quarta-feira, 28 de junho de 2017

OH LORDE, WON'T YOU BUY ME?


Geralmente eu não me interesso pelo que uma garota de 16 anos tem a dizer, e era essa a idade que a Lorde tinha em 2014. Na época eu gostei de “Royals” meio que por osmose, mas não passei disso. Agora ela tem 20 e acaba de lança seu segundo álbum, “Melodrama”. As críticas vêm sendo tão boas que eu me senti impelido a escutar. E não é que é mesmo interessante? São 14 faixas curtas em 40 minutos, a duração dos antigos LPs, e nenhuma está ali para encher linguiça. A maioria fala de festinhas, bebedeiras, a descoberta do sexo: o libreto esperado de uma menina dessa faixa etária, mas sem pretensões nem encucações. E o som é difícil de classificar, com muita pegada dance sem jamais ser explicitamente para as pistas. Vai ser curioso ver essa neozelandesa amadurecer, ainda mais que a Adele.

PERSEGUINDO A POLÍCIA

Sei não, mas essa história da Polícia Federal parar de fazer passaportes, bem às vésperas das férias de julho, tem mesmo cheiro de intervenção do governo. Temer e sua quadrilha querem mais é que a população se volte contra a PF, ou pelo menos não ache tão ruim quando o ministro Torquato Jardim finalmente resolva substituir o comandante Leandro Daiello. Não tenho porque duvidar de uma só palavra do procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, que publicou o post aí ao lado em seu perfil no Facebook. Mas não me resta a menor dúvida quanto à pergunta que ele faz no final: sabemos muito bem a quem isso interessa. Dããã.

terça-feira, 27 de junho de 2017

PRONUNCIAMENTO À NAÇÃO


(a partir de 3:55)
"Portanto, não farei mais parte disto. 
Não servirei mais como alvo de vossas excelências. 
Todos me usaram por muito tempo.
Agora a festa acabou, a carona terminou.
Respeito o cargo demais para permitir que isto continue.
É por isto que estou anunciando a este comitê e à nação que, a partir das 18 h de amanhã, irei renunciar ao cargo de presidente dos Estados Unidos."

É foda quando o Frank Underwood tem mais dignidade e grandeza que o Temer.

RENUNCIA, LADRÃO

Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. Renuncia, ladrão. 

segunda-feira, 26 de junho de 2017

CASAIS SUBVERSIVOS

Em 2014, assisti a uma palestra da Regina Navarro Lins onde ela disse uma coisa que não me saiu da cabeça: hoje em dia é mais fácil para a  família aceitar que um filho seja gay do que ele se case com uma mulher mais velha. Os casais onde ela é "superior" a ele - em idade, dinheiro, experiência, classe social - são um dos últimos tabus, apesar de cada vez mais frequentes na vida real e na dramaturgia. Se bem que nenhuma novela mostrou até hoje a barra que esses pombinhos enfrentam de todos os lados. A mãe dele, os filhos dela, a sociedade em geral, todo mundo é contra. E, mesmo assim, tais arranjos conjugais costumam ser felizes e duradouros. Acho que este assunto rende um roteiro, e foi com este intuito que compareci ao lançamento do livro "Por que Os Homens Preferem as Mulheres Mais Velhas?", de Marian Goldenberg. O que era para ser um debate com a plateia com uma hora de duração acabou se estendendo por duas e meia, tantas eram as pessoas presentes que vivem situações similares - e todas confirmando a tese de que esses casais têm mesmo algo de especial. Claro que comprei o livro, e o devorei neste fim de semana (são só 124 páginas). Mirian entrevistou diversos maridos e mulheres com pelo menos 10 anos de diferença entre si, e aponta as razões porque esses relacionamentos, que até nos parecem contrários à natureza, na verdade são bastante equilibrados. Agora preciso escrever um argumento.

A MARAVILHA DO PORTO

Eu, que cheguei a ter um pied-à-terre no Rio, hoje em dia vou muito pouco à minha cidade natal, e quase sempre em esquema de bate-e-volta. Por isto só ontem tive tempo de conhecer o Porto Maravilha, que ficou pronto na época das Olimpíadas. Fizemos um passeio completo: largamos as malas no Santos Dumont, tomamos o VLT e saltamos bem em frente ao mural do Kobra. De lá, uma caminhada até o AquaRio, que estava cheio mas não intransitável. O novo aquário da cidade não é o mais bacana que eu conheço (esta honra ainda cabe ao Oceanário de Lisboa), mas não faz feio. Só reclamo do preço salgadíssimo: 80 reais a inteira (pelo menos eu paguei só 60, por ser nativo do RJ). Depois ainda fomos espiar as recém-descobertas ruínas do Cais do Valongo, onde desembarcou boa parte dos escravos trazidos da África ao Brasil. E finalmente encaramos o Museu do Amanhã, que já não tem mais as filas quilométricas na porta. Mesmo assim, lá dentro as instalações continuam cheias de gente: imagino que só num dia de semana o visitante conseguirá usufruir de tudo. Mas nem esses pequenos tumultos conseguiram estragar meu dia. O céu estava limpo, a temperatura, agradável, e a limpeza de todo o trajeto realmente me impressionou. O Rio se civiliza! Claro que a um custo exorbitante, tanto que agora o estado e a cidade vivem crises profundas. Mas torço para o Porto Maravilha sobreviver incólume a esse turbilhão. Já é um belo legado deixado pelos Jogos, e vale muito ser visto.

domingo, 25 de junho de 2017

DROGA DE ÉPOCA

Fábio Assunção deu o azar de viver não só na era da internet, como num momento em que o conservadorismo ignorante avança no mundo inteiro. Em outros tempos, dependentes químicos famosos puderam lutar contra seus problemas longe das câmeras dos celulares e do julgamento instantâneo nas redes sociais. O ator, não: está sendo exposto e execrado como se fosse um criminoso, em mais um episódio relevador da nossa relação de amor e inveja com as celebridades. Pelo menos dessa vez também percebo uma onda de solidariedade esclarecida, ainda mais depois que a minha timeline passou por rigorosa curadoria. Tudo o que não precisamos é de uma Amy Winehouse brasileira, para tirarmos bastante sarro enquanto viva e depois chorarmos quando fizerem um documentário.

