sábado, 23 de setembro de 2017

I THINK THERE'S SOMETHING YOU SHOULD KNOW

Uma surpresinha aguardava pelo público do desfile da coleção primavera-verão da Versace, ontem em Milão. Carla Bruni, Claudia Schiffer, Naomi Campbell, Cindy Crawford e Helena Christensen - cinco das lendárias supermodels dos anos 90 - baixaram do Olimpo à Terra e mostraram aos reles mortais que continuam sendo deusas. Cindy e Naomi, inclsuvie, participaram do icônico clipe de "Freedom '90" de George Michael, que serviu de trilha para a epifania. Até a aparição de Donatella Versace, com sua cara de quem escapou do Muppet Show, me fez lembrar dos bons velhos tempos em que o mundinho fashion importava bem mais do que hoje. Quem que aprendeu o nome de alguma modelo depois de Gisele Bündchen? Quem ainda sabe o que é tendência? Talvez seja mais uma culpa para a conta das redes sociais, que nos separaram em grupos ainda mais estanques do que antes. I don't belong to you and you don't belong to me.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A GUERRA CIVIL CARIOCA

Meu coração sangra pela minha cidade natal, que poucos anos atrás parecia ter tomado tento na vida. Hoje o Rio arde, com a população sitiada, o governo estadual falido e a prefeitura na mão de um fanático religioso que não entende picas da cidade. Tem um lado meu que grita "bem-feito": quem mandou eleger Brizola, Maia, Garotinho, Rosinha, Cabral, Pezão, Paes, Crivella? Os cariocas já tiveram a fama de serem os cidadãos mais politizados do país, mas é incrível como têm dedo podre para escolher seus governantes. Com um mínimo de civilização, o Rio de Janeiro seria forte candidato a melhor lugar do mundo, mas parece condenado ao caos e à violência. E não dá mais para negar, conterrâneos: essa culpa é toda nossa.

PIADA DE CASERNA

Nenhum governo civil brasileiro jamais peitou os militares. Haja vista que, ao contrário da Argentina, até hoje não levamos a julgamento os milicos culpados de crimes durante a ditadura, e aposto que jamais o faremos. Mas a reação de Temer, o Velho, à fala do general Hamilton Martins Mourão - que ameaçou dar um golpe de estado para eliminar a corrupção do país - bateu recordes de rabo entre as pernas. A razão é simples: o presidente ficou com medo de levar uma invertida daquelas, porque ele tem mesmo culpa no cartório. Nenhum ministro, aliás, dispôs de coragem - ou sequer moral - para lembrar que o regime militar (1964-1985), apesar do que acreditam hoje os asnos e os neofascistinhas, estava longe de ser um oásis de gente honesta e impoluta. Não é uma piada?

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

PREFIXO DE VERÃO

Sou a favor do horário de verão. Não interessa se o Brasil não precisa mais da economia dele: os dias mais longos servem para marcar um período do ano, já que não temos estações muito diferenciadas em boa parte do país. Além do mais, o horário de verão é divino à beira-mar. E sem ele, sentirei falta das pessoas que reclamam que a mísera mudança de uma hora desequilibra o delicado metabolismo delas. Aê, aê, aê...

MONOGLOTAS

Um chefe de estado precisa falar um idioma estrangeiro? Não, é claro: não é isto o que determina sua capacidade como governante, e sempre haverá algum tradutor à mão. Mesmo assim, muita gente se incomodou com a foto ao lado, que revelou que Temer, o Velho, era o único presidente latino-americano presente ao jantar com Trump que não domina o inglês. Eu mesmo achei esquisito e, numa discussão no Facebook entendi por quê. Temer faz pose de intelectual, usa palavras pomposas em seus discursos e revira as mãozinhas como se fosse um aristocrata pedante. Mas pelo jeito não teve tempo, em sua longa carreira, de fazer um Yázigi ou um CCAA; devia estar muito ocupado roubando legislando. O curioso é que, se alguém manifestasse desagrado se fosse Lula que estivesse na foto, imediatamente seria patrulhado por preconceito e insensibilidade. Só que o fato dele ser um "incurioso" - palavra que se aplica também a George W. Bush - é frequentemente confundida por aqui com falta de oportunidade. Enfim, nenhum presidente precisa falar um idioma estrangeiro. Mas eu gosto mais quando fala.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

DOUTOR, NÃO QUERO SER LOURA

Passei o dia procurando outro assunto, mas não deu. Tive que voltar à decisão do juiz do DF que liberou a "cura gay". Ou melhor, às pessoas bem-pensantes que AINDA veem algum mérito na questão. Ainda mais precisamente, ao artigo de Leandro Narloch publicado hoje na Folha online. Ele segue a mesma linha de raciocínio de vários amigos meus de direita: um adulto tem o direito de procurar um psicólogo se estiver insatisfeito com sua orientação sexual. Bom, um adulto tem o direito de procurar um psicólogo até se estiver insatisfeito com a cor loura dos cabelos - e a terapia para mudá-los para moreno vai dar tão certo quanto aquela para reprimir seu tesão pelo mesmo sexo. O que Narloch e os meus amigos não percebem, na ânsia de defender os direitos individuais, é que são cada vez mais raros os adultos que querem inverter a mão de seus desejos homossexuais (e nenhum psicólogo que se preza tem poder para tanto). As vítimas - sim, não há outra palavra - desse tipo de tratamento são crianças e adolescentes, enviados pelos próprios pais ignorantes. É só dar um googlada e se horrorizar com as histórias dos sobreviventes dessa agressão psíquica. Narloch e os meus amigos também ignoram que é Rozângela Justino quem está por trás dessa ação, a "psicóloga cristã" ligada à bancada evangélica e mais do que interessada em instaurar a indústria da "cura gay" no Brasil. Então, galera, mais uma vez: não dá para ser condescendente com esses sacripantas, nem puxar discursinho de simetria de direitos e adultos conscientes e blábláblá. Estamos falando de violência contra menores de idade. Tão ou mais grave do que a pedofilia que a hipocrisia neofascista enxerga por toda parte.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

TIC-TAC EM BÚLGARO


Surpresa: o filme escolhido pela Bulgária para representá-la no próximo Oscar já está em cartaz no Brasil. "Glory" vem acumulando prêmios desde meados do ano passado, e segue aquele estilo austero e sem música tão em voga no momento. Ou seja, eu não me deixei seduzir, apesar de achar a história interessante. Um funcionário ferroviário encontra uma bolada em dinheiro espalhada pelos trilhos; ele devolve a grana, e como prêmio ganha um relógio do Ministério dos Transportes. Só que, para receber o mimo, ele precisa tirar do pulso o relógio que ganhou do pai (da marca Glory, que dá nome ao filme), e não é que o troço desaparece? Para completar, o sujeito é gago, o que torna qualquer cena com ele uma agonia. Mas a crítica à burocracia é pertinente a muitas culturas, o que talvez explique o sucesso internacional dessa fábula búlgara. Queria ter gostado mais.

O CARRO VOADOR

Era uma vez um mecânico que prometia fazer os carros voarem. Bastava dar uma turbinada no motor e voilà, seu possante saía pelos ares. Não faltavam interessados: afinal, quem nunca sonhou em planar com um Chevette ou saltitar entre as nuvens a bordo de um Fusca? Não importava que os carros por turbinados por esse mecânico logo se espatifassem no chão. Tampouco importava que a mecânica de automóveis não previa em seus manuais nenhuma técnica miraculosa para fazer os carros voarem. "Quem quer que seu carro voe tem o direito de tentar", defendiam alguns, "esse mecânico só está oferecendo o que muitos querem, ninguém pode proibir".

É mais ou menos esta a linha de raciocínio de muita gente razoável, que não viu nada de mais no parecer do juiz do DF que liberou a "cura gay". Sim, amiguinhos, foi isto o que ele fez. O texto foi composto por palavras bonitas, dando a entender que os pacientes que buscam entender melhor sua orientação sexual poderão contar com o auxílio de psicólogos, mas basta conferir quem está por trás da ação que gerou a liminar. É Rozangela Alves Justino, que se orgulha de ter "curado" dezenas de homossexuais. Tudo o que ela e seus comparsas querem é o sinal verde da Justiça para instalar no Brasil a indústria do realinhamento sexual, que ainda viceja em alguns estados americanos e em vários países atrasados. E a clientela dessa corja não é formada por adultos conscientes, mas sim por menores de idade que não têm como escapar da sanha de suas próprias famílias.

