sexta-feira, 17 de novembro de 2017

TÁ BOA, VAN SANT?

O diretor americano Gus Van Sant é o principal convidado internacional do 25o. Festival Mix Brasil, que está rolando em São Paulo até o dia 26. Além de uma retrospectiva de seus filmes, o evento também promoveu um encontro do cineasta com uma plateia formada principalmente por gente que estuda e/ou trabalha com cinema. Van Sant é muito simpático, mas não é exatamente um poço de carisma. Falava sempre no mesmo tom, com a maior calma do mundo, e algumas de suas respostas levaram vááários minutos. Alguns  espectadores também não ajudaram, fazendo perguntas em várias partes e sobre temas muito amplos, do tipo "como você encara a mise-en-scene de seus filmes? e o roteiro? e o catering?". Só eu fui curto e grosso, perguntando se ele sabia que o dublador habitual de Sean Penn no Brasil, que é evangélico, havia se recusado a dublar o ator em "Milk". Nesta única vez, Van Sant foi lacônico: "não, não sabia". E aí eu retruquei, "so now you know". Fim.

AGORA AGORA AGORA


Achei que "No Intenso Agora" ficou aquém do que prometia. O novo documentário de João Moreira Salles tem uma premissa ambiciosa: a influência dos acontecimentos históricos na vida privada e vice-versa. E o recorte no tempo foca na segunda metade dos anos 60, um período cheio de convulsões pelo planeta afora. A China era tragada pela Revolução Cultural, os tanques soviéticos acabavam com a Primavera de Praga, os estudantes faziam barricadas em Paris e a ditadura militar se consolidava no Brasil. O diretor mistura arquivos jornalísticos e filmes caseiros, principalmente os Super-8 que sua mãe rodou durante uma viagem à China. E mostra como tanta indignação e tanta utopia reverteram em poucas mudanças no cotidiano imediato das pessoas. Também fala muito em suicídio e em jovens que morreram cedo, além de ressaltar a felicidade aparente da mãe, Elisinha, nas imagens mais antigas. Mas acaba sonegando ao espectador um dado importante: o suicídio de Elisinha, em 1988. É mais do que compreensível que ele relute em tocar em um assunto tão delicado. Só que essa relutância deixou "No Intenso Agora" com o pé quebrado, sem uma conclusão clara. Tanto que, ao se aproximar do final, o filme começa a andar em círculos, reprisando os mesmos frames do périplo chinês e desviando para a poesia de Mao Tsé-Tung. Com uma meia hora a menos e um foco mais ajustado, "No Intenso Agora" seria muito mais intenso.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

COMO MULHER FALA

E como fala bem. Sei que uns 90% do meu leitorado são homens gays, e foi-se o tempo em que os gays eram fascinados por mulheres. Mas aqueles que ainda não tiverem horreur das rachas vão se divertir com o podcast "Grampos Vazados", cujo primeiro episódio foi ao ar esta semana. O programa é comandado por três humoristas cariocas - Luciana Fregolente, Liza Yabrudi e Martha Mendonça (esta última, do "Zorra" e do "Sensacionalista"), e está hospedado no site do Hysteria, o "departamento" feminino da produtora Conspiração. Preste atenção, logo no início, nos relatos sobre relacionamentos abertos. Eu ri tanto que até pedi permissão para roubar para o roteiro de um filme.

FERVENDO O CALDEIRÃO

E lá vem pedrada, porque eu vou declarar neste post que não tenho, a priori, nada contra uma eventual candidatura de Luciano Huck ao Planalto. Claro que ele está longe de ser o postulante dos meus sonhos. Mas juro que eu prefiro o dono do "Caldeirão" a muitos nomes que já estão por aí, como Lula, Alckmin, Bolsonazi e talvez até ao Ciro Gomes. "Ãin, mas ele não é preparado" - como se o Lula fosse, antes de se eleger em 2002. "Ãin, mas ele vai ser teleguiado pela Globo" - pois saiba que muita gente na emissora não vê essa empreitada com bons olhos. Huck e Angélica, aliás, arriscam muito se abandonarem seus programas de TV: não há garantia de volta, e uma derrota nas urnas pode reverberar nos contratos de publicidade que fazem a fortuna do casal. Por isto, ainda acho improvável que ele saia mesmo candidato. Mas é o tal negócio: analistas políticos já avisaram que, cada vez mais, nomes do showbiz se lançarão na política. Isto também vai acontecer no Brasil, agora ou daqui a pouco.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

G'DAY, MATE

Depois de uma árdua campanha de três meses, durante a qual os reaças tentaram de tudo para dividir o país, a Austrália disse "sim". O casamento igualitário teve uma vitória acachapante na pesquisa feito pelo correio: quase 62% dos votos, contra 38% para o "não". Sim, era apenas uma pesquisa, não um plebiscito formal, sem nenhuma consequência legal automática. Mas agora o Parlamento de lá vai ser obrigado a aprovar uma lei regulamentando o casamento entre pessoas do mesmo sexo - além do mai,s porque mais de 80% dos eleitores participaram da pesquisa, um índice impressionante para um país onde o voto não é obrigatório. A Austrália, tão moderna e civilizada, estava muito para trás no assunto: até nesta grande taba tupinambá em que vivemos os gays já podem se casar no civil. Comenta-se que os parlamentares conservadores ainda vão tentar enfiar jabutis na nova lei, garantindo o "direito" ao preconceito e à ignorância, mas faz parte do jogo. E por falar em jogo, a seleção australiana bateu Honduras - um paiseco que proíbe todas as formas de aborto - e garantiu sua vaga na Copa, no mesmo dia em que foi anunciada a vitória do "sim". Coincidência? Acho que não.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

LOS JUEGOS DEL HAMBRE


Tem gente comparando "Deserto", o filme escolhido pelo México para disputar o último Oscar, com o clássico "Encurralado" de Steven Spielberg. Afinal, aqui também se trata de uma perseguição implacável com uma paisagem árida ao fundo. Mas o longa de estreia de Jonás Cuarón - filho do premiado Alfonso Cuarón - me lembrou também uma versão tex-mex dos "Jogos Vorazes", aquela trilogia futurista sobre uma espécie de Olimpíada onde os jovens se caçam uns aos outros, até sobrar só um. "Deserto" tem um único caçador: um gringo tão alucinado que parece uma caricatura do eleitor de Donald Trump. O sujeito curte patrulhar a fronteira dos EUA com o México e, quando cruza com um bando de imigrantes ilegais, atira para matar. Esse fiapo de roteiro é conduzido com segurança pelo jovem Cuarón, que escalou o mais conhecido dos atores de sue país - Gael García Bernal - para o protagonista. Mas o filme revela um lado tão negro do sonho americano que até os republicanos devem ter se incomodado. Talvez por isto a Academia tenha ignorado solenemente este thriller realista.

RODA MOINHO, RODA PIÃO

Foi o meu segundo "Roda Viva". O primeiro foi gravado no final de setembro, mas ainda não foi ao ar: o convidado era o Hélio de la Peña, e acho que estão esperando o livro dele ser lançado para exibir o programa. Mas o de ontem foi ao vivo. Confesso que eu me surpreendi com a Maitê Proença. Sabia que ela é inteligente e articulada, mas sua coragem de enfrentar perguntas difíceis é admirável. O Bruno Meier, da "Veja", tocou no assunto mais delicado de todos - o assassinato da mãe dela pelo próprio pai - e, por um momento, achei que a conversa iria acabar por ali mesmo. Mas, qual: Maitê encarou de frente, e se expôs ainda mais quando eu lembrei que, em "Gabriela", ela interpretou uma mulher que era morta pelo marido. Foi intenso: confira acima, na altura do -30.