sábado, 24 de junho de 2017

FRANTZ CAFÉ


François Ozon é um dos meus cineastas preferidos. Eu nunca menos que gostei de um filme dele, e alguns, como "8 Mulheres" ou "Uma Nova Amiga", estão entre os que eu vou levar para a ilha deserta. Seu penúltimo trabalho, "Frantz", não entrou para este seleto clube, mas é uma beleza - e também um desafio. Nem todo mundo vai apreciar a história do francês misterioso que aparece colocando flores no túmulo de um soldado alemão, logo depois da 1a. Guerra Mundial. O cara se apresenta como amigo do falecido, mas é claro que ele esconde um segredo. A revelação acontece na metade, e não chega a ser uma enorme supresa. Daí para a frente, Ozon se afasta do filme mudo de Ernst Lubitsch onde se baseou, e "Frantz" se assume como uma jornada de autoconhecimento da namorada do morto. Paula Beer está luminosa no papel, fazendo um bom contraste com o esguio Pierre Niney. Há alguns finais falsos, e eu me perguntei onde que Ozon queria chegar. A resposta é: na cor, que aparece de vez em quando entre tanto preto-e-branco.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

TEAM QATAR

Vamos deixar bem claro: o Qatar não é nenhuma democracia. A família real não admite dissidências, os trabalhadores estrangeiros têm pouquíssimos direitos e está cada vez mais claro que o país comprou a Copa de 2022. Mas, nesse momento em que meio mundo árabe rompeu com os qataris, eu estou do lado deles. As exigências da Arábia Saudita para reatar os laços diplomáticos são absurdas: querem que o Qatar não só se afaste do Irã, como feche a emissora al-Jazeera, que é sediada lá. O grande canal de notícias faz uma cobertura equilibrada e até ousada para os padrões muçulmanos - menos do próprio Qatar, o que é hipocrisia, lógico. Mas seus vizinhos estão pegando pesado demais, e o pior é que têm o apoio do Trump. Como ajudar o pequeno (porém riquíssimo) emirado? Pensei até em fazer conexão em Doha ao invés de Dubai, se algum dia eu for mesmo para o oriente. E olha que, por causa do embargo e das restrições ao espaço aéreo, a viagem daqui para lá aumentou em quase duas horas...

NORWEGIAN WOOD

Alguém aí sabia que a Noruega já investiu mais de UM BILHÃO de dólares na preservação da Amazônia? Tremo em pensar no destino que boa parte desse dinheiro deve ter tomado. Mas agora o país nórdico vai repensar essa ajudinha, e o anúncio do corte foi só um dos vexames que Temer, o Velho, passou em sua visita oficial por lá. Os outros: ele foi recebido em Oslo por ninguém mais que o administrador do aeroporto; na entrevista coletiva havia um único jornalista, um rapazote recém-formado; e o presidente ainda chamou o rei da Noruega de rei da Suécia, numa gafe que o perseguirá até o fim de seus dias (que virá em breve).

quinta-feira, 22 de junho de 2017

O PÓS-LULA JÁ COMEÇOU

Há uma nova esquerda se aglutinando no mundo, não necessariamente ao redor de caras novas. Nos Estados Unidos, ela é personificada por Bernie Sanders; na França, por Jean-Luc Mélénchon. Os dois saíram derrotados dos últimos ciclos eleitorais, mas a garotada os apoia cada vez mais - o que quer dizer que eles (ou suas ideias) estarão de volta nas próximas eleições. E no Brasil? Faz mais de 20 anos que por aqui esquerda é sinônimo de Lula e vice-versa. Mas tudo indica que o ex-presidente está no ocaso de sua carreira. Na remota hipótese dele escapar de uma condenação em segunda instância, ainda terá que vencer uma enorme rejeição para se reeleger no ano que vem. Portanto, não é de se admirar que PSOL, MTST e setores do próprio PT estejam se encontrando sem avisá-lo. Mas quem seria o líder dessa nova fase? Se ele quiser, aposto em Fernando Haddad. Duvido que ganhem em 2018, mas desconfio que a era pós-Lula já começou. Só não avisaram para ele.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

QUAL É O SEU KIKI?


Uma mulher só se excita quando vê o marido chorar. Uma outra, goza quando sente muito medo. E um homem dá soníferos para sua esposa paraplégica, para transar com ela adormecida. Estas são algumas das filias - ou taras, em bom português - apresentadas no filme espanhol "Kiki - Os Segredos do Desejo", que está passando discretamente pelos cinemas brasileiros. Mas não devia: "Kiki" é delicioso feito um tesão reprimido. O próprio título quer ser um sinônimo simpático para essas práticas pouco ortodoxas, mas talvez devesse ter sido trocado por aqui para atrair mais público, Pelo menos é mais sedutora do que "A Pequena Morte", o filme australiano no qual é baseado e que também ignoramos. Mas não perca esta versão, mais humana e caliente, com personagens verossímeis e algumas cenas antológicas (como a do surdo...). Let's have a kiki!

LIFE IN PLASTIC, IT'S FANTASTIC

Fui uma criança perversa - aliás, como quase todas. Gostava de tirar as roupas dos bonecos e promover surubas entre eles. Também os torturava: certa vez derreti o braço de um monstrinho de borracha, para ver como escorria. Esse meu instinto básico estava adormecido, mas foi despertado pela nova linha de Kens. O namorado da Barbie passou por um extreme makeover, o que já não era sem tempo, e ganhou novas cores, tipos de corpo e estilos de cabelo. Até aí, nada contra: viva a diversidade, etc. etc. Mas o Ken de coque samurai me dá vontade de matar. Acho que vou comprar um só para submetê-lo às mais cruéis sevícias, mwahahaha.

terça-feira, 20 de junho de 2017

NARIÇÕES DE RENANZINHO

Renan Calheiros tem medo. A exposição de suas falcatruas ao longo dos anos está pondo em risco sua reeleição em 2018 - e também a de seu pimpolho, governador de Alagoas. Mas o ex-presidente do Senado achou uma maneira de turbinar sua popularidade: agora ele é contra as reformas previdenciária e trabalhista, indo totalmente contra seu partido e o governo do qual faz parte. Tanto que seu voto contra hoje nem foi surpresa, o que não quer dizer que ele tenha se tornado o paladino dos desvalidos. É só mais um oportunista pensando exclusivamente na própria pele, e mais uma prova de que a permanência de Temer no poder não garante a aprovação de reforma nenhuma.

