segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

#VAI TER TODOS DE TURBANTE SIM

A polêmica sobre a famigerada “apropriação cultural” voltou a sacudir a imprensa e as redes sociais neste final de semana. Foi enorme a repercussão do caso da garota branca Thauane Cordeiro, que se defendeu de uma ativista que a repreendia por estar usando um turbante “exclusivo” das mulheres de ascendência africana. Muita gente aplaudiu a resposta da moça: “Tá vendo essa careca, isso se chama câncer, então eu uso o que eu quero. Adeus". Eu também aplaudo, mas tiraria a parte do câncer. Todo mundo tem direito de usar o que quiser, ponto.

Além do mais, essa problematização do turbante é imbecil em vários níveis. Para começar, turbantes não são exclusivos da África. De Madame Grès à Viúva Porcina, passando por toda a Índia e o Oriente Médio, milhões de não-africanos amarram panos na cabeça de milhares de jeitos diferentes, há milhares de anos.

“Ãin, mas tem um jeito que é só das africanas”. Tem, e que sabe o que as africanas de verdade fazem com ele? Convidam as de fora a experimentá-lo. Foi matador o tuíte do africano Bidú Azeez Bidú, lembrando que em seu continente o pessoal é para lá de hospitaleiro. Aliás, a África costuma se apropriar de outras culturas sem a menor cerimônia - na música, na moda, na culinária, na religião - e os resultados são es-pe-ta-cu-la-res. Uma sugestão: ouça Francis Bebey, que que se apropriou dos sintetizadores ocidentais para fazer música eletrônica nos Camarões em plena década de 1970.

Mas o pior de tudo é que as reclamações contra a “apropriação cultural” só nos dividem mais ainda. Elas erguem um muro tão ruim quanto o do Trump, pregando que cada um permaneça para todo o sempre em seu quadrado. Não passam de uma modinha importada das universidades americanas, que se esborracha gostosamente contra a realidade da miscigenação brasileira. Ninguém vai deixar de ser racista por causa dela, e os militantes que insistem nessa estupidez acabam hostilizando o pessoal que já está do lado deles. Fora que ninguém pode se apropriar da cultura do outro, porque a cultura não é propriedade de ninguém. Se existe dono, ele é um só: toda a humanidade. Ponto.

16 comentários:

  1. Existe ativista que tá mais para membro de culto identitário do que para ativista. Usam a luta contra o preconceito e contra o racismo como forma de dividir as pessoas para ganhar status. É de uma perversidade escrota.

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  2. No caso da cantora americana Beyonce que pinta o cabelo de loiro e fez branqueamento de pele seria apropriação cultural da cultura da Inglesa?

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    1. Beyonce se apropria de tudo, o único que ela não pode se apropriar é da voz dona da porra toda da Adele que ganhou todos os grammy. Adele mostrou mais uma vez que ganha na garganta e não precisa rebolar a bunda e nem de toda uma parafernália, sair voando no cenário etc....

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    2. Beyonce eu não sei, mas o finado Michael jackson com aquelas plásticas todas com certeza queria se apropriar da aparência de Frankenstein e levou tão a serio sua idolatria pelo vampiro que somente saia depois do por do sol e com óculos escuros

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  3. Perfeito! Parabéns pelo texto, certeiro!

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  4. Quem inventou esse termo deveria se apropriar de uma bala na cabeça.

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    1. 13:40 Pessoas assim estavam adormecidas nada como um post assim às a fortalecerem.

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    2. 13:40 Eu sei oque querem essas BichaSS.

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  5. O mio babbino caro
    Passa por aí. Mereceria também um post, a tragédia que se abate sobre o GENOCÍDIO DA JUVENTUDE NEGRA, 111 tiros em jovens negros comemorando seu primeiro emprego em Madureira, Cábula em Salvador, Luana em Piracicaba, Ítalo em Guaianazes, um sem fim. O turbante é simplesmente o ridículo da vida...
    Plus à tardinha: https://www.youtube.com/watch?v=7WyP1bx5wEE&feature=youtu.be

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  6. Texto perfeito.
    Uma pena que na folha você só escreva sobre entretenimento. Os leitores de lá também mereciam conhecer esses seus outros textos.

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  7. Já parei de comer sushi pq é apropriação cultural, SQN

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  8. Como se explica isso pra Djamila Ribeiro ??? Em um post sobre este assunto ela diz que cantores brancos medíocres não podem cantar samba!!! e outras pérolas mais, haja saco.

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    1. Como explicar qualquer coisa pra alguém tão amarga quanto Djamila Ribeiro?

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  9. Tem gente que não tem mais o que fazer, sinceramente...

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  10. AHAZÔ, como sempre afinal!

    E para esses militantes xiitas: ataquem também a Beyoncé, manda ela tirar todo aquele aplique louro da cabeça, apropriação cultural das mulheres brancas!!!!

    Abraço,
    do seu leitor negro e gay

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  11. Quem diria que um mero pedaço de pano usado na cabeça seria motivo prá revelar tanto absurdo?

    Quanta gente que diz defender a causa negra destilando preconceito e o mesmíssimo discurso racista e rotulante que tanto diz ser contra? Eu ser classificada como massa dominante, ser criticada por opinar, isso só porque sou branca, prá mim, não soa diferente dos negros que não podiam frequentar as escolas dos brancos. O eterno branco e negro. Até quando?
    Parça, não fui eu quem escravizou seus ancestrais. Estou do seu lado, não entendeu ainda? Se até hoje somos classificados por cores porque ainda somos tremendamente atrasados, isso não é culpa minha como indivíduo.

    Uma pessoa te dizer que os negros sempre não puderam um monte de coisas e que agora está na hora dos brancos não poderem também, prá mim, é vingança retroativa. É racismo tal qual. E em que melhoramos a situação com isso? E não acho que soe diferente da feminista que defende a opressão a todos os homens, por vingança, ao invés de defender direitos iguais, salários iguais, etc. Não vejo diferença alguma no discurso racista do Trump com o discurso também racista e segregacionista de vários aqui que dizem defender a causa negra. Pior ainda, essa coisa de separar pessoas que podem ou as que não podem usar um pedaço de pano na cabeça pela quantidade de melanina da pele. E o debate tão essencial e profundo da causa negra perde, e começa a perecer a guerra dos blogueiros mal amados da moda.

    A transexual que desfilou na parada gay numa cruz, fazendo alusão ao martírio de jesus, foi defendida por vários aqui que hoje criticam quem achou absurda essa discussão do turbante. Ué, a transexual foi acusada de apropriação religiosa indevida e defendida por vocês. Então a dela, tudo bem, a das mulheres brancas que querem usar turbante, não pode. É isso? Ah, tá, estão se espelhando no caso do Lula Ministro, não pode, Moreira Franco Ministro, pode. Agora entendi...

    Isso tudo é apenas e unicamente a mesmíssima perpetuação do velho discurso de ódio, o mesmo discurso que quis impor aos negros várias limitações agora quer regular o que mulheres podem ou não usar por serem brancas. E é esse mesmo discurso que mantém o racismo vivo até hoje.

    O oprimido querendo ser o opressor, quantas vezes a gente tem visto isso na política e em outras áreas, hein? Esse não é e jamais será o caminho que vai resolver alguma coisa.

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