Participar do "Roda Viva" é um rush de adrenalina, é claro. Nas duas vezes em que fui lá, fiquei preocupado não só em falar alguma coisa, qualquer coisa!, como também em não falar em cima dos outros. O Augusto Nunes ajuda bastante, fazendo sinais discretos indicando quem deve ser o próximo a fazer uma pergunta. No final, todos ainda ganham a caricatura que o Paulo Caruso, generoso, fez de cada um (já tenho duas, vou mandar enquadrar). OK, não fiquei muito parecido nesta última. Mas o tempo rodou num instante nas voltas do meu coração.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

PÁSSAROS FELIZES


Consegui. Finalmente gostei de um filme do diretor finlandês Aki Kaurismäki, queridinho do circuito de festivais há quase duas décadas, mas que nunca havia me seduzido. "O Outro Lado da Esperança" é uma comédia dramática sobre um refugiado sírio que busca asilo na Finlândia: não exatamente a situação mais hilária do mundo, mas uma ou outra cena até que rende uma risada. Desconfio que o país retratado na tela pouco tenha a ver com o real, Ouvi dizer que a Finlândia ainda é muito provinciana, mas a de Kaurismäki tem um clima kitsch dos anos 50 que não é crível para um lugar que inventou os Angry Birds. Não é nenhuma obra-prima, mas é um filme interessante.  E qualquer coisa que venha da Escandinávia já me serve de refúgio contra essa gaiola infeliz que virou o Brasil.

18 A 1

Ando tão enojado do cenário político brasileiro que venho deixando passar em branco aqui no blog os descalabros mais recentes. Não emiti um pio sobre a acintosa troca de comando da Polícia Federal, onde assumiu um apaniguado de Sarney com o indisfarçável propósito de estancar a sangria da Lava-Jato. Nada falei sobre a destituição de Tasso Jereissati da presidência do PSDB pelo "walking dead" Aécio Neves, inclusive porque, para mim, o partido já está morto e enterrado: só voto em tucano no segundo turno se o oponente for Lula ou Bolsonazi. Mas os 18 a 1 que uma comissão especial da Câmara marcou ao aprovar a tramitação de um PL que proíbe o aborto no Brasil em qualquer caso me arrepiou os pelinhos do braço. Os 18 votos a favor vieram todos de deputados homens, a maioria da bancada da Bíblia; a única voz dissonante também foi a da única mulher presente, Erika Kokay do PT do DF. Rodrigo "Bolinha" Maia já avisou que este retrocesso não será aprovado em plenário, além do mais porque o resultado seria uma hecatombe - vai morrer MUITO mais mulher do que já morre em aborto clandestino. Obrigar alguém a levar a termo a gestação do fruto de um estupro ou de um feto anencéfalo, que não conseguirá sobreviver fora do ventre, é de uma violência absurda aos meus olhos. Mas é o tal negócio: quase todos que votaram eram homens, e  todo mundo sabe que, se os homens engravidasse o aborto seria um sacramento. E assim caminha o Brasil, nas mãos de gente que quer manter seus privilégios e o resto do país nas trevas.

domingo, 12 de novembro de 2017

APOLO E DIONÍSIO JOGANDO TÊNIS


A única partida de tênis profissional que eu vi na vida foi um jogo-exibição entre Björn Borg e Vitas Geuralitis, no Ginásio de Ibirapuera, em 1980. Achei um saco, óbvio, mas pelo menos tenho Borg no meu currículo. O cara ainda é uma lenda em sua Suécia natal: tanto que a produção local sobre sua rivalidade com o americano John McEnroe chama-se apenas "Borg" nos países escandinavos. É verdade que "Borg vs McEnroe", como o filme foi rebatizado no Brasil, pende mesmo para o viking das quadras. Sua família e seu entorno ganham mais destaque do que os do adversário, assim como o desfecho. Até aí, tudo bem. O que foi mais difícil de engolir foi a ênfase no esporte, um assunto que não está na minha lista dos 100 mais. Eu me diverti à pampa em longas como "Rush" (sobre o duelo entre Nikki Lauda e  James Hunt na Fórmula 1) ou o recentíssimo "Batalha dos Sexos", porque as abordagens eram mais amplas do que a mera disputa. Aqui ficou faltando, talvez, uma análise mais profunda desses dois jogadores tão diferentes. O gélido sueco (apelidado de "Iceborg" pela imprensa) era a encarnação do apolíneo: focado, esguio, controlado, estóico. Já o "bad boy" era dionisíaco em estado puro: bagunçado, impertinente, autoindulgente, hedonista. Talvez o roteiro devesse ter sido escrito por alguém que não manjasse de tênis?

JE NE VEUX PAS TRAVAILLER


O refrão de "Synpathique", o único hit do grupo americano Pink Martini, me caiu feito uma luva depois da audição de "Je Dis Oui": não quero mais saber de trabalhar, só de continuar escutando essa pequena obra-prima. Como todos os trabalhos deles, este aqui mistura standards conhecidos e pérolas obscuras em inúmeras línguas. Dessa vez, tem até "Solidão", nada menos que a épica "Canção do Mar" imortalizada por Dulce Pontes mas com uma letra completamente diferente (algo que de vez em quando acontece na mundo do fado - esta versão, inclusive, foi gravada por Amália Rodrigues). O álbum inclui Rufus Wainwright cantando "Blue Moon" e faixas em turco, árabe, persa e armênio. A única bola fora é um cover de "Pata Pata", com que Miriam Makeba sacudiu o planeta nos anos 60: a vocalista China Forbes alterou a tônica do refrão, que ficou paumolente. Mas o destaque mesmo vai para as canções compostas para o filme "Souvenir", estrelado por Isabelle Huppert, onde ela faz uma ex-cantora que concorreu no Eurovision. Era preciso algo bobinho e pegajoso para a trilha, e o resultado é a estupefaciente "Joli Garçon", que parece ter sido escrita por uma menina de 11 anos mas gruda no ouvido para sempre. Divertido, sofisticado e cosmopolita, o Pink Martini deveria ser promovido a banda oficial da globalização. Com eles não tem esse papo de fronteira. 

sábado, 11 de novembro de 2017

OS CORAÇÕES PROIBIDOS

Revi em DVD um dos meus filmes favoritos de todos os tempos: o francês "Os Corações Loucos", com Gérard Depardieu e Isabelle Huppert ainda cheirando a leite. O título original, "Les Valseuses", era uma antiga gíria para as bolas do saco. E faz jus ao roteiro: Depardieu e Patrick Dewaere (que estourou os miolos com um tiro de fuzil alguns anos depois) fazem dois rufiões que flanam pelo norte da França cometendo pequenos furtos, roubando carros só para passear e tratando as mulheres na porrada. Foi aí que a coisa pegou: eu lembrava bem do longa, mas mesmo assim fiquei chocado. Em dado momento, os pilantras encurralam uma mãe que amamenta um bebê num vagão de trem, sem nenhum outro passageiro por perto. Eles simplesmente a obrigam a dar de mamar para um deles - e ela, a princípio forçada, quase goza. Imagina o forrobodó que uma sequência como esta provocaria hoje. E não é a única: a personagem de Miou-Miou, uma "shampooineuse" (quem lava cabelo no salão de beleza) meio puta, é praticamente um objeto que passa de mão em mão, até que o primeiro orgasmo finalmente a transforma numa pessoa. O fato é que "Les Valseuses" transpira machismo (afinal, foi rodado em 1973), mas de maneira crítica, e todo mundo é complexo. Principalmente as mulheres, que  manifestam desejo mesmo quando recatadas - talvez dando munição a quem reclama de que os estupradores alegam que "no fundo elas gostam", talvez reconhecendo que mulher sente tanto tesão quanto o homem. Terminei com a sensação de que um filme assim talvez não fosse mais feito. Mas que bom que já foi: é uma obra-prima do pós-nouvelle vague, libertina e libertária, e ainda necessária. Tente ver, tem no YouTube.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A BENÇÃO, MADRINHA

Baixei o novo álbum da Preta Gil, "Todas as Cores", e não achei nenhuma maravilha. Mas música não é propriamente o forte da moça: é o humor, a presença, a atitude. E vem dela esse clipe-manifesto, postado ontem no YouTube, tirado do ar provavelmente por causa de alguma denúncia mas já devolvido onde lhe é de direito. Preta chamou sua madrinha Gal Costa para dividir com ela os vocais - um ato de supremo desprendimento, convenhamos - e o resultado é uma das primeiras reações à onda de boçalidade que se espalha da internet para a vida real. Os asnos vivem na ilusão de que são maioria: mesmo se fossem, não podem sair por aí jogando pedra em quem gostariam de calar. Que se benzam.

