sábado, 30 de setembro de 2017

SOMOS TODAS PROSTITUTAS...

...filhas dumas putas, e queremos dar, lálálálálálá. Perdão se você se ofendeu com essas palavras, que fazem parte da letra alternativa do "Galope Infernal" da ópera "Orfeu nos Infernos" de Offenbach - mais conhecida como a música que embala as dançarinas de can-can desde a Belle Époque. Foi esta trilha sonora que tocou sem parar na minha cabeça enquanto visitei a exposição "Tolouse-Lautrec em Vermelho", em cartaz no MASP até amanhã. A mostra é formidável: uma reunião nunca vista de trabalhos do artista, incluindo - é claro - seus muitos retratos de prostitutas, bailarinas e atrizes (na época era quase que tudo a mesma coisa). Toulouse-Lautrec frequentava tanto as "maisons closes" (bordéis) que criou intimidade com as moças a ponto de registrar momentos super íntimos. Tipo elas jantando, ou se despindo, ou mesmo fazendo sexo oral uma na outra, como na tela acima. Muito me espantam os asnos ainda não terem urrado "pedofilia", "estupro" ou "isto não é arte!". Mas quem disse que eles costumam frequentar museus? Depois ficam todos magoadinhos quando eu digo que são asnos.

A retrospectiva de Tolouse-Lautrec dialoga diretamente com outra exposição em cartaz no MASP: as fotos de prostitutas baianas de Miguel Rio Branco, instaladas numa sala com aviso na porta quanto ao teor das imagens (mulheres nuas...). Também há uma coleção de cartazes das ativistas do grupo Guerrilla Girls, denunciando a ausência de artistas mulheres em museus e galerias onde abundam os nus femininos (inclusive o próprio MASP, numa tela criada especialmente para esta ocasião). É uma discussão importante, mas foi um pouco cansativo ver tanta agitação política junta. Finalmente, tudo isso conversa com a mostra do pintor Pedro Correia de Araújo, chamada - ta-dá! - "Erótica". A maioria das obras expostas são telas que lembram as mulatas de Di Cavalcanti. Mas há toda uma ala de aquarelas cobertas por capas de veludo negro, que o visitante precisa levantar para ver. Também há o aviso sobre o teor das imagens, este novo componente do mundo moderno. De fato, alguns desenhos são mesmo explícitos, com mão naquilo, aquilo na boca e aquilo naquilo. Não sei de nenhuma reclamação até agora, ufa. Amigos ligados ao museu me juram que as capas não têm nada a ver com censura: são apenas para proteger as frágeis aquarelas da luz do sol. Acredito - mas que ficou com cara de arte com burca, ah, ficou.

E ATENÇÃO: Este post se encheu de comentários sobre o post abaixo, onde eles já não são mais permitidos. Só vou dizer uma coisa: fico PASMO com a quantidade de pessoas, em pleno século 21, que ainda acham que nudez e erotismo são a mesmíssima coisa. Isto é mentalidade do século 19, pré-guerras mundiais, pré-contracultura, pré-feminismo, pré-movimento LGBT, quase pré-histórica. Pela última vez: a menina tocou os pés e as mãos do artista, não o pinto (mole) dele. Isto NÃO é pedofilia, nem violência, nem incitação a nada. Só na cabeça doente de quem acha que é. Honni soit qui mal y pense. Enfim, não vou fechar este post para comentários - mas só aceitarei os que forem especificamente sobre as exposições do MASP, pró ou contra. Beijos de luz.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

"LA BÊTE" E AS BESTAS

Este é o vídeo da performance "La Bête", que causou pânico moral nas redes sociais ontem à noite. A tarja é absolutamente desnecessária: vi uma versão sem ela, e não dá para ver nada da genitália do coreógrafo Wagner Schwartz (mas não compartilhei aqui porque vêm com o logo de grupos fascistas, que eu me recuso a divulgar). O que dá para ver é que a garotinha só toca nos pés e nas mãos do artista, devidamente supervisionada por sua mãe. A performance é baseada não obra "Bicho", de Lygia Clark, e a interação proposta com o público não tem nada de erótica: o objetivo é só mudar a posição de Schwartz, como se ele fosse um origami. Além disso, havia um aviso na porta da sala alertando sobre a nudez. Mas nada disso importa para bestas e asnos de plantão: se tem uma menina perto de um homem nu, então é pedofilia! E precisa ser censurada! E rápido, porque parece que este é o grande problema que está matando bilhões de brasileiros. Preciso vencer minha preguiça de discutir com quem não faz a mais puta ideia do que seja arte e pegar em armas (por enquanto verbais) para defender a liberdade de expressão e os tempos modernos. As bestas querem nos transformar numa filial da Arábia Saudita - mas isto, só sobre o meu cadáver.

E ATENÇÃO: este post não aceita mais comentários. Cansei de discutir com asnos. Vão pastar longe daqui, meus amores, que eu tenho mais o que fazer.

HEF

Há pouco mais de um ano, a "Playboy" brasileira publicou um artigo meu, o mais longo que escrevi até hoje. Era sobre a própria revista, mas da perspectiva de um homem gay que cresceu com ela. Em homenagem a Hugh Hefner, gostaria de postar aqui a matéria inteira. Mas os direitos pertencem à editora PBB, que assumiu a edição nacional da "Playboy" depois que a Abril parou de publicá-la. Parece que esta nova versão também já foi interrompida, e a própria situação da PBB não está muito clara neste momento. Vou arriscar e incluir neste post o trecho do meu texto que fala mais explicitamente de Hef (como ele gostava de ser chamado), um dos homens que mais influenciou a cultura ocidental na segunda metade do século 20. E, apesar da objetificação das coelhinhas e tralalá , também um paladino contra o racismo, a homofobia e a repressão da sexualidade. Lá vai:

"A “Playboy” se consolidou como um ícone masculino e heterossexual. E no entanto, nunca rolou discriminação em suas páginas. Não me lembro de uma única charge homofóbica - ao contrário da “Hustler”, outra concorrente que chegou a incomodar durante um tempo e hoje prima pela vulgaridade.

Não, a “Playboy” sempre teve uma atitude extremamente civilizada perante os gays. E isto, muito antes de ser modinha ou obrigação. A linha editorial sempre foi cosmopolita, madura e aberta à diversidade.

E quando eu digo sempre, quero dizer exatamente isto: a “Playboy” foi moderna desde os primeiros tempos. Em 1955, quando tinha apenas dois anos, a revista publicou um conto de ficção-científica de Charles Beaumont que havia sido recusado por outras publicações. Chamava-se “The Crooked Man” (“o homem torto”, em tradução livre) e falava de um futuro onde a homossexualidade era a norma. Quem fosse heterossexual ia para a cadeia.