YOUNG MAN, I WAS ONCE IN YOUR SHOES

Levou 40 anos, mas finalmente uma filial da Associação Cristã de Moços - a da Austrália - se apossou do clássico hino do Village People, que sempre foi renegado pela entidade por causa de sua conotação gay. "Y.M.C.A." acabou de ganhar uma versão meio folk na voz de ninguém menos que Boy George, como tema da campanha "Why Not" que pretende reapresentar a marca à garotada australiana. Gostei, mas pena que com essa levada não dá para fazer a coreô.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

LEGAL PACAS


Elis Regina rendeu vários livros e um longa-metragem, e tem uma minissérie planejada na Globo. Maria Bethânia ganhou pelo menos dois documentários que contam sua trajetória. Mas Gal Costa, que com as outras duas forma o trio de grandes cantoras brasileiras surgidas nos anos 60, era pouco examinada até hoje. Essa lacuna está finalmente sendo coberta pela série "O Nome Dela é Gal", cujo segundo de quatro episódios foi exibido ontem pela HBO. A receita não tem nada de inovadora - depoimentos atuais e antigos são entremeados com imagens de arquivo - mas é didática e envolvente. E o roteiro realça o pioneirismo da ex-Gracinha, que foi, em pleno auge da ditadura militar, a cantora mais moderna que o Brasil teve até hoje. Fiquei tão curioso que fui ouvir o terceiro álbum de Gal, "Legal", de 1971, que ela gravou quando Gil e Caetano estavam exilados em Londres. O disco é assombroso: tem de uma versão à la Janis Joplin de "Eu Sou Terrível", de Roberto e Erasmo, a misturas psicodélicas de baião com rock, culminando no clássico "London, London". Muito mais avançado do que as tulipas e karinas de hoje em dia. Agora, se "O Nome Dela é Gal" reitera a importância artística da cantora, sua vida íntima permanece um mistério. Enquanto sabemos detalhes de cada amor que Elis teve na vida, os de Gal Costa continuam elusivos como o sorriso do gato de Alice.

TEAM RODIN X TEAM CAMILLE


Camille Claudel virou figurinha fácil no cinema. Ganhou seu próprio filme em 1989, com uma interpretação que rendeu a Isabelle Adjani sua segunda indicação ao Oscar. Reapareceu em 2013 com Juliette Binoche, no sombrio "Camille Claudel 1915". E agora vira coadjuvante em "Rodin", onde seu famoso amante é o protagonista. Mas não é mais uma personagem trágica, que enlouquece por ser rejeitada: aqui ela só é uma mocinha bonitinha e esforçada, sem nenhum glamour, que se torna uma chata a incomodar o talento de um gênio. Este é um dos defeitos de "Rodin", que está passando no Festival Varilux mas só entra em cartaz em novembro: o escultor é mostrado como um grande artista que tem o direito de comer as mulheres que quiser, pois o que importa mesmo é sua obra. É uma visão masculina, para não dizer machista, contrária ao mimimi a que nos habituamos sempre que Camille Claudel é mencionada. Além disso, o longa do veterano diretor Jacques Doillon é bem austero, com planos longos e pouca música, sem que nada de muito transcendental aconteça. Achei meio chato, e continuo sendo Team Camille.

domingo, 18 de junho de 2017

A PARADINHA-AH-AH-AH-AH

Cheguei às 14 horas e me instalei numa ilha no meio da Paulista, em frente ao prédio de um amigo meu. Chamei o dito cujo e assistimos juntos ao desfile de todos os carros da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. Eu nunca tinha visto o desfile inteiro, do começo ao fim. E não posso dizer que adorei: os primeiros carros me pareceram beeem pobrinhos. Um deles nem faixa tinha, só umas bichas desanimadas em cima. As celebridades só começaram a aparecer da metade para o fim, a partir do carro da Daniela Mercury, que virou obrigatória em eventos do gênero. Avistei Rogéria, Fernanda Lima e Fafá de Belém, esta última cantando no trio do filme "Divinas Divas". Mas me chamou a atenção a ausência de políticos - alguém viu algum? Onde se meteu a Marta Suplicy? Jean Wyllys tampouco veio. E o Dória avisou que ia viajar, mas gravou um vídeo saudando as guei para sua página no Facebook (onde foi imediatamente massacrado). E a Anitta, onde parou? Saí às quatro e meia com a sensação de ter visto uma parada animada, sem problemas, mas também sem uma trans crucificada para entrar na história. Também não ajudou o tema quilométrico, impossível de caber numa hashtag: "Independente das nossas crenças, nenhuma religião é lei. Todos e todas por um Estado Laico'.  Me chamem no ano que vem, prometo que escrevo coisa melhor e não cobro nada.  Mas, enfim, vinte anos depois da primeira edição, a Parada de SP está mais que incorporada à rotina da cidade. Felizmente, parou com aquela bobagem de inflar seus números ano a ano: ela continua gigantesca, maior do que qualquer similar no mundo. Dessa vez o que mais me impressionou, na verdade, foram turmas de garotos e garotas bem novinhos, com cara de que tinham vindo de longe, todos dançando animadíssimos. Se essa energia for canalizada não só para a festa, mas também para o voto, não estaríamos mais debatendo se família só pode ser formada com um homem e uma mulher.

sábado, 17 de junho de 2017

BRASILSLEY

Acredito piamente em cada palavra da entrevista que Joesley Batista deu à revista "Época". Por quê? Porque tudo monta, tudo faz sentido. E é tudo absolutamente apavorante: o Brasil que emerge daquelas páginas é uma bosta. Riquíssimo em recursos, com dimensões continentais e um potencial incalculável, o país caiu nas mãos de uma quadrilha mafiosa. Não se deixem enganar, coxinhas e mortadelas: PT, PSDB e PMDB são só facções de uma mesma "Orcrim", a abreviatura de "organização criminosa" que Joesley nos ensinou. Não adianta tirar um para colocar o outro no lugar. Que se vayan todos, e já.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