Por isto, não dá para ser leniente numa hora dessas. É exatamente isto o que estes neofascistas querem: que pessoas razoáveis caiam em sua esparrela, e eles deem mais um passo rumo à criminalização da homossexualidade. Estou exagerando? Veja o que acontece nos lugares onde eles chegaram ao poder. Portanto, não se enganem. Um psicólogo que promete reverter a orientação sexual é tão absurdo quanto um mecânico que garante fazer um carro voar.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

BURRICE NÃO TEM CURA

A ditadura asinina avançou mais um passo hoje. Um juiz de Brasília concedeu liminar para que psicólogos "cristãos" ofereçam terapia de reversão sexual a seus pacientes, sem medo de serem repreendidos por seus pares. É um absurdo a Justiça determinar o que é ou deixa de ser ciência; se o CFP (Conselho Federal de Psicologia) diz que a homossexualidade não é doença, ninguém pode se proclamar um psicólogo apto a combatê-la. Que se digam curandeiros, feiticeiros ou até mesmo charlatães, que é o que de fato são. Esta liminar provavelmente será derrubada por uma instância superior, mas é mais um sinal inequívoco de que os asnos estão se sentindo empoderados e colocando as patinhas para fora. Quero parabenizar especialmente os leitores deste blog que apoiaram o fechamento da exposição "Queermuseu" em Porto Alegre. A serpente que vocês chocaram já está armando o bote contra todos nós. Existe remédio contra tanta burrice?

É NÓIS

Quem viu a entrega dos Emmys ontem à noite sabe que a premiação favoreceu os títulos mais abertamente políticos, como "The Handmaid's Tale" ou "Big Little Lies". Mesmo assim, um novelão conseguiu faturar alguns troféus. "This Is Us" levou melhor ator e melhor ator convidado, e teria ganho mais num ano mais tranquilinho. Era a única atração da TV aberta indicada a melhor série dramática, e já é um fenômeno de audiência. Enquanto nos EUA acaba de estrear a segunda temporada, a primeira chega aqui pelo Fox Life. Fui ver meio assim, pela obrigação, e já estou completamente viciado. A trama é bem improvável, centrada em trigêmeos que não podiam ser mais diferentes entre si (OK, um deles é adotado). Mas os relacionamentos e os problemas são todos críveis, e não há vilões. Só gente imperfeita, como qualquer um de nós. Por que as novelas brasileiras não conseguem ser tão boas assim? Bico: elas costumam ter mais de 140 capítulos, exibidos de segunda a sexta. "This Is Us" teve só 18 na primeira temporada. Assim é bem mais fácil manter a qualidade e evitar barrigas.

domingo, 17 de setembro de 2017

EMMYNÊNCIAS PARDAS


Hoje é a entrega do Emmy, que está em vias de ultrapassar o Oscar como o prêmio mais importante da indústria do entretenimento. Afinal, a TV atinge muito mais gente do que o cinema, e a qualidade dos programas vêm atraindo talentos que antes só brilhavam na telona.

A partir das 20h, quando começar a transmissão pela TNT, vou estar participando do live-blogging da Folha de S. Paulo, junto com vários jornalistas. Junte-se a nós! E, a nível de esquenta, aqui vão meus palpites para as principais categorias:

Melhor Série Dramática:
Better Call Saul
The Crown
The Handmaid’s Tale
House of Cards
Stranger Things
This Is Us
Westworld

Vai ganhar: "Westworld", por causa do lobby pesado da HBO. Só que o páreo é duríssimo. "This Is Us" é um novelão da melhor qualidade, "The Crown" é luxo só, e quem que não gosta de "Stranger Things"?

Mas eu daria para: "The Handmaid's Tale", que eu nem vi ainda. Mas as críticas são ótimas, e o momento político pede séries como esta.

Melhor Série Cômica
Atlanta
Black-ish
Master of None
Modern Family
Silicon Valley
Unbreakable Kimmy Schmidt

Vai ganhar: “Veep”. É, de fato, o programa mais engraçado e contundente da TV americana. “Atlanta” - da qual eu vi um episódio e não achei a menor graça - corre por fora.

Mas eu daria para: “Master of None”. É moderno, é emocionante, e tem momentos de rolar de rir no chão. O episódio “New York I Love You” é uma obra-prima.

Melhor Minissérie
Big Little Lies
Fargo
Feud: Bette and Joan
Genius
The Night Of

Vai ganhar: “Feud”, mas “Big Little Lies” está na cola.

Mas eu daria para: “Feud” mesmo, apesar de também ter adorado “BLL”.

Melhor Atriz em Série Dramática
Viola Davis, "How to Get Away With Murder'
Claire Foy,"The Crown"
Elisabeth Moss,"The Handmaid’s Tale"
Keri Russell,"The Americans"
Evan Rachel Wood,"Westworld"
Robin Wright,"House of Cards"

Vai ganhar: Elisabeth Moss, que foi indicada várias vezes por “Mad Men” e nunca ganhou. Mas Claire Foy também é uma possibilidade.

Mas eu daria para: Elisabeth Moss!

Melhor Ator em Série Dramática:

Sterling K. Brown, "This Is Us"
Anthony Hopkins,"Westworld"
Bob Odenkirk, "Better Call Saul"
Matthew Rhys, "The Americans"
Liev Schreiber, "Ray Donovan"
Kevin Spacey, "House of Cards"
Milo Ventimiglia, "This Is Us"

Vai ganhar: Sterling K. Brown, que é realmente ótimo. Ou Kevin Spacey - que NUNCA ganhou por Francis Underwood, acredita?

Mas eu daria para: Bob Odenkirk, que há muito tempo merece um prêmio pelo fabuloso Saul Goodman.

Melhor Atriz em Série Cômica
Pamela Adlon, "Better Things"
Jane Fonda,"Grace and Frankie"
Allison Janney,"Mom"
Ellie Kemper,"Unbreakable Kimmy Schmidt"
Julia Louis-Dreyfus,"Veep"
Tracee Ellis Ross,"Black-ish"
Lily Tomlin, "Grace and Frankie"

Vai ganhar: Julia Louis-Dreyfuss, que periga levar uma estatueta por cada uma das sete temporadas de “Veep” (esta foi a sexta).

Mas eu daria para: Não sei. Não gosto do mesmo ator ganhar todo ano pelo mesmo papel, mas qual dessas é melhor que Julia?< Melhor Ator em Série Cômica
Anthony Anderson,"Black-ish"
Aziz Ansari,"aster of None"
Zach Galifianakis,"Baskets"
Donald Glover,"Atlanta"
William H. Macy,"Shameless"
Jeffrey Tambor,"Transparent"

Vai ganhar: Jeffrey Tambor, pelo terceiro ano consecutivo e por um papel que está cada vez mais dramático.

Mas eu daria para: Aziz Ansari, um gênio.

Melhor Atriz em Minissérie ou Filme
Carrie Coon, "Fargo"
Felicity Huffman,"American Crime"
Nicole Kidman, "Big Little Lies"
Jessica Lange,"Feud: Bette and Joan"
Susan Sarandon,"Feud: Bette and Joan"
Reese Witherspoon,"Big Little Lies

Vai ganhar: Susan Sarandon? Este é o páreo mais duro da noite. Se embolar, pode vencer uma azarona.

Mas eu daria para: Susan ou Nicole Kidman, que fez seu melhor trabalho ever.

Melhor Ator em Minissérie ou Filme
Riz Ahmed, "The Night Of"
Benedict Cumberbatch,"Sherlock: The Lying Detective"
Robert DeNiro,"The Wizard of Lies"
Ewan McGregor,"Fargo"
Geoffrey Rush,"Genius"
John Turturro, "The Night Of"

Vai ganhar: Robert DeNiro, que nunca levou um Emmy para casa.

Mas eu daria para: DeNiro, que merece, ou John Turturro, sempre esquecido nas premiações.

Até daqui a pouco.