A redação foi inundada por cartas furiosas dos leitores. Mas Hugh Hefner não pediu desculpas. Ao contrário: disse que, se a perseguição aos héteros numa sociedade gay era abominável, então o contrário também era.

Sua convicção, ousada para a época, nunca se abalou. Em 2012, já bem entrado em anos, o fundador da revista assinou um editorial defendendo o casamento entre pessoas do mesmo sexo. “Esta é uma luta pelos direitos de todos nós”, escreveu ele. “Querem desumanizar a sexualidade de todo mundo e forçar-nos a usar o sexo com o único propósito de reprodução da espécie. Para isto, irão criminalizar toda a nossa vida sexual”.

Não foi a única causa libertária abraçada por Hefner. Ao longo das décadas, ele também defendeu o fim da segregação racial, o direito ao aborto e à contracepção, e até o feminismo.

Esta última afirmação é controversa, claro. Muitas feministas estão entre as maiores críticas da “Playboy” - entre elas, a pioneira Gloria Steinem, que escreveu em 1963 um artigo devastador sobre as condições de trabalho das coelhinhas que trabalhavam nos Playboy Clubs espalhados pelos Estados Unidos.

Mas Hefner se defende com brio. Ele diz que sempre tratou as mulheres, na revista e fora dela, como pessoas completas, jamais como objetos. A nudez das “playmates” é, antes de mais nada, um grito de liberdade. Eu concordo com ele: a libertação sexual só faz sentido se for universal. Ou todo mundo é livre, ou ninguém é."

BÔNUS: "The Crooked Man", o audacioso conto de ficção-científica publicado pela "Playboy" america em 1955, pode ser lido aqui, em inglês.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O ESTADO LAIKA

O Direito não é uma ciência exata. Se fosse, não precisaríamos de juízes para interpretar as leis. Bastariam calculadoras. Mas juízes são humanos, e trazem bagagem consigo. A presidente do STF, por exemplo, estudou em colégio de freiras e até hoje é religiosa. Claro que isto influenciou seu voto de Minerva, que determinou que as escolas públicas podem, sim, oferecer aulas de religião ligadas à uma fé específica. Cármen Lúcia deve ter sido ofuscada pelas lembranças do tempo de menina para não perceber que quem está por trás disso é o próprio Vaticano e as centenas de denominações evangélicas, que querem a todo custo derrubar o muro entre Igreja e Estado. Pois já não tem até deputado querendo obrigar as rádios estatais a tocarem música gospel? Francamente, esse tipo de ingenuidade me dá nos nervos. Se o estado é laico, então ele não pode se associar de maneira alguma a qualquer religião. Sou, inclusive, pela remoção de crucifixos de todas as repartições públicas e de qualquer menção a Deus em documentos oficiais. Mas o Brasil está mais para a cadelinha soviética que acreditou na bondade de seus tutores e acabou morrendo sozinha numa nave em órbita.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

CURDISTALUNHA

Por princípio, acho que os países têm mais é que se unir, não se separar. Achei uma bobagem, por exemplo, um lugar sem recursos como o Timor Leste proclamar independência, mas entendo que a ex-colônia portuguesa sofreu horrores com a Indonésia e queria mais era se libertar. Agora, a Catalunha se separar da Espanha, não gosto. A região faz parte da história espanhola desde sempre. A solução talvez fosse a Espanha se transformar numa federação, com ampla autonomia para catalães, bascos e galegos. De qualquer forma, proibir o plebiscito na marra é esquisito. Já o Curdistão... por um capricho dos ingleses e franceses que retrataram o mapa do Oriente Médio depois do fim do Império Otomano, um povo imenso ficou sem um país para chamar de seu. Inventaram Iraque, inventaram Síria, inventaram um monte de emiradozinhos ao longo do Golfo Pérsico, mas espalharam os curdos por uns quatro ou cinco países. A vitória do "sim" no plebiscito faz toda a vizinhança tremer e pode trazer ainda mais instabilidade. Mas também pode forjar um estado bacana onde há falta deles.

PALÉCCIO

Dois personagens dominam o noticiário político desta quarta-feira.  Antonio Palocci dinamitou o pau da barraca e desenterrou o cachorro morto para esquartejá-lo, com sua carta de adeus ao PT. Acredito piamente em tudo que está nela, mas não deixo de me admirar com a cara-de-pau do ex-ministro. Palófi se faz de escandalizado com a desfaçatez com que Lula pedia propina, mas não podemos nos esquecer de que ele foi defenestrado DUAS vezes do governo por envolvimento com a corrupção, muito antes de ser preso no ano passado. Sua trajetória me entristece: o cara era um quadro e tanto, com potencial para ser um bom presidente. Mas a ganância imediata falou mais alto, e deu no que deu.

Aécio Neves é outro que se desperdiçou. Carismático, herdeiro de um sobrenome famoso, quase chegou ao Planalto em 2014 e poderia ter se tornado o grande líder do centro-direita. Mas também achava normal pedir uns milhõezinhos para empresários, e foi pego com a boca na botija. O Senado provavelmente reverterá a decisão do STF de manter Aecim em "recolhimento noturno", devolvendo-lhe todos os perks de um mandato político. Deixa estar: a imagem do tucano está tão desgastada que e periga nem se reeleger no ano que vem. É bem feito para ele, mas uma tristeza para nós. Aécio Neves e Antonio Palocci tiveram a faca e o queijo na mão, e prefiram se cortar e se engasgar com eles. O Brasil não merecia.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

KHMER NO VENTILADOR


Em seu quarto longa-metragem como diretora, Angelina Jolie finalmente chegou lá. "First They Killed My Father" é um trabalho sério, competente, com cenas emocionantes e minuciosa pesquisa histórica. O filme - que já está disponível na Netflix - foi selecionado para representar o Camboja no próximo Oscar (é todinho falado em cambojano), e não duvido nada que conquiste uma indicação. As atrocidades cometidas pelo Khmer Vermelho, a alucinada milícia comunista que dominou o país entre 1975 e 1979, ainda são um assunto raro na telona, e ainda assim necessário. Com pouco mais de duas horas, "First They Killed My Father" (não sei por que não ganhou título em português) nem sempre é agradável de se ver, ainda mais porque a protagonista é uma menininha que sofre horrores num campo de trabalhos forçados. Quem quiser espairecer deve optar por "Star Trek Discovery". Mas quem quiser saber mais sobre um episódio relativamente recente da maldade humana em todo seu esplendor, vai ser recompensado com um dos filmes mais poderosos de 2017.

ESTO QUE ESTÁS OYENDO YA NO SOY YO


Jorge Drexler voltou a ser ele mesmo. Depois de um disco impregnado de ritmos latinos, ele retoma o minimalismo que o consagrou em canções como "Eco". O uruguaio mais famoso do mundo acaba de lançar "Salvavidas de Hielo", com melodias delicadas e um leve toque de ironia. Não é um passo atrás: Drexler ainda soa moderno, e conserva as credenciais para ser a voz de seu país (apesar de morar em Madri há mais de vinte anos).