VOYAGE VOYAGE


Faço muito turismo no cinema. Adoro passar duas horas viajando, mesmo se o filme for ruim. "Paris Pode Esperar" é médio: a trama e os personagens não tem lá muita substância, mas as paisagens são maravilhosas e a comida é tentadora. Dianne Lane (uma atriz que Hollywood precisava usar mais) faz a mulher de um produtor de cinema que desiste de acompanhá-lo a uma viagem de negócios a Budapeste, preferindo pegar carona de Cannes a Paris no velho Peugeot de um amigo do marido. O que era para ser um trajeto de oito horas acaba levando três dias, pois o francês faz questão de parar em cada restaurante e atração turística pelo caminho (inclusive a gloriosa Pont du Gard, o aqueduto romano que aparece no trailer aí em cima e que eu tive a honra de conhecer em 2014). Fica aquela tensão boba no ar: os dois vão ou não vão para a cama? "Paris Pode Esperar" é o primeiro longa de ficção dirigido por Eleanor Coppola (aos 80 anos de idade!), esposa de Francis e mãe de Sofia. É bem a fantasia de uma mulher casada e privilegiada, mas totalmente inofensivo. Não chega aos pés do resto da obra da família, mas enche os olhos e abre o apetite.

BUM BUM PRATICUMBUM PRUGURUNDUM

É im-pres-sio-nan-te o dedo podre de cariocas e fluminenses para escolher seus dirigentes. O estado já elegeu bandidos como Anthony Garotinho e Sérgio Cabral para governador. A cidade preferiu Eduardo Paes ao invés de Fernando Gabeira, e no ano passado foi de Marcelo Crivella para prefeito. Sim, um bispo evangélico no comando da capital nacional da putaria - e vindo da mais gananciosa de todas as igrejas neopentecostais, a Universal do Reino de Deus. Agora o Rio está em polvorosa com a queda de braço entre o alcaide e a Liga das Escolas de Samba, não exatamente um antro de virtude.  A disputa é o tema da minha coluna de hoje no F5, e mexe com os interesses de muito cachorro grande. Seria maravilhoso se Crivella saísse enfraquecido, pois o cara não faz a menor ideia do que seja o estado laico. Mas as escolas também merecem ser auditadas, para deixarem de ser sinônimo de contravenção (para não dizer crime). Só que isto é um sonho tão improvável quanto o Império Serrano voltar a ser campeão pelo Grupo Especial.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

VICTORIA ENGANOSA


"Na Cama com Victoria" foi indicado a vários Césars, inclusive de melhor filme. O trailer é ótimo. As críticas, excelentes. E assim armou-se o cenário para eu me decepcionar. Veja bem, em nenhum momento eu achei chato (ainda mais porque é bem curto). E o tema comum da mulher em crise, em casa, no amor e no trabalho, ganha acréscimos originais, como um jovem ex-traficante que é contratado como baby-sitter ou o amigo sedutor que, no entanto, tem um histórico de violência com as namoradas. Mas fui esperando rir mais, apesar de umas duas ou três piadas boas. Saí do cinema... derrotado (que bola fácil, hein?).

quarta-feira, 14 de junho de 2017

O CONTÁGIO QUE DESENDIREITA

Dizer que o populismo de extrema-direita vai engolir o mundo is the new black, assim como já o foi achar que o Brasil inteiro seria evangélico em 2020. Virou lugar comum até entre comentaristas renomados. Só que a realidade desmente a percepção. Desde que Donald Trump foi eleito, os demagogos nacionalistas perderam feio todos os páreos que disputaram na Europa. Começou pela Áustria: em maio do ano passado, os extremistas do Partido da Liberdade ficaram a meio ponto de vencer as eleições. Contestaram o resultado e um segundo turno foi realizado em dezembro. E aí, perderam por uma diferença de oito pontos... Na Grã-Bretanha, pegou muito mal Theresa May ser a primeira líder estrangeira a visitar o novo presidente dos EUA. A primeira-ministra acabou de perder a eleição que ela mesma convocou, e o partido semi-nazi UKIP não conquistou uma mísera cadeira no Parlamento. Na França, o Front National de Marine Le Pen terá no máximo cinco cadeiras. Ainda falta a Alemanha, que só vai às urnas em setembro, mas a popularidade de Angela Merkel vem subindo nos últimos meses. O fenômeno é analisado neste ótimo artigo (em inglês) de Nate Silver. É bom lembrar, no entanto, que tudo isto está acontecendo na Europa. Como será no Brasil?

LEITÃO À PURURUCA

É estranho que Miriam Leitão tenha levado dez dias para relatar a agressão que sofreu a bordo de um avião. É estranho que as testemunhas (não confirmadas) que apareceram até agora tenham diminuído a gravidade do incidente, quando não desmentem totalmente a jornalista (mas há um vídeo que mostra turba cantando palavras de ordem). O que não é estranho é o PT emitir uma nota em que lamenta o ocorrido e ainda assim culpar a Globo pelo clima de ódio que domina o país, quando o próprio Lula costuma atacar Míriam Leitão nos comícios para sua claque. Também não é estranha a divisão que aconteceu nas redes sociais, com os coxinhas defendendo a moça e os mortadelas xingando-a ainda mais. Esse tipo de divisão entre nós, cidadãos, só interessa à classe política, que assim se mantém no poder - como demonstra com brilhantismo este artigo do Pablo Ortellado publicado ontem na Folha Online. Eu sou totalmente a favor de que os políticos, de qualquer partido, sofram apupos quando aparecem em público. Afinal, eles têm poder: poder de aprovar leis e orçamentos, que afetam diretamente nossas vidas. Mas agredir jornalistas é demais. E, ao invés de discutirmos se Miriam Leitão mereceu ou não ser achacada, devíamos mesmo era nos unir contra essa asquerosa política velha.

terça-feira, 13 de junho de 2017

ENTALADOS

É triste ver os "cabeças-negras" do PSDB serem derrotados. A ala (mais) jovem dos tucanos queria sair já do governo Temer, porque ainda está no começo da carreira política e sabe que o eleitor não vai perdoar quem for percebido como cúmplice de ladrão. Mas Alckmin e Aécio conseguiram conter a revoada. O primeiro, porque acha que a manutenção do atual presidente é o caminho mais suave para ele próprio se candidatar em 2018. O segundo, porque vê em Temer sua única esperança de talvez, quem sabe, frear a Lava-Jato e escapar da cadeia. E assim o partido, que poderia ser o ninho de talvez, quem sabe, um Macron brasileiro, combinando o melhor da direita e da esquerda, condena a si mesmo à extinção. Fogo nele!

