terça-feira, 25 de abril de 2017

REAÇÃO POSITIVA

Muita gente está apavorada com o avanço da extrema direita em diversos países do mundo e com tudo o que ela traz junto: repressão, preconceito, ignorância. Mas a reação também já começou, haja vista as recentes derrotas dos neofascistas na Europa. Ano que vem provavelmente teremos o Bolsonazi concorrendo à presidência do Brasil. O cara não é "simpático", ""bonitão", "competente": é um inimigo da liberdade como um todo e dos gays em particular.  Temos que agir para ele não ultrapassar os 9% que tem hoje nas pesquisas, e a primeira coisa é não ficar calado. É se expor, é dar a cara para bater, é chamar na chincha. Para servir de inspiração, aqui vão três vídeos corajosos. Este aí acima é da dupla inglesa Hurts. "Beautiful Ones" conta a história de um ataque homofóbico de trás para frente, e o protagonista é o próprio vocalista da banda.
O cantor e compositor santista Silvino não deixa margem para dúvidas em seu primeiro clipe, "Olhos Amarelos": é HIV positivo. Tem que ser muito homem.

O terceiro vídeo não é musical. É o discurso que Etienne Cardiles fez hoje de manhã no Palácio do Eliseu, em Paris, em homenagem a seu marido: o policial Xavier Jugelé, morto no ataque terrorista da semana passada. Pois é, ele era gay. No trecho acima, o viúvo revela que seu amado adorava Britney e Madonna; sinto um frisson de prazer ao lembrar que a babaca da Marine Le Pen estava na plateia (assim como seu rival e futuro presidente da França, Emmanuel Macron). Quem quiser ver o discurso inteiro, em francês e sem legendas, pode clicar aqui.

ELE CANTA PORQUE O INSTANTE EXISTE


“Paterson” tinha tudo para ser um filme chato. Ao longo de quase duas horas, acompanhamos uma semana na vida de um motorista de ônibus, dia por dia. Não acontece quase nada: o cara acorda, vai trabalhar, ouve as conversas dos passageiros, volta para casa, janta com a mulher, depois vai sozinho a um bar para tomar uma cerveja. Nas horas vagas, escreve poesia. Deu vontade de sair correndo? Acontece que o diretor Jim Jarmusch usa os recursos do cinemão para segurar o interesse da plateia: planos curtos, montagem ágil e música, muita música. Nada daquele estilo seco do Dogma que tenta reproduzir a vida, monótona como ela é. Porque a vida de Paterson não é monótona: ele tem a sensibilidade de se encantar com as pequenas coisas e traduzi-la em versos livres, que começam banais e acabam profundos. Jarmusch inclui algumas rimas no roteiro: o nome do protagonista também é o da cidade onde ele vive - justamente o berço de seu poeta favorito, William Carlos Williams. E a sutil ironia de Adam Driver estar fazendo um driver? Além disso, todos os dias Paterson cruza com um par diferente de gêmeos idênticos. Aviso? Coincidência? Ou só mais um mistério do cotidiano? Ele também tem uma idiossincrasia, como todos os personagens jarmuschianos: escreve seus poemas à mão e se recusa a usar computador ou smartphone. Esta teimosia gera o único fiapo de drama de todo o longa, que tem um certo parentesco com a vida quieta da poeta americana Emily Dickinson. Delicado sem ser piegas, “Paterson” me tocou feito um sussurro.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

OS NOVOS CARETAS

Se o comercial acima mostrasse um casal hétero, seria um dos piores de todos os tempos. Não tem ideia nenhuma; apenas apresenta as vantagens do produto num contexto absolutamente banal. Mas como o casal mostrado é formado por dois homens, ainda por cima com filhos, o filme passa modernidade e até ousadia. Por um lado, adoro que uma grande empresa como o Google esteja 100% do nosso lado. Por outro, até quando a viadagem vai ser notícia e servir como diferencial?

AVANTE, FILHOS DA PÁTRIA

Alguns comentaristas reparam que, depois da vitória de Trump nos EUA, a extrema-direita amargou o segundo lugar nas eleições da Áustria, da Holanda e, ontem, da França. Faltou lembrar que o atual presidente americano também chegou em segundo, e que só foi alçado à Casa Branca por causa de um sistema eleitoral anacrônico. A minha conclusão de tudo isto é que esses neofascistas, antes grupelhos insignificantes, agora fazem muito barulho e parecem prestes a tomar o poder pelas urnas em inúmeros países. Só que eles ainda não contam com a simpatia da maioria da população. Pelo menos, ainda não.

Hoje minha timeline amanheceu com um monte de gente equivalendo Marine Le Pen a Bolsonaro e Emmanuel Macron a João Doria. A primeira comparação tem fundamento, apesar da líder do Front National ainda dispor de uma certa finesse que passa batida pelo nosso candidato a ditador. Já Macron é bem diferente do prefeito de São Paulo: o pessoal se esquece (ou nem sabe) que ele era o ministro da Economia do governo socialista de François Hollande, e que nunca se vendeu como "gestor". O provável futuro presidente francês conseguiu passar para o segundo turno se apresentando como alguém do sistema, mas nem tanto. Ele jamais disse que é "contra tudo o que está aí". 

A França é uma democracia muito mais madura que o Brasil, e a situação de lá é bem melhor do que a nossa. Mesmo assim, tenho esperança de que surja um Macron nas nossas eleições do ano que vem. Alguém que não seja um príncipe montado num cavalo branco, prometendo resolver todos os problemas num passe de mágica. Mas com experiência, equilíbrio e - claro - ficha limpa. Quem?

domingo, 23 de abril de 2017

O NONO PASSAGEIRO


Um filme de ficção científica só tem relevância se falar de um medo contemporâneo. Por este ângulo, "Vida" até ganharia uma dimensão a mais: a criatura que os astronautas recolhem em Marte e acaba se voltando contra eles pode ser uma metáfora para a invasão de refugiados no Ocidente, que traria escondida as sementes da destruição. Só que "Vida" padece de um problema anterior, e incontornável. É um remake mal-disfarçado do clássico "Alien, o Oitavo Passageiro". As diferenças são mínimas: agora a tripulação da nave é multiétnica, e o monstrinho começa como uma ameba que só vai lembrar seu antepassado ilustre depois de crescer bastante. Aliás, como crescem. Por que esses alienígenas têm um apetite infinito, que não se sacia nunca? "Vida" talvez seja divertido para as novas gerações, mas eu vi o primeiro "Alien" no cinema, bebê. Esse pastiche desnecessário só melhora no final, que eu confesso não ter previsto. É pouco.

sábado, 22 de abril de 2017

O SALVADOR DA PÁTRIA

Eu sei que procurar qualidade musical entre os concorrentes do Eurovision é uma tarefa inglória, mas todo ano tem algo que se salva. Apesar da terrível safra de 2017, repleta de cantoras intercambiáveis de um nome só, encontrei duas pérolas no meio da porcariada. Em comum, ambas têm o fato de serem cantadas nas línguas de seus países, sem concessão para o inglês universal. Uma delas é a belíssima "Amar pelos Dois", composta por Luisa Sobral - um nome em ascensão na cena lusitana - e interpretada por seu irmão Salvador. Dono de uma voz cristalina e de uma linguagem corporal para lá de esquisita, ele já lançou um disco meio jazz chamado "Excuse Me" e, segundo as casas de apostas, promete levar Portugal para a grande final pela primeira vez em muitos anos. A terrinha compete no festival desde 1966, mas nunca foi além do sexto lugar. Agora vai?