Calogero poderia ser a voz da França, se não sofresse uma concorrência tão acirrada. O cara já seria um superstar internacional a esta altura, mas é feio como a necessidade. Compensa com a voz límpida e a capacidade de compor músicas que criam raízes no ouvido a cada audição (as letras não são dele). "Liberté Chérie" não traz nada de muito inovador - só um repertório incrivelmente consistente, sem faixas fora do lugar. Merece ser descoberto.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

UM INSTANTE, MAESTRO


Quis ver "João, o Maestro" no cinema. Não deu tempo, mas ontem aluguei o filme no on-demand. E terminei com sentimentos misturados: a qualidade da produção é realmente assombrosa, e Alexandre Nero está fantástico nos 40 e poucos minutos em que encarna o protagonista. Mas o roteiro consegue deixar maçante uma figura complexa. O João Carlos Martins do cinema tem duas obsessões: tocar piano e comer mulher. E mulheres há muitas, quase todas sem nome - inclusive sua primeira esposa, que só é chamada de "amor". Houve uma escolha consciente de passar ao largo dos imbroglios políticos em que o músico se envolveu, e eu me pergunto se isto fez bem ao filme. Purista que sou, também me incomodaram os muitos atores brasileiros fazendo papel de gringo e falando inglês, ou alguns diálogos mão-pesada, cheios de explicações canhestras. Mesmo assim, acho que "João, o Maestro" merece ser visto. É um produto bem-acabadíssimo, bastante original dentro da nossa cinematografia, e tem mais qualidades do que defeitos.

ALICE EM SEU PAÍS...

...maravilhoso e tão feliz... Só que não. Eu tremo de medo de Alice Weidel. A líder do AfD - o partido de extrema-direita que chegou em terceiro lugar nas eleições de ontem na Alemanha, com mais de 13% dos votos - não corresponde ao estereótipo do brutamontes consagrado por Marine Le Pen ou Jair Bolsonazi. É uma mulher sofisticada, culta, que trabalhou no banco de investimento Goldman & Sachs. Pior: é assumidamente lésbica. Vive em união civil com uma suíça de origem cingalesa (do Sri Lanka), com quem adotou duas crianças. Ou seja, é uma hipócrita do caralho, já que seu partido é abertamente homofóbico. Mas é justamente esta pátina de civilização que faz Weidel tão perigosa. Seu discurso anti-imigração seduz os boçais, mas sua aparência moderna dá um ar de normalidade à aberração que é o nazismo estar de volta ao Bundestag. Aliás, o fato de ser cada vez mais corriqueira a presença dessas agremiações nas democracias modernas não significa que se deva pegar leve com elas. "Ir se acostumando" o escambau.

domingo, 24 de setembro de 2017

CHURRASQUINHO DE MÃE


"Mãe!" é o filme mais ame-o ou deixe-o do ano. Quem for ao cinema esperando um terror convencional - apesar do elenco de estrelas, incomum no gênero - vai se irritar muito. Quem for sabendo que é um filme de arte, com várias camadas e algumas interpretações possíveis, talvez - talvez - se divirta ao pensar um pouco. Jennifer Lawrence faz uma mulher casada com um poeta muito mais velho, feito por um Javier Bardem sem sotaque espanhol. Ela reforma e pinta a imensa casa isolada onde vivem. Ele está há um bom tempo com bloqueio criativo. Numa noite (só faltou ser "escura e tempestuosa"), chega um homem (Ed Harris) achando que ali é um hotel. Com pena do sujeito, o casal deixa-o ficar. No dia seguinte aparece a mulher dele: Michelle Pfeiffer, em seu papel mais vulcânico em anos. Aí os hóspedes começam a ficar inconvenientes, entrando em quartos proibidos e fazendo perguntas indiscretas. E então a coisa descamba por completo, com sequências absurdamente violentas. Seriam alucinações da protagonista, que acha que o marido não a ama mais? Ou é TUDO uma grande metáfora de sabe-se lá o quê? Saí achando que era uma crítica ao machismo, mas depois li uma entrevista do diretor Darren Aronofsky. Então pare de ler por aqui, porque vai chover spoiler.

Não parou, né? Pois bem: "Mãe!" é uma alegoria do Livro do Gênesis. A mãe do título é tanto a casa como Jennifer Lawrence, que representam a Terra. Ed Harris e Michelle Pfeiffer são Adão e Eva; sabendo disso fica bico sacar que os filhos deles são Caim e Abel (um mata o outro no filme). Há diálogos inteiros tirados da Bíblia. E o que Aronofsky quis dizer com tudo isso? Denunciar o aquecimento global e a destruição da vida no planeta pelo homem. Que não termina tão fácil assim, mesmo depois do incêndio que reduz quase tudo a churrasco. Aaaah bom.

sábado, 23 de setembro de 2017

I THINK THERE'S SOMETHING YOU SHOULD KNOW

Uma surpresinha aguardava pelo público do desfile da coleção primavera-verão da Versace, ontem em Milão. Carla Bruni, Claudia Schiffer, Naomi Campbell, Cindy Crawford e Helena Christensen - cinco das lendárias supermodels dos anos 90 - baixaram do Olimpo à Terra e mostraram aos reles mortais que continuam sendo deusas. Cindy e Naomi, inclsuvie, participaram do icônico clipe de "Freedom '90" de George Michael, que serviu de trilha para a epifania. Até a aparição de Donatella Versace, com sua cara de quem escapou do Muppet Show, me fez lembrar dos bons velhos tempos em que o mundinho fashion importava bem mais do que hoje. Quem que aprendeu o nome de alguma modelo depois de Gisele Bündchen? Quem ainda sabe o que é tendência? Talvez seja mais uma culpa para a conta das redes sociais, que nos separaram em grupos ainda mais estanques do que antes. I don't belong to you and you don't belong to me.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A GUERRA CIVIL CARIOCA

Meu coração sangra pela minha cidade natal, que poucos anos atrás parecia ter tomado tento na vida. Hoje o Rio arde, com a população sitiada, o governo estadual falido e a prefeitura na mão de um fanático religioso que não entende picas da cidade. Tem um lado meu que grita "bem-feito": quem mandou eleger Brizola, Maia, Garotinho, Rosinha, Cabral, Pezão, Paes, Crivella? Os cariocas já tiveram a fama de serem os cidadãos mais politizados do país, mas é incrível como têm dedo podre para escolher seus governantes. Com um mínimo de civilização, o Rio de Janeiro seria forte candidato a melhor lugar do mundo, mas parece condenado ao caos e à violência. E não dá mais para negar, conterrâneos: essa culpa é toda nossa.