VEM CÁ, LUISA

O chavismo vai implodir? Talvez, porque suas fissuras internas já estão visíveis. A maior de todas é a procuradora-geral Luisa Ortega Diaz, a única pessoa que está conseguindo colocar algum tipo de obstáculo à determinação de Nicolás Maduro de convocar uma constituinte para se manter no poder. Chavista histórica, ela quer apenas que a constituição bolivariana de Hugo Chávez seja seguida ao pé da letra. Ou seja: que a Assembleia Nacional, hoje dominada pela oposição, tenha poder de fato; que as eleições para governador, programadas para o ano passado, um dia aconteçam; que os prisioneiros políticos sejam libertados, e assim por diante. Luisa Ortega é uma voz solitária dentro do governo, e é improvável que alguma coisa mude na Venezuela enquanto o exército apoiar Maduro. Mas já é um sinal de que a ditadura incompetente em que o país se tornou não é uma unanimidade nem entre os que queriam o socialismo.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

MAYHEM

Theresa May podia ter ficado quieta e governado com maioria no Parlamento até 2020. Achou que estava com a bola toda, convocou eleições e se deu mal (aliás, como seu antecessor David Cameron). Agora se vê obrigada a formar uma coalizão com o asqueroso UDP da Irlanda do Norte, que é contra o aborto e o casamento gay. Se não conseguir, pode perder o cargo de líder dos conservadores e, por conseguinte, o de primeira-ministra britânica. Como não nutro simpatia por essa vira-casaca que antes era contra o Brexit e agora é a favor, só vou ter saudade de uma coisa se ela sair mesmo: suas caretas. Toda vez em que falei de May aqui no blog, encontrei várias fotos de seu rosto se contorcendo em esgares. Uma mais feia que a outra.

YOU'RE LOOKING SWELL, DOLLY

Já faz mais de quatro anos que estive pela última vez em Nova York, e não tenho nenhuma perspectiva de voltar para lá em breve. Portanto, a cerimônia de entrega dos prêmios Tony (o Oscar da Broadway) na noite de ontem me atinge de duas maneiras distintas. A primeira é cruel: provavelmente jamais verei nenhuma das peças indicadas, que incluem um revival de "Sunset Boulevard" com Glenn Close e um revival de "Hello, Dolly" com Bette Midler. Mas a segunda maneira é simpática: o show mostra cenas dos musicais atualmente em cartaz, então pelo menos sobra uma palhinha para eu não morrer seco de vontade. E ainda tem números espetaculares e exclusivos, como a abertura com o anfitrião da noite, Kevin Spacey. O Frank Underwood de "House of Cards" não só mostrou que canta, dança e sapateia, como também que tem senso de humor: fez duas menções a "coming out" (sair do armário), justo ele que nunca se assumiu gay.
E a divina Bette finalmente ganhou seu primeiro Tony competitivo (ela tinha um especial, dado há mais de 40 anos) como melhor atriz de musical por "Hello Dolly". Seu discurso entusiasmado de agradecimento conseguiu calar a orquestra e só me deixou ainda mais ensandecido para vê-la no palco. O dia há de chegar.

domingo, 11 de junho de 2017

SENTINDO FRIO EM MINH'ALMA


Precisamos parar de achar que cada filme argentino que estreia por aqui é uma obra-prima. Mas o fato é que a produção média deles é mesmo superior à nossa. Vejamos o caso, por exemplo, de "Neve Negra". Trata-se de um thriller - barra - drama de família com elenco estelar, belas locações e roteiro não mais do que eficiente. Acompanhado pela esposa grávida, um homem vai visitar o irmão que vive isolado nas montanhas, para convencê-lo a vender a serraria da família. Uma outra irmã está internada num hospício, e o irmão menor morreu durante uma caçada quando era pequeno. Claro que há um segredo por trás de tudo isso, e nem foi difícil descobrir antes do final. Mas o clima de suspense se mantém, ajudado pela curta duração (apenas 90 minutos). "Neve Negra" é um bom passatempo, enquanto não chega o que parece ser o grande filme argentino do ano: "A Cordilheira", também com Ricardo Darín.

sábado, 10 de junho de 2017

CALOTE NA PIZZARIA

Surpresa? Nenhuma. E a crise política ainda estaria longe de terminar se Temer tivesse sido cassado ontem pelo TSE, porque Rodrigo "Botafogo" Maia assumiria a presidência interinamente e largaria na frente para ser eleito na indireta. Mesmo assim, o placar de 4 a 3 doeu. A desfaçatez de alguns ministros esvazia nosso estoque de frases feitas: taparam o sol com a peneira, foram pegos de calças curtas, deram as costas à sociedade... E perderam a chance de entrar para a história pela porta da frente. O governo de Temer, o Velho, ganha tempo para se arrastar até a próxima delação. O maior perigo é chegar até setembro e colocar um cupincha no lugar do Janot para melar de vez a Lava-Jato. Mas conseguirá? O Brasil que não quer pizza existe, e está esperneando nas redes sociais, nos jornais, na televisão. Agora precisa partir para o mano a mano com a velha política, à direita e à esquerda. Não é da JBS ou da Odebrecht que saem as mesadas milionárias, é dos nossos impostos. Não vamos mais pagar essa conta.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

KÁTIA CEGA


Katy Perry está tentando crescer. Justo ela, que despontou em 2008 com uma pegada meio alternativa, só para se vender ao pop mais desmiolado nos discos seguintes. Pintou o cabelo de todas as cores, vendeu mais que Lady Gaga e arrumou uma treta eterna com Taylor Swift por causa de um bailarino que ambas queriam para suas turnês. Tudo leve e inofensivo, assim como as letras de seus hinos de empoderamento "Firework" ou "Roar". Mas o mundo mudou, e nossa querida Kátia (como costuma ser chamada pelas gueis brasileiras) agora quer ser re-le-van-te. Quer mostrar que é contra Trump e ligada nas causas sociais. Mas sem deixar de faturar, né, meus amores? Por isto, ela não dispensa os produtores multimilionários e os hits pré-fabricados em "Witness", seu quarto álbum, lançado nesta sexta-feira. O tom é mais sombrio do que nos trabalhos anteriores, apesar dos três primeiros singles apontarem para a direção contrária. "Chained to the Rhythm" quis bailar ao som da revolução; "Bon Appétit" tem uma letra tão canhestra sobre sexo oral que envergonharia Madonna; e "Swish Swish" pode se tornar um sucesso nas pistas depois de alguns remixes. Nenhuma delas foi bem nas paradas americanas, num sinal de que o sonzinho bem-feito pero genérico de Katy Perry talvez já tenha dado. Talento ela tem de sobra. Falta abrir os olhos.