(Meu outro favorito, que também é o favorito para a vitória, fica para outro dia)

sexta-feira, 21 de abril de 2017

AHMADINEJAD ERA

O Irã se diz uma democracia, mas o fato é que lá ninguém se candidata à presidência sem o aval dos aiatolás. Das 1.636 pessoas inscritas (incluindo 137 mulheres), só seis foram aprovadas: todos homens, todos ligados ao establishment religioso que governa o país há quase quatro décadas. O lado bom dessa história é que entre os barrados está Mahmoud Ahmadinejad, o mal-ajambrado, que foi presidente de 2005 a 2013. O cara radicalizou a corrida atômica iraniana, atraiu sanções que pesam até hoje e ainda teve uma reeleição contestadíssima em 2009, com saldo de mortos e tudo (um dos poucos que o apoiaram foi Lula, que comparou a revolta da oposição de lá a uma mera rusga entre torcidas de futebol, a única metáfora de que ele é capaz). Tudo indica que o atual presidente, o moderado Hassan Rouhani, continuará no poder. Foi ele quem quase chegou a um tratado de paz com Barack Obama - mas agora, com Trump na Casa Branca, não dá para prever o que quer que seja.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

AS CONFIDÊNCIAS MINEIRAS


Tiradentes é meio que um mito inventado pela república. O verdadeiro Joaquim José da Silva Xavier não era o líder dos Inconfidentes, nem seu mentor intelectual. Era apenas o menos conectado com gente importante, e por isto foi escolhido para dar o exemplo. Pouco se sabe de sua vida pregressa, e é ela que o filme "Joaquim" tenta inventar. O alferes que surge na tela é imaginário, mas totalmente plausível. Além disso, o diretor Marcelo Gomes o cerca de uma Brasil-colônia sem um pingo de romantismo: pobre, sujo, muitas vezes violento. O único ator mais conhecido do ótimo elenco é Júlio Machado, que também está despontando na TV. Ele tem uma presença imponente, física e intensa. Já o roteiro às vezes perde o rumo: não há bem uma história, mas sim um amontoado de episódios que se propõe a mostrar como um sujeito comum se tornou um revolucionário. Quase sem música, com muita câmera tremida, fotografia lavada e narrativa austera, "Joaquim" não vai arrastar multidões aos cinemas. Mas quem for vai ver um retrato íntimo, ainda que ficcional, de uma figura emblemática da nossa história.

UBERQUISTÃO

As Filipinas não são exatamente o lugar mais liberal da Terra, ainda mais agora com o presidente Duterte matando a torto e a direito. Por isto, é surpreendente que este comercial de Uber tenha sido rodado lá (tem que clicar no link para ver no site, não consegui embedar aqui). O filme faz parte de uma campanha chamada #UberSTORIES, baseada em relatos reais de usuários do serviço. Claro que não foi incluído nenhum desses episódios de terror de que todo mundo já ouviu falar, tipo motorista tarado ou que não sabe onde fica o aeroporto. Só tem final feliz, como o de Aj Tabangay. Mas talvez a maior surpresa seja que lá nas Filipinas você pode pagar o Uber com dinheiro.


ATUALIZAÇÃO: Errei rude. Aqui no Brasil também se paga Uber com dinheiro. Mas como é que eu ia saber, se eu só circulo na minha limusine com chauffeur?

quarta-feira, 19 de abril de 2017

LUZ, CÂMERA, CANHÃO


Qualquer um que se interesse por cinema e história vai se refestelar com "Five Came Back". Essa minissérie documental do Netflix tem apenas três episódios de uma hora, que equivalem a uma aula magna sobre como a realidade influencia a arte e vice-versa. Apresentada por cinco grandes diretores contemporâneos - Steven Spielberg (também produtor do programa), Guillermo del Toro, Paul Greengrass, Lawrence Kasdan e Francis F. Coppola - e com locução off de ninguém menos que Meryl Streep, "Five Came Back" conta como os cinco maiores diretores de Hollywood na década de 1940  filmaram a 2a. Guerra Mundial e por ela foram afetados. Francis Capra, John Ford, George Stevens, William Wyler e John Huston já eram consagrados, alguns com vários Oscars na estante. E todos atenderam ao chamado do Exército para dirigir documentários sobre o esforço de guerra americano. De filminhos para incentivar o alistamento a devastadores testemunhais das mais cruentas batalhas. Os cinco arriscaram as próprias peles e alguns até perderam membros da equipe. Nenhum conseguiu produzir uma obra-prima como "O Triunfo da Vontade" de Leni Riefenstahl, a mais resplandecente peça de propagada nazista, mas seus filmes rodados no front foram bem de bilheteria e acabaram entrando para a história. Terminado o conflito, algo curioso aconteceu: todos os cinco, sem exceção, fizeram os melhores filmes de suas carreiras. Ver tanto sofrimento in loco, tanta destruição e desumanidade, fez com que esses veteranos redescobrissem a si mesmos. "Five Came Back" vai ser bombardeado de prêmios merecidos, e é obrigatório feito o serviço militar.

CASSIUS PLAY

A ideia não é nova. Eu mesmo tentei usar esse recurso de tela dividida numa campanha de remédio contra resfriado, sete anos atrás. Mas não me lembro de tê-la visto tão bem executada como nesse clipe da dupla Cassius, lançado na semana passada. Os caras surgiram há mais de uma década, quando a música eletrônica feita na França entrou na moda. Andaram sumidos por um tempo e agora estão de volta, com a ajuda do onipresente Pharrell Williams - o que faz com que "Go Up" soe como  seus conterrâneos do Daft Punk. Ei, nada contra.

terça-feira, 18 de abril de 2017

FLORES BASCAS E ESPECIALÍSSIMAS


Em 2015, pela primeira vez, um filme falado em basco representou a Espanha no Oscar. "Flores" não chegou entre os nove semifinalistas nem estreou no Brasil, mas está disponível no Netflix. É uma experiência curiosa, e não só pelo idioma indecifrável. A história é tristonha, nublada como o país de onde veio. Uma mulher casada começa a receber flores de um anônimo, até que um dia elas param de chegar. Um colega de trabalho morre nessa mesma época, e ela liga os pontos. Enquanto isso, a mãe e a viúva do sujeito... já contei demais, chega. Mas não se trata de um filme cheio de reviravoltas, e sim um ensaio sobre o pertencimento e a perda. "Flores" não se parece com nada que eu tenha visto recentemente. Delicado, meio lento, mas interessante.

OS RUSSOS NÃO ESTÃO CHEGANDO

Pronto, já é aquela época do ano outra vez: vem aí o Eurovision!! E a temporada de notícias sobre o festival mais cafona do mundo começa com um bafão. A edição de 2017 acontece em Kiev, a capital da Ucrânia, e adivinha o que aconteceu? Julia Samoylova, a representante da Rússia, teve o visto de entrada negado. Porque em 2015 ela fez uma turnê pela Crimeia, a península ucraniana que há três anos foi tomada (de volta, dizem os russos) pelas tropas de Vladimir Putin. A organização do festival ainda tentou propor que a moça se apresentasse diretamente de Moscou, mas a TV estatal russa não quis nem saber. Resultado: Samoylova, que sofre de atrofia muscular espinhal e é cadeirante desde pequena, não irá mais participar do Eurovision 2017. Cujo slogan, ó cruel ironia, é "Celebre a Diversidade"... Se bem que, por mim, tudo bem. A Rússia tem mais é que levar umas invertidas de vez em quando. Fora que, além da música "Flame is Burning" ser horrível, Julia Samoylova tem um dos sorrisos mais pavorosos que eu já vi.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

CHOCHANDO A CHECHÊNIA

Este ursinho acariciando um gatinho aí ao lado é ninguém menos do que Ramzan Kadyrov, o presidente da Chechênia - a república autônoma russa que voltou às manchetes depois da denúncia de que 100 gays chechenos haviam sido presos num campo de concentração e três deles já sido mortos. Kadyrov nega tudo, usando um argumento que meio que confirma tudo: na Chechênia não existem homossexuais. A pressão internacional está sendo grande e muita gente vem alterando a foto no perfil do Facebook com um triângulo rosa sobre o rosto, mas duvido que surta algum resultado. Alguns anos atrás, a Chechênia tentou se separar do resto da Rússia e foi violentamente reprimida. Seu atual mandatário, hiperativo no Instagram, é apaniguado de Vladimir Putin, que aprovou leis duríssimas contra "propaganda gay" em seu país. Claro que ele vai deixar a republiqueta do Cáucaso matar umas bichinhas, só para manter feliz a maioria muçulmana que vive lá. Para terminar este post pessimista numa nota infame, vou usar uma piada velha e torcer para que esteja tudo bem em outra república russa de nome sugestivo: a Carélia.

