terça-feira, 5 de setembro de 2017

ELA ERA TODAS AS MULHERES

Tive a honra de trabalhar com Rogéria apenas uma vez, em 2000, quando eu era roteirista da série "Ô, Coitado", no SBT. O texto não havia sido escrito especialmente para ela: estava recheado de expressões do pajubá paulistano, que a parisiense Rogéria desconhecia. Sentei ao lado dela e expliquei o que queria dizer "aquendar" - já imaginou a situação? Eu, um reles mortal, ensinando gíria de bicha para a Rainha da Bicharada? Mas Rogéria era, antes de mais nada, uma profissional. Decorou tudinho e depois deu as falas como se tivesse crescido na São João com a Ipiranga. Tempos mais tarde, nos cruzamos no Projac. Eu a cumprimentei, e ela respondeu como se lembrasse exatamente quem eu era, depois de mais de uma década. Ou seja: uma estrela de verdade, que tratava bem seus colegas e seu público. Brilhava o tempo todo, dentro e fora de cena.

Mas não só isso. Rogéria foi uma desbravadora, que pavimentou o caminho para que hoje Pabllo Vittar lidere o hit parade. Ela e suas colegas de geração - Divina Valéria, Eloína dos Leopardos, Jane Di Castro - foram os primeiros travestis a penetrar no mainstream da cultura brasileira (aliás, com elas nunca teve esse papo de "a" travesti. Rogéria, inclusive, reiterava o tempo todo que era homem).

Rogéria não era trans, mas transcendia. Era um poço de carisma e talento: uma atriz de enormes recursos, uma presença luminosa, uma stand-up comic de fazer a plateia se mijar nas calças. Seu pocket show com Agildo Ribeiro foi uma aula de humor. Suas participações em novelas, inesquecíveis. Quis o destino que ela se fosse pouco antes de reaparecer em "Tieta", que está sendo reprisada pelo canal Viva. Mas não morreu esquecida, muito graças ao documentário "Divinas Divas". Agora está no céu, repassando a coreografia do sucesso que roubou de Dalida: Je suis toutes les femmes... Dupla, deusa, única, muitas, Rogéria era tuuudo.

21 comentários:

  1. Tony acredita em "céu" no sentido paraíso?

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  2. Ela dizia ser "A" ou como você mesmo diz "O" travesti da família brasileira. A pergunta que sempre me fiz desde que a vi pela 1ª vez é: Será que a famílias da qual ela dizia ser parte a aceitariam se assim fosse de verdade?

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    1. A única Paris de onde ele veio deve ter sido ao Av. Paris. Meu avô conta que deu um coió nelx, quando elx era apenas um rapaz transviado pelas ruas de Bonsucesso.

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    2. corrigindo: Ela dizia ser "A" ou como você mesmo diz "O" travesti da família brasileira. A pergunta que sempre me fiz desde que a vi pela 1ª vez é: Será que as famílias da qual ela dizia ser parte a aceitariam se assim fosse de verdade?

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    3. Ao 02:54: No começo da carreira, Rogéria morou alguns anos em Paris e fez sucesso lá antes de fazer sucesso aqui. Falava francês muito bem.

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    4. Os anônimos que fizeram esse comentário vieram com a intenção de desrespeitar e zombar da Rogéria. Ou são transfóbicos, ou são as amebas integrantes da nova geração que pensam que todo o movimento civil dos LGBTQs começou com eles.

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    5. 14:28 clap, clap,clap!

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    6. Quem desmereceu "A" Rogéria no comentário das 01:17? Foi só um questionamento que foi feito. E aí o que vocês acham?

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  3. Soube aqui no blog, depois de responder ao João. Fiquei tristíssimo. Foi-se uma diva que não se perdeu em discursos equivocados. Que São Pedro a receba com toda a pompa e circunstância.

    (ouvindo "Paciência" de Lenine, com Elza Soares)

    :(

    Obrigado, Rogéria! Obrigado, Astolfo!

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  4. Q pena,q triste . Há cerca de dois meses e meio,fui vê-la no Teatro Brigadeiro,na semana da Parada. Ela cantou,dançou,declamou,representou,entrevistou e foi entrevistada pela platéia que lotava o show. Eu estava na primeira fila,ela veio em minha direção e disse...sei que vc conhece o que estou cantando e contando ,então me faça uma pergunta. Eu perguntei justamente dos shows com Agildo,que ambos fizeram aqui em SP,em casas do Ricardo Amaral.Ela estava ótima,agilíssima,cheia de energia. Deixa muita saudade . Que Deus a receba,merecidamente,de braços abertos.

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  5. Sai Rogéria e fica quem?
    Essas drags semianalfabetas tipo Leo Aquila?
    Me poupe.
    Acabou a arte do transformismo com Rogéria.

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  6. Se voce nao faz parte da panelinha cool Quebrando o Tabu etc. vão sempre interpretar as suas palavras do jeito a te fazer preconceituoso ou machista. O problema nao é vocer sao eles

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    1. Leia o post acima, "O Respondão", que você vai entender.

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    2. 17:40 Matou a pau. ♡♡♡ Esses elitistas não querem apenas excluir, mas decidiram criminalizar quem nāo se alinha. O importante é sempre reagir e não aceitar que nos imponham a "espiral do silêncio".

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  7. assinando em baixo - pq tonyah 'deu' uy bola dentro - ela era maravilhosa MESMO

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  8. Vou sentir muita falta... gostaria de tê-la conhecido, assim como outra figura excepcional, Elke Maravilha.. quem sabe em vidas futuras.... recomendo as ótimas entrevistas que Rogéria concedeu (Luciana by Night, Estação Plural, Provocações entre outros...)

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    1. Eu tive a sorte de trabalhar com ambas. Com a Elke, foi no Video Show.

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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