PIADA DE CASERNA

Nenhum governo civil brasileiro jamais peitou os militares. Haja vista que, ao contrário da Argentina, até hoje não levamos a julgamento os milicos culpados de crimes durante a ditadura, e aposto que jamais o faremos. Mas a reação de Temer, o Velho, à fala do general Hamilton Martins Mourão - que ameaçou dar um golpe de estado para eliminar a corrupção do país - bateu recordes de rabo entre as pernas. A razão é simples: o presidente ficou com medo de levar uma invertida daquelas, porque ele tem mesmo culpa no cartório. Nenhum ministro, aliás, dispôs de coragem - ou sequer moral - para lembrar que o regime militar (1964-1985), apesar do que acreditam hoje os asnos e os neofascistinhas, estava longe de ser um oásis de gente honesta e impoluta. Não é uma piada?

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

PREFIXO DE VERÃO

Sou a favor do horário de verão. Não interessa se o Brasil não precisa mais da economia dele: os dias mais longos servem para marcar um período do ano, já que não temos estações muito diferenciadas em boa parte do país. Além do mais, o horário de verão é divino à beira-mar. E sem ele, sentirei falta das pessoas que reclamam que a mísera mudança de uma hora desequilibra o delicado metabolismo delas. Aê, aê, aê...

MONOGLOTAS

Um chefe de estado precisa falar um idioma estrangeiro? Não, é claro: não é isto o que determina sua capacidade como governante, e sempre haverá algum tradutor à mão. Mesmo assim, muita gente se incomodou com a foto ao lado, que revelou que Temer, o Velho, era o único presidente latino-americano presente ao jantar com Trump que não domina o inglês. Eu mesmo achei esquisito e, numa discussão no Facebook entendi por quê. Temer faz pose de intelectual, usa palavras pomposas em seus discursos e revira as mãozinhas como se fosse um aristocrata pedante. Mas pelo jeito não teve tempo, em sua longa carreira, de fazer um Yázigi ou um CCAA; devia estar muito ocupado roubando legislando. O curioso é que, se alguém manifestasse desagrado se fosse Lula que estivesse na foto, imediatamente seria patrulhado por preconceito e insensibilidade. Só que o fato dele ser um "incurioso" - palavra que se aplica também a George W. Bush - é frequentemente confundida por aqui com falta de oportunidade. Enfim, nenhum presidente precisa falar um idioma estrangeiro. Mas eu gosto mais quando fala.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

DOUTOR, NÃO QUERO SER LOURA

Passei o dia procurando outro assunto, mas não deu. Tive que voltar à decisão do juiz do DF que liberou a "cura gay". Ou melhor, às pessoas bem-pensantes que AINDA veem algum mérito na questão. Ainda mais precisamente, ao artigo de Leandro Narloch publicado hoje na Folha online. Ele segue a mesma linha de raciocínio de vários amigos meus de direita: um adulto tem o direito de procurar um psicólogo se estiver insatisfeito com sua orientação sexual. Bom, um adulto tem o direito de procurar um psicólogo até se estiver insatisfeito com a cor loura dos cabelos - e a terapia para mudá-los para moreno vai dar tão certo quanto aquela para reprimir seu tesão pelo mesmo sexo. O que Narloch e os meus amigos não percebem, na ânsia de defender os direitos individuais, é que são cada vez mais raros os adultos que querem inverter a mão de seus desejos homossexuais (e nenhum psicólogo que se preza tem poder para tanto). As vítimas - sim, não há outra palavra - desse tipo de tratamento são crianças e adolescentes, enviados pelos próprios pais ignorantes. É só dar um googlada e se horrorizar com as histórias dos sobreviventes dessa agressão psíquica. Narloch e os meus amigos também ignoram que é Rozângela Justino quem está por trás dessa ação, a "psicóloga cristã" ligada à bancada evangélica e mais do que interessada em instaurar a indústria da "cura gay" no Brasil. Então, galera, mais uma vez: não dá para ser condescendente com esses sacripantas, nem puxar discursinho de simetria de direitos e adultos conscientes e blábláblá. Estamos falando de violência contra menores de idade. Tão ou mais grave do que a pedofilia que a hipocrisia neofascista enxerga por toda parte.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

TIC-TAC EM BÚLGARO


Surpresa: o filme escolhido pela Bulgária para representá-la no próximo Oscar já está em cartaz no Brasil. "Glory" vem acumulando prêmios desde meados do ano passado, e segue aquele estilo austero e sem música tão em voga no momento. Ou seja, eu não me deixei seduzir, apesar de achar a história interessante. Um funcionário ferroviário encontra uma bolada em dinheiro espalhada pelos trilhos; ele devolve a grana, e como prêmio ganha um relógio do Ministério dos Transportes. Só que, para receber o mimo, ele precisa tirar do pulso o relógio que ganhou do pai (da marca Glory, que dá nome ao filme), e não é que o troço desaparece? Para completar, o sujeito é gago, o que torna qualquer cena com ele uma agonia. Mas a crítica à burocracia é pertinente a muitas culturas, o que talvez explique o sucesso internacional dessa fábula búlgara. Queria ter gostado mais.

O CARRO VOADOR

Era uma vez um mecânico que prometia fazer os carros voarem. Bastava dar uma turbinada no motor e voilà, seu possante saía pelos ares. Não faltavam interessados: afinal, quem nunca sonhou em planar com um Chevette ou saltitar entre as nuvens a bordo de um Fusca? Não importava que os carros por turbinados por esse mecânico logo se espatifassem no chão. Tampouco importava que a mecânica de automóveis não previa em seus manuais nenhuma técnica miraculosa para fazer os carros voarem. "Quem quer que seu carro voe tem o direito de tentar", defendiam alguns, "esse mecânico só está oferecendo o que muitos querem, ninguém pode proibir".

É mais ou menos esta a linha de raciocínio de muita gente razoável, que não viu nada de mais no parecer do juiz do DF que liberou a "cura gay". Sim, amiguinhos, foi isto o que ele fez. O texto foi composto por palavras bonitas, dando a entender que os pacientes que buscam entender melhor sua orientação sexual poderão contar com o auxílio de psicólogos, mas basta conferir quem está por trás da ação que gerou a liminar. É Rozangela Alves Justino, que se orgulha de ter "curado" dezenas de homossexuais. Tudo o que ela e seus comparsas querem é o sinal verde da Justiça para instalar no Brasil a indústria do realinhamento sexual, que ainda viceja em alguns estados americanos e em vários países atrasados. E a clientela dessa corja não é formada por adultos conscientes, mas sim por menores de idade que não têm como escapar da sanha de suas próprias famílias.