O BON VIVANT

Aos poucos, bem aos poucos, vejo gente de esquerda desembarcando da canoa do Lula. Claro que ainda tenho amigos fazendo a defesa intransigente do ex-presidente com textão nas redes sociais. Para eles, todas as delações são mentirosas e não há pedalinho com nome de neto que prove o que quer que seja. Mas quem tem mais de dois neurônios percebe que não é bem assim. O Meio de hoje traz links para matérias dos blogs The Intercept Brasil, Conversa Afiada (de Paulo Henrique Amorim) e Socialista Morena que simplesmente não tapam o sol com a peneira. Nenhum dos três retirou apoio à uma cada vez mais improvável candidatura de Lula em 2018, mas é óbvio que alguma coisa está mudando. O "Amigo" perdeu a aura de santo impoluto, tantas são as evidências contra si. E causos de um passado distante voltam à tona, como o contado na coluna "Primeiramente, Fora Lula!" de Ricardo Noblat (que inveja do título, queria ter pensado primeiro). Por isto, não me espanta que o finado general Golbery do Couto e Silva, a eminência parda do último governo militar, tenha dito que Lula não era de esquerda quando o conheceu, mas sim um "bon vivant". Aliás, eu me lembro das primeira entrevistas do então sindicalista, assim que despontou para a fama no final dos anos 1970, onde ele dizia que pensava em fundar um partido sem ideologia. É fato registrado que Lula só se "esquerdizou" mais tarde, e agora parece que foi só um verniz. Se bem que não tenho nada contra alguém buscar as coisas boas da vida, porque eu também busco. Só não pode fazer isto com o dinheiro dos outros, e muito menos com o suado dinheiro dos nossos impostos.

domingo, 16 de abril de 2017

O ACORDÃO EM DESACORDO

Nunca escondi aqui no blog que eu sou fã de Fernando Henrique Cardoso. Não acho que ele tenha sido um presidente perfeito e estou bem longe de idolatrá-lo, mas sua postura de intelectual e estadista sempre me impressionou. Claro que a minha admiração sofreu um abalo com as delações da Odebrecht, que revelam que ele recebeu doações via caixa dois nas eleições de 1994 e 1998. Também estou horrorizado com o papo de que FHC estaria articulando um acordão com Lula e Michel Temer, o Velho, para garantir a sobrevivência da atual classe política. Como diz o Elio Gaspari na Folha de hoje, isso é formação de quadrilha. O pior é que consta que é o próprio FHC quem está espalhando essa história. Talvez para mostrar que continua relevante aos 85 anos e que é o único tucano de raiz com alguma credibilidade. Cultivada nos anos pós-Planalto com atitudes dignas de aplauso, de quem está mais interessado em fazer a coisa certa do que em concorrer a um cargo público. Mas agora FHC se deixa tragar por sua célebre vaidade, ao invés de ficar do lado certo da história. Vai aqui um apelo, presidente: fuja de Lula, de Temer, dos seus correligionários enrolados do PSDB, dessa corja toda. E preserve sua biografia.

sábado, 15 de abril de 2017

O FALSO TEATRO


Pronto, ela já está de volta. Um mês depois da estreia de "Souvenir" no Brasil, Isabelle Huppert reaparece com "As Falsas Confidências", um telefilme que está sendo lançado nos cinemas fora da Europa. A ideia prometia: adaptar uma peça do século 18 para os dias de hoje, utilizando o suntuoso Théatre de l'Odéon de Paris como cenário. Mas muita coisa não deu certo na realização. Para começar, o texto não funciona na tela grande e a trama de fofocas domésticas entre patrões e empregados tem pouco a ver com os dilemas atuais. Além do mais, o teatro não é o teatro: suas áreas internas foram cenografadas para parecer uma mansão, e o resultado é falso. Sobram Huppert e Louis Garrel, com quem a gente nunca recusa passar uma hora e meia junto.

REFERENDO ALLA TURCA


Amanhã a Turquia vai às urnas para decidir se oficializa Recep Erdoğan como ditador ou se ele continua no poder de qualquer jeito. O "sim" está vencendo por uma margem estreita nas últimas pesquisas de opinião; não duvido nada que a vitória seja, aham, consagradora. Não importa o que der: a única democracia muçulmana do Oriente Médio está deslizando rapidamente para sua própria versão do chavismo, com um líder forte e popular se tornando cada vez mais autoritário. A imprensa livre já era, e agora eu temo até pela cena pop de Istambul. Deixa eu curtir enquanto posso o novo álbum da diva Sezen Aksu - quem sabe se haverá outro? Pena que ela não escolheu para o clipe a faixa "Manifesto", a mais animada e política de "Bir Pop Bir Sezen".

sexta-feira, 14 de abril de 2017

MAL-VINDOS

Nos Estados Unidos são frequentes as notícias de gays hostilizados no bairro em que moram ou no lugar onde trabalham. No Brasil nem tanto - as notícias, já que os casos devem ser tão abundantes quanto lá. Por isto, o casal de curitibanos João Pedro Schonart e Bruno Banzato fez muito bem em chamar a polícia e divulgar a agressão, pois os homofóbicos anônimos contam com o medo de suas vítimas. O texto do panfleto distribuído nas redondezas da casa que os dois acabaram de construir é constrangedor de tão absurdo, além de - claro - ter erros de português (imagine se um babaca desses saberia usar aspas direito). As fotos não são do casal. O lado bom é que muitos vizinhos jogaram o panfleto fora, e amanhã vai acontecer uma manifestação de solidariedade em frente à casa de Bruno e João Pedro. Do que é que esses caras têm tanto medo? De pegar gosto pela coisa?

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O HAMBURGER CONECTADO

A ideia é tão óbvia que o fato de ninguém ter feito antes a torna ainda mais genial. O comercial aí em cima do Burger King, veiculado ontem na TV americana, dura mais que seus 15 segundos se o seu celular for Android e estiver perto da TV. O ator pergunta para o Google Home (o Siri dos pobres) o que é que tem num Whooper Burger - e o treco responde a descrição da Wikipedia. Claro que no minuto seguinte tinha gente mexendo no verbete do sanduíche, listando carne de rato e unhas entre seus ingredientes. Mais claro ainda que o próprio Google desabilitou qualquer resposta apenas três horas depois, para não fazer propaganda grátis. Tarde demais: hoje o comercial foi notícia no mundo inteiro, multiplicando algumas vezes a verba de mídia. E ainda vem prêmio em Cannes.

A MENINA NOIVA


O Iêmen está em guerra civil há anos, com áreas inteiras controladas por grupos como a al-Qaeda. Ainda assim, no ano passado o país se inscreveu pela primeira na corrida pelo Oscar de filme em língua estrangeira. E com um filme escancaradamente político, dirigido por uma mulher e com tudo para irritar os fundamentalistas islâmicos. "Nojoom, 10 Anos, Divorciada" está em cartaz há uma semana em SP, e merecia mais atenção. Porque fala de um assunto terrível, comum a dezenas de países: o casamento de crianças. O filme é baseado na história verídica da menina que foi literalmente vendida pela família paupérrima. O noivo prometeu não tocar na coitada até que ela atingisse a puberdade, mas já atacou-a na noite de núpcias. Os maus tratos foram tantos que Nojoom (Nojood, na vida real) procurou um tribunal para se divorciar. O caso rendeu manchetes e pegou mal para o Iêmen, mas a prática continua. Já como cinema, "Nojoom" é mediano. As paisagens são deslumbrantes e o roteiro se preocupa em dar voz ao outro lado - os homens são analfabetos, que não têm muita noção do mal que fazem. Mas a encenação é muitas vezes canhestra, revelando o amadorismo dos atores. Enfim: valeu como turismo cinematográfico, e também para saber que tem lugares onde o assédio é ainda pior do que aqui.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

