numa noite só. Vai, Malika, larga essas lianas em flor e corre para o teatro.

A DOENÇA DA AMÉRICA

Os Estados Unidos tratam seus massacres a bala como se fosse desastres naturais: inevitáveis, assim como os terremotos ou os furacões. É impressionante a inércia do parlamento, há anos dominado pelos republicanos, ainda mais agora que um deles está na Casa Branca. E é criminosa a desfaçatez da National Rifle Association, o lobby das armas - uma de suas iniciativas recentes é facilitar a compra de revólveres e espingardas a doentes mentais, que tal? Mas Trump só irá fazer alguma coisa a respeito se um atirador matar seu filho Barron, e ainda assim vai enfrentar resistência de boa parte da sociedade. Resta aos não-asnos protestar e se lamentar, como fez o comediante Jimmy Kimmel no monólogo de abertura de seu talk show. Foram as palavras mais contundentes sobre a chacina de Las Vegas até o momento, embora seja evidente que ações seriam preferíveis. Mas o que fazer, quando doentes mentais elegem outros doentes mentais?

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

NUMA CAMA DOURADA

Henry Fonda e Katherine Hepburn tinham, respectivamente, 76 e 74 anos quando estrelaram "Num Lago Dourado", que rendeu Oscars a ambos. O filme de 1982 foi um dos primeiros a focar em um casal da terceira idade, e os dois atores encarnavam velhinhos estereotipados: ranzinzas, cheios de mazelas físicas, sem nem sombra de sexo por perto. Trinta e cinco anos depois, Jane Fonda, filha de Henry, faz em "Nossas Noites" uma mulher tão cheia de vida que, às vésperas de completar 80 anos, não tem vergonha de propor ao vizinho, também viúvo, que os dois passem a dormir juntos para se fazerem companhia. Ele é Robert Redford, ainda bonitão aos 81 anos, e claro que dessa vez há uma cena de cama (ainda que pudica). O que não há é uma certa tensão que segure o interesse: o único obstáculo a este amor tardio também surge tarde, quando o filme já vai acabando. Mesmo assim, "Nossas Noites" é agradável de se ver, ainda mais em casa. Dá um certo soninho, e a caminha está logo ali mesmo.