Por isto, não dá para ser leniente numa hora dessas. É exatamente isto o que estes neofascistas querem: que pessoas razoáveis caiam em sua esparrela, e eles deem mais um passo rumo à criminalização da homossexualidade. Estou exagerando? Veja o que acontece nos lugares onde eles chegaram ao poder. Portanto, não se enganem. Um psicólogo que promete reverter a orientação sexual é tão absurdo quanto um mecânico que garante fazer um carro voar.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

BURRICE NÃO TEM CURA

A ditadura asinina avançou mais um passo hoje. Um juiz de Brasília concedeu liminar para que psicólogos "cristãos" ofereçam terapia de reversão sexual a seus pacientes, sem medo de serem repreendidos por seus pares. É um absurdo a Justiça determinar o que é ou deixa de ser ciência; se o CFP (Conselho Federal de Psicologia) diz que a homossexualidade não é doença, ninguém pode se proclamar um psicólogo apto a combatê-la. Que se digam curandeiros, feiticeiros ou até mesmo charlatães, que é o que de fato são. Esta liminar provavelmente será derrubada por uma instância superior, mas é mais um sinal inequívoco de que os asnos estão se sentindo empoderados e colocando as patinhas para fora. Quero parabenizar especialmente os leitores deste blog que apoiaram o fechamento da exposição "Queermuseu" em Porto Alegre. A serpente que vocês chocaram já está armando o bote contra todos nós. Existe remédio contra tanta burrice?

É NÓIS

Quem viu a entrega dos Emmys ontem à noite sabe que a premiação favoreceu os títulos mais abertamente políticos, como "The Handmaid's Tale" ou "Big Little Lies". Mesmo assim, um novelão conseguiu faturar alguns troféus. "This Is Us" levou melhor ator e melhor ator convidado, e teria ganho mais num ano mais tranquilinho. Era a única atração da TV aberta indicada a melhor série dramática, e já é um fenômeno de audiência. Enquanto nos EUA acaba de estrear a segunda temporada, a primeira chega aqui pelo Fox Life. Fui ver meio assim, pela obrigação, e já estou completamente viciado. A trama é bem improvável, centrada em trigêmeos que não podiam ser mais diferentes entre si (OK, um deles é adotado). Mas os relacionamentos e os problemas são todos críveis, e não há vilões. Só gente imperfeita, como qualquer um de nós. Por que as novelas brasileiras não conseguem ser tão boas assim? Bico: elas costumam ter mais de 140 capítulos, exibidos de segunda a sexta. "This Is Us" teve só 18 na primeira temporada. Assim é bem mais fácil manter a qualidade e evitar barrigas.

domingo, 17 de setembro de 2017

EMMYNÊNCIAS PARDAS


Hoje é a entrega do Emmy, que está em vias de ultrapassar o Oscar como o prêmio mais importante da indústria do entretenimento. Afinal, a TV atinge muito mais gente do que o cinema, e a qualidade dos programas vêm atraindo talentos que antes só brilhavam na telona.

A partir das 20h, quando começar a transmissão pela TNT, vou estar participando do live-blogging da Folha de S. Paulo, junto com vários jornalistas. Junte-se a nós! E, a nível de esquenta, aqui vão meus palpites para as principais categorias:

Melhor Série Dramática:
Better Call Saul
The Crown
The Handmaid’s Tale
House of Cards
Stranger Things
This Is Us
Westworld

Vai ganhar: "Westworld", por causa do lobby pesado da HBO. Só que o páreo é duríssimo. "This Is Us" é um novelão da melhor qualidade, "The Crown" é luxo só, e quem que não gosta de "Stranger Things"?

Mas eu daria para: "The Handmaid's Tale", que eu nem vi ainda. Mas as críticas são ótimas, e o momento político pede séries como esta.

Melhor Série Cômica
Atlanta
Black-ish
Master of None
Modern Family
Silicon Valley
Unbreakable Kimmy Schmidt

Vai ganhar: “Veep”. É, de fato, o programa mais engraçado e contundente da TV americana. “Atlanta” - da qual eu vi um episódio e não achei a menor graça - corre por fora.

Mas eu daria para: “Master of None”. É moderno, é emocionante, e tem momentos de rolar de rir no chão. O episódio “New York I Love You” é uma obra-prima.

Melhor Minissérie
Big Little Lies
Fargo
Feud: Bette and Joan
Genius
The Night Of

Vai ganhar: “Feud”, mas “Big Little Lies” está na cola.

Mas eu daria para: “Feud” mesmo, apesar de também ter adorado “BLL”.

Melhor Atriz em Série Dramática
Viola Davis, "How to Get Away With Murder'
Claire Foy,"The Crown"
Elisabeth Moss,"The Handmaid’s Tale"
Keri Russell,"The Americans"
Evan Rachel Wood,"Westworld"
Robin Wright,"House of Cards"

Vai ganhar: Elisabeth Moss, que foi indicada várias vezes por “Mad Men” e nunca ganhou. Mas Claire Foy também é uma possibilidade.

Mas eu daria para: Elisabeth Moss!

Melhor Ator em Série Dramática:

Sterling K. Brown, "This Is Us"
Anthony Hopkins,"Westworld"
Bob Odenkirk, "Better Call Saul"
Matthew Rhys, "The Americans"
Liev Schreiber, "Ray Donovan"
Kevin Spacey, "House of Cards"
Milo Ventimiglia, "This Is Us"

Vai ganhar: Sterling K. Brown, que é realmente ótimo. Ou Kevin Spacey - que NUNCA ganhou por Francis Underwood, acredita?

Mas eu daria para: Bob Odenkirk, que há muito tempo merece um prêmio pelo fabuloso Saul Goodman.

Melhor Atriz em Série Cômica
Pamela Adlon, "Better Things"
Jane Fonda,"Grace and Frankie"
Allison Janney,"Mom"
Ellie Kemper,"Unbreakable Kimmy Schmidt"
Julia Louis-Dreyfus,"Veep"
Tracee Ellis Ross,"Black-ish"
Lily Tomlin, "Grace and Frankie"

Vai ganhar: Julia Louis-Dreyfuss, que periga levar uma estatueta por cada uma das sete temporadas de “Veep” (esta foi a sexta).

Mas eu daria para: Não sei. Não gosto do mesmo ator ganhar todo ano pelo mesmo papel, mas qual dessas é melhor que Julia?< Melhor Ator em Série Cômica
Anthony Anderson,"Black-ish"
Aziz Ansari,"aster of None"
Zach Galifianakis,"Baskets"
Donald Glover,"Atlanta"
William H. Macy,"Shameless"
Jeffrey Tambor,"Transparent"

Vai ganhar: Jeffrey Tambor, pelo terceiro ano consecutivo e por um papel que está cada vez mais dramático.

Mas eu daria para: Aziz Ansari, um gênio.