POR ISSO FORA! ESQUEÇA MEU ROSTO, MEU NOME, ESTA CASA E SIGA SEU RUMO


Em 1992, eu estava na plateia do SESC Pompeia, em SP, assistindo ao primeiro grande show da Banda Vexame. Lembro de detalhes como se tivesse sido ontem: Maralu Menezes ensinando a alongar a panturrilha ao subir uma escada, por exemplo, é uma imagem que irá me assombrar até o fim dos meus dias. Sem falar no vexame internalizado que eu senti ao perceber que sabia todas as letras do repertório reciclado por eles.


Anda estávamos no governo Collor, que marcou o momento em que o brega deixou de ser "música de empregada" e penetrou no mainstream da cultura brasileira. A primeira-dama Rosane adorava "Pensa em Mim"; e a morte recente do Chacrinha deu pátina de cult a hits como "Siga Seu Rumo" (originalmente da dupla argentina Pimpinella, regravado no Brasil por Jane & Herondy) ou "Massagem for Men", da Sharon - uma das muitas clones de Gretchen que ficaram pelo caminho. Todas elas seguem fazendo parte do setlist da Banda Vexame, que nunca deixou de existir. Maralu Menezes (Marisa Orth), Malcolm Éverson (Pazetto) e Ciro Campos (Marcelo Papin) volta e meia se reuniam ao longo desses longo 25 anos, para apresentações esporádicas. E neste final de semana estão de volta ao SESC Pompeia com o show "Visita Íntima", que se "passa" dentro de uma unidade prisional. Maralu agora usa tornozeleira eletrônica, o japonês da Federal toca saxofone e todos os membros da Vexame estão cumprindo pena por delitos diversos. Ainda mais atual foi a inclusão de dois novos números, "50 Reais" e "Deu Onda". Cantei junto, levantei os bracinhos, me senti em 92. Não esqueci rostos nem nomes, e seguimos todos no mesmo rumo.

sábado, 16 de setembro de 2017

A DITADURA ASININA

Que tempos são esses? A peça "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu", já encenada em São Paulo e Londrina, foi proibida ontem em Jundiaí, só porque é protagonizada por uma atriz transexual. Parece que a censura tem o dedo da TFP, que já achava blasfêmia JC aparecer de jeans e sem camisa no musical "Jesus Cristo Superstar" (como se ele não estivesse pelado na cruz). Esses asnos acreditam que a transexualidade é uma ofensa à ordem divina, quando é apenas ao patriarcado que apodrece na cabecinha deles. O mais chocante é um juizeco local tirar o espetáculo de cartaz assim, sem mais nem menos. A peça segue em turnê pelo estado de SP, com apresentações marcadas para hoje em Ribeirão Preto e amanhã em Santo André. Vejamos o que acontece: novas proibições, ou o público finalmente se rebelando contra a ditadura asinina?

Enquanto isso, a drag queen Tchaka avisa pelo Facebook que a polícia deu um jeito de proibir a 1a. Parada LGBT da Ilha do Mel, no Paraná, por causa do extintor de incêndio de uma pousada estar 20 cm mais alto do que deveria. E do Rio chega a notícia que os fanáticos seguidores do "pastor" Tupirani estão pichando a cidade com o slogan "Bíblia sim, Constituição não". O movimento ainda é pequeno, mas tão boçal quanto os energúmenos que defendem a "Terra Plana". Mas como combater o avanço das trevas? Se alguém os contradiz, os asnos zurram que estão tendo violado seu sagrado direito à livre expressão, ao mesmo tempo em que se dedicam a exterminar a liberdade alheia. Ih-óh, ih-óh, ih-óh.

Nem tudo está perdido. Também ontem, o show-surpresa da Pabllo Vittar no Rock in Rio foi um arraso. Ela é o fenômeno mais surpreendente da cultura brasileira em 2017, e sua legião de fãs emite um sinal claro: os asnos podem escoicear à vontade, mas não tomarão o poder assim tão fácil. Essa ditadura vai passar mal.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

LOURA GELADA


"Atômica" é exatamente o que eu esperaria de um filme dirigido por um ex-dublê: cheio de cenas alucinantes de ação, mas com personagens mais rasos que uma página de história em quadrinhos. Charlize Theron faz uma agente secreta britânica em missão em Berlim, logo antes da queda do Muro. Ela é tão cool e segura de si mesma que vai além da mera caricatura: é uma fantasia masculina, ainda mais pelo detalhe não desprezível de ser lésbica. Suas cenas com Sofia Boutella parecem desenhadas para excitar garotos de 14 anos, e sua frieza permanente não esquenta nem quando ela está ensanguentada depois de uma luta. O melhor mesmo é a trilha sonora dos anos 80, que inclui os três únicos hits em alemão que emplacaram no resto do mundo depois de "Lili Marleen" (alguém adivinha quais?). Mas é curioso que nenhuma das faixas seja do ano exato em que se passa o filme, 1989.

ATUALIZAÇÃO: Lembrei de um QUARTO hit em alemão dos anos 80, mas este não entrou na trilha de "Atômica". Pontos bônus para quem souber qual é.

A SERPENTE OPORTUNISTA

O fechamento prematuro da mostra "Queermuseu" gerou uma consequência daninha, porém mais do que esperada. Políticos alinhados com o conservadorismo (para não dizer obscurantismo) estão surfando na polêmica, para agradar seu eleitorado. Vereadores da bancada evangélica de São Paulo pediram ao MPF que investigue a exposição - que aconteceu em Porto Alegre, bem longe da comarca deles. E deputados do Mato Grosso do Sul registraram um B.O. contra a artista mineira Alessandra Cunha, autora do quadro "Pedofilia" - justamente por entender que obra incita à pedofilia. A tela, que foi apreendida pela polícia, fazia parte da exposição "Cadafalso", em cartaz no Marco (Museu de Arte Contemporânea) de Campo Grande, que trata exatamente da violência contra a mulher. É esta que você vê aí ao lado. Não acho exatamente bela (mas a arte não é só para decorar paredes, lembre-se!), mas me parece mais do que óbvio que a intenção é justamente DENUNCIAR a pedofilia, não defendê-la. Só que é fácil dizer que um quadro que mostra a silhueta de uma menina e a de um homem com o pênis exposto é criminosa. Ignora-se o contexto, o objetivo da pintora, o resto da exposição, etc. etc. O Brasil está sendo tomado de assalto por gente que se jacta de não ter estudado, e muitos gays de direita estão apoiando essa corja. Depois não reclamem quando a serpente que ajudaram a chocar vier envenená-los.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

KIM KATAQUEER

Já existe o tumblr Queer Kataguiri, e ele não para de crescer. Internê, je t'aime.

VAI TER CRIANÇA VIADA SIM

Este post é ilustrado pelas telas de Bia Leite que o MBL acusou de incitar a pedofilia. Como se pode perceber, são imagens de altíssimo teor erótico, capazes de intumescer o mais casto dos padres. Kim Kataguiri e sua turminha tinham toda a razão em pedir o boicote ao Banco Santander, esse safado, que tentou destroçar a tradicional família brasileira com a mostra "Queermuseu" em Porto Alegre. Aquele antro de vício e perdição já fechou. Ufa, que alívio.
Agora falando sério: as obras de Bia Leite foram inspiradas pelo Tumbl'r "Criança Viada", que causou furor em 2012 com fotos de usuários quando pequenos, enviadas por eles mesmos. Muitos, apesar de strike a pose, se tornaram héteros quando grandes. As legendas foram escritas pelo idealizador do site, Iran Giusti, e agora incitaram a ira do povo do bem. Mas essa cambada vai ter que engolir o "Criança Viada" original, que voltou ao ar e lá ficará até 8 de outubro, o dia em que terminaria a mostra em PoA. Vale a pena visitar e entender o contexto de onde surgiram esses quadros tão imorais. Aliás, também recomendo muito esta página do BuzzFeed, que explica a intenção por trás de 30 obras que estavam expostas na "Queermuseu". Programa obrigatório para os asnos que vieram zurrar nos comentários do meu blog. O bom desse reboliço todo é que já tem outras capitais interessadas em receber a mostra, que se tornou conhecida em todo o Brasil.