REZANDO UM ROSÁRIO

Maria do Rosário, gente. Fuckin' Maria do Rosário. A deputada mais combativa de todas, a paladina do feminismo, a inimiga no. 1 do Bolsonaro foi incluída na lista do Fachin. Ela está sendo acusada de ter recebido 150 mil reais em caixa dois, e claro que o brucutu já gravou um vídeo tripudiando. A delação da Odebrecht está sendo ainda mais devastadora do que eu esperava, ceifando nomes até então acima da minha suspeita. O que acontece agora? Os processos na Justiça podem correr de maneira lentíssima e só gerar algum resultado daqui a dez anos. Enquanto isto, os políticos vão se unir de algum jeito para estancar a sangria desatada. Vão tentar aprovar o voto em lista e se eternizar em seus cargos, para não perder foro nem boquinhas. Resta a nossa vigilância A gente tem que se unir também e parar com essa bobagem de coxinhas e mortadelas, porque somos nós que estamos sendo comidos. Por enquanto, sobrevivem a extrema-esquerda e a extrema-direita: é só isto o que a gente quer nas eleições do ano que vem? Está pintando cada vez mais que o Doria será candidato, e duvido que o Lula consiga se viabilizar. A esquerda precisa arranjar um nome forte para ontem. E nós precisamos tomar muito cuidado para não embarcar na canoa furada de um aventureiro. O Brasil já acreditou no Collor em 89, livrou-se dele em 92 e, no entanto, olha ele aí de novo. Vamos tomar tento, gente. Caixa dois pode não ser o pior crime do mundo, mas ainda é crime. Fora todos eles, sem exceção. Vamos varrer a corja toda em 2018.

O NERD ERÓTICO

Ayrton Montarroyos não venceu a 4a. edição do "The Voice Brasil" porque lá só se valoriza quem grita. Ele até que chegou bem longe (entre os quatro finalistas) com sua voz de veludo. E talvez tenha dado sorte, porque uma vitória no programa nunca firmou a carreira de ninguém. O pernambucano de 21 aninhos acaba de lançar seu primeiro álbum, já disponível em todas as plataformas digitais. É música para transar, pois quase todas as letras falam de sexo. Mas sempre numa pegada suave, evocando ritmos que não tocam mais no rádio: bossa nova, tango, bolero, seresta, fado. Muitas das faixas são obras pouco conhecidas de compositores consagrados como Zeca Baleiro e Caetano Veloso, então tudo soa meio inédito. Falando assim parece até variadíssimo, mas não é: é como transar com a mesma pessoa, mas sempre variando as posições.  Ah, o jeito sonso desse magricela de óculos e sotaque delicioso nunca me enganou. Sua voz não vem só da garganta.

(O vídeo-letra de "E Então" só pode ser visto  na página de Ayrton no Facebook)

terça-feira, 11 de abril de 2017

DUETO COM SI MESMO

Hoje eu estou que nem o "Jornal Nacional": ainda não estou podendo comentar a lista do Fachin. É muita coisa para digerir; até o Haddad foi citado! Preciso me segurar para não sair gritando "fora todos" e pavimentar a estrada para o Bolsonazi. Então vamos falar de coisa boa? Olha que lindeza esse dueto acima: ambos são o cantor trans Charlie Peck, com nove meses de tratamento hormonal de diferença. Como diz a letra, a gente está em casa quando está com si mesmo.

MEIO ASSIM

O Meio é uma newsletter diária com curadoria do jornalista Pedro Doria. Assino desde que foi lançada, no final do ano passado. É a minha primeira leitura do dia, ainda na cama: um resumão das principais notícias, com links para os veículos de onde elas vieram. Hoje tive a grata surpresa de ver minha coluna de ontem no F5 incluída no Meio. Só posso agradecer incentivando mais gente a assinar (é grátis!!): www.canalmeio.com.br

segunda-feira, 10 de abril de 2017

IF WE TOOK A HOLIDAY

Meu inocente post de ontem sobre a versão do Pentatonix para "Bohemian Rhapsody" foi sequestrado nos comentários. Alguns leitores reclamam de eu não ter falado do MEC ter excluído orientação sexual e questões de gênero do novo currículo brasileiro. Não falei porque, preguiiiça, né? Como alguns repararam, se o PT, que se diz progressista, abriu as pernas todas as vezes que a bancada religiosa pressionou, imaginem se esse governo conservador não iria fazer pior. Temer precisa de todo o apoio possível para aprovar a impopular reforma da Previdência e, afinal, quanto valem os viados e as sapatas? Se a gente mal consegue eleger um mísero deputado federal e, quando elege, metade de nós fica falando mal dele? Até em São Paulo, essa metrópole tão evoluída, uma das grandes mecas LGBT do mundo inteiro, o único vereador assomadamente gay é uma vergonha para a categoria: o equivocado Fernando Holiday, que eu ainda não entendi se faz marketing ou se é burro mesmo.

SERTANEJENTINOS


O diretor espanhol Carlos Saura inventou uma maneira toda própria de realizar documentários musicais. Há mais de vinte anos ele vem aplicando esta mesma fórmula para cobrir todos os ritmos de matriz ibérica: números gravados em estúdio, cenários despojados, projeções em vídeo, jogos de sombras. E nenhuma entrevista ou locução em off. O resultado costuma ser lindo: "Sevilhanas" foi um impacto, "Tangos" chegou a ser indicado ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira e "Fados" incluiu até artistas brasileiros e africanos cantando a melancolia portuguesa e seus descendentes. Agora Saura retorna com "Zonda", que no Brasil ganhou o título óbvio de "Argentina". O foco agora está além de Buenos Aires: a música do interior do país vizinho, que não tem nada a ver com a milonga portenha. Ou seja, o sertanejo de lá. Que, como o daqui, às vezes é horrível, às vezes é sublime. O único nome que os brasileiros conhecem desse folclore todo é a finada Mercedes Sosa, e talvez um pouco de Atahualpa Yupanqui. Eu, pelo menos, não sabia quem eram aqueles artistas todos, apesar de já ter uma noção do que são chamamé e carnavalito. Por isto mesmo senti falta de nomes mais famosos em cena, ou talvez um pouco de fusão de estilos. Será que o orçamento não deu? Enfim, "Argentina" só é recomendado para quem for muito interessado, mas muito mesmo, nos nossos hermanos do sul. É, seu sei. Somos poucos.

domingo, 9 de abril de 2017

BISMILLAH, WILL YOU LET ME GO?

Alguém ainda tem saco para mais um cover de "Bohemian Rhapsody"? A canção que mais marcou minha vida acaba de ganhar versão accapella com o grupo Pentatonix, uma escolha tão óbvia que eu até achei que já tinha sido feito antes. Agora, será accapella mesmo? Dá para ver que eles fazem o baixo e a guitarra com as bocas (esta última, com o auxílio de um megafone), mas a bateria é de verdade, não? Enfim, ficou bacana. Mas nada que supere a BoRap dos Muppets.

sábado, 8 de abril de 2017

EU NÃO SOU ENTENDEDOR


"Eu Não Sou Seu Negro" estreou no Brasil bem no meio da temporada do Oscar - da qual, aliás, ele fazia parte, pois foi indicado a melhor documentário. Mas tinha tanta coisa para ver que eu acabei perdendo o filme no cinema. Ainda bem que ele já esteja disponível nos serviços de pay-per-view, e quer saber? Acho que eu prefiro ver documentários em casa. Talvez porque eu não me distraia com a pipoca e a mensagem entre mais rápido na cachola. Aqui ela é devastadora: um poderoso libelo contra o racismo, nas palavras do escritor James Baldwin. O autor de "O Quarto de Giovanni", livro obrigatório no currículo de qualquer bicha que se preze, queria escrever sobre a vida dos três grandes líderes negros que foram assassinados nos Estados Unidos na década de 1960: Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King. Mas ele nunca passou das cartas que enviou ao seu editor, e são elas que Samuel L. Jackson lê em off, num tom muito mais suave que de costume. "Eu Não Sou Seu Negro" me deixou encafifado. A escravidão no Brasil foi tão cruel e até mais longa que nos EUA. No entanto, não tivemos aqui leis explicitamente racistas, nem os conflitos por direitos civis que rolaram por lá. Será que é só a nossa miscigenação, maior que a deles, que explica isto? E no entanto os negros americanos estão numa posição melhor do que os brasileiros, apesar de não chegarem a 20% da população. Preciso ler mais, para entender melhor.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

O DIA DA POSSE

Deus me livre e guarde, mas pela primeira vez eu aprovei uma atitude de Donald Trump. Talvez eu esteja sob efeito do gás sarin, mas achei que ele fez certo em bombardear uma base de Bashar al-Assad. É importante ressaltar que os Estados Unidos não atacaram a população civil, mas sim uma instalação militar. Mais do que o prejuízo material, o que interessa mesmo é mostrar para o regime sírio (e para os russos, claro) que eles não têm carta branca para fazer o que bem entenderem. Os pontos bônus vêm da irritação da extrema-direita americana, que achou que tinha eleito um  isolacionista. Ontem talvez tenha sido o dia em que, enfim, Trump se tornou presidente dos EUA.