MULHERES SÁBIAS


"Sage-femme" quer dizer "parteira" em francês. Sem o hífen no meio, quer dizer "mulher sábia". Este também é o título original de "O Reencontro", cuja protagonista é justamente uma parteira (ou obstetriz, nas legendas brasileiras). Mas de sábia, a princípio, ela tem pouco: é uma mulher solitária e meio amarga, que só se realiza nos exaustivos plantões na maternidade. É o retorno repentino da segunda esposa de seu pai que a fará sair dos eixos e, por fim, adquirir sabedoria. As duas nunca se bicaram, e não se veem há mais de 20 anos. E claro que o contraste ente ambas é enorme: a madrasta é fútil, vaidosa e hedonista. Fuma e bebe sem parar, e só sabe ganhar dinheiro se for numa mesa de pôquer. Só que agora... Mais não vou contar, para não estragar o prazer desta versão moderna de "A Cigarra e a Formiga". Catherine Frot, talvez a mais conceituada atriz francesa do momento, está muito bem como a protagonista. E se deixa roubar por sua xará Catherine Deneuve, esplêndida aos 73 anos. "O Reencontro" - que está passando no festival Varilux e entra em cartaz no final de julho - não deixa de ser mais uma variação do clichê da pessoa apagada que redescobre o prazer da vida graças a uma visita inconveniente. Mas é um filme redondinho, que cumpre o que promete.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

COELHINHA PARA SEMPRE

É sensacional o ensaio que recria sete capas da Playboy americana com as mesmas modelos, anos depois. Foi ideia do atual editor da revista, Cooper Hefner, cuja mãe Kimberley Conrad foi uma das muitas playmates que primeiro posou nua e depois se casou com Hugh Hefner, o lendário criador do império coelhístico. No site Bored Panda dá para comparar direitinho como elas eram antes e como estão agora: algumas estão realmente mais bonitas. E não, não é por causa do bisturi ou do Photoshop, como alguns chatos vêm reclamando. É por causa de um segredinho chamado atitude, que tende a melhorar com a experiência. Como diz o velho Hugh: uma vez coelhinha, coelhinha para sempre.

HERMAN MONSTRO

Taí um exemplo de alguém que não precisa ser macho para ser corajoso: o ministro Herman Benjamin do TSE, que é gay assumido e está sambando na cara do Gilmar Mendes. Ontem eu vibrei com a argumentação que ele fez ao defender a inclusão das denúncias da Odebrecht no processo que pode levar à cassação da chapa Dilma-Temer. Este monstro de integridade simplesmente desnudou a parcialidade de Gilmar, que votou pela inclusão de novas provas quando Dilma ainda estava na presidência e agora quer que elas sejam excluídas quando seu amigão Temer ocupa o Planalto. Gilmar revidou dizendo que foi graças a ele que agora Benjamin "brilha" na TV, só para levar na fuça a resposta de que o relator do processo prefere o anonimato, sem nenhum glamour. Essa história deve acabar em pizza, mas é de gente como Herman Benjamin que o Brasil precisa.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

MACHO NÃO É SINÔNIMO DE CORAJOSO

Ontem o publicitário Nizan Guanaes publicou em sua coluna semanal na Folha um texto chamado "É Preciso Ser Muito Macho para Ser Gay neste País". Dei uma lida e achei simpático: é sempre bom que alguém influente como Nizan (que tem um irmão gay) se junte à luta pelos direitos igualitários. Também achei ligeiramente oportunista, porque ele também quer louvar divulgar a música que compôs para a Parada Gay de São Paulo, "Filhos de Arco-Íris". Hoje um outro publicitário, chamado Gustavo Otto, postou em sua timeline no Facebook um texto-resposta que está viralizando. Gustavo (a quem não conheço, mas com quem tenho vários amigos em comum) é gay e rebate, com o máximo respeito, algumas posturas de Nizan que acabam atrapalhando mais do que ajudando os LGBT, por pura ignorância. Eu tive que concordar, e vou tentar resumir aqui. Para começar, é mais do que um clichê associar a macheza à coragem: chega a ser pernicioso. A vida está cheia de exemplos de mulheres, bichas, trans, etc. que são corajosíssimos sem precisar serem machos. Gustavo também implica com a letra da canção e diz que não é filho de nenhum arco-íris, e sim de seu pai e de sua mãe. Como eu, você, todo mundo, seja qual for a orientação sexual. De fato, dizer que o gay "tem outra íris" é quase transformá-lo numa outra espécie, quando todos somos humanos. Longe de mim acusar Nizan de "tomar o lugar de fala" ou outras sandices do gênero. Precisamos de todos os aliados que conseguirmos. Mas o texto do Gustavo Otto é uma boa reflexão, que mostra como as gotículas do preconceito sobrevivem até mesmo ao banho das melhores intenções.