ATUALIZAÇÃO: Vejam só a que ponto chegamos. O Tumblr TIROU DO AR a página "Criança Viada", depois que asnos a denunciaram por veicular pedofilia. Acontece que o conteúdo é o mesmo que fez a "CV" bombar em 2012: fotos de internautas em poses engraçadas quando crianças, enviadas por eles mesmos. Não há nudez nem a menor conotação sexual. Iran Giusti já avisou que vai migrar para outra plataforma. Mas, antes disso, esperamos que o Tumblr se redima.

REATUALIZAÇÃO: O Tumblr se redimiu! A "Criança Viada" voltou! A vida é bela!

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

SERVIÇO RUIM


Tentei ler "O Jantar" em 2013, mas larguei no meio. O livro de Herman Koch foi um best-seller internacional, mas a história dos dois irmãos que se reúnem, com as respectivas mulheres, para discutir o que fazer com os filhos adolescentes que cometeram um crime simplesmente não me pegou. Achei que o filme seria melhor - afinal, qualquer coisa com Laura Linney já sai com vantagem para mim. Qual o quê: trata-se de uma das grandes bombas do ano, apesar da qualidade do elenco e da produção. Mas o roteiro é para lá de confuso, e me fez lembrar aquele tipo de restaurante que teria tudo para ser sensacional mas peca no serviço ruim. O lugar é lindo, a comida é boa, os preços, razoáveis, mas o garçom demora muito para aparecer, traz os pratos errados e ainda rouba na conta. Evite essa espelunca.

ANARRIÊ

A revelação de que existe mesmo o tal do "quadrilhão", encabeçado pelo presidente da república, não é supresa para ninguém. Mas não deixa de ser estarrecedor saber que o Brasil está sendo governado por esses criminosos - aliás, há muito tempo, pois eles não largam o osso desde a ditadura militar. A diferença agora é que não são aliados do presidente eleito: são o próprio núcleo do poder. E a ironia é que os membros dessa cúpula que não têm foro privilegiado estão todos na cadeia: Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima, Henrique Alves. Mas Michel Temer, Moreira Franco e Eliseu Padilha continuam à solta, sangrando os cofres da nação e se fingindo de indispensáveis para a retomada do crescimento econômico. São, antes sim, um entrave à ela. Mas esperar o quê desse Congresso, que é facilmente comprável? E de alguns ministros do Supremo, que são cúmplices da bandidagem? E do mercado, que só se importa com a alta da Bolsa? E dos próprios eleitores, mais preocupados com "fake news" sobre uma exposição de arte do que com a honestidade dos governantes? Anarriê, Brasil!

terça-feira, 12 de setembro de 2017

FAKE NEWS AO VIVO

Claro que não é só a esquerda que é adepta das notícias falsas. Um dos filhos do Boçalnaro - aquele que acha que uma reles frente fria "prova" que o aquecimento global não existe - tuitou essa estupidez aí em cima. Não sei se ele acredita nisto ou se age mesmo de má fé. Mas dele não se esperava outra coisa, né não? Apavorante mesmo é ver gente como a apresentadora Luisa Mell, supostamente bem-educada, defendendo que a mostra Queermuseu tinha obras "de mau gosto" e portanto merecia ser fechada. E o que tem de cretinos dizendo que a arte "é para representar o belo"? Para começar, seu Santander, arte não é propaganda, porque a propaganda não pode correr o risco de não ser entendida. Eu até concordo que o curador Gaudêncio Fidelis foi no mínimo ingênuo ao não colocar avisos e separar as obras mais suscetíveis de má interpretação em salas separadas, como se faz em muitos museus da Europa. Mas defender o cancelamento da exposição é fascismo em estado puro. Pelo menos os ignorantes à nossa volta estão se revelando como de fato são; pelo menos a reação dos mais lúcidos tem sido admirável. Nem tudo está perdido. Ainda não.

FAKE NEWS A JATO

No sábado, dia 9, o site Brasil247 publicou a chamada aí ao lado, que conduz a esta matéria aqui. Em tom triunfalista, o suposto fracasso de "Polícia Federal: a Lei É para Todos" é comemorado com fanfarra, baseado num relato que dizia que a média por sala em Curitiba era de 60 pessoas por sessão. Este não é um número baixo, mas para quê checar com o FilmeB ou alguém que entenda do mercado cinematográfico? O que importa é mostrar que o povo não comprou a farsa e continua apoiando Lula. Consta que o DCM postou uma nota semelhante, mas, se o fez, já a tirou do ar - vasculhei o site e só encontrei umas trocentas matérias negativas contra o filme, mas nada sobre sua bilheteria. O fato é que "Polícia Federal" já pode ser considerado um sucesso. Fez 470 mil espectadores em seus primeiros quatro dias em cartaz, cerca de 10 mil a menos do que esperavam seus produtores (o que não é nenhuma tragédia). Além disso, já duas pessoas vieram me contar que o filme foi aplaudido no finalzinho, quando surge uma cena falando da mala do Temer. Vamos ver como a renda se comporta nas próximas semanas: o perfil de público desse longa é mais velho, e não corre para vê-lo assim que estreia, portanto a tendência é crescer bastante. De qualquer forma, aposto que terá mais do que os 800 mil espectadores de "Lula, o Filho do Brasil" (2010). Talvez o PT devesse ter imitado a IURD e comprado ingressos para seu 1,3 milhão de filiados naquela época?

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O FLECHADOR-GERAL DA REPÚBLICA

Fui procurar uma foto de Rodrigo Janot para ilustrar este post e me dei conta de que ele está muito mais magro do que costumava ser. Pudera: se o cargo de Procurador-Geral da República já é um rojão, os últimos meses foram um massacre. Janot termina seu segundo mandato sob um coro de vaias, depois de ter sido enganado por um assessor e exagerado nas indulgências aos irmão Batista. Pelo menos ele está tendo a oportunidade de corrigir a cagada, e seis ministros do STF já disseram que as provas acumuladas até agora continuam valendo - inclusive o vídeo de Rocha Loures flanando pela rua com uma mala de dinheiro para Temer, o Velho. Mas, independentemente disso, quero deixar aqui o meu elogio ao futuro ex-procurador. Se Janot errou, foi porque vislumbrou em Joesley a chance de livrar o Brasil da pior de suas pragas: a cúpula do PMDB, que vampiriza o país há décadas e está aferrada ao poder, seja de que governo for. Foi jacobino, justiceiro, radical? Foi, mas algumas de suas flechadas atingiram-lhe o próprio pé. Agora, fora da PGR, ele vai viver um inferno de processos disparados por seus desafetos, à direita e à esquerda. Mas tomara que a história lhe faça justiça, e que Raquel Dodge continue a seu trabalho.

QUEER AS FUCK

Não se enganem: os dois grandes derrotados desse imbroglio do cancelamento da exposição Queermuseu em Porto Alegre são o Santander e o MBL. O banco simplesmente provou que seu mecenato à cultura não é para valer. Só está interessado no próprio marketing, o que não é surpresa nenhuma. Bancos não são "do bem". Por trás da propaganda moderninha e dos gerentes sorridentes, eles só querem depenar o seu dinheiro. Dito isto, é impressionante que uma instituição como o Santander - que na Espanha patrocina o Museu do Prado - enfie o rabo entre as pernas por causa de uma polêmica que já era esperada. O banco sai diminuído do episódio, e com sua imagem bastante arranhada.