ROLOU QUÍMICA


Não entendo muito por que as armas químicas são tão proibidas. As convencionais não matam? Não doem? Todas deveriam ser banidas, mas claro que isso é delírio nesse mundo primata onde vivemos. Bom, pelo menos existe um limite, a tal da linha vermelha - "só pode beliscar o coleguinha, furar o olho não pode". O ataque de terça-feira à cidade síria de Khan Sheikhoun não foi a primeira vez que o regime de Bashar al-Assad ultrapassou tal limite. Ele já havia feito coisa parecida em 2013, com um saldo de mortos muito maior. Obama, que havia prometido intervir se armas químicas fossem usadas, não interveio. A inação americana deve ter deixado o ditador se sentindo empoderado. Agora, com o apoio da Rússia, ele resolveu liquidar a fatura. Fez do pobre vilarejo sua Hiroshima, como que batendo no peito para dizer que a guerra acabou. Faltou combinar, não com os russos, mas com os EUA. Trump bem que havia dito que derrubar Assad não era mais prioridade. Mas esse ataque com gás sarin caiu literalmente do céu para suas chances de recuperar popularidade. O presidente americano não só quer mostrar que fala grosso, como que também não é uma marionete de Moscou. Mas, e agora, o que acontece? Como se fosse possível prever o desfecho de um conflito onde há umas 17 partes envolvidas.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

QUE ANO É MESMO?

Ontem eu soube de duas notícias que me fizeram duvidar de estarmos no ano da graça de 2017. Parece que elas vêm de um passado remoto, quando ser gay ainda era defeito. A primeira é até engraçada: Barry Manilow finalmente saiu do armário, aos 73 anos de idade. Para quem não conhece: a biba foi um dos maiores hitmakers dos anos 70 e 80, quase do nível de Elton John. Para quem conhece: alguém não sabia que ele é gay?? Ara, ninguém canta "Copacabana" e depois sai pegando mulher. Manilow, que vive há 39 anos com seu empresário, disse que não se assumiu antes por medo de decepcionar as fãs. Bom, a essa altura já devem estar todas mortas.

A outra notícia não tem graça. O Sindicato dos Bancários de SP denunciou que o Itaú demitiu um gerente que postou no Facebook uma foto onde beija o namorado, apesar do cara ter batido todas as metas. Internautas influentes como o Celso Dossi estão interpelando o banco, que já prometeu tomar providências. É inconcebível que uma empresa que se diz tão avançada ainda permita que isso aconteça. De que adianta ser digital, se a mentalidade continua em 1917?

quarta-feira, 5 de abril de 2017

OCCUPY WHATEVER

Ontem eu publiquei aqui no blog um ótimo exemplo de branded content: o filme indiano de Vick estrelado por uma transexual. Hoje vou mostrar exatamente o que não deve ser feito. A Pepsi tentou pegar carona na crescente politização do mundo, mas sem aderir a nenhuma causa específica. Achou que seria transadíssimo colocar Kendall Jenner (filha da Caitlyn) no meio de uma passeata a favor de, sei lá, whatever. Repare nos cartazes "Join the conversation" e nos símbolos de paz e amor: mais neutro, impossível. Também acrescentaram uma coadjuvante muçulmana, peça obrigatória na propaganda modernex, e até uma possibilidade de romance para nossa heroína. Mas o que mata mesmo é o balde de gelo cheio de latinhas que se materializa no meio da manifestação, e o policial que ia baixar o cacete na moçada sendo aplacado por uma Pepsi bem gelada. O mais espantoso é que é essa joça custou alguns milhões de dólares e passou por várias instâncias (não é fácil aprovar um filme desses). Foi postado ontem no YouTube e tirado hoje, tamanha a gritaria. O que esta aí cima é uma versão pirata, ainda com a música original ("Lion", de Skip Marley). Existem outras, com outras trilhas. Assista o quanto antes. Não devem sobreviver muito tempo.

PARAGUAI NELES

Nossos queridos parlamentares estão apavorados com a Lava-Jato. Na ânsia de se reelegerem no ano que vem e assim manterem o foro privilegiado, estão prestes a aprovar duas barbaridades: o famigerado voto em lista e a possibilidade de alguém se candidatar a dois cargos ao mesmo tempo, tipo governador e deputado. Perdeu no Executivo, está garantido no Legislativo - porque o nome vem entre os primeiros da lista! Acho isto bem mais grave do que a emenda que estabelece a reeleição no Paraguai, e olhem só o que aconteceu por lá. Podíamos seguir o exemplo dos nossos vizinhos, que tal?

terça-feira, 4 de abril de 2017

AGORA É QUE SÃO ELAS

É preciso reconhecer que a Globo mudou. Uma década atrás, um caso como o do Zé Mayer seria varrido para baixo do tapete. "Nada para ver aqui, circulando, circulando". A maior emissora do Brasil quase que se comportava como o Pravda, ignorando solenemente qualquer outro meio de comunicação. Mas aí a internet cresceu, a TV paga também, chegaram as plataformas de streaming e o panorama competitivo se alterou radicalmente. A sociedade também avançou. Mulheres, gays e negros não apanham mais calados. É por isto que a própria Globo apoia a campanha "Mexeu com Uma, Mexeu com Todas", depois de suas funcionárias terem aderido em peso. Inclusive deram a notícia do afastamento do Zé Mayer no jornal "Hoje" e até no "Video Show"; aguardemos o "Jornal Nacional" logo mais. Pois é: hoje parece que é mesmo um novo dia de um novo tempo que começou.

(Já tem coluna minha no F5 comentando o futuro da carreira do ator)

RESPIRANDO NOVOS ARES

Trabalhei oito anos com a marca Vick. O cliente era dificílimo: cheio das guidelines, testava tudo, não aprovava quase nada. Hoje percebo com inveja que a propaganda da mais famosa linha de produtos contra gripes e resfriados evoluiu bastante. O filminho acima conta a história real de uma transexual indiana que adotou uma garota órfã, interpretadas por elas mesmas. Repare como um potinho de Vaporub aparece discretamente numa das cenas, sem interromper a narrativa. Branded content é isso aí. Vou incluir este case nas minhas aulas de storytelling.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

NICOLE CELESTIAL


"Big Little Lies" seria o futuro das telenovelas? A minissérie da HBO terminou ontem com um episódio totalmente folhetinesco: as várias tramas culminaram num único clímax, segredos se revelaram coincidências absurdas e a última cena foi de uma felicidade irreal. Mas foram só sete capítulos, e quase todos terminavam de repente: pra quê gancho, quando você tem um elenco estelar? E ninguém foi mais estrela do que Nicole Kidman. Sua Celeste - uma mulher doce e inteligente, que no entanto aceitava apanhar do marido para manter a família unida - foi de partir o coração. Ela agora é barbada para uma indicação ao Emmy de melhor atriz de minissérie, e uma ameaça real à dupla Jessica Lange e Susan Sarandon, de "Feud". Ah, adoro mulheres brigando. Ainda mais na vida real.