SAI POR CIMA

Em 2013, eu participei da sala de roteiristas da série "Meu Amigo Encosto", criada pelo Thiago Luciano. Durante os brainstorms, bolamos uma personagem que não estava na sinopse original: a presidente da União dos Encostos, uma mulher madura, sensual e manipuladora, que a Helena Perim batizou de Yolanda. Eu tive o privilégio de escrever os diálogos ferinos dessa megera. Um ano depois, a série finalmente foi gravada, e o papel coube à Márcia Cabrita. No único dia em que eu visitei o set, ela não estava: perdi, assim, a chance de conhecê-la em pessoa (mas a vi duas vezes em cena, no palco do "Sai de Baixo"). Pelo menos dei a sorte de ter uma atriz como ela dizendo o meu texto. É impressionante como Márcia era querida - minha timeline está coalhada de homenagens. Aqui vai a minha, com um beijo de gratidão a essa artista que se foi no auge de seus talentos. E força para todos.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

TODA A VERGONHA DO MUNDO

Já não estou mais defendendo o Kevin Spacey a qualquer custo, mas também acho que as represálias a ele estão indo um pouco longe demais. Preste atenção no trailer de "Todo o Dinheiro do Mundo": deve ser a última chance de ver o ator encarnando o bilionário J. Paul Getty, um personagem pelo qual ele já estava até sendo cotado para o Oscar.  O diretor Ridley Scott está refilmando quase todas as cenas de Spacey com Christopher Plummer - a quem, aliás, preferia para o papel. Spacey foi imposto pela Sony, que agora está pressionando Scott para re-finalizar até o filme antes da estreia nos EUA, que continua marcada para o dia 22 de dezembro. É uma medida drástica, que lembra a prática da URSS de apagar das fotos os líderes políticos caídos em desgraça. E abre um precedente perigoso: nesta era digital, a simples presença no mundo corre o risco de ser borrada.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

FIZEMOS A ÚLTIMA VIAGEM


"Gabriel e a Montanha" é uma beleza de filme. Mesmo sabendo que ele ganhou prêmios em Cannes, mesmo tendo lido críticas positivas, eu não esperava gostar tanto. Porque eu já sabia o final da história, que é real: em 2009, no fim de uma viagem de quase um ano que o levou para a Ásia e a África, o carioca Gabriel Buchmann se perdeu ao descer sozinho uma montanha no Malawi e acabou morrendo de frio (era julho, inverno tanto lá como cá). Cadê o arco dramático? Cadê a "mensagem"? Pois o longa de Fellipe Barbosa - que era amigo do verdadeiro Gabriel - tem tudo isso. Também tem paisagens belíssimas que servem quase como um documentário: o monte Kilimanjaro, a ilha de Zanzibar, as cataratas de Victoria. Acho que se trata do único filme brasileiro sem um único frame rodado no Brasil. João Pedro Zappa está incrível no papel-título, apesar de aparentar menos que os 28 anos que de fato tem (a mesma idade de seu personagem). Com humor e desenvoltura, ele cria um sujeito de uma simpatia irresistível, mas também cheio de teimosia e pretensão. Gabriel se recusava a fazer qualquer coisa que cheire a turista: preferia dormir na casa dos guias que contrata nas ruas, comer a comida deles e se sentir o mais local possível - o que não ia ser nunca, é claro. Essa cabeça dura acabou lhe custando a vida, ao enfrentar uma escalada árdua sem os equipamentos ou o tempo necessários. Sua jornada, que poderia ser uma viagem iniciática, teve um final abrupto. Mas rendeu um filme.

CHUPA, TRUMP

Ontem, como costuma ser toda primeira terça-feira do mês de novembro, foi dia de eleição nos Estados Unidos. Como estamos em ano ímpar, ela se restringiu a poucos lugares - o calendário eleitoral de lá não é certinho como o nosso, em que todo mundo escolhe governador ao mesmo tempo, por exemplo. Neste 7/11 só dois estados estavam em jogo, e os democratas levaram ambos: Virgínia e Nova Jersey. Também mantiveram a prefeitura de Nova York, elegeram a primeira prefeita lésbica de Seattle e - talvez a vitória mais emblemática de todas - conseguiram que uma ativista trans, Danica Roem, derrotasse ninguém menos que Ron Marshall, um deputado estadual da Virgínia que propôs uma famigerada lei que obrigava pessoas transexuais a frequentar os banheiros públicos de seu sexo biológico. Além dessas, muitas outras conquistas democratas por todo o país mostram que a maioria dos eleitores está de saco cheio não só de Donald Trump, mas também das políticas do partido Republicano. Ano que vem tem eleições para deputado federal e senador: se perder o controle do Congresso, Trump estará liquidado.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

TALENTOSO, PERO DESCONHECIDO

Este aí ao lado talvez seja o melhor anúncio de revista brasileiro de todos os tempos. Foi veiculado no começo dos anos 80, para um produto que ainda não estava em voga naqueles tempos pré-AIDS: as camisinhas Jontex. Quebrou um tabu ao falar em doença venérea, tanto que a Igreja Católica pediu que fosse proibido. É uma pena que as imagens que eu encontrei na internet não permitam ler o texto, que é um primor (pois é: houve um tempo em que propaganda tinha textão, e as pessoas liam). O autor desta obra-prima morreu hoje, aos 75 anos de idade: Neil Ferreira, cuja fama nunca ultrapassou os limites do mundo publicitário. Neil nunca quiser ser um popstar ou um megaempresário, como alguns de seus colegas de geração. Só queria escrever, e como escrevia bem. Também criou campanhas históricas, como o leão do Imposto de Renda, o baixinho da cerveja Kaiser ou o comercial da Telesp em que "morria" um orelhão. Neil, a quem eu não tive a sorte de conhecer pessoalmente, largou o métier há 15 anos e desde então só assinava crônicas. Com ele se vai um tempo em que a publicidade era mais livre e divertida do que hoje, e - ouso dizer - mais pertinente.

MBS VEM AÍ

Ou melhor, já veio. Mohammad bin Salman al-Saud, o novo herdeiro do trono da Arábia Saudita, já está botando para quebrar. Algumas medidas tomadas pelo jovem príncipe (apenas 32 anos) estão sendo vistas como uma tentativa de trazer o reino medieval para, pelo menos, o século 19 - como a permissão para as mulheres dirigirem carros. Outras estão mais para "Game of Thrones", como disse o "New York Times": MBS, como o moço é conhecido, expurgou dezenas de primos seus dos cargos que ocupavam no governo, concentrando quase todo o poder nas mãos de seu ramo da família real. O sistema político da Arábia é pra lá de complicado: são literalmente centenas de príncipes, descendentes das dezenas de esposas de Ibn al-Saud, o fundador da dinastia. MBS só virou o próximo na linha de sucessão no começo deste ano, e pode se tornar rei a qualquer momento. Seu pai Salman, o atual monarca, está com 81 anos e anda mal de saúde. O pimpolho já estaria mandando de fato, e preparando o país para o futuro próximo em que o petróleo deve se esgotar. Mas há algo mais importante em curso: o possível esvaziamento do clero wahabbi, a seita muçulmana fundamentalista que inspirou nada menos que a al-Qaeda e o Estado Islâmico. O mundo vai ficar bem outro sem esses caras (se) detonando.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

DÊ BEM

As campanhas de fim de ano da Starbucks costumam ser atacadas pela direita por não serem "natalinas" o suficiente. Elas fariam parte da "guerra ao Natal" que só existe na cabecinha de alguns conservadores americanos. O comercial deste ano não vai acalmar os ânimos. Apesar da marca explicar didaticamente que o período de festas significa coisas diferentes para pessoas diferentes, é claro que os reaças vão cair matando - ainda mais porque um casal de mulheres aparece rapidamente trocando olhares. Dá para ouvir daqui a quantidade de garotas héteros que está mudando de orientação sexual só por causa deste filminho, que fica ainda melhor quando o slogan "Give Good" é traduzido para o português.