Quem sai enlameado é o Movimento Brasil Livre, que assim termina o strip-tease de suas nobres intenções e se revela em toda sua feiúra. O "livre" de seu nome também não é para valer: o que por um instante pareceu uma novidade modernizante na política brasileira é só mais um arcaísmo requentado. Os caras acusaram o golpe e estão tentando se justificar em sua página no Facebook, mas já era. O MBL é SIM um movimento retrógrado, reacionário, careta e liberticida. Mas os censores vão se foder, e no mau sentido. Vai acontecer justo o contrário do que eles querem: tempos sombrios como os atuais geram arte transgressora.

domingo, 10 de setembro de 2017

A TRANSIÇÃO CHILENA


O Chile é um lugar curioso. A ditadura militar deles matou muito mais gente, proporcionalmente à população do país, do que a nossa. A influência da Igreja Católica é ainda maior do que no resto da América Latina, e o divórcio só foi aprovado por lá em 2004. Mesmo assim, o governo Pinochet nunca reprimiu os homossexuais - consta até que tinha ministros gays, porém "discretos e fora do meio". Essa hipocrisia é o pano de fundo de "Uma Mulher Fantástica", o provável indicado chileno para o próximo Oscar de filme em língua estrangeira. Marina é uma mulher trans que já vive com um homem muito mais velho do que ela há pelo menos um ano. Quando o sujeito morre de repente, a família dele até que não a expulsa imediatamente do apartamento onde viviam, mas tampouco a recebe de braços abertos. Ela é tratada o tempo todo como uma aberração, ainda que, na maioria das vezes, um véu de respeito disfarce o preconceito. Mesmo assim, Marina não se submete - a meu ver, ela até torna as coisas mais difíceis para si mesma. Mas é a interpretação de Daniela Vega (que é trans na vida real) realmente é digna de prêmios. Ela transmite a força da personagem, que fala pouco, só com o olhar. Sem a pieguice da "superação", "Uma Mulher Fantástica" mostra que uma boa parte do Chile está no século 21.

sábado, 9 de setembro de 2017

A FAGULHA DURADOURA


Faz 43 anos que eu sou fã do Sparks. Nenhuma outra banda me consumiu tanto amor por tanto tempo - nem mesmo o Queen, meu favorito de todos os tempos, a quem eu fui conhecer só alguns meses depois dos irmãos Mael entrarem no meu coração. Hoje eles são oficialmente idosos. Ron está com 72 anos, Russell com 69. Mas ninguém diria isso ao ouvir "Hippopotamus", o 25o. álbum da dupla. Não se trata de um disco temático: não é todo eletrônico (como o inovador "No. 1 in Heaven", de 1979), não é orquestral (como "Lil' Beethoven", de 2002), não é uma colaboração com outra banda (como "FFS", gravado com o Franz Ferdinand em 2015). É, na verdade, Sparks em estado puro. Ron e Russell cometendo pérolas pop com as letras mais irônicas do mundo e melodias complicadas, porém estranhamente grudentas. O mais incrível é que, depois de quase meio século de carreira, o Sparks segue atual. Não tem nem mesmo aquele ranço dos Rolling Stones, que fazem o mesmo rock'n'roll desde sempre. O Sparks soa moderno, contemporâneo, até mesmo avançado para os dias que correm. Talvez porque não seja um estouro de vendagem. Não sofre pressão de gravadoras para se repetir nem fica preso a uma fórmula que deu certo. Mas os títulos absurdos de canções são uma constante: em "Hippopotamus" tem até uma chamada "Tell Me Mrs. Lincoln Aside from That How Was the Play". É reconfortante ter uma banda contribuindo para a trilha sonora da minha vida desde que eu tinha 13 anos.

IRMA E SEUS IRMÃOS

“Como os senhores já estão cientes, nosso prédio está sob ordens de evacuação obrigatória a partir das 7 horas da manhã desta quinta-feira. Se os senhores decidirem permanecer no prédio, será por sua conta e risco. Especificamente, devido à nossa proximidade a um canteiro de obras, fomos aconselhados a evacuar o prédio por razões de segurança. (...) Aconselhamos com veemência a todos para que sigam as ordens do prefeito e procurem abrigo em outro lugar. (...) A partir das 7 horas da manhã de sexta-feira, o prédio estará totalmente fechado. Ninguém poderá entrar ou sair. (...) Dois dos quatro elevadores serão desligados. Se faltar luz, o gerador os manterá em funcionamento. Mesmo assim, se o senhor não tem a capacidade física para descer escadas no caso de uma emergência, aconselhamos que deixe o prédio até as 7 horas da manhã de sexta. (...) Quem ficar no prédio deverá ir para as escadas de serviço durante a passagem do furacão. Se uma janela ou uma porta de vidro se quebrar em seu apartamento, o senhor deverá deixá-lo imediatamente, trancá-lo e procurar abrigo nas escadas. Para sua própria segurança e dos demais, não deixe para o último minuto para remover mobília, vasos e plantas de perto das janelas, pois eles podem se transformar em projéteis. Também tirem todos os objetos que estiverem nos terraços. (...) Mais uma vez, aconselhamos a todos com veemência para seguir as ordens do prefeito e procurar abrigo em outro lugar”.

Estes são apenas alguns trechos do apavorante e-mail de três páginas que uma amiga que mora em Miami recebeu da síndica de seu prédio. Ela seguiu as recomendações à risca e se mandou para o aeroporto, onde enfrentou algumas horas de tumulto até conseguir um voo a preços razoáveis para bem longe dali.

O pior é que não é só o furacão Irma, já considerado um dos piores de todos os tempos. Também já estão em plena fúria seus seguintes na ordem alfabética, José e Katia. E isto apenas uma semana depois da devastação causada pelo Harvey no Texas e na Louisianna. Sim, é época de furacões no Caribe e no Golfo de México. Não, quatro deles praticamente ao mesmo tempo não é normal.

Ou talvez seja o novo normal. Eventos meteorológicos extremos estão se tornando cada vez mais comuns. Enquanto o Harvey atacava os Estados Unidos, tempestades e inundações assolavam Mumbai, na Índia, com um número muito maior de mortos. Uma semana antes, um tufão (que é a mesma coisa que um furacão, só que com nome oriental) quase destruiu Macau, na China.

Tudo isto tem nome, meus amores. Mas é um nome infeliz: “aquecimento global”, o que dá a entender que todas as temperaturas de todos os lugares estariam subindo. O mais correto seria dizer “alterações climáticas causadas pela atividade humana” ou coisa que o valha. Porque basta surgir uma frente fria no inverno para que um filho do Boçalnaro solte um tuíte questionando o tal do aquecimento.

Mais de 90% dos cientistas concordam que o clima da Terra está mudando, e por causa do homem. As evidências são avassaladoras: do descongelamento de geleiras e icebergs a fenômenos aparecendo onde não deveriam (como no sul do Brasil, onde se tornaram frequentes tornados e vendavais).

Mesmo assim, boa parte da direita se recusa a encarar a realidade. É curioso: os direitistas adoram posar de racionais, acusando a esquerda de acreditar em contos da carochinha como a bondade humana e a justiça social. Mas não consegue admitir que estão acontecendo mais e mais fortes furacões, porque o capital que a financia prefere negar tudo para continuar poluindo o planeta.

Vai precisar cair um andaime na cabeça dessa gente, arrancado por Irma e seus irmãos?

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

OPERAÇÃO LEVA-JEITO


Gostei mais do que esperava do filme da Lava-Jato, também conhecido por "Polícia Federal: a Lei É para Todos". O ritmo incessante, as boas atuações e o ponto de vista claro me fizeram achar que essa franquia (estão previstas continuações) leva jeito. Sim, ponto de vista: cinema não é jornalismo. Não precisa ser imparcial e nem ouvir o outro lado. "Polícia Federal" é assumidamente a favor da, aham, Polícia Federal, assim como "Lula, o Filho do Brasil" era assumidamente a favor de Lula. Como eu também apoio a Lava-Jato, não me senti ultrajado em nenhum momento. Claro que as coisas não se passaram exatamente assim: dramatizar a realidade sempre implica em elipses, simplificações e omissões. Algumas escolhas do roteiro são questionáveis, como todos os acusados manterem seus nomes verdadeiros e todos os policiais ganharem nomes fictícios. Mas o filme funciona como entretenimento, e ainda avisa - para quem ficar até o fim dos créditos - que a segunda parte irá para cima do Temer e do PMDB. Já quero ver.

NUNCA FUI SANTA

Os rohingya são uma minoria do noroeste de Myanmar, étnica e culturalmente parecidos com os bengali da vizinha Bangladesh. Por serem muçulmanos num país budista, perderam o direito à cidadania na época da ditadura militar - e com ele o acesso a qualquer serviço público, como educação e saúde. Claro que uma opressão desse tamanho iria gerar uma reação. Grupos armados rohingya volta e meia entram em choque com o exército de Myanmar, que desde o final de agosto parece ter optado por uma solução radical: expulsar toda a minoria do país, e matar quem ficar para trás. É a má e velha limpeza étnica. O mais chocante é que Myanmar não é mais uma ditadura: sua governante de facto é Aung San Suu Kyi, que permaneceu presa por décadas, ganhou o Nobel da Paz em 1991 e até inspirou uma música do U2. A chamada "Orquídea de Aço" não está fazendo nada para impedir o massacre dos rohingya, e rebatendo as críticas como "fake news" espalhadas por "terroristas". Ou seja, não é a santa que gostaríamos que fosse. Isso é que dá quando a gente idealiza um político: mais ou cedo ou mais tarde, a máscara cai. Que triste passar por uma desilusão dessas. Já pensou se acontece no Brasil?