SENTAR DE RIR

Lenín Moreno. Ainda preciso me acostumar com este nome: todos vez que eu o escuto, imagino um guerrilheiro caricato, personagem  de uma opereta chamada "La Republica de las Bananas". Mas o recém-eleito presidente do Equador é de verdade, e muito melhor do que eu temia. Para começar, o cara não é um clone de Rafael Correa, apesar de serem ambos do mesmo partido. O que mais me impressionou em seu currículo não foi nem o fato dele ser um raríssimo líder político cadeirante (o último de que eu me lembro é o americano Franklin D. Roosevelt, cuja deficiência era ignorada por muitos de seus eleitores na era pré-TV). Foi Moreno ter se recuperado do tiro que levou num assalto graças à terapia do riso, e publicado diversos livros de humor desde então. Agora vamos ver como ele se comporta. Correa trouxe estabilidade e prosperidade, mas não escondeu a veia autoritária e perseguiu a imprensa sem o menor pudor. Talvez um humorista em seu lugar seja exatamente do que precisam os equatorianos, divididos depois de uma eleição apertadíssima.

domingo, 2 de abril de 2017

MINHA MÃE É UMA DESSAS


"Mulheres do Século 20" é o último grande filme desta safra do Oscar a entrar em cartaz no Brasil. Quando estreou nos EUA no final de dezembro, foi logo cotado para os prêmios mais importantes - principalmente para a gloriosa Annette Bening, que até hoje está de mãos abanando. No entanto, apesar das críticas excelentes, o trabalho semi-autobiográfico do diretor Mike Mills só foi indicado a melhor roteiro original. Alguns anos atrás, ele ficcionalizou a história do próprio pai, que se assumiu gay depois de enviuvar, no badalado "Beginners". Agora é a vez da mãe ser retratada: aqui ela é uma mulher divorciada que procura se atualizar para entender melhor o filho adolescente. Sempre com um cigarro na mão e com a ajuda dos dois inquilinos para quem aluga quartos, ela se arrisca até em clubes de punk rock, o que de mais moderno havia em 1979, época em que passa a história. Ou melhor, não é bem uma história, mas um estudo de personagens. "Mulheres do Século 20" não é aquele tipo de filme que te faz sair arrepiado do cinema. Mas ele continua rodando na sua cabeça depois, revelando novos e preciosos detalhes.

CAÇA AO GARANHÃO

Quando a Folha retirou do ar o texto do blog #AgoraÉQueSãoElas onde uma figurinista acusava o José Mayer de assédio sexual, a internet entrou em combustão espontânea. "Olha lá o jornal golpista abrindo as pernas para a Globo!" Acontece que a Folha, como qualquer veículo sério, não deixa que se façam acusações graves sem ouvir o outro lado. No começo da tarde de sexta, o texto voltou acompanhado por uma entrevista onde o ator, evidentemente, negava tudo. Enquanto isto, as redes sociais se dividiam entre depoimentos de gente defendendo o bom comportamento de Mayer e outros, como Letícia Sabatella, dizendo que ele "não se emenda". Eu fui cobrado por alguns leitores a me posicionar, e a minha resposta é: aguardemos. Não sou entrar em linchamento virtual antes de saber mais. Não preciso nem citar os inúmeros casos de gente que teve a vida e a reputação destroçada online.  Lembram da Escola Base? Histeria não fez bem a ninguém.

sábado, 1 de abril de 2017

TERROR POSEUR


Todo ano, o júri do festival de Cannes parece fazer questão de dar um prêmio importante a algum filme execrado pelo público e pela crítica. Em 2016 esta honraria dúbia coube a "Personal Shopper", que levou a palma de melhor diretor para Olivier Assayas. Trata-se apenas de uma punheta cósmica ao redor de Kristen Stewart, por quem Assayas se fascinou em seu longa anterior, "Acima das Nuvens". Criou então um fiapo de roteiro que não exigisse muito do estilo underacting de sua nova musa. A protagonista da saga "Crepúsculo" faz pouco mais do que carão como uma moça que recebe mensagens em seu celular de alguém que se faz passar por seu irmão gêmeo, morto há pouco. E fica tão apavorada como quando descobre que o modelito que foi buscar em Milão para sua patroa, uma socialite famosa, não é do número dela - ou seja, quase nada. Existe o gênero terror-chic, com produção requintada e figurinos de grife. "Personal Shoppers" bem que gostaria de ser isto, mas não sai da pose.

sexta-feira, 31 de março de 2017

É AUTOGOLPE

A Venezuela não para de nos horrorizar com sua infinita capacidade de fazer as coisas piorarem, sem jamais atingir o ponto de ruptura. O que falta para eclodir a guerra civil? Depois do golpe que Nicolás Maduro deu ontem em seu próprio regime, o país jogou o "proto" pras cucuias e já pode ser chamado de ditadura sem nenhum paliativo. Só que agora já faltam itens básicos até para a classe alta (a que ainda não fugiu para Miami). O chavismo finalmente se despe de seu último véu democrático, provando que só respeita o resultado das eleições que ganha. E agora, quem vai ter a coragem de defendê-lo?

quinta-feira, 30 de março de 2017

CUNHENADO

Agora pode ficar interessante. A condenação de Eduardo Cunha periga fazê-lo perder de vez as estribeiras, pois é remota a chance de algum recurso libertá-lo. Daqui a alguns dias também deve ser julgada sua mulher; sem mais nada a perder, o ex-poderoso chefão talvez não queira mais nada - só vingança, vingança, vingança aos santos clamar. Também fica mais difícil para os petistas acusarem Sergio Moro de só perseguir Lula, e até de fazerem bullying virtual em quem for fotografado jantando com o juiz. Mas voltemos a Cunha: ele dificilmente ficará na cadeia os quinze anos a que ficou condenando, mas há outros inquéritos em curso. Sinto que já podemos considerá-lo fora do baralho, e para todo o sempre. Resta saber se sua punição servirá para dissuadir seus muitos seguidores.

ATOR AOS PEDAÇOS


Em quase dez anos de blog, nunca fiz um único post sobre M. Night Shyamalan. O motivo é simples: desde 2006, quando ele lançou o horrendo "A Dama na Água", eu simplesmente parei de ver os filmes desse diretor. E olha que eu adorei "O Sexto Sentido" - aliás, como quase toda a humanidade. Mas os trabalhos seguintes de Night (como ele é chamado no meio artístico) foram ficando cada vez mais bobos e previsíveis, apesar dos supostos finais-surpresa. Este ano ele voltou a liderar bilheterias com "Fragmentado" e, como dessa vez as críticas são boas, fiquei curioso para ver. Não me arrependi, mas tampouco gostei. O roteiro tem boas sacadas, embora ainda pareça ter sido escrito por um adolescente. O melhor mesmo é a interpretação de James McAvoy, que consegue transformar as múltiplas personalidades de seu personagem (são 23, mas nem todas aparecem) em pessoas completamente diferentes, sem a ajuda de perucas ou maquiagem. Ele seria indicado ao Oscar se "Fragmentado" fosse um filme sério. Não é: é só mais uma tolice, com um pé nas histórias em quadrinhos. Ah, e o final-surpresa? Só quem for muito fã e tiver na cabeça os antigos trabalhos de Shyamalan é que vai curtir. Eu não sou.

quarta-feira, 29 de março de 2017

ENTÃO DEITA E ACEITA EU

Quando o Silva surgiu, uns quatro anos atrás, ele não tinha uma persona obviamente gay, tipo Liniker ou Jaloo. Mas, aos poucos, foi se soltando e dando umas indiretas. Num clipe do ano passado, ele já aparecia beijando uma moça e um rapaz. Hoje lançou esse vídeo que é uma beijação da porra. Pena que Silva não apareça com seu próprio namorado, o que já causou celeuma na internet.