SEM GRACE


Vi o trailer de "Alias Grace" e fiquei todo assanhadinho para assistir à série. Não só parece uma variante do século 19 da futurista "The Handmaid's Tale" como é baseada num livro da mesma autora, a canadense Margaret Atwood. Sem coisa melhor para fazer neste fim de semana, mergulhei nos seis episódios... e me decepcionei. Achei a protagonista confusa, a trama repleta de reviravoltas desnecessárias e a Anna Paquin mais feia que de costume. Claro que a mensagem feminista do programa é mais atual do que nunca, mas a porrada dramática que eu estava esperando não veio. Agora temo que aconteça o mesmo quando eu finalmente vir "O Conto da Aia".

domingo, 5 de novembro de 2017

CATE-ORZE BLANCHETT


O que é arte? O que é política? Quem é a maior atriz do mundo? Para as duas primeiras perguntas, "Manifesto" oferece múltiplas respostas. Para a terceira, uma só: Cate Blanchett. O filme surgiu como uma instalação em museus, composta por doze vídeos onde Cate proclama os fundamentos de movimentos artísticos como o surrealismo, o situacionismo, o futurismo, o dada e até mesmo o Dogma 95. Em cada um deles, ela aparece como um personagem diferente: uma âncora de telejornal, uma mãe de família conservadora, uma professora do primário, um morador de rua, uma coreógrafa com sotaque eslavo e por aí vai. O trabalho de visagismo é impressionante, mas quem faz acreditar que estamos vendo treze pessoas distintas é Cate Blanchett, num tour de force tão arrasador que quase ofusca o que está sendo dito. Juntem-se essas figuras à própria atriz e teremos um poliedro com catorze faces, praticamente um movimento artístico independente: o blanchettismo. "Manifesto" é um longa experimental, sem arco dramático e toda a chance de afugentar o espectador comum. Mas é justamente ele quem deveria assistir, para ter um contato mínimo com diferentes conceitos de arte antes de sair falando merda e querendo fechar exposições que ele nem viu.

sábado, 4 de novembro de 2017

O PROTO-ASSEDIADOR

Justo na semana em que explodem acusações de assédio sexual mundo afora, está em cartaz em SP a ópera de Mozart sobre o santo padroeiro dos assediadores: "Don Giovanni", também conhecido como Don Juan. O personagem é fictício, mas tem replicantes na vida real: o próprio Giácomo Casanova estava presente na estreia, como lembra Mario Sergio Conti na Folha de hoje. A montagem do Theatro São Pedro não chega a ser suntuosa, mas é cheia de boas soluções. O elenco brasileiro está excepcional, e claro que vou destacar a luz do Caetano Vilela, senão ele não me convida nunca mais para nada. A última récita é amanhã: corre, que os preços são acessíveis.

KEVIN IN SPACE

Kevin Spacey foi pro espaço. Como já se temia, não demoraram a surgir dezenas de outras acusações de assédio e comportamento inadequado. Assim fica mesmo difícil defender o sujeito: as histórias são muitas, e já entrou até polícia na jogada. De qualquer forma, me impressiona a velocidade com que a carreira dele virou pó. Foi saído de "House of Cards"; o filme "Gore" foi cancelado; seu agente e seu assessor de imprensa o dispensaram; a Holanda retirou o convite para um evento. Não estou dizendo que Spacey seja inocente, mas o tribunal da internet não só chegou a um veredito como já está executando a pena. É um sinal dos tempos, para o bem e para o mal.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

VAMOS GODARD OUTRA VEZ


Vi bem poucos filmes de Godard, o que não impediu de eu me divertir à pampa com "O Formidável". O novo filme de Michel Hazanavicius (que ganhou um Oscar por "O Artista") não é uma biografia abrangente do diretor mais icônico da Nouvelle Vague, pois cobre um único momento de sua vida: a relação com a atriz Anne Wiazemsky, que durou um par de anos. Jean-Luc Godard já era um nome mais do que consagrado em 1967, e começava a se interessar mais pela revolução do que pelo cinema. Anne, com quem ele rodou "A Chinesa", era 17 anos mais jovem, e se encantou pela genialidade e irreverência do cineasta, mas até certo ponto. O Godard de "O Formidável" é quase uma caricatura: cicioso, impertinente, sempre falando a coisa errada na hora errada, quebrando um par de óculos atrás do outro. Algumas cenas tentam emular seu estilo; outras são explicitamente engraçadas - como aquela em que os dois protagonistas aparecem pelados, na melhor sequência de nu gratuito de todos os tempos. Sim, queridos, Louis Garrel aparece pelado, embora as legendas atrapalhem um pouco. Mas já é motivo para as assanhadas verem um filme sobre um sujeito do qual talvez elas nunca tenham ouvido falar.

LUISFEIA

Será que Luislinda Valois achou que, por ser negra e usar dreadlocks, estava autorizada a dizer que a mísera compensação que recebe como Ministra de Direitos Humanos "se assemelha a trabalho escravo"? Como que uma mulher responsável por uma pasta tão sensível tem a petulância de perguntar como vai comer, como vai beber, como vai calçar, ganhando apenas o teto do funcionalismo público - mais de 33 mil reais por mês? Temer, o Velho, deveria tê-la exonerado na hora. Fim do problema! A pobrezinha teria que sobreviver apenas com sua irrisória aposentadoria de 30 mil reais por mês, algo com que a imensa maioria dos brasileiros sequer consegue sonhar. Luislinda deu um tapa na cara do país, sufocada pela própria ganância. Não se sabe de uma única medida importante que a feiosa tenha tomado enquanto ministra, mas seu lugar na história acaba de ser garantido. Na lata de lixo, é claro.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

DE FOFA NÃO TEM NADA

Eu já tinha lido muitos comentários elogiosos na internet, mas precisei levar uma chamada de um leitor deste blog para criar vergonha na cara e finalmente mergulhar na matéria sobre o "Fofão da Augusta" que o Chico Felitti publicou no BuzzFeed há quase uma semana. Conheço o Chico há quase dois anos. Ele trabalhou na Folha e ainda colabora frequentemente com o jornal. Tem um texto primoroso, e nossos gostos em cinema batem perfeitamente: sempre concordo com as críticas dele. Mas agora estou me roendo de inveja, porque ele assinou simplesmente uma das grandes reportagens do ano. Foi atrás de um figura que todo paulistano conhece - o ex-travesti de bochechas deformadas que distribui folhetos e pede dinheiro nos sinais da região da rua Augusta - e desencavou uma história nada fofa, que envolve esquizofrenia, abandono e miíase (que eu nem sabia o que era, mas agora não sai mais da minha cabeçaaaaa). Coragem, leia o artigo você também. E palmas para o Chico Felitti.