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O NINHO APERTADO

Depois das denúnfias do Palófi, ficou ainda menos provável que Lula consiga concorrer em 2018. Estou achando que o PT irá apoiar Ciro Gomes ou (o que seria mais inteligente, a meu ver) lançar Haddad candidato, para torná-lo mais conhecido - e competitivo em 2022. Menos possível ainda é a gangue de Temer, o Velho, apoiar ostensivamente quem quer que seja, especialmente depois da PF descobrir 51 milhões no cafofo do Geddel. O que mais me intriga, neste momento, é o que João Doria possa fazer. O prefeito de São Paulo vem recebendo convites para se filiar ao DEM ou ao PSB, já que o ninho tucano ficou apertado e o candidato do partido  deve mesmo ser o Alckmin, que controla boa parte do PSDB. E aí, sabe o que acontece? Todo esse centrão gelatinoso, esse baixo clero de Fufucas, irá correndo apoiar o coxinha-mor. Para que tudo continue como dantes no quartel de Abrantes, só que com um marqueteiro inconsistente no comando. E o pior é que teremos que votar nele, se seu rival do segundo turno for mesmo o Bolsonazi.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

BYE BYE FREE BOY

Primeiro o sujeito grava a si mesmo sem perceber. Depois entrega a gravação para a Polícia Federal, no último minuto do último dia do prazo - um feito que já entrou para o rol das Grandes Cagadas da Nossa História. Pois é, já se sabia que Joesley Batista era ignorante ("nós vai"), mas quem imaginava que ele também fosse tão burro? Já pensou nas broncas que o Safadão está levando de seus advogados? E da Tici, hahaha? Pelo menos agora a PGR pode corrigir a estupidez de ter dado imunidade a esse gângster confesso. Mas o maior problema continua: esse bafafá todo não ter adiantado para derrubar os gângsters que continuam no poder em Brasília.

O CREPÚSCULO DO CAZZO


Na Multitela de hoje, eu dediquei apenas 200 toques ao documentário que acompanha o último ano da carreira de Rocco Siffredi. Aqui posso me estender mais um pouco. "Rocco", disponível na Netflix, é um filme quase triste. Mostra o ator pornô - um dos mais prolíficos e populares de todos os tempos - se perguntando porque precisa transar com meninas que poderiam ser suas filhas, e até chorando em frente às câmeras. Seu lendário pau duro é captado de relance aqui e ali, mas quem estiver a fim de sacanagem tem outras opções melhores. Também é algo deprimente ver mulheres não muito bonitas se submetendo a tabefes e outras humilhações (OK, elas são adultas e estão lá por livre e espontânea vontade, e algumas parecem se divertir de verdade). O fato de Rocco ter sido o primeiro galã internacional do "cinema adulto" é ignorado pelos diretores; até então, eram mais comuns monstrengos como Ron Jeremy, pelo menos nas produções americanas. O belo italiano elevou o padrão e ainda penetrou - ai - no mainstream, participando de alguns filmes de arte (embora sempre em cenas de sexo explícito). Pena que, ao longo de mais de 30 anos em atividade, ele jamais tenha protagonizado uma mísera cena gay.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

O RESPONDÃO

Não é nenhuma novidade que muita gente só lê os títulos das matérias e já sai espinafrando o autor nas redes sociais. Aconteceu comigo algumas vezes, como quando eu publiquei no F5 uma coluna chamada "Valeu a pena Bruna Linzmeyer se expor tanto?". Fui atacado no Twitter pela minha evidente homofobia, apesar do texto concluir que sim, tinha valido a pena. Aí, alguns que tinham reclamado antes de ler continuaram reclamando depois: "ãin, mas você usou um título dúbio, não ficava claro, mimimi". Sim, seus trouxas: eu não escrevo para quem só lê título, eu escrevo para quem lê um texto inteiro e sabe interpretá-lo. Hoje aconteceu algo parecido, por causa da coluna "Mulheres respondonas: a nova onda do showbiz brasileiro". Um perfil do Twitter chamado @esquerdavalente disse que eu entrei "para o rol dos colunistas que insistem em esatr no século passado". De valente eles não têm nada: perguntei se tinham lido o texto, e ninguém me respondeu até agora. Mas vários de seus seguidores retuitaram a bobagem, e outros me xingaram. Enquanto isto, o Quebrando o Tabu - uma página do Facebook que eu admiro e sigo há anos - postou a chamada da coluna no UOL com uma postagem de uma internauta sobreposta, do tipo "vai ter respondona sim!". Eles não me citavam nem me criticavam, mas meu nome aparecia na foto. Adivinha o que aconteceu? Um monte de gente lacradora encheu a postagem de impropérios a meu respeito, SEM JAMAIS TER LIDO a coluna. Que era totalmente feminista e a favor das "respondonas"! Entrei em contato com o Quebrando o Tabu e eles tiraram o post do ar. Ficaram de postar a íntegra do meu texto, mas até agora... (grilos) Moral da história: não vou pedir desculpas por ter usado "respondonas" no título. Admito que, "enquanto" homem, eu não sabia que o termo é considerado ofensivo para algumas mulheres, que foram educadas a não responder jamais. Mas quem critica texto sem lê-lo, só pelo título, não merece perdão. E vai ter respondão sim!

ELA ERA TODAS AS MULHERES

Tive a honra de trabalhar com Rogéria apenas uma vez, em 2000, quando eu era roteirista da série "Ô, Coitado", no SBT. O texto não havia sido escrito especialmente para ela: estava recheado de expressões do pajubá paulistano, que a parisiense Rogéria desconhecia. Sentei ao lado dela e expliquei o que queria dizer "aquendar" - já imaginou a situação? Eu, um reles mortal, ensinando gíria de bicha para a Rainha da Bicharada? Mas Rogéria era, antes de mais nada, uma profissional. Decorou tudinho e depois deu as falas como se tivesse crescido na São João com a Ipiranga. Tempos mais tarde, nos cruzamos no Projac. Eu a cumprimentei, e ela respondeu como se lembrasse exatamente quem eu era, depois de mais de uma década. Ou seja: uma estrela de verdade, que tratava bem seus colegas e seu público. Brilhava o tempo todo, dentro e fora de cena.

Mas não só isso. Rogéria foi uma desbravadora, que pavimentou o caminho para que hoje Pabllo Vittar lidere o hit parade. Ela e suas colegas de geração - Divina Valéria, Eloína dos Leopardos, Jane Di Castro - foram os primeiros travestis a penetrar no mainstream da cultura brasileira (aliás, com elas nunca teve esse papo de "a" travesti. Rogéria, inclusive, reiterava o tempo todo que era homem).

Rogéria não era trans, mas transcendia. Era um poço de carisma e talento: uma atriz de enormes recursos, uma presença luminosa, uma stand-up comic de fazer a plateia se mijar nas calças. Seu pocket show com Agildo Ribeiro foi uma aula de humor. Suas participações em novelas, inesquecíveis. Quis o destino que ela se fosse pouco antes de reaparecer em "Tieta", que está sendo reprisada pelo canal Viva. Mas não morreu esquecida, muito graças ao documentário "Divinas Divas". Agora está no céu, repassando a coreografia do sucesso que roubou de Dalida: Je suis toutes les femmes... Dupla, deusa, única, muitas, Rogéria era tuuudo.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

HITCHCOCK DOS VENTOS UIVANTES


Mocinhas espevitadas do século 19 são recorrentes no cinema britânico, que já adaptou várias vezes todos os livros de Jane Austen. Mas "Lady Macbeth" vai além. O filme - que não é baseado na peça de Shakespeare, mas sim num romance russo - conta com uma protagonista implacável, que se esconde atrás de um rostinho angelical (a novata Florence Pugh, impressionante). Tem, sim, um certo parentesco com "O Amante de Lady Chatterley", mas não é romântico nem  libertário. Na verdade, chega a assustar: suas cenas fortes são realçadas pela ausência de música, que só surge nos créditos finais. O elenco é "color blind", com atores negros e mulatos fazendo papéis que seriam de brancos na vida real. Isto causa uma certa confusão no espectador desavisado, além do mais porque uma serviçal é tratada feito escrava - um eco da antiga Rússia, onde existia a servidão. Mesmo assim, curto e seco, "Lady Macbeth" é de arrepiar. Como disse um crítico americano, parece "O Morro dos Ventos Uivantes" dirigido por Alfred Hitchcock.