(Só depois de postar o clipe é quem soube que o cara que o Silva beija no final é o Arto Lindsay, um importante músico americano que há décadas frequenta a MPB. E esqueci de dizer que a dica do vídeo me foi passada pelo Alan Zanluchi)

Ó QUERIDA JOSÉPHINE

Quem foi a primeira grande diva negra? Não, tolinho, que mané Diana Ross. Foi Joséphine Baker, uma americana que conquistou primeiro Paris e depois o mundo inteiro. E isto em 1926, quando o rádio engatinhava. Joséphine não era exatamente cantora, apesar de ter deixado vários discos. Sua fama devia-se a seu jeito furioso de dançar, algo que as plateias europeias jamais tinham visto, combinado com irresistíveis charme e bom humor. Hoje em dia ela seria acusada de ridicularizar e hipersexualizar as mulheres negras: apresentava-se praticamente pelada, usando apenas com um colar e um saiote de cacho de banana, e era muito careteira (confira o vídeo abaixo). Mas foi uma desbravadora em sua época, muito mais racista do que a nossa. Mais tarde La Baker revelou-se uma grande humanista, ao adotar uma dezena de crianças das mais variadas raças. Eu já conhecia sua trajetória por alto, mas agora estou mergulhando nos detalhes com a graphic novel francesa que leva seu nome: um calhamaço com mais de 500 páginas. Beyoncé talvez nem saiba, mas é descendente direta dessa vedete espalhafatosa que acabou se tornando um dos maiores ícones do showbiz de todos os tempos.

terça-feira, 28 de março de 2017

CHECK-IN. RELAX. TAKE A SHOWER.

O título deste post era o slogan do "Psicose" de Gus Van Sant, que recriava quase que frame a frame o original de Hitchcock. Naquele remake de 1997, o papel de Marion Crane coube a Anne Heche, que havia acabado de revelar ao mundo seu namoro com Ellen DeGeneres. A famosa cena do chuveiro ganhou um indisfarçável sabor de "toma, sapatona!". Ontem foi exibido nos EUA o episódio de "Bates Motel" com a mesma sequência, dessa vez estrelada por Rihanna. Só que... Pare de ler por aqui se você não quiser spoilers. Ou clique logo no vídeo acima e participe da enquete: Ri-Ri merecia morrer por causa de "Anti"?

GRAÇAS ATEUS


Acho que eu realmente não prestava atenção ao noticiário nos anos 1990, porque nunca tinha ouvido falar de Madalyn Murray O'Hair. Talvez porque o sequestro dessa militante ateísta, junto com o filho e a neta, não tenha sido investigado pela polícia de imediato; talvez porque só descobriram o que de fato aconteceu com os três muitos tempo depois. Esse caso chocante acaba de ganhar um filme disponível na Netflix, "A Mulher Mais Odiada dos Estados Unidos", que é mais instrutivo do que divertido. Madalyn se revoltou contra o fato das escolas públicas americanas obrigarem todos os alunos a rezar antes das aulas, não importava a religião deles. Abriu um processo que foi parar na Suprema Corte que, em 1963, decidiu pelo óbvio: a constituição garante a plena liberdade religiosa, inclusive o direito de não ter religião. Claro que isto rendeu a ela milhões de inimigos, e também milhões de dólares vindos de doadores. Dona de um temperamento explosivo (ela rasgava bíblias na TV, não exatamente uma estratégia inteligente), Madalyn também era uma aproveitadora: abriu uma conta secreta na Nova Zelândia para desviar uma graninha para si mesma, um autentico caixa dois. Melissa Leo está fenomenal no papel principal, mas o filme alterna tanto entre o horror e a ironia que fica difícil o espectador se envolver mais. Fica, no entanto, a lição: neste exato momento, os evangélicos estão realizando cultos em espaços públicos por todo Brasil, e precisamos de gente como Madalyn Murray O'Hair para barrar a teocracia.

segunda-feira, 27 de março de 2017

A GAIOLA DESCONECTADA

A lei garante que mães de crianças com menos de 12 anos cumpram prisão domiciliar. Mas o que mais revolta no caso de Adriana Ancelmo é que milhares de outras mães continuam presas, tendo cometido crimes muito menos graves que ela e seu marido gângster. Também causam espanto as condições impostas pela Justiça: o apartamento da família Cabral não pode ter telefone fixo nem internet. Mas pode ter celular? E se o celular for um smartphone? E se alguém passar mal? O socorro tem que ser pedido aos gritos? O que me consola é que o filho mais novo de Adriana já tem 10 anos. Em 2019, ela volta para a cadeia.

O PATO VAZIO

Dessa vez nem fui espiar. Apesar de morar a uma quadra da Paulista, neste domingo não tive sequer a curiosidade de conferir a manifestação. Isto não quer dizer que eu seja contra a Lava-Jato ou a favor do voto em lista, é claro. Mas a pauta difusa - que protestava até contra o Estatuto do Desarmamento, um descalabro absoluto - fez com que muita gente não arredasse o pé de casa. Acho que estamos nos dando conta de que o apelo de movimentos como o MBL é bem menor do que parecia ser no ano passado. Também vivemos uma certa ressaca de passeatas: a fúria de 2013, que juntou tantas demandas diferentes, passa longe do momento presente, que no entanto é bem mais grave que o de então. O perigo é essa apatia se prolongar até as eleições do ano que vem e reelegermos mais dos mesmos. Aliás, como fizemos em 2014.

domingo, 26 de março de 2017

DRIVE BOY DOG BOY


Fui rever "Trainspotting" para me preparar para a continuação. Tenho o DVD há anos, mas só tinha visto quando passou no cinema, em 1996. E tive uma grata surpresa: o filme não envelheceu um segundo, continua vibrante e vital. É mais engraçado do que eu lembrava, com tiradas de humor negro e escatológico, mas também super trágico (claro que do bebê eu me lembrava bem). Já "T2 Trainspotting" é bom, mas podia ser mais curto e mais coeso. Nenhum dos dois longas tem exatamente uma história: são quase que coleções de esquetes sobre uma turma de amigos mucho locos. Nesta segunda parte, um deles - o violentíssimo Franco, feito pelo ótimo Robert Carlyle - agora trocou de lado, exercendo com garbo o papel de vilão. Os outros continuam mais ou menos como eram, apesar da heroína não ter mais o protagonismo na vida deles que tinha antes (mas ela ainda está lá - ô se tá). Há muitos momentos engraçados, mas paira uma melancolia no ar. Porque "T2" não deixa de ser um tratado sobre a passagem do tempo e o fim da juventude. A vida passou rápido para os drogadictos de Edinburgh: oportunidades se perderam, sonhos desmoronaram, looks se foram. Mas continua o desejo pela vida e a paixão pela música. Quando entra uma nova versão de "Born Slippy", então, tive que me conter para não sair gritando mega mega white thing lager lager lager.

sábado, 25 de março de 2017

DISCRETOS TÊM QUE SER OS BURROS

Não vou mais entrar em treta com estranhos no Facebook. Não vou mais entrar em treta com estranhos no Facebook. Não vou mais entrar em tr... epa, alá um estranho falando merda! E assim entrei numa treta logo cedo neste sábado, ainda antes do café da manhã. Minha querida Mariliz Pereira Jorge linkou sua coluna de hoje na Folha, criticando as declarações homofóbicas de Eurico Miranda. O presidente do Vasco defecou que "não tenho nada contra homossexual, mas contra veado", "Sou contra o gay espalhafatoso. Todos têm direito de ter a sua opção. Só não pode agredir o outro" e "O cara espalhafatoso me agride". Coitadinho, não é mesmo? Uma bicha louca deve doer tanto nele quanto uma lampadada na cabeça. Bom, o texto da Mariliz é sobre a quase nenhuma reação que essas barbaridades tiveram, sinal de que muita gente pensa como Eurico. E não é que veio uma fulana dizer que "meio que concorda" com esse troglodita? Para quê, não é mesmo? O sangue me ferveu e eu me meti na discussão, ainda que com mais comedimento do que nos  velhos tempos. A tal da mulher ainda tentou se safar com a clássica "é minha opinião, nem todos são obrigados a gostar de jiló", como se hortaliças e gente que apanha por ser o que é  fossem a mesma coisa. Pois eu não gosto de burros e preconceituosos: eles me agridem, e acho que não deviam deixar sua ignorância transparecer.

sexta-feira, 24 de março de 2017

DESÉSPERO

Em outras eras, eu estaria descascando o Ronaldo Ésper num post bem malcriado. Mas o tempo nos traz, se não sabedoria, pelo menos compaixão. O estilista não só se converteu à Igreja Universal do Reino de Deus como declarou que não é mais homossexual, "por minha força de vontade". Na mesma entrevista, Ésper também disse que "ninguém se cura disso", dando a entender que o desejo ainda está lá: ele só não está praticando. E acrescentou que não só já tentou o suicídio, mas que hoje é "um homem solitário, e mais nada". Morri de peninha... Ele e Clodovil vêm de uma geração em que era quase impensável dois homens viverem juntos e, até onde eu sei, nenhum dos dois jamais viveu um casamento. Clodovil morreu só e amargurado; se Ronaldo Ésper encontra algum conforto entre os gananciosos bispos da IURD, então good for him. Pelo menos ele já avisou que seus trejeitos não têm jeito.