MACRON-IN-WAITING

Um artigo de Fernando Haddad publicado pela revista "Piauí" está causando furor nas redes sociais. O texto é longo, lúcido e fluido, bem agradável de se ler. Não tem uma estrutura rígida: está mais para o fluxo do pensamento do ex-prefeito de São Paulo, com uma ideia puxando a outra. Ele começa espinafrando Dilma e termina incensando Lula, no que parece ser uma tática para continuar de bem com quem de fato ainda apita no PT. Mas o cerne da matéria é o que Haddad chama de patrimonialismo brasileiro - a relação complexa e perversa entre o público e o privado no país, que remonta aos tempos da colônia. E é aí que mora o problema. Haddad diz que o PT foi "vítima" do malvado patrimonialismo, como se seu partido não tivesse outra alternativa a não ser se afundar na lama da corrupção. O jornalista Pedro Doria rebate essa colocação em seu site de notícias, o Meio. Mas é curioso como o ex-alcaide aparenta querer visibilidade, num momento em que não exerce cargo público. O PT pode precisar de seus serviços logo, o que seria ótimo - Haddad é, de longe, o melhor quadro para a era pós-Lula, que pode estar bem próxima. Mas vai precisar de um pouco mais de auto-crítica se quiser se posicionar como uma espécie de "Macron-in-waiting" (nos bastidores, se preparando para entrar em cena), como Igor Gielow o chama na "Folha" de hoje.

terça-feira, 6 de junho de 2017

O REAL E O FRANCO


Se o Plano Real tivesse acontecido nos Estados Unidos, já haveria uns cinco filmes sobre sua elaboração e implantação, alguns deles vencedores do Oscar ou do Emmy. Mas aqui no Brasil não temos a cultura de dramatizar a nossa política, ainda mais se ela for recente. Quando surge alguma obra no gênero, ela não passa de propaganda mal-disfarçada. Foi o caso de "Lula, o Filho do Brasil", e também é um pouco o de "Real - o Plano por Trás da História". O filme é abertamente a favor da moeda nova que acabou com a hiperinflação, em 1994, embora também mostre a crise de 1998. Até aí tudo bem: é necessário um ponto de vista para se contar uma história. Mais grave é o fato de "Real" não ser exatamente sobre o real, e sim uma biografia do economista Gustavo Franco. Por que ele foi escolhido como o protagonista dessa trama? Foi uma opção dramática ou uma estratégia de marketing? Sob o patrocínio de quem? Mais grave AINDA é que se trata de um filme bem ruim. Com diálogos forçados, direção pouco inventiva e atuações mal dirigidas. A coisa tá feia quando a melhor atriz em cena é a Paolla de Oliveira.

ALÉM DO ARCO-ÍRIS

Com dois anos de atraso em relação aos Estados Unidos, Doritos finalmente está disponibilizando no Brasil sua versão com as cores da bandeira gay, em apoio à causa LGBT. Como nos EUA, o salgadinho technicolor não será vendido em lojas: quem quiser terá que doar 10 dólares ou mais no site da marca. Tenho medo que chegue tudo quebrado por causa do correio, mas acho que vou experimentar. Enquanto isto, lá fora as marcas já estando deixando o arco-íris para trás. É o caso de Skittles, que lançou uma versão toda branca das balinhas. A justificativa é que, neste mês do Orgulho Gay, "só um arco-íris é que importa". Também quero - anda mais porque não dá para adivinhar qual aroma artificial a gente vai comer antes de por o troço na boca. Não é divertido?

segunda-feira, 5 de junho de 2017

QUE MARA-MARA-MARA-MARAVILHA Ê


Quebrei meu jejum de filmes de super-herói com "Mulher-Maravilha". Nunca fui fã do seriado dos anos 70, mas me senti impelido a ver o longa porque ele está se transformando num fenômeno tanto comercial quanto cultural. Analiso as razões por trás disso na minha coluna de hoje no F5. Aqui quero falar de amenidades, tipo, a Gal Gadot não parece a Patrícia Poeta? E aquela Ilha das Sapatonas Amazonas, que combina o medo atávico de um mundo dominado pelas mulheres com a fantasia sexual de um adolescente? "Mulher Maravilha" acerta ao fazer de sua protagonista uma deusa de verdade, e ainda mais ao situar a trama na época da 1a. Guerra Mundial. A sequência em que Diana Prince vai às compras na Selfridge's de Londres é uma agradável colisão entre o universo da DC Comics e "Downton Abbey". As cenas de luta, apenas quatro ao todo, são bem espaçadas e ritmadas, apesar do final óbvio demorar um pouco. Tudo isso contribuiu para que eu me divertisse mais do que esperava. O que não quer dizer que eu já esteja ansioso por "Liga da Justiça", o próximo filme em que a Miss Venezuela Mulher-Maravilha irá aparecer.

VARADKAR DE FAMÍLIA

Pela minhas contas, o irlandês Leo Varadkar será o quarto homossexual assumido a liderar um país europeu. A pioneira foi Johanna Sigurdadottir, da Islândia, que em 2010 aproveitou a aprovação do casamento gay em seu país para oficializar sua união com a namorada enquanto ainda estava no poder (hoje ela está aposentada da política). Em 2011, Elio di Rupo, sósia de Moacyr Franco, se tornou primeiro-ministro da Bélgica, cargo que ocupou por quase três anos. E atualmente temos Xavier Bettel, de Luxemburgo, cujo marido Gauthier Destenay causou sensação na última reunião da OTAN. Mas a eleição de Varadkar tem lá suas peculiaridades. Para começar, a Irlanda disputa com a Polônia e a Itália o título de país mais fervorosamente católico da Europa. Além disso, Varadkar é filho de imigrantes indianos - o que torna ainda mais interessante sua ascensão dentro do Fine Gael, um partido conservador. Pena que Matt Barrett, o namorado médico e bonitão, já avisou que não vai fazer o papel de "primeiro-damo". Mas talvez nem precise. Já vai ser engraçado o suficiente ver Donald Trump ou os xeques árabes tendo que apertar a mão desse PM bicha nos futuros encontros internacionais.

domingo, 4 de junho de 2017

IL NONNO DELLA DISCO

Giorgio Moroder esteve pela primeira vez no Brasil em 2013, tocando numa festa só para convidados. Perdi, mas ontem fui à forra. O produtor mais influente da disco music (sim, até mais do que Nile Rodgers do Chic) se apresentou no gigantesco Espaço das Américas, em São Paulo, para uma plateia que tinha pouca gente com menos de 40 anos. "Se apresentou" é maneira de dizer: o inventor de Donna Summer nunca foi DJ e duvido muito que saiba mixar uma música na outra. O que esse vovô italiano de 77 anos fez foi ficar atrás do equipamento fingindo que girava botões, enquanto rolava um megamix de seu catálogo perfeitamente sincronizado com as imagens de vídeo no telão. Durou pouco mais de uma hora e teria sido mais divertido numa boate, com iluminação e caixas de som mais potentes. Mas, para falar a verdade, não carecia de uma produção mais requintada. Porque metade do show (maneira de dizer) acontecia exclusivamente dentro da minha cabeça, onde clássicos como "Beat the Clock", "What a Feeling", "The Never Ending Story" e, claro, "I Feel Love" evocavam memórias de acesso randômico.

