terça-feira, 25 de abril de 2017

ELE CANTA PORQUE O INSTANTE EXISTE


“Paterson” tinha tudo para ser um filme chato. Ao longo de quase duas horas, acompanhamos uma semana na vida de um motorista de ônibus, dia por dia. Não acontece quase nada: o cara acorda, vai trabalhar, ouve as conversas dos passageiros, volta para casa, janta com a mulher, depois vai sozinho a um bar para tomar uma cerveja. Nas horas vagas, escreve poesia. Deu vontade de sair correndo? Acontece que o diretor Jim Jarmusch usa os recursos do cinemão para segurar o interesse da plateia: planos curtos, montagem ágil e música, muita música. Nada daquele estilo seco do Dogma que tenta reproduzir a vida, monótona como ela é. Porque a vida de Paterson não é monótona: ele tem a sensibilidade de se encantar com as pequenas coisas e traduzi-la em versos livres, que começam banais e acabam profundos. Jarmusch inclui algumas rimas no roteiro: o nome do protagonista também é o da cidade onde ele vive - justamente o berço de seu poeta favorito, William Carlos Williams. E a sutil ironia de Adam Driver estar fazendo um driver? Além disso, todos os dias Paterson cruza com um par diferente de gêmeos idênticos. Aviso? Coincidência? Ou só mais um mistério do cotidiano? Ele também tem uma idiossincrasia, como todos os personagens jarmuschianos: escreve seus poemas à mão e se recusa a usar computador ou smartphone. Esta teimosia gera o único fiapo de drama de todo o longa, que tem um certo parentesco com a vida quieta da poeta americana Emily Dickinson. Delicado sem ser piegas, “Paterson” me tocou feito um sussurro.

3 comentários:

  1. Adoro Adam Driver em Girls.

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  2. O mio babbino caro
    Ele canta porque o instante existe:"Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente - o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."
    (GR)

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  3. E Get Out? Me arrepiei assintindo.

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