LET'S TALK ABOUT "THE TALK"

Já comentei aqui no blog: tive o azar de trabalhar com a P&G numa época em que a empresa ainda era caretérrima e só fazia comerciais com demo de produto. Hoje ela assina ousadas campanhas institucionais contra a homofobia, e acaba de lançar nos EUA este filme sobre o racismo. O foco é "the talk": a conversa que toda mãe negra tem que ter com seus filhos, preparando-os para um mundo onde eles frequentemente serão vistos como inferiores. Desnecessário dizer que, na polarizadíssima América de Trump, este anúncio cheio de boas intenções já está causando polêmica. Tem gente reclamando que ele pinta todos os brancos como preconceituosos; tem gente se queixando de que não aparece nenhum pai, só mães (embora sejam elas que, em geral, comprem os artigos de limpeza e higiene pessoal da companhia...). Mas eu achei a iniciativa do caralho, que precisa ser reproduzida neste oásis racial (**contém ironia**) em que vivemos.

domingo, 3 de setembro de 2017

NO ESCURINHO DA ORQUESTRA


Ia fazer um textão sobre o aquecimento global. Ficou para amanhã. Prefiro falar do novo disco de uma banda remanescente da "british invasion" dos anos 80: a dupla Orchestral Manoeuvres in the Dark, de nome tão pouco prático que quase só usa a sigla OMD. Aliás, nem vou falar muito de "The Punishment of Luxury".  Lembra Pet Shop Boys com Kraftwerk, sem ser tão bom quanto nenhum dos dois. Mas o clipe de "Isotype" é uma viagem. Bom proveito.

LÀ COME QUA


Salvatore Ficarra e Valentino Picone são os equivalentes italianos de Leandro Hassum e Marcius Melhem: uma dupla de comediantes que começou na TV e depois se aventurou pelo cinema, sempre com enorme sucesso. Só que,  ao contrário dos nossos conterrâneos, eles continuam trabalhando juntos. A última façanha da dupla é o filme "L' Ora Legale", a maior bilheteria na Itália deste ano, que está passando no Festival do Cinema Italiano e deve entrar em cartaz no Brasil com o nome de "É a Lei!". Na boa: se eu fosse produtor, estaria comprando os direitos para um remake nacional. Porque a história, apesar de profundamente italiana, também poderia se passar por aqui. Cata só: uma cidadezinha é governada há anos por um prefeito corrupto, que não recolhe o lixo e cria obras faraônicas e inúteis. Cansados dele, os cidadãos elegem um professor honestíssimo, que resolve aplicar as leis e cobrar todos os impostos. Resultado... em pouco tempo está todo mundo contra o cara, que fechou os negócios ilegais e multou os carros parados em local proibido. Ficarra e Picone fazem dois primos do novo prefeito; o primeiro é o mais histriônico, o outro serve de escada. Juntos eles fizeram essa comédia ácida que tem umas barriguinhas (o final, perfeito, demora um pouco), mas revela a índole de um país muito parecido com o Brasil.

sábado, 2 de setembro de 2017

ESSA PORRA TODA

Temos uma nova figura no nosso imaginário popular: o Ejaculador da Paulista, que voltou a atacar na mesmíssima avenida onde foi preso em flagrante há menos de uma semana. Dá até para desconfiar que ele discordou do juiz que o soltou, tão disposto estava a provar que a decisão fora errada. Agora ficou óbvio que ele não pode continuar circulando por aí. Tem que ser preso ou - mais provavelmente - internado. Essa porra toda pelo menos serviu para alguma coisa: mostrou como as nossas leis sobre estupro e assédio sexual ainda são imperfeitas, dando margem a interpretações díspares. Elas precisam ser reescritas com precisão e clareza, e por mulheres. Existe, sim, violência simbólica em exibir um pau num ônibus, mesmo que ninguém saia machucado (ou melecado). O debate precisa ser aprofundado, até porque não é só a legislação  que precisa mudar. É a cultura toda. Ah, e vamos parar de usar aquelas comparações tipo "imagina se fosse com sua filha"? Uma mulher não precisa ser parente nossa para merecer respeito.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

GOZANDO DA NOSSA CARA

Esse episódio pavoroso do sujeito que foi preso depois de ejacular em cima de uma moça num ônibus e solto logo em seguida confirmou uma tese que vem brotando na minha cabeça há algum tempo. Existe um Brasil arcaico, machista e patrimonialista, que ainda detém a maior parte das rédeas do estado. Fazem parte dele: Temer, o Velho, que acaba com uma reserva mineral na Amazônia do dia para a noite; Gilmar Mendes, que distribui habeas corpus entre os amigos que lhe mandam flores; e o juiz José Eugênio do Amaral Souza Neto, que achou que por o pau para fora dentro de um busão lotado e gozar em cima de uma passageira não constrange ninguém. Só que essa turma parou no tempo. Não sabe que existe internet, não conhece as redes sociais, acha que pode fazer o que sempre fez e tudo bem. Aí, dá-lhe anular decreto e reclamar de estarem sendo perseguidos. Estão mesmo, e os internautas realmente exageram quando clamam que alguém estupre o juiz. Mas o exagero faz parte do jogo: prefiro mil vezes esse tipo de desabafo, que na maioria das vezes não passa disso, do que as "vozes da razão" que, na verdade, pregam o silêncio conformista. O Brasil arcaico goza da nossa cara, passa a mão na nossa bunda e acha que não somos de nada. Precisamos mostrar a ele que o mundo mudou, e não só virtualmente.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A FILHA DA NOIVA


Maria Ribeiro tem razão ao dizer que "Como Nossos Pais" parece filme argentino. É uma história urbana sobre relações pessoais, passada dentro de casas e apartamentos de classe média, com diálogos precisos e tiradas de humor. A crise da protagonista me lembrou a do personagem de Ricardo Darín em "O Filho da Noiva". Aqui ela  tem como gatilho uma revelação súbita logo no comecinho (não é spoiler, está até no trailer), mas as causas profundas são como na obra do Campanella: é a vida, é a vida e é bonita. Ou não, porque problema é o que não falta, e para todos os lados. Com o marido sonhador, o pai mais fora de órbita ainda (Jorge Mautner, uma revelação), as filhinhas pentelhinhas, a já citada mãe que resolveu chutar tudo para o alto (Clarisse Abujamra, excelente), o trabalho frustrante, a libido represada... Sim, nossa heroína tinha tudo para ser uma chata. Mas não é - só um pouquinho - graças à atuação cheia de nuances de Maria Ribeiro, que está de fato fenomenal. Será este o melhor filme brasileiro do ano?

A HORA DA ESTRELA

Está mais do que na hora de Totia Meireles ser aclamada como a grande artista que é. Relegada a papéis coadjuvantes na TV, ela sempre arrasa no teatro musical. E arrasou também em seu primeiro show solo, "Meu Nome é Totia", apresentado ontem em SP. Totia estava nervosa: a voz derrapou nos primeiros números, e ela ainda se esqueceu de algumas letras em cena aberta. Mas compensou com simpatia, carisma e um repertório que misturava temas dos espetáculos de que participou com clássicos da MPB. Agora quero ver Totia protagonizando uma novela.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

NO CONFORTO DO SEU LAR


Escrever a coluna Multitela tem me feito ver ainda mais TV do que antes, porque eu preciso saber o mínimo a respeito do que estou falando. Principalmente dos filmes disponíveis nos serviços on-demand, que estreiam em enxurrada toda semana. Alguns eu vi no cinema, mas outros são inéditos e/ou exclusivos das plataformas. É o caso de "Onde Está Segunda?", um bom thriller de ficção-científica. Em geral não curto o gênero, mas sou obrigado por contrato a ver qualquer coisa onde apareça minha ídala Glenn Close. Aqui ela aparece pouco, e novamente como a vilã. Quem dá um show é a sueca Noomi Rapace, fazendo sete irmãs gêmeas que cresceram em segredo numa sociedade totalitária que só permite filhos únicos. Juntas, as sete parecem as fases da carreira da Cher. Muita porrada e efeito especial nesta produção europeia, que por aqui só chegou ao streaming.