PANDORA MORTA-VIVA


Glenn Close num filme de zumbis! Sim, minha atriz favorita sucumbiu à praga que assola o mundo do entretenimento. Mas não é um filme de zumbi qualquer: "Melanie - A Última Esperança" tem um roteiro original e um final surpreendente, bem distante do que se costuma fazer no gênero. A premissa é interessante: e se alguns mortos-vivos não "morressem"? E se fossem seres humanos plenamente funcionais, com mentes e corpos em perfeito estado e apenas o pequeno detalhe de comerem carne humana? A Melanie do título faz parte de um grupo de garotos desse tipo, que são estudados numa espécie de quartel em um futuro pós-apocalíptico. A menina é inteligente e se afeiçoa à professora, mas não pode sentir certos cheiros para não despertar sua voracidade. Em certo momento, é comparada ao mito grego de Pandora, "a portadora de presentes": aquela que traz todas as desgraças ao mundo, mas também a esperança. O longa não passou pelos cinemas brasileiros, mas já pode ser visto em todas os serviços on-demand. Eu me diverti, apesar de achar que o gênero zumbi já devia estar enterrado. Mas entendi porque ele não morre: é uma metáfora da boçalidade que nos engolfa, como um vírus que se espalha pelo ar.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

PROTESTE JÁ

Ontem fez 500 anos que Martinho Lutero pregou suas famosas 95 teses nas portas da catedral de Wittenberg, o marco zero da Reforma Protestante. Uma das causas de sua revolta era a venda de indulgências pela Igreja Católica: os fiéis compravam um lugarzinho no céu, enquanto o Vaticano enchia as burras do tesouro. Cinco séculos e milhares de novas denominações depois, fico só pensando na reação de Lutero ao ver que os neopentecostais, esses neo-vendilhões do templo com suas toalhinhas milagrosas, ainda têm o desplante de se dizer protestantes.

RAPP DAS ARMAS

A mesma matéria publicada pelo BuzzFeed no domingo com as acusações de Anthony Rapp a Kevin Spacey traz uma foto em que pouca gente reparou no início. É uma cena da peça "Precious Sons", onde Rapp aparece sendo carregado no colo por Ed Harris. Foi com este espetáculo que o então ator-mirim fez sua estreia na Broadway, e era onde estava em cartaz quando foi convidado para a festinha na casa de Spacey, que aparecia em outro teatro na mesma época. O detalhe curioso é que, ao descrever o episódio de assédio, Rapp diz que Spacey o carregou no colo, levou-o para a cama e se deitou sobre ele - EXATAMENTE como o pai de seu personagem em "Precious Son" fazia com o filho. Não estou dizendo que Rapp mentiu, mas não é um pouco de coincidência demais? Pode até ser que Spacey, que deve ter visto a peça, tenha tentado recriar o momento quando se viu a sós com o garoto. Talvez nunca saberemos a verdade. E talvez nem importe: já estão pipocando outros relatos incriminadores sobre o vencedor de dois Oscars, cuja carreira deve ter ido para o vinagre. Arrisco uma hipótese na minha coluna de hoje no F5: famoso por interpretar homens difíceis, com sexualidades torturadas, Kevin Spacey acabou se revelando um deles. Virou personagem de si mesmo.

(Obrigado ao Deco Ribeiro pela dica)

terça-feira, 31 de outubro de 2017

DENTRO E FORA DO IRÃ


O melhor filme iraniano que eu já vi foi produzido na Alemanha. "Teerã Tabu" tem assunto, diretor e atores iranianos, e é falado em farsi - mas, se tivesse sido feito no Irã, todo mundo teria sido enforcado. Desconfio até que é por isto que se trata de uma animação em rotoscopia: os cenários externos foram aplicados na pós-produção, já que seria impossível filmar na frente deles. Porque o longa de Ali Soozandeh revela o lado oculto da sociedade de seu país, onde vicejam as drogas, a putaria e a violência da polícia religiosa. Histórias diferentes se entrelaçam no roteiro: uma prostituta que tenta colocar seu filho surdo na escola, um rapaz que precisa pagar pela reconstituição do hímen de uma moça que ele pegou numa festa, uma mulher que aborta toda vez que engravida do marido. Tudo isto com um visual alucinante e uma trilha eletrônica que lembra o Gotan Project. Eis o poder da diáspora iraniana: já tem tanta gente fora do país que já é o suficiente para fazer um filme sensacional.

Quem ficou por lá também faz bom cinema. Eu me surpreendi com a delicadeza de "Fôlego" (que a Mostra de SP rebatizou erroneamente de "Respiro"), escolhido para representar o Irã no próximo Oscar. É a primeira vez que esta honra cabe a uma diretora, e desconfio que o filme tenha algo de biográfico. Pois fala de uma menina que cresce numa cidade do interior enquanto o pau come na capital - da revolução que depôs o xá em 1979 até o começo da guerra com o Iraque, o que finalmente afeta em cheio a vida de todos. Não há exatamente uma trama, mas as memórias da garota: os amiguinhos, os ciganos, os tabefes que ela leva o tempo todo de todo mundo. Sei que é um clichê maior que o mar Cáspio, mas esses dois filmes tão diferentes entre si ajudam a formar uma imagem mais clara desse lugar complexo que é o Irã. Outro clichê - um tapete persa?

PRECISAMOS FALAR SOBRE KEVIN

Na boa, estou quase com pena do Kevin Spacey. O cara foi acusado de uma hora para a outra de algo de que ele nem se lembra, ocorrido há mais de 30 anos. Achou então que finalmente estava na hora de se assumir gay, depois de ter passado toda a carreira se esquivando do assunto. Soltou uma resposta que só aumentou o problema, e ainda viu sua série "House of Cards" ser cancelada pela Netflix no mesmíssimo dia. Consta que o programa já ia mesmo terminar na sexta temporada, mas os executivos da plataforma fizeram questão de anunciar seu fim o mais rápido possível, já que Spacey se tornou radioativo. Até o filme "Gore", em que ele interpretaria o escritor gay Gore Vidal, corre o risco de ser cancelado. Enquanto isto, na mídia e nas redes sociais americanas, não surgiu uma única voz em sua defesa. Muitos estão hor-ro-ri-za-dos com o fato de um bêbado ter se tornado inconveniente - afinal, onde é que já se viu uma coisa dessas? Mas o que está pegando mesmo é a saída do armário numa hora imprópria Sou da opinião de que Spacey tentou fazer a coisa certa e acabar com a palhaçada que criou para si mesmo. Na verdade, faz algum tempo que as pistas estavam no ar: dos inúmeros personagens homo e bissexuais (como o próprio Frank Underwood) às piadas auto-incriminatórias que ele soltou durante a cerimônia dos últimos prêmios Tony. Só que o ator jamais teve o heroísmo de dizer com todas as letras que prefere os homens, não antes de ser acusado de assédio e pedofilia. Esta hesitação fez com que muitos jornalistas e ativistas simplesmente não tenham mais a menor simpatia pelo seu caso. Eu, como já disse antes, não engrosso o coro. Cada um sabe a hora de se expor, e os únicos que merecem ser arrancados à força do closet são os enrustidos homofóbicos. Mas Spacey foi inábil, tanto ao demorar tanto tempo para admitir algo que todo mundo já sabia, como no timing espetacularmente errado de sua revelação. Pelo menos por enquanto ainda não surgiram outras acusações, o que o diferencia de um predador como Harvey Weisntein (mas nada garante que não surgirão). De qualquer forma, temo por sua carreira: talvez agora Kevin Spacey seja despachado de volta para o teatro, que foi onde começou. Pior para ele, pior para todos nós. Estamos contentes agora?

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

FRIEZA FAMILIAR


Um dos critérios que eu uso para escolher o que vejo na Mostra de SP é se o filme em questão foi o escolhido por seu país para reprentá-lo no próximo Oscar. Nessa toada, assisti a dois longas que vêm de lugares frios na Europa e falam de famílias cuja disfunção afeta até quem não faz parte dela. Um deles é o islandês "A Sombra da Árvore", que sequer usa a beleza natural da ilha - é um drama urbano que parece se passar em qualquer ponto da Escandinávia. O roteiro parte de uma briga de vizinhos (a árvore de um faz sombra na casa do outro) que logo escala para uma guerra total, daquelas em que ninguém tem razão. Os dois lares têm sérios problemas internos, que transbordam para complicar a picuinha. Talvez sejam problemas demais: a trama do filho adúltero poderia ser um pouco reduzida, o que valorizaria ainda mais essa história que parece saída do Antigo Testamento.