Melhor Atriz em Minissérie ou Filme
Carrie Coon, "Fargo"
Felicity Huffman,"American Crime"
Nicole Kidman, "Big Little Lies"
Jessica Lange,"Feud: Bette and Joan"
Susan Sarandon,"Feud: Bette and Joan"
Reese Witherspoon,"Big Little Lies

Vai ganhar: Susan Sarandon? Este é o páreo mais duro da noite. Se embolar, pode vencer uma azarona.

Mas eu daria para: Susan ou Nicole Kidman, que fez seu melhor trabalho ever.

Melhor Ator em Minissérie ou Filme
Riz Ahmed, "The Night Of"
Benedict Cumberbatch,"Sherlock: The Lying Detective"
Robert DeNiro,"The Wizard of Lies"
Ewan McGregor,"Fargo"
Geoffrey Rush,"Genius"
John Turturro, "The Night Of"

Vai ganhar: Robert DeNiro, que nunca levou um Emmy para casa.

Mas eu daria para: DeNiro, que merece, ou John Turturro, sempre esquecido nas premiações.

Até daqui a pouco.

POR ISSO FORA! ESQUEÇA MEU ROSTO, MEU NOME, ESTA CASA E SIGA SEU RUMO


Em 1992, eu estava na plateia do SESC Pompeia, em SP, assistindo ao primeiro grande show da Banda Vexame. Lembro de detalhes como se tivesse sido ontem: Maralu Menezes ensinando a alongar a panturrilha ao subir uma escada, por exemplo, é uma imagem que irá me assombrar até o fim dos meus dias. Sem falar no vexame internalizado que eu senti ao perceber que sabia todas as letras do repertório reciclado por eles.


Anda estávamos no governo Collor, que marcou o momento em que o brega deixou de ser "música de empregada" e penetrou no mainstream da cultura brasileira. A primeira-dama Rosane adorava "Pensa em Mim"; e a morte recente do Chacrinha deu pátina de cult a hits como "Siga Seu Rumo" (originalmente da dupla argentina Pimpinella, regravado no Brasil por Jane & Herondy) ou "Massagem for Men", da Sharon - uma das muitas clones de Gretchen que ficaram pelo caminho. Todas elas seguem fazendo parte do setlist da Banda Vexame, que nunca deixou de existir. Maralu Menezes (Marisa Orth), Malcolm Éverson (Pazetto) e Ciro Campos (Marcelo Papin) volta e meia se reuniam ao longo desses longo 25 anos, para apresentações esporádicas. E neste final de semana estão de volta ao SESC Pompeia com o show "Visita Íntima", que se "passa" dentro de uma unidade prisional. Maralu agora usa tornozeleira eletrônica, o japonês da Federal toca saxofone e todos os membros da Vexame estão cumprindo pena por delitos diversos. Ainda mais atual foi a inclusão de dois novos números, "50 Reais" e "Deu Onda". Cantei junto, levantei os bracinhos, me senti em 92. Não esqueci rostos nem nomes, e seguimos todos no mesmo rumo.

sábado, 16 de setembro de 2017

A DITADURA ASININA

Que tempos são esses? A peça "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu", já encenada em São Paulo e Londrina, foi proibida ontem em Jundiaí, só porque é protagonizada por uma atriz transexual. Parece que a censura tem o dedo da TFP, que já achava blasfêmia JC aparecer de jeans e sem camisa no musical "Jesus Cristo Superstar" (como se ele não estivesse pelado na cruz). Esses asnos acreditam que a transexualidade é uma ofensa à ordem divina, quando é apenas ao patriarcado que apodrece na cabecinha deles. O mais chocante é um juizeco local tirar o espetáculo de cartaz assim, sem mais nem menos. A peça segue em turnê pelo estado de SP, com apresentações marcadas para hoje em Ribeirão Preto e amanhã em Santo André. Vejamos o que acontece: novas proibições, ou o público finalmente se rebelando contra a ditadura asinina?

Enquanto isso, a drag queen Tchaka avisa pelo Facebook que a polícia deu um jeito de proibir a 1a. Parada LGBT da Ilha do Mel, no Paraná, por causa do extintor de incêndio de uma pousada estar 20 cm mais alto do que deveria. E do Rio chega a notícia que os fanáticos seguidores do "pastor" Tupirani estão pichando a cidade com o slogan "Bíblia sim, Constituição não". O movimento ainda é pequeno, mas tão boçal quanto os energúmenos que defendem a "Terra Plana". Mas como combater o avanço das trevas? Se alguém os contradiz, os asnos zurram que estão tendo violado seu sagrado direito à livre expressão, ao mesmo tempo em que se dedicam a exterminar a liberdade alheia. Ih-óh, ih-óh, ih-óh.

Nem tudo está perdido. Também ontem, o show-surpresa da Pabllo Vittar no Rock in Rio foi um arraso. Ela é o fenômeno mais surpreendente da cultura brasileira em 2017, e sua legião de fãs emite um sinal claro: os asnos podem escoicear à vontade, mas não tomarão o poder assim tão fácil. Essa ditadura vai passar mal.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

LOURA GELADA


"Atômica" é exatamente o que eu esperaria de um filme dirigido por um ex-dublê: cheio de cenas alucinantes de ação, mas com personagens mais rasos que uma página de história em quadrinhos. Charlize Theron faz uma agente secreta britânica em missão em Berlim, logo antes da queda do Muro. Ela é tão cool e segura de si mesma que vai além da mera caricatura: é uma fantasia masculina, ainda mais pelo detalhe não desprezível de ser lésbica. Suas cenas com Sofia Boutella parecem desenhadas para excitar garotos de 14 anos, e sua frieza permanente não esquenta nem quando ela está ensanguentada depois de uma luta. O melhor mesmo é a trilha sonora dos anos 80, que inclui os três únicos hits em alemão que emplacaram no resto do mundo depois de "Lili Marleen" (alguém adivinha quais?). Mas é curioso que nenhuma das faixas seja do ano exato em que se passa o filme, 1989.

ATUALIZAÇÃO: Lembrei de um QUARTO hit em alemão dos anos 80, mas este não entrou na trilha de "Atômica". Pontos bônus para quem souber qual é.