sábado, 3 de junho de 2017

DÁ O PÉ, LOURES

Quanto tempo Rocha Loures vai aguentar sem dar a língua nos dentes? O sujeito tem uma mulher que está no oitavo mês de gravidez, e duvido que exale aquela lealdade dilmística que não delata ninguém nem sob choque no bico do seio. Tampouco há algum campeão nacional disposto a pagar mesada para ele continuar calado. Tenho cá comigo que está começando o último ato do governo de Michel Temer, o Velho. Além do mais porque o fato de seu "longus manus" (na deliciosa definição de Rodrigo Janot) ter sido filmado correndo pelas ruas de São Paulo arrastando uma mala de dinheiro é muito mais grave do que qualquer declaração na fita gravada por Joesley Batista. Rocha Loures tem cara de aspone: nenhuma habilidade especial além da fidelidade ao chefe, que agora será posta à prova. E segura a onda, porque vem aí a delafão do Palófi.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

OS TOCÁVEIS


"Os Intocáveis" ainda é o maior sucesso da história do cinema francês. O filme rendeu quase meio bilhão de dólares nas bilheterias, um número digno de blockbuster de Hollywood, pois conta uma história de apelo universal. Por que, então, refazê-lo na Argentina? Ainda mais porque nossos vizinhos vem exportando roteiros. Obras locais como "Nove Rainhas", "O Segredo dos Seus Olhos", "Elsa & Fred" e "Coração de Leão" já foram refilmadas na Europa e nos Estados Unidos. O mais curioso é que os dois últimos títulos foram dirigidos por Marcos Carnevale, que também está por trás de "Inseparáveis". Uma versão bastante fiel ao original, sem nenhuma vantagem sobre este. Só fragilidades: o fato do enfermeiro que cuida do milionário paraplégico não ser mais negro reduz a tensão dramática, e Rodrigo de la Serna se esforça, mas não tem o carisma de Omar Sy. Vale a pena só para quem não viu "Os Intocáveis".

SEX ON THE BEACH


A dupla francesa Polo & Pan vem soltando singles ensolarados há dois anos, desses que dá vontade de ouvir na rede. Mas a sonoridade urbana de "Coeur Croisé" - o carro-chefe do recém-lançado álbum "Caravelle", muito influenciado pela música brasileira - escapa um pouco da fórmula. Mesmo assim, ganhou o clipe mais sexy do ano até agora, e sem um único collant ou quebradinha de quadril. Não que eu tenha algo contra, como se pode conferir abaixo.

Eu tinha meio que desistido da Shakira depois do fraquíssimo álbum homônimo que ela lançou em 2014. Mas a colombiana me reconquistou com "El Dorado", seu trabalho mais latino desde que se repaginou para o mercado internacional. O curioso é que o novo disco foi gravado aos poucos, sem uma ideia geral, e acabou saindo não só coeso como divertido feito férias no Caribe . Aos 40 anos de idade e com dois filhos no currículo, Shaki ainda tem rebolado nas cadeiras e sacanagem no olhar. O vídeo de "Chantaje" já tem mais de seis meses, mas não resisti a postá-lo aqui. E não foi por causa do Maluma, não. Confesso: uns mojitos, e eu encarava a Shakira.
Que está tentando repetir a trajetória de Shakira é nossa conterrânea "Anira", que já lançou DUAS músicas novas depois de se apresentar no programa do Jimmy Fallon na semana passada. "Sua Cara" é oficialmente uma faixa do trio americano Major Lazer, onde ela divide os vocais com a drag Pabllo Vittar (que começou cantando uma versão em português de "Lean On", o que deve ter chamado a atenção dos caras). Mas a que está bombando mesmo é "Paradinha", que a essa altura todo mundo já ouviu e aprendeu a coreô. Achei estranho a letra ser em espanhol e o título não, mas a ex-Larissa tá óóóteeema. Só não curti as tranças.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

IT WAS FIFTY YEARS AGO TODAY


Cheguei a "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" por via indireta. Eu era pequeno demais para comprar o álbum quando ele foi lançado há exatíssimos 50 anos. Mas o adquiri uma década depois, de tanto que comparavam "A Night at the Opera" - a obra-prima do Queen, pelo qual eu ainda sou louco - com a obra-prima dos Beatles. De fato, o parentesco é inegável: John, Paul, George e Ringo abriram o caminho não só para Freddie Mercury e sua turma, como para quase tudo o que veio depois. "Sgt. Pepper" alargou tanto as fronteiras do rock que, de certa forma, matou o rock. Porque, se tudo podia ser rock - vaudeville, música clássica, raga indiana - então nada o era de fato. Esta semana baixei a nova edição deluxe, que traz remixes e sobras de estúdio, e me impressionei como a coisa toda continua boa. Os ouvidos blasés da garotada de hoje talvez não percebam o quão revolucionário esse disco foi. E continua sendo: a ousadia dos Beatles faria bem a muitos artistas atuais.

AMOR EM FOGO BAIXO


É inacreditável pensar que, quando eu nasci, alguns estados americanos ainda proibiam os casamentos interraciais. Um deles era a Virginia, bem ao lado da capital Washington. Quem descumprisse a lei tinha que se mudar, ou então ir para a cadeia. Até que um casal com o sobrenome mais emblemático possível - Loving - resolveu peitar o sistema. Essa é a história de "Uma História de Amor", o título bobinho que "Loving" recebeu ao chegar no Now. O filme concorreu em Cannes no ano passado e rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz para Ruth Negga, mas, por alguma razão misteriosa, não estreou nos cinemas brasileiros. Assisti-lo em casa é um risco, ainda mais se for tarde da noite. Porque os protagonistas são quase passivos e o diretor Jeff Nichols toca a trama em banho-maria, sem nenhuma cena com muitos decibéis. Peguei no soninho algumas vezes e terei que rever algumas partes. De qualquer forma, "Loving" serve como um lembrete de que éramos capazes de absurdos como separar raças até pouco tempo atrás.