segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

PALMA VELHA


Tenho a sensação de que o júri do Festival de Cannes nunca dá a Palma de Ouro ao filme de que eles gostam mais, mas àquele com a Mensagem que Vai Ajudar a Humanidade. Vejamos o que aconteceu em 2016: num ano em que competiam candidatos do calibre de "Aquarius", "A Criada", "Elle" e o alemão "Toni Erdmann" (provável vencedor do Oscar de filme em língua estrangeira), o prêmio máximo foi para "Eu, Daniel Blake", um longa velho sobre um velho feito por um velho.  O diretor Ken Loach já tem 80 anos e venceu Cannes em 2006. Teria sido mais justo premiar algum título mais moderno. Não que este seja ruim: o roteiro não tem barriga, as atuações são ótimas e não há quem não se identifique com a luta de um cidadão contra a burocracia corporativa, seja ela pública ou estatal (eu mesmo me exasperei outro dia com a mocinha de uma operadora que insistia em não ouvir minha recusa ao produto que me era oferecido). O Daniel do título é um carpinteiro viúvo e sem filhos que tenta receber um auxílio do governo depois de ter sofrido um enfarte que o impede de trabalhar - se ele enfrenta problemas na Grã-Bretanha, que tem um dos sistemas mais avançados do mundo, imagine se encarasse o nosso INSS. O personagem tem bom coração e faz o que pode para ajudar uma mãe solteira numa situação ainda pior que a dele. Mas minha empatia escasseou quando ele manifesta não só seu analfabetismo digital, mas sua resistência em aprender a clicar num mouse. Saí do cinema com a certeza de que, na vida real, esse velho turrão e ignorante teria votado a favor do Brexit.

11 comentários:

  1. Aquarius HAHAHAHAHHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHA
    Não faz o Lula que acha que ainda é alguém.

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  2. Seja ela pública ou estatal (a burocracia)? Acho que teve um errinho ai.

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    1. Teve. No seu comentário.

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    2. Ótimo. Aprendi que não existe burocracia na esfera privada. Aparentemente todas as vezes que eu esperei horas para ser atendido na Oi, Claro, NET, GVT etc foram alucinações!

      Veja só, a iniciativa privada é PERFEITA! Sem falhas quaisquer. Porque a gente não entrega tudo na mão do mercado e resolve todos os problemas do mundo?

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  3. Sinais de tempos de Trump, Dória, Crivella, Brexit, Temer, etc... Governos conservadores colocam jovens de lado. Jovem não apoia modelos antiquados. O show precisa continuar. Homens, velhos, brancos, heteros, machos, etc...

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  4. Tony, eu vi La La Land e ainda estou encantado. Li as suas críticas e acho que vc não entendeu o filme.
    Em nenhum momento o filme esconde que faz, na verdade, uma homenagem aos velhos filmes do gênero musical. Por isso pode parecer que não haja de novo, o que não é verdade. Isso fica claro nas cenas irônicas ao jeito kitch de Los Angeles e aos excessos de teatralização, cenografia, etc.. que o gênero musical costuma ter.
    A cena inicial é de dar vontade de sair dançando em cima da cadeira do cinema. A releitura contemporânea de uma cena clássica é o que faz ela fantástica.
    Como crítico de cinema, vc é um ótimo publicitário.

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    1. Pelo jeito você nem leu o post sobre o "La La Land" até o fim... e ainda fez seu comentário no post errado.

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    2. Na coluna do F5 você poderia ter feito um paralelo com O Artista que era um filme mudo e P&B e nem por isso ressuscitou filmes mudos em P&B.

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  5. E Isabelle Huppert perdeu o prêmio de melhor atriz tb.
    O que Cannes quis dizer ao mundo foi: "não venham pra cá pois tb temos problemas".

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  6. O mio babbino caro
    Velho Tony a questão não é o velho em si, é a abordagem, ou vou começar achar que você sofre de gerontofobia rs.

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