Bem mais badalado é "Happy End", o mais recente trabalho de Michael Haneke na França, que no entanto irá concorrer pela Áustria no Oscar. Depois da emoção que foi "Amour", o diretor retoma sua frieza habitual e também alguns temas que sempre lhe foram caros, como a imigração ou a alienação da burguesia. O elenco tem nomes como Isabelle Huppert, Jean-Louis Trintignant e Mathieu Kassovitz, mas o melhor papel coube a Fantine Harduin, que interpreta uma garota problemática. Ela faz parte de uma família rica da região de Calais, cuja empreiteira toca uma obra onde ocorreu um grave acidente; como se não bastasse, ninguém se dá bem com ninguém e alguns até pensam em se matar. Não é um filme divertido (Haneke nunca é), mas também não tem o impacto dos títulos anteriores. Saí com o coração gelado.

PEDRADA NO CASTELO DE CARTAS

Kevin Spacey "assediou" Anthony Rapp? Vamos com calma. A própria vítima conta que seu algoz não ofereceu nada em troca além de uma trepada: não prometeu papel em filme, não ameaçou acabar com sua carreira. Tudo não passou de uma paquera mal-sucedida. OK, Rapp tinha 14 anos na época - mas estava numa festa de adultos em Hollywood. Não estou dizendo que a culpa seja dele, mas dá para suspeitar que o rapaz já não fosse tão ingênuo assim. De qualquer forma, essa denúncia serviu para Spacey finalmente acabar com um dos maiores segredos de polichinelo de todos os tempos, sua própria homossexualidade. O planeta inteiro sabia que o intérprete de Frank Underwood era gay desde que ele foi preso fazendo pegação num parque em Londres em 2004. Kevin Spacey está tentando desviar a atenção de seu "crime"? Talvez, mas e daí? Acho ainda mais feia a atitude de Rapp, ao desencavar uma história com mais de 30 anos que não teve maiores consequências. O fato é que NINGUÉM tem a ficha completamente limpa - nem eu, nem você, nem absolutamente ninguém. Se amanhã ou depois um de nossos muitos podres vier à tona, seremos massacrados sem piedade na internet. Porque, afinal de contas, o resto do mundo é composto apenas por santos impolutos, que jamais cometeram um único deslize nada vida, né não? Gentem! Qualquer reputação é um castelo de cartas, que não resiste à primeira pedra. Mas parece que está todo mundo a fim de atirar. E viva a Santa Inquisição.

domingo, 29 de outubro de 2017

O BRASIL NU

Quando acabou a ditadura militar, houve uma explosão de nudez no Brasil. Não que fôssemos muito vestidos antes: a tanga, o biquíni fio dental e a sunga cavada datam dos anos de chumbo (embora, curiosamente, o topless nunca tenha vingado por aqui). Mas, quando o Sarney assumiu, a mídia se despiu. Começou a aparecer gente pelada em abertura de novela, capas de disco e até em comerciais. Foi nessa época que Xuxa apresentava seu programa infantis vestida de dançarina burlesca, e pouca gente reclamava; Carla Perez descia até a boquinha da garrafa em horário livre, e havia concursos para crianças que a imitavam. Os brasileiros se tornaram o povo mais sem roupa do mundo, mas as mentalidades não acompanharam os corpos. Agora vemos o movimento contrário: qualquer nudez, em qualquer contexto, é vista como erótica e proibida para menores. Amigos meus que fizeram boas faculdades acham que a tal da performance do MAM é equivalente a um show de sexo explícito. Do jeito que a coisa vai, daqui a pouco vão proibir a "Maja Desnuda" do Goya e a Vênus de Milo. Não acredito que esse momento dure muito: afinal, faz calor no país, e a sensualidade venceu todos os embates em que se meteu (hmm) por aqui. Mas também duvido que nos aproximemos dos alemães ou dos escandinavos, que vão com a família inteira a colônias de nudismo e saunas sem que ninguém seja acusado de pedofilia. Apesar de tantas tentativas de cobrir peitos e bundas, o Brasil está mais pelado do que nunca, desfilando a céu aberto todo seu atraso moral. Vista a roupa, meu bem.

sábado, 28 de outubro de 2017

A QUARTA PIRÂMIDE DO EGITO


Mais de 40 anos depois de sua morte, Oum Kalsoum ainda é o maior nome da música árabe de todos os tempos. Mas sua vida talvez não renda um bom filme. A cantora egípcia começou a fazer um enorme sucesso por volta dos 20 anos de idade, e assim continuou pelo próximo meio século, sem grandes dramas. Mesmo assim, ela é o que há de mais interessante em "Procurando por Oum Kulthum" (seu nome não tem uma grafia oficial no Ocidente), em cartaz na Mostra de SP. Trata-se de um filme dentro do filme: uma diretora iraniana vai ao Egito rodar um longa sobre a diva, e seus probleminhas pessoais não têm como competir com a grandiosidade de sua biografada. Com cenários e figurinos fabulosos, "Procurando..." desperta a vontade de saber mais sobre Oum ("mãe") Kalsoum, que tinha uma voz de dar inveja a Maria Callas e foi usada por sucessivos governos como instrumento de união nacional. Batizada de "a quarta pirâmide" (embora existam centenas pelo país), ela está mais para a Esfinge.

ASNOS POR TODOS OS LADOS

Integrantes do minúsculo Partido da Causa Operária tumultuaram a exibição do documentário "O Jardim das Aflições" na UFPE, em Recife. Alguém devia dizer a esses trogloditas que assim só dão cartaz ao Olavo de Carvalho, o assunto do filme, que agora pode posar de perseguido. O mesmo pode ser dito à cambada da direita ignorante que está convocando um protesto contra a presença de Judith Butler no SESC Pompeia, em SP, de 7 a 9 de novembro. A filósofa americana é uma das criadoras da "ideologia de gênero", o atual bicho-papão dos evanjas e afins, mas vem ao Brasil para debater o conflito entre israelenses e palestinos. Os dois extremos querem sufocar a liberdade de expressão, e não dá para apoiar as atitudes de um lado e condenar as do outro. A censura, qualquer censura, prejudica a sociedade como um todo. Mas ainda não atingimos o estágio civilizatório para entender isto.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

ZERO À DIREITA

Minha primeira reação ao saber que a Justiça Federal suspendeu a regra do ENEM que mandava dar zero às redações que manifestassem repúdio aos direitos humanos foi de asco. Afinal, quem deu entrada à ação foi o movimento Escola Sem Partido - não exatamente uma entidade apartidária. Depois pensei melhor e concluí que a prova de redação não é para verificar as posições políticas de seu autor, e sim checar se ele escreve bem. Se tem a capacidade de sustentar um argumento, por mais hediondo que este seja. Aí respirei tranquilo. Depois de ler algumas frases que desclassificaram candidatos em anos recentes, percebi que gente como eles não vai mais levar zero de cara. Mas a nota seguirá baixa...

PUNHO FORTE, ALMA FRACA


Eu nunca tinha ouvido falar no lutador venezuelano Edwin Valero, que venceu por nocaute as 27 lutas profissionais de que participou. O fato de não gostar de boxe ajudou, mas eu devia andar meio desligado em 2010 para não lembrar de seu fim trágico: Valero matou a mulher e se suicidou na prisão. Sua história é contada em "El Inca", em cartaz na Mostra de SP e escolhido pela Venezuela para representá-la no próximo Oscar. Sinto dizer que o filme não está à altura do argumento: é longo demais, com muitas cenas sobrando. Mas o ator Alexander Letterni está convincente no papel principal: além da semelhança física com Valero (que ganhou o apelido de "Inca" por ser parecido com um índio peruano), ele transmite bem a dubiedade do personagem. O cara tinha uma enorme força física, mas era fraco de caráter. Deixou-se contaminar por ciúmes doentios de sua bela esposa, apesar de traí-la, e acabou cortando-lhe a garganta durante uma briga. É impressionante a quantidade de homens que cometem esse tipo de barbaridade, especialmente na América Latina (o Brasil está cheio de casos semelhantes). Diz muito sobre a fragilidade psicológica da nossa cultura machista. Mas "El Inca" não investiga as causas dessa contradição. Fica aquém, assim, do grande filme que poderia ter sido.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

VOODOO LOUNGE

Temer, o Velho, sobreviveu na Câmara a mais uma denúncia, mas talvez não sobreviva ao próprio corpo. Pressionado por todos os lados e confrontado com o papelão que vai deixar para a história, ele dá sinais de fraqueza política e física. Numa semana é o coração, na outra, a uretra. Normal para um homem de 77 anos e mais do que esperado para um larápio que se vê desmascarado. E antes que me acusem de desejar o mal de outrem, deixa eu esclarecer uma coisa: não estou torcendo para que o Temer morra. Só para que ele saia já do governo e pague pelos seus crimes. Se doer um pouquinho, melhor.