A SERPENTE OPORTUNISTA

O fechamento prematuro da mostra "Queermuseu" gerou uma consequência daninha, porém mais do que esperada. Políticos alinhados com o conservadorismo (para não dizer obscurantismo) estão surfando na polêmica, para agradar seu eleitorado. Vereadores da bancada evangélica de São Paulo pediram ao MPF que investigue a exposição - que aconteceu em Porto Alegre, bem longe da comarca deles. E deputados do Mato Grosso do Sul registraram um B.O. contra a artista mineira Alessandra Cunha, autora do quadro "Pedofilia" - justamente por entender que obra incita à pedofilia. A tela, que foi apreendida pela polícia, fazia parte da exposição "Cadafalso", em cartaz no Marco (Museu de Arte Contemporânea) de Campo Grande, que trata exatamente da violência contra a mulher. É esta que você vê aí ao lado. Não acho exatamente bela (mas a arte não é só para decorar paredes, lembre-se!), mas me parece mais do que óbvio que a intenção é justamente DENUNCIAR a pedofilia, não defendê-la. Só que é fácil dizer que um quadro que mostra a silhueta de uma menina e a de um homem com o pênis exposto é criminosa. Ignora-se o contexto, o objetivo da pintora, o resto da exposição, etc. etc. O Brasil está sendo tomado de assalto por gente que se jacta de não ter estudado, e muitos gays de direita estão apoiando essa corja. Depois não reclamem quando a serpente que ajudaram a chocar vier envenená-los.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

KIM KATAQUEER

Já existe o tumblr Queer Kataguiri, e ele não para de crescer. Internê, je t'aime.

VAI TER CRIANÇA VIADA SIM

Este post é ilustrado pelas telas de Bia Leite que o MBL acusou de incitar a pedofilia. Como se pode perceber, são imagens de altíssimo teor erótico, capazes de intumescer o mais casto dos padres. Kim Kataguiri e sua turminha tinham toda a razão em pedir o boicote ao Banco Santander, esse safado, que tentou destroçar a tradicional família brasileira com a mostra "Queermuseu" em Porto Alegre. Aquele antro de vício e perdição já fechou. Ufa, que alívio.
Agora falando sério: as obras de Bia Leite foram inspiradas pelo Tumbl'r "Criança Viada", que causou furor em 2012 com fotos de usuários quando pequenos, enviadas por eles mesmos. Muitos, apesar de strike a pose, se tornaram héteros quando grandes. As legendas foram escritas pelo idealizador do site, Iran Giusti, e agora incitaram a ira do povo do bem. Mas essa cambada vai ter que engolir o "Criança Viada" original, que voltou ao ar e lá ficará até 8 de outubro, o dia em que terminaria a mostra em PoA. Vale a pena visitar e entender o contexto de onde surgiram esses quadros tão imorais. Aliás, também recomendo muito esta página do BuzzFeed, que explica a intenção por trás de 30 obras que estavam expostas na "Queermuseu". Programa obrigatório para os asnos que vieram zurrar nos comentários do meu blog. O bom desse reboliço todo é que já tem outras capitais interessadas em receber a mostra, que se tornou conhecida em todo o Brasil.

ATUALIZAÇÃO: Vejam só a que ponto chegamos. O Tumblr TIROU DO AR a página "Criança Viada", depois que asnos a denunciaram por veicular pedofilia. Acontece que o conteúdo é o mesmo que fez a "CV" bombar em 2012: fotos de internautas em poses engraçadas quando crianças, enviadas por eles mesmos. Não há nudez nem a menor conotação sexual. Iran Giusti já avisou que vai migrar para outra plataforma. Mas, antes disso, esperamos que o Tumblr se redima.

REATUALIZAÇÃO: O Tumblr se redimiu! A "Criança Viada" voltou! A vida é bela!

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

SERVIÇO RUIM


Tentei ler "O Jantar" em 2013, mas larguei no meio. O livro de Herman Koch foi um best-seller internacional, mas a história dos dois irmãos que se reúnem, com as respectivas mulheres, para discutir o que fazer com os filhos adolescentes que cometeram um crime simplesmente não me pegou. Achei que o filme seria melhor - afinal, qualquer coisa com Laura Linney já sai com vantagem para mim. Qual o quê: trata-se de uma das grandes bombas do ano, apesar da qualidade do elenco e da produção. Mas o roteiro é para lá de confuso, e me fez lembrar aquele tipo de restaurante que teria tudo para ser sensacional mas peca no serviço ruim. O lugar é lindo, a comida é boa, os preços, razoáveis, mas o garçom demora muito para aparecer, traz os pratos errados e ainda rouba na conta. Evite essa espelunca.

ANARRIÊ

A revelação de que existe mesmo o tal do "quadrilhão", encabeçado pelo presidente da república, não é supresa para ninguém. Mas não deixa de ser estarrecedor saber que o Brasil está sendo governado por esses criminosos - aliás, há muito tempo, pois eles não largam o osso desde a ditadura militar. A diferença agora é que não são aliados do presidente eleito: são o próprio núcleo do poder. E a ironia é que os membros dessa cúpula que não têm foro privilegiado estão todos na cadeia: Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima, Henrique Alves. Mas Michel Temer, Moreira Franco e Eliseu Padilha continuam à solta, sangrando os cofres da nação e se fingindo de indispensáveis para a retomada do crescimento econômico. São, antes sim, um entrave à ela. Mas esperar o quê desse Congresso, que é facilmente comprável? E de alguns ministros do Supremo, que são cúmplices da bandidagem? E do mercado, que só se importa com a alta da Bolsa? E dos próprios eleitores, mais preocupados com "fake news" sobre uma exposição de arte do que com a honestidade dos governantes? Anarriê, Brasil!

terça-feira, 12 de setembro de 2017

FAKE NEWS AO VIVO

Claro que não é só a esquerda que é adepta das notícias falsas. Um dos filhos do Boçalnaro - aquele que acha que uma reles frente fria "prova" que o aquecimento global não existe - tuitou essa estupidez aí em cima. Não sei se ele acredita nisto ou se age mesmo de má fé. Mas dele não se esperava outra coisa, né não? Apavorante mesmo é ver gente como a apresentadora Luisa Mell, supostamente bem-educada, defendendo que a mostra Queermuseu tinha obras "de mau gosto" e portanto merecia ser fechada. E o que tem de cretinos dizendo que a arte "é para representar o belo"? Para começar, seu Santander, arte não é propaganda, porque a propaganda não pode correr o risco de não ser entendida. Eu até concordo que o curador Gaudêncio Fidelis foi no mínimo ingênuo ao não colocar avisos e separar as obras mais suscetíveis de má interpretação em salas separadas, como se faz em muitos museus da Europa. Mas defender o cancelamento da exposição é fascismo em estado puro. Pelo menos os ignorantes à nossa volta estão se revelando como de fato são; pelo menos a reação dos mais lúcidos tem sido admirável. Nem tudo está perdido. Ainda não.