"A Rainha da Espanha" também foi direto para o VoD. Pudera: essa superprodução com elenco internacional fracassou nas bilheterias. É a continuação de "A Garota dos Seus Sonhos", de 1999, onde Penélope Cruz fazia uma jovem atriz em plena Guerra Civil Espanhola. Vinte anos depois, ela é uma espécie de Sophia Loren, com carreira em Hollywood, e volta a seu país natal para rodar uma biografia da rainha Isabel, a Católica. A mistura de piadas do mundinho do showbiz com uma trama política (um dos atores é perseguido pelo generalíssimo Franco) não é das mais sutis, mas há maneiras piores de enfrentar um domingo de chuva e preguiça.

"Terra de Minas", também disponível para aluguel no NOW, foi o único dos cinco indicados ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira que não passou nos cinemas brasileiros. O longa dinamarquês conta um episódio polêmico da história de seu país: logo após a 2a. Guerra Mundial, soldados alemães - moleques, na verdade - foram obrigados a desencavar e desarmar os milhões de minas que os nazistas haviam enterrado nas praias de lá. Não é spoiler dizer que muitos foram pelos ares. O tom seco não me pareceu lá muito do gosto da Academia, mas aposto que os velhinhos votantes aprovam no automático qualquer coisa que venha da Escandinávia.

#MEU MOTORISTA ABUSADOR

Aconteceu outra vez. Bastou uma mulher articulada se manifestar - no caso, a escritora Clara Averbuck - para dezenas, centenas de outras virem a público com casos parecidos. O tema da hora são os abusos que elas sofrem nas mãos de motoristas de transporte público, geralmente em situações em que estão sozinhas ou indefesas. Mas nem sempre: ontem mesmo teve um sujeito que ejaculou em cima de uma menina dentro de um ônibus em plena Av. Paulista. Felizmente, a garota deu o alarme, o busão fechou as portas e o tarado foi preso. O episódio ilustra como esse tipo de assédio é comum, cotidiano. Como no hashtag Primeiro Assédio, também tenho a sensação de que todas, sem exceção, passaram pelo menos uma vez por violência semelhante. Clara Averbuck foi corajosa em se expor na internet (e atrair para si milhares de comentários agressivos, de "só quer aparecer" para baixo). Mas ainda estou na dúvida se ela fez bem em não denunciar seu agressor à polícia. Entendo que Clara tenha medo - afinal, o cara sabe onde ela mora, e já perdeu o emprego no Uber. No entanto, continuando solto por aí, é quase certo que ele vá cometer mais crimes.

(Mande a sua história para esta página do Facebook)

terça-feira, 29 de agosto de 2017

RECEBA AS FLORES QUE LHE DOU

E em cada flor um beijo meu... Este antigo sucesso de Nilton César cai como uma luva no mais novo escândalo envolvendo Gilmar Delama Mendes. Pois é, amiguinhos: o impoluto ministro do Supremo e sua mulher Guiomar receberam flores de Jacob Barata Filho em dezembro de 2015. Pois é, fofos: o "rei da corrupção do ônibus" que Gilmar mandou soltar DUAS vezes, de cuja filha Gilmar foi padrinho de casamento e com quem Gilmar não tem a menorrr intimidade, enviou um lindo arranjo floral para este casal que ele mal conhece. Em agradecimento a quê? Favores passados, presentes ou futuro? Isto é um desaforo, um acinte, um caso claríssimo de suspeição. E para impeachment. Ou para renúncia. Já!

BRIENNE OF TARTH, WON'T YOU SPREAD YOUR GIANT LEGS FOR ME?

"Bohemian Rhapsody" serve para tudo, dos Muppets às listas de supermercado. Era só questão de tempo que se transformasse numa canção de fogo e gelo.

(Obrigado pela dica, Douglas Mendes)

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

ALÔ ALÔ, ADEUS

Um artista pode ser ignorante do mundo, mas não a ponto de não saber quem é seu próprio público. OK, "artista" é uma forçação de barra para definir Inês Brasil, mas ignorante, sem dúvida, ela é. E nós também somos, por tratá-la como um ícone gay, comprometida com a nossa causa: Inês só se interessa por si mesma, e não tem uma assessoria que lhe aclareie as ideias. A foto ao lado do Bolsonazi foi um tiro no pé ainda maior do que o que Pepê e Neném se deram no começo do mês. Porque Inês ainda tem algo que lembra uma carreira, ou tinha; não duvido nada que seja vaiada em seu próximo show. E não, ela não tem a desculpa de que "não apoia nenhum político", ou que só quer saber de "amor". Quem não apoia político não tira foto com nenhum deles. Quem quer saber de amor nem chega perto do Bolsonazi. Adeus.

SWIFT, SWIFT, BITCH

Deus sabe que eu tentei. Mais uma vez, escutei Taylor Swift com o propósito explícito de gostar dela. Afinal, a mina vende bem no mundo inteiro, já ganhou dois Grammys de melhor álbum do ano (enquanto que Beyoncé não passa da indicação) e está sempre nas manchetes dos sites de fofoca. Mas alguma coisa em sua persona não me cai bem, e eu finalmente entendi por quê. Taylor Swift só fala de si mesma: até aí, zuzo bem, ninguém é mais egocêntrica do que Madonna, que no entanto manda em mim há mais de 30 anos. Acontece que a Swift é uma bitch no sentido mais negativo do termo: rancorosa, encrenqueira, cheia de não-me-toques. Suas brigas públicas com Kanye West e Katy Perry já deram no saco, mas ela insiste. A própria Katy já pediu água, mas nem por isto Taylor deu as caras ontem nos VMAs, apresentado por sua rival. Só mandou o clipe de "Look What You Made Me Do", uma extravagância de autoadoração de que nem a própria Madonna foi capaz. Sem falar que a música em si, que põe a culpa de tudo o que Taylor diz ou faz nos "outros",  é fraquinha a mais não poder.

domingo, 27 de agosto de 2017

DRACARYS

Estou muito tenso com o último capítulo da sétima temporada de "Game of Thrones", que vai ao ar hoje à noite. Não pelo que vai acontecer - meio que já sei tudo, pois já recebi spoilers até do que ainda nem foi filmado - mas pela qualidade dos roteiros da série, que despencou de uma altura maior que a da Muralha. O episódio da semana passada foi uma aula do que não fazer, com uma premissa idiota ("vamos caçar um white walker!") e um deus ex-machina imperdoável ("Tio Benjen!"). Ainda teve Jon chamando Danaerys de Dany, aproximando "GoT" do terreno da fanfic. Só faltam "shippar" o casal como "Joenerys", como já fez este meme sensacional aí acima. Aí vou mandar o dragão tacar fogo em tudo.

sábado, 26 de agosto de 2017

O PALHAÇO DESCABELADO


Eu fui ao programa do Bozo! Calma, eu já tinha uns 27 anos. Fui pela agência onde eu trabalhava, para supervisionar um merchan da Danone. O palhaço deu um iogurte para uma criança da plateia, pediu para ela provar e então perguntou: gostou? Nãããããão, respondeu o moleque, ao vivo e a cores para todo o Brasil. Pena que eu não saiba se aquele Bozo era o Arlindo Barreto, cuja história inspirou "Bingo: o Rei das Manhãs". O filme muda todos os nomes (menos o da Gretchen), mas conta o drama do ator que cheirava, bebia e sofria por não poder revelar sua identidade. O primeiro trailer saiu há quase um ano e deixou muitos gente doida para ver, inclusive eu. Foi quase inevitável me desapontar um teco. Há muitas cenas boas, claro, mas também uma certa mão pesada na trama do filho negligenciado, além de um "só Jesus salva" como moral da história. Vladimir Brichta está fabuloso, mas também tem o único personagem em cena: todos os demais não passam de escadas, inclusive a diretora crente feita por Leandra Leal. Mesmo assim, "Bingo" é um programa obrigatório para quem sobreviveu aos anos 80.