UM FILME NÃO-QUADRADO


Achei que o título de "The Square", que levou a Palma de Ouro no último Festival de Cannes, se referia a alguma praça. Na verdade, é o outro sentido da palavra: um quadrado. Ou melhor, uma instalação artística em forma de quadrado que enfeita... uma praça, em frente ao que um dia foi o Palácio Real da Suécia e agora, neste futuro imaginário, é um museu de arte moderna. Parece complicado? Você ainda não viu nada. "The Square" é um filme extremamente sofisticado, com duas tramas centrais que correm em paralelo e afetam o mesmo protagonista, o curador do museu (o belo ator dinamarquês Claes Bang). Em uma delas, o cara cai em um golpe no meio da rua e tem sua carteira e celular surrupiados. Na outra, uma dupla de publicitários inventa um vídeo para promover uma exposição que viraliza pelas razões erradas. No meio disso tudo, atores anglófonos como Elisabeth Moss (de "Mad Men"), Dominic West (de "The Affair") e uma performance em um jantar de gala de arrepiar os cabelos. Muitas cenas são apenas anedotas, sem consequência na pouca história que há. Mas todas contribuem para fazer de "The Square" uma sátira corrosiva, que resvala em vários temas contemporâneos: a desigualdade social, a falta de solidariedade, a vaidade intelectual e o significado da arte. Este filme moderno não se parece com nada e é absolutmente não-quadrado. O que não significa que seja redondo.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

LEÕEZINHOS

Gosto muito de lhes ver, Madonna e Caetano, finalmente se conhecendo em pessoa. E justamente na semana em que o Brasil dá mais passos para trás, com deputados do ES aprovando a lei que proíbe nudez em exposições (inclusive nas telas!) e Alexandre Frota dizendo que o juiz que derrubou seu processo contra Eleonora Menicucci "votou com a bunda" - ele sabe que isto reduz suas chances na próxima instância, mas pode garantir sua eleição para deputado no ano que vem. No meio de tanta treva, meu coração tão só desentristece com a luz desses dois leoninos, fundamentais para a formação do meu gosto. Os haters podem pular este post: desta vez não vou aceitar seus comentários, porque hoje eu acordei com preguiça de treta. Só quero os filhotes de leão, raios da manhã.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

VIDAS NEGRAS IMPORTAM


No meio de tanta mostra e festival, um baita filme está passando meio despercebido nos nossos cinemas. Trata-se de "Detroit em Rebelião", mais uma obra-prima de Kathryn Bigelow - que ganhou um Oscar com "Guerra ao Terror" e esmerilhou com "A Hora Mais Escura". Bigelow é uma rara diretora mulher que não aborda temas supostamente "femininos" em seu trabalho. "Detroit" tem tanta tensão e violência que poderia ser assinado por Martin Scorsese. O roteiro recria, com alguma liberdade dramática, os acontecimentos que se seguiram a uma revolta de negros depois que a polícia invadiu uma boate de soul music, em 1967. Alguns manifestantes e transeuntes buscaram refúgio num hotel. E não é que um deles teve a brilhante ideia de disparar uma pistola de festim contra os policiais estacionados perto do local? Abrem-se as portas do inferno, com cenas daquelas da gente tapar com a mão o rosto (mas não os olhos). "Detroit em Rebelião" chegou a ser considerado um dos favoritos ao próximo Oscar pelos sites especializados, mas sua cotação vem caindo: o filme foi considerado "divisivo" pela América de Trump. Na verdade é um petardo que precisa ser visto, além de uma aula de cinema.

STUPID IS EASY

Para além da polêmica toda provocada pela campanha "Black is Beautiful" do papel higiênico Personal Vip Black - que eu concordo ser mesmo um desrespeito à história do movimento negro - tem outra coisa que me incomoda demais nesses anúncios. É a cara de primeira ideia. "Black is Beautiful" é a primeiríssima coisa que vem à cabeça de qualquer publicitário que receba um briefing para bolar um slogan para um produto preto que se pretende elegante. Claro que, em última instância, a culpa é do cliente, pois é ele quem aprova e paga a conta. Mas o pessoal da agência tinha que ter barrado essa chamada ainda nas internas, de tão óbvia que ela é. Fora que, mais uma vez, ninguém se deu ao trabalho de checar o impacto que este título provocaria nesses tempos sensíveis em que vivemos. A publicidade não pode viver na bolha que ela mesma cria para seus produtos, onde tudo é belo e limpo e bom; tem que cair na real, e ter a inteligência de antecipar a reação do consumidor. A Neogama e a Santher não fizeram nada disso, e ainda veicularam uma peça pra lá de preguiçosa. Que vai entrar pelas vias erradas nos, aham, anais da propaganda.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

GAME, SET, MATCH


Antes de mais nada, vou esclarecer uma coisa: o filme americano "Battle of the Sexes" deveria ter tido seu título traduzido ao pé da letra no Brasil, e não alterado para "Guerra dos Sexos" - que, como todo mundo sabe, é o nome de uma novela de Sílvio de Abreu que já teve duas versões. Por isto, aqui no blog vou usar mesmo "Batalha dos Sexos", que inclusive foi o nome que a mídia americana deu ao jogo de tênis entre Billie Jean King e Bobby Riggs, em 1973. Ela tinha 29 anos naquela época e estava no auge do vigor físico; ele, 55, e seus dias de glória já haviam passado. Mesmo assim, Riggs achou que o quarto de século de diferença entre ambos não pesaria na quadra. A partida ocupa apenas o final do longa: antes vem toda a contextualização do período, em que as feministas ainda tinham a fama de queimar sutiãs e seus detratores eram chamados de "porcos chauvinistas". Emma Stone está sutil como King, que então se descobria homossexual. Já Steve Carrell não economiza caretas, e só não pode ser acusado de overacting porque o verdadeiro Bobby Riggs era ainda mais canastrão. Cheio de calças boca-de-sino e gente que fuma em quartos de hotel, "Batalha dos Sexos" se passa há mais de 40 anos, mas chega em boa hora. Igualdade, respeito e autoaceitação são temas mais necessários do que nunca, e ficam mais palatáveis vestidos de comédia ligeira.

SANTINHA DO PAU CHEIO


A cantora e compositora Annie Clark nem precisava ter adotado o nome artístico de St. Vincent para se destacar. Seu trabalho, que já faturou um Grammy na categoria alternativa, chega ao ápice em seu quarto álbum, o recém-lançado "Masseduction". São treze canções difíceis de classificar, mas irresistíveis de ouvir. As letras inteligentes são um bálsamo para esses tempos difíceis; a capa (zoófila?) é digna de ser exposta na mostra Queermuseu. Pau neles, moça.

domingo, 22 de outubro de 2017

OLIVEIRA PRETE PARA PRESIDENTE


Imagine uma mistura ideal de FHC e Lula. Um presidente brasileiro respeitado e temido por seus pares, e apontado como um dos cinco homens mais influentes do mundo. Preocupado em acabar com a desigualdade e em liderar a América Latina. Como se não bastasse, o cara ainda fala um espanhol perfeito. Sim, ele existe, mas só no filme argentino "A Cordilheira", em exibição na Mostra de SP. O fictício Oliveira Prete (interpretado por Leonardo Franco) é o peso-pesado de uma reunião de cúpula realizada no Valle Nevado, no Chile. Mas o protagonista do longa é o presidente da Argentina - Ricardo Darín, lógico. Um "homem do povo" (assim dizia sua campanha) eleito sem muita aptidão para o cargo, mais preocupado com a filha problemática do que em fortalecer a matriz energética da região. "A Cordilheira" tampouco se decide: não sabe se é um trhiller político ou um drama familiar, e não satisfaz nenhum dos dois gêneros. Quando uma de suas vertentes parece que está engrenando, o diretor Santiago Mitre muda para a outra, desperdiçando o interesse do espectador. E pensar que ele teve quase todas as condições para realizar um filmaço: uma boa ideia original, uma locação fabulosa, um elenco cheio de nomes internacionais. Faltou roteiro. E sobrou, no final, um candidato perfeito para disputar o Planalto em 2018. Só que não.