CRENTE QUE EU ESTOU FERVENDO

Tenho recebido uma enxurrada de solicitações de amizade no Facebook, muito mais do que de costume. Ainda não sei a que se deve isto, mas não é porque eu virei famosinho de uma hora para a outra. A imensa maioria não faz a puta ideia de quem eu seja e muitos só querem ficar enchendo o saco no Messenger: "de onde vc tc? Gosta de tc?" Não, odeio tc e odeio quem não tem mais o que fazer além de novos amigos. Sempre foi minha política aceitar todo mundo, mas de uns tempos para cá comecei a recusar e até a bloquear os mais inconvenientes. Como a pobre velhinha gaúcha que encheu minha caixa postal de madrugada (ping! ping! ping!) com pérolas do humor neopentecostal, como essa aí acima. Vou para o inferno?

quinta-feira, 23 de março de 2017

PARA QUE TÁ FEIO

Não é de hoje que Gilmar Mendes envergonha a si mesmo. O processo que ele move contra Monica Iozzi, que retuitou um meme que o criticava por ter libertado Roger Abdelmassih, já é um vexame indigno de um ministro do STF. Mas sua recente declaração de que o vazamento de alguns nomes da  delação da Odebrecht pode melar a investigação deixa claríssimo de que lado ele está. Some-se a isto os jantarzinhos com Temer, o Velho, e vemos um juiz empenhado em "estancar a sangria" dentro do próprio Supremo. E ele não está sozinho: além da ajuda eventual de Toffoli e Lewandwski, Gilmar agora pode contar com Alexandre de Moraes, que está chegando cheio de amor pra dar.

quarta-feira, 22 de março de 2017

BOLICHE HUMANO

Por mais câmeras e detectores que se instalem, por mais soldados que se ponham na rua, é praticamente impossível impedir um ataque como o que aconteceu hoje em Londres. Foi pelo menos o terceiro motorista que saiu atropelando pedestres (o primeiro episódio do gênero foi em Nice, no 14 de julho do ano passado; o segundo, em Berlim, no Natal). Mesmo que se isolem áreas sensíveis como o entorno do Parlamento britânico, não dá para proteger uma cidade inteira desses malucos que jogam boliche com seres humanos. A única solução é mais inteligência - ou, em português castiço, mais espionagem. Por isto, não fico nem um pouco melindrado em saber que os EUA (e todos as grandes potências, não tenha dúvida) agora podem xeretar o interior das casas através de smart TVs. Prefiro que me vejam pelado do que morrer num atentado.

O PAPELÃO DA PF

A Polícia Federal tem que calibrar melhor a maneira como divulga suas atividades e evitar ataques de estrelismo. As frequentes pisadas no tomate abrem um flanco extremamente vulnerável e podem fazer ruir todo o esforço gasto na Lava-Jato. O escândalo da carne adulterada é um exemplo: cada vez mais especialistas estão esclarecendo que não, não se mistura papelão no produto. O que houve foi um telefonema grampeado mal-entendido pelos policiais, e que só serviu  para espalhar pânico e desinformação. Mas, como diz a professora Simone G. de Lima num textão no Facebook que está viralizando, essa mancada não pode ser o pretexto para melar a operação Carne Fraca. Tem mesmo muita maracutaia no setor, que deve ser investigada e punida. Mas para isso a PF precisa tomar tento.

terça-feira, 21 de março de 2017

HERMANOS E RIVAIS


Os argentinos torraram o nosso saco na Copa de 2014 cantando "Decíme Qué Se Siente". O lado bom é que essa musiquinha inspirou o filme "La Vingança", uma rara co-produção entre Brasil e Argentina, e que foi exibida por lá com o título que tanto nos espezinhou. Trata-se de uma comédia romântica concebida por homens, para homens (mas as mulheres também vão se divertir). Porque aqui o objetivo não é reconquistar o amor perdido, mas sim lavar a honra e pegar geral. Um cara é corneado pela namorada com um chef de cozinha portenho; seu melhor amigo (Daniel Furlan, de fazer xixi na calça de tão engraçado) o convence a ir até Buenos Aires num carro velho e se "vingar" comendo o maior número possível de argentinas. Claro que dá tudo errado, mas também dá certo. Nossa rivalidade histórica com os vizinhos do sul é bem explorada, mas não a ponto de virar a piada única dos comerciais de cerveja. Também fica clara a admiração que sentimos mutuamente - afinal, costumamos ser os primeiros destinos internacionais uns dos outros. "La Vingança" é um road movie irreverente, bem distante das comédias bobas que vão bem nas bilheterias brasileiras. Um filme tão bom que até parece... argentino.

FAXINA ÉTNICA


Muita gente acha que "Moonlight" só levou o Oscar porque o protagonista é pobre, negro e gay. Não vou negar as qualidades do filme, mas o momento político - ressaca do #OscarSoWhite + governo Trump - obviamente ajudou. Mais intrigante para mim é a vitória de "Fatima" no César do ano passado. Talvez porque não houvesse um favorito, e premiar a história da faxineira argelina que mal fala francês serviu para aliviar a culpa coletiva. Mas "história" é bondade minha: acontece muita pouca coisa ao longo de enxutos 80 minutos, e o final abrupto me deu a sensação de ter visto uma obra inacabada. Não recomendo.

segunda-feira, 20 de março de 2017

O GRITO DA MODA


Richard Spencer, um conhecido neonazista americano, disse que o Depeche Mode era "a banda oficial da alt-right". É verdade que os veteranos do pop eletrônico já usaram imagens que remetem ao fascismo em alguns momentos da carreira, mas isto não quer dizer que eles apoiem o ideário da extrema-direita. O novo disco, aliás, deixa isso claríssimo: "Spirit" é o trabalho mais explicitamente político do DM em seus mais de 30 anos de carreira. O single "Where's the Revolution" é o primeiro hino da era da pós-verdade, e muitas outras faixas lamentam o retrocesso pelo que o mundo passa hoje. Musicalmente, Dave Gahan e sua turma não estão muito diferentes: talvez mais melódicos que nos discos recentes, mas sem maiores novidades. Não sou fanático pelo Depeche Mode como o Daniel Cassús, mas acho que me animo a vê-los de novo (acabam de anunciar que voltarão ao Brasil este ano). Eu estava lá, no único show que os caras fizeram em SP, em 1994.

(O Estadão fez um infográfico incrível  com toda a história e as influências do DM)

A BELA E A BICHA


O tal do "momento exclusivamente gay" de LeFou na nova versão de "A Bela e a Fera" na verdade são dois: tem um no meio do filme e outro no finalzinho, tão rápidos que você perde se piscar. Nem era o caso para boicote, que, de qualquer forma, já fracassou. Recordes de bilheteria estão sendo quebrados no mundo inteiro. Muito mais ostensivo é o clima bicha-velha que impregna todo o longa. Tem coisa mais gay do que objets d'art que cantam e dançam em números inspirados nos musicais de Busby Berkeley? A direção de arte é deslumbrante, e os efeitos especiais só pecam na caracterização da própria fera. Emma Watson - que recusou "La La Land" para viver Belle - canta bem e manda bem, mas continua sendo uma garota (enquanto que sua xará Emma Stone, só dois anos mais velha, já é uma mulher). No elenco de apoio, Emma Thompson chega a soar como Julie Andrews na canção-título. Mas, fora a viadagem desenfreada, não há muito a acrescentar ao desenho animado de 1991. Só o fato de que as crianças que o viram na época agora são adultos, dispostos a gastar uma graninha para revisitar suas infâncias.