FAKE NEWS A JATO

No sábado, dia 9, o site Brasil247 publicou a chamada aí ao lado, que conduz a esta matéria aqui. Em tom triunfalista, o suposto fracasso de "Polícia Federal: a Lei É para Todos" é comemorado com fanfarra, baseado num relato que dizia que a média por sala em Curitiba era de 60 pessoas por sessão. Este não é um número baixo, mas para quê checar com o FilmeB ou alguém que entenda do mercado cinematográfico? O que importa é mostrar que o povo não comprou a farsa e continua apoiando Lula. Consta que o DCM postou uma nota semelhante, mas, se o fez, já a tirou do ar - vasculhei o site e só encontrei umas trocentas matérias negativas contra o filme, mas nada sobre sua bilheteria. O fato é que "Polícia Federal" já pode ser considerado um sucesso. Fez 470 mil espectadores em seus primeiros quatro dias em cartaz, cerca de 10 mil a menos do que esperavam seus produtores (o que não é nenhuma tragédia). Além disso, já duas pessoas vieram me contar que o filme foi aplaudido no finalzinho, quando surge uma cena falando da mala do Temer. Vamos ver como a renda se comporta nas próximas semanas: o perfil de público desse longa é mais velho, e não corre para vê-lo assim que estreia, portanto a tendência é crescer bastante. De qualquer forma, aposto que terá mais do que os 800 mil espectadores de "Lula, o Filho do Brasil" (2010). Talvez o PT devesse ter imitado a IURD e comprado ingressos para seu 1,3 milhão de filiados naquela época?

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O FLECHADOR-GERAL DA REPÚBLICA

Fui procurar uma foto de Rodrigo Janot para ilustrar este post e me dei conta de que ele está muito mais magro do que costumava ser. Pudera: se o cargo de Procurador-Geral da República já é um rojão, os últimos meses foram um massacre. Janot termina seu segundo mandato sob um coro de vaias, depois de ter sido enganado por um assessor e exagerado nas indulgências aos irmão Batista. Pelo menos ele está tendo a oportunidade de corrigir a cagada, e seis ministros do STF já disseram que as provas acumuladas até agora continuam valendo - inclusive o vídeo de Rocha Loures flanando pela rua com uma mala de dinheiro para Temer, o Velho. Mas, independentemente disso, quero deixar aqui o meu elogio ao futuro ex-procurador. Se Janot errou, foi porque vislumbrou em Joesley a chance de livrar o Brasil da pior de suas pragas: a cúpula do PMDB, que vampiriza o país há décadas e está aferrada ao poder, seja de que governo for. Foi jacobino, justiceiro, radical? Foi, mas algumas de suas flechadas atingiram-lhe o próprio pé. Agora, fora da PGR, ele vai viver um inferno de processos disparados por seus desafetos, à direita e à esquerda. Mas tomara que a história lhe faça justiça, e que Raquel Dodge continue a seu trabalho.

QUEER AS FUCK

Não se enganem: os dois grandes derrotados desse imbroglio do cancelamento da exposição Queermuseu em Porto Alegre são o Santander e o MBL. O banco simplesmente provou que seu mecenato à cultura não é para valer. Só está interessado no próprio marketing, o que não é surpresa nenhuma. Bancos não são "do bem". Por trás da propaganda moderninha e dos gerentes sorridentes, eles só querem depenar o seu dinheiro. Dito isto, é impressionante que uma instituição como o Santander - que na Espanha patrocina o Museu do Prado - enfie o rabo entre as pernas por causa de uma polêmica que já era esperada. O banco sai diminuído do episódio, e com sua imagem bastante arranhada.

Quem sai enlameado é o Movimento Brasil Livre, que assim termina o strip-tease de suas nobres intenções e se revela em toda sua feiúra. O "livre" de seu nome também não é para valer: o que por um instante pareceu uma novidade modernizante na política brasileira é só mais um arcaísmo requentado. Os caras acusaram o golpe e estão tentando se justificar em sua página no Facebook, mas já era. O MBL é SIM um movimento retrógrado, reacionário, careta e liberticida. Mas os censores vão se foder, e no mau sentido. Vai acontecer justo o contrário do que eles querem: tempos sombrios como os atuais geram arte transgressora.

domingo, 10 de setembro de 2017

A TRANSIÇÃO CHILENA


O Chile é um lugar curioso. A ditadura militar deles matou muito mais gente, proporcionalmente à população do país, do que a nossa. A influência da Igreja Católica é ainda maior do que no resto da América Latina, e o divórcio só foi aprovado por lá em 2004. Mesmo assim, o governo Pinochet nunca reprimiu os homossexuais - consta até que tinha ministros gays, porém "discretos e fora do meio". Essa hipocrisia é o pano de fundo de "Uma Mulher Fantástica", o provável indicado chileno para o próximo Oscar de filme em língua estrangeira. Marina é uma mulher trans que já vive com um homem muito mais velho do que ela há pelo menos um ano. Quando o sujeito morre de repente, a família dele até que não a expulsa imediatamente do apartamento onde viviam, mas tampouco a recebe de braços abertos. Ela é tratada o tempo todo como uma aberração, ainda que, na maioria das vezes, um véu de respeito disfarce o preconceito. Mesmo assim, Marina não se submete - a meu ver, ela até torna as coisas mais difíceis para si mesma. Mas é a interpretação de Daniela Vega (que é trans na vida real) realmente é digna de prêmios. Ela transmite a força da personagem, que fala pouco, só com o olhar. Sem a pieguice da "superação", "Uma Mulher Fantástica" mostra que uma boa parte do Chile está no século 21.

sábado, 9 de setembro de 2017

A FAGULHA DURADOURA


Faz 43 anos que eu sou fã do Sparks. Nenhuma outra banda me consumiu tanto amor por tanto tempo - nem mesmo o Queen, meu favorito de todos os tempos, a quem eu fui conhecer só alguns meses depois dos irmãos Mael entrarem no meu coração. Hoje eles são oficialmente idosos. Ron está com 72 anos, Russell com 69. Mas ninguém diria isso ao ouvir "Hippopotamus", o 25o. álbum da dupla. Não se trata de um disco temático: não é todo eletrônico (como o inovador "No. 1 in Heaven", de 1979), não é orquestral (como "Lil' Beethoven", de 2002), não é uma colaboração com outra banda (como "FFS", gravado com o Franz Ferdinand em 2015). É, na verdade, Sparks em estado puro. Ron e Russell cometendo pérolas pop com as letras mais irônicas do mundo e melodias complicadas, porém estranhamente grudentas. O mais incrível é que, depois de quase meio século de carreira, o Sparks segue atual. Não tem nem mesmo aquele ranço dos Rolling Stones, que fazem o mesmo rock'n'roll desde sempre. O Sparks soa moderno, contemporâneo, até mesmo avançado para os dias que correm. Talvez porque não seja um estouro de vendagem. Não sofre pressão de gravadoras para se repetir nem fica preso a uma fórmula que deu certo. Mas os títulos absurdos de canções são uma constante: em "Hippopotamus" tem até uma chamada "Tell Me Mrs. Lincoln Aside from That How Was the Play". É reconfortante ter uma banda contribuindo para a trilha sonora da minha vida desde que eu tinha 13 anos.