ONDE QUERES FAMÍLIA, SOU MALUCO

Caetano Veloso e Paula Lavigne se conheceram em 1982. Ele tinha 40 anos; ela, apenas 13. Transaram, namoraram, casaram-se quatro anos depois. Tiveram dois filhos, se separaram, voltaram. É puxado chamar de "pedofilia" uma relação que já dura mais de três décadas. Além do mais, quando ela perdeu a virgindade para ele - como admitiu na já célebre entrevista que deu à revista "Playboy" em 1998 - o Código Penal não dizia que era crime manter relações sexuais com menores de 13 anos. A discussão era caso a caso, a cargo do juiz e com base no comportamento do/da menor. Se fosse a juízo naquela época, Caetano seria absolvido: Paula vem de uma família de intelectuais, e seus pais sabiam o tempo todo do namoro da filha com um homem mais velho. A mudança na lei só aconteceu em 2009, então é incabível condenar retroativamente o músico. O juiz que irá julgar o processo que o casal agora move contra o MBL e Alexandre Frota deve levar tudo isso em conta. Talvez seja esta a única maneira de lidar com quem incentiva o ódio online: pedindo indenizações na Justiça. O MBL descobriu uma maneira rápida de inflamar seu público, enquanto ignora gostosamente as suspeitas de corrupção que assolam o governo Temer. São hipócritas no sentido clássico do termo. Mas, para além disso, cabe uma questão: por que os artistas brasileiros viraram alvo dos trollers? Só o apoio que muitos deles deram ao PT não explica (e Caetano, por exemplo, jamais se declarou petista). Suspeito que exista uma inveja primal do sucesso e da fama de que eles desfrutam, inflamada pelas acusações de desvio de dinheiro público através das leis de incentivo à cultura. Essa turba não sabe como essas leis funcionam, nem que o próprio Danilo Gentili se valeu dos mecanismos da Lei do Audiovisual (que implica em renúncia fiscal, ou seja, dinheiro público) para produzir seu filme. Acima de tudo isto, paira a ameaça da volta da censura e da instalação de uma ditadura cultural, que cale os dissidentes em nome de uma maioria ignorante. Foi mais ou menos assim como aconteceu na Rússia.

sábado, 21 de outubro de 2017

TRISTESSE


Ontem foi meu aniversário. Como já fiz em outros anos, me dei a tarde livre e fui me enfurnar na Mostra de Cinema de SP. Queria muito ver "Félicité", o primeiro filme indicado pelo Senegal ao Oscar (apesar da ação se passar na República Democrática do Congo). Aproveitei para pegar o longa que passava imediatamente antes, o argentino "El Pampero". Apesar de não durar nem 1h20 e ter uma premissa interessante - mulher em fuga se esconde no barco de um homem amargurado - o filme é chato e melancólico. O que poderia ser uma boa trama policial vira uma meditação sobre a morte e a solidão, não exatamente do que eu estava a fim no dia de meus anos.
Pior ainda foi o meu aguardado "Félicité", uma das coisas mais maçantes que vi na vida. De novo, a premissa prometia: cantora da noite de Kinshasa precisa arranjar dinheiro para a operação do filho que sofre um acidente de moto. As críticas eram ótimas, e o filme ganhou o Urso de Prata (o equivalente ao segundo lugar no Festival de Berlim). Mas é uma tristeza só: miséria, desespero, sujeira, dívidas atrasadas, pernas amputadas. A protagonista, a despeito do nome feliz, quase não sorri. E da metade para o fim o troço vira uma obra de vanguarda, com cenas escuríssimas que não levam a lugar nenhum e zero de carga dramática. Ano que vem vou ao circo, ou quem sabe a um show sertanejo. Aniversário é pra gente se divertir.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

LEE LEE SANTOS


Rita Lee construiu toda sua carreira como a embaixadora do rock no Brasil, mas no fundo ela nunca me enganou. E nem ao Lulu Santos, que se propôs a dar tratamento pop a alguns dos grandes sucessos da mulher que mais vendeu disco em toda a nossa história. O tributo "Baby Baby!" não traz grandes surpresas: o repertório é meio óbvio, e nenhum dos arranjos se afasta radicalmente das versões originais. Mas é gostoso feito um pudim com uma calda diferente.

O MAIOR CARTAZ


Vão chover indicações ao Oscar sobre "Três Anúncios para um Crime", que está passando na Mostra de SP mas só estreia em janeiro no Brasil. A mais óbvia é para Frances McDormand, que encontrou nesta mistura de filme policial com comédia negra um papel sob medida para seus traços duros (ela está cada vez mais parecida com William Dafoe) e seu estilo ácido de atuação. E a maior barbada é para o roteiro original do também diretor Martin McDonagh: ele solta um monte de pistas falsas, desafia os clichês e faz o espectador não desgrudar os olhos da tela. A premissa sugere um drama pesadão: sete meses depois do brutal assassinato da filha adolescente, uma mãe inconformada com a lerdeza da polícia cobra resultados em três outdoors à beira de uma estrada em sua cidadezinha no interior dos EUA. Mas o que se segue, bem ao estilo dos irmãos Coen, é um estudo sarcástico das complexas relações entre os habitantes do lugar. Ninguém é santo ou vilão. Todos os personagens são humanos, e a violência explode entre eles muitas vezes em chave cômica. "Três Anúncios..." venceu o último Festival de Toronto, que só tem voto popular, e vai se tornar um fenômeno do boca-a-boca. Que puta filme.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

SOMOS O QUE SOMOS


Quase tudo o que eu falei da entrega do Prêmio Bibi Ferreira no ano passado vale para este ano. O show é tão bem elaborado, bem escrito e bem interpretado que deveria passar na TV aberta. É umas duzentas vezes melhor que a porcaria que fizeram para o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. Alessandra Maestrini, eterna mestre de cerimônias, teve este ano o apoio de Miguel Falabella e outros nomes do teatro musical - a cena em que os dois aparecem com os trajes invertidos destruiu de vez o pouco que restava da família brasileira, já abalada com as aulas de ideologia de gênero que Pablo Vittar vai dar em Ponta Grossa. E os números dos espetáculos indicados mostraram que não falta qualidade nem quantidade aos nossos talentos. Meu único senão é o fato dos dois grandes premiados da noite terem sido as remontagens de "Les Misérables" e "My Fair Lady". Além do fato de serem peças gringas e já antigas, são o déjà-vu do déjà-vu. A primeira é uma franquia internacional, que pouco acrescenta à primeira encenação brasileira de 17 anos atrás. A segunda é quase um repeteco da montagem que Jorge Takla fez há uns cinco anos, embora com outro elenco. Assim, parece que se confirma a tendência do Bibi Ferreira premiar sempre as produções mais luxuosas da temporada. Mas o mais importante da noite foram mesmo os muitos protestos contra a censura, vindos de todos os premiados e apresentadores, e o número final, em que Falabella começou a cantar "I Am What I Am", da "Gaiola das Loucas", e depois passou a bola para algumas das drags mais famosas de São Paulo. Somos o que somos, e ninguém mais vai nos calar.